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Resenhas e Análises Literárias

Tolstói

Tolstói, um anarquista cristão



Os primeiros anos do século XX  viram surgir o livro “Os Anarquistas”, do historiador alemão Paul Eltzbacher. Nele são expostos comparativamente os pensamentos dos grandes expoentes do anarquismo mundial, a começar por Godwin, Stiner, chegando a Proudhon e Bakunin, Tucker e Kroptkin. E, logicamente, Tolstói. O grande épico russo teve acesso ao trabalho de Eltzbacher e considerou-o absolutamente de acordo com suas doutrinas. Para chegar a esse despretencioso estudo “Tolstói, um anarquista cristão”, tomo por base “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”.

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem... O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.”  Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”. Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo faz-se por meio de superstições, sendo as mais importantes a religião e o patriotismo.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distrubuí-las a funcionários, de forma legal ou ilegal, de tal forma que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- como algo saudável e imutável, que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

O anarquismo de Tolstói é consequente. Quando ele fala do insubmisso, do revoltado, este é para ele  “o homem cristão”. Mas sua referência do cristianismo é de uma religiosidade de foro íntimo, em que todos os dogmas e a liturgia da Igreja, quer da ocidental, quer da ortodoxa são abolidos. Ele vê em Jesus a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior mandamento, quiçá o único, “ama ao próximo como a ti mesmo”.

O Jesus de Tolstói já não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais.

Ele rompe com o conservadorismo da Igreja e esta por seu lado, transforma-o em seu inimigo e, logo, o excomunga. A Igreja pede ao Czar que o faça prender ou que, pelo menos, envie-o recluso a algum mosteiro na Sibéria. Mas o Czar Nicolau II vacila; como prender o maior escritor russo vivo, o autor da maior epopeia do povo russo, “Guerra e Paz”? O que dirão dele os países europeus onde Tolstói representa quase um ícone vivo de sua Pátria?

De qualquer forma Tolstói não é constituído de matéria espiritual que se intimide. Ele segue publicando  seus artigos, que muitas vezes são distribuídos apenas manuscritos, impedida a impressão pela censura.  Contra a guerra na Manchúria ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a própria guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a lei que autoriza a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, do pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de  comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Nesse sentido, na alvorada do século XX, talvez ele seja o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação ecológica do meio ambiente.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a sua vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu, a partir de 1871, mão de todos os seus direitos autorais. Seus livros poderiam ser reproduzidos aos milhares para que todos os lessem. Conde de nascimento e rico proprietário de terras, Tolstói libertou seus servos antes mesmo da reforma czarista, tendo, entretanto, ido muito mais além, dividindo suas próprias glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde tonou-se vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

Ele sabia que os homens somente podem se libertar, transformarem-se de “vulgos” em cidadãos, por meio da educação: construiu em Yasnaia Polyana, nas terras da cooperativa agrícola, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais, muito mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Tolstói também nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, mas peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizassem a violência dos atentados pessoais, tão em voga em sua época. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo, sem violência.

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros  líderes.

O grande escritor que já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior, ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede, quando da ação repressora dos cossacos, prestou ao movimento uma solidariedade decisiva. Dedicou todo o seu tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra. Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem.

No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte, mas principalmente para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais, quer da Rússsia, quer do exterior. Como o dinheiro mesmo assim não bastasse, decidiu cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos, que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se intalassem em seus novos lares.

 

Quando completou oitenta anos, pouco restara de toda a sua fortuna; Tolstói preocupara-se apenas em reservar à sua esposa, que dele havia se separado “pelo mau uso financeiro que o marido fazia de suas posses”, e treze filhos, um rendimento mensal digno para quando ele morresse, o que viria a ocorrer  dois anos após.

Tolstói faleceu vítima de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan. O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam despedir-se do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

Tolstói: a coerência entre o pensar e o agir



 

O Conde Leão Tolstói tinha, como ser humano e escritor, o calibre do final do século XIX. Carregava como este os fados épicos de toda uma época grandiosa, apesar de suas sombras, de decadência dos velhos valores burgueses e da rudeza do determinismo cientificista. Época que, entretanto, não teria aceitado muito daquilo que nosso século XXI admite com grande complacência em termos de desprezo pelas ideias e pela dignidade humana.

A segunda metade do século XIX, na Rússia do despótico czarismo, gerou uma estirpe de grandes criadores no campo da musicalidade, do teatro e da literatura, à qual pertenceram os gênios de Tolstói, Dostoievski, Tchekhov, Turguenief e Gorki.

Dentre todos eles, Tolstói foi aquele que maior influência exerceu nas gerações que contestariam o czarismo, o latifúndio rural e que, finalmente, realizariam a primeira Revolução Socialista da História Mundial, em 1917, somente após sete anos da morte do grande autor de obras imortais como a epopeia de Guerra e Paz e de Anna Karenina, quiçá o maior romance social de todos os tempos.

O espírito do grande escritor viveu uma permanente crise de identidade espiritual em que questões sobre o sentido da vida o atormentaram. Após desistir de encontrar respostas na Filosofia, na Teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo de Cristo e dos simples camponeses. O próprio escritor, por volta de 1880, definiu a sua "conversão".

Essa “conversão espiritual” levou-o a recusar a autoridade de qualquer governo organizado e de toda Igreja. A negar o direito à propriedade privada e pregar o conceito de mudanças sociais pela não-violência. Sua crítica feroz ao intelectualismo estéril marcou presença entre os russos.

O insubmisso, o homem revoltado, é para o escritor, “o homem cristão”, um cristianismo de foro íntimo em que os dogmas e a liturgia da Igreja são abolidos. O Jesus de Tolstói não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais. Ele vê em Cristo a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior dos mandamentos, quiçá o único, o “ama ao próximo como a ti mesmo”.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a própria vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu mão de seus direitos autorais para tornar seus livros mais acessíveis. Ao mesmo tempo, libertou os servos de suas propriedades antes mesmo da reforma czarista. Foi muito mais além dividindo suas glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde se tornou vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

“Os homens somente podem se libertar por meio da educação”. Em decorrência desse princípio, construiu em sua propriedade de Yasnaia Polyana, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Se por um lado, Tolstói nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, por outro lado, peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizavam a violência nos atentados pessoais. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo.

Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa russa em 1901 e somente não foi preso pela polícia czarista porque era adorado pelo povo russo e reconhecido em todo o mundo.

Pensamentos sociais de um cristão anarquista-

(As citações que utilizamos foram extraídas basicamente de dois trabalhos do escritor: “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”)

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem... O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.” “Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos”.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”.

Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo se faz por meio da implantação de várias superstições, sendo a religião e o patriotismo as mais importantes delas.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distribuí-las a funcionários públicos, de forma legal ou ilegal, de tal maneira que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

Quando a Rússia entra em guerra pela conquista da Manchúria, ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, todos como formas de pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Na alvorada do século XX, ele foi o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação do meio ambiente.

A revolta dos “lutadores do espírito”-

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros líderes.

O grande escritor já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior; ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede depois da ação repressora dos cossacos, decidiu dedicar todo o tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra.

Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem. No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte mas, principalmente, para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais. Decidiu também cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se instalassem nos novos lares.

 

Aos 82 anos de idade, Tolstói decide abandonar a família e deixar um estilo de vida aristocrático no qual ele não acreditava e levar uma vida simples, sem riquezas, em conformidade com o que pregara quase toda a vida. Tolstói faleceu vítima de pneumonia, instalado no alojamento da estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan.

O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam se despedir do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

 

 

 

O Conde Leão Tolstói tinha, como ser humano e escritor, o calibre do final do século XIX. Carregava como este os fados épicos de toda uma época grandiosa, apesar de suas sombras, de decadência dos velhos valores burgueses e da rudeza do determinismo cientificista. Época que, entretanto, não teria aceitado muito daquilo que nosso século XXI admite com grande complacência em termos de desprezo pelas ideias e pela dignidade humana.

A segunda metade do século XIX, na Rússia do despótico czarismo, gerou uma estirpe de grandes criadores no campo da musicalidade, do teatro e da literatura, à qual pertenceram os gênios de Tolstói, Dostoievski, Tchekhov, Turguenief e Gorki.

Dentre todos eles, Tolstói foi aquele que maior influência exerceu nas gerações que contestariam o czarismo, o latifúndio rural e que, finalmente, realizariam a primeira Revolução Socialista da História Mundial, em 1917, somente após sete anos da morte do grande autor de obras imortais como a epopeia de Guerra e Paz e de Anna Karenina, quiçá o maior romance social de todos os tempos.

O espírito do grande escritor viveu uma permanente crise de identidade espiritual em que questões sobre o sentido da vida o atormentaram. Após desistir de encontrar respostas na Filosofia, na Teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo de Cristo e dos simples camponeses. O próprio escritor, por volta de 1880, definiu a sua "conversão".

Essa “conversão espiritual” levou-o a recusar a autoridade de qualquer governo organizado e de toda Igreja. A negar o direito à propriedade privada e pregar o conceito de mudanças sociais pela não-violência. Sua crítica feroz ao intelectualismo estéril marcou presença entre os russos.

O insubmisso, o homem revoltado, é para o escritor, “o homem cristão”, um cristianismo de foro íntimo em que os dogmas e a liturgia da Igreja são abolidos. O Jesus de Tolstói não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais. Ele vê em Cristo a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior dos mandamentos, quiçá o único, o “ama ao próximo como a ti mesmo”.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a própria vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu mão de seus direitos autorais para tornar seus livros mais acessíveis. Ao mesmo tempo, libertou os servos de suas propriedades antes mesmo da reforma czarista. Foi muito mais além dividindo suas glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde se tornou vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

“Os homens somente podem se libertar por meio da educação”. Em decorrência desse princípio, construiu em sua propriedade de Yasnaia Polyana, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Se por um lado, Tolstói nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, por outro lado, peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizavam a violência nos atentados pessoais. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo.

Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa russa em 1901 e somente não foi preso pela polícia czarista porque era adorado pelo povo russo e reconhecido em todo o mundo.

Pensamentos sociais de um cristão anarquista-

(As citações que utilizamos foram extraídas basicamente de dois trabalhos do escritor: “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”)

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem... O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.” “Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos”.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”.

Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo se faz por meio da implantação de várias superstições, sendo a religião e o patriotismo as mais importantes delas.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distribuí-las a funcionários públicos, de forma legal ou ilegal, de tal maneira que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

Quando a Rússia entra em guerra pela conquista da Manchúria, ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, todos como formas de pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Na alvorada do século XX, ele foi o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação do meio ambiente.

A revolta dos “lutadores do espírito”-

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros líderes.

O grande escritor já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior; ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede depois da ação repressora dos cossacos, decidiu dedicar todo o tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra.

Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem. No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte mas, principalmente, para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais. Decidiu também cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se instalassem nos novos lares.

 

Aos 82 anos de idade, Tolstói decide abandonar a família e deixar um estilo de vida aristocrático no qual ele não acreditava e levar uma vida simples, sem riquezas, em conformidade com o que pregara quase toda a vida. Tolstói faleceu vítima de pneumonia, instalado no alojamento da estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan.

O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam se despedir do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

 

O Conde Leão Tolstói tinha, como ser humano e escritor, o calibre do final do século XIX. Carregava como este os fados épicos de toda uma época grandiosa, apesar de suas sombras, de decadência dos velhos valores burgueses e da rudeza do determinismo cientificista. Época que, entretanto, não teria aceitado muito daquilo que nosso século XXI admite com grande complacência em termos de desprezo pelas ideias e pela dignidade humana.

A segunda metade do século XIX, na Rússia do despótico czarismo, gerou uma estirpe de grandes criadores no campo da musicalidade, do teatro e da literatura, à qual pertenceram os gênios de Tolstói, Dostoievski, Tchekhov, Turguenief e Gorki.

Dentre todos eles, Tolstói foi aquele que maior influência exerceu nas gerações que contestariam o czarismo, o latifúndio rural e que, finalmente, realizariam a primeira Revolução Socialista da História Mundial, em 1917, somente após sete anos da morte do grande autor de obras imortais como a epopeia de Guerra e Paz e de Anna Karenina, quiçá o maior romance social de todos os tempos.

O espírito do grande escritor viveu uma permanente crise de identidade espiritual em que questões sobre o sentido da vida o atormentaram. Após desistir de encontrar respostas na Filosofia, na Teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo de Cristo e dos simples camponeses. O próprio escritor, por volta de 1880, definiu a sua "conversão".

Essa “conversão espiritual” levou-o a recusar a autoridade de qualquer governo organizado e de toda Igreja. A negar o direito à propriedade privada e pregar o conceito de mudanças sociais pela não-violência. Sua crítica feroz ao intelectualismo estéril marcou presença entre os russos.

O insubmisso, o homem revoltado, é para o escritor, “o homem cristão”, um cristianismo de foro íntimo em que os dogmas e a liturgia da Igreja são abolidos. O Jesus de Tolstói não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais. Ele vê em Cristo a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior dos mandamentos, quiçá o único, o “ama ao próximo como a ti mesmo”.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a própria vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu mão de seus direitos autorais para tornar seus livros mais acessíveis. Ao mesmo tempo, libertou os servos de suas propriedades antes mesmo da reforma czarista. Foi muito mais além dividindo suas glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde se tornou vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

“Os homens somente podem se libertar por meio da educação”. Em decorrência desse princípio, construiu em sua propriedade de Yasnaia Polyana, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Se por um lado, Tolstói nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, por outro lado, peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizavam a violência nos atentados pessoais. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo.

Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa russa em 1901 e somente não foi preso pela polícia czarista porque era adorado pelo povo russo e reconhecido em todo o mundo.

Pensamentos sociais de um cristão anarquista-

(As citações que utilizamos foram extraídas basicamente de dois trabalhos do escritor: “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”)

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem... O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.” “Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos”.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”.

Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo se faz por meio da implantação de várias superstições, sendo a religião e o patriotismo as mais importantes delas.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distribuí-las a funcionários públicos, de forma legal ou ilegal, de tal maneira que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

Quando a Rússia entra em guerra pela conquista da Manchúria, ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, todos como formas de pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Na alvorada do século XX, ele foi o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação do meio ambiente.

A revolta dos “lutadores do espírito”-

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros líderes.

O grande escritor já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior; ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede depois da ação repressora dos cossacos, decidiu dedicar todo o tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra.

Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem. No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte mas, principalmente, para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais. Decidiu também cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se instalassem nos novos lares.

 

Aos 82 anos de idade, Tolstói decide abandonar a família e deixar um estilo de vida aristocrático no qual ele não acreditava e levar uma vida simples, sem riquezas, em conformidade com o que pregara quase toda a vida. Tolstói faleceu vítima de pneumonia, instalado no alojamento da estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan.

O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam se despedir do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

 

O Conde Leão Tolstói tinha, como ser humano e escritor, o calibre do final do século XIX. Carregava como este os fados épicos de toda uma época grandiosa, apesar de suas sombras, de decadência dos velhos valores burgueses e da rudeza do determinismo cientificista. Época que, entretanto, não teria aceitado muito daquilo que nosso século XXI admite com grande complacência em termos de desprezo pelas ideias e pela dignidade humana.

A segunda metade do século XIX, na Rússia do despótico czarismo, gerou uma estirpe de grandes criadores no campo da musicalidade, do teatro e da literatura, à qual pertenceram os gênios de Tolstói, Dostoievski, Tchekhov, Turguenief e Gorki.

Dentre todos eles, Tolstói foi aquele que maior influência exerceu nas gerações que contestariam o czarismo, o latifúndio rural e que, finalmente, realizariam a primeira Revolução Socialista da História Mundial, em 1917, somente após sete anos da morte do grande autor de obras imortais como a epopeia de Guerra e Paz e de Anna Karenina, quiçá o maior romance social de todos os tempos.

O espírito do grande escritor viveu uma permanente crise de identidade espiritual em que questões sobre o sentido da vida o atormentaram. Após desistir de encontrar respostas na Filosofia, na Teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo de Cristo e dos simples camponeses. O próprio escritor, por volta de 1880, definiu a sua "conversão".

Essa “conversão espiritual” levou-o a recusar a autoridade de qualquer governo organizado e de toda Igreja. A negar o direito à propriedade privada e pregar o conceito de mudanças sociais pela não-violência. Sua crítica feroz ao intelectualismo estéril marcou presença entre os russos.

O insubmisso, o homem revoltado, é para o escritor, “o homem cristão”, um cristianismo de foro íntimo em que os dogmas e a liturgia da Igreja são abolidos. O Jesus de Tolstói não é mais o Filho de Deus, mas o homem- mártir, aquele que foi exemplar e morreu por seus ideais. Ele vê em Cristo a figura ideal, “o maior homem que a humanidade já produziu”. Considera como o maior dos mandamentos, quiçá o único, o “ama ao próximo como a ti mesmo”.

À medida que amadureciam suas premissas filosóficas, Tolstói também transformava a própria vida. O autor de Guerra e Paz e Anna Karenina abriu mão de seus direitos autorais para tornar seus livros mais acessíveis. Ao mesmo tempo, libertou os servos de suas propriedades antes mesmo da reforma czarista. Foi muito mais além dividindo suas glebas, onde organizou uma cooperativa de camponeses. Reservou para si um pedaço da terra que herdara, o qual lavrou pessoalmente; também abandonou a caça, hábito que adorava, por respeito à natureza e mais tarde se tornou vegetariano, pois comer carne pressupunha “a matança de seres vivos”.

“Os homens somente podem se libertar por meio da educação”. Em decorrência desse princípio, construiu em sua propriedade de Yasnaia Polyana, uma escola destinada aos filhos dos mujiques; contratou professores, tanto para as crianças, quanto para a alfabetização dos adultos.

Fez mais. Distribuiu seu próprio dinheiro aos mais necessitados que acorressem à sua propriedade; ao final de sua vida leiloou até mesmo suas roupas sociais, cujo dinheiro distribuiu aos pobres.

Se por um lado, Tolstói nunca negou apoio a movimentos intelectuais ou populares que contestassem as injustiças sociais, por outro lado, peregrino da resistência pacífica, jamais auxiliou os revolucionários e “regicidas” que utilizavam a violência nos atentados pessoais. Queria um movimento de emancipação realizado pelo povo e para o povo.

Tolstói foi excomungado pela Igreja Ortodoxa russa em 1901 e somente não foi preso pela polícia czarista porque era adorado pelo povo russo e reconhecido em todo o mundo.

Pensamentos sociais de um cristão anarquista-

(As citações que utilizamos foram extraídas basicamente de dois trabalhos do escritor: “Os Anarquistas” e “A Insubmissão”)

“A propriedade é, hoje em dia, a raiz de todo o mal. Ela causa o sofrimento dos que a possuem e dos que não a possuem... O perigo de conflitos entre os que dispõem do supérfluo e os que vivem na pobreza é inevitável. O Estado sempre defende o princípio da propriedade privada.” “Sendo o Estado, na Rússia nos primórdios do século XX, o grande esteio do latifúndio, ele assume a responsabilidade por toda uma injusta organização social; transformou-se num criminoso que estabeleceu um sistema de violências com numerosas malhas, leis, homens da lei, prisões, juízes, policiais, políticos, exércitos”.

O Estado, salienta Tolstói, não se perpetua somente pela força, mas também por uma espécie de encantamento: “Graças a uma organização das mais artificiais, inteiramente forjada em favor do aperfeiçoamento científico e propagandístico, que faz com que os homens estejam sob um encanto do qual não podem se libertar”.

Tolstói define quatro pilares como vigas-mestras desse encantamento:

1. “A Hipnotização do Povo”: é disseminada a opinião segundo a qual o estado atual das coisas é imutável e que deve ser mantido; na realidade, ele só é imutável precisamente por ser mantido. A hipnotização do povo se faz por meio da implantação de várias superstições, sendo a religião e o patriotismo as mais importantes delas.

2. “A Corrupção”: é a ação de retirar a riqueza das classes que trabalham por meio de impostos e taxas, e distribuí-las a funcionários públicos, de forma legal ou ilegal, de tal maneira que eles perpetuem a subjugação do povo. “O homem cristão não deve tentar tirar proveito das instituições do Estado, nem procurar enriquecer sob sua égide ou fazer carreira sob sua proteção”. Somente no anarquista “puro” é possível encontrar o “verdadeiro homem cristão”, dado que ele deve negar e viver fora dessa instituição corruptora, o Estado.

3. “A Intimidação”: representa a ordem dirigente do Estado – quer seja o mais liberal, o republicano ou o despótico- que ameaça com os castigos mais atrozes aqueles que se negam a obedecê-la ou mudá-la.

4. “O Exército”: para Tolstói, a instituição do serviço militar obrigatório constitui um crime de lesa-humanidade, que foi organizada pela primeira vez na história pelo Estado Prussiano, estendendo-se posteriormente a todo mundo. A conscrição militar obrigatória embrutece os jovens mais pobres da população, que serão adestrados através de procedimentos dos mais autoritários e bestializadores. Os conscritos transformam-se, nas mãos do Estado, em instrumentos sem qualquer vontade, prontos a cometer todas as brutalidades e crueldades que seus superiores lhes ordenem.

Eis o círculo da violência formado: a hipnose, a intimidação e a corrupção conduzem os homens a fazerem-se soldados ou policiais. “Os soldados, por sua vez, tornam possível o fato de punir os homens, pilhar os seus bens, corromper os funcionários com esse dinheiro, hipnotizando a massa e fazendo delas novos soldados, que por sua vez fornecerão os meios para cometer todos esses crimes”.

Quando a Rússia entra em guerra pela conquista da Manchúria, ele declara em bom tom que para construir uma sociedade fraterna o homem deveria considerar a guerra, o patriotismo, as nacionalidades, o ódio entre raças e os preconceitos étnicos, assim como a política e o militarismo, a violência e a exploração, como ramos da árvore do mau, portanto, todos como formas de pecado.

Se a terra é um bem comum, ele deve pertencer a todos. Seu ideal econômico é uma espécie de comunismo agrário- anarquista. Para ele, o progresso civilizatório isola os homens uns dos outros e da mãe terra, provocando um processo de degeneração física e espiritual.

Tolstói é um revolucionário que prega um retorno à natureza, a uma vida simples e humilde, onde os homens possuam laços estreitos de fraternidade e paz interior. Na alvorada do século XX, ele foi o primeiro escritor a possuir uma clara visão da necessidade de preservação do meio ambiente.

A revolta dos “lutadores do espírito”-

Em 1895 a Rússia foi agitada pela ação de um grupo de cristãos contestadores denominados “dukhobors”, os “lutadores do espírito”. O grupo negava a propriedade privada, o governo, o Estado, o dinheiro, a Igreja e a Bíblia como fontes de revelação; praticava um estilo de vida comunitário em convívio com a natureza, estritamente democrático e despojado, em que até mesmo o consumo de carne fora banido. Pregava também a paz e recusava-se a servir o Exército.

Logo, alguns de seus líderes foram presos e banidos para a Sibéria. Em protesto contra as prisões, milhares de “dukhobors” queimaram todas as armas de autodefesa que possuíam, proclamando a recusa em participar de qualquer ato de violência. Os cossacos enviados para reprimi-los submeteram-nos a espancamentos por mais de quatro horas. Expulsaram mais de sete mil homens, mulheres e crianças de suas casas, arrasaram suas colheitas e confiscaram suas terras, prendendo ainda outros líderes.

O grande escritor já os apoiava e organizara uma rede de denúncias no exterior; ao tomar conhecimento de que mais de quatrocentas pessoas haviam morrido de frio, fome e sede depois da ação repressora dos cossacos, decidiu dedicar todo o tempo, por meses, a angariar apoio aos perseguidos. Graças a sua influência, seu representante no Canadá logrou convencer esse país a receber como exilados todo o grupo dos “dukhobors”, dando-lhes uma gleba de terra.

Acuado interna e externamente, o Czar recuou e aceitou permitir que mais de duas mil pessoas emigrassem. No entanto, faltava dinheiro não somente para o transporte mas, principalmente, para a instalação e sobrevivência inicial de tanta gente. Tolstói pessoalmente encarregou-se da arrecadação financeira dentre os intelectuais e aristocratas liberais. Decidiu também cobrar direitos autorais de seu último romance, ainda não impresso, “A Ressurreição”. De toda a Europa surgiram editores dispostos a pagar por direitos que o próprio escritor dizia serem “exorbitantes”. Ao final, Tolstói conseguiu que todos os “dukhobors” viajassem e se instalassem nos novos lares.

 

Aos 82 anos de idade, Tolstói decide abandonar a família e deixar um estilo de vida aristocrático no qual ele não acreditava e levar uma vida simples, sem riquezas, em conformidade com o que pregara quase toda a vida. Tolstói faleceu vítima de pneumonia, instalado no alojamento da estação ferroviária de Astapovo, próximo a Riazan.

O governo russo proibiu que trens especiais trouxessem milhares e milhares de pessoas que desejavam se despedir do grande homem. Isso, entretanto, não impediu que o caixão fosse transportado por mais de três mil camponeses e os restos mortais depositados embaixo de uma árvore, de acordo com seu desejo testamentário, em Yasnaia Polyana. Ainda hoje, um viajante encontrará uma pequena elevação de terra, circundada por uma simples corrente, e uma pequena placa de mármore a assinalar o local de descanso de Liev Tolstói, aquele para quem “todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.

É emocionante ler no diário desse grande homem, a resposta a uma pergunta que ele se faz, quase ao final da existência: “Dize-me, Liev Tolstói, vives segundo os princípios de tua doutrina?” E, logo a seguir, a resposta amargurada: “Não, morro de vergonha. Sou um culpado e mereço o desprezo”.

 

 

A banalidade do mal, por Tolstoi



Liev Tolstói  legou-nos material literário precioso, onde os princípios da “banalização do mal” encontrados por Hanna Arendt ao analisar o caso Eichmann foram por ele descritos com precisão, com mais de sessenta anos de antecedência, em outras circunstâncias que não a da Alemanha Nazista, mas sob o autoritarismo russo.

Um deles é o conto denominado “Nicolas Palkine”, referindo-se Nicolas a Nicolau I, Czar Russo,  e o termo Palkine, originário de palka, em russo vara, que era “legalmente” utilizada com ponta de metal, aplicada em açoites e espancamentos, muitos deles até à morte, de soldados, prisioneiros e de suspeitos de crimes. O conto, ao traçar o perfil do executor deste tipo de tortura e de massacres, assim como o ambiente que torna propício o surgimento desses indivíduos, foca literariamente  as principais conclusões de Arendt.

O conto desenvolve-se a partir do diálogo que o narrador mantém com um velho suboficial, que servira primeiramente sob as ordens do Czar Alexandre I e, posteriormente, sob o mando de seu filho, Nicolau I.

O velho declara que estava carregado de pecados e o que mais desejava antes da morte era arrepender-se e comungar, livrando-se do castigo divino! São tantos os seus pecados, pergunta-lhe o narrador, ao que ele responde: “Não sabeis que servi sob Nicolau? Comecei o serviço sob Alexandre; os soldados o elogiavam, diziam que ele era muito bom...” Ao que o narrador retruca: “Lembro-me dos últimos tempos do reinado de Alexandre, quando vinte por cento dos soldados convocados para o exército apanhava até morrer; como deveria ser com Nicolau se o tempo de Alexandre era tido como muito bom?”

Logo em seguida o velho sargento se abre dizendo que para cincoenta açoitadas, nem mesmo a calça do torturado se tirava; davam-se duzentos, trezentos golpes... espancava-se até matar. Ao empolgar-se, o soldado falava com desgosto e horror, mas não sem orgulho da antiga bravura... de espancador obediente!

“Entre nós, chamávamos o Imperador de Nicolau Palkine, ao invés de Paulovitch”.

De tempos em tempos, surgem na narrativa  pecados de consciência! Por exemplo, quando se condenava um soldado por má conduta a cento e cincoenta golpes de vara “e nós aplicávamos duzentos”; mas isso ainda não bastava aos oficiais, “batíamos para valer nos jovens soldados, com a coronha, com os punhos, no peito, na cabeça; o soldado morria e nem ao menos sofríamos uma repreensão”.

“Morria porque apanhava e as autoridades escreviam no prontuário: morreu pela vontade de Deus”.

O narrador solicita ao velho que descreva a aplicação do tipo de tortura por varas, as “palkas”: o supliciado tem cada uma das mãos amarradas a um fuzil; é então empurrado entre duas filas de soldados armados com varas e os oficiais gritam “bata mais forte, mais forte”. O velho pronunciava estas palavras com voz imperiosa, lembrando-se delas com evidente satisfação e imitando o tom de bravura autoritária.

O pecado, o inferno e a necessidade do perdão cristão advêm na narrativa do velho, exclusivamente do fato de não haver cumprido apenas o ordenado pelos superiores, mesmo que o resultado também conduzisse o supliciado à morte, pois, enfim, somente “cumpria ordens”. O “pecado” estava em que se excedia no cumprimento do “dever”.

Contava essas minúcias sem nenhum remorso, como se tratasse de bois destinados ao matadouro. Lembrava-se perfeitamente de como o homem ferido resiste e depois cai; percebem-se os sulcos sangrentos; o sangue que corre; a carne que se desfaz em pedaços, até expor os ossos. O infeliz grita, depois urra surdamente a cada pancada e, por fim, se cala, já não tem mais forças nem para gemer.

Chega o médico-inspetor, examina o pulso do supliciado e decide se pode-se continuar a bater nesse homem sem matá-lo ou se é preferível esperar que ele se cure para recomeçar o castigo e acabar de lhe dar a quantidade de pancadas a que os animais ferozes, chefiados por Nicolau Palkine, decidiram submetê-lo. O doutor emprega toda sua ciência para impedir que o homem morra antes de sofrer todos os suplícios que um corpo possa suportar.

Recorda-se o velho ainda daqueles soldados que eram recolhidos em macas e transportados ao hospital para depois voltarem à tortura e de "como imploravam pela morte"! E os crimes dos mesmos eram, por exemplo, haverem fugido do Regimento, terem tido o atrevimento e a ousadia de protestar contra a má qualidade da alimentação ou falarem que os chefes roubavam.

Ao terminar a narrativa, o velho se revolta contra o intento de o narrador buscar nele o arrependimento: “Era a lei, estava certa, pois era executada depois de um julgamento, de que posso eu ser culpado?”

Estava, pois, em paz consigo mesmo e em tudo aquilo no que se ativera ao cumprimento de uma Lei. Somente seus atos, que considerava pessoais, o afligiam como haver, por conta própria, aumentado o sofrimento de homens.

O conto vai além e o velho soldado recorda a invasão da Polônia, fala da matança de crianças, de prisioneiros que deixavam morrer de fome ou frio, de um jovem assassinado a golpes de baioneta ao encontro a uma árvore, e nesses casos, em absoluto demonstrava qualquer tormento de consciência, pois o genocídio do qual participara fazia parte da guerra: tudo dentro da Lei, pelo Imperador e pela Pátria!

Haver saqueado a terra polonesa, assassinado mulheres e crianças inocentes, açoitado até a morte os infelizes que levou ao hospital para novamente torturá-los, nada disso lhe perturbava o espírito, a consciência. Para ele, não eram atos que dependessem dele e mesmo lhe parecia ter sido outro e não ele o autor disso tudo. Apenas e tão somente porque “era a Lei”e mandaram-no fazer!

Enfim, o velho soldado passara a vida a torturar e a massacrar homens e “ele não se acreditava culpado de todas as terríveis coisas que praticara”.

“ Que teria pensado esse velhinho se compreendesse que entre sua consciência e Deus não há nem pode haver intermediários, e que também não deveria existir nenhum intermediário que o forçasse a torturar e a matar homens?” O narrador se pergunta se vale a pena atormentá-lo, buscar despertar nele a consciência das perversões genocidas praticadas. Afinal, ele está moribundo e para que “lembrar o que passou?”

Trata-se de “uma doença” que não passa, somente se modifica, penetra mais fundo nos ossos, na carne. "A doença que faz homens dóceis, comuns, praticarem crueldades terríveis sem saber por que e com que finalidade!”

“Muitos dizem que esse tempo, o de Nicolau I é passado, já passou. No tempo de Nicolau se disse o mesmo de Alexandre; no tempo de Alexandre, o mesmo de Paulo, o mesmo de Catarina, dos furores de sua depravação, da loucura de seus amantes; no tempo de Catarina se disse o mesmo de Pedro, o Grande... Em todos os tempos houve coisas das quais nos lembramos com horror, indignação. Lemos descrições das fogueiras para hereges, das torturas, açoites, suplícios de varas e sentimos horror pela crueldade de que é capaz o ser humano. E declaramos que tudo isso passou...”

Concluindo, o narrador pergunta:

“Onde estão nossas salas de torturas, nossa escravatura, nossos açoites? Temos a impressão que desapareceram, que não mais existem, mas eles apenas estão acobertados”. “Existem os mesmos atos e os mesmos horrores, simplesmente não os vemos, assim como nossos antepassados não viam os de seu tempo... Contudo, isso não passa de aparência. Trezentos mil homens estão fechados nas prisões, em redutos estreitos, fétidos, morrendo física e moralmente. Suas mulheres e seus filhos, sozinhos definhando de fome. Guardam-se esses homens em cavernas de depravação, nas prisões e esta reclusão só é útil aos guardas e aos diretores, senhores absolutos desses escravos.”

 

Mais de sessenta anos após a publicação de “Nicolas Paukine”, a filósofa Hanna Arendt analisou o caso do criminoso de guerra Adolf Eichmann, preso em Israel e acusado de comandar genocídio em campos de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial.

Obteve autorização para entrevistá-lo e seguir de perto o seu processo e, a partir deste trabalho publicou “Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil”. Em suas conclusões encontramos o mesmo sentido de banalização do mal descrito pelo escritor russo:

  1. O nazista Eichmann carecia inteiramente do senso de ser, tal qual o velho soldado;
  2. Ele ficava perturbado com temas emocionais de agressão, tal qual o suboficial quando o narrador questionava-o sobre os massacres por ele praticados;
  3. O que importava ao nazista era reduzir toda a vida à ordem, ao não movimento, à não emoção, de modo a que toda a vida pudesse ser controlada. Tal e qual o velho suboficial, era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desempenhando seu trabalho de forma burocrática, às vezes com pequenos deslizes de ordem sádica.
  4. Ambos sentiam profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, funcionários fiéis de um grande Estado, por um lado, o Czarismo Russo, por outro, o Nazismo Alemão.
  5. Não guardavam remorsos e eram “mentalmente sãos” e bem adaptados.

Arendt conclui que o foco real na vida de um destruidor “talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo”.

De todo modo, Liev Tolstói mais de meio século antes deixara claro que o genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro! É o tema que revela a natureza real de nossa espécie, capaz do trabalho mais vil que pode sair de mãos humanas: matar outros seres sem defesa. Em Nicolas Palkine como no banco dos réus, os genocidas racionalizam e atenuam seus atos, de modo que, com grande sinceridade, acreditam que estavam agindo em defesa deste ou daquele tipo de Lei, de País, de autoridade.

Por mais que seja espantoso para uma imaginação solidária e moral são incontáveis os indivíduos prontos para cometer o mal intolerável: torturar e matar outros homens!

Khaddji-Murat, o último e magistral romance de Tolstoi



Poderíamos imaginar que um escritor genial como Tolstoi tomaria os últimos vinte anos de sua vida para escrever Khadii Murat? Que, quando ele abandonou a casa familiar em Krasnaia Polyana, pela última vez antes de morrer de pneumonia numa estação ferroviária, carregava consigo mais de duas mil páginas, e dentre elas o original de sua colossal novela ainda inconclusa?

Enquanto a inspiração ao escrevê-la advinha de memórias da juventude, os propósitos eram descortinar na alma humana tudo o que ela tem de digno e de covarde, de honrado e de abjeto. Talvez seja ao alvorecer do século XX, o mais claro berro de horror contra o despotismo e à guerra posto na literatura.

Em meados do século XIX a Rússia czarista, na expansão de seu império, guerreou contra as tribos muçulmanas da Tchetchênia. A memória de Tolstoi trazia reminiscências do serviço militar prestado pelo escritor quando jovem.

A personagem Maria Dmitrievna, esposa de um major russo, assim se expressa a respeito dos bravos oficiais czaristas:  “Vocês são assassinos, não os suporto, uns verdadeiros assassinos. Não me venham dizer que os massacres sejam coisas da guerra, vocês são assassinos e é tudo.”

Existem diferenças significativas entre o fanatismo religioso, sectário e tribal, que propaga a violência, a vinganças, a intolerância e o ateísmo real, travestido da religiosidade oficial que incendeia aldeias, mata população civil, regurgitando o bafo de vodka? A resposta para Tolstoi é sim e não, ou seja, a responsabilidade maior pelas desumanidades da guerra é do invasor, daquele que quer impor o poder despótico do Czar. Os tribais reagem e aglutinam a violência sectária, inclusive contra seu próprio povo. Também eles se desumanizam na guerra.

Khadii Murat, foi em vida um guerrilheiro separatista bem sucedido e famoso, que abandonou a luta e mudou-se para o lado dos invasores russos na esperança de salvar sua família. Sua família que fora sequestrada pelo líder tchetcheno rival. Ele além de salvar sua família, quer também vingar as mortes dos membros de sua tribo leais a ele, assassinatos perpetrados por Shamil, o comandante dos guerrilheiros muçulmanos do Cáucaso. Ao juntar-se aos russos no desespero pessoal, ele trai seu povo, que, por sua vez, já o traíra também. Mas, ao final, buscará sua libertação e será assassinado pelo Exército Russo.

Sobre o herói de seu livro escreve Tolstoi: “Khaddji-Murat  defende a vida até o fim; sozinho no meio de um vasto campo, mas mesmo assim ele a defendeu.”

Surpreendemo-nos durante toda a leitura com o preciosismo narrativo. Comentando a última obra de Tolstoi, disse Máximo Gorki: “Como o velho escreveu bem!”

A princípio o narrador encontra dois pés de bardana. O primeiro é vermelho colorido e muito espinhoso, então ele o evita. O segundo ele deseja desesperadamente, mas tentando arrancá-lo, o destrói. “Com que tenacidade ele se defendeu e como vendeu caro a vida”. O mesmo se passará com o herói e anti-herói muçulmano.

A narrativa nos conduz ao respeito dos regionalismos, assim como das idiossincrasias de cada povo. Como Tolstoi dizia “para cantar num tom que seja internacional, cante naquele de sua aldeia”.

A Tchetchênia, uma cultura totalmente diferente e quase paradigmática em relação a dos russos, exceto na própria violência que ambas engendram. “Para cada povo são bons os seus próprios costumes”. Não existe exagero em considerar que o personagem Khaddji-Murat  se associa aos dons proféticos do Profeta Jeremias, de Michelangelo, que baixa a cabeça e se remói em tormentos ao prever o que o destino reserva à humanidade, à sua humanidade, à sua gente dominada pelos russos e pelo tribalismo impiedoso .

O asceticismo quase monástico de Khadii- Murat contrasta com a devassidão da vida dos soldados russos, na sua banalidade e na falta de sentido. Ele tenta separar-se de todos os lados em luta, de suas torpezas e tibiezas, símbolos do desprezo do homem pelo seu semelhante.

A coragem somente é verdadeira quando não é fruto do álcool e da soberba, quando exercida por alguém que, de certa forma situa-se acima do bem e do mal, Khadii- Murat.

A rendição de Khaddji-Murat  ao príncipe russo general Vorontzov é uma peça teatral, em que os papéis dissimulam a realidade. “Os olhos daqueles dois homens se encontraram e disseram um ao outro muita coisa inexprimível por palavras e algo bem diferente do que dizia o intérprete. Diretamente, sem palavras, exprimiam mutuamente toda a verdade: os olhos de Vorontzov diziam que ele não acreditava em uma só palavra do que dizia Khaddji-Murat  e que sabia ser esse homem um inimigo de tudo o que era russo, que assim permaneceria, e que se submetia agora era por ter sido obrigado a tal passo. Khaddji-Murat compreendia isto e, apesar de tudo, reafirmava a sua fidelidade.”

Com relação ao invasor russo, Tolstoi centra-se não somente na brutalidade dos soldados e seus oficiais, mas trata de decompor o papel de quem comanda uma sociedade perversa, o Czar: “Por mais habituado que estivesse Nicolau (I) com o terror que despertava nas pessoas, este lhe era sempre agradável, e ele gostava, às vezes, de deixar espantado o súdito a quem infundira tal sentimento, dirigindo-lhe, por contraste, palavras afáveis”. Sempre que o Czar se via entre uma nova conquista e a antiga amante, punha-se a pensar naquilo que o consolava: “No grande homem que ele era”.

O czar acreditava que roubar era inerente ao funcionário público e a obrigação dele era castigá-los. A lisonja permanente, asquerosa e sem rebuços, dos que o cercavam, reduzira-o a tal estado que não vi as suas contradições. “Mesmo quando condenava alguém a mil bastonadas, sendo que com menos de quinhentas qualquer homem morreria, agradava-lhe ser inexoravelmente cruel e, ao mesmo tempo, saber que, entre nós, não existia a pena de morte”.

No outro lado, aquele dos tchetchenos , quando, após num avanço de tropas russas uma vila inteira era destruída, os velhos se reuniram. Ninguém falava sequer em ódio ao invasor. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos era mais forte que o ódio. “Não odiavam, mas não reconheciam como gente aqueles cães russos”. “Era uma sensação de asco e estupefação ante a crueldade absurda daquelas criaturas, e o desejo de destruí-las, a exemplo do desejo de destruir os ratos, as aranhas venenosas e os lobos, era um sentimento natural, como um instinto de conservação”.

Os habitantes das aldeias tchetchenas não tinham alternativa: permanecer nos próprios lugares e reconstruir, com um esforço tremendo, tudo o que fora realizado com tanto esforço  e destruído tão fácil e inutilmente, esperando a qualquer momento a sua destruição, ou contrariando a lei religiosa e o sentimento de repulsa e desprezo pelos russos, submeter-se a eles.

“Secar-se-á a terra de minha sepultura e hás de esquecer-me, minha mãe! A erva dos túmulos há de crescer no cemitério, abafará o teu desgosto, meu velho pai. As lágrimas secarão nos olhos de minha irmã, e o sofrimento fugirá de seu coração”.

“Mas  não me esquecerás, meu irmão mais velho, enquanto não vingares minha morte. E não me esquecerás também, meu segundo irmão, enquanto não te deitares a meu lado.”                “És quente, ó bala, e carregas a morte, mas não foste tu a minha escrava fiel? Hás de cobrir, ó terra negra, mas não era eu quem te pisava com as patas de meu cavalo? És fria, ó morte, mas eu fui teu senhor. A terra tomará meu corpo, o céu receberá minha alma.”

Quando Khaddji-Murat,  é ferido de morte, as recordações de combates, do príncipe, da mulher, dos filhos, sucediam-se velozes, sem despertar nele nenhum sentimento, quer de comiseração, quer de rancor, nem desejo nenhum. Tudo isso parecia tão insignificante em comparação com o que começava ou já havia começado para ele! E foi esta morte que a bardana esmagada, em meio ao campo lavrado, me fez relembrar.

Textos excluídos por Tolstoi

Naquelas duas mil páginas manuscritas que Tolstoi carregou consigo até a morte e, nas quais trabalhara e retrabalhara tantas vezes sua novela, muitos textos foram suprimidos , e apenas posteriormente, após a Revolução de 1917, publicados.

Para que, naquele tempo, um homem estivesse à altura do comando do povo russo, precisava ter perdido todos os atributos humanos: tinha de ser uma criatura mentirosa, atéia, cruel, ignorante e estúpida, e precisava não apenas sabê-lo, mas estar convencido de ser o paladino da verdade e da honra e um sábio governante, benfeitor de seu povo. Assim era Nicolau I. E nem podia ser diferente. Toda a sua vida for a uma preparação para isto.

“E não é por acaso que o grande perante os homens, aqueles que estão nas alturas da grandeza, passam a ser os piores homens do mundo; constitui uma lei eterna e indubitável: aquele que está nas alturas deve ser um homem profundamente pervertido e não pode ser de outro modo. O destino do Czar, antes mesmo dele nascer já estava traçado.

Tolstoi passa em revista todos os últimos Czares russos: Pedro, o Grande, fora “o bêbado contumaz, devasso, sifilítico e ateu, que decepava pessoalmente cabeças de opositores somente para entreter-se”; Catarina , a Grande, sua avó, “assassina do próprio marido, pecadora movida pela vaidade e por uma repugnante sexualidade senil; Pedro III, o avô de  Nicolau, “o alemão estúpido, que enlouquecera à força de sua autoridade e que fora assassinado pelos amantes de sua depravada mulher”, “todas aquelas mulheres libertinas, estúpidas e analfabetas, donas de profunda maldade.”

Ao mesmo tempo em que, ao morrer, o fabuloso escritor nos legou Khadji- Murat, ele também nos tornou herdeiros da galeria da família Romanov, donas do trono russo.

 

"A morte de Ivan Ilitch", obra catártica de Tolstoi



Por volta dos cinquenta e cinco anos de idade, o maior escritor russo de sua época, o autor de “Guerra e Paz”, a “Ilíada” do povo russo, e de “Anna Karenina”, Liev Tolstoi interrompe toda a sua produção artística e chega mesmo a renegá-la. Em sua crise existencial tudo perde valor e sentido, pois percebe o nada imenso de seu destino, assim como o de todo o ser humano.

Deste momento em diante seu olhar se voltará para a compreensão do inexplicável, buscará contemplar a angústia primitiva do ser humano e, talvez como poucos, terá a coragem de encarar resolutamente o problema que o destino impõe ao homem: a humanidade interrogando seu próprio destino!

“Por que viver? Qual a causa de minha existência e a dos outros? Que finalidade tem minha vida e a de todos os seres vivos? O que significa a dualidade entre o bem e o mal que sinto em mim? Como devo viver? O que é a morte? Como poderei salvar-me?” São frases que anotou em uma folha de papel, sua companheira por toda a vida.

Livra-se de toda literatura e em seus estudos somente têm lugar estudos filosóficos. Como nos filósofos tão pouco encontra respostas, afasta-os e debruça-se sobre um único livro: a Bíblia.

Mas como alcançaria seu objetivo aquela mentalidade aberta, desafiadora, um cristão primitivo em sua essência anarquista em textos míticos e históricos?

Afasta-se da Bíblia, mas modifica seu proceder. Participa com os camponeses das colheitas, começa por desfazer-se de seus bens materiais, acentua-se o clima de “guerra sem paz” com sua esposa Sônia, e com a maioria de seus quinze filhos.

De seu leito de morte, em 1886, o grande Turgueniev escreveu-lhe a lápis, por não ter forças para empunhar uma pena: “por favor, volte à literatura, você não tem o direito de privar a humanidade de seu talento imaginativo.”

Liev Tolstoi afinal retoma a escrita, que jamais será a “descompromissada e livre” literatura de antes.

A morte torna-se um elemento central, quase uma obsessão. Não que isto refletisse um desejo de morrer, era sim uma vontade de entender a morte movida por temores, pelo estranhamento, tal como relatou um de seus filhos: “Embora durante mais de trinta e cinco anos Liev não deixasse de falar um só dia na morte, meu pai não a desejava”.

A morte nos seus livros é antes de tudo um elemento catártico do próprio autor. Ele se rebela contra a o paradoxo da mortalidade, sofre com o fato de que a vida dos homens são submetidas por doenças e pelo furor do tempo. “Nenhum homem que tem a infância atrás de si deveria esquecer-se da morte por um só minuto, tanto mais quanto a sua espera constante não só não envenena a vida, mas lhe empresta firmeza e claridade” diz Tolstói em carta à sua tia.

Logo após a carta-súplica de seu amigo moribundo, Turgueniv, ele volta à pena e surge “A morte de Ivan Ilitch”, uma pequena-grande novela, uma epopeia sobre a Vida e a Morte, altamente concentrada, sem desvios nem distrações, uma incrível sobriedade no trato da finitude humana,.

“O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizesse nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte... E esta mentira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobra a sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar parte naquela mentira. […] via que ninguém haveria de compadecer-se dele, porque ninguém queria sequer compreender a sua situação”. Guerrássin, o camponês que dele cuidava, era o único a compreendê-lo e a compadecer-se dele. E por isso Ivan sentia-se bem unicamente em sua presença.

“A Morte de Ivan Ilitch” nos introduz ao mundo burocrático da Rússia czarista, com seus escritórios cheios de advogados e juristas, membros da melhor estirpe dentre as elites eslavas, aqueles cujo poder podem determinar o destino dos cidadãos comuns.

Ivan Ilitch é um desses importantes funcionários da máquina estatal. Com um casamento arranjado e um gordo salário, ele é o que comumente se considera um homem bem sucedido. No entanto, aos quarenta e cinco anos, uma misteriosa doença o pega de surpresa. Como a medicina não lhe dá respostas, só lhe resta suportar a dor. E esta criatura medíocre, egoísta,  somente se enobrecerá na tenacidade de seu desespero perante a morte.

“E se minha vida tivesse sido errada?”, perguntava-se em seu leito de morte. As dores morais, reproduzindo as mesmas incertezas do autor, “eram infinitamente maiores que as físicas”.

Na esperar pelo último suspiro, ele se conscientiza de toda a miserável vida que construíra e nunca quisera enxergar, erguida sob engodos e aparências. “Não havia nada a defender, nem os deveres profissionais, nem a vida regrada, nem a ordem familiar, ou o consumismo e os interesses mundanos. Tudo eram grandes mentiras.”

Enquanto os amigos não se importam realmente com a eminente morte do colega e sim com o cargo que ele ocupa e que ficará vago, a esposa e família tornam-se, em menos de três meses, sua presença agonizante é motivo de angústia e tristezas, que, gradualmente, caminham para a espera ansiosa por um desenlace que tarda... Solidários a Ivan em sua tangida dor, somente um filho e o servo que o serve.

A arte de Tolstoi, um “cristão-pagão”, em “Ivan Ilitch” é em sua essência anti-platônica: ela celebra a completa realidade do mundo, um Reino de Deus que deve ser celebrada no aqui e agora, única vida real que nos está destinada. Conforme Steiner, ele, em contraponto ao “Homem do Subterrâneo” de Dostoievski, desce ao fundo do corpo, a seus lugares mais sombrios.

Sufocante, angustiante, profundo e bastante pesado para quem se grudou em tantas ilusões na vida quanto o protagonista de a “A Morte de Ivan Ilitch”. O romance é mais que uma lágrima de lamentação pelo destino inexorável: é um estrondoso grito para que a vida tenha significado e que o desperdício não seja a norma geral ou sinônimo de felicidade.

Talvez este seja um dos poemas mais atormentados jamais escritos. Nos seus últimos três dias de enorme agonia, o moribundo sentiu, obnubilado pela morfina e pelo ópio, que alguém lhe beijava a mão. Viu o filho e a seu lado a mulher a chorar. Deixou de ter pena de si mesmo. Teve compaixão pelo sofrimento daqueles que até mesmo chegara a odiar, pois lhe sobreviveriam. “Estou a atormentá-los, estarão melhor quando eu tiver morrido. Nesse momento começou a sentir que todo o seu tormento se ia dissipando, escoando de seu corpo pelos poros, e, então, não teve medo da morte, em lugar dela via a luz.”

Ouviu que alguém a seu lado dizia: “Acabou a morte. Ele morreu”.

E morreu!