“A única pista para o que o homem pode fazer, é o que ele já fez”. R.G. Collingwood, filósofo e historiador inglês, em sua obra The Idea of History (1946).
É fato que, ao longo da história da humanidade, periodicamente surgem líderes estúpidos, mentirosos e assassinos. Sem dúvida, é um grande problema quando essas três características negativas estão reunidas numa mesma pessoa. Mas é ainda pior quando vários líderes que apresentam tais características surgem numa mesma quadra histórica.
Pois bem, infelizmente estamos vivenciando um desses momentos! Eu poderia aqui citar inúmeros líderes de tal espécie, alguns menos ofensivos em termos de beligerância global, a exemplo de Recep Tayyip Erdogan, Viktor Orbán e Javier Milei. No entanto, para não me estender demais, vou aqui me ater a apenas três deles, a saber, Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin, que, no meu entender, são os potencialmente mais perigosos, sendo que os dois primeiros demonstram uma incrível capacidade de minimizar (ou ignorar) os males que estão impondo ao mundo.
Dito isso, penso ser de bom alvitre relembrar Freud, que, no início da terceira década do século passado, já alertava:
“Parece-me que a questão decisiva da espécie humana é a de saber se, e em que medida, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar o obstáculo à convivência representado pelos impulsos humanos de agressão e de autoaniquilação” (1).
Passo, pois, a analisar cada uma das características negativas citadas no título do texto, com enfoque nos principais líderes que hoje assombram o mundo dito civilizado.
Sobre os estúpidos
Algumas décadas atrás, o historiador de economia italiano Carlo M. Cipolla escreveu um pequeno ensaio, pouco comentado no Brasil, sobre a estupidez humana (2). No livro, depois de destrinchar as primeiras quatro leis fundamentais da estupidez humana, Cipolla finaliza com sua quinta e última lei, segundo a qual “Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa”, e vai além afirmando que “Uma pessoa estúpida é mais perigosa do que um bandido” (CIPOLLA, ob. cit., pág. 80).
Para ele, as pessoas estúpidas possuem o poder de mudar o curso da história, causando perdas substanciais para as pessoas, sem contrapartida de ganhos para si mesmas. O resultado desse jogo de “perde-perde” é uma sociedade irrefutavelmente mais empobrecida.
Ora, é fácil ver que Cipolla tem certa razão no seu argumento. Basta ver como estava o mundo antes da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, e mais ainda antes do atentado terrorista do Hamas contra Israel, em outubro de 2023, que desencadeou a resposta desproporcional do governo sionista contra os palestinos e, por extensão, por todo o Oriente Médio atualmente. Não à toa, o “doomsday clock” (relógio da meia-noite) foi atualizado em 2026 para 85 segundos antes da meia-noite – teoricamente o ponto da aniquilação total –, o mais perto que ele já esteve do limite.
Contudo, Cipolla passa longe das atuais condições em que a estupidez humana se tornou uma real ameaça para a continuidade do planeta. Com efeito, pessoas estúpidas como Trump e Netanyahu não possuem a empatia necessária para perceber que estão levando o mundo para o precipício, sem muitos ganhos pessoais duradouros; afinal, se o mundo de fato acabasse, onde Trump jogaria golfe? E como ficaria o projeto de poder perpétuo de Netanyahu? Pelo contrário, Trump está arriscando perder as eleições de meio de mandato com as sucessivas guerras, ao contrário do que pregou para seu mundo MAGA na eleição de 2024. Netanyahu, bem, esse é um estúpido-assassino que desonra até a última geração do povo judeu.
Por outro lado, com as suas guerras, Trump, Netanyahu e Putin estão estupidamente destruindo o curso natural da história que se encaminhava para um mundo plural. De fato, como bem diz Gray:
“A globalização – a difusão pelo mundo inteiro de novas tecnologias que eliminam distâncias – não torna universais os valores ocidentais”. E ele continua: “A crescente interconexão das economias do mundo não significa o crescimento de uma civilização econômica única. Significa que deverá ser encontrado um modus vivendi entre as culturas econômicas que sempre permanecerão diferentes entre si” (3).
Entretanto, para tanta estupidez, Cipolla tem o veredito. Para ele, em todos os períodos históricos sempre houve, nas diferentes sociedades, uma fração inevitável de pessoas estúpidas, independentemente do desenvolvimento dessas sociedades. O alarmante, para Cipolla, é que em um país em declínio, como hoje é apontada a situação dos Estados Unidos, apesar da fração de pessoas estúpidas ainda ser igual, parece haver uma proliferação de bandidos com toques de estupidez no poder, ao passo que, entre a população em geral, parece haver um crescimento enorme de indivíduos vulneráveis. O resultado para ele é que:
“Essa mudança na composição da população não estúpida reforça inevitavelmente o poder destrutivo da fração de pessoas estúpidas e faz do declínio uma certeza. E o país vai para o buraco” (CIPOLLA, ob. cit., pág. 85).
Sobre os mentirosos
Pessoas estúpidas, no sentido que descreveu Cipolla, são mentirosas contumazes. Elas se valem da mentira para alcançar seus objetivos, não importando as consequências. Nem mesmo se elas forem afetadas negativamente de alguma maneira. E se o objetivo for financeiro e/ou relacionado ao poder, tornam-se definitivamente sem escrúpulos. Muitos estúpidos e mentirosos também são narcisistas. O outro não importa, desde que ele/ela seja o/a protagonista sempre.
Trump é a personificação dos estúpidos e mentirosos políticos. Para chegar ao poder novamente, mentiu para sua própria base MAGA, que desejava ser levada em conta em primeiro lugar e voltar a ver seus valores tradicionais de, por assim dizer, pátria, família e religião, no pedestal da Casa Branca. Só para constar, visto que Trump é o expoente-mor deste texto, Netanyahu também é um estúpido mentiroso. Apesar da burrice terrorista do Hamas, aproveitou o momento para potencializar o medo na sociedade israelense e promover o genocídio da população palestina. Putin também mente quando alega estar conduzindo uma “operação militar especial” na Ucrânia. Apesar da OTAN ser a principal responsável por este conflito, que já dura 4 anos, a intenção primeira da invasão foi, de fato, ocupar o país vizinho.
Mas, de todos eles, Trump é o principal caso para estudo. E nem podia ser diferente, visto ser o líder atual da única superpotência do planeta. Com efeito, desde que retornou ao poder em janeiro/2025, mentiu sobre o presidente venezuelano Nicolás Maduro ser o chefe de um cartel de drogas, para sequestrá-lo. Foi corresponsável, no mínimo, pelas alegações de Netanyahu de que a Faixa de Gaza era um caso perdido por causa dos Hamas e que, por isso, devia ser dizimada. Mentiu, mais uma vez em parceria com Netanyahu, sobre o Irã estar quase finalizando suas próprias ogivas nucleares, para desferir, em apenas um mês de guerra, mais de 15.000 ataques contra alvos iranianos, muitos deles contra civis. E já está mentindo sobre Cuba ser um reduto de bandidos que massacra sua própria população, para invadi-la.
É claro que muitos sabem que tais afirmações são mentirosas e identificam as razões por trás delas: petróleo, poder e dinheiro, muito dinheiro numa hipotética “Riviera Palestina”, por exemplo. Mas, infelizmente, uma parte incauta da população acredita nessas mentiras, talvez como reflexo do seu próprio espelho.
Mas os líderes estúpidos mentirosos são incapazes de perceber tudo que está em jogo, como já foi dito acima. Tanto externamente quanto dentro das fronteiras dos seus países, suas atitudes são como pequenas erupções marinhas que vão se somando a tantas outras, até que enormes estruturas de pedras emergem em formato de recifes.
Externamente, Trump hoje está isolado. De fato, seu famigerado Conselho da Paz foi esvaziado pela ausência das principais potências regionais. Ademais, ninguém saiu em seu socorro, quando ele pediu para que os países membros da OTAN e outros aliados ajudassem na reabertura do Estreito de Ormuz. E não é de estranhar!
Com efeito, um golpe tão escabroso no direito internacional não tem como ficar impune. É senso comum que a agressão ao Irã, assim como o sequestro de Maduro, foram violações flagrantes da Carta das Nações Unidas – que proíbe, no seu artigo 2º, o uso da força contra um estado soberano – e do Estatuto do Tribunal Penal Internacional – que, no seu artigo 5º, qualifica como crime de sua competência a guerra de agressão. A sensação de mal-estar que perpassa a todos que se preocupam com o futuro da humanidade está incutida justamente no colapso do direito internacional.
E também internamente Trump encontra-se em apuros. Nesse último final de semana, milhões de americanos saíram às ruas para protestar contra seu governo. Segundo as últimas pesquisas, a aprovação máxima de seu governo gira em torno de 36%. A pior taxa desde que foi reeleito! Mesmo na sua base MAGA já existem rachaduras significativas. Com efeito, ex-aliados/as andam fazendo críticas contundentes ao caminho que Trump escolheu trilhar. Por exemplo, a deputada Marjorie Taylor Greene, ex-congressista da Geórgia, o acusou de ser traidor da causa MAGA; Thomas Massie, Congressista Republicano do Kentucky, votou contra o envolvimento militar nas guerras; e os senadores Todd Young e Josh Holly se juntaram aos democratas em questões de controle de guerra. Some-se a isso o aumento crescente do custo de vida para os americanos, notadamente no que se refere ao preço do combustível, e podemos ver a “tempestade perfeita” se formando. Assim como foi no seu primeiro mandato, parece que a mentira trumpiana tem perna curta.
O historiador e professor britânico Tony Judt escreveu um importante livro, quase duas décadas atrás (4). Nele, questionou como podíamos viver tão erradamente. Ele tinha como basilar o entendimento de que o caráter materialista e egoísta da vida contemporânea não é inerente à condição humana. Mesmo antes da era “Trump”, sabia que vivíamos uma era de insegurança econômica, física e política. Advertiu que o medo – da mudança, do declínio, do desconhecido e de um mundo estranho – está corroendo a confiança e a interdependência das sociedades civis. Sabia que todas as mudanças que o mundo atravessava – de tempo, espaço, tecnologia – iriam tumultuar democracias estáveis. Então sugeriu:
“Uma de minhas metas é sugerir que o governo pode desempenhar um papel maior em nossas vidas sem ameaçar a liberdade e ressaltar que, como o Estado vai continuar presente no futuro próximo, vale a pena pensar no tipo de Estado que queremos” (JUDT, ob. cit., pág. 19).
Não deu tempo… Judt faleceu em 06 de agosto de 2010 em Nova Iorque. Ele não viu a ascensão de Trump e o desmantelamento da social-democracia europeia que tanto amava. Mas isso não significa que devemos esquecer uma de suas principais lições, a saber:
“O passado não foi nem tão bom nem tão ruim, quanto supomos: foi apenas diferente … Contudo, existe algo pior do que idealizar o passado ou apresentá-lo a nós e a nossos filhos como um trem-fantasma: esquecê-lo” (idem, pág. 49).
Sobre os assassinos
Desde que Israel lançou sua vingança contra os palestinos, após o ataque terrorista do Hamas, em outubro de 2023, mais de 75 mil pessoas já morreram, segundo uma pesquisa da Revista Lancet (https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/02/19/estudo-da-lancet-revela-que-o-numero-de-mortos-em-gaza-no-inicio-da-guerra-foi-50percent-maior-do-que-o-divulgado-a-epoca.ghtml). Similarmente, desde que o governo sionista de Israel atacou o Irã, há pouco mais de um mês, mais de 1.900 pessoas já morreram, segundo a Cruz Vermelha (https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/mortes-no-ira-ultrapassam-1-900-desde-o-inicio-da-guerra-diz-cruz-vermelha/). Tudo isso com a aprovação e a participação dos Estados Unidos e a omissão do mundo dito civilizado.
Sendo assim, considerando o período após o fim da Segunda Guerra Mundial, é possível incluir Trump no rol dos líderes mundiais que mais mataram, por ação ou omissão, em tão pouco tempo de governo (a partir da sua reeleição). Quanto a Netanyahu, é provável que ele seja o líder sionista que mais matou pessoas inocentes, desde a fundação de Israel.
Mas, para sermos justos, não podemos esquecer de Putin, que, desde o início da sua “operação militar especial” contra a Ucrânia, já matou mais de 500.000 mil pessoas, entre civis e militares, somando-se os dois lados (https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/baixas-de-militares-russos-na-ucrania-sao-as-maiores-desde-a-2a-guerra/).
A história mostra que assassinos aumentam seu poder de destruição na ausência de reações contrárias às suas agressões. Isso vale tanto para pessoas físicas como para Estados. A mera tentativa de contenção de danos pode sinalizar para o assassino que a ordem vigente acatará qualquer outra violação. Não é preciso ser um historiador para lembrar de Hitler e sua demanda pelos Sudetos. O que se seguiu, na falta de uma oposição efetiva, foi a agressão contra a Polônia e o início da Segunda Guerra Mundial.
Ora, por 80 anos, contados do final da última grande guerra, a humanidade permaneceu livre de conflitos armados de maior repercussão. Mas isso só aconteceu porque o último representante proeminente dos estúpidos, mentirosos e assassinos foi justamente Hitler, o “Führer” alemão. Agora a maior potência do planeta tem seu próprio postulante a “Führer”, e ele já declarou não ter limites, exceto aqueles da sua própria consciência. A nova Estratégia de Segurança Nacional, tornada pública em novembro de 2025, é aterrorizante, no sentido de reivindicar soberania absoluta para os Estados Unidos, consoante seus interesses e à revelia dos direitos alheios.
Em outras palavras, estamos diante de uma tentativa de retorno do estado natural do mais forte, de que falou Thomas Hobbes. É a lei selvagem dos autocratas criminosos que, sob o silêncio pecaminoso dos outros atores mundiais, promovem o colapso da razão, tanto jurídica quanto política, além do fracasso da ordem internacional, estabelecida nas últimas oito décadas a duras penas, para justamente evitar o regresso ao estado natural de todos contra todos.
Importa ressaltar, nesse contexto, que estúpidos, mentirosos e assassinos também são megalomaníacos. Trump, Netanyahu, Putin e outros não querem apenas ser líderes mundiais passageiros. Querem ser os novos reis da pós-modernidade. E aqui está o grande problema! Se no passado grandes civilizações tinham monarcas que, de tempos em tempos, entravam em conflito, a globalização econômica e informacional não permite mais esse arranjo institucional. Ou seja, as esferas de influência que os estudiosos apontam para o futuro breve – os Estados Unidos com todo o continente americano; a Rússia soberana na Europa.
As lutas intestinas que esses novos soberanos irão promover, à medida que a matriz energética muda, o clima se torna mais instável, a pressão demográfica aumenta (especialmente vinda da África e da Ásia) e a inteligência artificial transforma os trabalhadores em sub-humanos, têm potencial para colocar a sobrevivência da humanidade em perigo real.
Conclusão
É incrível como a história é cíclica. Não concordo com a afirmação literal de Marx, segundo a qual a história se repete primeiro como tragédia, e depois como farsa, mas concordo com a sua essência. É possível ver padrões de repetição tanto em momentos bons, ou seja, de calmaria e evolução da espécie humana, quanto em momentos de barbárie. O problema é que a capacidade armamentista que atingimos torna extremamente perigoso um conflito globalizado. Ou até mesmo uma guerra regional que envolva atores com ogivas nucleares.
Hoje estamos no fio da navalha por causa de um narcisista patológico (Trump), que é influenciado – não se sabe exatamente porque, talvez até por uma chantagem relativa aos arquivos do pedófilo Jeffrey Epstein – por uma besta assassina (Netanyahu).
Volto a Freud, que concordava com Hobbes sobre o fato de que “o homem é o lobo do homem”. Um pouco mais rebuscado, Freud disse que:
“Em circunstâncias favoráveis, quando foram suprimidas as forças psíquicas contrárias que usualmente inibem tal agressão, ela também se expressa de modo espontâneo e revela o homem como uma besta selvagem à qual é alheia a consideração pela própria espécie” (FREUD, ob. cit., pág. 125).
Para além da crítica política e econômica, Freud afirmou que o traço indestrutível da bestialidade na natureza humana nos acompanhará aonde formos. Apesar de saber que o homem primitivo, que chamou de “aculturado”, conseguiu trocar uma parte da sua felicidade impulsiva por uma parcela de segurança, Freud também sabia que a liberdade dos impulsos cresce com a ascensão na escala social. Dito de outra forma, desde o homem primitivo, uma minoria goza de vantagens culturais interditadas para a maioria.
Mesmo com seu pessimismo característico, Freud ainda aventou a possibilidade de o homem moderno mudar a postura diante de sua cultura, para escapar do sofrimento coletivo. Mas logo depois sucumbiu diante da constatação de que a tarefa de restrição dos impulsos pode acarretar um perigo ainda maior, que chamou de “miséria psicológica da massa”. Seria engraçado, se não fosse trágico, o exemplo que ele citou naquela época: “O atual estado cultural dos Estados Unidos ofereceria uma boa oportunidade para estudar esses temidos danos à cultura” (idem, pág. 133).
Por conseguinte, Trump, Netanyahu e os outros líderes aqui mencionados não são diferentes, em essência, dos outros líderes sanguinários da história. Freud sabia que é impossível, para a maioria dos homens, escapar da ambição de poder, sucesso e riqueza, mesmo que, em alguma medida, isso implicasse menosprezar os verdadeiros valores da vida. O que Freud talvez não tenha percebido – ou se tomou consciência, não deixou claro no seu texto -, é que para líderes poderosos que são estúpidos, mentirosos e assassinos, poder, sucesso e riqueza representam justamente os verdadeiros valores da vida.
A grande questão do momento é que as “bestas” que atualmente mandam no mundo estão sentadas sobre arsenais nucleares que podem acabar com o planeta. Ou alguém duvida que Ghengis Khan, Napoleão Bonaparte e Hitler teriam explodido o mundo, se tivessem ogivas nucleares à disposição deles?
Esses dias começou a ser exibido nas telas de cinema o filme “NUREMBERG”, com o grande ator Russell Crowe e bom elenco. Recomendo, mesmo para aqueles que já conhecem a história do maior julgamento internacional até hoje realizado, que o assistam.
Confesso que, para minha surpresa, Hannah Arendt sequer é mencionada, embora em alguns trechos do filme entre em cena uma repórter, que parece remeter a ela. Seja como for, o filme é um misto do fato histórico e do livro, recentemente relançado, “O Nazista e o Psiquiatra”, de Jack El-Hai. Penso que, talvez, o mais importante do filme é a apresentação da conclusão do psiquiatra, Dr. Douglas M. Kelly – encarregado de avaliar a saúde mental dos prisioneiros até o veredito final da corte -, a partir das entrevistas e conversas realizadas com os nazistas, de que eles não eram loucos, salvo o químico Robert Ley, chefe da Frente de Trabalho Alemã (Deutsche Arbeitsfront), que se tornaria um simples braço do Estado na função de procurar uma maior eficiência e disciplina dos trabalhadores alemães para servir as necessidades do regime, particularmente na massiva expansão da indústria de armas.
E mais ainda, de que eles não tinham nada de especial e que pessoas iguais a eles poderiam ser facilmente encontradas nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do planeta. Pelo visto, Arendt não foi a única a perceber a “banalidade do mal”…
Referências:
1 – FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Porto Alegre, RS; L&PM, 2015; pág. 185;
2 – CIPOLLA, Carlo M. As Leis Fundamentais da Estupidez Humana. São Paulo: Planeta, 2020;
3 – GRAY, John N. Falso amanhecer: os equívocos do capitalismo global. Rio de Janeiro: Record, 1999, pág. 300;
4 – JUDT, Tony. O Mal Ronda a Terra: Um tratado sobre as insatisfações do presente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
*André Márcio Neves Soares é doutor em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador- Bahia e funcionário público do judiciário federal há 30 anos.




