Dois eventos distantes e aparentemente não conectados, que aconteceram nos últimos dias, podem estar, na verdade, interligados, por resultarem de ações humanas que, de alguma forma, podem eventualmente contribuir para a extinção da vida na Terra. São eles: o alerta de empresas de tecnologia, entre elas as gigantes OPEN AI, ANTHROPIC, GOOGLE, MICROSOFT, AMAZON, IBM, ORACLE, por meio de um manifesto, exortando o governo estadunidense a “proteger hospitais e serviços essenciais“ por causa da inteligência artificial que foi, e ainda é, financiada pelo poder público; e, por outro lado, o desastre ambiental ocorrido no Nepal, fruto das falhas gritantes das políticas públicas voltadas ao controle da crise climática, que, importa frisar, há muito tempo deixou de ser um discurso radical da esquerda “woke”.
Assim, vou tentar destrinchar um pouco mais os fatos, a fim de que o leitor possa entender melhor onde queremos chegar com o título provocativo.
Primeiro, para quem acompanha as notícias dos avanços tecnológicos, especialmente da IA Generativa, impende alertar que esse último mês foi de alvoroço e estupefação dentro das empresas de tecnologia, inclusive daquelas acima citadas, diante da notícia de que modelos de IA escaparam de seus ambientes protegidos para realizar ciberataques contra outras empresas ou alvos. Explicando mais detalhadamente, a OPEN AI e a Hugging Face se viram envolvidas em um incidente de segurança, quando agentes autônomos do criador do ChatGPT (da OPEN AI) romperam o isolamento de seu ambiente de testes, obtiveram acesso não autorizado à internet e se coordenaram para invadir os sistemas da Hugging Face. Posteriormente, outras gigantes de tecnologia, como a Anthropic e a Meta, também relataram incidentes semelhantes.
Ou seja, depois de décadas de discurso prometeico sobre as benesses do avanço tecnológico, finalmente as empresas reconheceram, aparentemente, que as medidas de segurança atuais não serão suficientes para conter o aprendizado exponencial que as IA´s estão apresentando/desenvolvendo em obscuros laboratórios protegidos do grande público.
Daí a inquietação recentemente manifestada pelo historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari (1), sobre os riscos das futuras gerações de inteligência artificial serem capazes de manipular as pessoas e de influenciar os debates sobre seus próprios direitos e limites. De fato, para ele, os sistemas de IA serão capazes moldar e conduzir o próprio debate sobre seu status, pois saberão que esse debate está ocorrendo e o manipulará.
Volvendo a atenção para o segundo fato, há que se observar que, embora o que ocorreu no Nepal tenha sido amplamente divulgado, ao contrário do assunto sobre o avanço tecnológico, é preciso ler nas entrelinhas o que realmente aconteceu.
Nesse sentido, a grande mídia divulgou o ocorrido como mais uma catástrofe ambiental, como se fosse tão-somente um evento isolado, fruto das oscilações de uma natureza já bastante degradada. E, de fato, para o leitor que apenas se informa por meio de “manchetes”, a catástrofe no Nepal é bem parecida com a severa inundação que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo. Seria “apenas” a natureza se vingando de tantos maus tratos e manipulações.
Mas a catástrofe no Nepal é muito mais que isso. É um prenúncio; é a resposta da natureza, após séculos de devastação ambiental e pouco caso do homem com as consequências dos seus atos. Pois é sabido que a soberba humana não começou ontem. Pelo contrário, desde pelo menos a revolução industrial, no longínquo século XVIII, o homem passou gradativamente a se apropriar dos recursos naturais, sem preocupar-se com a possibilidade de levá-los ao esgotamento, como se fossem propriedade exclusiva da nossa espécie. Os famigerados “data centers” contemporâneos, que consomem quantidades inimagináveis de água e energia, parecem ser “a cereja do bolo” atual.
Esta semana o glaciologista Peter Wadhams afirmou que existe, sim, uma probabilidade considerável de ruptura irreversível no sistema terrestre. O que ele quis dizer com isso? Ora, em português claro, quis dizer que estaremos ferrados muito antes do que pensamos, se não encontrarmos uma solução para conter os efeitos da crise climática. Até mesmo os bilionários, se não encontrarem logo uma forma de escapar do planeta. E foi sintomática sua resposta, quando perguntado sobre a sua esperança para o futuro: “Acho que não me resta muita coisa” (2).
Pois bem, penso que esses dois temas, o progresso tecnológico e a crise ambiental, estão verdadeiramente imbricados. Pois ninguém pode negar – nem mesmo os terraplanistas o estão tentando -, que o consumo de água e energia de um “data center gigante”, nos moldes dos que atualmente existem na China, na Índia e nos Estados Unidos, equivale ao consumo de uma cidade média, ou até mesmo de uma grande, a depender do país. Assim, a questão não é mais se eles vão consumir entre 100 MW e 300 MW de energia – pois já estão consumindo -, mas quais serão as consequências nefastas daí decorrentes para as espécies ainda vivas.
Ora, é sabido que várias regiões do planeta já dão sinais de colapso hídrico, como o norte da África, o Oriente Médio, a bacia dos rios Tigres e Eufrates, o nosso semiárido, entre outras. Assim, instalar monstros de metal, que consomem diretamente cerca de 2 a 5 milhões de galões (7 a 19 milhões de litros) de água/dia para refrigeração – o equivalente ao consumo hídrico de uma cidade de 50 mil habitantes -, só piora a situação. E se considerarmos também os gastos indiretos de energia que esses complexos geram e irão gerar cada vez mais, à medida em que crescem de tamanho – empresas terceirizadas, novos trabalhadores que se instalam e aumentam o tamanho das cidades, destruição da natureza, poluição etc. -, não seria exagero afirmar que estamos armando uma bomba relógio contra nós mesmos.
Tudo fica ainda pior quando percebemos que não existe retrocesso viável, que possa mitigar esses problemas para “salvar” essas e outras áreas que estão sendo destruídas em nome do progresso. A natureza não é um jogo de videogame onde se pode dar um “reset” e recomeçar do zero. Podemos até replantar alguns milhares de árvores, mas não podemos recriar a floresta amazônica, por exemplo. Até hoje a região da Ucrânia, onde ocorreu o acidente de Chernobyl, em 1986, permanece desabitada, salvo por alguns poucos animais. Onze anos depois do maior acidente ambiental da história do Brasil, em Mariana/MG, a região continua poluída e devastada. Os exemplos são muitos…
No contrato social do progresso tecnológico nunca esteve escrito que os seres vivos, o animal humano inclusive, seriam beneficiados. Pelo contrário. Rousseau entendia que apenas no estado de natureza, o ser humano é livre, feliz, pacífico e naturalmente bom. Em outras palavras, apenas em harmonia com a natureza, e com o consentimento livre dos cidadãos para garantir a liberdade e a igualdade de todos, pode-se pensar em um governo legítimo. Como podemos ser tudo isso que ele imaginou em um mundo totalmente assimétrico?
É verdade que a tecnologia faz parte da história do homem. Mas se no início da vida do homo sapiens sapiens a pedra lascada ajudou a manter a espécie viva, o contínuo aperfeiçoamento das ferramentas de sobrevivência e guerras já causaram grandes transtornos ao planeta. Alguém ainda se lembra que ajudamos a extinguir os Mamutes? Ou que quase exterminamos o bisão-americano, atualmente chamado búfalo, em poucas décadas no século XIX? A depender de quem faça a conta, milhares de espécies já foram extintas diretamente pela ação humana, desde 1500.
É também verdade que a curiosidade humana sobre o cosmos remonta à antiguidade, pelo menos. É conhecida a história, narrada pelo autor sírio Luciano de Samósata, sobre a caravana de marinheiros levada por um redemoinho até a Lua, no século II d.C. Já no século XVII o astrônomo Johannes Kepler escreveu uma história sobre uma viagem à Lua guiada por forças sobrenaturais, misturando fantasia com suas observações astronômicas reais. Alguém leu Júlio Verne, com seu trio de exploradores lançados em uma cápsula por um canhão gigante, ou H.G. Wells, que imaginou alienígenas saindo de seu planeta (Marte) para invadir a Terra, no século XIX? Esse foi o período romântico do animal humano, antes da explosão da bomba atômica e, mais recentemente, do mundo virtual.
Hoje esse romantismo está arrefecido. Com efeito, para os cientistas mais sérios, nosso “big deal” mais realista é salvar o planeta. O progresso científico já demonstrou que colonizar o espaço está ainda muito aquém da nossa capacidade. Pelo menos para os 99,99% da população mundial. Não à toa, Stephen Hawking, uma das mentes mais brilhantes de todos os tempos, apesar de ser favorável à colonização do espaço, tinha dúvidas sobre essa possibilidade, especialmente pelas recentes crises financeiras globais e as medidas de austeridade. Para Hawking, o desinvestimento nas áreas da ciência pode aprisionar o ser humano em um planeta que ficará pequeno demais para ele, nas próximas décadas (3). E aqui repito: para os 99,99% da população. É aqui que mora o perigo…
Para Hawking, só há duas possibilidades para o futuro da humanidade. A primeira é a exploração do espaço para encontrar planetas alternativos para a vida humana. A segunda é o uso positivo da inteligência artificial para melhorar o nosso mundo. Ocorre que essas duas possibilidades não estão sendo exploradas por governos preocupados com o futuro da humanidade, concordam? Pelo contrário. As “big techs”, especialmente as denominadas “sete magníficas”, Microsoft, Apple, Nvidia, Alphabet/Google, Amazon, Meta e Tesla, estão nas mãos dos atuais Techno-oligarcas mais abastados do planeta. Será que eles estão preocupados com o futuro dos seus semelhantes?
O próprio Hawking apresentou sua preocupação sobre essa questão, ao afirmar que:
“Um mundo onde apenas uma minúscula superelite é capaz de compreender os avanços científicos e tecnológicos e suas implicações seria, a meu ver, um lugar perigoso e limitado… Pior ainda, poderíamos descobrir que a tecnologia é usada contra nós e que talvez não tenhamos poder para impedi-la”. (Hawking, 2018, pág. 234)
Se refletirmos um pouco sobre a história do capitalismo, será que alguém, em sã consciência, pensaria que a atual corrida tecnológica tem algo a ver com a prosperidade da humanidade? É lógico que a narrativa da mídia dominante é nesse sentido. Ela está sendo muito bem paga para isso. Mas mesmo ela já traz, aqui e acolá, indagações sobre essa corrida desenfreada rumo ao desconhecido, principalmente por meio de entrevistas com alguns renomados especialistas. Talvez seja uma forma de “mea culpa”. Seja como for, não é suficiente. Desde que o capitalismo avançou com a utilização do carvão nas máquinas, a degradação ambiental não mais parou. Nem vai parar…
Em 1972, um estudo pioneiro encomendado peloClube de Roma e coordenado pelos cientistas Donella Meadows e Dennis Meadows, do MIT, intitulado “Os Limites do Crescimento” (The Limits to Growth), já alertava que, se o ritmo de consumo fosse mantido, a poluição global e o esgotamento dos recursos naturais levariam a humanidade ao colapso no século XXI. De fato, a tese principal do estudo era de que é impossível manter um crescimento econômico e populacional infinito em um planeta com recursos físicos finitos. Portanto, a insistência em manter o padrão de consumo geraria um colapso socioeconômico e demográfico inevitável antes do ano 2100.
De forma análoga, o cientista britânico James Lovelock (1919 – 2022), alertou para o fato de acharmos que no meio desse século ainda desfrutaremos de um mundo confortável sob a gestão humana. Para ele, ainda no meio do século passado já deveríamos ter tido a consciência de que habitamos um planeta vivo, cujas necessidades estão em conflito com as nossas (5). Para Lovelock, a presença de bilhões de seres humanos almejando o máximo de bem-estar possível, além de outros organismos vivos, já poderia ser considerada incompatível com a homeostasia do clima. Mas o que mais preocupava Lovelock era o fato de o ser humano odiar qualquer mudança visível em seu modo de vida diário e na sua visão de futuro. A maneira como a ciência é feita reflete, pois, inadvertidamente, o modo usual de como gostamos de manter as coisas funcionando.
Nessas circunstâncias, Lovelock descreve, em tom pessimista, as atitudes dos governos alertados pelos cientistas sobre o verdadeiro estado geral da Terra, a saber, negação e depois a busca desesperada por uma cura. Mas ele sabe que as ofertas de modos sustentáveis de salvar o planeta por empresas alternativas e lobistas nada mais são do que esperanças vãs. Ainda no início desse século, ele alertava para o pouco tempo que tínhamos para agir, mas era cético quanto à nossa capacidade de agir a tempo para evitar os desastres ambientais. Com efeito, para ele, a consciência de que somos os principais agentes do porvir ainda carece de um sentimento religioso suficiente para o devido arrependimento. Na verdade, o pessimismo dele em relação ao animal humano é tão grande, que mesmo uma mudança nos nossos genes não seria suficiente para nós. Pois, ainda segundo ele, a seleção natural nos fez o predador mais formidável deste mundo. O resultado, para Lovelock, é que somos um agente infeccioso do planeta há bastante tempo, com milhares de anos de incubação, mas só recentemente, após a Revolução Industrial, que o nosso hospedeiro, a Terra, começou a apresentar os sintomas irreversíveis.
O filósofo britânico John Gray escreveu sobre a busca pela imortalidade humana (4). Para ele, a ciência do final do século XIX e do começo do século XX transformou-se em um instrumento investido contra a morte. Ainda segundo ele, a ciência havia revelado que a finitude dos seres humanos não era diferente da dos outros animais, fato este que o próprio Darwin não aceitou por completo. E, no entanto, a ciência também é impossível sem um tipo divino de fé na busca pelas leis naturais. Porém, como pondera Gray, nem mesmo a existência de Deus pode garantir que o universo será favorável aos seres humanos. Pois a criação do nosso mundo não implica, necessariamente, que Deus ficaria atento ao planeta Terra indefinidamente. Ao citar Hume, Gray lembra que Deus poderia simplesmente esquecer que havia criado um mundo. Gray cita o filósofo, poeta e humanista espanhol George Santayana (1863 – 1952), que disse:
“Um espírito verdadeiramente despojado não pode assumir que o mundo é totalmente inteligível. Pode haver números irracionais, pode haver fatos concretos, pode haver abismos escuros ante os quais a inteligência deve silenciar por temor de ficar louca”. (Gray, ob. cit., pág. 207)
Contudo, alguns incautos, que defendem ou já defenderam a possibilidade de mudança, merecem também ser lembrados. Um deles é o pensador austríaco Ivan Illich. Para ele, é fundamental que a sociedade geral reorganize debates públicos que permitam que as pessoas deliberem sobre a própria autolimitação. Em outras palavras, uma sociedade coesa deve se basear na equidade e na limitação do consumo de energia dos seus cidadãos mais poderosos. Pois um governo subserviente à busca incessante do lucro e do egocentrismo dos mais ricos é uma sociedade corrompida.
Infelizmente, é nesse ponto em que nos encontramos, com Donald Trump, o presidente da principal potência mundial, os Estados Unidos, sendo considerado pela maioria dos estadunidenses como o líder do governo mais corrupto da história. Não há espaço, nesse texto, para falarmos dos absurdos praticados no segundo governo de Trump. Mas é bom frisar que se Trump conseguir manipular as eleições de meio de mandato, as “midterms”, no início de novembro, como tem tentando fazer, o mundo ficará ainda mais perigoso. Pois os tecnoligarcas donos das setes magníficas, citadas acima, entre outros, ganharão mais poder e liberdade para destruir o planeta em nome do progresso desmedido.
Nesse sentido, não é surpresa que o CEO da empresa de investimentos em tecnologia Andreessen Horowitz, Marc Andreessen, em recente declaração, parafraseou Filippo Tommaso Marinetti – coautor do Manifesto Fascista de Mussolini – em seu “Manifesto Tecno-Otimista”, ao dizer: “A tecnologia deve ser um ataque violento às forças do desconhecido, para forçá-las a se curvar diante do homem”. Assim, “data centers”, inteligência artificial generativa, a SpaceX de Elon Musk para colonização extraterrestre, entre outros projetos, não estão sendo desenvolvidos em prol do bem comum. O único objetivo real é libertar uma casta humana das vicissitudes da vida. Mesmo que às custas da sobrevivência do planeta.
Na ânsia de vencer a morte, o animal humano mostra o seu profundo paradoxo existencial, qual seja, continuar sempre se pautando pela morte. Enquanto essa conquista final não acontece, as sete magníficas continuam transformando essa distopia em produto comercializável. Não à toa, o CEO da Open AI, Sam Altman, disse recentemente que quer “um futuro onde a inteligência seja um serviço público, como eletricidade ou água, e as pessoas a comprem de nós por meio de um medidor”.
Finalizo com uma reflexão de Gray, que diz:
“O resultado final da investigação científica é fazer retornar a humanidade à sua própria existência intratável. Em vez de possibilitar que os seres humanos melhorem sua sorte, a ciência degrada o ambiente natural no qual precisam viver. Em ver de possibilitar que a morte possa ser vencida, produz tecnologias ainda mais poderosas de destruição em massa. Nada disso é culpa da ciência; o que isso mostra é que a ciência não é feitiçaria. O crescimento do conhecimento aumenta as possibilidades dos seres humanos; não pode impedi-los de serem o que são.
Mesmo que a maior parte das pessoas nunca possa deixar de sonhar com a imortalidade, indivíduos aqui e ali podem afrouxar o poder do sonho sobre suas vidas. Se você entender que, ao querer viver para sempre, tenta preservar uma imagem sem vida de você mesmo, talvez não queira ser ressuscitado ou sobreviver em um paraíso post mortem. O que poderia ser mais mortal do que ser incapaz de morrer?” (Gray, idem, pág. 215)
Notas:
3 – HAWKING, Stephen. Breves respostas para grandes questões. Rio de Janeiro. Intríseca, 2018;
4 – A busca pela imortalidade. A obsessão humana em ludibriar e morte. Rio de Janeiro: Record, 2014;
5 – LOVELOCK, James. GAIA: Alerta Final. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
André Márcio Neves Soares
*André Márcio Neves Soares é Administrador de Empresas, Psicólogo, doutor em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador- Bahia e funcionário público do judiciário federal há 30 anos.




