como espiar un celular con gps programa espião virtual gratis download keylogger software for windows 8 go here whatsapp hacking software for windows phone

 

Helenismo e a Tragédia Grega

Sófocles

O homem como deveria ser



Poucos meses depois de sua morte, um poeta escreveu: "Bendito seja Sófocles, que teve uma vida longa, era um homem feliz e talentoso e o escritor de muitas boas tragédias, e terminou sua vida assim, sem sofrer qualquer desgraça.”  

 

Sófocles nasceu em uma rica família, na comunidade rural de Colônia, pertencente a Atenas, que mais tarde se tornaria cenário para uma de suas peças. Ele nasce entre 497 e 496 a.C., quando Sófocles possuia ao redor de 25 anos.

Seu primeiro triunfo artístico ocorreu em 468 a.C., quando obteve o primeiro lugar na competição do drama ateniense por ocasião das festas dionízicas. Sófocles, além de artista, foi um homem de grande importância pública. Já aos 16 anos liderou o canto de triunfo, celebrando aos deuses a vitória dos gregos sobre os persas na batalha naval de Salamina. Quando adulto, foi eleito um dos dez estrategas, altos funcionários públicos, que comandavam as forças armadas. Sempre ao lado de Péricles, com quem privou grande amizade, em 443 ou 442 a.C. serviu como responsável pela guarda dos tesouros de Atenas e ajudou o amigo a controlar as finanças da cidade.

Viveu o período excepcional de bonança da democracia e da abundância proporcionada pela expanção do imperialismo ateniense em toda a Grécia. Por outro lado, o início da decadência ateniense o alcançou já na velhice, marcada pela derrota grega na Sicília e pela catastrófica batalha do Peloponeso. Considerado cidadão exemplar, foi eleito em 413 a.C., como um dos comissários com a função de elaborar uma política de reação contra aquelas perdas catastróficas.

Sófocles morreu na idade de noventa ou noventa e um anos, por volta de 405 a.C.. De acordo com a Suda, uma enciclopédia realizada pelos eruditos alexandrinos do século dez, Sófocles escreveu 123 peças durante sua vida, das quais apenas sete chegaram até nós em sua forma completa. São elas: Ajax, Antígona, As Traquínias, Édipo Rei, Electra, Filoctetes, Édipo em Colono.

Sófocles competiu em cerca de 30 concursos dionísicos, sendo o vencedor em 24 deles. Foi o introdutor dos painéis pintados, compondo a cena de palco. Com ele o coro reduz suas falas e os atores, em número de três, assumem maior relevância. Assim como no mundo de Ésquilo, no de Sófocles os deuses estão por toda a parte. Segundo Lesky, encontramos algumas diferenças fundamentais: entre o destino esquiliano que é ordenado por Zeus e que exige a expiação da culpa, levando o homem da dor ao discernimento, mas que também lhe permite aspirar à graça divina, e o de Sófocles, pois neste, embora tudo o que aconteça também tenha origem divina, o sentido de atuar dos deuses não se revela aos homens.

Podemos afirmar que as peças de Sóflocles que chegaram até nós constituem paradígmas da ambiguidade e das peripécias- as reviravoltas do destino- que caracterizam, ainda que em menor grau, todas as tragédias gregas. Não por acaso, muitos estudiosos denominaram o trabalho de Sófocles como o símbolo da “ironia trágica”: o herói é pego pela palavra empenhada, palavra que se volta contra quem a pronunciou e que ele não queria reconhecer. Ambiguidade que principiando pela palavra, perfaz os valores da condição humana, arrancando o herói de suas incertezas e antigas limitações. Somente o autor e o espectador possuem a virtude do conhecimento da comunicação e do entendimento do conjunto, e com isto “abre-se uma visão problemática do mundo e, através do espetáculo, assume a consciência trágica”.

Estas características encontraremos de forma extremada em cada encadeamento da mais famosas de todas as tragédias: Édipo-Tirano, que para o português traduziu-se como Édipo-Rei.

 

Édipo Rei



A figura da Esfinge, misto de mulher e leoa alada, devoradora de homens, inquere Édipo sobre o enigma: “Qual é o ser que é dípous, tripous e tetrapous?”

Nesta tragédia- tipo, as mesmas palavras irão, quando pronunciadas por pessoas diferentes adquirir sentidos ambíguos e mesmo, opostos, dado o ponto de vista a que direcionem o seu valor semântico, quer seja o da linguagem religiosa, o do direito, ou o linguajar da pessoa comum. Isto levou Vernant a afirmar que “do ponto de vista da anfibologia, Édipo-Rei tem o valor de um modelo”.

A casa dos Labdácias trazia em si uma maldição, que pricipia com Pelops e tem continuidade com o coxo Labdco, pai de Laio. Laio, o pai de Édipo, que cometera na juventude uma desmedida: convidado por um amigo, hospedara-se em sua casa e apaixonara-se por Crisipo, seu filho. Ultrapassara suas medidas imitando Zeus em sua pederastia divina, com Ganimedes. Ademais, Crisipo, pressionado pela voracidade sexual do pederasta, suicida-se e o pai amaldiçoa Laio. Desta maldição decorrerá o oráculo apolíneo de que o filho que ele tivesse o mataria e casaria, em incesto, com sua mulher. Laio evita filhos, mantendo apenas relações anais com Iocasta, sua mulher; até que um dia, embebedado, desvirgina-a. Agora Jocasta engravida e dará à luz o filho destinado a cumprir o oráculo maldito, Édipo, o dos pés inchados. 

 

 

Édipo-Rei passa-se em Tebas, diante do Palácio de Real, onde o coro dos anciões joelhado, representando o povo, é acompanhado pelo sacerdote de Zeus. O fato de estar ajoelhado é um símbolo de que Édipo era tratado como um deus ou como um tirano, pois tudo podia e sabia. “Édipo, tu que és o mais sábio dos homens”. Pela boca do sacerdote o rei será comunicado sobre calamidades que assolam a cidade: a peste que a dizima, a infertilidade do gado e das mulheres. Édipo declara-se condoído pela dor dos tebanos, que, inclusive, “padece as dores de toda a cidade, e as próprias dele.” Declara ter enviado Creonte, seu cunhado ao templo de Apolo para consultar o oráculo sobre o que fazer para salvar a cidade. E assina pela própria palavra a sua sentença futura ao dizer: “considerai-me um criminoso se eu não executar o que o deus ordenar”.

Creonte retorna e tenta fazer com que Édipo tenha com ele uma audiência particular, mas o rei insiste em que o oráculo seja dito perante o povo prostrado. “O deus quer que purifiquemos esta terra da mancha que ela mantém... que urge expulsar o culpado, ou puni-lo com a morte, dado que a cidade está maculada pelo sangue derramado.” Que o sangue derramado era o de Laio, antigo rei e para o qual o deus exigia a punição do assassino, pois ele se encontrava ali mesmo, em Tebas.

Édipo, na busca da verdade, questiona Creonte por não haver investigado, no passado, a morte do rei que partira para ouvir um oráculo em Delfos e fora assassinado durante viagem. Creonte responde: “Uma outra calamidade nos afligia, a Esfinge com seus enigmas, obrigou-nos a deixar de pensar nos fatos incertos.” Ora, o que é mais incerto que um enigma? Édipo decide que constitui seu interesse auxiliar o povo na descoberta do criminoso, e que fazendo-o, “serviria à sua própria causa.” “Que não recuará diante de nenhum obstáculo ... ou seremos todos felizes ou ver-se-á a ruína total”

O que Édipo fará será justamente o oposto, destruindo seus próprios interesses, destruindo-se somente a si mesmo, dentro da anfibologia trágica. O povo satisfeito se retira, assim como Creonte. Entra o coro dos anciãos e perante eles, Édipo lança a maldição, sem saber que a si próprio vitimiza: “Quem quer que saiba quem matou Laio, filho de Lábdaco, fica intimado a vir à minha presença e dizer... o criminoso que fale, antecipando-se ser acusado, pois a única punição que sofrerá será o banimento”. O ostracismo por dez anos era uma punição recentemente adotada pela democracia grega, que atingia alguns delitos, mas também os dissidentes ou aqueles que se sobressaíssem demais na sociedade, que poderiam ser tentados a tornarem-se tiranos.

Temos aqui o mito, de um passado muito remoto, discutindo as instituições do presente da democracia. O rei prossegue: “Que ninguém receba o assassino de Laio porque ele é uma nódoa infamante...eu quero que este criminoso desconhecido seja sempre um maldito! Que seja rigorosamente punido, arrastando, na miséria, uma vida desgraçada..” Ao rei responde o Corifeu: “Conheço alguém que conhece os segredos profundos: Tirésias!” Mandado buscar, entra Tirésias, cego e velho, guiado por um menino, que, inquerido, responde: “Oh! Terrível coisa é a ciência quando o saber se torna inútil! Do contrário não teria consentido vir até aqui. Ordena que eu seja conduzido à minha casa, será melhor para mim e para ti, oh rei!”

O conhecimento, coisa terrível! Édipo, o decifrador de enigmas que não consegue decifrar o seu próprio! Perante a cólera de Édipo, Tirésias que preferia o silêncio, mas dizendo entre-palavras que a tudo conhece, rende-se: “Será a verdade? Pois eu é que te ordeno que obedeças ao decreto que tu mesmo baixastes, e que, a partir deste momento, não dirijas a palavra a nenhum destes homens, nem a mim, porque o ímpio que está profanando a cidade és tu!”...”És tu o assassino que procuras!... eu te asseguro que te uniste, criminosamente, mas sem o saber, aqueles que te são mais caros e que não sabes ainda a que desgraça em que te lançaste.”

Édipo não o escuta; aquele tirano orgulhoso que tudo pensa saber, que não conhece seu “metron”. Acusa Tirésias, o vidente, de estar em conluio com Creonte para tirar-lhe do poder. Tirésias é claro:”Creonte nada concorreu para o teu mal; tu somente é teu próprio inimigo!” Édipo, em sua desmedida, busca algum culpado, na cegueira da alma: “Óh riqueza, óh poder, glória de uma vida dedicada ao saber , quanta inveja despertais contra o homem- o decifrador de enigmas- que tantos admiram”. Tirésias como a “boca pela qual fala Apolo”, coloca-se ao mesmo nível de Édipo, recusa qualquer subordinação a mortais como Creonte e lhe diz: “Tu tens os olhos abertos para a luz, mas não enxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem é aquela com quem vives. Nem sabes de quem és filho e és o maior inimigo dos teus. Pensas veres tudo claramente, mas em breve cairá sobre ti a noite eterna... pois nenhum mortal mais que tu, sucumbirá ao peso de tamanhas desgraças.”

Édipo o insulta e Tirésias que lhe responde: “Essa grandeza é a causa da tua infelicidade... O assassino de Laio está aqui! .. ver-se-á que ele é ao mesmo tempo irmão e pai de seus filhos, filho e esposo da mulher que lhe deu a vida , e que profanou o leito de seu pai, a quem matou. Vai Édipo, pensa sobre tudo isso em teu palácio..” Tirésias reposicionou o enigma da Esfinge. Aquele proposto e respondido por Édipo, como sendo o do homem “genérico”: “quem caminha sobre duas, três e quadro pernas? ”; na verdade a pergunta era um enigma sobre o futuro dele mesmo, Édipo, o homem “real”: sobre duas pernas quando enfrenta a fera, sobre três no desespero e cego e sobre as quatro pernas com sua filha no exílio!

A cena a seguir é protagonizada por Édipo e Creonte. Acusado pelo primeiro de traição e que quer aplicar-lhe, como tirano, a pena de morte, exige obediência. Creonte contexta que ele somente seria obedecido se “o que ordenasse fosse justo, pois, apesar do cetro, a cidade não lhe pertence”. Apenas o coro, simbolizando os cidadãos, conseguirá fazer com que o tirano desista da condenação do cunhado, que encerra desta forma o discurso: “Um caráter como teu é fonte de dissabores.”

A conversa seguinte será entre Édipo e Jocasta, quando ela, para acalmá-lo lhe diz que é impossível que ele tenha sido o assassino de Laio, conforme dissera Tirésias: “Nenhum mortal pode devassar o futuro...Um oráculo foi outrora enviado a Laio...o destino do rei seria o de morrer vítima do filho, fruto do casamento comigo. Ora, todo mundo garante que Laio morreu assassinado por salteadores estrangeiros, numa encruzilhada de três caminhos. Quanto ao filho que tivemos, muitos anos antes, Laio amarrou-lhe as articulações dos pés e ordenou que fosse precipitado de uma montanha inacessível. Logo, deixou-se de realizar o que Apolo predissera... Não te aflijas, pois o que o deus julga que deve anunciar, o faz pessoalmente.”

Pois é justamente esta narrativa de Jocasta que conturba, pela primeira vez, a alma de Édipo: o local e o número de acompanhantes que possuia Laio quando fora morto! “Ai de mim! Receio que tenha proferido uma tremenda maldição contra mim mesmo, sem o saber.”Ele pressente ter tudo descoberto, mas é apenas como o matador de um agressor e preponte, Laio, que aquele que se crê filho de Políbio, se vê. Conta à mãe o que presume ser a sua história: “Meu pai é Políbio, rei de Corinto e minha mãe, Merope...durante um festim em Corinto, um homem pôs-se a me insultar, dizendo-me que eu era um filho enjeitado... no dia seguinte, parti até Delfos e o oráculo não respondeu à pergunta que lhe fiz ( sobre a paternidade) mas anunciou-me uma série de desgraças, horríveis e dolorosas: que eu estava fadado a unir-me em casamento com minha própria mãe, que apresentaria aos homens uma prole malsinada e que seria o assassino de meu próprio pai. Decidi, diante de tais predições, exilar-me para sempre de Corinto, para que aquelas torpezas jamais se realizassem. Foi quando, numa encruzilhada como a que descreveste, matei um agressor e seus acompanhantes. Se aquele velho for Laio, terei sido o seu assassino.”

Continua cego aquele que se crê sábio e vê a luz do dia. É, então, convocado ao palácio o único sobrevivente da luta em que fora morto Laio, aquele que dissera que a comitiva real haviam sido vítimas de salteadores. Neste ínterim, chega também ao palácio um mensageiro que diz que, em Corinto, Édipo fora proclamado rei, após a morte de Políbio e que o povo o espera. Édipo pergunta sobre Merope, que viva, ainda os oráculos lhe inspiram o receio de incesto. O mensageiro diz-lhe que deve se sentir livre e tranquilo pois Políbio jamais fora seu pai de sangue e nem Merope sua mãe, pois a criança fora entregue aos reis por suas próprias mãos, recolhida que fora numa gruta e salva por ele mesmo, o mensageiro. Outro detalhe faz com que o infeliz Édipo comece a enxergar o que não queria ver: a criança tinha as extremidades do corpo furadas e era “oidipos”, tinha os pés inchados, como os seus próprios. Finalmente o mensageiro conclui que um outro pastor dera-lhe, na verdade, a criança e esse, por coincidência, era o mesmo servo que sobrevivera à luta na encruzilhada de três caminhos, quando do assassinato de Laio.

Jocasta a tudo entende e tenta demover o filho da convocação do pastor e que “esqueça tudo”. Mas Édipo, do começo ao final do drama permanecerá psicologicamente o mesmo, diz Vernant: “o homem de ação e decisão , possuidor de coragem que nada pode abater, inteligência conquistadora e nenhum erro moral, nenhuma falta deliberada cometida.” Ele irá até o final. “Infeliz, tomara que jamais venhas a saber quem és”, diz a mãe.

Mas a cegueira ainda o não abandonou. Questiona sua origem, não como filho de Laio e Jocasta, mas como a de um enjeitado de baixa extração social, ainda se considera um afortunado aquele que é o mais dígno de piedade dos homens. O servo convocado tira-lhe as últimas vendas, obrigando-o, finalmente, a ver a verdade de sua origem. “Ai de mim, está tudo claro, óh luz, que eu te veja pela derradeira vez! Tudo me era interdito: ser filho de quem sou, casar-me com quem casei, ter matado aquele que não poderia matar”.

O coro dos anciões: “Condoído, eu choro tua desgraça, com lamentações de sincera dor! Para dizer-te, também, que foi graças a ti que um dia pudemos respirar tranquilos e dormir em paz.”.

Jocasta suicida-se e Édipo perfura ambos os olhos com a fivela de ouro de seu manto, dizendo: “Não quero mais ser testemunho de minhas desgraças, nem de meus crimes! Nas trevas não verei aqueles a quem nunca deveria ter visto, nem reconhecerei a quem não quero reconhecer... Sim, foi Apolo o autor de meus sofrimentos, mas ninguém arrancou os meus olhos; fui eu mesmo... uma criatura odiada pelos deuses.”

O Corifeu encerra a tragédia: “Habitantes de Tebas, minha Pátria! Vede este Édipo, que decifrou os famosos enigmas! Deste homem tão poderoso quem não sentirá inveja? No entanto, em que torrente de desgraças se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.”

Édipo tirano foi glória e peste; instalara-se no poder através de um casamento oportuno e desejava perpetuar-se no poder. Os cidadãos de Atenas que presenciam a tragédia desejam a alternância do poder, a base da democracia. Os tiranos haviam trazido benefícios, como figurativamente Édipo ao derrotar a Peste-Esfinge, mas isto não lhes concedia o direito a perpetuarem-se no poder.

Finalmente, cumpre-nos recordar a publicação de Vernant: “Édipo sem Complexo”, onde se contrapõe à generalização de Freud relativa ao “Complexo de Édipo”, insistindo em que: Édipo jamais teve consciência do incesto por ele praticado; que tinha por mãe e por pai outras pessoas, das quais se afastara para evitar justamente o oráculo que o mancharia; quanda casa-se com Jocasta o faz por uma imposição da cidade de Tebas, que ele livrara da peste e este casamento, com uma mulher muito mais velha, nada tinha a ver com complexos ou sentimentos ditos “edipianos” de posse e incesto e, finalmente, que o parricídio em nenhum momento reveste-se de algum sentido psicológico, pois fora a reação de um jovem orgulhoso à agressão desmedida de um rei presunçoso que o chicoteara na face.

 

Édipo em Colono



Esta tragédia de Sófocles somente foi encenada após a sua morte. Édipo, no ostracismo, completamente dependente, pois cego e velho, já não se dirige a seus cidadãos, mas à filha que o acompanha na desgraça. Não dá órdens, apenas questiona; de arrogante que fora, torna-se súplice. Por outro lado, aquele que como fora um pharmacon, cuja limpeza Tebas exigira e por isto o expulsara, transforma-se no terreno das Eumênides em benfazejo e, na morte, seu cadáver será disputado por simbolizar a pureza daquele que, em vida, cumprira a maldição e o juízo imposto pelos deuses a seu pai. Quem lutara a vida inteira conta os oráculos agora iria cumpri-los. Oráculos, tais quais as tragédias, sempre enigmáticos, jamais mentirosos. A cegueira abrira-lhe os sentidos da alma e em vez do jovem que buscava desesperadamente a verdade, teremos o sábio que despreza a glória e harmoniza-se com o destino, consigo mesmo e com a natureza. 

Édipo cego e em andrajos, exilado de sua terra Tebas, busca abrigo na agrícola Colono, terra pertencente à cidade de Atenas. Sobre seus joelhos repousa sua filha e irmã, Antígona.

 

 

O Prólogo de Édipo em Colono é um diálogo entre pai e filha, andarilhos que chegam a uma terra estrangeira levados pela mão do destino. Um transeunte informa-os que estavam em um local inabitável, pertencente à vingadoras de crimes de sangue, as Eumênides, em Colono. Mas ele mesmo, o transunte não se atreve a expulsá-los sem uma decisão coletiva da cidade.

Édipo suplica às deusas abissais para que o recebam, que lhe permitam a tranquilidade de ali, em Colono, concluir seus dias. Um vaticínio de Apolo o trouxera até ali. Entretanto, o coro dos anciãos de Colono sugere aos dois que saiam da área interdita, habitada pelas deusas, mas garantindo-lhes que deste sítio ninguém os tiraria contra a própria vontade. Mas tudo se modifica ao conhecerem que naquele andarilho encontra-se a figura maldita de Édipo.Têm medo que ele contamine a terra ateniense. Édipo se defende em três linhas: primeiramente questiona o juízo dos anciãos que representam “a piedosa Atenas, conhecida como singular na proteção aos perseguidos”; depois expõe sua causa: “Como eu poderia ser taxado de mau por natureza se respondi a agressões?...se vós estais com os justos, não empaneis o brilho de Atenas com ações injustas”; finalmente, a troca, o benefício: “Venho revestido do manto da piedade e trago benefícios a estes cidadãos”.

Aproxima-se do grupo uma figura feminina com um servo. É Ismênia, a outra filha de Édipo, que se declara ser, na desgraça, a terceira. Esta relata-lhes as novidades de Tebas, a luta entre os irmãos pelo poder: o mais jóvem, Etéocles, expulsa da cidade o primogênito, Polinices e este articula com Argos um exército invasor para apossar-se e destruir Tebas. Mas esta não é a única novidade, pois após a expulsão do pai de Tebas, um novo oráculo definiu Édipo, vivo ou morto como benfazejo à cidade que o ampasse. Diz Ismênia: “Erguem-te agora os deuses que antes te abateram… e Creonte virá te procurar, em breve, por causa deste oráculo.”

Édipo pergunta se os filhos homens compartilham da opinião de Creonte e conclui: “Miseráveis, assim instruídos, pensam mais no poder que em minha dor… Para reter-me em Tebas, eu que lhes dei a vida, nada fizeram e fui vilmente expelido… vocês, donzelas me socorreram, enquanto que meus filhos, em lugar de quem os gerou, elegeram trono, cetro, mando e o poder. Não espere que eu os ampare e jamais o cetro de Cadmo( fundador de Troia) estará em suas mãos.”

Teseu, o rei de Atenas, cidade a que pertence Colono chega e oferece-lhe sua solidariedade. Édipo lhe assegura que quando morrer, apenas benefícios adviriam da permanência de seu corpo naquelas terras, onde sepultura que lhe seria dada. Mas o suplicante lhe adianta que tentarão resgatá-lo. “Sómente os deuses não são agredidos pela velhice nem pela morte, os demais sucumbem todos à prepotência do tempo. Esgota-se o vigor da terra, a infidelidade prospera, …para uns e para outros, mais cedo ou mais tarde, a amargura corrompe laços fraternos ou se regenera a fraternidade.”

Teseu, representante da cidade que não mais conhece tiranos, oferece-lhe até o seu palácio para hospedá-lo, mas este o recusa, pois aquele pedaço de terra é o seu derradeiro lugar. O rei conforta o hóspede já que todos o defenderão: “Ameaças severas não passam com frequência de palavras vazias, produzidas pela cólera, mas a razão quando retorna, expele intimidações.”

Sai Teseu e chega Creonte, com numeroso séquito. Tenta convencer Édipo a que retorne, oferece-se para proteger-lhe as filhas, declara-se parente e interessado na sua sorte. “Encobres intenções abjectas com palavras dignas…a situação é esta: ao faminto, necessitado, ninguém presta ajuda…graça só interessa aos desgraçados… não queira ludibriar-me com vantagens tolas…Vai, Creonte, e deixa-me viver aqui.” Perante a negativa, Creonte sequestra as suas filhas para obrigá-lo a seguir-lo. O coro de anciãos quer resistir, mas Creonte, cercado da força bruta, ordena que seus homens fujam levando Antígona e Ismênia. Tenta ainda aprisionar Édipo, que o amaldiçoa a ter uma a existência igual à sua, na solidão e na desgraça (como veremos na tragédia seguinte, Antígona).

Retorna Teseu e convoca os soldados para que os homens de Creonte sejam, de qualquer forma, inteceptados. Uma vez encontrados, o representante da Atenas democrática diz ao tirano de Tebas: “O que fizeste não dignifica ninguém: nem a mim, nem a ti, nem a teus pais. Penetras num Estado onde se pratica a justiça, onde as leis cumprem-se, apossas-te do que te agrada, submetes inocentes e pensa fugir incólume? Julgas que não há homens nesta cidade, que esta é uma terra escrava e que eu não valho nada? Não foi Tebas quem te ensinou vilanias, Tebas não costuma sustentar gente que não respita as leis… a idade que sobre ti se acumula te enriquece em anos e empobrece em inteligência.”

Édipo declara-se limpo de qualquer mácula e questiona Creonte: “Porque em mim não se encontrará nada digno de castigo; explica-me: os oráculos não haviam previsto a meu pai que ele seria morto pelo filho?.. .se ataquei meu pai e o matei sem saber, o fiz em legítima defesa; como podes denunciar-me por um ato involuntário como se tivesse sido intencional?...não dormi com minha mãe por vontade minha. Não sou criminoso, niguém poderá acusar-me nem de incesto, nem de parricídio… Mas você, Creonte, gosta de tornar público assuntos privados.”

Pobre Édipo, que destes crimes jamais poderia ser acusado e a prova mais evidente é o abrigo final que lhe é concedido em território das Fúrias, agora Eumênides, vingadoras implacáveis dos crimes de sangue. Limpo perante a justiça de Zeus. Seus assuntos jamais deveriam tornarem-se públicos, pois não poderia ser acusado, estando livre diante da justiça dos homens.

Creonte parte e as filhas do cego retornam, libertas pelos homens de Teseu; o rei de Atenas lhe solicita que conceda uma entrevista a um suplicante, que se diz um parente, vindo de Argos. É Polinices ( o de muitas rixas) e Édipo declara que o odeia, e que não desejaria falar-lhe, pois “a ninguém mais lhe repugnaria.” Antígona e Ismênia insistem em que o receba: “Também outros pais tiveram filhos ingratos…considera não o que sucede agora, mas os males que padeceste, oriundos de teu pai e tua mãe”. O coro dos anciãos declara: “O velho que transgredir o comedido e aspira a uma excedente na vida, cultiva a insensates aos meus olhos. Ricos em anos, prosperamos em dores. Foge o prazer de quem rompe as fronteiras de sua medida. Igualando todos, emerge do reino de Hades o fim, sem festas, sem lira, sem danças, a morte, derradeiro limite… quando passa a juventude com seu séquito de futilidades, quem escapa do flagelo das dores e das pencas das penas? Mortes, rebeliões, ira, guerras, inveja… Sobrevém o mais execrável, o íngrime píncaro inefável, a desarmada velhice, congresso de males com outros males.”

Entra Polinices com um pedido de misericória! Que fora despojado do poder pelo irmão Etéocles e, exilado, buscara organizar uma expedição punitiva contra a cidade de Troia. Vem ao pai implorar para que Édipo suspenda a ira contra si, que o apoie pois os oráculos previram que o vitorioso dependeria do apoio do cego mendicante. Édipo apenas dirige a palavra ao filho em consideração a seu protetor, Teseu: “Tu, quando tiveste o cetro que hoje está em mãos de teu irmão, baniste teu próprio pai, reduzindo-me à condição de sem cidade (para o cidadão grego esta pena somente era suplantada pela condenação à morte) e me cobriste de farrapos que te provocam lágrimas somente agora em que caíste no abismo em que te lançaste?...Não tomarás jamais aquela cidade; teu sangue manchará a terra junto com o do teu irmão. As maldições que lancei contra os dois, chamo-as agora como companheiras de guerra para que ensinem aos filhos respeitar os pais… Eu te renego!.. Este é o presente de Édipo aos seus dois filhos.”

Antígona tenta persuadir, em vão, o irmão de abandonar o ataque à sua cidade, a sua própria destruição. Polinices parte, ouvem-se trovões e o céu relampeja.

Édipo solicita a presença de Teseu, pois pressente que é chegada a hora de sua morte. “Teseu, não reveles jamais a ninguém o lugar para onde eu te conduzirei e que será o de minha morte. Revelar-te-ei segredos que permitirão que tua cidade estará para sempre protegida contra as sementes do dragão ( referia-se a Tebas)… Não permita que a loucura te afete, não te apartes do sagrado… Caminho guiado por Hermes, a última etapa antes de sumir no invisível, e tu, o mais querido dos estrangeiros, tu, este povo e esta terra, que a aventura vos acompanhe! Florecei em infinita prosperidade!” Entram mata adentro.

O mensageiro retorna e, ao anunciar a morte de Édipo diz que ele, o cego, conduziu a todos e junto a determinada pedra, despiu as vestes enxovalhadas, e ordenou às filhas que lhe trouxessem água para banho e libações. Satisfeitos seus últimos desejos, ouviram-se os ribombares de Zeus, e ele, apertando-as nos braços, disse: “A partir de agora não tendes mais pai. Extinto está tudo o que eu fui. Uma última palavra filhas: jamais alguém vos deu o afeto que tivestes deste homem que agora vos é arrebatado por toda a vida.” Eis que uma voz divina se fez ouvir apressada: “Édipo, quando é que partiremos?” “Édipo ficou só com Teseu e quando os olhamos a certa distância o lugar dele estava vazio. Não foi extinto por fogo celeste, nem por tempestade vinda do mar, foi levado por algum mensageiro, ou melhor, a terra benigna se fendeu para dar-lhe suave repouso. Esse homem partiu sem gemido algum, sem tormento ou enfermidades.”

Chegam suas filhas que o lastimam: “Tenho saudades das contrariedades de então. O indesejável de ontem me é desejável agora... Sinto-me tão só, longe de mim… Prisioneira da dor.” Entra Teseu: “Cessem o pranto, filhas. Tem sentido chorar aquele que repousa coroado com o reconhecimento de todos?... Podeis contar comigo. Farei tudo que for benéfico a vós e ao que a terra abriga para o vosso bem. Nunca deixarei de cumprir o meu dever.”

O Corifeu encerra a tragédia: “Cesse o pranto, está tudo acertado.” A morte e suas questões constituem o centro de toda "Édipo em Colono". Para onde vamos depois da morte? A natureza que nos gerou, nos traga como a terra tragou Édipo? A morte nos conduz à última e definitiva aporia , de onde nenhum caminho se vislumbra? O mistério é parte da morte assim como o é a mensagem que Édipo diz ter para Teseu, jamais dizível. Penetrar nos bosques de Colono, de braços com Édipo, refletir após toda uma vida de lutas e ações, harmonizar-se com a vida na hora da morte, MORTE QUE SE FAZ ESTÉTICA.

Basta, fechem-se as cortinas, nem mais uma palavra!

Antígona



Com Sófocles a tragédia torna-se mais humana desprendendo-se, gradualmente, dos deuses; os desígnios dos mesmos, conhecidos em Ésquilo, são desconhecidos em Sófocles; logo as ações dos humanos revestem-se de maior responsabilidade perante o destino e tornam-se mais morais, mais exemplares, como já vimos nas duas tragédias anteriores. O homem está numa encruzilhada de ações, face a uma decisão que o engana por completo. No dizer de Vernant, “isto ocorre num mundo de forças obscuras e ambíguas, onde uma justiça luta contra outra justiça, um deus contra um deus, onde o direito nunca é fixo, mas vira e transforma-se no seu contrário.”

O homem até acredita que está optando pelo bem, como Creonte, em Antígona, mas é o mal que termina por praticar. Antígona é uma tragédia que dá continuidade às desgraças que pairam sobre os descendentes de Labdaco, Laio e Édipo. Seu enredo desenvolve-se após a luta de Polinice e seus seis aliados de Argos contra Tebas, luta que é vencida pela cidade sitiada, após as mortes em combate singular dos irmãos Etéocles, rei de Tebas e de Polinices, cumprindo-se a maldição proferida pelo pai, Édipo. Creonte, irmão de Jocasta e tio dos dois, assim como das irmãs Ismênia e Antígona, reina em Tebas.

 

 A imagem de uma mulher como heroína, que desafia o príncipe e a própria cidade em defesa de sua phylia. Capaz de viver, sofrer e morrer por um ideal. Sófocles rompe uma série de paradígmas de uma sociedade machista e mesmo os propostos pelas próprias tragédias de Sófocles. 

 

Antígona tem como primeiro cenário o palácio real tebano. Com Etéocles e Polinices mortos, o exército de Argos fugiu em debandada. Antígona e Ismênia conversam sobre sua dor e solidão. Creonte é o herói do momento e ordena honras fúnebres para o cadáver de Etéocles, que comandou a resistência de Tebas; ao mesmo tempo ordena que o corpo de Polinices, declarado traidor, não receba sepultura, tornando-se pasto de aves e cães. O édito de Creonte é claro: aquele que der sepultura e realizar libações ao traidor morrerá por lapidação (morte a pedradas).

Antígona pergunta à irmã se ela a ajudaria a dar sepultura a Polinices, compartindo o trabalho e o perigo. Ismênia se nega: “Enterrar o morto que Tebas renegou?”. “Não, o morto que se revoltou”, contexta Antígona. “Você tem a coragem de colocar-se contra Creonte e o povo?”, pergunta Ismênia. Ao que Antígona sentencia: “Nenhum dos dois é mais forte que o respeito a um costume sagrado. Enterro o meu irmão, que também é teu. Farei a minha parte e a tua se te recusares. Poderão matar-me, mas não dizer que o traí.”

Ismênia ainda tenta convencer a irmã: “Temos que lembrar sermos, em primeiro lugar, mulheres e não podemos competir com os homens; em segundo lugar, que somos dominadas pelos que detêm a força e temos que obedecê-los. Peço perdão aos mortos que só a terra oprime: não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida a obedecer, obedeço. Demonstrar revolta inútil é pura estupidez…Eu não desonro nada, apenas não me sinto com forças de desafiar o poder!...Pelo menos, Antígona, guardas silêncio sobre o que vás fazer.”

“Não! Eu falo! Tu me serás mais odiosa se te calares do que se disseres a todos o que eu pretendo fazer. Deixa-me com minha temeridade enfrentar o perigo! Meu sofrimento nunca há de ser tão grande, quanto gloriosa será a minha morte.”É a fala de uma Antígona que prefere seus laços familiares, já tão destruídos pelo destino, às leis da cidade. Que se revolta contra sua própria condição inferiorizada de mulher, que busca fazer com que seus atos pareçam exemplares.

Saem as moças e entra o coro contando para a platéia a luta de Tebas contra os estrangeiros comandados por sete chefes, dentre eles, Polinices. Chega Creonte e declara-se dono do poder e do trono de Tebas: “Ora, tenho para mim que é impossível conhecer a alma, os sentimentos e o pensamento de um homem antes de tê-lo visto na aplicação das leis e no exercício do poder. Pela minha parte considero, hoje como antes, um mau governante aquele que não saiba adotar, no governo de uma cidade, as decisões mais sensatas e que deixe o medo, por que motivo for, acorrentar-lhe a língua; e aquele que considere um amigo mais que a própria Pátria, este eu considero um ser desprezível…nunca terei por amigo um inimigo de meu país.” Anuncia o seu edito em relação aos filhos de Édipo, mortos em combate singular. O Corifeu reconhece-lhe o direito de fazer prevalecer a vontade do dirigente tanto sobre os mortos como sobre os vivos, mas pede que não sejam os anciãos os encarregados de cumprirem suas ordens. 

Entra em cena um vigilante que guardava o cadáver insepulto de Polinices e já declara seu medo pelas novidades que tem a transmitir, pois não fora ele nem o autor do fato e nem mesmo vira quem o tivesse sido: o cadáver insepulto de Polinices ganhara, durante a noite, sepultura e libações!

O Corifeu intervém: “Não teria sido obra dos deuses?” Creonte, frente aos cidadãos cometerá a mesma desmedida de seus antecessores, com o autoritarismo e a soberba que o poder, aparentemente, lhe outorgam: “Cala-te, não passas de um velho e néscio…desde quando os deuses se interessam por um cadáver? Quando vistes um deus honrar um malvado? …Mas desde algum tempo, certos cidadãos submetem-se com dificuldades às minhas ordens e murmuram contra mim, pois não querem submeter o pescoço ao meu jugo…foram essas pessoas que subornaram as sentinelas e as induziram a fazer o que fizeram. De todas as instituições humanas, nenhuma como o dinheiro trouxe consequências mais funestas. É o dinheiro que devasta as cidades, que expulsa os homens de seus lares, que seduz as almas virtuosas e incita às práticas vergonhosas…mas aqueles que se deixaram corromper terão o seu castigo.” E ameaça o vigilante e mensageiro de que se não trouxessem os responsáveis pelo sepultamento, todos os guardas seriam pendurados até que a verdade fluisse na tortura, pior que a morte.

O Mensageiro lhe responde:”Grande desgraça julgar por suspeitas, quando estas suspeitas são falsas.” O coro o secunda: “Numerosas as maravilhas do mundo, mas de todas a mais surprendente é o homem”. Descreve-lhe todas as conquistas, suas descobertas, o uso da palavra, o racicínio, os costumes urbanos que regem as cidades e que o homem somente da morte não se consegue fugir, apesar de tantos avanços na cura de doenças. “Dotado de habilidade, abre um caminho, uma vez em direção ao mal, outra em direção ao bem, confundindo as leis e a justiça que prometeu aos deuses observar.””É indigno de viver numa cidade aquele que, estando à frente de uma cominidade, por ousadia se habitua ao mal.”

Após sair, o Mensageiro retorna à cena, trazendo Antígona amarrada. “Rei, os mortais nunca devem jurar, pois uma segunda decisão desmente muitas vezes uma primeira intenção…Trago-te esta jovem que foi surpreendida ao cumprir os ritos funerários… Após as suas ameaças, havíamos varrido a terra que cobria o cadáver e o deixamos a se decompor. De repente, como um prodígio, uma enorme corrente de pó se levantou e quando pudemos olhar, vimos esta jovem que gritava de desolação ao encontrar-se com o insepulto. Com as próprias mãos recolhia o pó seco e o jogava sobre o corpo. Foi quando a prendemos e ela nada negou sobre o que fazia.”

Inicia-se, então, o diálogo central do drama, entre Antígona, a prisioneira e Creonte, o príncipe:”Sabias da proibição que eu havia promulgado...e ousastes desobedecer minhas ordens?”. Antígona: “Sim, porque não foi Zeus quem promulgou para mim essa proibição, tão pouco a justiça divina… e não pensei que teus decretos, mortal que és, pudessem ter primazia sobre as leis não escritas e imutáveis dos deuses…eu sabia, antes do teu decreto, que teria que morrer um dia. Se devo morrer antes do tempo, tendo vivido no meio de incontáveis desgraças, aos meus olhos isto tem vantagens…Se apesar de tudo te parece que agi como insensata, bom será que saibas que talvez seja um louco quem me trata como louca.”

Creonte, cego pelo poder, exorbita as funções que a ponderação impõe a quem detém o mando. Proclama a sentença de morte de Antígona, mesmo ela sendo sua sobrinha e, não satisfeito, também a de Ismênia, por suspeitar de sua ajuda à irmã. Antígona dirige-se ao coro de cidadãos: “Todos os que aqui me escutam cumular-me-iam de elogios se o medo não lhes cortasse a lígua. Mas os tiranos contam entre suas vantagens o poder fazer e dizer tudo o que quizerem… Não nasci para compartilhar o ódio, mas apenas o amor.”

A cegueira que se apodera de Creonte faz com que ele receba Ismênia, uma menina ainda, como suma ameaça a seu trono: “Oh tu que como uma víbora, arrastando-se cautelosamente no meu lar, bebias meu sangue na sombra. Não sabia que criava duas criaturas dispostas a derrubar o meu trono! Vais confessar que também participaste do funeral ou jurar que nada sabia?” Ismênia diz-se culpada sem o ser e quer partilhar a pena com sua irmã. A menina desafia corajozamente o poder, mas Antígona não lhe permite o sacrifício. “Salva a tua vida: não te invejo se conseguires conservá-la…tu preferiste viver; eu, em contrapartida, escolhi morrer… a minha alma há muito tempo está morta, e já só é capaz de ser útil aos mortos.”

É Ismênia agora quem afronta Creonte: “E vai matar a noiva de teu filho?” A tergiversação própria de tiranos se faz ouvir: “Será Hades e não eu a por fim a estas núpcias.” O destino de Antígona está traçado e o imprudente Creonte ordena que ambas as irmãs sejam amarradas e conduzidas para dentro do Palácio.

Entra Hermon. O Corifeu anuncia-o como o mais novo dos filhos do rei; ele está em prantos pela sorte da noiva. Ouve do pai uma longa pregação sobre a submissão dos filhos aos pais. “Quem souber governar bem a sua família também saberá reger a justiça do Estado”. Tal qual Édipo o fizera, Creonte por soberba dita a sua sentença quando cair em desgraça. “Não há pior peste que a desobediência; ela devasta as cidades, transtorna as famílias e empurra para a derrota as lanças aliadas”. A sociedade machista da época dita a Sófocles a frase final: “É melhor, se preciso for, cair pela mão de um homem do que se ouvir dizer que fomos vencidos por uma mulher.” Hermon tenta ainda tirar seu pai da cegueira da "ate" que o possui: “O homem do povo teme demasiado o teu olhar para que se atreva a dizer-te o que te seria desagradável de ouvir. Mas a mim é fácil escutar na sombra da cidade, de como ela se compadece dessa jovem, condenada à morte por não consentir que o irmão, morto na luta, fique privado de sepultura…Não te obstines em manter como única opinião a tua, julgando-a razoável. Todos os que pensam possuir uma inteligência ou um gênio superior aos outros, quando se penetra dentro deles, mostram apenas a nudez de sua alma… Ao homem, por sábio que seja, não lhe deve ser vergonhoso apreender com os outros e não aferrar-se demasiadamente a seus juízos… Cede pois em tua cólera e modifica atua decisão.”

Mas Creonte não aceita que a cidade lhe diga o que fazer; como tirano, coloca-se acima dos cidadãos. Creonte pensa que a cidade lhe pertence e não ele a ela e Hermon conclui: “Só mesmo num deserto terias o direito de governar sozinho… Vejo-te, com efeito, violar a Justiça”. Estabelecem-se os princípios da democracia, da força do cidadão e da Justiça que delimitam o poder do soberano. A alternativa é o “governo do deserto”. A Creonte resta acusar o filho de deixar-se dominar por uma mulher e também o ameaça de pagar caro pelas palavras. Ao não entender Hermon quando ele diz que haveria não um, mas dois mortos, julgando-se do seu pedestal, ameaçado pelo filho. Ordena que tragam as moças e deseja matá-las na frente de Hermon, que deixa-o sob a promessa de jamais voltar a vê-lo.

Só então, Creonte recua com relação à sentença de Ismênia e decreta para Antígona a morte “natural” por emparedamento em uma caverna, para sentir-se “livre de culpas”. Antígona saindo do palácio para o sepulcro que lhe foi destinado, fala aos cidadãos de Tebas: “Caminho para o Hades sem conhecer o himeneu, meu esposo estará no Aqueronte...”O Corifeu tenta consolá-la: “Vais para o abismo dos mortos sem ter sido alcançada pelas doenças que emurchecem, sem ter sido submetida à servidão por uma espada vitoriosa; só entre todos os mortais, por tua própria vontade livre  desces ao Hades”.

Antígona morrerá por não desligar-se dos seus; seus laços familiares são muito mais fortes que os de sua cidadania; morre sem himeneu pois não conseguiu abrir-se para o outro, para Eros, na observação de Vernant. Eros e Dionísio são desprezados por Antígona, mas não somente por ela, também por Creonte, que pagará pela consequência de seus atos.

Entra em cena Tirésias conduzido por uma criança e busca por Creonte. “Creonte, é preciso que saibas que a Fortuna te colocou novamente sob o fio da navalha… uma desgraça, por culpa tua, ameaça a cidade. Os altares estão repletos dos restos mortais que os animais arrancaram do filho de Édipo. Pense nestes presságios. O erro é comum a todos os homens; mas quando se cometeu uma falta, persistir no mal em vez de remediá-lo é atitude de um desgraçado e insensato. A teimosia é mãe da estupidez… Que valor há em matar um morto pela segunda vez?”

Atitude semelhante à de Édipo no passado, é a assumida por Creonte. Duvida do oráculo e acusa Tiréias ou por haver-se deixado subornar ou de estar demente. Tirésias: “Se os advinhos são ávidos por dinheiro, a espécie dos tiranos gosta de adulações vergonhosas.” E, afinal, faz sua previsão oracular: “Um herdeiro do teu sangue pagará por esta morte, pois condenaste um ser que vivia na superfície a viver em um sepulcro e aquele que está morto, a viver na superfície. As Erínias vingadoras estão à espreita para envolver-te nos mesmos males que infligistes”.

Finalmente, o rei sente-se abalar em suas "certezas" e readquirindo consciência de suas ações intempestivas pergunta ao coro, aos cidadãos, o que deva fazer. O Corifeu lhe responde que deve imediatamente retirar Antígona da gruta e dar sepultamento a Polinices. Esta é a vontade do povo. Creonte corre para libertá-la pessoalmente.

Chega um Mensageiro que relata o que o ocorrido. Creonte, que era digno de inveja por deter o poder absoluto e os filhos nobres, mas agora, tudo perdera. Relata a morte de Hermon pelas próprias mãos. Entra em cena a pobre Eurídice, mulher de Creonte, a quem o mensageiro detalha o suicídio do filho ao lado do cadáver de Antígona, pendurado por uma corda no pescoço. Ao pai que lhe implorara que se acalmasse, o filho atirou-se espada em riste; ao não alcançá-lo, ferira-se a si próprio. Enlouquecida pelas desgraças que se abateram sobre seu lar, Eurídice retira-se e também buscará consolo na própria morte. 

Creonte entre em cena com o corpo do filho nos braços: “Oh irreparáveis e mortais rancores de minha mente extraviada! Vedes o assassino e a vítima de seu próprio sangue! Oh sentenças cheias de demência! Filho, tua morte não foi causada por tua loucura, mas pela minha.” É, então, comunicado de mais uma desgraça, a da morte de Eurídice. “Antes de morrer amaldiçoou-te, desejando todo o gênero de desgraças e chamou-te de assassino de teu filho”, diz –lhe o mensageiro.

Creonte implora ao coro que o carreguem para longe, pois “Tudo o que tinha caiu por terra e uma imensa angústia abateu-se sobre minha cabeça.”

Creonte que defendera e libertara a sua cidade do cerco inimigo, que desprezava os que traem à Pátria, que considerava o amor à cidade acima de todos os bens, também é arrastado pela desgraça, e tal qual Édipo, sem forças para matar-se, será um andarilho a implorar que a vida se estinga. O coro encerra o espetáculo: ”A prudência é, na verdade, a primeira fonte de ventura. Não se deve ser ímpio para com os deuses. As palavras insolentes e altaneiras são pagas com grandes infortúnios pelos espíritos orgulhosos, que não aprendem a ter juízo quando chegam as horas tardias da velhice."

Filoctetes



Filoctetes é uma das últimas peças de Sófocles. Ele é um eremo, um solitário eremita exilado na ilha desabitada de Lemnos, em meio a uma natureza selvagem, tendo por único companheiro o arco que herdara de Hércules, o que lhe assegura a sobrevivência. Este antigo hoplita fora afastado pelos próprios companheiros da luta contra Troia, graças a um ferimento na perna, onde a pestilência da serpente que o picara, impedia sua cicatrização e exalava mau cheiro. A relação com a natureza bruta torna este homem, afastado há dez anos dos demais combatentes, uma pessoa selvagem, que se comporta como um “cadáver entre os vivos”, um morto cívico.

Graças a um oráculo que predissera que sem Filoctetes e o arco de Hércules, Troia não seria vencida, Odisseu, o mesmo que recomendara aos gregos que Filoctetes fosse exilado, encarrega-se de trazê-lo de volta e ao arco. E nisto faz-se acompanhar do jovem Neoptólemo, filho de Aquiles. Neoptólemo é encarregado por Odisseu, a quem deve obediência, de enganar Filoctetes, propiciando sua captura. No processo de roubo e de arrependimento, de relação do jovem com o selvagem eremo, que nada mais possui na vida além de seu arco, ocorre a transição do processo de efebia e Neoptólemo torna-se um adulto, e assume uma atitude semelhante a de Antígona, deserdando do combate, abandonando Odisseu e colocando-se ao lado da phylia e da ética.

Esta é a única tragédia de Sófocles em que ele se socorre de um deus “ex-machine”, o próprio Hércules dono do arco, para harmonizar a situação e reintegrar Filoctetes ao mundo civilizado.

Filoctetes em seu exílio, abandonado, com a ferida na perna que não cicatriza, tendo como único companheiro o arco de flexas certeiras que pertenceu a Hércules.

 

A tragédia Filoctetes desenvolve-se numa ilha desértica, Lemnos, tendo no cenário uma gruta de entrada dupla. Em cena Odisseu, Neoptólemo e o Coro, que é composto pelos marinheiros que os acompanharam na nau vinda de Troia e que a ela deveria retornar.

No Prólogo, Odisseu narra ao jovem filho de Aquiles o porquê do exílio involuntário a que fora submetido o pobre Filoctetes, por ele mesmo conduzido à força, dez anos atrás a Lemnos; que por haver sido o responsável pelo desterro ele não poderia ser descoberto pelo eremita, pois este o mataria. Ordena a Neoptólemo que deverá agir só,“de modo a roubar almas, proferindo palavras”. Que se aproxime do homem contando ser o filho de Aquiles, mas mentindo sobre uma possível briga com os aqueus que lhe teriam negado as armas do pai morto. Que viaja a caminho de sua casa, visto ter deixado o campo de luta.

Com esta artimanha Odisseu visa provocar a aproximação entre o adulto e o jovem. Odisseu é desprovido de ética, pois para ele, apesar de saber não ser da natureza de Neptólemo “maquinar coisas sórdidas, mas que é doce tirar lucro da vitória”. Neptólemo resiste-lhe pois:  “Não fui feito para praticar artifícios sórdidos…estou pronto a levar o homem à força e não por astúcias" "E ele , Filoctetes, com um único pé, como poderá resistir a tantos de nós? Enviado a ti como auxiliar, temo ser chamdo de traidor; prefiro entretanto falhar de modo nobre a vencer de modo sujo e covarde”.

Odisseu insiste que Filoctetes somente pode ser capturado pela astúcia, pois as flexas de Hércules possuem destino certo e nenhum deles de lá sairia vivo, caso descoberto o intento. O jovem ainda lhe pergunta: “Não julgas vergonhoso dizer metiras?”Odisseu replica: “Não se a mentira traz salvação”. Os fins, para Odisseu, justificam os meios. Ao final, Neoptólemo cede e Odisseu parte para não ser visto, deixando-o só com o Coro.

O Coro dos marinheiros expressa sua piedade “pois Filoctes não conta com um olhar companheiro, com ninguém que dele se ocupe, infeliz só e sempre, padecendo de uma selvagem doença…por golpe dos deuses; infeliz raça humana, de vida sem medidas… este de tudo em vida privado… por suas dores e fome, miserável , seu canto de longe derrama amargas lamentações”. Filoctetes, agora, entra em cena. Delicia-se ao ouvir o som de voz humana, mormente o grego pronunciado pelo heleno Neoptólemo. O tratamento que o eremita dedicará ao jovem será o de pai para filho, o filho de Aquiles, o heroi grego por ele querido, e por confiar-se no visitante conta-lhe a história de sua desdita e de como sobrevivera caçando e bebendo água salobra com só a ajuda de uma perna. “Eis o que os dois Atridas (Agamemnon e Menelau, descendentes de Atreu, comandantes dos gregos) e a violência de Odisseu me fizeram, que os deuses dêem a eles a recompensa pelo meu sofrer”.

Neoptólemo, repetindo as instruções de Odisseu, diz também possui queixas contra os três, pois as armas do pai morto lhe haviam sido negadas. Filoctetes pergunta, em estando Ajax presente, como ele nisso consentira. O jovem conta-lhe as novidades da guerra contra Troia, da qual o guerreiro está ausente há quase dez anos: a morte de Ajax, a de Pátroco e do desespero de Nestor, o dos conselhos com ponderação, perante a morte do seu filho. Comenta Filoctetes: “Se nenhum sórdido ainda pereceu, é porque são protegidos pelas divindades; suponho que a velhacaria e safadeza alegram-se em não deixar que penetrem no Hades, mas enviam para lá os justos e os honestos”.

Neste ponto, Neptólomo comunica ao eremita que está de partida para sua terra, ao que Filoctetes implora-lhe que, mesmo com toda a repugnância que sua ferida possa provocar nele e nos marujos, que o leve consigo, quer seja até sua casa, ou a algum ponto através do qual possa ele atingir o Eta e sua família. Suplica-lhe que não o deixe só. “Que é necessário, estando fora do sofrimento, enxergar os perigos, e quando se vive bem, durante este tempo, analisar a vida para que não se caminhe rumo à ruína”. Após um breve diálogo com o Coro, estando ainda dentro da estratégia de engodo traçada por Odisseu, os visitantes se propõem a levar Filoctetes consigo, mas não para o lugar a que este pensa que estaria sendo conduzido.

Nisto se aproxima um Mensageiro, ou um marujo travestido como tal, cujo objetivo explícito é apressar a partida de Neoptólomo e, consigo, de Filoctetes, trazendo a “notícia” de que baseado em um oráculo, os aqueus já se teriam feito ao mar para capturar Filoctetes, única maneira de dominarem Troia. Preparam-se, então, para partir; Neoptólemo pede a Filoctetes que o deixe guardar as flexas e o arco de Hércules. Como um pai que transmite ao filho tornado adulto responsabilidades, ele o permite; penetram, então, na gruta para levar consigo alguns pertences do miserável. O Coro canta o pathos deste pobre homem que, jamais tendo roubado e nem prejudicado ninguém, “pereça tão indignamente”. Neste ínterim, Filoctetes sobre um ataque do mal que o acomete, há tanto tempo inoculado por uma serpente. Chega a pedir, na sua imensa dor, que o companheiro lhe ampute a perna ferida, matando-o. Depois do doloroso ataque, no entanto, sobrevem-lhe um sono reparador, semelhante à morte.

O jovem ainda está convicto de que deve cumprir a ordem recebida por Odisseu. Já que possui as armas, só lhe resta o corpo do morimbundo transportar. Filoctetes desperta finalmente e pede que Neoptólomo o ajude a erguer-se, relembra que os chefes atreus não suportavam os transes da doença, ao contrário do filho de um herói, de Aquiles. Este ponto é o da inflexão: como deve o filho de Aquiles comportar-se? Ele mesmo se questiona. Já não se sente seguro, seu comportamento ambíguo está a esvair-se. Filoctetes pergunta-lhe se é a repugnância que o faz afastar-se, ao que seu parceiro retruca: “Tudo é repugnante quando a própria natureza tendo-se abandonado, fazem-se coisas não convenientes… Oh Zeus, que devo fazer, serei novamente tomado por perverso ocultando o que não devo e dizendo as palavras mais infames?” Em sua angústia, Neoptólemo decide contar toda a verdade ao pobre diabo.

Filoctetes sente-se traído e de tudo na vida despojado, nem mesmo as armas lhe restam. No entanto, sobre Neoptólemo e o Coro caiu uma grande compaixão por aquele homem que somente o engodo pode capturar. Filoctetes lhe diz: “Não és sórdido, mas só instruído por homens sórdidos podes chegar a esta infâmia”. Surge Odisseu que todo o tempo se escondera. Assume a responsabilidade pelo ocorrido e diz fazê-lo em nome de Zeus. “Como és odioso, quantas histórias tens para dizer; ao colocares os deuses à sua frente, fazes deles mentirosos”, responde-lhe o corajoso Filoctetes, que se nega a participar da destruição de Troia, ao lado dos aqueus. “Eu que nada sou e estou morto para vós há muito tempo, por que me arrastais? Odiosíssimo aos deuses Odisseu, agora não sou mais para ti um coxo fedorento?”

Odisseu desiste de levá-lo à força  decidindo retornar a Troia apenas com as armas de Hércules. Isto significava a condenação de Filoctetes a perecer de fome. Como ele, Odisseu, usará as armas de Hércules, toda a honra da batalha será sua.

Permanecem em cena Filoctetes e o Coro. Pobre Filoctetes, enganado e só, inicialmente despreza a companhia daqueles que tão covardemente o enganaram, mas ao final, ele implora que ainda lhe façam alguma companhia; pede-lhes como favor final uma arma para que possa terminar sua vida antes de tornar-se presa dos animais que antes caçava.

O último episódio comporta a reviravolta, a peripécia. Neoptólemo decide devolver a Filoctetes suas armas, “pois vergonhosamente e não com justiça as detenho”. Odisseu o desafia ao combate e o filho de Aquiles aceita. Odisseu acovarda-se preferindo “contar a todo o exército a traição cometida”. Em conformidade com Vernant, neste momento ocorre o ritual de passagem. O adolescente torna-se homem, assume suas responsabilidades de guerreiro hoplita, sai da selvageria do embuste e das mentiras, cruza a efebia.

Neoptólemo, então, entrega a Filoctetes as armas roubadas e ouve-se Odisseu dizer que o levará à força até Troia, quer queira ou não o filho de Aquiles. A mão de Neoptólemo impede Filoctetes de abater o odioso Odisseu, “pois não seria honroso nem para mim e nem para ti”. Agora quem fala é o adulto, um hoplita, não um arqueiro: “Tu te tornaste selvagem e não acolhes um conselho, se alguém te adverte falando com benevolência, já o tens por opositor, por inimigo. Tu sofre esta dor que é de origem divina pois te aproximaste em demasia do templo não coberto de Crisa, guardado por uma serpente. E saibas que jamais encontrarás o fim desta doença antes que, de bom grado, retornes às planícies de Troia e estejas aos cuidados do filho de Asclépio que acompanha as tropas… isto foi dito por Heleno, oráculo de Apolo e eu o ouvi”.

No entanto, mesmo suportando a dor de um ferimento sem cura, todos os argumentos do filho de Aquiles não conseguem abrandar o ódio que o coração de Filoctetes devota aos Atreus e a Odisseu. Ele não quer retornar a Troia. Afinal Neoptólomo consente em cumprir com a primeira palavra dada e conduzi-lo para fora de Lemnos, apesar de temer a ira dos aqueus pela sua deserção. Mas a amizade entre o velho combatente e o novo se enraíza e aquele promete que ninguem se aproximará de Coss, graças às flexas de Hércules.

Chega-se na tragédia a um ponto sem saída. Os deuses prescreveram a destruição de Troia; que sem Filoctetes e suas flexas, a tarefa seria impossível. O filho do maior herói grego, Aquiles, cumprindo seu dever de amizade desertaria do exército e abandonaria a luta. Sófocles apela para a presença do deus “ex-machina”, Hércules.

Ele apresenta-se e anuncia estar ali por vontade de Zeus e que os sofrimentos passados por Filoctetes seriam o princípio de uma vida gloriosa. Também uma prova a que fora submetido pelos deuses, após a sua desmedida em aproximar-se em demasia de um santuário. Mas que se ele retornar ao combate e voltar a Troia, por sua excelência, será escolhido o primeiro da armada grega e, caber-lhe-á a honra de matar Páris e receberá um imenso botim de guerra, pela cidade destruída. Antes de tudo será curado da chaga pelo filho de Asclépio, que assiste às tropas gregas.

Sentencia, finalmente, que o filho de Aquiles e o velho guerreiro estarão sempre par a par, como leões que lutam juntos, irmanados na phylia, na amizade. Partem, então, os dois homens para a luta contra Troia, pedindo às ninfas marinhas que lhes propiciem uma boa viagem.

 

Ajax



Após a morte em combate de Aquiles, Ajax é o maior guerreiro grego. Após cuidar para que o corpo do herói não seja vilipendiado pelos troianos, espera como recompensa receber as armas do morto. No entanto, o conselho dos aqueus decide dá-las a Odisseu. Ajax sente-se ofendido em seu âmago, sua arete guerreira fora ofendida por ter sido preterido. Tudo o que deseja é vingança, limpar com sangue sua honra atingida.

Nesta tragédia Ajax representa a força bruta, a irreverência e a irreflexão. Também a não obediência à decisão da assembléia dos combatentes, pois a irreverência julga-se acima das leis coletivas. Afasta-se para sua tenda junto aos marinheiros que o seguem, e foje do convívio humano, situando-se fora do mundo civilizado. Na loucura que o assalta turva-se-lhe a visão, mas não é este estado passageiro que lhe impõe a matança e a tortura dos animais, mas sim, será a sua própria perda de medida, a incapacidade de exercer a sophrozine, de ter ponderação. Será Atena quem o faz ver combatentes onde somente havia gado a abater e quando Ajax decide matar Odisseu, é a um pobre animal que faz sofrer até a morte.

Odisseu, que herda de Aquiles a armadura e também o ódio de Ajax, é para Sófocles, uma personagem multi-facetária. Neste trabalho ele expressa uma faceta diferente daquela encarnada em  Filoctestes, dada não somente à sua argúcia, que é a mesma, mas à ponderação e ao não jubilar-se com a desgraça e destruição daquele a quem odeia. Permanece asturo, quase tão metieta como a própria Pala Atena.

Aqui os deuses estão presentes e, na verdade, comandam as ações dos homens. Atena, sentindo-se agredida por Ajax, prepara a sua perdição e diverte-se com ela. Ela é personificação da deusa homérica, que elege seus heróis prediletos, dentre os quais Odisseu, assim como aqueles a quem anseia por destruir. Ajax, ao final, retomando seus sentidos e contemplando a perdição e o universo de sangue e mortes em que se submergiu, não ouve nem a mulher, nem os marinheiros. Decide-se pelo suicídio, reza pelos deuses e pede que as Erínias o vinguem e, neste ato também busca reintegra-se à natureza, à terra e à luz saindo das trevas em que afundara; a busca pelo fim de seu sofrimento restaura a sua própria honra. Ao final, os chefes gregos não lhe negarão um funeral dígno de herói. Odisseu, que defende as homenagens, simboliza a ponderação e um limite ao ódio, pois apenas quando “era lícito odiá-lo, eu o odiei”. 

Ajax preparando o suicídio. Ao seu lado o escudo com a máscara da Górgona, simbolizando a morte a olhá-lo no fundo de sua alma.

 

 

O cenário é um acampamento de guerra. O Prólogo de Ajax é ocupado pela conversação de Odisseu com Atena, a grande protetora do astuto guerreiro, que apresenta-se invisível a ele, fazendo com que apenas sua voz seja ouvida.

Quando Ajax é convocado pela deusa, em sua ate, na cegueira, em que fora mergulhado pela deusa, ele a enxerga e a toma como sua protetora, justamente a quem o odeia e arquitetará sua destruição.

Mas Atena sempre estará atenta aos passos dos inimigos do filho de Laertes, Odisseu. Este relata-lhe o fato insólito de que todo o rebanho de gado e seus guardadores haviam sido, durante a noite, abatidos por mãos humanas e que algumas testemunhas acusaram Ajax pela matança, e por isso ele estaria no encalço das pegadas do malfeitor. A deusa confirma as suspeitas de Odisseu e acrescenta que a causa da desmedida era o destino das armas de Aquiles; diz mais, que o ataque do ensandecido visava os comandantes gregos e que ela, a deusa, turvara-lhe a visão, dirigindo-o ao rebanho que fora destruído, um ardil para salvá-los. Que Ajax ainda não se dera por satisfeito com a matança. Apoderara-se de alguns animais, pensando tratar-se de Ulisses e dos irmãos Atridas, manietara suas patas como se mãos fossem e levara-os para sua cabana, onde os estaria submetendo à morte por espancamento.

É depois desta explicação a Odisseu que, por puro divertimento, Atenas chama o alucinado Ajax para que saia da tenda, expondo sua insanidade. A Odisseu isto repugna, e ele somente aceita estar presente pois a deusa garante que ele não será visto pelo enlouquecido. Ajax, crendo ser estimado e protegido por Atenas sai e ela lhe indaga:“afundaste bem a espada na tropa argiva?”Ao que Ajax responde que todos pereceram. “Mas onde está agora o filho de Laertes?”, pergunta-lhe ainda. Sobre aquele que denomina  de a “finória raposa”, Ajax lhe diz: “Está aprisionado na coluna da tenda e morrerá por açoite”. Atena se diverte com o ensandecido: “Não o tortures tanto, mas afinal, não te abstenhas em nada do que desejas”.

Quando Ajax volta à tenda, Odisseu expressa superioridade até mesmo em relação à deusa: “Eu me compadeço dele, o miserável ainda que seja meu inimigo, está subjulgado por nefasto extravio.” Ao que lhe responde a deusa: “Os deuses amam os sensatos e abominam os vis”. (Muitos filólogos recomendam que por “vis” entenda-se aqueles que não conhecem suas medidas, por ser estranho aos deuses o sentido atual do bom ou do mal.)

Termina o prólogo e teremos o párado. O Coro é composto pelos marinheiros de Salaminas, trazidos por Ajax para a luta de Troia. Cantam o falatório que se espalha da matança do gado, buscam como causa a influência de algum deus, talvez Ártemis, que teria induzido Ajax a uma falsa caçada. Ainda não atinam com o real motivo do chefe.

O primeiro episódio consiste na conversação entre Tecmessa, a mulher de Ajax, o Coro e, depois, Ajax. Tecmessa relata ao coro a loucura que acometera Ajax que à noite partira para lavar com o sangue dos Argivos e de Odisseu sua honra ofendida. Partira à noite, para um ataque noturno, selvagem. Estava em seu perfeito juízo quando planejara a matança. Mas a surpreza da mulher se dá na volta do guerreiro feliz com seu trabalho, gargalhando e arrastando manietados cães, bois e ovelhas; que a uns deloga e a outros tortura até a morte, como se a Odisseu, Agamemnon e Menelau destruísse.

Prostrado pelo sono, ao despertar da loucura, recobrara a razão e vira o abrigo repleto de sangue e carcaças. Sentado em meios aos despojos, não come, não bebe e só pronuncia palavras de vingança. Tecmessa e o Coro aproximam-se de Ajax. Ouve-se o lamento “ai de mim, ai”, “quem diria que assim como um sinal, meu nome serviria a meus males? ai de mim, ai… somente cabe a mim aiar”. Quando Ajax reconhece seus companheiros: “Vês o ousado, o corajoso e intrépido devastador de batalhas entre feras mortas? Ah, como fui insultado! Tu que tudo espias e de todos os males és o artífice, Odisseu, o mais imundo biltre da tropa, decerto continuas a gargalhar de prazer.”

Odisseu não gargalha, teme-o em seu poder guerreiro e em sua demência, mas tão pouco se diverte com o sofrer do inimigo. Mas isso não o sabe e tão pouco consegue Ajax pressentir: “Nem para alguma ajuda dos efêmeros ainda sou digno de voltar os olhos; a poderosa filha de Zeus maltrata-me até a perdição…Se Aquiles estivesse vivo ninguem me retiraria suas armas”.

O herói, que se vê como reflexo do que os outros veem nele, sente-se perdido, pois não somente se sentira desonrado por não deter as armas de Aquiles, mas comportara-se como um selvagem, enganado pela deusa, e como resultado de sua fúria, massacrara indefesos animais e não seus inimigos.  Reproduzira o inverso do "kallas kaghatoi", o fazer-se o belo. “Se um deus o auxilia, mesmo o mais fraco escapa ao mais forte.. e agora o que devo fazer? Sou odiado pelos deuses, detesta-me a tropa dos gregos e odeia-me toda Troia e esta planície. Como voltar para o lar de meu pai? É vergonhoso um homem precisar de vida longa se ele em nada altera os seus males. Eu não estimaria o mortal que vivesse de esperanças vazias. Ou nobremente viver, ou nobremente morrer”.

Tecmessa e o coro tentam persuadir Ajax de que ele pode “fazer-se belo”sem necessitar recorrer à morte. Ela pede que ele imagine sua concubina entregue a outro senhor e sendo transformada em escrava; que seus pais velhos não terão um braço forte a amparar-lhes na velhice; que seu filho, sem um pai, terá padrastos nada amigos que temerão por sua vingança quando adulto. No entanto, Ajax já a ninguem escuta. Pede a presença do filho. Recomenda que ele seja educado nas rudes leis do pai, esperança de prolongamento de sua própria existência: “deves educá-lo e assemelhá-lo à minha natureza… Seja mais feliz que teu pai- quanto ao resto, um igual, não sejas um fraco”. Que seu escudo seja a herança do filho, e nomeia como tutores e protetores a Teucro, seu meio irmão e a todo o Coro de marinheiros.

Ao iniciar a sua despedida da vida, pela primeira vez o herói começa a vencer sua própria selvageria e diz que “ser sensato é um bem”. Todo o desenrolar de sua desmedida, quando não aceitara a decisão coletiva sobre as armas de Aquiles, propicia-lhe a katarsis, a sua transformação em aner. “Já não sou devedor de nenhum serviço aos deuses”. Também nesta transformação surge o cidadão: “No futuro saberemos aos deuses ceder e aprender a venerar os Atridas( fala de Agamemnon e Menelau); são chefes, por que não? Muitas vezes é necessário aprender também a retroceder… Eu acabo de descobrir que o inimigo deve ser por nós odiado tanto quanto nos odiará de volta, e que ao amigo quererei servindo-o, ajudando-o, na medida em que não o será sempre: para a maior parte dos viventes é infiel o porto da camaradagem”.

Ajax deixa a sua tenda de guerra e parte. O Coro de marinheiros saúda a redescoberta do novo Ajax, o cidadão. Chega um Mensageiro com notícias da volta de Teucro, meio-irmão de Ajax, que somente fora salvo ao chegar da ira dos aqueus ensandecidos contra o denominado “o demente”, por obra dos anciões, dentre eles, o vidente Calcas. Que Calcas predissera-lhe que neste dia mesmo dia cessaria a ira dos deuses contra Ajax, mas que seria necessário mantê-lo prisioneiro na tenda ou outra desgraça aconteceria.

O vidente também revelara a causa da ira de Atena que motivara a loucura de Ajax: ele desprezara seu auxílio durante a luta contra os troianos, “que ela ficasse ao lado de outros argivos, pois de sua frente cuidaria ele, Ajax”. Todos partem na busca do amigo. Importante considerar o sentido esta indisposição dos deuses: Ajax desprezara seus auxílios por se crer semelhante aos mesmos, cometendo mais uma desmedida, no caminho de sua perdição.

Novo cenário: em uma praia distante Ajax enterra na terra a espada que pertencera a Heitor, e “evoco Zeus para que não permita que meu cadáver seja destrído por animais e sim, primeiro recolhido por amigos que lhe deem sepultura; invoco as Erínias, que veem os sofrimentos dos mortais, a vingarem a minha ruína…ó luz sagrada, sagrado também é o solo de Salamina, pátria-base do lar e célebre Atenas…falo a essas fontes e aos prados troianos”, as últimas palavras de Ajax que salta sobre a espada.

Tecmessa, o Coro e Teucro encontram a seguir o seu corpo. Todos passam a “aiar”. Teucro ordena que partam imediatamente a trazerem o filho do morto para que esteja sob proteção, “pois dos mortos todos amam escarnecer”. “Ah, Ajax, mesmo morto, Heitor te venceu”, diz referindo-se à espada, a mesma que decepara todo o gado e que servira para a auto-degola do morto a seus pés. Chega neste momento Menelau e exige que Teucro se afaste do corpo. E sentencia que aquele cadáver será deixado aos abutres carniceiros e não receberá nenhuma sepultura, dado o desígnio do morto em abater os comandantes argivos, salvos pela mão da deusa. Também diz “se ele enxergando não pudemos dominar, ao menos morto nós o comandaremos”.

A covardia dos comandantes é evidente. Mesmo frente à loucura de um só, Ajax, não ousaram por-lhe cobro. Querem suas mãos contra um morto. Inicia-se a redenção do herói. Fala mais: “pois jamais leis prosperariam em cidade em que não houvesse estabelecido o medo, nem tropa seria sensatamente comandada sem o temor ou a vergonha.” Em seguida ameaça Teucro de morte caso dê sepultura ao cadáver. A resposta de Teucro é demolidora: “Não me pasmará o que possam dizer os bem-nascidos. Erram em seu discurso. De onde tu és dele o chefe? Vieste como rei de Esparta, não nosso dono. Este eu em tumba porei sem temer tua boca, já que não veio em defesa de tua mulher ( Helena), como os muitos pelos quais tenho pena, mas por juras e palavras empenhadas que o obrigavam. Voltas se quizeres, mas com força superior à tua! A fala do homem livre, daquele que não reconhece a sapiência daqueles que apenas são bem-nascidos, os eupátridas; que acredita nos valores da phylia, da amizade. Que também crê nos juramentos e nos compromissos assumidos. Teucro não se intimida e o desafia a lutar; Menelau com suas armas de hoplita (superioridade de eupátrida) e Teucro com arco e flexas, armamento considerado como o do cidadão de segunda classe. Menelau e seu séquito acovardam-se e dizendo que voltará com mais força, retira-se.

Os tiranos acovardam-se se kratos não lhes suporta a bia, se o poder que possuem não lhe permitem exercer a violência que desejam. Chegam o filho de Ajax e Tecmessa e Teucro parte para preparar sepultura para o morto. Mas seu retorno é rápido. O comandante em chefe dos argivos, com toda a tropa se faz presente. Agamemnon trata o combatente Teucro como o filho de uma escrava. Diz-lhe mais: “Sabendo quem és por nascença, não trarás aqui outro homem livre, para que fale por ti? Tu falando eu não posso entender: a língua bárbara eu não compreendo”.

Teucro recorda a Agamemnon e a Menelau, seu irmão, uma das façanhas de Ajax agora morto. Impedira que Heitor os matasse. Recorda que nas tropas se sorteava o azar de quem iria enfrentar o herói troiano; todos participavam do sorteio, exceto Ajax que sempre se colocava à frente na luta. E conclui: “aqui não morrerá um, mas três, sendo que a minha morte será mais bela do que a daqueles que combatem por uma mulher lasciva”. O Coro saúda a chegada de Odisseu. É o cidadão civilizado, possuidor da sofrozine, ponderado, defensor da dike, da justiça: “Que a violência, Agamemnon, de modo algum te force a odiar tanto que chegues a pisar a justiça! Também contra mim Ajax foi o mais hostil; mesmo assim eu não o desonraria pois vi nele o maior dos gregos quantos a Troia chegamos, depois de Aquiles. Assim seria injusto desonrá-lo e não seria a ele, mas às leis dos deuses que destruirias”. E conclui: “O homem bravo, se morre, não é justo lesar, mesmo se é objeto de teu ódio”.

Agamemnon não se dá por convencido pelo amigo Odisseu: “Tu combates por ele ou por mim?” A resposta de Odisseu retorna ao Prólogo, quando ao lado de Atenas, se negara a comprazer-se com a loucura do guerreiro agora morto: “Eu o odiava quando odiar era descente”. E, apesar de toda a subordição que deve ao comandante já declara que não somente Teucro, mas também ele dará sepultura ao cadáver.

Agamemnon demonstra sua natureza inflexível, mas não proibe um ato contra o qual levantar-se-ia suficiente força. Retira-se. No dizer de Lasky, “Ao ódio, esse terrível elemento de confusão em tudo o que é humano, os gregos nele impuseram um limite”. Odisseu oferece, então, a Teucro sua amizade, solidariza-se com o sepultamento, mas por ser politico retira-se, deixando-lhe a tarefa, evitando atrair contra si o ódio dos Atridas. Ao final, reconhecido pelos seus, Ajax homenageado funebremente, cumpriu o ideal do guerreiro e herói grego, obteve uma "kallos thanatoi", uma bela morte.