“Tudo o que vive é sagrado”, malditos sejam os Senhores da Guerra!

“Um Tirano é a Pior Doença e a Causa de todas as outras”.

 William Blake nasceu em 1757 e faleceu em Londres em 1827. Poeta romântico, pintor e tipógrafo.

Aliás, sem dúvida, um dos poetas de língua inglesa da maior importância! E como se torna atualíssimo nos dias de hoje!

De temperamento revolucionário enfrentou, negou e transcendeu muito dos dogmas com os quais se deparou, quer fossem eles políticos religiosos ou sexuais. Sempre acreditou na luta dos opostos complementares, assim como em que a verdade só pode surgir a partir de opostos não excludentes.

Seu tempo de vida coincidiu com o início da Revolução Industrial Inglesa. Viveu o desespero dos famintos camponeses migrantes para Londres e outras cidades industriais, a fim de servir de mão de obra a ser explorada em fábricas, que estavam expandindo-se exatamente naquela época!

Um verso de seu poema, dito pela voz de uma criança, em “O limpador de chaminés”, é ilustrativo de sua consciência e revolta: “Louvar a Deus e a seu padre e a seu rei que criam um céu da nossa miséria”.

“Uma única Lei para o Leão e o Boi é Opressão”.

Blake se revolta contra a exploração do trabalho infantil e não aceita o trabalho de “caridade beneficente”, pois “Piedade teria fim, se não fizéssemos pobres assim”.

Blake foi um propagador incansável da Revolução Francesa de 1789 desde seu princípio, mas seu humanismo jamais permitiria que ele continuasse a apoiá-la na medida em que a revolução se transformou em terror. De toda forma, abominava autocratas, ditadores, aristocratas, os senhores da guerra. Para ele: “Um Tirano é a Pior Doença e a Causa de todas as outras”.

Revoltado socialmente, Blake atacou o também o racionalismo dos filósofos iluministas como Voltaire e Rousseau. Pois, para ele “aquele que vê a razão, somente vê a si mesmo”. Ele sempre presou o sentir, mais que a lógica racionalista.

Blake considerava que a fonte de todas as religiões era o que denominava de “o gênio poético”, algo de que todos os homens, sem exceção, poderiam dispor. Sua religiosidade nunca foi institucional, odiava dogmas. “Todas as deidades moram no coração humano”.

Sua negativa da dualidade Cristã (Deus e o Demônio, o Bem e o Mal, Céu e Inferno, etc.), tornou-o vítima da perseguição por parte dos crentes e da Igreja. Para Blake, o Bem não existe sem o Mal, sendo o Mal uma das formas de energia, energia esta, na sua maneira de entender, tão necessária quanto a energia do Bem, numa dualidade que pode ser vista como dialética.

“O Homem não tem Corpo distinto de sua Alma, pois o que é chamado Corpo é uma porção da Alma, discernida pelos cinco sentidos. ”

“Sem opostos não há progresso: Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência humana. ”

Místico e religioso, mas de uma religiosidade toda particular, era sexualmente heterodoxo e, por princípio, contrário a qualquer repressão. Os genitais são beleza e a nudez da mulher é o trabalho de Deus”. “Afinal, toda prostituta foi virgem um dia.”

“Cristo morreu como um descrente. ” E “O Crucifixo de Cristo tornar-se-á uma desculpa para a execução de criminosos. ”

“A Igreja Moderna crucifixa Cristo com a cabeça para Baixo.”

“Aqueles que reprimem o desejo, o fazem porque o deles é fraco o bastante para ser reprimido; e o repressor ou a razão usurpa o seu lugar e governa os relutantes… Sendo reprimido ele pouco a pouco se torna passivo até ser simplesmente a sombra do desejo. ”

A recusa dos dogmas religiosos pode ser sentida claramente em dois de seus “provérbios do inferno”:  “Prisões são construídas com pedras da Lei, Bordéis com tijolos da religião” e “Como a lagarta escolhe as folhas mais vistosas onde votar seus ovos, assim o Padre amaldiçoa os prazeres mais formosos”.

“A Mentira é o oposto da Paixão”.

Num dos seus mais ousados poemas, ele aconselha a ação e é contra toda e qualquer resignação: “Aquele que deseja, mas não age, cultiva a peste permanentemente. ”

“Se Deus é alguma coisa, ele é compreensão. ”

E, finalmente: “Toda a BÍBLIA está cheia de conceitos e visões, do Princípio ao Fim, mas não de Virtudes Morais”.

Referências: William Blake, Selected Poems and letters, from Emily Dickson. Ed. Anchor Books.

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