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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Prefácio



“Um leitor capaz descobre, muitas vezes, nos escritos de outrem, qualidades diversas das que o autor neles pôs ou percebeu; empresta-lhe assim sentidos e aspectos mais ricos”.  Montaigne (Ensaios- Livro I, cap.25).

 “Fala-se muito em originalidade, diz ele, mas o que significa isso? Mal nascemos começa o influxo do mundo sobre nós e até o fim mantém-se ativo. E onde quer que seja, só a energia, a força, a vontade nos pertence. Pudesse eu dizer tudo o que devo a grandes antecessores e contemporâneos, e não restaria grande coisa”... (Goethe a Eckermann).

               

                I-  Praticamente cem anos nos separam da primeira parte da publicação de “Em Busca do Tempo Perdido”, livro recusado pelas editoras, inclusive por aquelas de vanguarda.  Marcel Proust pagou do próprio bolso a impressão de “A Caminho de Swann” e ele mesmo realizou, em elegantes pacotes, a primeira distribuição. Ao impacto inicial causado pelo absolutamente “novo” seguiu-se tanto o sucesso e o reconhecimento devidos a uma obra de arte no nascedouro, quanto a reações de desconforto e, mesmo, de repulsa provocada nas mentes mais conservadoras e convencionais. De todo modo, “A Caminho de Swann”, rompeu as fronteiras da França, conquistou as Américas e parcela da intelectualidade europeia.

            Poucos anos após a morte de seu autor, com o conjunto da obra impressa, o século XX considerou Marcel Proust como um dos maiores romancistas da modernidade e, mesmo, de todos os tempos, e este conceito permanece corrente nos meios intelectualizados até os dias de hoje. E, talvez exatamente por ser moderno e diferente “Em Busca do Tempo Perdido”, seja, em comparação aos outros “clássicos”, um dos menos lidos. E esta incongruência eu mesmo a vivenciei.

            Como tantos de minha geração, confesso haver tentado, desde há muito, penetrar no mundo de Proust; no entanto, todas as minhas tentativas de leitura, invariavelmente foram interrompidas já nas quarenta ou cinquenta primeiras páginas de “A Caminho de Swann”, justamente no primeiro dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, mesmo sendo eu um leitor insistente e persistente. Cada livro que decido ler e não consigo chegar ao seu término faz com que me interrogue sobre aquilo que me coloca o sabor de uma “derrota”. Teria ocorrido por uma escolha inadequada do objeto, ou fora a minha incapacidade de compreensão do texto? Perguntei-me, lá pela quarta ou quinta tentiva de leitura, sobre o que acontecia entre mim e Proust. Encontrei algumas respostas: uma leitura inicialmente difícil, graças ao ritmo lento de um texto composto por frases quilométricas, com excesso de vírgulas e ausência de pontos finais, onde a intercorrência de raciocínios colocados dentro de parênteses, faziam-me, inevitavelmente, sempre retornar para não perder a meada da narrativa. Enfim, logo às primeiras páginas, sentia-me numa espécie de labirinto; então, aborrecia-me e encerrava a leitura.

            Ocorria uma espécie de dissintonia entre o Narrador e seu leitor. O que restava ainda por explicar: por que eu retornara quatro ou cinco vezes ao mesmo livro e a minha leitura havia se interrompido quase sempre no mesmo trecho?  Seguramente não seria somente a “aura” de Proust que se extendia sobre minha cabeça, não. Definitivamente existia algo que me mantinha atraído a Proust, o que me obrigava ao retorno após tantas iniciativas frustradas. Mas o quê? Por um bom tempo não tive resposta.

            No entanto, a vida nos prepara a cada passo surpresas; o fado nos atropela e da harmonia aparente em que vivemos, ressurge perante nós com toda força avassaladora o caos. Pois que, de  repente, a  vida pessoal e familiar passa por uma hecatombe e, num processo de culpas e de tristezas, de rupturas e de perdas, aprende-se a  viver só. Foi num momento desses,  de enorme melancolia e insegurança,  que folheando livros, como que por magia acabei me entretendo com “A Fugitiva”, o penúltimo da série editada de “Em Busca do Tempo Perdido”. Recordo ter-me sentido tão atraído pela leitura que me sentei numa poltrona na livraria onde estava e somente depois de umas duas horas consegui desprender-me, pagar o livro e voltar para meu refúgio carregando-o a tiracolo.

            Sem que eu houvesse planejado, quebrara-se o encanto. Ao ler “A Fugitiva”, consegui penetrar no estilo de Proust e, como por um milagre, senti que lia a mim mesmo em suas reflexões. A resposta  tanto procurada do que afinal atraía-me nele, quase por um acaso a encontrara. Teria sido apenas um acaso? O seu estilo adquiriu uma nova coloratura; as frases adquiriam sonoridade e harmonia, é verdade que, permaneciam como antes, muitas vezes escritas em ordem inversa, longuíssimas, que se enroscavam entremeadas de parênteses, com idas e vindas e repletas de adjetivação. Mas para mim, ao invés de difícil, Proust tornara-se simplesmente diferente. A resposta que encontro foi minha aceitação em mergulhar num mundo desconhecido, que por vezes chegava a me aturdir; mas a recompensa obtida era uma deliciosa sensação de liberdade, de comunhão, o sentir-se  enredado em uma teia em que, como num caleidoscópio, eu visitava as múltiplas imagens de mim mesmo.  

            Com sofreguidão, em um par de meses, realizei duas leituras consecutivas daquela parcela do grande romance. Lógico que não foi o meu único apoio, mas devo consentir em que a leitura contribuiu de forma importante para que voltasse a me encontrar, para que da desordem que se instalara em minha alma surgisse uma nova estabilidade, que eu respirasse mais leve, menos atormentado. E, no entanto, meu casamento com Proust ainda não estava tão próximo, pois mais de oito anos ainda se passariam antes que isto acontecesse.

            “A Fugitiva” ganhou um lugar especial na ampla estante. A minha fase de paixão e estudo literário voltou-se para os russos: Dostoievski e Tolstoi. Rememorando, é bem possível que tenham sido eles, principalmente Dostoievski, que  prepararam meu retorno integral a Proust. Aconteceu num final de semana em que  terminara de ler “Notas do Subsolo” quando, de repente, eu disse: “Agora só pode ser Proust”. O velho exemplar de “A Caminho de Swann” foi resgatado da prateleira e nem me dei conta de que, já na segunda noite, vencera as primeiras sessenta ou setenta páginas fatídicas; que, dispensada Ariadne, não necessitava mais novelo de lã algum para conduzir-me, pois o próprio labirinto desaparecera e o estilo de Proust, pese a ser único- afinal qual gênio não possui aquele que lhe é próprio- tornara-se meu aliado e amigo, e tal qual nos quadros de Watteau que ele tanto apreciava, foi meu companheiro e condutor para o embarque para a fabulosa Cítera, “ilha dos corações e das festas do amor”, “aquela que está dentro de cada um de nós”.

            A redescoberta apoderou-se de mim como um vício. Não mais me contentei em ler, reler e anotar as mais significativas passagens e realizar minhas observações dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”. Passei a empanturrar-me, incansavelmente, de tudo o que me caia às mãos, relacionado a ele: seus críticos, sua vida, seu trabalho, cartas, amizades, visitei os artistas que mais o influenciaram, quer na literatura, na pintura, na música, na escultura e na filosofia. O fascínio do romance de Proust, alerta-nos  Edmund Wilson, é tão grande que, enquanto o estamos lendo, tendemos a aceitá-lo “in totum”; Proust nos contagia com seu ponto de vista, mesmo onde tal ponto “falsificou-lhe a pintura da vida”. É necessário que se desenvolva o espírito crítico na leitura de uma obra possuidora de inigualável beleza é verdade, mas, também, permeada por uma enorme melancolia; e ler Proust é tudo isto: um profundo mergulho no conjunto da criação do espírito humano!

 

                II-  “Em Busca do Tempo Perdido” insere-se numa corrente artística modernista de inigualável beleza estética: o Impressionismo! Marcel Proust tinha três anos de idade quando Claude Monet, em 1874, expôs uma pintura “Impression, Soleil Levant”, título sugerido pelo amigo Renoir. Nela, uma nova forma de simbolizar os objetos- Homens e Natureza – a partir do ponto de vista da percepção causada no seu autor. Era uma manifestação insólita de um grupo de pintores, que, rompendo com o tradicional, provocou um escândalo na sociedade. Surgia o impressionismo, como oposição ao academicismo oficial,  negando-se a considerar os objetos da pintura como imutáveis. O homens, as paisagens e a Natureza perdiam para eles o seu colorido e sua materialidade intrínsecas, variariando em função do tempo e da luz incidente. As formas antes padronizadas e estáticas, tornavam-se mutantes e dinâmicas.

            Proust que tinha convicção da transitoriedade das associações entre os homens, de suas  personalidades, das intermitências de nossos corações, no desenvolvimento de sua obra lançou mão da técnica impressionista, onde descrevia ou rememorava justamente os instantâneos a serem figurados através da escrita, dentro de um universo físico e psicológico sempre em mudança. Para ele e outros artistas, incluindo músicos como Debussy, o impressionismo não constituía tão somente uma técnica pictórica, porque seus conceitos centrais poder-se-iam extender a outros campos de expressão artística, à literatura e à música. De tal maneira que, pela primeira vez, para a compreensão de uma obra de arte, tornava-se necessário que o leitor ou espectador se sentisse por ela penetrado e possuído, caminhasse com o autor, ou, no dizer de Proust, tornasse o “leitor de si mesmo”.       

            Anos antes de iniciar o “seu romance”, Proust havia enveredado pela crítica literária, através da imprensa e na preparação um tratado de crítica ao mestre de sua época: Saint-Beuve. Pois bem, todo o conhecimento adquirido em anos de leitura, anotoções e pesquisas, ele o transpôs para “Em Busca do Tempo Perdido”. De tal modo que a leitura de Proust nos encaminha para uma visão panorâmica da literatura, do teatro e das correntes filosóficas francesas do século XVII ao XX.  Mas ele não decura nem dos clássicos e muito menos de seus contemporâneos de outras nacionalidades com os alemães, os eslavos, nórdicos, assim como os seus favoritos, aqueles de fala inglesa. Mais de uma centena de trabalhos são por ele citados, de tal modo que nos sentimos como percorrendo uma enorme biblioteca, onde possuem seu lugar o poeta, o fabulista, o teatrólogo, o comediante, o memorialista, o novelista e o romancista; livros enobrecidos, suas molduras e margens são diferentes correntes filosóficas. Quem dentre tantos poderiam ser citados neste curto prefácio?  Talvez apenas aqueles que mais tenham influenciado seu pensar: os franceses como Balzac, Stendhal, Racine, Baudelaire, Mellarmé, Nerval, Flaubert, senhora de Sevigné, Bergson e Pascal; os alemães Nietzsche, Shopenhauer, Kant, Schiller e Goethe; os russos Tolstoy e Dostoievski; nórdicos como Ibsen e dos países baixos, como Spinoza; ingleses como Ruskin, Shakespeare, Hardy, Huxley e Eliot, e norte-americanos como Emerson e Poe.

            A profunda erudição de Proust, não se restringia à literatura, ao teatro e à filosofia. Envolvia a historiografia musical; em seu trabalho, são dedicadas páginas e mais páginas à análise da música wagneriana, assim como aos “poemas musicais”, aos quais dedicava um carinho todo especial; as páginas de seu livro são recheadas por concertos, sonatas, balés, óperas, sinfonias e músicas sacras, que se iniciam na Contra-Reforma simbolizada por Palestrina, caminham pelo Barroco com Scarlatti e Bach, passam pelo rococó de Rameau, chegam ao Classissismo de Mozart, de Mendelssohn, ao tradicionalismo do folclore nacional de Mussorgsky, Borodin e Lizst, percorrem o Romantismo de Beethoven, Schumann, Schubert, Chopin e Verdi, chegando ao neo-romantismo de Wagner, de Frank e Fauré, ao poema sinfônico de Saenz, e, finalmente, caminham até o Modernismo de Debussy, dos balets russos e de Stravinsky.

            Apreciador e conhecedor da pintura, sua obra guarda profunda influência do simbolismo de um Moreau e do psiquismo de um Rembrandt. A cada página sentimo-nos caminhar por uma maravilhosa Galeria de Arte, onde os góticos como Fra Angélico e Giotto prescedem os renascentistas como Durer, Bellini, Boticelli, Carpaccio, Fra Bartolomeu, Da Vinci, Giorgioni, Rafael, Veronese, Ticiano, Michelangelo, Mantegna. A esses se sucedem o maneirismo de um El Greco, Tintoretto, Bruegel, Hals. Na ala dedicada aos barrocos encontamos Rembrandt, Chardin, Mignard, Rubens, Velazquez, Veermer de Delft; a esses seguem os rococós de Boucher, Fragonard, Tiepolo e Watteau. Chegamos por um corredor lateral aos românticos, e já temos Turner, Delacroix, Gerard, Goya. Subimos um lance de escada e nos deparamos com os classicistas David, Decamps, Reynolds e Poussin. Seguimos e já nos defrontamos com o realismo de Corot, Fromentin, Millet. Novo corredor e lá estão Chaplin, Ingrès e Cot, os academicistas. Finalmente, em uma ala especial, encontramos os simbolistas e dentre eles, Moreau e Rousseau; os impressionistas e pós- impressionistas: Degas, Fantin-Latour, Tissot, Manet, Monet, Renoir e Whistler; Rossetti, Guys e Redon.

            Esse é o universo deste escritor único, detentor de uma sensibilidade refinada, de erudição e memórias privilegiadas e que possuiu o dom de transformar seu romance numa verdadeira epopeia da alma; em suas páginas viajaremos pelos mais diversos oceanos da existência, mesmo porque por todos Proust navega: temos o Proust romancista, o moralista, o naturalista, o crítico de arte, o filósofo, o poeta, o memorialista, o caricaturista e o crítico social. Como poucos, sob todas essas “personnas”, Proust é um subversivo, um revoltado com o meio esnobe que frequentara um dia, revoltado para consigo mesmo e para com a realidade em que vivia. Utiliza nessa revolta um perigoso gênio cômico, empregado a destruir, uma a uma, todas as máximas e preconceitos sociais de seu tempo e que, em seu cerne, é composta pela mesma humanidade da qual fazemos parte, onde os antigos preconceitos ou se transformaram ou assumiram novas roupagens.

 

                III-  Num determinado momento decidi que necessitava escrever sobre e com Proust. “ENTENDENDO PROUST” é fruto de alguns anos de trabalho, de deleite, de autoconhecimento a que esse estudo me conduziu. Estar com Proust significa penetrar no tempo que nos marca a cada dia, nos constrói, nos desconstrói; permitir que nossa memória afetiva nos devolva sensações que constituíram “o paraíso perdido” do passado de cada um de nós, reencontradas ao acaso, no tempo presente; dar-se a possibilidade de alcançar através da arte, a beleza estética que a vida vivida nos oferece a cada instante.

            Para tal, desenvolvi um roteiro  que pudesse servir como guia aos futuros leitores de Proust, ou aqueles que do mestre busquem uma síntese; que possibilitasse a exploração da obra desde um ponto de vista que abrandasse a barreira que o estilo do grande escritor oferece ao iniciante; que, finalmente, mostrasse ao  leitor toda a riqueza e atualidade que ele pode encontrar no imenso tesouro que Marcel Proust legou à posteridade e que meu trabalho apenas ousa levantar a cortina de um primeiro ato.

            Criei um personagem, André Jammes, um misto de crítico literário e repórter, que conversará com Proust sobre as temáticas mais relevantes encontradas em “Em Busca do Tempo Perdido”. Idealizei um conjunto de entrevistas que, principiando em 1914, logo após o primeiro volume do livro de Proust ser impresso, extender-se-á até meses antes da morte do grande escritor, em 1922, quando ainda estavam no prelo dois dos últimos volumes do romance.      

            Neste processo de trabalho, na formatação do diálogo entre entrevistado-entrevistador, a linguagem proustiana assim como o seu estilo sofreu alterações que seriam naturais numa conversação, mesmo que partindo de uma pauta escrita. Meu personagem, por sua vez, também expressa seus pensamentos de tal forma que os leitores tenham através da contextualização, a possibilidade de vivenciar os tempos de Proust, que são justamente aqueles que partem da “dècadence” e conduzem à “belle époche”.            

          Creio, finalmente, ser importante consignar que, em nenhum momento, imaginamos esgotar qualquer dos assuntos temáticos sobre os quais, aliás, já tanto se publicou; nosso objetivo foi simplesmente descortiná-los como um conjunto coerente perante o leitor, e, quem sabe, auxiliá-lo na leitura de Proust. E ao leitor nós delegamos a responsabilidade de dizer se fomos ou não, André e eu, felizes nesta longa, mas altamente compensadora empreitada.

          Dito tudo isso, confesso que busquei com todo o denodo e honestidade expor  a “essência das coisas que somente pode ser buscada nos diferentes”, como ele mesmo gostava de se expressar, sem afastar-me dos conceitos proustianos.