Autor: Raul Longo.
29 de abril de 2026 – 5:47. Já tomei café para poder suportar o dia, mas aterrorizado pelas imagens de um pesadelo não dormi essa noite. Um pesadelo que não sonhei. Não dormi, não poderia ter sonhado. Imagens enviadas à tela de meu telefone por alguns correspondentes de África e Ásia. De alguns brasileiros que ainda conseguem se indignar com o dantesco, também recebi as imagens que tanto me aterrorizaram esta noite.
Nesse momento penso em ligar no noticiário da TV, procurar pelo computador os portais de notícias para saber de reações, indignações e repúdio às imagens que por toda a noite não me deixaram dormir. Mas tenho medo. Tenho muito medo do ensurdecedor silêncio cúmplice dos meios de informação do meu país, como acontece com o genocídio da Faixa de Gaza.
Não posso perdoar o silêncio do sono eterno em “berço esplêndido” do Brasil, embora, talvez por regionalismo, consiga entender o silêncio da extenuada América Latina. Mas e o Canadá? O próprio Congresso dos Estados Unidos? Os do Partido Democrata e do Republicano? O Departamento de Justiça dos EUA? Que silêncio é esse da dita “maior democracia do mundo”!!!? Continuarão cúmplices como no genocídio da Faixa de Gaza?
Também se dorme no dito berço da civilização ocidental. Onde estão os governos de Grécia, Itália, França, Inglaterra, Alemanha? Impassíveis como no genocídio palestino? A que civilização se referem quando alguns de seus mais destacados membros participam de banquetes em que corpos de crianças são servidos como celtas, vikings e ostrogodos serviam javalis?
Mar-a-Lago não é uma extensão de Gaza, mas uma consequência do silêncio ao genocídio de Gaza. Silêncio que pode expandir Mar-a-Lago para Palma de Mallorca, Cote d’Azur, Capri ou Copacabana.
Cadê o mundo? Cadê a civilização? O cristianismo?
O Papa Francisco se pronunciou muitas vezes contra o genocídio de Gaza. Aguardo o pronunciamento de Robert Francis Prevost, afinal Mar-a-Lago não é na Palestina, é no país de Leão XIV. Em Palm Beach, na Flórida. Amanhã ou depois poderá ser em Arembepe, no Jalapão, Acapulco, qualquer ilha do Caribe ou para o lugar aonde as consequências desse pavoroso silêncio levar.
Cadê a humanidade? Cadê o humano?
Gaza poderá ser a Baixada Fluminense, a Baixada Santista, a periferia de Bogotá, ou de qualquer outra cidade do hemisfério sul, como tantas que já o são. Quantas Mar-a-Lago se escondem entre os mais nobres bairros das grandes cidades do mundo? Em quantas periferias, morros e favelas, a polícia não age exatamente como os soldados do exército sionista ou do nazista?
Hoje se sabe que Alfredo Stroessner teve vários Mar-a-Lago em Asunción, exclusivos para meninas com menos de 15 anos porque, segundo o próprio ditador, “tienem huesos más blandos”. E o Brasil ofereceu asilo ao monstro sem nunca ter questionado seus 35 anos de ditadura que jogaram o Paraguai na condição de país mais miserável do continente.
Silêncios e suas consequências.
Tantos livros e filmes aterrorizam sobre o holocausto de 6 milhões de judeus, mas qual a hipocrisia dos que não se aterrorizam com o genocídio de Gaza? Próximo à Segunda Guerra alguns falavam em 4 milhões de ciganos mortos nos campos de extermínio nazistas. A medida que o tempo se distancia diminui-se para 40 mil, mais recentemente 4 mil. Logo serão 400, 40. Por fim, apenas 4… E pronto! Na matemática do silêncio se zerou os ciganos mortos pelo nazismo para valorizar a quantidade das vítimas do judaísmo, mas se multiplicou genocídios como os de Gaza e barbáries como a de Mar-a-Lago.
Do que se concluí que o que em verdade importa não é a quantidade de mortos, mas o que rendem. Em Gaza podem render muitos resort à beira do azul mediterrânico. Ou mais uma passagem de oleoduto vindo do Iraque invadido, da Síria governada por ex-líder da Al Qaeda. O que rendem as crianças de Mar-a-Lago além do exotismo canibalesco?
Quantas crianças em Gaza? Quantas em Mar-a-Lago?
Quantas em Treblinka, Auschwitz e Sobibor?
O holocausto dos judeus é uma consequência do silêncio aos 10 holocaustos promovidos pelo empresário inglês Cecil Rhodes na África Austral na última década do século XIX. Silêncio que ainda se mantém ensurdecedor, só rompido por algumas informações de que Rhodes considerava como cumprimento da vontade de Deus.
O holocausto de ciganos e judeus foi consequência desse silêncio e do financiamento pelo capitalismo dos EUA e Europa: GM, Ford, Dunlop, Nestlé, Walt Disney, IBM, Dow Chemical, Chanel, e tantas outras. Será que também a De Beers, a empresa de Cecil Rhodes, que ainda mantém o monopólio do mercado diamantífero do mundo? Mesmo que não, até hoje a De Beers segue explorando africanos dos antigos protetorados britânicos que em homenagem ao 10 X Hitler deram o nome de Rhodésia, do Norte e do Sul? Quantas Hitlerlândia ainda se terá no mundo? Mais quantas continuarão me tirando o sono?
Impossível dormir quando muitos ainda consideram que o genocídio de 60 milhões de africanos não teve importância por serem todos negros. A escravidão também foi apenas de negros, mas os escravizados e mortos pelo nazismo eram brancos como os palestinos. De pele morena, mas brancos. As meninas e adolescentes mortas e assadas vivas em Mar-a-Lago, muitas loiras outras de cabelo escuro, mas também brancas.
Loucura provocada pelo excesso de poder do capital e da política? Sem dúvida, mas se as igrejas Católica e reformistas, então os mais fortes poderes sobre a consciência do povo, houvessem evocado os fundamentos humanitários apregoados por Cristo ao invés de silenciar e apoiar o escravismo, se houvessem sublevado os povos contra os escravocratas, não se teria três séculos do escravismo e nem Rhodes, nem Hitler, Netanyahu ou os poderosos das orgias de Mar-a-Lago, se arriscariam a tanta desumanidade.
A humanidade evolui com o aprendizado, mas a desumanidade com o silêncio, com a impunidade. Julgados em Nuremberg, mas 1.600 levados aos EUA pela Operação Paperclip para fabricar mísseis ou trabalhar na NASA. E os mortos omitidos no holocausto de africanos de Cecil Rhodes ou os normalizados no holocausto de palestinos por Netanyahu? As barcaças de mortos da Guerra da Coreia? Os da Guerra do Vietnã?… E todas as demais.
Como explicar a barbárie em Mar-a-Lago e outras que virão, se não como consequências?
Aparentemente são crimes diferentes: pirataria, roubo de território, limpeza étnica; não são crimes sexuais, não é pedofilia. Mas a crueldade é a mesma e a impunidade de um estimula a prática de outro. Uma personagem de Doistoievsky conclui que “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Bombardear escolas, hospitais, crianças, é matar a crença em uma justiça divina, e se Deus morreu, como concluía Nietzsche e comprovam as imagens de Gaza ou as que nessa noite não me deixaram dormir, por que não assar e comer crianças?
Calígula, Nero, as fogueiras da Inquisição, o escravismo, ou Hitler, não são apenas lamentáveis lembranças históricas. Mar-a-Lago e Gaza são as consequências de hoje que esse silêncio do mundo eternizará na história do que se entende por humanidade.
Átila, que a Igreja católica chamava o “flagelo de Deus”, é uma lembrança, mas a barbárie de Gaza e Mar-a-Lago supera todos os Átilas da história. E está aqui, hoje. Amanhã em qualquer parte. Inclusive ao lado do indigno silencioso que também poderá ser a vítima.
Francisco resgatou minha desilusão com a Igreja de João XXIII depois de Wojytila e Ratzinger, mas não vejo Cristo nos Evangélicos que apoiam o genocídio de Gaza, acusando as denúncias aos crimes de Netanyahu de antissemitismo, como se iraquianos, sírios, libaneses, jordanianos, egípcios e palestinos não fossem igualmente semitas. Também o são os dos Emirados, os Sauditas e demais monarquias da Península, mas esses apoiam Netanyahu sendo igualmente responsáveis por eu ter perdido o sono nesta noite. Mas espero que dos demais minaretes do mundo os imãs entoem preces às crianças sacrificadas nas futuras Gaza e Mar-a-Lago.
Mesmo que não seja de se esperar, acredito que rabinos realmente religiosos dediquem as 18 bênçãos do Amidá às almas dessas crianças. Espero que a Yatha Ahu Vairyo dos sacerdotes do zoroastrismo, os ôros dos candomblés, os hinos védicos, as evocações de todas as religiões sejam pelos espíritos das vítimas de Gaza e Mar-a-Lago.
Porém não sei se preces e orações podem ter mais força e algum poder para conter os poderosos da política e do capital. Por outro lado, Stálin e seus sucessores me desiludiram do comunismo, e há muito que não o imagino como solução para o mundo, mas sem resgatar suas essências marxista-leninistas e usá-las para estimular os povos a reagir contra seus opressores, o que fazer para que os capitalistas parem de comer criancinhas?
AUTOR: RAUL LONGO.




