Machado de Assis e o Brasil, entre a Colônia e o Império: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O tempo histórico do romance ocorre na contramão, entre em 1805, com o nascimento e a morte do narrador, 1869. A respeito dos desmandos da elite branca e das nossas instituições, inclusive na Primeira República, sempre a serviço exclusivo das elites, sem ideais de construção de uma verdadeira Pátria para todos os brasileiros, afirma Machado de Assis desiludido praticamente ao final da vida, em “Memorial de Aires”: “tudo é possível abaixo do sol e da lua. A nossa felicidade é que morremos antes”.

A respeito de “Memórias Póstumas de Brás Cubas“, Roberto Schwartz enumera algumas das referências históricas mais evidentes presentes no livro, comentadas de maneira não conformista, ainda que prudentemente cifradas e reservadas sempre a um pequeno grupo de leitores “muito atentos”:

  1. O nascimento de Brás em 1805, (mesmo ano do falecimento de Schiller, que tanto influenciara a fase romântica de Machado de Assis, cuja ruptura ocorre com as “Memórias Póstumas”), acontece nos últimos anos do Brasil colônia, antes da vinda da família real portuguesa (1808).
  2. Sua educação na infância é prototípica dos filhos dos oligarcas, em que se aprende a não conhecer normas e obedecer somente aos próprios caprichos, o que coincide com o tempo do estabelecimento Reino Unido Brasil- Portugal, assim como com o enorme afluxo e baixo valor do escravo. “Dessa terra e desse estrume, nasceu esta flor”, expressão sarcástica sobre a formação dos filhos de senhores de escravos.
  3. O primeiro cativeiro sentimental de Brás é a paixão por Marcela, uma espanhola de vida “alegre”, o que coincide com os festejos da Independência, 1822. “Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude. ” O paralelo entre “o amanhecer da alma pública” e as primeiras auroras amorosas de Brás tem a clara intenção de chocar o público da época. Brás ainda gastou trinta dias até chegar ao coração de Marcela, pois tinha um concorrente tuberculoso que a presenteava; estamos no primeiro mês de incertezas pós-independência, o que nos leva a outubro de 1822, quando D. Pedro I é coroado Imperador.
  4. “ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, chegaremos a março de 1824, quando Dom Pedro “outorga ao Brasil” sua Constituição, encerrando a aventura liberal da Primeira Constituinte, cujo modelo havia sido a “Carta Espanhola”, desterrando e prendendo opositores. Brás é “detido” por seu pai, interrompendo à força seus amores liberais e enviado à Europa.
  5. Brás vai à Europa “beber” da cultura do tempo. São anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”, durante os quais o personagem colhe de todas as coisas “a fraseologia, a casca e o ornamento”. Podemos ver aqui uma alusão ao Primeiro Reinado, ao Imperador e à maneira pela qual o Brasil, recém-saído do confinamento colonial, abraçava as ideias modernas, apenas como um ornamento, numa sociedade dirigida pelos “pró-portugueses” conservadores e escravocratas.
  6. O paralelismo dos períodos prossegue; a fase europeia encerra-se com a volta precipitada de Brás ao Brasil após oito anos, com a mãe a morrer; estamos na crise dos anos 1829/30 (falência do Banco do Brasil, por exemplo). Logo morre também o pai e Brás fica órfão, como se dizia do Brasil, com a abdicação de Dom Pedro I.
  7. A etapa seguinte de vida desperdiçada, dissoluta e semi- reclusa de Brás coincide com os anos da Regência. Com o golpe da Maioridade de Pedro II (aos quatorze anos), em 1840, Brás vem abrilhantar a vida da Corte, é literalmente um vadio, campeão da moda e amante “meio secreto e meio às claras” de uma mulher elegante da época, casada com um forte político, com o qual trava uma amizade interessada.
  8. Em 1855, encontramos Brás como Deputado e aspirante a Ministro. O único discurso proferido por ele, um dia proferido, é sobre as dimensões das barretinas utilizadas nas golas dos uniformes da Guarda Nacional. A conjuntura política era a da “Conciliação” (1853-1857) entre conservadores e liberais, e a futilidade dos antagonismos parlamentares tomava a feição de um programa político, tal qual a questão das barretinas.
  9. Por imposição da Inglaterra, em 1850, o Império proíbe o tráfico negreiro, não seu comércio interno. O progresso financeiro de Cotrim, o cunhado de Brás, como contrabandista de escravos, ocorre entre 1850 e 1860 (após a proibição), até ser beneficiário de suprimentos superfaturados à Marinha, durante a Guerra do Paraguai (1865 a 1870), período de grandes negociatas. Machado assinala esteticamente que o tráfico de negros fora substituído por uma imoralidade mais contemporânea, a corrupção com o conluio entre empresários e políticos às custas do erário.
  10. A data de sua morte, 1869, coincide com a evolução capitalista do país e princípio da decadência do Segundo Reinado. Ele mesmo, antes de ser o defunto Brás, começara a interessar-se por colonização, câmbio, vias férreas, e invenções sensacionalistas, estilo norte-americano, como o “Emplasto Cubas”, para o tratamento do mal do século: hipocondria e melancolia.

“Emplasto Brás Cubas. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. ”

John Gledson levanta uma pergunta muito pertinente: e se “Brás” significasse o Brasil, de quem o nome são as primeiras sílabas? O próprio sobrenome, Cubas, reporta-se a um tanoeiro fazedor de potes, justificado pelo pai de Brás com uma história das arábias, exemplifica a origem nada nobre da elite escravocrata que se dá ares aristocráticos e inventa historietas nobiliárias.

Referências: Russo J., C., “Textos e Contextos, de Machado de Assis aos Modernistas”, Ed. Gramma. (Texto extraído)

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