“Esaú e Jacó” é considerada a mais complexa obra de Machado de Assis, repleta de enigmas, segundos sentidos e injunções históricas.
O autor avisa no prefácio: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava ou parecia estar escondida. ”
O romance começa em 1871 (ano da Lei do Ventre Livre), com uma grávida, cujo nome sugestivo é Natividade, esposa de um banqueiro, Santos, que fizera fortuna no boom do café. Ela sobe o Morro do Castelo, local onde a cidade do Rio foi fundada em 1557, a fim de consultar uma “vidente” a respeito do destino dos gêmeos que carrega no ventre. A narrativa se estenderá até 1894, perpassando o esfacelamento do regime imperial, o golpe de estado que implanta a República, o golpe dentro do golpe dado por Floriano Peixoto, o país navegando de revolta em revolta, sob as botas militares e repressão do poder de turno.
A respeito dos desmandos da elite branca e das nossas instituições, sempre a serviço exclusivo daquelas, sem ideais de construção de uma verdadeira Pátria para todos os brasileiros, afirma Machado de Assis desiludido, praticamente ao final da vida, em “Memorial de Aires”: “tudo é possível abaixo do sol e da lua. A nossa felicidade é que morremos antes”.
O nível de alegorias sobre este período conturbado de nossa História, que a narrativa propicia, é precioso! Somente uma pequena fração delas será contemplada neste nosso estudo. Machado sempre trata as questões de cunho político-social de forma profunda e ironicamente mordaz, em “Esaú e Jacó” ele irá fundo na crítica à conformação política do país.
Ao final do século XIX, ele pressente o Brasil de uma sociedade sem rumos, sem objetivos claros e correndo para a desintegração social.
- A Proclamação da República propriamente dita é explicitada claramente no episódio da tabuleta com o nome de uma confeitaria.
O português Custódio, proprietário doceiro, é vizinho do narrador da história, o Conselheiro Aires, um diplomata aposentado. Aires é volúvel nas opiniões e apegado às aparências de um intelectualismo liberal, sendo parceiro fiel do atraso no seio da sociedade escravocrata e exclusivista. “Aires tinha o coração inclinado a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia”.
Custódio busca o conselho de Aires a respeito da tabuleta. Entre ironias e metáforas, a opinião do genial autor sobre a quartelada de 15 de Novembro é expressa. Custódio, depois de muita relutância, mandara repintar a tabuleta que levava o nome de sua loja: “Confeitaria do Império”. O pintor o avisa que “a tábua está velha e precisa outra, pois está rachada e comida de bichos”. A alusão à Monarquia é óbvia: um regime decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma e tem que mudar.
O proprietário encomenda, então, uma nova tabuleta justamente no dia 15 de Novembro. Custódio manda urgente um bilhete para o pintor com o seguinte recado: “Pare a pintura no d.” Não sabia se era melhor concluir a mesma com a palavra “do Império” ou “da República”, afinal, para que lado iria o barco? A indecisão de Custódio apenas quanto ao nome é sintomática do país em que algo sempre muda para que se mantenha, na essência, tudo como estava. O Conselheiro o “aconselha” que escreva um nome neutro, serviria a uns e outros.
Machado de Assis, assim, compara a proclamação da República a uma simples troca de tabuletas, uma mudança de nomes. A República, como veio e foi implantada, e o Império se equivalem, são rótulos de fachada para uma sociedade segregacionista
2 . O simbolismo dos gêmeos filhos de um banqueiro como uma dama da alta sociedade.
Um fator significativo a ressaltar é a maneira como, explorando as divergências políticas dentro da elite, ele nos transmite o sentido de que estas são apenas aparentes. As contradições reais estariam ente a elite e as outras classes sociais. Machado o realiza com o trato estético da questão no dualismo dos gêmeos falsamente contraditórios, o que não passa de aparências.
A referência bíblica que empresta seu nome à obra “Esaú e Jacó”, nos traz gêmeos que brigam desde sua permanência no útero e que lutarão toda uma vida pelo reconhecimento materno-paterno e pela herança, jamais convivendo em harmonia.
“O que o berço da, só a cova tira, diz um velho adágio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever: ‘Dico, Che quando l’anima mal nata…’” Estaria Machado nos falando da herança cultural da elite, transmitida desde o berço?
No romance Pedro, um dos gêmeos, advém de São Pedro, que na tradição bíblica se vincula ao conservadorismo; ele faz medicina, carreira que figura como conservadora na literatura da época e é um defensor da Monarquia. Paulo, o outro, remonta a São Paulo, faz direito, carreira tida como liberal e defende a mudança do regime para a República.
Mas, assinala Aires, os gêmeos se definem politicamente por razões triviais. “Não eram propriamente opiniões; não tinham raízes, nem grandes e nem pequenas”.
Com a proclamação da República, pressupõe-se que Pedro, sempre a favor da Monarquia, se tornaria um crítico do novo regime, e que Paulo passaria a defendê-lo. Mas não é o que ocorre. Aliás, este é um dos curtos períodos em que as brigas entre os irmãos são contidas, pois quando se trata de discutir algo próximo de ideias, noções de organização política, as diferenças entre ambos desaparecem.
Por isso, ao invés de caracterizá-los meramente como conservador e liberal, podemos usar as expressões situacionista e oposicionista, ou seja, os gêmeos não são idênticos apenas na aparência, a ponto de Flora (uma paixão de ambos) mal distingui-los; têm a mesma essência, apenas com revestimentos e discursos distintos.
O olhar crítico de Machado está aí: no Brasil não se consegue perceber a diferença entre monarquistas e republicanos — diferentes no discurso, mas semelhantes nas práticas políticas. Machado mostra que o destino do homem permanece uma questão de “certa fé”, para a religião e para a própria ciência. E que o mesmo não deixa de ocorrer com a política. República ou Monarquia, a disputa entre ambas se transforma em mera questão partidária, de interesse de grupos políticos que são diferentes na aparência e representam, ao alternarem-se, mera troca de mãos alçadas ao poder.
Falava o narrador Aires: “E lembrava-se do discurso do Senador Albuquerque que dizia não haver nada mais parecido com um liberal que um conservador e vice-versa”, e referindo-se aos políticos: “Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito”.
- 3. Os gêmeos e Flora.
Pedro e Paulo crescem idênticos fisicamente, mas diferentes na personalidade. Paulo, médico e Pedro, advogado, sendo que ambos abdicam do exercício das profissões escolhidas. Preferem o flanar e a política: a sociedade brasileira, mesmo após a abolição da escravidão, permanece alicerçada no sinhô, na sinhá e nos que trabalham para servir, naturalmente negros, mulatos e agregados.
Somente após a morte de Flora, os irmãos iniciarão seus ofícios.
Os gêmeos encantam-se por Flora, filha de um político oportunista, Batista, ora conservador, ora liberal, na dependência do grupo político no poder. Cláudia, sua esposa, lhe diz quando ele vacila: “Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha”. Comissionado pelos conservadores, quando os liberais assumem o poder, Claudia lhe diz: “Conservador, você? Sem saber, você sempre foi um liberalzão, somente não o sabia”.
- 4. O padre capuchinho e o maltrapilho.
“Esaú e Jacó”, repleto de enigmas, este talvez seja um dos mais importantes. Machado neste enigma nos assinala dois tipos de República: a primeira ideal dos anos da Independência, não possuía armas ou poder financeiro para combater a oligarquia; a segunda República, a simbolizada por Paulo, será aquela que se implantou pela mão militar como opção ao Império desgastado. Esta era virgem de idealizações, nua e crua.
Vamos segui-lo:
“A primeira daquelas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome, — ninguém mais o conheceria, — mas prefiro esse sinal trino, número de mistério, expresso por estrelas, que são os olhos do Céu. Trata-se de um frade. Pedro não lhe conheceu a barba preta, mas já grisalha, longa e basta, adornando uma cabeça máscula e formosa…. Tudo isso meigo e espiritual, como uma página evangélica. A fé era viva, a afeição segura, a paciência infinita”.
O frei com barbas brancas simboliza o Império e o Imperador, paciente, cheio de fé, tal qual Pedro o enxergava. Capuchinho, o capuz branco encimando as vestes negras, o café.
“Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, — creio que ao Paraná também, — viagem espiritual, como a de outros confrades, e lá ficou por um semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que dantes, mas negríssima e brilhantíssima. Não explicou a mudança, nem ninguém lhe perguntou por ela”.
A viagem ocorre pelo interior dos Estados brasileiros que suportavam o Império com o café, principalmente durante o boom econômico dos anos 1850/ 1860. A cor negra rejuvenesce as barbas, o sistema se alicerça financeiramente.
“Durou nove meses esta cor; feita outra viagem por trinta dias, a barba apareceu de prata ou de neve, como vos parecer mais branca”.
O produto do progresso econômico fora passageiro. O ciclo do café e do escravagismo se esgotava e, com ele, o Império volta “a ter barbas branquíssimas”, envelhece, se esgarça.
“Quanto à segunda de tais barbas, foi ainda mais espantosa. Não era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dívidas, e na mocidade corrigira um velho rifão da nossa língua por esta maneira: “Paga o que deves, vê o que te não fica”. Chegou aos cinquenta anos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma idade, os sapatos não menos que ela. A barba é que não chegou aos cinquenta; ele pintava-a de negro e mal, provavelmente por não ser a tinta de primeira qualidade e não possuir espelho. Andava só, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praça da Morte, com as barbas enxovalhadas, por não haver quem lhas pintasse na Santa Casa.”
Se o frade era amigo de Pedro, o maltrapilho não o era de Paulo. Um simbolismo de um ideal de República que jamais se tornou realidade no Brasil, embora tenha existido no primeiro terço do século XIX. O maltrapilho compensa a falta de dinheiro com uma tinta de má qualidade que pouco lhe servirá. Seu fim, por utópico, é inevitável.
“Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas corpus”. Não aos homens!
- 5. A morte de Flora
Flora, antípoda da mãe Cláudia, revela um estado de inocência que o próprio nome nos trás. Inocência e abundância. “Flora não entendia de formas e nem de nomes. A sonata lhe trazia a sensação da falta absoluta de governo, a anarquia da inocência primitiva daquele recanto do Paraíso que o homem perdeu por desobediência, quando a perfeição trouxer a ordem eterna e única. Não haverá então progresso, nem regresso, mas estabilidade.” Uma estabilidade que somente se ganha com o túmulo.
Flora, de certa forma uma metonímia do Brasil, apesar de abundante, se confunde e definha, sem conseguir definir com qual Partido casar-se. Retira-se do Rio para Andaraí, mas nada debela seu mal. A moça, dividida entre os Partidos gêmeos, vem a falecer.
No seu contexto, em fins de 1891, devido à revolta da Armada e possível guerra civil, Deodoro é forçado renunciar e, seu vice, o Marechal Floriano Peixoto, assume. Este se nega a cumprir a Constituição e em seu governo se alastra a repressão aos revoltosos. Com o objetivo de manter-se no poder, executou a política econômica denominada de ensilhamento, imprimindo dinheiro sem lastro, o que levaria a uma enorme inflação, assim como à especulação econômica e ao surgimento de riquezas especulativas da noite para o dia.
Em decorrência, aumenta a revolta dentro das forças armadas e da população. As mortes se multiplicam. Com receio de bombardeio, a capital do país foi transferida para Petrópolis, em 1894. Nesse ano morre a jovem Flora, após dela também haver-se apaixonado Nóbrega, um arrecadador de esmola que se dera inexplicavelmente bem na vida, de especulações não claramente explicadas.
Em um capítulo curto denominado de “Estado de sítio”, Aires descreve o funeral de Flora: “Não há novidade nos enterros. Aquele teve a circunstância de percorrer as ruas em estado de sítio. Bem pensado, a morte não é outra coisa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpétua, ao passo que o decreto daquele dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido aquela moça além do de viver, e porventura o de amar, não se sabe a quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é que não recordo este óbito sem pena, e ainda trago o enterro à vista…”
Os irmãos sofrem com a morte de Flora, mas depois dão curso às suas carreiras e vidas. Em seu momento realista, para Machado os amores escorrem e se perdem com a vida.
“No meio dos sucessos do tempo, entre os quais avultavam a rebelião da esquadra e os combates do Sul, a fuzilaria contra a cidade, os discursos inflamados, prisões, músicas e outros rumores, não lhes faltava campo em que divergissem (aos gêmeos). Nem era preciso política. Cresciam agora mais em número as ocasiões e as matérias. Ainda quando combinassem de acaso e de aparência, era para discordar logo e de vez, não deliberadamente, mas por não poder ser de outro modo”.
- 6. Sobre o destino.
O destino, ensina-nos Machado, tudo são instrumentos em mãos da vida: “Aires suspirou e curvou a cabeça ao destino. Não se luta contra ele, dirás tu. O melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos”.
“De todos os maus costumes, o de envelhecer é o pior. Deixa para lá filósofos dizerem que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças minha amiga, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre”, pois:
“Quando se envelhece os receios da morte crescem. Mas não bastam os receios, é preciso que a realidade venha atrás deles. Daí as esperanças. Mas também não bastam esperanças, pois a realidade é sempre urgente”.
Referências: Russo J., C., “Textos e Contextos, de Machado de Assis aos Modernistas”, Ed. Gramma. (Texto extraído)




