O pior dos mundos.

Nossa contemporaneidade atravessa, talvez, o pior dos mundos. Um tempo de um falso rei louco, narcisista e doente à frente do maior complexo industrial-militar que a história já conheceu. Além disso, um rei mafioso, que estabelece como dogma a supremacia total e incontestável dos Estados Unidos. Isso, por si só, não deveria causar assombro. Afinal, todo grande império ao longo da história esteve muito mais próximo de características mafiosas do que gostamos de admitir. No entanto, o segundo governo Trump assombra por ser ele mesmo o mafioso por excelência da política mundial.

Vale aqui fazer uma breve digressão sobre a máfia. Segundo os registros históricos, ela começou na Sicília, Itália, como um sistema de proteção para agricultores contra invasores e senhores feudais, e evoluiu depois para uma rede de poder e controle territorial. É claro que esse tipo de instituição de poder informal, mas muito concreta na prática, sempre existiu na história. É fácil encontrar na literatura mundial clãs, organizados como famílias, que controlavam territórios, partilhavam códigos de lealdade, honra e vingança, com rituais e iniciações, e aversão às autoridades. Na época mais recente das monarquias hereditárias, por exemplo, mesmo dentro dos palácios monumentais, famílias de nobres se estabeleciam em grandes clãs mafiosos que, embora aparentemente leais ao seu soberano, por debaixo do pano lutavam entre si por poder e protagonismo nas decisões do rei, ao ponto de tramar sucessões sangrentas.  

Ora, Trump apenas colocou ordem no Leviatã de Hobbes, tão esquecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele resgatou a política da guerra de todos contra todos, onde “os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem o que merecem”. Mas, de fato, é ingênuo pensar que o soberano absoluto hobbesiano, forte, indivisível e acima das leis, ainda que estivesse focado na manutenção da ordem e segurança geral em seu próprio benefício, não tivesse conhecimento das ações mafiosas de seus parentes e súditos. Pensar o contrato social, em que os indivíduos, em troca de paz e segurança, cediam seus direitos a ele, soberano (o Leviatã), cujo poder era absoluto e indivisível, para garantir a ordem contra o caos do “estado de natureza”, onde a vida seria “a guerra de todos contra todos”, não faz sentido algum se o soberano fosse um alienado em termos das tramas populares, quiçá palacianas. Nas vezes em que o foi, reis e rainhas foram trocados, cabeças de sangue azul rolaram.

Então, o que há de diferente na atual ordem mafiosa trumpiana? O contexto histórico.

Salvo engano, desde que os Estados Unidos ascenderam como principal potência hegemônica do globo, é a primeira vez que eles se arvoram como país soberano do mundo. Realmente, após a “Doutrina Monroe”, que estabelecia a América Latina e Central como quintais dos Estados Unidos; o “Corolário Roosevelt”, que afirmava o direito dos EUA de intervir militarmente em nações latino-americanas consideradas “incapazes” ou “relutantes” em manter a ordem interna e cumprir suas obrigações, ou seja, segundo o próprio Roosevelt “falar baixo com um porrete na mão”; o “Corolário Brejnev”, que defendia uma política externa soviética que autorizava a intervenção militar em qualquer país do bloco socialista cujas políticas ameaçassem o socialismo, ou seja, colocava o leste europeu como quintal da União Soviética; e o “Corolário Reagan”, que sugeria uma reinterpretação ou extensão das regras existentes do direito internacional para justificar a ação unilateral do Estado e um amplo direito de autodefesa, com menos dependência de instituições internacionais como as Nações Unidas; o “Corolário Trump” representa a radicalização doutrinária da política estadunidense – mas poderia ter sido soviética, se a União Soviética tivesse assumido a hegemonia do mundo – que dá substância teórica ao neoliberalismo hiperelitista.

Em bom português, submetam-se ou sofram as consequências.

Mas aqui começam os problemas para Trump e sua gangue de mafiosos. Pois se a política externa ia bem, no aspecto da imposição de tarifas e de realinhamento do hemisfério ocidental à vontade estadunidense – com todos os países acovardados pela “blitzkrieg” econômica-militar trumpiana, salvo a China -, a tentativa desmesurada de tomar a Groelândia da Dinamarca é um ponto de inflexão na aliança Estados Unidos-Europa, notadamente dentro da OTAN. Apesar do aparente recuo de Trump no discurso do Fórum Econômico de Davos, as notícias, que chegam até nós, apontam a profunda indignação dos europeus com o assédio americano, a ponto de Trump ter sido criticado até pelos principais expoentes dos partidos de extrema-direita de lá. Além disso, internamente, o decréscimo no apoio popular começa a preocupar. Realmente, as ações brutais do ICE, órgão do governo dos Estados Unidos que aplica as leis de imigração, com o assassinato de uma cidadã americana e a detenção de um garoto de 5 anos, para forçar que os pais se entregassem, ensejou manifestações públicas significativas, com dezenas de milhares de pessoas protestando ao longo da semana passada.

Vou tentar separar a política “trumpiana” externa, ou seja, as relações internacionais entre os Estados Unidos e o resto do mundo, da política MAGA (Make American Great Again) para a base eleitoral de Trump, dentro das fronteiras estadunidenses, para melhor entendimento do leitor.

No que concerne à política externa americana no segundo governo Trump, começo com o professor de História Contemporânea na Universidade Autônoma de Barcelona, Steven Forti, que publicou um texto onde defendeu que uma espécie de “neoimperialismo” substituiu a ordem neoliberal global (1). Segundo ele, esse “neoimperialismo” tem a extrema-direita como seu principal ator, na figura dos tecnoligarcas, e vem usando cada vez mais a religião como arma política. É interessante o professor Forti resgatar a ideia de Stefan Zweig (1881 – 1942) sobre o “mundo de ontem”. Para Forti, esse passado acabou. Não discordo, em essência, do que disse Forti. Mas discordo dele quando afirma que a nova fase histórica em que entramos possui características incertas. Por dois motivos: primeiro porque ele não delimita a nova fase histórica. Se ele está se referindo ao período do primeiro mandato de Trump em diante, como parece ser, penso que a substituição da ordem liberal global – globalização para alguns, ou neoliberalismo para outros – pelo “neoimperialismo” precisa voltar ainda mais no tempo, pelo menos até a crise dos subprimes americanos em 2008.

Segundo porque o “mundo de ontem” de Zweig era restrito ao modelo eurocêntrico, notadamente a ascensão e queda da velha Europa, desde a época da “belle époque” até seu exílio entre as duas Guerras Mundiais. Nesse contexto, se o passado a que Zweig se referiu de grande prosperidade entre os anos de 1871 a 1914 foi desmantelado com a Primeira Guerra Mundial e a década seguinte, que resultou na Segunda Guerra Mundial, o pós-guerra viu renascer uma Europa destruída em 1945. Não à toa, as três décadas seguintes foram descritas como os “anos dourados” por vários historiadores. Portanto, se estivesse vivo, Zweig teria, talvez, atualizado seu pensamento sobre o “mundo de ontem”. 

Ainda assim, o ensaio do professor Forti é muito valioso, no sentido de definir um novo sistema internacional “neomonárquico”, baseado em um pequeno grupo de elites altamente privilegiadas, que tenta legitimar seu excepcionalismo através da técnica para criar novas hierarquias materiais e de status. Ao capturar o Estado com seu aparato tecnológico autoritário e submeter as antigas elites dominantes através do controle das infraestruturas de governança, os novos autocratas – a maioria deles oriundos do Vale do Sicílio, mas não só – precisam de homens fortes, ou predadores, como bem disse Giuliano da Empoli. Por conseguinte, Trump, Putin, Xi Jinping e Modi, entre outros menores, são mais a consequência de uma nova era em que a democracia passa a ser um mero verniz na ordem internacional, do que a causa formal do declínio da globalização. Daí que a “Janela de Overton”, citada por Forti, parece ter realmente se deslocado para a extrema-direita, nesta era da pós-verdade, da desinformação e de extremismos políticos.

Ora, se bem me recordo, desde que os Estados Unidos abandonaram o padrão ouro na década de 1970, vozes mais críticas ao capitalismo já anteviam o esgotamento do modelo do sistema produtor de mercadorias infinito. É por isso que Robert Kurz (1943 – 2012) denunciou que “Nunca houve tanto fim” (2). De fato, Kurz entendia que o fim da história, se realmente houver, não seria como um final feliz, mas algo como um novo Titanic. Por consequência, o período neoliberal, que conseguiu a derrocada dos regimes socialistas, ao invés de ser uma vitória do sistema capitalista, pavimentava seu caminho para uma falência catastrófica. Assim, ele entendia que era preciso que esse sistema mundial da rentabilidade e dos processos abstratos de exploração fosse interrompido, ou melhor, aniquilado. Para Kurz:

“Tratar-se-ia de uma revolução de fato, mas não daquele tipo no qual uma ‘classe’ dentro da forma-mercadoria (e constituída por essa) tivesse de ‘derrotar’ outra ‘classe’, como sujeito antípoda. A possível violência resultaria unicamente do fato de que um sistema louco e perigoso para a humanidade não será abandonado voluntariamente por seus representantes (os executivos, a classe política, e o aparato de administração e de emergência)”. (KURZ, 1992, págs. 218/219)

Escrevendo no final dos anos 1980, ainda na era analógica, Kurz anteviu a falta de sentido em recorrer ao Estado contra o mercado. Como gêmeos, ele viu que a falha de ambos era a incapacidade de funcionamento e de integração da forma de reprodução social na modernidade.

Do mesmo modo, Fredric Jameson (1934 – 2024) se preocupava com a forma como os Estados Unidos radicalizavam sua maneira de impor o imperialismo estadunidense pelo mundo afora (3). Jameson sugeriu um terceiro estágio para a política externa ianque, à luz dos escritos do cientista político conservador americano Samuel Huntington (1927 – 2008), com armas nucleares apenas para os Estados Unidos, direitos humanos e democracia eleitoral nos moldes americanos e menos limites à imigração e ao livre mercado da força de trabalho. Ele ainda acrescentava uma quarta política que entendia ser crucial para o sucesso do neoliberalismo capitaneado pelos Estados Unidos, a saber, a propagação do mercado livre pelo planeta inteiro.

Nessas circunstâncias, Jameson se perguntava se as outras nações teriam chance de ter alguma autonomia nessa nova ordem mundial. Cético em relação a isso, Jameson achava que a “A irreversibilidade sempre foi uma característica fundamental de toda essa história” (1991, pág. 26). Sobre a globalização, Jameson citou o filósofo político inglês John N. Gray (1948) (4), assim dizendo:

“Gray segue Karl Polanyi (A Grande Transformação) em sua estimativa das consequências devastadoras de qualquer sistema de mercado livre se integralmente implementado. Ele vai além de seu guia ao identificar a contradição essencial da doutrina do livre mercado; a saber, que a criação de um mercado efetivamente livre de governo envolve uma enorme intervenção governamental, e, de fato, um aumento do poder de um governo centralizado. O mercado livre não cresce naturalmente: precisa ser criado através de meios legislativos drásticos e de outras medidas intervencionistas”. (Jameson, 1991, págs. 28/29).

Mas Jameson também nutria esperanças profundas sobre a reversão futura da dominação imperialista americana, ao se apegar às vicissitudes da história mundial de que nenhum império dura para sempre. Ainda sobre Gray, Jameson concorda com ele sobre o fato de que o universalismo americano, sob a rubrica da civilização ocidental, não é compartilhado na maioria do resto do mundo. Com efeito, mesmo na Europa Continental, os valores absolutos do livre mercado nem sempre foram bem-vistos. E cita que até mesmo Huntington não via com bons olhos as intervenções militares estadunidenses, ao estilo policialesco, em diversos lugares do mundo. Nesse ponto, uma solução viável seria, para Jameson, os países se aferrarem às suas próprias tradições culturais para tentar mitigar os rigores do livre mercado.

Após trazer a lume dois pensadores que considero bem fecundos para o tema deste ensaio, acredito estar mais embasado teoricamente para desenvolver um pouco mais minha discordância de Forti, quanto a entrarmos numa quadra histórica com características incertas. Penso, ao contrário, que a atual fase neoimperialista, promovida pelo capitalismo mafioso de Donald Trump, nada mais é do a sequência natural de um organismo enfermo terminal, porém extremamente robusto e financeiramente capaz, que usa de todas as artimanhas e recursos para não morrer. Logo, é preciso entender as inúmeras redes sociais como centros nervosos de um corpo em colapso, que se refugia nas capilaridades internas, que desenvolveu ao longo de uma vida, justamente para um momento como esse, em que o seu próprio tempo de duração parece estar no fim.

Permita-me ser bem claro, caro leitor: as características incertas da história ficaram para trás apenas se quisermos adivinhar o futuro a longo prazo. Destarte, até pouco mais de trinta anos atrás o mundo ainda vivia a bipolaridade do pós-guerra, dividido entre os Estados Unidos e seus seguidores e a União Soviética e seu bloco de influência. A queda do Muro de Berlim em 1989, tão decantada por alguns apressados como o “fim da história”, revelou apenas que a história seguiria desse dia em diante em uma só direção, qual seja, a direção do fim da globalização (ou neoliberalismo, como queiram). Pois, por mais que os Estados Unidos tentassem, e se esforçaram ao máximo, seria impossível controlar o mundo todo de acordo com seus parâmetros de vassalagem. Pensadores do quilate de Emmanuel Todd (1951), cientista político francês, identificaram, então, uma profunda crise do Ocidente, uma vez que a concentração de poder corporativo e a violação de direitos humanos básicos (alimentação, moradia, água, energia, transporte, aposentadoria etc.) atingiram níveis tão altos que a ordem neoliberal, que emergiu após a queda do Muro de Berlim, entrou em decadência devido às suas próprias contradições.    

O problema maior, todavia, não é tanto o declínio da ordem neoliberal, mas o que vem a seguir. Ainda na década de 1930, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt alertou que tão perigoso quanto um governo controlado pelo dinheiro organizado, é um governo controlado pela máfia. Se, após o pós-guerra, o mundo caminhou para um capitalismo cuja estrutura de poder se tornou difusa, na qual o Estado e as grandes corporações atuaram ardilosamente sob o disfarce de instituições democráticas, naquilo que o teórico político e escritor americano Sheldon S. Wolin chamou de “totalitarismo invertido”, qual a consequência mais lógica para a nossa contemporaneidade em que o Ocidente tem perdido sua hegemonia paulatinamente?

Apesar de toda a torcida para que as instituições mais progressistas do mundo consigam “explodir o sistema”, como recentemente frisou o economista e professor britânico Guy Standing (5), minha hipótese é que isso não irá ocorrer. Pelo menos não a curto ou médio prazo. Afinal, qual instituição democrática mundial possui protagonismo suficiente para alavancar uma revolução dessa? Com efeito, apesar da crise climática ser uma realidade e o sistema produtor de mercadorias estar esgotado, não há, no horizonte, alternativa plausível para reduzir a forte concentração de renda, riqueza e poder em uma pequena plutocracia e elite autossatisfeita.

É verdade que a ideia de uma renda básica universal vem ganhando corpo no imaginário progressista. O próprio Standing é um defensor fervoroso dessa ideia. Contudo, os sinais ainda são muito incipientes, e quase todo o arcabouço teórico de Standing está baseado na crença de que o “precariado”, nomenclatura que ele usa para definir a classe trabalhadora de massas, tem se reinventado aos poucos com o objetivo de recuperar uma política de seguridade básica. Mas ele mesmo reconhece que essa massa não é homogênea, o que dificulta ainda mais uma consciência coletiva em busca da recuperação dos bens comuns.

O já mencionado historiador Juan Laborda (1978) escreveu um artigo onde defendeu que “as elites ocidentais parecem estar abandonando as formas liberais e democráticas que outrora promoveram em favor de fórmulas abertamente autoritárias ou neofascistas” (6). Para Laborda, o neofascismo declarado do ocidente é a resposta que suas elites estão dando contra a mudança no equilíbrio global de poder. Na verdade, a ascensão meteórica da China, além de outros países e instituições emergentes – por exemplo, os BRICS -, escancarou para o mundo que o Ocidente não domina mais o cenário econômico ou geopolítico. É por esta razão que, segundo Laborda, as elites ocidentais, políticas e corporativas se preocupam cada vez menos em preservar a fachada democrática que servia para a manutenção do “status quo” pós-guerra. 

Entretanto, é imperioso entender que o neofascismo ocidental não começou com Trump – ele é muito mais um sintoma do que a verdadeira causa -, pois a deriva sistêmica estadunidense vem, pelo menos, desde o conflito armado nos Balcãs, em 1999, oportunidade em que a OTAN deflagrou uma intervenção militar contra a República Federal da Iugoslávia, para deter a repressão sérvia sobre a população albanesa em Kosovo, sem a autorização prévia do Conselho de Segurança da ONU.

E era só uma questão de tempo até que aparecesse um líder, na principal potência militar global, com retórica ultranacionalista, como Donald Trump, esperto o suficiente para capitalizar o descontentamento de amplos setores da sociedade ianque junto às facções da elite dispostas a interromper as regras liberais tradicionais. 

Nessas circunstâncias, enquanto os ditadores sanguinários que apareceram nos confins do mundo, alguns colocados pelas principais potências do planeta, permitiram que essas que se lambuzassem com as riquezas alheias, os principais donos do espólio da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos à frente, se esforçaram ao máximo para neutralizar qualquer ameaça contra a ordem política-econômica vigente. Mas bastou que um país, a China, conseguisse furar o bloqueio imposto pelo avanço tecnológico do neoliberalismo em desfavor dos países emergentes – através de uma política de Estado de aprendizagem e repetição das novas tecnologias, que a tornou o atual chão de fábrica do mundo -, para que o sistema produtor de mercadorias infinito tivesse que recorrer à força objetivando mitigar seu descarrilhamento global. Eis a nova fase da história: a fase do confronto.

Penso que aqui precisamos recorrer a um dos principais historiadores marxistas do século XX, Eric Hobsbawm. No seu livro “Globalização, Democracia e Terrorismo” (7), Hobsbawm lembrou que o auge do Estado-nação se deu há cerca de quarenta anos, motivado pelo sistema de “bem-estar social” europeu. E que por mais de duzentos anos, até a década de 1970, a ascensão do Estado moderno deu-se de maneira contínua e independente da ideologia e da organização política. Todavia, com a globalização galopante da economia mundial nas últimas décadas, baseada em empresas transnacionais que fazem todos os esforços para se manter fora do alcance das leis e dos impostos do Estado, o Estado-nação entrou em declínio.

Hobsbawm enfatizou, ainda, que a globalização dramaticamente acelerada também produz, pela sua própria natureza, crescimentos desequilibrados e assimétricos, que põem em destaque as contradições da vida contemporânea para aqueles que estão sujeitos à globalização e às pressões da padronização global e para os que não estão sujeitos a ela, principalmente o Estado e a política. Essas desigualdades proporcionadas pela globalização descontrolada dos mercados livres são, na visão do referido historiador, incubadoras naturais de descontentamentos e instabilidades.  

Daí a pergunta que ele se fez, quase no fim do segundo capítulo do livro, a saber: “Por que os Estados Unidos abandonaram as políticas que mantiveram uma hegemonia real sobre a maior parte do globo, ou seja, as partes não-comunistas e não-neutralistas, depois de 1945”? (2007, pág. 49)

Obviamente, Hobsbawm sabe da importância da enorme riqueza americana e do papel crucial que a gigantesca economia estadunidense teve nas décadas posteriores a 1945. Sabe também que o fim da União Soviética e a superioridade militar incontestável dos Estados Unidos puseram a termo um sistema internacional plural de grandes potências que evitou o colapso geral da ordem jurídica internacional e grandes guerras, exceto no que chamou de era das catástrofes, de 1914–1945. Escrevendo ainda na aurora desse século, Hobsbawm revelou grande perspicácia como historiador ao apontar a China como provável futura superpotência rival dos Estados Unidos.

A resposta para sua pergunta acima, contudo, foi mais simples do que o esperado: a megalomania política dos Estados Unidos, a partir do Onze de Setembro. Com efeito, a retórica imperial americana, comparada erroneamente pelos ideólogos do Governo George H. W. Bush (1946) à pax britannica do século XIX, lançou ao mundo a ideia de uma nova era de paz mundial e de crescimento econômico sob o comando imperial americano. Ora, como bem apontou Hobsbawm, essa ideia inverteu a lógica do Império Britânico que cresceu na ausência de conflitos internacionais de grande porte. Afinal, como disse Hobsbawm, “os impérios não criam paz e estabilidade no mundo à sua volta, ao contrário de seus próprios territórios”. (2007, pág. 48)

Terrivelmente profético, Hobsbawm vaticinou assim a sequência do império americano:

“Francamente, não consigo entender como o que ocorreu a partir do Onze de Setembro nos Estados Unidos pôde permitir a um grupo de alucinados políticos pôr em execução planos há muito acalentados de uma atuação unilateral em busca de supremacia mundial. Creio que isso indica uma crise na sociedade americana, que encontra expressão na divisão política e cultural mais profunda ocorrida naquele país desde a guerra civil e numa aguda divisão geográfica entre a economia globalizada das duas costas marítimas e o interior, vasto e ressentido; entre as grandes cidades, culturalmente abertas, e o resto. Hoje, um regime de direita radical busca mobilizar os ‘verdadeiros americanos’ contra alguma força externa malévola e contra um mundo que não reconhece a singularidade, a superioridade e o destino manifesto dos Estados Unidos”. (ob. cit., pág. 52)   

Cabe perguntar: é possível fazer dessas palavras de Hobsbawm um “link” com o governo Trump, mais de vinte anos depois?

É preciso concordar com Hobsbawm de que o projeto de supremacia que o governo americano tentou estabelecer globalmente sempre esteve, quase inevitavelmente, fadado ao fracasso. O sonho de um império mundial, capaz de estabelecer a ordem e a estabilidade no planeta, em um mundo cada vez mais desordenado e instável, é um mito histórico. Como bem lembrou Hobsbawm, a palavra “pax” está atrelada à paz dentro do império, e não internacionalmente. Mas ela é falsa também, pois todos os impérios mundiais conduziram operações militares dentro dos seus próprios territórios. O que denota que a paz mundial, quiçá a paz regional, nunca foi conhecida pela história, muito menos agora que o ordenamento mundial pós-II Guerra Mundial está vindo abaixo.

Alguns dias atrás, um pequeno e esclarecedor texto do professor José Luís Fiori pareceu corroborar a minha hipótese do confronto (8). Ao afirmar que o sistema internacional está vivendo uma convulsão, devido à luta pelo poder global das potências que resistem e daquelas que desafiam a velha ordem em decomposição que geram enorme intensidade e grande imprevisibilidade, Fiori reconhece que “o sistema como um todo se defende da sua própria entropia ‘fugindo para frente’ e expandindo-se em todas as direções, até o momento em que se redesenhe o novo mapa do poder global, através de uma sucessão de guerras interconectadas”. A expansão do poder é a lei orgânica implacável da dinâmica entre potências de todas as eras, ainda mais na atualidade, em que a tecnologia tem fabricado armas que não necessitam mais tanto da proeminência dos exércitos físicos.

Passo, agora, à questão interna dos Estados Unidos.

Se no âmbito exterior a política neoimperial de vassalagem que os Estados Unidos tentam impor ao hemisfério ocidental parece um fato consumado – ainda mais com a Europa fragilizada pela “operação militar especial” que a Rússia desfere contra a Ucrânia -, no âmbito interno as coisas vão de mal a pior para o governo Trump. De fato, a sua “gestapo”, ou melhor ICE (Serviço de Imigração e Alfândega Estadunidense), vem radicalizando, com emprego da violência contra a população das cidades gêmeas Minneapolis e Saint-Paul -, especialmente na primeira, onde, nas últimas semanas, uma cidadã e um cidadão americanos foram mortos a tiros, ou melhor, assassinados à queima-roupa, mesmo sem oferecer qualquer risco à integridade dos agentes -, e, em resposta, a população tem  se mobilizado contra essa violência desmesurada,  o que tem impactado diretamente na política americana.

Uma semana atrás, um colunista do The New York Times, David Brooks, escreveu que o “colapso de Trump está a caminho” (9). Para ele, Trump apresenta um declínio do estado mental aparente (aliás, ele não é o único a mencionar esse declínio mental), e os narcisistas, como o presidente americano, às vezes pioram com a idade, tornando-se menos inibidos. Nessas circunstâncias, uma pessoa com tanto poder pode ser devastadora para o planeta. Brooks alega que tiranos como Trump se embriagam com o próprio poder, são arrogantes, possuem pouca ou nenhuma empatia, são corruptos, violentos e desencadeiam reações exageradas e ferozes, quando recebem alguma crítica que, paranoicamente, percebem como ofensa.  

Um ano após tomar posse para seu segundo mandato, Trump começa a perceber o esgarçamento da sua rede de apoio entre os republicanos. Com efeito, as mídias tradicionais pelo mundo afora já documentam a apreensão de vários dos seus apoiadores, tanto no legislativo quanto no executivo dos estados que têm pressionado o governo federal para acabar com a violência desenfreada, especialmente as grotescas cenas dos agentes encapuzados da Patrulha de Fronteira de Minneapolis executando friamente o enfermeiro Alex Pretti com 10 tiros. O candidato republicano Chris Madel desistiu de concorrer ao governo do estado de Minnesota, por não concordar com a operação contra a população local. Outro exemplo importante foi a fala do senador do Texas, o republicano Ted Cruz, que recomendou moderação nas atitudes do governo, para que não se perca mais nenhuma vida.

É verdade que os integrantes mais “nazificados” do governo Trump continuam a colocar lenha na fogueira. Logo após o assassinato de Alex Pretti, os mais radicais tentaram oferecer narrativas fantasiosas de terrorismo, tanto por parte desse enfermeiro quanto da mulher morta no início do mês, Renne Nicole Gold. A aloprada secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, rotulou imediatamente o enfermeiro como terrorista doméstico e o comandante da Patrula de Fronteira, Gregory Bovino, disse que ele queria massacrar agentes e elogiou a ação de seus subordinados. O mentor do tirano Trump, Stephen Miller, vice-chefe de Gabinete da Presidência, acusou o enfermeiro de ser um aspirante a assassino. Nada disso deu certo. Horas depois do assassinato de Pretti, vídeos viralizaram mostrando o enfermeiro desarmado, deitado no chão e sendo executado. O mal-estar é geral!

O analista do jornal inglês The Guardian, David Smith, chamou a operação de uma espécie de um videogame famoso: “Call of Duty”. Para ele, as operações de Trump foram direcionadas cuidadosamente para as cidades governadas por democratas (e ele está certo), e se essas cidades tiverem governantes negros, melhor ainda. Smith ainda lembra que Minnesota impôs derrotas sucessivas a Trump nas eleições passadas de 2016, 2020 e 2024. Na verdade, nenhum republicano venceu lá – nem mesmo Ronald Reagan, na década de 1980 – desde Richard Nixon em 1972. Ele lembra também que foi exatamente em Minneapolis que George Floyd foi assassinado, em 2020, dando impulso aos protestos do movimento “Black Lives Matter” que chegaram até a porta da Casa Branca.

Mas os problemas internos de Trump vão muito além da questão da imigração. Com efeito, a principal promessa de campanha, que está estampada no boné que Trump usa sempre que pode – “Make America Great Again” (Faça a América grande novamente) –, não foi cumprida até agora. Os números da economia americana não melhoraram. Pelo menos não a ponto de fazer jus ao estardalhaço desse lema tão hipócrita quanto irreal. Afinal, não é através da expulsão de imigrantes que os Estados Unidos voltarão a ser a potência econômica que foram até os longínquos anos 1970.

Se é verdade que a economia dos EUA atualmente mostra sinais de resiliência, com o crescimento do PIB impulsionado pelo consumo e exportações, ela também enfrenta desafios, como a volatilidade do dólar, as pressões inflacionárias e um grande endividamento, decorrente da manutenção da taxa de juros pelo Fed, gerando debates sobre o futuro e o status do dólar como porto seguro global.

Realmente, o Banco Mundial prevê um aumento do PIB norte-americano da ordem de 2,1% em 2025. É melhor do que a previsão do início do ano passado, de apenas 1,4%, porém ainda abaixo do crescimento de 2,8% em 2024. Some-se a isso o enfraquecimento do dólar em 2025, impactado por fluxos globais para emergentes, decisões políticas e especulações, com diminuição do seu status de porto seguro; uma taxa de inflação persistente em 2,7%; a desaceleração do mercado de trabalho nos EUA em 2025, que apresentou sinais de enfraquecimento no final do ano, com a criação de empregos atingindo 50 mil vagas em dezembro, abaixo das expectativas; e a taxa de desemprego oscilando entre 4,4% e 4,6%. Na verdade, as vagas de emprego caíram para os níveis mais baixos em 14 meses, evidenciando um mercado de contratações apático e alta nas demissões em certos setores. Se isso não é uma catástrofe, também está longe de ser animador.

Isso posto, penso que a pior faceta do segundo governo Trump é a propensão descarada e impune para violar leis, normas e princípios constitucionais temporais. Com a conivência de um legislativo corrompido e acovardado, Trump exige submissão total do seu séquito mais próximo, por causa de sua sede ilimitada de poder. É, de longe, a crise de representatividade política estadunidense mais grave desde a Guerra Civil. Trump conseguiu reunir quase todos os poderes sob seu controle. Aquela ideia que remonta a Montesquieu e John Locke, de criar um governo eficaz e autorregulado, que delegasse ao Estado apenas os poderes especificados na Constituição, e um sistema de freios e contrapesos institucionais, que funcionariam no interior do governo nacional, parece estar seriamente abalada.

Hobsbawm alertou para essa perda de controle dos limites do poder executivo pelas outras instituições que compõem o arcabouço constitucional dos Estados Unidos. No âmbito externo, disse que: “Poucas coisas pode haver que sejam tão perigosas quanto os impérios que buscam satisfazer seus próprios fins acreditando que estão fazendo um favor à humanidade” (ob. cit., 2007, pág. 155). No âmbito interno, frisou que: “Internamente, o perigo real que corre um país que se lança ao controle do mundo por meios essencialmente militares é a sua própria militarização. Esse perigo tem sido seriamente subestimado” (idem, pág. 160).

Quero concluir dizendo que a história é pródiga em nos mostrar que a hegemonia mundial de um império só é verdade até onde a cultural imperial foi tão forte e vasta que lhe permitiu atravessar os milênios para nos contar suas proezas. Assim, Impérios como o Egípcio, o Persa, o Romano e até o Britânico moldaram a história do ser humano até a contemporaneidade antropocêntrica. Mas não será o caso da hegemonia americana. Se levarmos em consideração que a hegemonia americana nunca foi total no planeta, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, período em que ela rivalizou com a cortina de ferro soviética até o fim da década de 1980, oitenta anos de uma supremacia que avançou aos “trancos e barrancos” é muito pouco tempo, até para a história do homem.

Mas duas coisas me inquietam profundamente. A primeira é a hipocrisia ocidental de achar que tiranos ou déspotas só podem aparecer em sociedades pretensamente menos desenvolvidas ou, no máximo, em países que disputam uma fatia da hegemonia, como foi o caso mais recente da Alemanha de Hittler. A segunda questão é o notório declínio do imaginário democrático, enquanto sistema de governo em que o poder político emana do povo e é exercido diretamente ou por representantes eleitos em eleições livres e periódicas.

Sobre a primeira inquietação, o governo Trump está mostrando que esquecemos as lições do passado. Com efeito, talvez o período mais próspero de Roma tenha sido a sua fase dos “Césares”. Ao longo da história, reis e rainhas governaram o mundo conhecido com mais ou menos despotismo, a depender da necessidade que tinham de manter seus impérios e do grau de suas patologias pessoais. E se a passagem de bastão do Império Britânico (século XVI até a Primeira Guerra Mundial) para o Império Americano (1945 em diante) não ensejou, até agora, uma ruptura completa das instituições multilaterais internas e externas, Trump está mostrando que vontade para isso não lhe falta.

Sobre a segunda inquietação, a história também mostra que os sistemas de governos variaram de conchavos das elites locais a anseios da horda popular. A democracia é apenas um deles, e talvez o mais frágil. Daí só ter vigorado “ipsi litteris” por dois séculos em Atenas e na Comuna de Paris por dois meses (18 de março de 1871 – 28 de maio de 1871). Sua irmã bastarda, a democracia representativa moderna, consolidou-se no final do século XVIII e início do século XIX, ganhando força com a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Americana (1787) como alternativa ao absolutismo. É esta que está em declínio, não a original. A original, que chegou ao nosso conhecimento, em Atenas e na Comuna de Paris, faz parte da utopia do ser humano. Digo que chegou ao nosso conhecimento, pois não faltam evidências e até alguns escritos sobre sociedades ainda mais remotas que praticaram a democracia pura.

Porém, mesmo a democracia bastarda não se sustenta mais na sociedade neoimperial. Na era da “infocracia”, segundo o filósofo coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han (10), os donos do capital não precisam mais forjar uma aliança com a maioria através de eleições periódicas. O poder se dá através do acesso aos dados utilizados na vigilância, controle e prognóstico de comportamentos psicopolíticos, o que reduz os seres humanos a animais de consumo e dados. A ilusão democrática se esvaneceu através da comunicação dirigida pelos algoritmos nas mídias sociais. Para Han, como estamos a ver agora, especialmente neste segundo governo Trump: “Cada dominação segue sua própria política de exibição. No regime da soberania, encenações suntuosas do poder são essenciais para a dominação. O teatro é o meio” (HAN, 2022, pág. 10).

Ademais, para Han, Trump age como um algoritmo oportunista perfeito que se equilibra de acordo com as reações do público. Convicções ou princípios são sacrificados pelo poder a curto prazo. A sociedade da informação tem como sintoma o niilismo. Nesse novo niilismo, a diferenciação entre verdade e mentira foi anulada. O próprio discurso, ao se desintegrar em informações indiferenciadas, leva à crise da democracia (representativa). Para Han:

“Ao afirmar de modo inescrupuloso tudo o que lhe convém, Donald Trump não é um mentiroso clássico que, conscientemente, retorce as coisas. Ao contrário, é indiferente perante a verdade factual. Quem é cego aos fatos e à realidade, constitui um perigo maior à verdade do que o mentiroso”. (ob. cit., pág. 85)   

Talvez agora o leitor tenha um vislumbre da minha inquietação. Concordo com Han quando ele diz que a “época da verdade evidentemente passou” (idem, pág. 107). O que nos espera adiante, não sabemos. Mas sabemos que a “infocracia” reprime – e talvez até deslegitime – o estatuto da verdade. Portanto, se o futuro se configurar realmente em um mundo totalitário, e o confronto que aludi acima grassar pelo planeta, só seremos revolucionários se dissermos a verdade. 

Referências:

1 – https://www.ihu.unisinos.br/661928-dez-teses-sobre-a-nova-era-artigo-de-steven-forti;

2- KURZ, Robert. O Colapso da Modernização. Da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992;

3 – JAMESON, Fredric. A cultura do dinheiro. Ensaios sobre a globalização. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991;

4 – GRAY, John. Falso Amanhecer. Os equívocos do capitalismo global. Rio de Janeiro: Record, 1999;

5 – https://www.ihu.unisinos.br/662101-a-extrema-direita-atual-e-uma-cortina-de-fumaca-da-plutocracia-entrevista-com-guy-standing;

6 – https://www.ihu.unisinos.br/661944-trump-do-totalitarismo-invertido-ao-neofascismo-crise-do-ocidente-e-perspectivas-globais-i-artigo-de-juan-laborda;

7 – HOBSBAWM, Eric. Globalização, Democracia e Terrorismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007;

8 – https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2026/01/a-ordem-e-o-caos-longe-do-equilibrio;

9 – https://www.nytimes.com/2026/01/23/opinion/trump-authoritarian-power.html;

10 – HAN, Byung-Chul. Infocracia: Digitalização e a crise da democracia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.

André Márcio Neves Soares é doutor em Política Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL – e funcionário público federal há trinta anos

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