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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Proust e a Literatura



A leitura de Proust nos encaminha para uma visão panorâmica da literatura, do teatro e das correntes filosóficas francesas do século XVII ao XX. Ao mesmo tempo, ele estende-se até os clássicos e muitos de seus contemporâneos de outras nacionalidades com os alemães, os eslavos, nórdicos, assim como os seus favoritos, aqueles de fala inglesa. Quase três centenas de trabalhos são por ele citados, de tal modo que nos sentimos como percorrendo uma enorme biblioteca, onde possuem seu lugar o poeta, o fabulista, o teatrólogo, o comediante, o memorialista, o novelista e o romancista; livros enobrecidos, suas molduras e margens são diferentes correntes filosóficas. Poderíamos nos contentar enumerando apenas aqueles que mais tenham influenciado seu pensar como os franceses Balzac, Stendhal, Racine, Baudelaire, Mellarmé, Nerval, Flaubert, senhora de Sevigné, Bergson e Pascal; os alemães como Nietzsche, Shopenhauer, Kant, Schiller e Goethe; os russos nas figuras de Tolstoy e Dostoievski; nórdicos como Ibsen e dos países baixos, como Spinoza; ingleses como Ruskin, Shakespeare, Hardy, Huxley e Eliot, e norte-americanos como Emerson e Poe. Mas optamos por ir mais além. Realizamos um quadro sinótico sobre praticamente todos os autores e suas composições inseridas nos livros que compõem “Em Busca do Tempo Perdido”; desta forma foram listados mais de cento e cincoenta autores, que abarcam os campos da literatura, das composições teatrais, filosofia, história e filologia.

 

I- ROMANCES, POESIAS E NOVELAS

ESCRITORES OBRAS      
Balzac, Honoré As Ilisões Perdidas A Prima Bette O Baile Sceaux A Comédia Humana
  Cenas da Vida na Província Eugênia Grandet O cura de Tours Princesa de Cadignan
  A Mulher Abandonada Explendores e Misérias Sarrazine  
  A Menina dos Olhos de Ouro Uma Paixão no Deserto A Falsa Amante  
Baudelaire, Charles A Varanda, poema As Flores do Mal    
Daudet, Alphonse Tartarin de Tarascon      
Deshoulieres, Antoniette        
Eliot, Georg Middlemarch      
Sivestre, Armand Henrique VIII      
Vigny, Alfred Cinq- Mars Cachet-Rouge    
Zola, Emile        
Anatole France O Crime de Silvestre Bonnard      
Boileau, Nicolas        
Cervantes, Miguel Don Quixote de la Mancha      
Chamisso, Adelbert        
Chateaubriand, François Atala      
Cherbuliez, Victor        
Choderlos de Lacros Ligações Perigosas      
Corneille, Pierre O Cid Polieucto      
Cross, Charles Noturno      
Dante Aligheri A Divina Comédia      
D'Arras, Jean        
D'aurevilly, Jules A Enfeitiçada O Cavaleiro des Touches A última Amante  
Desjardins, Paul        
Diderot, Denis Carta à Srta. Volland      
Dostoievski, Fiodor Crime e Castigo O Idiota Irmãos Karamasov Os Demônios
Dumas, Alexandre Os Três Mosqueteiros Os Moicanos de Paris    
Ferry, Jules        
Flaubert, Gustave Montesquieu A Educação Sentimental Madame de Bovary  
Françoise Fenelon        
Fromentin, Eugene Dominique      
Garnier, Robert As Judias      
Gautier, Theophile O Capitão Fracasso      
George Sand La mare au Biable François le Champi La Petite Fadette Les Maitres Sonneurs
Goethe, J. Wolfgang Wilherm Meister Afinidades Eletivas Werther  
Goncourt, Edmond La Faustin      
Greville, Henry        
Halévy, Fromental        
Hardy, Thomas O Judas Obscuro A Bem-Amada Olhos Azuis  
Homero        
Horácio        
Hugo, Victor Hernani A Legenda dos Séculos O Soneto de Arvers Booz Adormecido
  Le pas d'ármes du roi Jean Le fiance de timbalier Fete chez Terese Sarah le baigneuse
  Contemplações Eviradnus Contos do Crepúsculo Folhas do Outono
  Tristeza de Olympio      
Joubert, Joseph        
Kock, Paul        
La Fontaine, Jean O Moleiro, o Filho e o Burro O Homem e a Cobra A Rã no Areópago A Ostra e os Litigantes
  Os Dois Pombos      
La Rochefoucauld, François As Máximas      
Laconte de Lisle        
Lamartine, Alphonse As Doutas Irmãs      
Latude, Jean Henry        
Legouvé, Ernest        
Lespinasse, Julie        
Livro de Daniel (Bíblia)        
Loti, Pierre O Pescador da Islândia      
Madame de Beausergent        
Madame de Lafayette Princesa de Cleves      
Madame de Sevigné Cartas à Filha      
Madame de Stael Corinne      
Maeterlink, Maurice Pelleas e Melisandre      
Malherbe, Fançois        
Mallarmé, Stephane        
Maspero, Gaston        
Maurras, Charles Aimée de Coigny      
Meihac, Henry        
Mérimée, Prosper Carmem      
Montchretien, Antoine O Aman      
Morand, Paul Clarice      
Musset, Alfred Confissão de Filho do Século Chenedolle A Noite de Outubro  
Nerval, Gerard Sylvie      
Ovidio Metamorfoses      
Parny, Evariste        
         
Peladan, Josephin As sete Princesas      
Petronius Satiricum      
Ponsard, François O Leão Amoroso      
Prudhomme, Sully Nas Tulheries      
Quillard, Pierre A Menina das Mãos Cortadas      
Ronsard, Pierre As Plêiades      
Roujon, Henry Entre os Homens      
Rousseau, Jean J. Indiana      
Ruskin, John Sésamo e Lírios As Pedras de Veneza    
Saint- Denis Branca de Castela      
Saint- Simon, Claude-Henry Memórias      
Schiller, Fredrick        
Schneckenburger, Max A Guarda do Reno      
Scott, Walter Rob Roy Diana Vernon    
Spitteler, Carl O Estudante Louco      
Stendhal A Cartucha de Parma O Vermelho e o Negro    
Stevenson, Robert Louis A Ilha do Tesouro O Médico e o Monstro    
Swift, Jonathan As Aventuras de Gulliver      
Terencio Mauro        
Tolstoi, Lev Ana Karenina Ressurreição Guerra e Paz Sonata a Kreutzer
Varazze, Jacobo A Legenda Dourada      
Verlaine, Paul        
Verne, Julio Miguel Strogoff Vinte Mil Léguas    
Virgílio Eneida      
Voltaire Merope Alzira    
Wilde, Oscar Salomé      
Vários As Mil e Uma Noites      

 

II- COMPOSIÇÕES TEATRAIS

COMPOSITORES Peças Teatrais      
         
Adolphe-Charles Adam O postilhão de Longjumeau      
Augier A Aventureira O Genro do sr. Poirier    
César Girodot O Testamento      
Corneille Le Cid      
D'Annunzio        
Dumas, Filho Francillon      
Favart Chercheuse d'Espirit      
George Ohnet Serge Panine O Mestre Ferreiro    
Gondinet Quanto mais muda      
Halévy La Juive      
Henry Becque        
Veron Quanto mais muda      
Ibsen Quando Despertamos dos Mortos A Casa das Bonecas O Inimigo do Povo O Pato Selvagem
Marivaux Mestre das máscaras e mentiras      
Moliere O Doente Imaginário O Avarento As Sabichonas. O Misantropo
Offenbach Orfeu no Inferno- Opereta      
Orosmane        
Pradon        
Racine La fille de Minos et de Pasiphaé Phèdre Athalie Andrômaca
  Esther      
Shakespeare Romeu e Julieta A Tempestade O Mercador de Veneza  
Sófocles Édipo-Rei      
Teodore de Banville As Astúcias de Nerine      
Victor Massé Uma Noite de Cleópatra      
Voisenon        

 

 

III- FILÓSOFOS, HISTORIADORES E FILÓLOGOS

Xenofonte Nietzsche
Anaxágoras Pascal
Bossuet Platão
Brunetiere Poincaré
Claudel Proudhon
Diderot Romain Rolland
E. Kant Schiller
Emerson Shopenhauer
Ernest Renan Spinoza
Fourier Stuart Mills
François de Rabelais Tácito
Gaston Boissier Taine
Hegel Thomas Huxley
Hipátia de Alexandria Thureau-Dangin
La Bruyere  
Lachelier  
Leibnitz  
Maspero  
Michelet  
Montesquieu  

 

 

Proust, certos poetas, romancistas e filósofos

1. OS PERSONAGENS, OS LUGARES E CRIMES EM DOSTOIEVSKI

“A PRISIONEIRA”- “Essa beleza nova permanece idêntica a todas as obras de Dostoievski; a mulher dele ( tão particular quanto a de Rembrandt), com o seu semblante misterioso, cuja beleza afável se converte subitamente, como se tivesse representado a comédia da bondade, em uma insolência terrível (embora na realidade antes pareça ser boa pessoa), não é sempre a mesma”.“Quer seja Nastásia Filipovna, escrevendo cartas de amor a Aglaia e confessando que a odeia, quer seja numa visita, inteiramente idêntica a essa – aquela tambem em que Nastásia insulta os pais de Vânia”. “Gruchenka, tão amável na casa de Katerina Ivanovna quando esta a imaginara terrível, depois bruscamente revelando sua maldade ao insultar Katerina (embora, também Gruchenka seja boa). Gruchenka, Nastásia, figuras tão originais, tão misteriosas não só quanto as cortesãs de Carpaccio mas tanto quanto a Betsabé de Rembrandt”.

“Assim como em Vermeer, há a criação de uma certa alma, de uma certa cor dos estofos e dos lugares em Dostoievski, onde não há somente criação de seres humanos, mas de moradias, como a casa do Assassinato de Crime e Castigo, com o seu dvornik; ela não é quase tão maravilhosa quanto a obra-prima dos assassinatos em Dostoievski, aquela sombria, e tão comprida e tão alta e vasta casa de Rogojin, onde este mata Nastásia? Essa beleza nova e terrível de uma casa, essa beleza nova e mista de um rosto de mulher, eis o que Dostoievski nos deu de único no mundo, e as aproximações que os críticos literários possam fazer entre ele e Gogol, ou entre ele e Paul de Kock, não têm nenhum interesse, visto serem exteriores a essa beleza. Aliás se eu te disse que é de romance em romance a mesma cena, dentro de um mesmo romance estão as mesmas cenas, as mesmas personagens são reproduzidas, se o romance é muito longo”.

“Acontece que a sra. de Sevigné, como Elstir, como Dostoievski, em vez de apresentarem as coisas na ordem lógica, isto é, começando pela causa, nos mostram primeiro o efeito, a ilusão que nos impressiona. É assim que Dostoievski apresenta as suas personagens, pois as ações deles nos mostram tão enganadoras quanto aqueles efeitos de Elstir em que o céu parece estar no mar”. ”Mas Dostoievski um dia assassinou alguém?”, pergunta Albertine. Ao que Marcel responde: “Os romances deles poderiam se chamar a História de um Crime”. E o Narrador segue: “Não creio, mas é certo que todo o mundo conheceu o pecado, sob esse ou aquele aspecto, e provavelmente numa vertente proibida pela lei. Nesse sentido deveria ser um tanto criminoso, como seus heróis, que não o são aliás totalmente, ou o são com muitas circunstâncias atenuantes. E talvez não valesse a pena realmente que fosse criminoso. Eu não sou romancista, é possível que os criadores sejam tentados por certas formas de vida que não experimentaram pessoalmente. Se formos juntos a Versalhes... mostrar-lhe-ei um homem de bem por excelência, Chorderlos de Lacros, que escreveu o mais horrosamente depravado dos livros...Reconheço que em Dostoievski, essa preocupação do assassinato tem qualquer coisa de extraordinário e que o torna muito estranho a mim...Nele encontro poços demasiados profundos, mas apenas em alguns pontos isolados da alma humana. Mas é um grande criador. Em primeiro lugar o mundo que ele pinta parece realmente criado por ele. Todos aqueles bufões que reaparecem incessantemente, todos aqueles Lebedev, Karamasov, Ivolguine, Segrev, incrível cortejo , são uma humanidade mais fantástica do que a “Ronda Noturna” de Rembrandt. Aqueles bufões dão quase a impressão de um emprego que não existe mais, como certas personagens das comédias antigas, e no entanto, como revelam aspectos verdadeiros da alma humana!... Para ele o amor e ódio mais desvairado, a bondade e a perfídia, a timidez e a insolência, são apenas dois estados de uma mesma natureza, o amor-próprio, o orgulho impedindo Aglaia, Nastásia, o capitão a quem Micha puxa a barba, Krassoktine, o amigo-inimigo de Aliocha, impedindo de se mostrarem como são na realidade”. “Mas há ainda muitas outras grandezas...Conheço muito pouco da obra dele, mas não é um motivo escultural e simples, digno da arte mais antiga, um friso interrompido e retomado onde se desenrolasse a vingança e a expiação, aquele crime do velho Karamazov emprenhando a pobre louca, o movimento misterioso, animal, inexplicado, pelo qual a mãe, sendo sem o saber, o instrumento das vinganças do destino, obedecendo tão obscuramente ao seu instinto materno, talvez uma mistura do sentimento de gratidão física e ressentimento pelo homem que a violou e emprenhou, vai dar à luz na casa do velho Karamasov?

Esse é o primeiro episódio, misterioso, grande, augusto, como uma criatura de Mulher numa escultura de Orvieto. E como réplica, o segundo episódio, mais de vinte anos depois , o assassínio do velho Karamasov, a infâmia lançada sobre a família Karamasov por esse filho da louca, Smerdjkov, seguido depois por um outro ato tão misteriosamente escultural e inexplicado, de uma beleza tão obscura e natural, quanto o parto no jardim dos Karamasov: Smerdjkov enforca-se”. “Tolstoi o imitou muito... em Dostoievski há concentrado e remungão, muito do que se expandirá em Tolstoi. Há em Dostoievski aquela rudeza antecipada dos primitivos que os discípulos clarificarão.”

“A SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR” “Em Balbec, dei-me conta de que Sévigné nos apresenta as coisas da mesma forma que o pintor, isto é, relacionadas com a ordem de nossas percepções e não explicando-as primeiro pelas causas...fiquei encantado com o que eu teria chamado um pouco mais tarde o lado Dostoievski da Cartas de Madame de Sévigné ( pois não pinta ela as paisagens da mesma forma que ele os caracteres?).”

 

2. BALZAC, A “COMÉDIA HUMANA” E AS METÁFORAS

“A CAMINHO DE SWANN” “Como o ramalhete que um viajante nos manda de uma região da qual não regressaremos, faça-me respirar da distância da tua adolescência, essas flores primaveris que eu também atravessei há longo tempo...Venha com a primavera, a barba- de- capuchinho, o botão- de- ouro, venha com o sedum, do qual se faz o buquê preferido da flora balzaquiana.” ( convite iniciático ao homossexualismo feito ao narrador, Marcel, pelo pederasta Legrandin).

“A CAMINHO DE GUERMANTES” “Por vários motivos, vê-se num dicionário da obra de Balzac, onde os personagens mais ilustres só figuram conforme suas ligações com a Comédia Humana, Napoleão ocupa um lugar bem menor que o destinado a Rastignac.”( Proust comenta em carta aos amigos que Balzac, que gostava de conversar sobre política, em determinado momento dizia: “Agora falemos sobre coisas sérias; conversemos sobre literatura”)

“SODOMA E GOMORRA” “Como após haver examinado a bela encadernação do seu Balzac, eu lhe perguntasse o que ele preferia na Comédia Humana, respondeu-me, dirigindo o seu pensamento para uma idéia fixa: - Tudo, tanto as pequenas miniaturas como O Cura de Tours e A Mulher Abandonada ou os grandes afrescos como a série das Ilusões Perdidas. Como! não conhece as Ilusões Perdidas?! É tão lindo! O momento em que Carlos Herrera pergunta o nome do castelo pelo qual está passando a sua chaleça...É Restignac, a moradia do jovem que ele amou outrora. E o padre cai então num devaneio que Swann chamava, o que era de muito espírito, a Tristeza de Olímpio da pederastia. E a morte de Luciano! Não me lembra mais que homem de gosto deu esta resposta a quem lhe perguntava que acontecimento mais o afligira em sua vida: a morte de Luciano de Rubempré, nos Explendores e Misérias.” ( com relação ao “homem de gosto”, trata-se de Oscar Wilde, que Proust jamais cita diretamente em seus livros; trata-se de uma conversa de Marcel com o sr. de Charlus, onde este relembra a morte de Rubempré, amante do padre Carlos Herrera). “Só as mulheres que não sabem se vestir temem a cor- continuou o sr. de Charlus. Pode-se ser brilhante sem vulgaridade e suave sem insipidez. Aliás você não tem os mesmos motivos da sra. de Cardignan para parecer desligada da vida, pois era a idéia que ela queria inculcar a d’Artez com o seu vestido gris...Conheço o pequeno jardim por onde Diana de Cadignan passeou com o sr. d’Espard...”  

 

3. VICTOR HUGO E A ORIGINALIDADE DAS OBRAS- PRIMAS

“A PRISIONEIRA” “Do mesmo modo nos surpreende que durante muito tempo, peças tão insignificante como Romança da Estrela e Prece de Elizabete tenham podido levantar amadores fanáticos que aplaudiam e pediam bis a cada apresentação, o que não passa de ninharia artística para nós que conhecemos Tristão, o Ouro do Reno, os Mestres Cantores. Força é supor que aquela melodia sem caráter já continha em quantidades mínimas, talvez por isso mesmo mais assimiláveis, algo da originalidade das obras- primas que retrospectivamente são as únicas importantes para nós, mas cuja própria perfeição teria porventura impedido de serem compreendidas; elas puderam abrir-lhes caminho em nossos corações… O mesmo acontecia com Vinteuil: se ao morrer não tivesse deixado senão o que pudera terminar, o que conhecer-se-ia dele seria, em comparação com a sua real grandeza, muito pouco. Por exemplo, Victor Hugo, se tivesse morrido depois de Le pas d’armes du roi Jean, de La fiancée du timbalier, Sarah la baigneuse, sem ter escrito nada da Lenda dos séculos e das Contemplações: o que constitui para nós sua obra verdadeira teria permanecido puramente virtual, tão desconhecido quanto esses universos a que não atinge nossa percepção, dois quais jamis teremos qualquer ideia.”

 

4. TAL QUAL AS “MADELEINES” DE PROUST: BAUDELAIRE, NERVAL, CHATEAUBRIAND.

“O TEMPO RECUPERADO” “Uma das obras-primas da literatura francesa, Sylvie, de Gérard de Nerval, apresenta, bem como as Memórias de além- túmulo relativo a Combourg, uma sensação do mesmo gênero da do sabor da madeleine e do “gorgeio do tordo”. Em Baudelaire, enfim, tais reminiscências ( da memória inconsciente) ainda mais numerosas, são menos fortúitas e, creio, mais decisivas. É o próprio poeta quem, com mais requinte e preguiça, busca voluntariamente, no odor de uma mulher, por exemplo, nos seus cabelos e no seu seio, as analogias inspiradoras que lhe evocarão “o azul do céu imenso e redondo” e “um porto apinhado de flâmulas e de mastros”.

 

5. O LADO DOSTOIEVSKI DE MADAME DE SÉVIGNÉ

“A SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR” “Dei-me conta de que Sévigné nos apresenta as coisas da mesma forma que o pintor, isto é, relacionada com a ordem de nossas percepções e não explicando-as primeiro pela sua causa. Mas já naquela tarde, no vagão, ao reler a carta ao luar: “Não pude resistir à tentação…vou aquele passeio onde o ar é bom como o de meu quarto; encontro mil quimeras, monges brancos e negros, várias religiosas cinzentas e brancas, homens amortalhados de pé contra as árvores..”, fiquei encantado com o que eu teria chamado mais tarde o lado Dostoievski da Cartas de Madame de Sévigné, pois, afinal, não pinta ela as paisagens da mesma forma que ele os caracteres?”

 

6. SPITTELER E A DOÇURA DOS TEMPOS DE PAZ

“O TEMPO RECUPERADO” “Pode-se imaginar o que será a vil soldadesca de uma geração educada no culto dessas manifestações de força bruta (geração pós Primeira Guerra mundial). Da mesma forma Spitteler, desejando opô-lo a essa medonha concepção do sabre acima de tudo, exilou simbolicamente, na profundeza das selvas, escarnecido, caluniado, solitário, o personagem sonhador a quem denomina Estudante Louco ( do romance “O Inimigo das moças”), no qual o autor deliciosamente encarnou a doçura infelizmente for a de moda, em breve esquecida… a adorável doçura dos tempos de paz”.

 

7. ZOLA E O GENERAL CAMBRONNE

“A CAMINHO DE GUERMANTES” “Zola não é um realista, mas um poeta…( disse Oriane de Guermantes). Ele engrandece tudo o que toca. Poderá me dizer que ele toca apenas naquilo que… traz felicidade! Porém faz disso algo de imenso! Ele possui o estrume épico! É o Homero da lixeira! Não tem suficiente maiúsculas para escrever as palavras de Cambronne!” ( Proust refere-se ao general francês que, cercado pelo inimigo em Waterloo, quando concitado a render-se exclamou MERDE e morreu lutando).

 

8. CHODERLOS DE LACROS, FLAUBERT, E A VERDADE

“O TEMPO RECUPERADO” “Desde o começo da guerra, o sr. Barrés havia dito ( agitador militarista, belicista e antissemita) que o artista deve sobretudo servir à glória da Pátria. Mas só pode servir a ela sendo artista, isto é, com a condição de, ao estudar as leis da Arte, e instituir suas experiências e fazer suas descobertas, tão delicadas como as da ciência, não pensar em outra coisa- nem na Pátria- senão na verdade que está à sua frente. Não imitemos os revolucionários que por “civismo” desprezaram, quando não destruiram, as obras de Watteau e de La Tour, pintores que honraram mais a França que todos os da Revolução... Não foi a bondade, aliás, bem grande de seu coração virtuoso que levou Choderlos de Lacros a escrever Ligações Perigosas, nem seu interesse pela pequena e grande burguesia que fez Flaubert preferi-las como assunto em Madame de Bovary e A Educação Sentimental.”

 

9. BARBEY D'AUREVILLY, THOMAS HARDY E STENDHAL, ESTES MUNDOS ÚNICOS CRIADOS- A PROVA DO GÊNIO

“A PRISIONEIRA” “...Os grandes literatos jamais escreveram senão uma obra única, ou por outra, nunca fizeram senão refratar através de diversos meios, uma mesma beleza que trazem ao mundo... Essa frases- tipos, que você começa a reconhecer como eu, minha Albertine, e são as mesmas na sonata, no septeto, seriam, por exemplo em Barbey d’Aurevilly, uma realidade oculta que é revelada por indícios materiais, o rubor fisiológico da Enfeitiçada, de Aimée de Spens, da Clote, a mão de Rideau Cramoisi, os velhos usos, os velhos costumes, as velhas palavras, os ofícios antigos e singulares atrás dos quais está o Passado, a história oral feita pelos pastores do local, as nobres cidades da Normandia cheirando a inglesas e tão belas quanto uma aldeia da Escócia, a causa de maldições contra as quais não há recurso, a Vellini, o Berger, uma mesma sensação de ansiedade numa passagem, quer seja a mulher que procura o marido em Vielle maitresse, ou o marido em L’ensorcelée, ou a prórpia Enfeitiçada ao sair da missa.” “São equivalentes também das frases-tipos de Vinteuil é a geometria do operário entalhador de pedras, nos romances de Thomas Hardy... Lembre-se de em Juda, o obscuro, em A bem-amada, dos blocos de pedra que o pai extrai da Ilha e que, transportados em navios, vêem amontoar-se no ateliê do filho, onde viram estátuas; em Olhos azuis, do paralelismo dos túmulos, e também da linha paralela do navio, e os vagões contíguos onde estão os dois namorados e também a morta; o paralelismo entre A bem-amada, em que o homem gosta de três mulheres, e Olhos azuis, em que a mulher gosta de três homens, etc., enfim, todos estes romances superponíveis uns aos outros, como as casas amontoadas de forma vertical no solo pedregoso de uma ilha. Não lhe posso falar assim num minuto dos maiores, mas você veria em Stendhal um certo sentimento de altitude ligando-se à vida espiritual: o lugar elevado em que Jean Sorel fica prisioneiro, a torre no alto da qual está encarcerado Fabrice, o campanário onde o padre Barnés se ocupa de astrologia e de onde fabrice lança uma vista de olhos tão bonita.”

 

10. PAUL DESJARDINS E O AZUL DO CÉU

“NO CAMINHO DE SWANN” “O verso de Desjardins: “Os bosques já estão sombrios, mas o céu ainda é azul...”Que o céu seja sempre azul para você, meu jóvem amigo; e até na hora, que me chega agora, em que os bosques já são sombrios, em que a noite desce rápido, você se consolará como eu faço, olhando para o lado do céu.”

 

11. MÉRIMÉE, MEILHAC E HALÉVY- O RESPEITO AO “NATURAL”

“ A CAMINHO DE GUERMANTES” “A tantos motivos para ampliar sua originalidade local, os escritores preferidos da sra. de Guermantes- Mérimée, Meilhac e Halévy- tinham vindo ajuntar, com o devido respeito ao “natural”, um desejo trivial da prosa pelo qual ela atingia a poesia, e um espírito puramente de sociedade que ressuscitava paisagens diante de mim... Então, olhando e ouvindo a sra. de Guermantes, eu via, prisioneiro da permanente e tranquila tarde de seus olhos, um céu da Ile- de-France ou de Champagne estender-se azulado, oblíquo, com o mesmo ângulo de inclinação que possuia em Saint-Loup.” “Eu teria achado um requinte delicioso a secura intencional, a la Mérimée ou a Meilhac, dessas palavras dirigidas por uma deusa a um semi-deus, que ele sim, sabia quais os pensamentos sublimes que ambos resumiam, sem dúvida para o momento em que recomeçassem a viver sua verdadeira vida... E eu teria ouvido esse diálogo com a mesma avidez com que ouviria determinada cena do Marido da Estreante, onde a ausência de poesia, de pensamentos profundos, coisas tão familiares para mim e que suponho Meilhac seria mil vezes capaz de por ali, parecia-me por si só uma elegância convencional, e, portanto, tão mais misteriosa quanto mais instrutiva.”

 

12. MUSSET, HUGO, RACINE E O SAL DA TERRA. “( a respeito que a carta escrita por um “lacaio” de Marcel ao primo que vivia no interior, em “terra de ignorantes”) Assim é com prazer que mandarei livros de Racine, de Victor-Hugo, de Páginas escolhidas de Chenedollé, de Alfred de Musset, pois desejaria curar a terra que me deu a luz, da ignorância que leva fatalmente até a delinquência e o crime... Victor-Hugo, Alfred de Musset todos esses grandes gênios que por causa disso fizeram morrer nas chamas da fogueira como Joana d’Arc.” “O escritor não deve ficar ofendido se o invertido sexual confere a suas heroínas uma fisionomia masculina. Só essa particulariedade meio aberrante, permite ao invertido atribuir ao que lê toda a sua genealidade. Racine fora obrigado, para lhe dar a seguir todo o seu valor universal, a fazer por um momento um jansenista da Fedra antiga; da mesma forma, se o sr. de Charlus não desse as feições de Morel ao “infiel” por que Musset chora na Nuit d’Octuber ou em Souvenir, não teria nem chorado nem compreendido, pois era só por esse caminho oblíquo e estreito que tinha acesso às verdades do amor.”  

 

13. MAX SCHNECKENBURGER E AS SIRENES DURANTE A GUERRA

“O TEMPO RECUPERADO” “...Robert aludia a um ataque de zepelins que houvera na véspera, e me perguntou se o vira, mas do mesmo modo como me falava antigamente sobre algum espetáculo de grande beleza estética... Falava sobre as sirenes ( de alarme), que não eram bem wagnerianas, o que de resto seria bem natural para saudar a chegada dos alemães, parecendo hino nacional, Wacht am Rhein ( A Guarda do Reino, poema de Max Schneckenburger, musica de Wilherm), com o Kronprinz e as princesas no camarote imperial; era para se perguntar se tratava-se mesmo de aviadores e Válquírias, explicando-as de resto por motivos puramente musicais. Disse-me: “Ora, é que a música das sirenas era a de uma Cavalgada!”

 

14. OS ROMANCISTAS E OS “CONTADORES DE HISTÓRIAS”

“A FUGITIVA” “Os romancistas muitas vezes pretendem, num prefácio, ter viajado por uma região onde encontraram alguém que lhes contou a vida de uma pessoa. Cedem, então, a palavra a esse amigo encontrado, e narrativa que este lhes faz, é precisamente, o seu romance. Assim, a vida de Fabrice del Dongo foi contada por um padre de Pádua a Stendhal.”

 

15. BAUDELAIRE, POE, VERLAINE, RIMBAUD: UMA SOCIEDADE SEM PONDERAÇÃO E NEM JUÍZO

“A SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR” “Como dizem que em matéria de amor o que determina as preferências de cada indivíduo é o interesse da espécie..., minha avó, levada também, embora inconscientemente, pelo interesse de meu bem-estar, ameaçado pelos nervos e pela mórbida tendência para a tristeza e o isolamento, colocava em primeiro lugar essas faculdades de ponderação e juízo..., próprias de uma parte da sociedade onde me seria possível encontrar distração e calma, sociedade semelhante àquela em que floresceu o talento de Doudan, de Rémusat, para não dizer de Beausergente, de Joubert, de Sévigné; pois essa espécie de talento proporciona mais ventura e dignidade na vida do que os sofrimentos opostos, que levaram um Baudelaire, um Poe, um Verlaine e um Rimbaud a sofrer penas e desconsiderações que minha avó não queria para mim. Cortei-lhe a palavra e dei-lhe um beijo...”

 

16. RACINE, FEDRA E SEU DUPLO, ENONE

“A FUGITIVA” “Hipólito vai partir. Fedra que até então apenas lhe oferecera inimizade- por escrúpulo, diz ela, ou melhor, o poeta- pois não vê saída e porque não se sente amada, não se contém. Vai confessar-lhe o seu amor...” (Hipólito que decidira partir e diante da notícia propalada da morte de seu pai, Teseu). “A prova que o zelo por sua honra não é o que mais importa para Fedra, está em que ela perdoaria Hipólito e recusaria os conselhos de Enone ( sua ama), caso não soubesse naquele instante que Hipólito gosta de Arícia. De tal forma o ciúme, que em amor equivale à perda completa da felicidade, é mais sensível que a perda da reputação. É somente então que ela deixa Enone, que é somente o nome da pior parte dela mesma, caluniar Hipólito sem se encarregar do cuidado de defendê-lo e, assim, envia este que não quer saber dela a um destino cujas calamidades, aliás, não a consolam de modo algum, já que ela se mata logo após a morte de Hipólito.”

 

17. KANT ENTRE A NECESSIDADE E A LIBERDADE

“A CAMINHO DE GUERMANTES” “...As pessoas sentiam no entanto, com o seu ato, a espécie de alívio que se tem em Kant quando após a mais rigorosa demonstração do determinismo, descobre-se que acima do mundo da necessidade existe o da liberdade.”

 

18. PLATÃO E SÓCRATES; SÃO JOÃO E JESUS- OS PORTA-VOZES

“A SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR” “Quando a sra. de Villeparisis se encontrava com Françoise, nesta hora chamada de meio-dia, .. a Marquesa se detinha para perguntar sobre nós. Logo Françoise nos transmitia os recados da senhora: “Disse: Dê-lhes bom dia de minha parte”, e imitava a voz da senhora cujas palavras imaginava citar textualmente e sem deformá-las, como Platão e Sócrates e São João e Jesus.” “O TEMPO RECUPERADO” “Aliás, da mesma maneira que na filosofia e na arte, idéias análogas só valem pelo modo como são desenvolvidas, podendo diferir grandemente caso sejam expostas por Platão ou Xenofonte.”

 

19. POINCARÉ E A EXATIDÃO

“A CAMINHO DE GUERMANTES” “Retorno ao nosso livro de filosofia, isto é como os princípios racionais ou as leis científicas, a realidade se conforma a essas coisas(do pensamento humano) de maneira aproximada; mas lembra-te do grande matemático Poincaré, ele não está certo de que as matemáticas sejam rigorosamente exatas.”

 

20. LEIBNITZ E A COMPAIXÃO

“SODOMA E GOMORRA” “Um filósofo que não era assaz moderno para ela, Leibnitz, disse que longo é o trajeto que vai da inteligência ao coração. Esse trajeto, a sra. Cambremer , tanto quanto seu irmão , não tinha forças para percorrê-lo. Só deixando a leitura de Stuart Mill pela de Lachelier, à medida que menos acreditava na realidade do mundo exterior, mais se encarniçava, em antes de morrer em conseguir uma boa posição neste mundo.