Escolhemos o romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para analisar as relações sociais no nosso Brasil de ontem e que tanto alicerçam as bases da nossa sociedade excludente do século XXI.
O romance, obra maior deMachado, tem como pano de fundo a sociedade escravocrata de meados dos anos mil e oitocentos, com foco em 1840-1850, tempos em que a oligarquia do café se sentia segura econômica e politicamente, representada ora pelo Partido Conservador, ora pelo Liberal, que se alternavam no sistema de parlamentar do Império.
São filhos, parentes ou os próprios latifundiários que se fazem representar na Corte. Uma vez nela ou nas Províncias, seus membros exercem a política baseada no compadrio e na corrupção, ou apenas nada fazem na vida, exceto flanar.
O trabalho real na sociedade ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista.
Essa é a centralidade do enredo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.
Nesse romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos da obra de um gênio.
Um morto se dirige aos vivos para criticar a realidade humana! A leitura do romance também deve levar em conta esta dupla condição do protagonista: um Brás vivo e um Brás morto! O Brás vivo tem a existência marcada por futilidades sociais, pelo desprezo que manifesta por todos aqueles que não pertençam à sua classe, à elite. Já o Brás morto é o narrador capaz de expor sem nenhum pudor os defeitos próprios e alheios: um morto não pode ser atingido pela ira de seus contemporâneos, e a com a sepultura, o “defunto narrador” ganhou alguma sabedoria para perceber o próprio modo de agir seu e de seus semelhantes, mesmo seguindo ideologicamente o padrão de sua classe quando vivia.
“É obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio… se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.
O humor machadiano irá decompor as atitudes “nobres” ou apenas convencionais pondo a nu as razões do insaciável amor-próprio, das quais a vaidade é o paradigma e a futilidade o sinônimo. Humor que mescla a convenção e o sarcasmo como um paradoxo de vida.
A forma do romance é biográfica. Como numa película cinematográfica, passam diante de nossos olhos os momentos da vida de um carioca rico e desocupado: uma infância sem limites, uma primeira juventude ocupada em amores e na dissipação pelo consumo, sequenciada por estudo de Direito em Portugal, veleidades literárias e filosofias de bolso de colete; novos amores e, na maturidade, a atividade política absolutamente indigente.
Estão absolutamente ausentes o trabalho ou qualquer projeto de vida minimamente consistente e a passagem de uma etapa a outra da vida se dá mais pelo cansaço e pela perda de interesse que por qualquer motivo mais consistente, privilégio de classe abastada que é extensão da iniquidade social presente.
“Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito! ”
Logo, a vida de Brás, mesmo que cheia de satisfações, é totalmente ausente de sentido. O que predomina é o senso geral da mediocridade. E o romance se conclui num nada, numa homenagem “ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver”.
“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto… Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. ”
A essência pessimista quanto ao destino do homem, Machado a expressa ainda no capítulo denominado “Delírio” onde diz: “Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva … nada menos que a quimera da felicidade. ”
O violentado que violenta
O sinhozinho Brás se autodenomina “menino diabo”: “Fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquina e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco… e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho… fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos”.
“Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, a guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!
Machado nos traz, depois, a reprodução da violência por parte de quem a sofrera. Muitos anos após, o negro Prudêncio, uma vez alforriado, compra um escravo para si e reproduz o tratamento recebido: “Era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente… Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei… justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — que meu pai libertara alguns anos antes”.
Os pobres, os agregados e os preconceitos de classe da elite.
Eugênia
Somente dentre os pobres, personagens machadianas nos revelam integridade moral. O símbolo é Eugênia, por quem Brás reporta o único sentimento legítimo, embora passageiro, que sentira em vida.
A moça, filha natural, na flor da juventude em determinado momento da “regência” de Brás, quase fora erguida à abastança através do casamento; termina a vida pedindo esmolas na porta de um cortiço aos sessenta anos. “A flor da moita”, como o mau caráter do narrador a denomina, justificando o desprezo posterior para com a ela, a moça concebida atrás do mato por Dona Euzébia e Vilaça, um cavalheiro abastado.
“Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”.
Eugênia não se submete aos caprichos de Brás Cubas. Na desesperança de um casamento, corta suas fantasias de paridade social e mostra “conhecer o seu lugar”. Jamais se entrega e se despoja de quinquilharias em seu último contato com o moço, metaforicamente, os adereços típicos da classe superior não lhe interessavam.
“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é, às vezes, um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”
Mais uma maneira depreciativa para quem não se curva aos caprichos do galã rico. Em outras palavras, o futuro de alguém, em uma sociedade escravocrata, depende do capricho de pessoas da classe dominante; aquela da classe inferior pode se dar por amor e se transformar apenas excepcionalmente em senhora. A dignidade natural ou cidadã de Eugênia não traz o vinco da subordinação à oligarquia e por isso irrita Brás até no além-túmulo.
Muitos anos após o pequeno namoro, Brás volta a encontrar-se com a “coxa”. “Agora é que não são capazes de adivinhar…, achei a flor da moita, Eugênia, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste. Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista”.
Dona Plácida
“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias…Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia. ”
Assim Machado de Assis descreve a gênese daqueles que nasceram para trabalhar sem descanso até que a morte os dispense. Qual o sentido de suas vidas? Servir, nada mais, pois o explorado tem uma finalidade, embora humanamente sustentável, de reproduzir a ordem social que a sua própria desgraça torna possível.
Plácida, o próprio nome o sugere, possui uma conduta maleável e curva-se aos caprichos de Brás e de sua amante Virgília, servindo-os como alcoviteira.
“Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio… Dona Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo (pela relação adúltera com Virgília)”.
Isto não impede que, ao final, o destino da pobre agregada se cumpra. “Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia; onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara”.
As relações nas classes dominantes.
Virgília
A relação entre pares é principalmente simbolizada pelo trio amoroso Brás Cubas, Lobo Neves e Virgília, esposa do segundo e amante do primeiro.
O liberalismo europeu dava sentido à emancipação da sexualidade como esfera autônoma de vida. Isso é simbolizado pela relação prolongada entre Brás e Vigília. Relação é verdade que medíocre e nada romântica.
A princípio o amante procura tomar a mulher ao marido, mas logo se acomoda no adultério, esquecendo qualquer exigência de amor exclusivo. “Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma”.
Com o decorrer da longa relação, cresce o número de futricas e denúncias anônimas de traição chegam até Lobo Neves. Mas a vitória sempre estará ao lado do cumprimento de convenções, da hipocrisia e do acomodamento, evitando o escárnio público num mundo de aparências.
“Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu juízo for temerário!) — pareceu-me que ele tinha medo — não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião pública”.
O cunhado Cotrim
Outro aspecto significativo da relação dentro da elite ocorre quando Brás Cubas se esmera na defesa de seu cunhado Cotrim, o que, mesmo para a época na Europa já seria um escândalo; no entanto, o narrador, como a elite brasileira, trata-a como exótica, reconhecendo virtudes e “normalidades” onde somente haveria crimes.
“Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado… Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.
“A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos… Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades… Não era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava…”
Referências: Russo J., C., “Textos e Contextos, de Machado de Assis aos Modernistas”, Ed. Gramma. (Texto extraído)




