O mundo anestesiado.

Três semanas após o início da Primeira Guerra Mundial, o escritor austríaco Stefan Zweig escreveu o primeiro dos seus textos, para afastar a ansiedade e inquietação perante o conflito. Esse texto, denominado “O mundo insone”, foi seguido de outros quatro, e, reunidos, eles deram origem ao livro de título “Durante a Primeira Guerra Mundial”. Se você, leitor, encontrar alguma similitude entre este ensaio e o texto de Zweig, mostrará estar atento à leitura. Isso porque, embora o contexto em que Zweig escreveu seu ensaio seja bastante diferente do momento atual, é possível encontrar pontos em comum e, infelizmente, piores em alguns aspectos.

Zweig afirmou, no começo do ensaio, que o mundo estava dormindo menos, em razão do início da Primeira Guerra Mundial. Ele disse que acordar de um pesadelo inútil era uma benção diante da verdade aterradora da guerra de todos contra todos. Para ele, o tronar dos canhões, o barulho ininterrupto dos trens, o trote dos cavalos cruzando os campos e os disparos incessantes das armas agoniavam não apenas os seres humanos, mas também os animais e a natureza adormecida. Com efeito, a humanidade arrastou todos os seres vivos para sua batalha assassina.

O assombro de Zweig foi a constatação de que a Primeira Guerra Mundial ultrapassou os limites de qualquer guerra anterior na história que se considerasse a título de comparação, o que chamou de “uma inflamação no imenso organismo da humanidade” (Zweig, 2013, pág. 200). Bem de ver, no passado, sempre havia um lugar, mesmo nos momentos mais purulentos da humanidade, onde ainda havia o sono e o silêncio. Pessoas que acordavam e dormiam sem um sono febril. Mas o terror que então sacodia o organismo vivo da terra, parecia reverberar pelo cosmo inteiro.

A excitação coletiva das terminações nervosas da humanidade, oriunda do temor e da dúvida dos desesperados, ensejou o retorno dos verdadeiros e falsos profetas, que voltaram a ter ascendência sobre as massas. Pois a vigília é constante, em um mundo sem permissão para estar longe dos campos de batalha. Ninguém pode ficar indiferente à realidade transformada pela guerra: seres vivos e nações.

Para Zweig, um otimista em última análise, uma nova ordem seria erguida após dias tão abrasadores e noites tão sufocantes. Uma nova paz preencheria a rotina diária, com o trabalho diurno e o repouso noturno. Ele escreveu, em tom de esperança, que os combatentes que regressassem saberiam apreciar melhor a beleza da vida, com mais seriedade e justiça. Para Zweig, o chão do novo templo da paz seria regado pelo sangue sacrificado dos milhões que morreram, para que a doçura do sono pudesse ser reconquistada.

Mas será que Zweig realmente acreditava nisso? Afinal, quando escreveu esse ensaio ele já era um escritor conhecido. É razoável supor que Zweig cultivava a esperança como forma de se manter vivo. De fato, ele temia o futuro após o fim da Grande Guerra, tanto assim que, em uma carta, questionou o amigo Romain Rolland se valeria a pena viver os próximos vinte anos. Seu contundente ensaio “A tragédia do esquecimento”, escrito em 1919, é basilar para entendermos sua impaciência – e posterior desespero – diante dos impasses políticos oriundos do novo mapa da velha Europa. Animado com a criação da Liga das Nações, sequer se deu conta das pesadas reparações exigidas pelos vitoriosos e das perdas territoriais sofridas pelos vencidos, que, no final, alimentaram a chama da vingança nos perdedores.

No seu texto, confessou o desencanto com o sonho de uma nova Europa, livre do misterioso espírito do esquecimento, que faz com que a fraqueza da emoção pessoal se junte ao instinto mais profundo, inconsciente e impessoal da sobrevivência, para uma nova rodada de barbárie cheia de arrogância alheia, vaidades irritadas e mesquinhas compulsões. Nesse ponto, ele constatou perplexo, que o que chamou de “supremo conhecimento”, nascido do mais profundo sofrimento, “submergiu para sempre, mal os povos e as nações voltaram a ter um pouco de repouso e tranquilidade e alegria e lassidão”. (idem, pág. 208)

Para Zweig, a resposta era clara: a enorme fadiga, o instinto de sobrevivência e a lassidão psíquica das pessoas favoreceram o jogo político da velha mentira e da insensatez dos verdadeiros culpados e responsáveis pelos horrores da Grande Guerra, que estimularam a vontade coletiva do esquecimento. E, para Zweig, isso era trágico! Pois se a razão, impotente, não conseguiu evitar esse esquecimento, esse eterno retroceder da humanidade dos seus alvos mais puros, só nos restou a falta de discernimento para evitar a contínua divisão entre os povos, ainda que a verdade pairasse acima de cada um de nós, na espera de ser mais uma vez reconhecida.

Ora, da janela do meu escritório reflito como esses dois ensaios de Zweig fazem eco no nosso momento atual. Apesar do mundo ainda não estar envolto numa terceira guerra mundial, pelo menos não de fato, parece que já esquecemos os tempos sombrios das duas grandes guerras. Podemos constatar isso na corrida dos países pelo rearmamento militar. Mesmo o Japão, outrora pacifista, e o Brasil, mediador usual em conflitos internacionais, estão aumentando os gastos militares, o que revela um caminho sem volta, para quem conhece um pouco de história.

Mas existe uma diferença entre o mundo que aterrorizou Zweig e a nossa contemporaneidade. Se as décadas que intercalaram as duas guerras mundiais foram marcadas, na perspectiva de Zweig, por um “mundo insone”, durante a primeira guerra, e o rápido esquecimento dos horrores dessa guerra até a segunda, penso que atualmente vivemos em um “mundo anestesiado”.

De fato, estamos a viver num mundo com guerras regionais perenes, desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas a sensação é de que não nos importamos mais.

Nesse aspecto, a ascensão de Trump ao governo estadunidense pela segunda vez é sintomático, pois o discurso de campanha do “American First” não condiz com as políticas colocadas em prática nesse quase um ano e meio de segundo mandato. Pelo contrário, o que se tem visto é uma jornada bélica em proporções muito maiores do que no seu primeiro mandato.

Podemos citar, nesse contexto, a título de exemplo, o sequestro de Maduro na Venezuela; o apoio a Israel para cometer o genocídio em Gaza, tanto do ponto de vista da narrativa quanto do fornecimento de armamento; o apoio implícito a Putin, na invasão da Ucrânia; a guerra verbal contra a Europa ocidental, aliada histórica dos Estados Unidos, na tentativa de tomar a Groelândia da Dinamarca; e o cerco a Cuba, para fazê-la ceder pela fome e pela falta de combustível; atos de violência extremos que, todavia, não parecem ter sido suficientes para gerar um sentimento de revolta mundial.

Deveras, a possibilidade de Trump perder as eleições de meio de mandato neste ano nos Estados Unidos se deve mais à alta da inflação, por causa da guerra contra o Irã, do que à indignação da população pelas atrocidades que a administração trumpista tem patrocinado através do assassino e genocida sionista Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e no Irã, ou pelo cancelamento da ajuda internacional aos organismos da ONU, especialmente em questões de saúde para os países mais pobres (não à toa, o recente surto de ebola, na República Democrática do Congo, que já é considerado uma ameaça mundial).

Igualmente relevante é o fato de Trump ter perdido aliados importantes dentro do próprio movimento MAGA, como consequência da tentativa de ocultação dos arquivos do pedófilo Epstein, assim também das suas ações ditatoriais de não solicitar autorização ao Congresso Nacional sobre os assuntos de guerra.

Mas nada disso parece ser suficiente para alarmar o mundo. O silêncio dos comuns reina numa época conturbada de transições: seja a climática, energética, tecnológica ou até mesmo a humana.

Em um outro texto de 1925, “A monotização do mundo”, Zweig pareceu antecipar a severa globalização que nos acomete. Disse ele:

“Tudo se torna mais uniforme nas manifestações da vida exterior; tudo se nivela de acordo com um esquema cultural homogêneo. Os hábitos individuais de cada povo se desgastam, os trajes se uniformizam, os costumes se internacionalizam. Cada vez mais os países parecem se encaixar uns nos outros, as pessoas agem e vivem conforme um esquema, as cidades se assemelham cada vez mais fisicamente”. (ob. cit., pág 213)

Os sintomas homogeneizantes do mundo silencioso pela rápida esterilização dos povos, para Zweig, eram variados, indo da dança, da moda, do cinema e até do rádio. Para ele, a autonomia se atrofiava, a passividade inundava as nações e as culturas. A consequência era uma monotonia entranhada. O curto prazo acelerava o desgaste da vida.

Mas é justamente esse enfado que, para Zweig, não tinha nada de lúdico. Pelo contrário: ele entendia que é uma obsessão louca pela eterna fuga do tempo, fruto da mercantilização da vida e da servidão desembestada pela máquina. Assim, todos os sintomas homogeneizantes da sua época citados acima serviam como força avassaladora que não podia ser freada, pois atingia o ideal médio do povo, que é a diversão sem esforço.

Ora, se no início do século passado Zweig já chamava a atenção para os malefícios de uma vida pautada por uma tal comodidade, que até os deuses lutavam em vão, o que podemos dizer, cem anos depois, em um mundo varrido pela inteligência artificial? Será que devemos mesmo nos lançar à servidão, como disse o grande historiador romano Tácito (56 d.C. – 117 d.C.)?

Talvez fosse melhor adotar as palavras do intelectual conservador G. K. Chesterton (1874 – 1936), que afirmou, indignado, às vésperas da Segunda Guerra Mundial: “A menos que sejamos todos loucos, por trás da circunstância mais perturbadora há uma história, não existe essa coisa chamada mera insanidade” (Chesterton, 2023, pág. 13). Para ele, abalado pela catástrofe que vislumbrava no horizonte próximo, “Há na estupidez uma estranha força traiçoeira, porque ela pode estar não apenas fora das regras, mas também fora da razão” (idem, pág. 68). Chesterton avisou que a chamada evolução humana nada mais era do que um subterfúgio para abrir as portas e janelas para o progresso, e posterior destruição do intelecto humano.

Apesar de não ser propriamente um admirador de Chesterton, concordo com o que ele escreveu. Com efeito, se Zweig já alertava para o “mundo insone” antes da Primeira Guerra Mundial e, logo depois, para um estado estranho de homogeneização dos hábitos, Chesterton capturou bem a imagem de um mundo histórico que caminha para a insanidade irracional.

Nesse diapasão, os sintomas estão a postos e todos podem ver: número recorde de guerras regionais, a maioria delas por procuração da principal potência do globo; corrida para o rearmamento militar dos países, como nunca se viu depois da Segunda Guerra; ascensão sem paralelos da extrema-direita mundial; ataques coordenados ao conceito de bem-estar social, especialmente na Europa; surtos intermináveis de doenças contagiosas, vide o mais recente surto de ébola na República Democrática do Congo; a volúpia desmesurada das grandes empresas de tecnologia pela primazia nos avanços da IA, e seus modelos de dupla finalidade, ou seja, na padronização/vigilância da vida civil e na utilização em larga escala nos conflitos pelo mundo afora; etc.

Aqui vale fazer uma breve digressão para lembrar as palavras do escritor alemão Herman Hesse (1877 – 1962) sobre a máquina que antecedeu aos atuais drones. Escrevendo no meio da Primeira Guerra Mundial, ele disse:

“Grande era o progresso alcançado na igualdade sobre a terra. Ao menos na Europa, em todos os países, conforme me disseram, parecia tudo igual, a diferença entre países neutros e em guerra sumira. Desde que se executava o fuzilamento da população civil automaticamente por balões a gás, que disparavam seus tiros de alturas de 15.000 a 20.000 metros, as fronteiras entre países, embora ainda fortemente vigiadas, haviam se tornado bastante ilusórias”. (Hesse, 1974, pág. 26)

Alguém aí se lembrou, instantaneamente, do genocídio praticado por Israel contra os palestinos? Seria demais pedir que lembrasse também do famigerado serviço de imigração de Trump, denominado ICE, agindo contra a população civil estadunidense e conduzindo deportações ilegais e imorais? E o que dizer do bloqueio monstruoso contra Cuba, que os Estados Unidos estão impondo, condenando uma população inteira a viver à míngua, sem energia e mantimentos? Alguém prestou atenção às palavras do Ceo da “Big Tech” Anthropic, Dario Amodei, que vem alertando para o risco dos modelos mais recentes de IA escaparem do controle humano? Infelizmente, apenas uma pequena parcela da humanidade está atenta a essas questões cruciais, que ameaçam nosso mundo.

Vale lembrar que Hesse, no seu famoso ensaio “Guerra e Paz”, escrito no verão de 1918, afirmou que as atitudes dos homens não são ponderações racionais, pois mesmo convencidos da insensatez do ato, ainda podem cometê-lo com fervor. Para ele, também impactado pelos horrores da Primeira Guerra Mundial, ninguém sabe se um dia a verdadeira paz nos alcançará. Pessimista sobre o futuro do povo alemão, disse que o mundo deles ruiu e, apesar disso, eles continuavam procurando a resposta pelo método errado, a saber, a quem atribuir toda a culpa pelos infortúnios.

Mas os infortúnios do povo alemão, e dos povos que ele massacrou nas duas grandes guerras, são os infortúnios de todos os povos assolados pela máquina neoliberal da guerra sem limites da nossa contemporaneidade; são os infortúnios da tecnologia viciante, que transforma o “Tik Tok” num deus “ex-machina” para superar os conflitos impossíveis do nosso cotidiano, que transforma os homens em senhores e escravos, ao mesmo tempo, através do processo acelerado de virtualidade da vida; são os infortúnios dos milhões de seres humanos desempregados pela mesma tecnologia que os fascinam; são os infortúnios da tecnologia de sucção das potencialidades do nosso planeta, em favor de uma mínima elite em busca de fuga para o cosmos, deixando bilhões e bilhões de pessoas num planeta inteiro a arder pelo fogo da ganância, ou pior, a morrer lentamente de fome e sede pela completa exaustão dos recursos num mundo outrora, talvez, inigualável. 

Contudo, apesar desses alertas e de tantos outros pertinentes, continuamos anestesiados diante dos perigos que podem comprometer o futuro da vida em nosso mundo. Sim, estamos mais uma vez sonâmbulos! Como entre as duas grandes guerras anteriores, voltamos a viver diariamente de modo inconsciente e em aparente sono profundo. É como se cada dia fosse um começo e um fim em si mesmo. Por que? Porque o estresse diário imposto a todos afeta e apaga a consciência e a memória.

Na real, não nos importamos mais com o sofrimento alheio; com o derretimento das geleiras; com o aquecimento global; com a desertificação do planeta; com a volta da corrida de armamentos nucleares; com a ascensão do novo fascismo personificado, principalmente, mas não apenas, em Trump; com os genocídios praticados na Palestina, no Sudão, na República Democrática do Congo, entre outros lugares… Apenas fechamos nossos olhos para toda sorte de miséria que não nos diz respeito diretamente e tapamos nosso ouvidos para não ouvirmos os chamados de socorro de um planeta sendo destruído.

Qual o sentido de tudo isso? Como podemos reverter essa anestesia aplicada pela vida virtual, que esteriliza qualquer tentativa de promover o bem comum?

É certo que para Elon Musk, o primeiro homem trilionário da história, quanto pior as condições de vida da humanidade, melhor para seus negócios. Igualmente, para Donald Trump, presidente da principal potência do mundo, não obstante seu discurso de “American First”, quanto mais oportunidades para mostrar os músculos estadunidenses contra países sem capacidade de dissuasão, melhor para seus fanáticos súditos. Da mesma forma, não precisamos lembrar que o projeto sionista genocida de Netanyahu para se perpetuar no poder denigre a imagem dos 6 milhões de judeus mortos pelo nazismo, colocando de novo todo um povo (judeu) em perigo existencial no longo prazo.

Mas esses problemas, que já são enormes, não são todos os que se apresentam. Com efeito, o recente fundamentalismo tecnológico demonstrado pelos apóstolos estadunidenses da corrida desenfreada rumo a um futuro hegemônico de poder digital, personificados pelos sócios da Palantir Technologies, Peter Thiel e Alexander Karp, parece resumir a vertente neoiluminista de moldar o futuro do ocidente em termos de um governo global tecnológico.

Nesse ponto, a utopia de uma teologia científica em que todos serão coagidos a sofrer uma vigilância permanente, baseada em cálculos binários frios, bem como a serem aniquilados por máquinas autônomas que só respondem aos seus programadores, exacerbam um futuro distópico que deixa para trás filmes como “Blade Runner” e “Matrix”. Pois o projeto techno-humanista está muito além da mera subserviência do mercado aos novos tecnocratas donos do poder. De fato, o objetivo final deles está no que o frade franciscano italiano Paolo Benanti, teólogo e especialista em revolução digital, chamou de “colonização do interior”, ou seja, a capacidade do ser humano de questionar a si mesmo, tão cara a qualquer projeto democrático. 

Isto posto, parece que Hegel tinha razão quando rejeitou a ideia do filósofo, poeta e místico Novalis (1772 – 1801) quando este escreveu, no seu ensaio, sobre “Cristandade ou Europa”, acerca de um sonho com todas as nações cristãs unidas sob a direção e autoridade universal de uma igreja realmente católica. Definitivamente, a paz perpétua kantiana não encontrou eco nas ideias hegelianas. Pelo contrário. Os Estados buscam suas próprias subsistências e se tornam adversários de acordo com suas vontades particulares. Logo, todos os tratados dependem da perspectiva de prosperidade que cada um, em particular, tem em relação ao outro.

Destarte, segundo o filósofo Ernst Cassirer:

“Ao contrário de Novalis, Hegel não se interessa pela beleza do Estado, mas pela sua ‘verdade’. E, segundo ele, essa verdade não é uma verdade moral: é, antes, ‘a verdade que assenta no poder’. Os homens são tão loucos que chegam a esquecer (…) no seu entusiasmo pela liberdade de consciência e pela liberdade política, a verdade que reside no poder”. (Cassirer, 2003, pág. 310)

Se tudo isso é verdade, como ficamos? Mais uma vez Cassirer tem razão quando diz que a humanidade ainda se agarra na crença de que o homem pode mudar o curso da natureza através de fórmulas e ritos mágicos adequados. Mas ele faz um alerta fundamental quando diz:

“Contudo, quando pequenos grupos tentam forçar as suas aspirações e ideias fantásticas sobre grandes nações, podem obter êxito por algum tempo, obter mesmo grandes triunfos, mas estes serão efêmeros. Por que existe, apesar de tudo, uma lógica no mundo social, tal como existe uma lógica do mundo físico. Há certas leis que não podem ser violadas impunemente. Mesmo nessa esfera temos de ter em mente a advertência de Bacon. Temos de aprender a obedecer às leis do mundo social antes de podermos abalançar-nos a governá-lo”. (idem, pág. 340)

É possível que eu seja um pessimista, mas não creio que no atual estágio de recalcamento humano possamos ver triunfar ideias capazes de reverter o imediatismo do prazer digital. Pois são muitos os recalcamentos que o homem pós-modernos, à luz freudiana, precisa usar como defesa, inconscientemente, para manter afastado da sua rotina diária os conflitos, os impulsos proibidos e as angústias de uma vida precária, insalubre e perigosa. Daí o retorno do neofascismo com toda força, com seu pensamento místico de autoridade e grandeza que impulsionou a psicologia das massas na era hitleriana.

Também não acredito que os atuais partidos que ainda se auto intitulam de esquerda, possam fazer frente aos apelos de patriotismo exacerbado que os principais líderes mundiais estão fazendo, em prol de um projeto global de esferas de influência.

Um pequeno indicador de tudo isso é o fato de que conjuntos musicais coreanos de K-Pop são mais vistos e curtidos em redes sociais do que a catástrofe humanitária pela guerra no Sudão ou na República Democrática do Congo. O longo silêncio que impera no mundo desde que Israel começou sua vingança desmedida contra o Hamas, há quase 3 anos atrás – salvo as tentativas de ajuda humanitária pelas flotilhas “Sumud” -, dão o tom nefasto da falta de interesse de todos nós pela dignidade humana.

Após as duas grandes guerras mundiais, parecia que todos nós tínhamos aprendido a lição de um mundo tão devastado pela barbárie. A reconstrução mundial foi baseada na ideia europeia da política do “Welfare State”. É claro que o planeta não deixou de ter guerras regionais, nem protagonizar horrores individuais, dentro de cada país. Mas havia um aroma de esperança nas primeiras décadas do pós-guerras.

Infelizmente, esse aroma esvaiu-se muito rapidamente. Ao invés de saborearmos os frutos da vitória da razão frente ao monstro nazista, apequenamo-nos novamente com perturbações peculiares do inconsciente parecidas com aquelas que Carl Jung já havia notado no final da Primeira Guerra Mundial. Escrevendo em 1945 um ensaio intitulado “Depois da Catástrofe”, Jung, lembrando Nietzsche, diz que:

“É uma lei psicológica imutável que, quando uma projeção chega ao fim, ela sempre retorna à sua origem. Assim, quando alguém se depara com a ideia singular de que Deus está morto, ou não existe, a imagem psíquica de Deus, que é uma parte dinâmica da estrutura da pisque, encontra o caminho de volta para o sujeito e produz um estado de ‘Deus Todo-Poderoso’ …. ‘Deus Todo-Poderoso’ não torna o homem divino, apenas o enche de arrogância e desperta tudo de mau nele. Produz uma caricatura diabólica do homem, e essa máscara desumana é tão insuportável, uma tortura tão grande usar … que ele tortura os outros”. (Jung, 2013)

O mesmo sentimento de fraqueza do indivíduo, de impotência e até de inexistência que Jung detectou lá no início do século passado retornou neste início do século XXI, ainda mais forte pela virulenta potência do mundo virtual. Portanto, se lá atrás a tal “ganância insaciável dos desfavorecidos”, como chamou Jung, foi ardilosamente manipulada pelos nazistas, não parece que a mesma ganância dos abandonados dessa vez pode nos levar ao estágio último da civilização humana?

A diferença é que Hitler levou 11 anos para assumir de vez o poder na Alemanha, desde o chamado “Golpe da Cervejaria” em 1923. Hoje, alguns neofanáticos com potencial de destruir o mundo já estão no poder: Trump, Putin, Netanyahu, entre outros menores. Nem por isso a maioria da população global está dormindo e acordando em sono febril, como Zweig percebeu no seu “mundo insone”. Não. Não perdemos o sono porque bombas caem toda hora na cabeça de crianças. Mas se ficarmos 5 minutos sem internet, perdemos nosso autocontrole, nossa ansiedade dispara, ficamos inseguros diante de um mundo real que não mais nos pertence.

Se nesse ínterim, alguma bomba atômica for novamente explodida em alguma comunidade ao redor do planeta, não importa onde, talvez seja a hora de fazer o que Zweig fez, ao saber do torpedeamento do primeiro navio brasileiro por submarinos nazistas – quando ele residia em nosso solo pátrio -, a saber, abdicou da humanidade.

Referências:

1 – ZWEIG, Stefan. O mundo insone. Rio de Janeiro: Zahar, 2013;

2 – CHESTERTON, Gilbert Keith. A barbárie de Berlim. São Paulo: LVM Editora, 2023;

3 – HESSE, Hermann. Sobre a Guerra e a Paz. Rio de Janeiro: Record, 1974;

4 – CASSIRER, Ernst. O MITO DO ESTADO. São Paulo: Códex, 2003;

5 – JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. São Paulo: Vozes, 2013.

André Márcio Neves Soares*

*André Márcio Neves Soares é Administrador de Empresas, Psicólogo, doutor em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador- Bahia e funcionário público do judiciário federal há 30 anos.

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