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Contos, Novelas e Crônicas

Novelas

Capítulos I e II- Memórias de um Subversivo



Uma elucidação necessária

As memórias que serão publicadas neste Espaço Literário a partir de hoje e, desde então, capítulos presumivelmente semanais, não constituem de modo algum reminiscências vividas pelo escritor, mas sim, memórias de um jovem extraordinário a quem me dediquei a escrever a biografia. Como veremos, os episódios reportados referem-se, quase na sua totalidade aos anos 60, 70 e 80 do século passado, uma época em o sol punha-se tão cedo nesses trópicos e a noite sem luar era tão impenetrável, que até mesmo era quase impossível, apesar de absolutamente necessário, “falar-se de amor e flores”. Tempo aquele de sombras e crenças fortes, ideias definitivas, doação integral, violências, um tempo sem paz, aliás nisso diferindo muito pouco de toda a história dessa velha humanidade.

Mas, que foram tempos dos mais intensos e apaixonados, que exigiam dos que se incorformavam o arrebatamento total, ah, lá isso o foram; onde a pureza e a ingenuidade seguiam às vezes pela mesma senda da imprevidência, principalmente quando o engajamente ocorria na mais tenra juventude, ah, se foram…

Nosso jovem, cujo nome de batismo é Pedro Alexandrino, apesar que às vezes eu esbarre na tentação de denominá-lo meu herói, nada possuia de realmente extraordinário. Ele não era em nada grande, apenas um jovem revoltado, no tempo que lhe foi dado para viver, agir e sonhar. Algum leitor poderá perguntar-me por que, dentre tantos jovens que resistiram ao arbítrio, que também foram submetidos à tortura, à prisão e ao exílio, e se comportaram ainda com maior dose de dedicação, autruísmo que meu personagem, eu tenha escolhido justamente Pedro Alexandrino para relatar episódios de sua vida. Esta pergunta é bastante embaraçosa e tudo o que eu posso responder, por enquanto, é que o leitor descubra o porquê por si mesmo, no decorrer de meu narrar.

É verdade que Alexandrino age muitas vezes de uma maneira estranha, obstinada, sem um objetivo muito claro. Mas não seria demais exigir muita coerência daqueles que queriam construir um novo mundo recém saídos da adolescência e em meio a uma luta de vida ou morte, onde a maldade e o peso de facínoras disfarçados em militares e policiais esperavam apenas o momento propício para os exterminarem? Que tempos foram aqueles em que viveu meu herói! Sou, no entanto, obrigado a concordar que Alexandrino, vistos com os olhos de hoje em dia, deva parecer mais que estranho, original quem sabe, um tipo de pessoa saído de almanaque, desprovido até mesmo de carne e osso, pois para ele o consumismo, o dinheiro, a posição social, o patrimônio pessoal, possuiam muito pouco valor! Aliás, o bem estar de um lar, a tranquilidade, a harmonia e o repouso de estar entre familiares e amigos, tudo isso pouco contava para ele. Afinal, acreditava-se um soldado do bem, como um antigo cruzado, em guerra de vida ou morte contra as forças do mal. E, de certa forma, apesar de maniqueísta, não constituia esta uma inverdade absoluta. E por isso mesmo Pedro Alexandrino, como seus companheiros, eram originais, seres diferentes do comum dos jovens, tanto daqueles de ontem como os da grande maioria de hoje em dia.

De todo modo, a necessária elucidação a que me propus está feita. Mas resta ainda um lembrete para o leitor. Isto não é um livro e tão pouco ele pagou por tal, o que me deixa, como escritor e biógrafo, absolutamente livre na organização da temática. Por inserir-se num Espaço Literário os episódios que serão relatados não possuirão ordenação cronológica, pois dela me desobrigo desde já e a comunico ao atento leitor. Diversos momentos na vida de Pedro Alexandrino serão contados e postados semanalmente neste blog e a única ligação que unirá cada episódio serão os períodos nos quais eles ocorreram.

Teremos, então, os eventos do período que denominaremos de “Militância”, que percorrerão os anos de 65 a 69; “Entre- Grades”, o período de 70 a 74 e, finalmente, “Sobrevivendo de Sombras”, que serão os anos 75 a 80. O primeiro episódio a ser narrado, como se de propósito fosse, ocorrerá no último período da biografia do nosso homem.

 

Capítulo I

 “Sobrevivendo de Sombras”

 O compadre da Polícia Federal

Lá pelos meados de 1975, acontece com Pedro Alexandrino o fenômeno de tornar-se pai. Cabe a mim, como seu biógrafo, realizar um breve relato dos fatos que antecederam evento tão natural e ao mesmo tempo tão inusitado, bem como realizar uma breve descrição das circunstâncias em que o episódio se passou.

Nosso herói, após longo período nas prisões brasileiras, havia se exilado na Argentina e lá conhecera uma outra subversiva, de nome Beatriz, tão solitária e carente como ele próprio. Dessa relação, resultou uma gravidez inesperada e o bebê que abriu alas neste mundo nasceu forte e saudável, decidido a sobreviver.

A Argentina vivia seus últimos dias de democracia. Uma democracia decadente, corroída pela corrupção, pela brutalidade dos asseclas que rodeavam a presidenta-viúva de Peron, assolada pelos militares famintos de sangue, por alas da igreja reacionária a pregar um golpe militar, latifundiários e anti-democratas em geral, prontos a eliminar a ferro e fogo as organizações populares e de luta. Ora, na vanguarda da repressão, sobressaia-se justamente a Polícia Federal e “las tripes A”, uma organização para-militar que apreendera a agir com os Esquadrões da Morte tupiniquins. Mas basta por aqui, pois não queremos  recontar uma história por nós conhecida, pois o que desejamos fazer é relatar um episódio que ocorreu com nosso personagem, que levava no país vizinho, uma vida de semi-clandestinidade.

Beatriz foi internada em um hospital que já não mais existe, o Sanatório G., na tão extensa “calle Cordoba”. Ela repartia o quarto com uma moça argentina, um pouco mais velha, de nome Mercedez, que também estava para dar à luz. Por coincidência da redes tecidas pelas Parcas, os bebês nascem um logo após o outro. O de Alexandrino é um varão forte, de olhos verdes, e o de Gimenez, pois assim se chamava o marido de Mercedez, uma menina, para sermos justos, mirradinha e não muito bonita.

Inevitavelmente estabeceu-se uma relação de cordialidade e para dizer a verdade, o casal de argentinos era muito simpático e por demais falante. E também muito curiosos, o que conduzia  nossos amigos exilados a permanecerem com o sinal de alerta permanentemente ligado. Afinal, naqueles tempos negros, a semi-clandestinidade impunha a discrição e a dissimulação como regras básicas de sobrevivência.

Pois bem, chegamos ao terceiro dia após o parto e Gimenez convida nosso amigo para juntos irem até o Cartório registrarem as crianças e lá se vão os dois a conversar sobre o tempo, o futuro dos bebês, e outras mais conversas de se jogar fora. Descobrem, inclusive, serem praticamente vizinhos, moradores do bairro de Caseros e Gimenez já, então, chama nosso amigo de compadre e quem sabe no futuro até “sus hijos poderian compor un matrimonio”.

Em frente aos escrivãos, sentam-se lado a lado. Após as descrições de praxe, vem a qualificação dos pais. Quem primeiro fala é Pedro Alexandrino que se declara representante comercial ( ele que nada representava exceto a sua vontade revolucionária); em seguida Guimenez: Polícia Federal, investigador! Nosso amigo sentiu um arrepio percorrer-lhe toda a coluna cervical; afinal, dera no hospital e consequentemente no cartório seu nome e endereço real. O sinal de perigo era enorme…

Nome das crianças pedem-lhes os escrivãos. Pedro sede a vez ao “compadre”. Ele diz: Maria del Rosário, “en homenage a  la sancta”. Pedro e Beatriz haviam planejado dar ao garoto o nome de Ernesto Fidel. Mas imediatamente ele mudou de ideia e disse: “José Pedro”, e virando-se para o argentino lhe confessa: “José como el Padre del Niño y Pedro para el hombre de las llaves que nos abriran las puertas de los cielos, a nosotros, los buenos”.

E assim, foi graças ao “compadre”, que aquele que deveria chamar-se Ernesto Fidel, por toda a vida ostentará o nome bíblico de José Pedro.

 

Capítulo II

 

“Sobrevivendo nas Sombras”

Um general patriota e um “gorila” com “cara de perro hambriento”

Passara-se quase um ano após o episódio do “compadre” da Policia Federal. A situação política argentina se definira. A democracia caíra apenas com um berro dado pelos comandantes militares de turno. Isabel de Peron foi por eles mesmos embarcada para Madri, para um exílio dourado, ao lado do assassino Lopes Rega. Os idos de março de 1976 foram  tempos negros que seriam para sempre tingidos com o sangue do povo argentino e de tantos mais latinoamericanos que se encontravam naquelas terras. As Forças Armadas argentinas haviam, afinal, instaurado ”a banalização do terror”.

A grande maioria dos brasileiros que tinham deixado o Chile de Pinochet rumo à Argentina já haviam, por sorte,  partido para o exílio em outros países, principalmente para a Europa. Pedro Alexandrino, entretanto, ainda estava por lá e somente após os graves fatos que relataremos a seguir, tomou, com sua companheira, a decisão de preparar um esquema para a saída do país. No entanto, isto é motivo para um novo episódio que relataremos somente no futuro.

Foi após o golpe militar argentino que Alexandrino conheceu um personagem singular, superior, realmente um homem de coração puro e de índole inabalável. Conheceu-o como Jota Jota. Trazido por um companheiro em comum, Jota Jota já era um senhor, o que contrastava com a juventude da grande maioria dos militantes, em toda força física de seus cincoenta anos. De sua descendência indígena, herdara uma baixa estatura num corpo sólido e forte; sorriso franco e humilde de quem confraterniza com a vida e com os homens, mesmo nas mais difíceis situações. Este senhor era o General Juan José Torres, ex- presidente da Bolívia.

Para falarmos de Torres, precisamos visitar, mesmo que de passagem, os nossos conhecimentos sobre a Bolívia do princípio dos anos 70. Governava então nosso país vizinho o General  Ovando, sendo Torres o Comandante em Chefe das Forças Armadas. Ovando alinhava-se, então, a uma geração de generais patriotas e anti-imperialistas como o do Peru, Alvarado e do Panamá, Omar Torrijos.

Sob a coordenação da CIA e dos interesses das companhias de mineração e petróleo, Ovando, após muitos confrontos sangrentos, foi deposto do poder; no entanto, o General Torres encabeçou uma heroica resistência contra a direita do Exército, venceu-a e assumiu o governo boliviano. Torres, que possuía uma posição à esquerda do próprio General Ovando, em suas primeiras determinações convocou uma Assembleia Popular, com representantes dos mineiros, camponeses, militares, professores e estudantes, para legislar em favor do paupérrimo e explorado povo andino. Também consolidou a nacionalização da Golf Oil, iniciada por Ovando.

Bem, nosso objetivo não é falarmos da história boliviana, mas antes de voltarmos a Alexandrino, ainda é preciso que se frise que todo o governo popular de Torres sobreviveu apenas dez meses. A direita, tendo à frente o facista corrupto e fantoche do imperialismo americano, o coronel Hugo Banzer, derrubou o governo de Torres e inaugurou uma ditadura terrorista que sobreviveu por nove longos anos.

Torres, com sua família, exilou-se na Argentina, mas ao contrário de tantos outros , jamais encarou o exílio como ponto final de militância ou de repouso d’armas. Desde 1971 trabalhou na organização da resistência boliviana, formando o Exército de Libertação Nacional, que colocou sob o comando de seu lugar-tenente Major Rubens Sanches, que operou  nas selvas da Bolívia até a sua morte. Quando Jota Jota travou contato com Alexandrino, o incansável lutador trabalhava também na articulação de uma Junta Coordenadora Revolucionária, que deveria abrigar militantes desde o Uruguai até a Bolívia.

Mas as perspectivas desta Junta eram desesperadoras. A última reunião que tiveram Alexandrino e Jota Jota ocorreu no último dia do mês de maio. Pensavam, então, em retornar na clandestinidade a seus países: Alexandrino para o Brasil e o general, para a Bolívia. Havia uma alternativa de eludirem-se os bloqueios fronteiriços, seguindo a rota do contrabando. Enfim, agendaram novo encontro para o dia 3 de junho.

Alexandrino recorda-se como se hoje ainda fosse aquela manhã fria, quando, antes de ir para o trabalho, deveria tomar o café da manhã com Jota Jota. Próximo ao café, localizado na avenida Entre-Rios, comprou como todas as manhãs um “La Prensa”. Uma foto do general-ditador argentino encimava a primeira página. Abaixo, a foto de Juan José Torres, sequestrado, torturado e morto a tiros, no dia anterior. O assassinato do resistente era um favor prestado entre crápulas: do general argentino Videla para o coronel boliviano Banzer, no que viria a ser conhecida como uma ação da Operação Condor.

O café estava a dois passos. Alexandrino tinha absoluta certeza de que nada aconteceria se ele entrasse e  tomasse seu café, engolindo o sabor amargo que o cálice do destino tantas vezes já lhe trouxera, a perda de mais um amigo, de mais um companheiro. Lembrou-se de do princípio de um verso de Neruda: “Perdemos um de nós neste mundo. Onde estavas?”.

Triste, com lágrimas nos olhos que insistiam em se despregar, caminhou até a parada de ônibus mais próxima. Atrás de si estavam dois operários e um deles possuia um “La Prensa” na primeira página e comentava com o amigo: “Mira, chê, no tiene este tal de Videla una cara de perro hambriento? ”. Seria um sorriso ou um rito facial que percorreu o rosto triste de Alexandrino? Nunca o saberemos, mas ainda hoje ele diz que naquele momento soube que a ditadura argentina jamais duraria tanto quanto a brasileira.

Nota do biógrafo: Em 1983, o corpo de Jota Jota foi transportado para a Bolívia e enterrado com honras de Chefe de Estado.

 

Capítulo III e IV- Memórias de um Subversivo



Capítulo III

“Sobrevivendo nas Sombras” 

O esgoto entupido e a solidariedade inesperada

 

É muito difícil a vida daqueles que conscientemente optaram por viver nas sombras, em todos os tempos negros da nossa história. Eram pessoas para quem o lugar da liberdade era qualquer parte do mundo, já  que o do amor à liberdade era o coração de cada um deles; um lugar sombrio, muitas vezes, mas de resistência a um ambiente perigoso.

Muito bem, uma das maiores dificuldade que eles enfrentavam era a imprevisibilidade do momento seguinte, ou seja, a impossibilidade quase absoluta de conhecer os fatores que estavam em jogo e que poderiam levá-los à tortura, à prisão e mesmo à destruição física ou psicológica.

Quando nos relatou o episódio que passamos a transcrever, um certo sorriso maroto aflorou aos lábios de Pedro Alexandrino. E ele nos disse: “Talvez alguém já tenha falado isso antes, mas saiba que a sabedoria é uma virtude da velhice, que parece vir apenas para aqueles que, quando jovens, não eram nem sábios e nem prudentes, mas amavam seus companheiros de luta e a humanidade de um modo geral”.

O cenário é a Argentina e o momento é o princípio do ano de 1975, portanto, às vésperas do golpe militar. Alexandrino e Beatriz viviam em um pequeno apartamento alugado, em meados de 1974, para servir à resistência brasileira. Naquela época eles chamavam esse tipo de moradia de “aparelhos”. Como, após a queda de Allende no Chile e do golpe cívico-militar uruguaio, a imensa maioria dos exilados partira para a Europa, esse local logístico era dos únicos a existirem no “Cone Sul”. Citamos esses fatores apenas para explicar o fato de nesse “aparelho” acumularem-se grande quantidade de documentos de organizações de esquerda, assim como material para falsificação de identidade para pessoas perseguidas, documentos pessoais de militantes que eles nem conheciam, microfilmes, etc., etc..

Na data em que se desenvolve o presente episódio, nosso jovem casal tinha consciência de que precisava dar um fim a boa parte daquele material, primeiro porque a própria resistência armada no Brasil havia sido exterminada, tornando inútil boa parte do mesmo e, em segundo lugar, não poderiam correr o risco de serem presos com ele. Foi aí que, por um acaso e por um ato de enorme solidariedade humana, a casa não “caiu”. Mas vamos aos fatos após tanta preparação.

Alexandrino fora para o trabalho onde permanecia até por volta das oito horas da noite. Sua companheira encontrara-se com um dos poucos exilados ainda por aquelas bandas, que lhe deu uma “excelente ideia” de como fazer para destruir parte do material sem chamar a atenção, o que ocorreria se lhe pusesse fogo, que produziria uma tremenda fumaça. Ele garantia que já havia realizado e funcionava. Bastava recortar os microfilmes, os documentos e colocá-los num balde com um líquido à base de cloro, comprado em casa de material de construção. Isso feito, deixá-los descançar por algumas horas e jogar tudo no sanitário, dando muita descarga. E assim, nossa ingênua Beatriz procedeu.

O vaso sanitário do apartamento, que localizava-se no sétimo andar, tinha comunicação com o do vizinho ao lado e da junção de ambos saia um cano que, juntando-se ao do andar superior, desembocava na coluna central do prédio. Acontece que o material, uma vez colocado no vaso de nosso incauto casal, entupira-o e caminhara para o banheiro do lado vizinho, entupindo-o também por sua vez. A companheira de Alexandrino, durante a tarde, já no desespero, comprara soda cáustica e tocara vaso abaixo. Quando ele chegou, a situação já ficara crítica. A água, onde pedaços de microfilmes e de documentos sobrenadavam, invadira até o tapete da sala da pobre vizinha. Presente estava o zelador, um excelente senhor, que disse que teria de comunicar o fato ao síndico e chamar um encanador no dia seguinte, pois quem provocara o entupimento ou fora o apartamento ao lado ou um dos dois localizados no andar superior.

Assim que o zelador saiu, Alexandrino ficou a sós com a senhora Pilar, dona do imóvel. O caso já não permitia mentiras por ser evidente, dado que certos recortes estavam em português. Nosso herói olhou-a bem nos olhos e disse-lhe: “Usted sabe que el problema está en nuestro sanitario”e propôs pagar todos os “daños”provocados ; a senhora olhou-o também dentro dos olhos e disse-lhe muito séria que “por amor de Dios”, fizesse algo para desentupir aquele esgoto naquela noite, antes que alguém mais visse. Nada mais era necessário ser dito.

Pelas dúvidas, Beatriz, grávida, começou a preparar uma mala para a fuga no dia seguinte, sem mesmo saber para onde ir. Alexandrino retirou o vaso sanitário e começou, com a mão nua, a tentativa de desobistruí-lo. De repente um grito: “Que merda você colocou aqui? Está ardendo!”. Ela confessou-lhe, quase chorando. “Fiquei desesperada, e coloquei soda”. “Traga vinagre e cada vez que eu pedir, passa no meu braço e na minha mão”.

E, naquela noite travou-se uma luta feroz, desesperada, mas sem quartel, digna do comandante Acab na busca por Moby Dick. E a cada hora, o nível do esgoto baixava um pouquinho; de novo, outro tantinho, até que, de repente, ouviu-se o ruído mágico, maravilhoso, de tudo o que a coluna de esgoto, agora liberto, carregava.

Amanheceu e com o novo dia, Alexandrino não pôde sair para trabalhar. Tinha mão e braço queimados e enegrecidos pela soda cáustica. Deixou, então, um bilhete embaixo da porta da senhora Pilar perguntando-lhe sobre prejuízos. No dia seguinte, recebeu uma resposta também por bilhete, “no se preocupen, pues para mi, no pasó nada”.

De todos os modos, após aquele incidente, nossos amigos prepararam-se para mudar de endereço e o fizeram de um modo organizado, e isso aconteceu uns meses após. O último a retirar os pertences do apartamento foi Alexandrino e para isso pernoitou sozinho no apartamento quase vazio. Por volta das nove horas da noite, soa a campainha. Qualquer visita sempre causava um sobressalto em quem vivia nas sombras. Mas quem se anunciou era a senhora Pilar. Trazia-lhe um lanche, abraçou-o e disse-lhe: “Te voy a hacer una confidencia. Siempre supo sobre Uds, pues tengo un sobrino que está desaparecido. Por favor, compañeros, cuidense; tengan toda la suerte y que se vallan con Dios”. 

 

Capítulo IV 

 

“Sobrevivendo nas Sombras”

Um opioide, um tiroteio e o cheiro da morte

Os fatos a que nos referiremos ocorreram precisamente entre os dias 23 a 26 de dezembro de 1975. Nosso biografado e sua família (não nos esqueçamos de que uma criança de sete meses já lhes fazia companhia), mudara-se, em decorrência dos episódios já relatados, da cidade de Buenos Aires para uma região próxima, ainda na região metropolitana, a menos de dois quilômetros de Avellaneda, onde localizava-se  Monte Chingolo com o quartel “ Arsenales 106, del Ejercito Argentino”.

Viveram algum tempo em uma pequena casinha, quarto, cozinha, banheiro, em cujos fundos havia um quintal com flores e algumas árvores frutíferas. Um lugar mais do que simples, porém muito agradável. Mas na vida daquelas pessoas que viviam nas sombras, sempre haveria um senão. E esse era o fato de que a região sofria com permanente falta de água. E por esse motivo, a casa possuia um depósito subterrâneo para a mesma, localizado exatamente no jardim.

Agora sim, podemos contar nossa história. A dor no dente molar inferior que Pedro Alexandrino sentia já o importunava há algum tempo. O dentista do bairro que o atendera, fizera o serviço a seu modo e a dor, no entanto, persistira. No dia 23 de dezembro, à tarde, ela tornara-se insuportável e as aspirinas pouco ajudaram. O nosso amigo ganhara uma pulpite num dente fechado e obturado. Somente quem já passou por uma dor como essa sabe do que falamos.

Para “colmo”, como dizem os argentinos, “la Navidad” caia num final de semana e o tal do dentista viajara. Praticamente sem dinheiro, a alternativa que restava era ir à farmácia e comprar algum analgésico que funcionasse e aguardar até a segunda-feira ( ou terça, ele hoje não se recorda precisamente), que sucederia ao dia de Natal. Comprou, então, dolantina injetável, pois sabia que funcionaria, afinal já aplicara a mesma em casos de dores agudas na Casa de Detenção em São Paulo, mas esta é uma outra história. A dolantina provoca, à parte da analgesia quase imediata, sonolência e uma sensação de profundo bem-estar.

Foi logo após a primeira aplicação venosa, quando a sensação de dor quase magicamente desaparecera é que se ouviram os primeiros disparos da metralha, seguida por voos rasantes de pequenos aviões, apitos, alarmes. Alexandrino olhou para sua companheira e disse-lhe sorrindo: “aqui se comemora cedo a véspera de Natal”. Ela, que estava em seu juízo perfeito, disse-lhe: “isso é tiroteio, você está dopado, precisamos saber o que está acontecendo”!

O ruído da metralha não cessava nem com a chegada da noite. Rajadas luminosas passavam a rasgar os céus. As rádios davam a notícia do “ataque terrorista” a uma unidade do Exército, onde se concentrava parcela importante de seus arsenais. Também dizia que a perseguição aos guerrilheiros se estendia num círculo de mais de dois quilômetros de raio, ou seja, englobava a localidade da pequena residência do casal. Havia anúncios radiofônicos para que ninguém desse abrigo a “terroristas” que tentavam fugir ao cerco, que a população permanecesse em suas casas e facilitasse o trabalho de buscas da polícia e do exército.

Com dolantina e tudo o mais, o momento fez com que a sedação desaparecesse. Nossos amigos precisavam ter uma alternativa e Alexandrino pensou rápido: “vamos secar o reservatório de água”. Retirada a tampa, viram que, por sorte, não havia tanta água depositada e alguns baldes resolveram a situação. O depósito seco era grande o suficiente para abrigar até mesmo duas pessoas, por algum tempo.

Nossos amigos sabiam da possibilidade de terem a casa “allenada”, revistada, e, nesse caso, os documentos argentinos falsos que possuiam não resistiriam. “E se algum companheiro pedisse guarida em sua casa?”, eu perguntei ao Alexandrino. Ele me disse: “o que fazer, iria pro depósito de água também ou morreríamos todos”.

Pelas dúvidas, após improvisar o esconderijo, fecharam as portas da casa, sem esquecer dos enfeites natalinos que foram pendurados e puseram um cartelito no portãozinho de entrada: “Volvemos en lunes: Buena Navidad”. Pequeno pedaço de papel salvador.

Numa situação como essa o tempo é muito relativo e assim temos que considerar o depoimento de nosso entrevistado. De qualquer modo, pouco tempo após a afixação do cartalito, um tiroteio se fez ouvir a não mais que cem metros. Sirenes chegando, gritos “a ese hijo de puta lo matamos”. A criança, José Pedro, desperta e começa a chorar. É a hora de ir para o depósito de água. Alexandrino não tem dúvida em acalmar o filho e lhe injeta quase meia ampola de dolantina. Então, os três se acomodam e recobrem o esconderijo improvisado com sua pedra. Ouvem ruídos, não se mexem, nem mesmo piscam os olhos. Soa a campanhia da casa, a repressão busca outros fugitivos. Mas não entra, o pequeno cartelito fora providencial e salvador.

Quando tudo se aquietou deixaram o esconderijo. Já não havia avionetas pelos céus, balas tracejantes, nem metralha e nem sirenes. Pois justamente agora a dor voltava e nosso personagem fez com que sua companheira lhe aplicasse outra dolantina na veia. Ele quase podia ouvir um “resquiat in pace”.

Muito bem, o dia 24 e 25 passaram. Dia 26, Alexandrino, como muitas vezes fazia, tomou o ônibus para ir trabalhar em Buenos Aires. Ele passava por Avellaneda e no seu percurso estava o cemitério da cidade. Um cheiro ocre, adocidado-apodrecido, um cheiro de morte invadiu todo o transporte. Mais de quarenta cadáveres, com as mãos cortadas estavam atiradas ao solo do cemitério, sem sepultamento, visíveis ao longe pela janela do veículo. O trânsito é lento e alguém comenta: “ahora quieren matar a nosotros con ese holor”.

Obs.: O ataque ao quartel de Monte Chingolo seria a maior ação revolucionária urbana do Exército Revolucionário Popular argentino, que mobilizara toda sua infra-estrutura para abastecer com armamento a guerrilha rural. Um agente infiltrado, desses malditos cães que mudam de lado, denunciou a ação ao Exército e os mais de cem guerrilheiros que dele participaram cairam em uma armadilha mortal. Quem não morreu em combate foi covardemente torturado e assassinado após a prisão. Os corpos em decomposição foram mantidos sem sepultura, com as mãos amputadas, com o objetivo de disseminar o terror, por quase uma semana no Cemitério de Avellaneda.

 

 

Capítulo V e VI- Memórias de um Subversivo



Capítulo V

“Sobrevivendo nas Sombras”

Na difícil senda do contrabando

Avançamos novamente no tempo e retornamos ao mês de junho de 1976, dias após a morte de Juan José Torres.

Pedro Alexandrino trabalhava durante o dia em uma Cooperativa e à noite, após o reconhecimento de seus créditos, seguia um curso na Universidade Nacional de Buenos Aires. Evitar de todos os modos, tanto na Universidade quanto no trabalho, emitir opiniões políticas, jamais participar das reuniões estudantis ou sindicais, numa Argentina efervescente de medos, heroísmo e participação política era muito difícil, no entanto, mais que nunca necessário para seguir sobrevivendo nas sombras.

Uma determinada pessoa muitas vezes nos atrai sem que nem mesmo saibamos por quê. Ainda hoje, Alexandrino se questiona quanto à existência de algum tipo de  química, de magnetismo ou seja lá o que for, que permite uma pessoa de esquerda identificar uma outra semelhante dentre tantas a nos rodear. Pois foi justamente esse tipo de magnetismo, ou chamem-no como quiserem, que lhe salvou a vida.

Norma não era exatamente uma mulher bonita, mas tinha um olhar claro e doce, o que a tornava simpática no ambiente de trabalho, isto pese à sua função de auditora, o que por  vezes costuma exarcebar o orgulho e a prepotência de muitos. Não era o caso de Norma que trabalhava na mesma empresa que Alexandrino, cuja atividade era voltada ao atendimento de clientes inadimplentes. Coincidentemente, também ela estudava à noite na mesma Faculdade que o nosso biografado. Entretanto, até aquele dia, o contato entre eles havia sido muito pequeno e absolutamente restrito ao ambiente de trabalho. Pois bem, ele ainda se recorda da manhã fria em ela se aproximou e, disfarçadamente, com um sorriso que a determinação do olhar contradizia, disse-lhe que, na noite anterior, buscavam por um “brasileño” na Faculdade. “Cuidate compañero”, nada mais falou e afastou-se com o mesmo sorrir com que se aproximara.

Se a repressão procurava precisamente por ele na Faculdade, Alexandrino nunca pagou para ver, mas pelo que ele se recorda, não havia mais nenhum brasileiro estudando lá nos idos de julho de 1976. Simultaneamente, com esse alerta, soava o da necessidade de deixar imediatamente o emprego, dado que as alternativas de permanência na Argentina estavam absolutamente esgotadas e cada dia adicional por lá vivido, simbolizava uma espécie de roleta russa a girar e aguardar o disparo. Alexandrino e sua companheira deveriam empreender uma retirada e esta tinha que ser urgente.

Acontece que sem passaportes, com as embaixadas sob vigilância militar, documentação argentina falsificada e pouquíssimo dinheiro disponível, a alternativa menos ruim seria a volta ao Brasil, onde pelo menos estariam em seu ambiente e as famílias poderiam ajudá-los na clandestinidade ou mesmo, numa vida semi-clandestina. Mas como voltar sem correr o risco de nova prisão? Diversos companheiros haviam tentado o retorno a partir da Argentina e quase todos haviam sido atraídos para emboscadas, torturados e assassinados.

Portanto, nossos amigos decidiram que qualquer retorno à Pátria não deveria, em hipótese alguma, basear-se em conhecidos ou esquemas vinculados à esquerda militante, mesmo porque qualquer um desses possuía grande chances de haver sido detectado pela repressão. Tal qual fora descortinado com Torres ( vide episódio n.2) há menos de um mês, a alternativa que parecia ser mais segura para entrar no Brasil passava pelo caminho do contrabando. Entretanto, havia mais um complicador: nossos amigos tinham um filho de um ano de idade. Ele suportaria aquele tipo de êxodo? Precisavam de qualquer modo protegê-lo, inclusive se fossem presos, mas como?

A ala mais radical da geração de 68 sempre questionara a família burguesa e, mesmo, chegara a negar-lhe importância num processo de emancipação social. No entanto, quando nossos jovens subversivos já não podiam contar com seus companheiros por estarem mortos, presos ou tão perseguidos quanto eles, a dialética da negação da negação se lhes impunha como realidade e não apenas como raciocínio metafísico, e, para finalizar essa digressão filosófica, a síntese apontava para o socorro familiar. Pois foi a sombra protetora da familia que tanto protegeu nossos jovens, aqueles arautos de um tempo libertário! Foi a elas que nossos amigos também apelaram e delas receberam uma prova inequívoca de solidariedade não contemplativa, de amor que age.

A sogra de Alexandrino, ainda moça e com a força de seus cincoenta anos, predispôs-se a seguir a trilha perigosa do contrabando. Para todos os efeitos, seria uma avó que viajava sozinha com um bebê, portador de documentação argentina e autorização paterna reconhecida em cartório. Quando Alexandrino hoje olha para o passado, percebe a precariedade das condições daquele retorno que mais beirava o desatino do que um plano. Mas, enfim, nos primeiros dias de julho os quatro peregrinos iniciaram a sua “fuga para o Egito”, tentado eludir o “martírio dos inocentes”. Eles muito arriscaram e foram felizes no seu intento.

A primeira etapa foi realizada numa longa viagem de ônibus, pois os aeroportos eram extremamente vigiados e grande a chance de “queda”. De Buenos Aires seguiram até Iguazu, pequena cidade fronteiriça do departamento de Missiones com o Brasil.

Devemos aqui salientar que o policiamento entre os Estados, onde imperavam  ditaduras militares, não era dos mais apurados. Afinal, quem buscaria abrigo num Brasil da tortura e dos crimes, quando a canalha de Fleurys e Perdigões haviam sido os exportadores do extermínio dos opositores, mestres dos  militares assassinos argentinos, uruguaios e chilenos?

Enfim, nenhuma documentação foi pedida na chegada do grupo a Iguazu. A busca pelos “barqueiros” nas bandas do rio não demandou grande esforço. Por uma pequena quantia em dólares, aqueles pobres contrabandistas de cigarro e uísque (pois o narcotráfico ainda não se estabelecera naquelas paragens), que utilizavam seus barcos  movidos a remos e músculos para cruzar o rio Paraná, conduziam para o lado brasileiro quem o quisesse, sem perguntas. E assim foi feito no mesmo dia da chegada. Alexandrino, Beatriz, com suas malas e a avó com o pequeno José Pedro, numa noite sem luar, fizeram a travessia do rio caudaloso.

Do lado brasileiro aguardava-os uma surpresa. O barco aportava em uma ribanceira e a subida íngreme requeria músculos, equilíbrio e até mesmo sorte. A iluminação era a de duas únicas lanternas, nada mais. Para os moços do contrabando, filhos fortalecidos pela natureza dura dos campos, carregar nos ombros seus sacos pesando vinte, trinta quilos, não parecia requerer nenhum esforço especial. Já Alexandrino recorda-se ainda hoje dos quarenta e dois degraus, pois eram quarenta e dois pedaços de madeira escorregadia, fincados na terra íngreme, que precisava vencer com o pequeno filho nos braços. Qualquer escorregão poderia significar uma desgraça, pois para trás ficava o negro leito das águas profundas. E, importante, esquecíamos de dizer que o nosso biografado possuía acrofobia, o medo pelas alturas e tal qual Orfeu deveria sair do inferno sem olhar para trás.

Enfim, lograram atravessar a fronteira natural e chegaram a terras brasileiras. Ao lado do “cais” havia uma kombi que, por módica quantia, agora em cruzeiros, e também sem perguntas, conduzia seus passageiros até a cidade de Foz do Iguaçú. E, de lá, a caminho de São Paulo prosseguiram nossos peregrinos para uma “nova” vida em sua própria terra. Sentiam ainda muito medo, mas o alívio de escaparem à morte certa nos centros de extermínio argentinos já os alentava. Ao chegarem à rodoviária de São Paulo, pegaram um ônibus para um “refúgio familiar” provisório no apartamento de uma tia em São Vicente.

Alexandrino recorda-se da baixada santista, onde aquele fim de julho mais se assemelhava à primavera, com o sol a brilhar no céu claro. Ao andar pela praia, observava a sua sombra que caminhava sempre adiante dele mesmo, uma sombra companheira que jamais o abandonaria em toda a sua vida, pois ela sendo sombra é também filha da luz e do caos e somente quem viveu no claro e no escuro, na revolta e na reconciliação, no combate e na paz, pode sentir ter vivido intensamente o tempo que lhe foi concedido para viver!

 

CAPÍTULO IV

 

 

“Entre- Grades”

Nos próximos episódios, retroagiremos alguns anos, de tal forma que focalizaremos nosso biografado no período de 1970 a 1974, adequadamente denominado “Entre-Grades”.

A tortura: torturados e torturadores (primeira parte)

“A tortura dilacera o corpo do supliciado, quando não o destrói; é verdade que muitas vezes, sobrevivendo, o organismo consegue, entre perdas e danos, restabelecer-se no decorrer do tempo;  já as marcas, que como tatuagem, a tortura imprime na alma do torturado, essas jamais se apagam, são para sempre, para toda uma vida. E não se apagam porque a tortura buscou reduzir o torturado ao quase nada, fez com que ele rompesse com suas crenças e valores, corrompendo nele muito do  que possuía de humano, num processo de dilaceração de sua personalidade”.

Dessa maneira, Alexandrino começou a se referir à dura e radical experiência, que de certa forma, reproduz a de centenas, milhares, talvez milhões de outros seres humanos que passaram por esse maldito processo.

Decidi que deveria tratar tal assunto de um modo um pouco diferente dos episódios anteriormente narrados; ao lado do relato vivencial do nosso torturado, eu busco que ele me forneça algumas respostas, como a que para mim a todas antecede: afinal, quem é o torturador?

“O torturador, via de regra, é um ser humano comum, de tão comum que ele mesmo se sente  supérfluo, pois nada encontra em si que o diferencie da massa humana, nada tem de singular, é tão somente alguém profundamente frustrado, que se sente como um ninguém, na medida em que ser “ninguém é pior que ser mau”, já dizia um autor. Ele quase sempre é um empregado das forças repressivas do Estado, que como todo  e qualquer policial ou militar, foi treinado e submeteu-se a somente cumprir ordens, sendo incapaz de questioná-las. Mas isso não basta, de modo algum, para que ele se transforme em torturador, um assassino frio de pessoas indefesas e esmagadas fisicamente. Esse é um caminho que o verdugo  trilha por sua  livre e espontânea vontade.”

Alexandrino relatou-me o sucedido com uma companheira, a quem muito presa, em determinada sessão de tortura a que fora submetida na Polícia do Exército. A moça, dependurada no torpe e degradante pau-de-arara (aparentemente uma invenção antiga, herança do colonizador português), era submetida a choques elétricos que lhe percorriam o corpo nu, assim como à torturante aplicação de palmatórias nos pés expostos. Os verdugos eram dois, um sargento e um tenente; em determinado momento, o sargento chamou um soldado, que estava apenas de guarda, e ordenou-lhe que rodasse a manivela do choque elétrico, dizendo-lhe: essa manivela também é a chave para a promoção na carreira.

A contra-gosto o soldado o fez uma vez, mas o grito da moça atordoou-o e ele parou; disse sentir-se mal com aquilo e o sargento ameaçou quebrar-lhe a mão se vacilasse em um novo girar; no entanto, manteve-se firme, refletiu, não cumpriu a ordem recebida e  não tornou a virar a manivela. Soube dizer não à tortura!

Caso aquele jovem houvesse aceito tomar parte no jogo crapuloso, transformando-se, com a rotina de maltratar pessoas indefesas, em um torturador, ele estaria agindo todo o tempo sob ordens  superiores sem nada questionar, e não por qualquer tipo de ideologia. Afinal, como pode possuir uma ideologia se ele nem mesmo possuiria o hábito de pensar? Ele, com o tempo, transformar-se-ia em um tipo de animal imprevisível, parecido mais a um cão hidrófobo, pois quem tortura despe-se do humano sentir. Transforma-se em uma excrecência humana, tumores infectos na memória do torturado ou de quem com eles conviveu. Quanto mais o mal torna-se banal, ele deixa de gerar, naquele que o cometeu, quaisquer remorsos ou tormentos. Vemos ainda hoje criminosos como Videlas, Ustras, os canhestros sucessores de Fleury defenderem seus atos, ostentarem orgulho pelas torpezas de que foram comandantes e agentes participantes.

Mas nem só de policiais civis e militares e elementos das Forças Armadas compunham-se os aparelhos de tortura e extermínio. Também civis deles  participavam. Havia alguns moços, outros universitários e ainda recém-formados, que se auto-denominavam comandos anti-comunistas, versão facista de coloração verde-amarela. E também alguns empresários, que doavam dinheiro “por fora” para os principais verdugos. Alguns desses, aliás, compraziam-se em assistir a sessões de tortura, principalmente de mulheres, mas essa já será uma outra história.

Apenas para complementar a resposta, disse-me Alexandrino, “ao contrário dos torturadores dos porões, os grandes criminosos, os mandantes, os mantenedores, esses sim são movidos  por ideologias. E essas nada mais são que o conjunto de suas ideias deturpadas, que para eles formatam uma ideia de sociedade essencialmente autoritária, excludente, composta por senhores e escravos, num mundo acanalhado, semelhante a eles próprios”.

 

 

Capítulo VII e VIII- Memórias de um Subversivo



 

CAPITULO VII

 

A tortura: torturados e torturadores (segunda parte)

O pseudo-patriotismo “como o último refúgio dos canalhas”*, seguido pelo assassinato do assassinado.

Acreditar na própria morte como um evento mais do que possível, mais do que provável, absolutamente inapelável, apenas sem o seu tempo definido, constitui um pesadelo para muitos homens. A hora da morte é, de cada um de nós, incerta, mas, sempre afiguramos essa hora como  situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que ela tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa até o cair da noite estar ao nosso lado.  

Os militante políticos, que empunhavam durante a ditadura militar a bandeira que revolucionaria toda a sociedade, estavam convencidos de que tinham diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que os matassem ou prendessem, ou talvez, quem sabe, conseguissem chegar à “vitória final”, numa luta encarnecida. Esse era o amuleto que preservava indivíduos como Pedro Alexandrino, não do perigo, mas do medo do perigo.

No entanto, para a maior parte daqueles bravos combatentes, o tempo não foi tão elástico. Muitos morreram com as armas nas mãos, outros sob as torturas mais ignóbeis. Outros ainda, torturados, esmagados e dilapidados, lograram permanecer nos cárceres e foram mantidos vivos. No entanto, uma vez presos,  poucos tiveram a coragem ou a oportunidade de optarem heroicamente pelo suicídio, fugindo ao trucidamento e às informações que os agentes da ditadura tanto queriam arrancar-lhes. É a respeito de um desses heróis que falaremos a seguir.

Pedro Alexandrino fora preso há a alguns dias e estava no centro militar do Doi-Codi, quando foi transferido da cela coletiva para uma solitária. Nesse dia subira para uma das sessões de tortura e recorda-se de que estava na cadeira-de-dragão, quando, de repente, os torturadores que o interrogavam,  interrompem os choques elétricos perante um oficial fardado que entrava. A cena era surrealista. Ele, um jovem de menos de vinte anos de idade, nu, amarrado a uma cadeira com fios elétricos que tinham terminações em seus escrotos e numa orelha; ao seu lado, um torturador conhecido com Paulo Bexiga, tais as marcas de varíola no rosto mau, e atrás de uma mesa, a tomar notas, um capitão de Exército conhecido como Homero que, imediatamente, levanta-se à entrada do mais graduado.

“À vontade”, diz o major Coelho para os subalternos. “Esse terrorista de merda vai ou não vai colaborar, capitão? Parece que vocês estão tratando este merda a pão-de-ló”. E, dirigindo-se ao preso: “Vocês querem escravizar esse país, implantar uma ditadura, entregar o Brasil para os russos e os cubanos! Saibam que o Exército Brasileiro tem patriotas que vão esmagá-los, arrancar os olhos e a alma de vocês, não vamos permitir  que entreguem o Brasil”. Os olhos castanhos do oficial toldaram-se por um púrpura turvo. As luzes de inteligência humana, perdendo a expressão humana, projetavam-se como olhos de alienígenas de certas criaturas sem nome da natureza. Se o primeiro olhar trazia a mensagem da serpente, quando ele voltou a falar, o segundo possuía o impacto paralizante e mortal da górgona. “Desçam esse terrorista para a cela, tem um outro mais quente que acabou de cair”. Alexandrino teve interrompido seu martírio para que outro fosse barbarizado.

Quando o levavam ouviu um murmurinho, comentário entre dois sicários, agentes da morte, que era a chave para que o deixassem em paz por algum tempo:“Amanhã cai o Lamarca”.

Era já madrugada quando Alexandrino foi despertado pela abertura da cela-forte. Disse-lhe o carcereiro cognominado Marechal: “Você vai pra outra cela”, que era a coletiva. Traziam das salas de tortura, amparado nos braços, alguém que iria substituí-lo no isolamento. Alexandrino por instantes pode ver o rosto de uma pessoa que o impressionaria para toda a vida. Nele se estampava a pureza, a essência humana da sinceridade, num corpo que mesmo alquebrado pela tortura de um dia e uma noite, denotava beleza e muita naturalidade. Alexandrino viu nos olhos de Macarini, pois assim se chamava o nosso herói, que os verdadeiros terroristas, aqueles que se auto-denominavam “patriotas” não conseguiriam pegar o grande comandante Lamarca no “outro dia”.

Pela manhã, já o Marechal chega com seu grito idiota para despertar aqueles que talvez dormissem nas masmorras: “Arruda, dá-lhe milho!” E já tem suas ordens. “Alexandrino não come hoje, vai subir”. Era o anúncio de nova sessão de torturas. Quando sai da sua cela ele vê, também fora do isolamento, o combatente que o substituíra no dia anterior. Ao lado dele um médico ou enfermeiro, desses que juram por Hipócrates, mas rendem culto a Belzebu, aplicando-lhe emplastos na face machucada, enquanto ele mesmo faz, com esforço, a própria barba. Marechal tem pressa para com Macarini e lhe diz: “A equipe do capitão Thomás está esperando para te levar pro ponto-de- encontro!”

No olhar que trocam, Alexandrino não sente desespero, nem dor, mas o orgulho, a pureza e a determinação de quem irá praticar um ato de tal grandeza e majestade que vale por toda uma humanidade. São segundos que valem por uma vida. Enquanto Alexandrino é levado para a continuidade da tortura interrompida, Macarini é conduzido pelo capitão Thomás e jogado no porta-malas de uma “perua” C-14, presente e colaboração da Chevrolet americana para a “patriótica” repressão política.

O tempo passado em tortura não tem a dimensão daquele que transcorre em nosso dia a dia. Um preso torturado é incapaz de se lembrar dos detalhes do que lhe foi perguntado e, muitas vezes, mesmo do que falou, pois a correlação temporal quase que se defaz no processo de tortura. Pedro Alexandrino não sabe se foi após uma hora, duas ou talvez três horas quando ouviu o grito do bando de chacais que retornava do ponto- de- encontro ao qual haviam levado Macarini. “O ponto era frio, não tinha nada de Lamarca!”. De repente, todos os sequazes que o interrogavam deixaram-no a sós e desceram para o pátio onde as equipes de “busca”estacionavam seus carros. Pelo vitrô pode ver que tiravam do porta-malas da “perua”um corpo todo ensanguentado e disforme, corpo que já não podia sofrer e que, mesmo assim recebeu ponta-pés e cuspe daqueles verdadeiros terroristas, que se arvoravam o direito à vida e à morte e que nem mesmo aos mortos devotavam qualquer respeito. Alexandrino ouviu de um dos assassinos: “O desgraçado se jogou do Viaduto do Chá e quando tentei segurá-lo, quase me levou junto, filho-da-puta!”

Se por um lado, custa-nos  acreditar até que ponto pode-se corromper a natureza humana, por outro lado, atitudes com as de Macarini, que teve sua vida ceifada aos dezenove anos, mostra-nos os píncaros do amor ao próximo e de entrega a que o mesmo homem pode chegar.

*A frase “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” foi escrita por Samuel Johnson (1709/1784).  

 

O assassinato do assassinado

Os Primeiros de Maio, por décadas e décadas, foram dias de luta dos trabalhadores por direitos e conquistas, sua própria afirmação como classes sociais. Na ditadura Vargas, o peleguismo trabalhista atrelado ao Estado, tentou transformá-los em dias dedicados a festas e shows, enquanto a polícia reprimia os atos que fossem reivindicatórios ou políticos.

Na História, entretanto, os ditadores e as oligarquias sempre reprimiram esses dias. E foi exatamente isso o que ocorreu sob os tristes céus brasileiros de 1970. Sob a feroz ditadura militar, poucos grupos organizados arriscavam-se a se manifestar. Um deles, um pequeno núcleo partidário, realizou a distribuição de panfletos no pátio de esportes em Vila Zélia, no ABC paulista. Um dos coordenadores desse pequeno grupo era um ex- estudante de Faculdade Politécnica que decidira assumir uma experiência proletária, deixando a faculdade e trabalhando numa indústria química. Seu nome, Olavo Hansen.

Preso por esse motivo, distribuição de um panfleto, ele e mais alguns seus companheiros foram encaminhados à Oban, onde nem sequer foram interrogados e, depois, ao DOPS. Foram recolhidos à diversas celas e somente no dia cinco de maio Olavo subiu para interrogatório, onde foi supliciado por mais de seis horas por fascínoras como os delegados Cuoco, Milton Dias, investigadores como Sávio e Campeão, todos filhotes de Fleury, que por esses tempos estava relativamente afastado do DOPS. Foi torturado com choques emitidos por tubo de imagem de televisor, com altíssima voltagem e não desprezível amperagem, que associado ao pau-de-arara e pancadas na região dos rins, provocaram um quadro de insuficiência renal.

Alexandrino foi transferido para o DOPS no dia oito de maio e, por coincidência, colocado na mesma cela que Olavo. Olavo não caminhava e suas extremidades, braços, mãos, pernas e pés apresentavam-se altamente edemaciadas, praticamente já não urinava. Soube pelos outros companheiros que, após insistirem com a carceragem, de que o preso necessitava atendimento médico, um tal de Dr. Ciscato o havia examinado e recomendado “água”, um ou dois dias atrás. O caso, para um estudante de medicina era claro de insuficiência renal; ou se fazia o pronto socorro médico ou ele morreria. Todos os presos pressionaram a carceragem e, finalmente, nesse mesmo dia, Olavo, já inconsiente, já em coma, foi retirado da cela para ser “tratado”.

No dia treze de maio os familiares de Olavo foram comunicados de sua morte. Os legistas que assinaram o laudo da causa atestaram: “parada renal com sinais de envenenamento por Paration”, veneno para ratos.

A distribuição de um simples panfleto custou ao verdadeiro brasileiro Olavo Hansen uma  vida que foi duplamente assassinada. Primeiro pela insuficiência renal aguda, fruto da tortura recebida  e, depois, pela aplicação na veia, quando moribundo ou já morto, de veneno. Contra seus bárbaros algozes, banalizadores do mal, nada foi e talvez nunca será feito por nossa pobre democracia.

 

CAPITULO VIII

“Entre- Grades”

 A tortura: torturados e torturadores (terceira parte)

“O comportamento sob tortura”

Como biógrafo de Pedro Alexandrino, devo confessar a grande dificuldade que tivemos para conversar sobre o presente episódio. Isso porque a compreensão de como os revolucionários, seus simpatizantes ou pessoas que se opunham à ditadura SE comportaram, quando submetidos à tortura é complexa, multifatorial  e admite diferentes interpretações, necessitando ser analisada com ponderação, mesmo após todo o bálsamo trazido pelo tempo transcorrido.

Alexandrino insiste em dizer que  os casos de agentes da repressão que se infiltravam com o objetivo de delatar e conduzir os militantes revolucionários à tortura e à morte foram pontuais.  Houve Malavasis, possivelmente Cabos Anselmos ( teria sido ele, desde o princípio, um infiltrado? ou fora, posteriormente, transformado em um “cachorro” e emplacado no canil do facínora Fleury?) mas, com exceção desse último, o desbaratamento das organizações e a prisão ou morte da grande maioria da militância de esquerda não proveio de agentes ou de “infiltrações da CIA”, reais ou fantasiosas.

Outras foram as causas, dentre elas, uma das  mais fortes, a falta de prepraração real para o enfrentamento da esquerda com o peso da organização armada do Estado.  A maior parte dos militantes possuia uma formação essencialmente política, na acepção mais estrita do próprio termo“polis”: cidade, cidadão, relações pessoais, relações estudantis ou profissionais, conhecimentos mútuos, amizades, liberalismo pessoal. Seu contraponto, a formação militar, era restrita a uma minoria de combatentes. Entenda-se por formação militar não apenas o treinamento no uso de armas e de combate, mas também o senso da disciplina, do saber obedecer e ser obedecido, do culto rígido a regras de segurança, da percepção do que seja “inteligência militar”.

Ao liberalismo aliou-se a fraqueza humana dos combatentes, e mesmo a tenra idade de boa parcela dos mesmos, que, uma vez presos com vida, quando esmagados pela máquina do Estado voltada para a tortura, forneciam informações que levavam a novas prisões e quedas nas organizações. É necessário que se consigne que nem todos os presos políticos eram submetidos à mesma intensidade de tortura, aos mesmos métodos. O período de tempo, a frequência com que o revolucionário era torturado, muitas vezes, tornava-se o fator decisivo de sua desestruturação, de sua perda de crença no ideal que pautara a sua ação, mesmo que essa perda tenha sido passageira. Muitos elementos interferiam nesse processo: qual a quantidade e de que qualidade eram as informações que a repressão possuía quando de sua prisão; o material que havia sido apreendido com o próprio; a sua resistência ou não à prisão; o fato de outras pessoas, envolvidas no mesmo processo estarem ao mesmo tempo sob interrogatório, com as decorrentes contradições nas “histórias contadas” e que demandavam mais e mais suplícios.

Já a resistência à tortura é sempre algo imprevisível e  extremamente individual. De todas as formas, uns resistiam mais e outros menos a ela.  Alexandrino diz que existiam, sem dúvida, naturezas mais fortes, determinadas, capazes de suportar um tempo maior de martírio. O fator que na época dizia-se ser o divisor de águas, “a firmeza ideológica”, inseria-se muito nessas personalidades de per si mais fortes, talvez mais preparadas para o ferro duro do pau-de-arara, sem que em sua alma se apagasse a luz condutora da “crença numa vitória final”.

Nosso biografato também nos revelou com toda franqueza: “Os companheiros com grande envolvimento em ações armadas ou com extensa atividade e liderança política conhecidas pelos repressores, quando pegos com vida, e barbaramente torturados por tempo prolongado, e que não forneceram qualquer tipo relevante de informação ao inimigo, constituem heroicos e luminares exemplos, dignos de um Mário  Alves. Somente a morte mais ou menos rápida, sob a tortura mais insana, protegeu, como uma “bênção”, grandes corações e mentes”.

Por outro lado, a transformação de um torturado em um colaborador da repressão ocorria em um processo crescente de fragilização perante a dor, de desestruturação total de uma personalidade, em que o massacre físico e psicológico conseguia destruir o homem livre, transfigurando-o num escravo.

A “mudança de lado” de alguém que traiu a causa que um dia abraçara, assim como  os companheiros com quem lutara, para ser considerada como tal, precisa ter ocorrido de forma voluntária e consciente. Lá pelos idos de 1970, quando as organizações da esquerda armada já haviam sofrido enormes baixas, alguns militantes presos sob o medo da morte ou da dor, ou de ambas, sofreram essa degradação total, traíram a tudo e a todos, e passaram a cooperar com os órgãos repressivos, sendo pelos próprios agentes denomidados de “seus cachorros”. O “coronel Ney”, do Doi-Codi, chegava a gabar-se da capacidade de “faro” de seu “canil”. Esses bastardos  ganhavam a liberdade para voltarem a estabelecer contatos com as organizações  às quais haviam pertencido.

E sempre que um “cachorro” mordia algum revolucionário esse estava inevitavelmente condenado à morte, normalmente sob tortura. É por esse motivo que poucos desses “transformers” tornaram-se conhecidos; passados já quarenta anos, em sua maioria, suas identidades ainda permanecem na obscuridade. A  prisão e morte de Câmara Ferreira deve-se ao “faro de um cachorro traidor”, que fora preso no Estado do Pará.  Ao “mudar de lado” a repressão passou à imprensa nota reportando sua “fuga” da prisão, em pura simulação e o “cão” veio para São Paulo, rodou, rodou, até identificar Câmara numa rua e, então, agendou com ele um novo encontro, quando daria a “mordida da morte”. O “liberalismo ” e a dificuldade em crer que aquele companheiro que estivera em Cuba, sempre elogiado pela dedicação à causa, pudesse ter-se transformado em traidor, impediu o comandante de precaver-se, ainda que alertado sobre a possível armadilha por outros companheiros, e foi ao encontro da própria morte.

Mas essa já é outra história.

 

 

Capítulos IX e X- Memórias de um Subversivo



CAPITULO IX

“Entre- Grades”

“Quando a alma dilacerada não mais encontra um motivo para viver”

Alexandrino conhecera aquele militante ainda em liberdade, dentro da organização revolucionária a que ambos pertenciam. De estatura baixa, mas de compleição atlética, tinha um sotaque nordestino que denotava facilmente sua origem cearense. Um bigode vistoso que encimava o lábio fino, o que lhe conferia um quê de seriedade e disciplina, e ele as levavam extremamente a sério.

Alprim tinha uma origem humilde, veio para São Paulo só, quando ainda adolescente, aos quatorze anos de idade. Trabalhou duro como operário, na luta pela subsistência. Mais tarde, casou-se, teve dois filhos e passou a viver numa modesta, mas dígna residência na zona sul de São Paulo. Muito cedo se filiou ao Partido Comunista Brasileiro, tendo-o deixado juntamente com os companheiros da Dissidência Comunista de São Paulo, que logo a seguir transformou-se na Aliança Libertadora Nacional, buscando na luta armada uma alternativa revolucionária. Na intimidade sempre soltou o riso largo, a ternura e o orgulho de pertencer ao “proletariado”.

Em tantos compromissos realizados juntos, Alexandrino, tornando-se também um porta voz de outros companheiros, recorda-se de jamais ter ocorrido um atraso em ponto de encontro com aquele militante, falha alguma em sua militância, qualquer tipo de tarefa que lhe fora proposta e que ele não cumprira. Apesar de não fazer parte do GTA, grupo tático voltado às ações armadas, participara de uma ou duas ações, dentre elas a expropriação de dinamite da Rochester, segundo ele, “para fortalecer seu espírito revolucionário”.

Em um de seus encontros com Alprim, um detalhe chamou a atenção de Pedro Alexandrino. Mister X, pois esse era o seu “nome de guerra” na organização, possuía unhas nos dedos das mãos pouco aparadas, apesar de tratadas. A unha do dedo mindinho, em seu tamanho, chamava atenção. Pensou Alexandrino com seus botões: “Deve ser tocador de viola”. Muito tempo depois, já na prisão, ele soube que Mister X era um exímio músico, daquela estirpe dos poucos privilegiados pela natureza, como o nosso Patápio Silva. Músico da melhor qualidade, quase um auto-didata, tocava ao violão clássico Radamés, Mignone, Flausino, Garoto. Também gostava e dedilhava com perfeição música popular brasileira.

Mister X foi preso em fins de 1969 ou nos primeiros dias de 1970, devido às informações de outro companheiro que não suportara a tortura. Quando preso, dado seu porte atlético, desconheceu os torturadores, chegou mesmo a desafiá-los a que o fizessem falar. Foi, então, barbaramente torturado dias após dias, noites após noites na famigerada Operação Bandeirantes. Os policiais, ao final, conseguiram quebrar sua resistência. Ele forneceu-lhes o endereço de um operário que participava do seu grupo e era seu velho conhecido de lutas nas fábricas.

Esse operário não se encontrava em casa quando o aparato policial chegou trazendo  Alprim. Relatou a Alexandrino, tempos depois: “Estava a minha mãe em casa, e os policiais para amendrontarem-na trouxeram Alprim arrastado, pois não conseguia se manter em pé. Semi nu, seu corpo era uma chaga só, todo arrebentado, e coberto de sangue. Jogaram-no aos pés de minha mãe dizendo que assim eu iria ficar quando me pegassem. Ameaçaram-na e foram embora levando-o de volta, enquanto prosseguiam com o espancamento”.

Alprim, quando em liberdade, havia sido encarregado de abrigar um companheiro, jornalista, vindo do Rio de Janeiro, já identificado pela repressão. Ele era muito procurado. Alprin, oito dias após sua prisão não mais resistiu e terminou por indicar aos torturadores a localização do abrigo. Quando a polícia chegou ao local, o jornalista acabou baleado e preso ao tentar fugir, saltando um muro da residência.

É importante também consignar-se que Alprim possuía muitas referências de todos os movimentos e organizações de que participou. Se ele tivesse fornecido mais informações para a repressão, seguramente o prejuízo teria sido muito maior tanto para os operários organizados como para a esquerda armada.

Após passar pela OBAN, foi transferido para o DOPS e as equipes dos delegados  Fleury, Milton Dias e Cuoco retomaram as torturas. Ser operário, por si só, estimulava ainda mais o ódio dos algozes.

Um mês depois foi transferido para o presídio Tiradentes. Lá, aparentemente refeito, conviveu na mesma cela que Alexandrino. Adaptou-se à rotina da cadeia: estudava português e matemática, debatia política, lia e trabalhava com os companheiros de cela em artesanato, auxiliando a manutenção da própria família.

Foi libertado ao final de dois anos e meio, sendo amparado pela família que jamais o abandonou. Trabalhava com produtos químicos que manipulava e vendia para o sustento do lar. 

Mas Alprim já não era mais a mesma pessoa; seu sorriso aberto desaparecera, seu violão estava mudo. Perseguiam-lhe os pesadelos, em que sempre estavam presentes as figuras de seu martírio: os companheiros que ele abrira sob tortura. Quando acordado, sobrevinham delírios, sentia-se perseguido, desconfiava de todos os que o cercavam, acreditava que algozes que haviam ferido de morte sua alma nobre, ainda o buscavam . Alprim não voltou a encontrava paz.

Um dia, com os mesmos fios que teceram a corda com que Frei Tito Alencar se enforcou, Alprim preparou uma poção de veneno e suicidou-se. Com sua destruição e morte a ditadura vencera mais uma vez, pois ferira de morte a auto-estima e dilacerara uma alma, o ódio suplantara a solidariedade humana. Alprim foi enterrado num cemitério simples, cemitério  reservado aos pobres, num caixão básico, desses fornecidos pelo Serviço Público Municipal; ademais dos familiares, um ou outro de seus ex-companheiros de militância estiveram presentes.  Sem discursos, sem homenagens, sem memoriais.

Alexandrino dedica-lhe uma poesia de Oscar Wilde,  escrito nos subterrâneos de uma prisão da Inglaterra vitoriana : “Lágrimas na pétala de uma rosa”, que eu tenho a honra de transcrever:

“A sociedade, tal como a constituímos, não terá mais lugar para mim, nem me oferecerá nenhum. Mas a Natureza, cujas chuvas tão doces caem tanto sobre os justos quanto sobre os injustos, terá nas rochas algum esconderijo onde possa me ocultar, e me oferecerá vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem que me perturbem. Ela fará resplandecer as estrelas na escuridão para que eu não tropece nas trevas; fará soprar o vento sobre o rastro de meus passos, para que ninguém me persiga na morte; lavar-me-á com suas abundantes águas, e curar-me-á com suas ervas amargas.” (De Profundis).

 

CAPITULO X

“Entre- Grades”

“Um julgamento de exceção ao som da Internacional Comunista”

A Ditadura Militar brasileira, desde seu princípio até os primeiros anos de 1970, aliava a truculência das prisões ilegais, sequestros, torturas, assassinatos nos porões, “autos de resistência seguidos de morte”   (tão comuns ainda nos dias democráticos de hoje), com procedimentos formais burlescos, mantendo a aparência de alguma jurisdicidade, dentro da denominada “Lei de Segurança Nacional”.

A memória da experiência vivida por Pedro Alexandrino será o fio condutor desse episódio dedicado à farsa com que a Ditadura revestia seus procedimentos “legais”, desde a elaboração dos inquéritos policial-militares, passando pelo papel mais que restrito dos advogados defensores, até os “Tribunais de Guerra”, que eram os condutores dos interrogatórios judiciais, dos julgamentos e sentenciamentos.

 A fase de inquérito- Alexandrino, assim como a maioria dos presos políticos, cumpriu a fase de instrução processual no DOPS, em total isolamento do meio exterior, sem permissão para receber visitas de familiares e sem poder constituir advogado. Levado ao terceiro andar do edifício, a apenas poucos metros do piso intermediário onde se localizava a sala de torturas, na presença do delegado Edsel Magnoti e de um escrivão de polícia, tivera “tomado” o seu depoimento, naquilo que se denominava “Cartório”. Vale a pena, pelo seu aspecto kafkiano, uma breve descrição do mesmo.

O delegado qualificava o preso com as perguntas de praxe. Após isso, tendo à sua frente os relatórios do Doi-Codi e os interrogatórios realizados no próprio DOPS,  reportava ao escrivão as circunstâncias das atividades políticas do “terrorista”, as organizações a que um dia se afiliara, seguidas pelas ações políticas em que ele se incriminara ou fora incriminado durante a fase do “pau”. Na sequência, iniciava a leitura de uma enorme listagem de outros réus que a Alexandrino se haviam referido durante os suplícios, citando-os quer como testemunhas, quer como co-partícipes. Posteriormente, enumerava como provas, os materiais constantes dos auto de apreensão encontrados na residência e com o mesmo.

Após mais ou menos uma hora, umas seis a oito páginas datilografadas pelo escrivão, Alexandrino, enfastiado, nada mais dissera e nem lhe fora perguntado, a não ser sua qualificação pessoal; ouviu, então, uma pergunta: “Algo mais a declarar?”. Alexandrino referiu-se a uma das ações armadas de que era acusado, dizendo não haver dela participado, e que, portanto, não poderia assinar o inquérito. Disse-lhe o bacharel: “Mas, meu filho, quer que eu o entregue novamente para o Milton Dias arrancar isso no pau-de-arara? Sei que ainda vai vir mais coisa que você não abriu. Porra! Você está fodido mesmo, aqui já vai uns quinze anos de prisão. Assine essa merda de uma vez e olha que estou sendo camarada, o Sávio ( que nesse momento passava pela sala) está louco para te dar uma “ralada””. “É pra descer o terrorista, doutor?”, peguntou o investigador de passagem.

Alexandrino resolveu, então, assinar os autos. O delegado Magnoti chamou  uma atendente e a moça que acabara de lhe servir um café: “Vocês assinam como testemunhas do depoimento!”

Uma semana depois do “cartório”, Alexandrino foi levado num camburão para o Presídio Tiradentes.

A constituição de um advogado- A constituição de um advogado já era possível. Admiráveis e corajosos, no entanto, pouco podiam fazer por seus clientes. Alexandrino lembra-se com emoção da coragem de um Virgílio e de um Idibal, da beleza e atenção de Rosa e da dedicação e competência de Eny, da seriedade e de um certo “legalismo” de Dias, de Simas, da jovialidade e permanente disposição de um Belisário, todos bravos combatentes pelo cumprimento “das leis de proteção aos animais”, de acordo com o saudoso Sobral Pinto. O pouco que lograram em relação aos direitos dos presos políticos e contra a farsa processual, fizeram-nos quase “in extremis”.

Alexandrino, no entanto, não teve a sorte de possuir algum deles como seu advogado. Sua família contratara outro, sem consultá-lo. Em sua primeira entrevista ele insistira em que a melhor defesa perante um “tribunal de exceção” era o réu declarar arrependimento de suas ações. Acontece que nosso biografado não se sentia arrependido de coisa alguma; o que negava eram todas as “confissões” obtidas sob tortura, tanto as suas quanto as de seus companheiros. A relação defensor- réu, já em seu primeiro contato, estava condenada a não resistir ao interrogatório judicial.

O interrogatório judicial- Aproximadamente após um ano de prisão, Alexandrino foi conduzido com  outros doze indiciados para o primeiro interrogatório judicial. O aparato policial era totalmente fora de propósito e destinava a incutir-lhes novamente o medo. Todos os presos, algemados, foram esprimidos dentro de um veículo blindado de transporte de tropas, o “tatuzão”. Outros carros realizavam a escolta que, desde o presídio até a Auditoria de Guerra, produziam um ruído ensurdecedor de sirenes e buzinas. Na chegada, em meio a um corredor polonês formado pela tropa de choque, desciam para o porão do prédio e aguardavam a vez de serem interrogados.

Quando Alexandrino foi chamado a subir, deparou-se com um grande auditório, em cujo “palco” fora colocada uma mesa sobre um tablado. Nela tinham assento o juiz auditor, afamado facista e co-autor de acobertamento de assassinatos, Nelson Guimarães, e mais quatro oficiais das forças armadas, sendo que o de mais alta patente assumia a Presidência do Tribunal. 

No palco montado, estava também uma figura grotesca. Rosto redondo e raspado, cabelo emplastado de  glostora, sorriso cínico, olhos malvados por trás dos óculos redondos. Ao levantar-se para a leitura da peça acusatória, sua barriga redonda e um pouco proeminente fazia um contraponto huxleyliano perfeito com sua bunda, arredondada e igualmente balançante. Alexandrino aderiu imediatamente ao cognome dado por outros companheiros ao promotor militar Durval de Araújo, o “Bundinha”.

Após a leitura, antes mesmo do interrogatório, a figura patética do advogado de defesa de Alexandrino, declarou-se perante a Corte como impossibilitado de prosseguir na defesa, ao que nem o Tribunal e nem o réu se opuseram. Ser-lhe-ia nomeado, a posteriori, um advogado “ex-officio”.

Mesmo na ausência de advogado, Alexandrino foi interrogado a respeito de suas convicções, afiliações políticas e as ações de que participara. Nosso biografado, como tantos companheiros, jamais renegou suas crenças socialistas, sua defesa da luta contra a ditadura e denunciou as torturas sofridas por eles e todos os co-réus.

Finalmente, o Promotor convocou suas testemunhas de acusação. Os pretensos policiais ou alcaguetes disseram que todos os fatos relatados na peça acusatória tinham sido confessados espontaneamente pelo réu e pelos co-réus durante o inquérito policial. Alexandrino jamais vira na vida aquelas figuras de comédia bufa, caso não se tratasse de uma tragédia. A seguir, o juiz auditor perguntou a Alexandrino se teria algo mais a declarar. “Sim, senhores, eu tenho. O que digo é que as posições entre nós estão invertidas, pois os senhores como militares golpitas é que deveriam estar sentados no banco dos réus, onde eu agora estou!”. A sessão de interrogatório finalizou-se com uma pancada na mesa e um grito dado pelo Presidente do Tribunal: “Comunista e sem vergonha!”

O julgamento- Alexandrino esperou inutilmente a visita do “advogado da auditoria”. Somente iria conhecê-lo quando do próprio julgamento, e ele não imaginava a surpresa que o destino lhe guardava.

Passaram-se mais de dois anos desde a sua prisão, quando a data do julgamento foi anunciada. Nesse  dia, pela manhã, a mesma parafernália de guerra foi montada para o transporte de aproximadamente vinte presos, todos arrolados no mesmo processo, desde o Tiradentes até a Auditoria de Guerra.  Ao descer do “tatuzão”, Alexandrino notou que o trânsito da avenida Brigadeiro Luís Antônio fora desviado e havia, ademais do choque da PM, a Polícia do Exército no patrulhamento ostensivo.

Dessa vez, ao invés de descerem para os porões, todos os presos tiveram as algemas retiradas e foram levados diretamente ao plenário, onde era permitido aos familiares acompanharem o julgamento. A maioria dos familiares presentes eram pessoas humildes, muitas das quais haviam viajado durante toda a noite, conduzidas pela  esperança de levarem seus filhos de volta para seus lares.

Até mesmo havia alguns repórteres, testemunhas necessárias da ópera bufa que iria se desenvolver.

Em determinado momento, um meirinho conduziu Pedro Alexandrino a uma pequena sala onde o aguardava o seu advogado “de ofício”. Era um senhor muito magro, de baixa estatura, bigodes num rosto que denotava retidão e firmeza. “Por favor, senhor Pedro Alexandrino, fique à vontade. Eu sou o doutor Hélio Bicudo, seu advogado de ofício, conheço os autos, seu interrogatório judicial e irei defendê-lo da melhor forma que puder”.

Sim, senhores, era o mesmo membro do Ministério Público, aquele herói brasileiro de tantas batalhas contra o Esquadrão da Morte comandado pelo facínora Fleury, que, por algum tempo, cumpria na Auditoria Militar, a função de advogado de ofício, como punição imposta pelo Estado. Pedro muito pouco ouvira falar a seu respeito, pouco sabendo sobre sua atuação destemida.

Iniciou-se o julgamento. O Promotor Durval “Bundinha” estava em grande estilo e o início de seu discurso foi contra o comunismo internacional, seus agentes internos e aqueles ditos “inocentes úteis”. Dizia: “Cabe ao Estado separar o joio do trigo, punindo exemplarmente os irrecuperáveis, aqueles que desejam destruir a família, a religião e a liberdade”. Falou sobre aqueles maus brasileiros que criticavam o regime e chegavam a difamar a imagem da “Revolução de 31 de Março”, que distribuiam no exterior denúncias mentirosas sobre uso da tortura em interrogatórios. Em determinado ponto, ao se referir aos que criticavam a exiguidade das provas apresentadas, externou a sua profissão de fé: “A confissão é a mãe de todas as provas”, um Torquemada tupiniquim.

Em seguida dedicou-se por volta de dez a quinze minutos sobre o processo de cada réu e terminou por pedir a absolvição de umas dez pessoas, a maioria já em liberdade e a condenação de quase todas as que se encontravam encarceradas. No caso de Pedro Alexandrino, a Promotoria pedira uma pena de 18 anos de reclusão.

A seguir, manifestaram-se os advogados de cada réu. O de Alexandrino, Dr. Hélio Bicudo, foi brilhante na sua defesa: afirmou que o réu mantinha suas crenças políticas, mas negava peremptoriamente todas as confissões obtidas sob tortura; também denunciava a ausência do contraditório em toda a fase inquisitorial e judicial, assim como a ausência de acareações e de provas nos autos de quaisquer ações armadas que lhe eram imputadas. Pedia a sua absolvição de todos os crimes, exceto o de pertencer à ALN.

O Tribunal do Júri, ao final das defesas apresentadas, entrou em recesso deliberativo e os familiares puderam confraternizar-se com os prisioneiros. Os pais e irmãs de Alexandrino estavam exultantes. Para eles, os juízes seguiriam a lei, enfim, o advogado de defesa fora brilhante e Pedro, se fosse condenado apenas pela associação política, poderia receber entre dois a três anos de reclusão, e talvez mesmo, já ser libertado. Não era fácil conter os ânimos de pessoas tão queridas e ainda prepará-las para o pior, para aquilo que sem dúvida aconteceria.

Por volta das 22:00 horas, os jurados retornaram ao auditório para a leitura das sentenças. Nesse momento a tropa de choque formou um cordão de isolamento entre prisioneiros, familiares e  repórteres. O juiz Nelson Machado principiou lendo as sentenças absolvitórias, de conformidade com o pedido do promotor, e, na sequência, as penas menores para as maiores. Uma sentença condenatória a dezesseis anos de reclusão foi proferida para Pedro Alexandrino.

Um silêncio de morte instalara-se na sala, que há poucos minutos era tão ruidosa. Alguns choros sufocados eram os únicos sons dissonantes. O arbítrio sentia-se triunfante e vencedor, os julgadores mal escondiam um esgar de escárneo pelo sofrimento que impingiam a tantos. Mas, inesperadamente, a primeira estrofe de uma antiga canção libertária foi-se fazendo ouvir. Verdi, sem dúvida, orgulhar-se-ia de seu “Coro dos Escravos Hebreus” em sua comovida versão internacionalista, cantada pelos condenados. “De pé, ó vítimas da fome, de pé ó escravos sem pão, cantemos todos unidos, viva a Internacional!…”

Como num passe mágico, a atmosfera se transformou. Aqueles familiares vendo o ânimo de seus filhos, irmãos ou pais a desafiarem os ditadores entoando o Hino da Liberdade dos povos oprimidos, a “Internacional Comunista”, sentiam-se de certa forma vingados, também libertos tanto quanto os condenados que mantinham suas cabeças erguidas e sua fé no futuro.

Todos os juízes imediatamente abandonaram o recinto, mas não dão a ordem para reprimirem o canto. Afinal, a farsa poderia terminar ainda pior que o planejado. Ao final do hino, a tropa de choque empurra vigorosamente os presos para a porta de saída e nesse instante, quando todos pensam que passara o “gran finale” mais de dez gargantas ecoam o seu grito de guerra: “Pátria ou Morte, Venceremos!”

Já no “tatuzão”, o oficial do choque olha para Alexandrino e lhe diz: “Vocês são uns terroristas filhos de uma puta, mas que têm coragem, isso têm”.

 

 

Capítulos XI e XII- Memórias de um Subversivo



CAPITULO XI

 

“Entre- Grades”

“Greve de fome e uma visita inesperada”

A noite do julgamento de Pedro Alexandrino foi longa, muito longa. Ele sabia que os gritos de “Pátria ou Morte”, eram uma espécie de dissonância, um grito de desafio que partira apenas de algumas gargantas dentre os presos que cantaram a “Internacional”. Acontece que, embora a repressão não o soubesse, parcela daquele grupo de condenados que deixava a Auditoria de Guerra  decidira entrar em greve de fome na madrugada seguinte e deles partira o desafio mais frontal.

O comboio chegou por volta das vinte e três horas  ao Presídio Tiradentes e cada sentenciado foi conduzido à sua cela.

Alexandrino faz questão que, como seu biógrafo, eu assinale que existejá excelente publicação a respeito dos motivos, do desenvolvimento e dos desdobramentos da greve de fome. A greve teve dois períodos de duração, sendo o primeiro de 6 dias, levado a cabo por 57 presos políticos e um segundo, por um grupo mais reduzido de 32 presos, que teve a duração de 33 dias, com um interregno de aproximadamente vinte dias. Esses presos realizaram uma greve de fome com objetivos políticos com duração de 39 dias, a de maior duração já realizada no Brasil.

Ateremo-nos extritamente às sensações, aos pensamentos e a estranhos fatos que se passaram com nosso biografado durante esse período de namoro com a morte, ou como Alexandrino prefere a ele se referir, como o de um “reatamento com a vida”.

Mas voltemos aquele fim de noite do dia 11. As celas do presídio eram coletivas e Alexandrino compartilhava a sua com pelo menos vinte companheiros, dos quais somente seis decidiram participar da greve de fome e, que, portanto, permaneciam despertos à hora da chegada do grupo que fora julgado naquela mesma noite. Aqueles que chegavam queriam ter sua última “refeição” antes da batalha por vir. Alexandrino, por seu lado, contentou-se com um naco bastante grande de bacon, que seria sua exclusiva fonte de energia por um bom tempo. E deixou-se ficar lentamente comendo enquanto seus camaradas recolhiam-se para seus catres e o silêncio instalou-se na penumbra.

Foi quando aconteceu-lhe um fato inexplicável pela primeira vez. Um golpe de frio cortante, como se ele estivesse sentado em um ambiente aquecido e, de repente, alguém abrisse uma janela que deixasse entrar uma temperatura gélida do exterior. Mas o frio não vinha de suas costas que davam para as janelas gradeadas, senão que o atacava de frente. Alexandrino tira os olhos de seu naco de bacon e examina de alto a baixo a cela onde se instalara uma quietude absoluta. Vê que uma pessoa semelhante a um de seus companheiros de presídio, que não vivia em sua cela e que nem participaria da greve de fome, instalara-se ao pé de seu beliche.

- “Não me convida a comer de seu toicinho? Parece que está passando frio, por que não pega uma coberta?”, diz ele dirigindo-se a Alexandrino, que tremia dos pés à cabeça.

-“Antes de mais nada, queria saber como você saiu da sua cela e de que forma entrou aqui?”

-“Você não me parece muito contente em receber uma visita inesperada como a minha, não é? Mas eu vim aqui conversar sobre o nosso negócio que está em pleno andamento.” Alexandrino sentia que a cada vez que aquela criatura falava, um sopro gélido partia de sua boca, cortante, que o deixava desprotegido apesar do cobertor com que tentava se cobrir. E o visitante inusitado prosseguiu: “ Sei que você teve um dia atabalhoado, afinal, ser julgado e condenado a muitos anos de cana, não é menu que se coma todos os dias. E agora essa greve de fome que vocês inventaram…”

- “Devo estar febril, doente, por isso sinto tanto frio. Tive um dia pesado e estou entrando em uma greve em que posso até mesmo morrer. Você é fruto de minha imaginação, não existe e, quer saber de uma coisa? Vou me deitar e basta! Tome o resto do toicinho e bom proveito”.

- “Ora, oferecendo-me o pedaço do pobre porco você me reverencia, reconhece-me como um ser que não faz parte da sua imaginação. Você não está doente coisa alguma! Deixe de ser preconceituoso e aceite o testemunho dos seus sentidos. Você me vê, escuta, sente frio, pode até me tocar se quiser, mas não tente cheirar algum tipo de enxofre pois isso é coisa antiga, ultrapassada. Talvez eu até mesmo seja parte de você, mas eu existo, como pode comprovar. Quanto ao toicinho, agradeço-lhe, mas não me alimento de porco”.

- “Escute-me, vá embora para eu descansar um pouco, ou vou ter que lhe expulsar?”

-“Então você está reconhecendo a minha existência independente de você? Estamos realmente avançando! Mas vamos ao que motivou a minha visita. O que você espera com a greve de fome? ”

- “Ah, peguei-o! Você só veio aqui para tentar convencer-me a não participar da greve de fome, é isso? Perdeu seu tempo, a decisão está tomada. Trata-se de evitar que nos separem, que nos dividam, que retornem os companheiros que foram mandados para a Penitenciária do Estado, mas você sabe disso perfeitamente ou não estaria aqui.”

- “Eu não sei de nada disso. Dos quase duzentos presos políticos, quantos entrarão em greve? Você sabe, uns cincoenta, se tanto. E quantos a levarão até o final? Talvez metade? Isso não significa a divisão, da divisão, da divisão? E o que os milicos farão? Enviarão vocês por lotes e a cada divisão um lote, e a cada lote, um local. Facilitarão a separação entre os “recuperáveis”e os ïrrecuperáveis”. E antes que me xingue, estou usando a terminologia de seus inimigos, veja bem.

-“Eu já ouvi isso em tantos bilhetes e em tantas discussões… Você só está repetindo o que os outros disseram. Se nós não reagirmos, não conseguiremos barrar o avanço do facismo”.

- “Ah, então estamos melhorando…chegamos ao avanço do facismo. E o que mais? Não haveria um certo grau de dor de consciência nisso tudo? Tantos mortos nas organizações, tantos presos, quanta gente foi humilhada, torturada, que falou mais do que deveria…”

- “Você realmente é um ser repugnante, já não lhe suporto mais, mas não posso negar que possua alguma razão. Nós, os que partimos para a greve, ainda nos consideramos combatentes. Fomos presos, trucidados, humilhados mas não desanimamos da luta contra a ditadura”.

- “Os outros a abandonaram, então?”

-“Quem é você para julgar? Você cada vez mais me parece um ser nojento, abjeto, provavelmente a pior parte de mim mesmo. Mas saiba que ninguém é obrigado a ter a mesma opinião de ninguém, a seguir o mesmo caminho político. Esse caminho nós, que entraremos em greve,  achamos que seja o da dignidade, de exigir os nossos direitos como presos políticos e de evitar que os militares nos aniquilem.”

-“Interessante modo de evitar a morte, ir ao encontro dela, não é mesmo? Pois eu vou dizer o que leva vocês até a greve de fome: as organizações de vocês, principalmente aquelas da luta armada, estão sendo destruídas. A greve é para que vocês não se sintam duplamente derrotados: estarem presos e não poderem lutar de fato e o aniquilamento de seus camaradas que acontece lá fora. Vocês desejam criar um fato político, é isto, não é? Conteste-me, agora!”

Nesse momento, Alexandrino já não suporta a presença do intruso e atira-lhe na face o pedaço de toicinho. Ao mesmo tempo, ouve que batem na cela anunciando o serviço do café da manhã. Ele levanta-se e comunica ao carcereiro o início da greve de fome. Quando nosso biografado retorna, já não encontra o seu visitante e vê que o pedaço de bacon, que começa a derreter, escorre a gordura por seus dedos. Continua em sua mão.

Agora é ajudar os companheiros a colocar toda a comida da cela para o corredor com o pedido para que seja encaminhada a instituições de caridade.

 

 

CAPITULO XII

 

“Entre- Grades”

Episódio 12 - “Reflexões de uma noite insone”

A greve de fome foi deflagrada por uma parcela ponderável dos presos políticos, tanto homens como  mulheres. Se as autoridades penitenciárias e militares receberam  aquela medida extrema como uma espécie de “ultimatum”, de afronta,  é porque o autoritarismo não admitia e não admite que o contestem, não pode conceber que o homem pode recusar-se a abrir mão de sua liberdade até mesmo sob as mais coercitiva das condições.

E assim o entenderam aqueles revoltados, que, no extremo, estavam dispostos a oferecer a própria vida em holocausto, para contrapor-se ao arbítrio que visava tratá-los “como terroristas”, incluindo-os no mesmo regime penitenciário que os presos comuns e dividindo-os pelos diferentes presídios, e, em decorrência, reduzindo a capacidade de resistência do conjunto.

Além do mais, quando as autoridades militares separavam os “recuperáveis” dos “irrecuperáveis”, esses temiam que, quem sabe, num futuro, o arbítrio buscasse “a solução final” a la Hitler. Deste modo, a greve de fome era um movimento de resistência e de ataque, que ocupou um importante papel nas denúncias contra a ditadura, trazendo a questão dos presos políticos, da tortura, dos assassinatos à pauta de diversas organizações humanitárias, da Igreja  e da imprensa internacional .

Uma das primeiras decisões tomadas pelas autoridades foi isolar do restante dos companheiros parcelas dos grevistas. Um grupo foi enviado para uma penitenciária estadual nos confins do Estado, outro para o DOPS e DOI-CODI, outro ainda para a Casa de Detenção e, finalmente, o grupo do qual fazia parte Alexandrino, para a Penitenciária do complexo do Carandiru. Lá, cada preso passou a ser mantido em isolamento físico absoluto, e o Estado fez tudo o que podia na tentativa de desmoralizar e de despersonalizar cada uma daquelas pessoas. Tudo era válido desde que a espinha dorsal da “revolta” fosse quebrada; que os presos, quer por ameaças, pressões e mesmo sob novas  torturas, quebrassem o compromisso coletivo de somente voltarem a se alimentar quando todos os companheiros, espalhados pelos diversos presídios fossem reunificados, e disso tivessem garantias.

As celas em que foram trancafiados eram individuais, aos presos nem mesmo banhos de sol eram concedidos, extinguiram-se as visitas de familiares e até mesmo de advogados, todo e qualquer livro, jornal  ou revista eram proibidos, os únicos sons audíveis eram transmitidos por péssimos auto-falantes e restritos à voz do Brasil e a partidas de futebol. Após as 22:00 hs reinava o mais absoluto silêncio, imposto pelo regime penitenciário.

Por algum motivo do qual Pedro não se recorda, fora dada permissão para que eles possuíssem lápis e folhas de papel na cela, e, graças a isso teremos o registro de parcela das reflexões que Alexandrino registrou e, de algum modo, chegaram até nossos dias. No episódio de hoje reportaremos alguns dos fragmentos escritos nas primeiras das muitas noites insones de Pedro Alexandrino.

“ Parece-me que o famoso deus grego, o Hypnos, foi exilado do nosso mundo; para nós, os dias e noites transformaram-se em tão longos…Para não ser visto pelos guardas que nos espionam através da fresta da porta de ferro, escrevo à noite, sentado no parapeito da ampla janela gradeada que dá para o pátio comum a todas as celas, à fraca luz que se esgueira fugitiva para dentro. No silêncio da noite, posso até mesmo sentir que as pessoas aqui confinadas  não mais navegam suavemente nos barcos escuros do sono, entremeados dos sonhos coloridos, esvoaçantes. Aqui a humanidade presa se consome na absoluta mediocridade do nada fazer; o destino, que penetra invisível por entre as frestas de cada cubículo, afugenta o sono, afugenta o esquecimento de cada leito. Ah, que sorte a nossa, pois se aqui estamos o foi por uma questão de inconformismo, de revolta, de busca por uma sociedade melhor, melhor para os próprios desgraçados que conosco convivem, para seus filhos e netos. Nós sabemos o porquê de estarmos aqui.  A decisão de nos mantermos em greve de fome é por nós assumida com todas as suas consequências”.

“Possuímos uma arma que, nos tempos de extrema dificuldade, aproxima os homens e é indestrutível: a solidariedade! Aqueles que são solidários sentem-se amparados, filhos de uma comunidade que os sustenta, nas decisões coletivas livremente assumidas! E que riqueza poder sentir-se assim liberto e sustentado! Estender nossa percepção para a aflição daqueles que possuem ainda menos que nós, os presos comuns, que não têm consciência social, aquela que gera a nossa fraternidade de iguais.”

“Estou só, falo comigo e com essas tiras de papel, mas não estou solitário. Ninguém fica a sós consigo mesmo quando consegue espreitar para fora de si. Nessa noite, estou desperto mas vigilante nessa casa de sofrimentos, onde os ferrolhos das portas e das grades não podem me impedir de sentir meus companheiros tão próximos e tão distantes. Nesse instante sinto o pulsar daqueles que, talvez também insones, estejam nas suas janelas vizinhas à minha; mas, maravilha das maravilhas, meu coração também bate em uníssono com o daqueles distantes, irmãos de luta e de fé que estão a centenas de quilômetros, em outros presídios, mas que mantêm ardente o mesmo ideal”.

“Com o silêncio absoluto deixo-me penetrar por um eco fundamental que preenche todo o universo, eco que reverbera em mim o pulsar de quantos que já morreram nas trincheiras da luta pela liberdade; ouço ao meu lado o ressoar das armas de quantos ainda batalham na luta. Tudo transforma-se em sensações, pouco raciocínio. E nesse meu sentir navegam milhares de sentimentos, ao ritmo alucinante do cavalgar ágil das Valquírias, sensações e pensares que se revestem de irmandade, de fraternidade, e são como fios invisíveis, etéreos, mais fortes que o aço, pois que compostos  de amor e cuidados, numa teia de sentimentos que percorre alguns metros, milhas e chega até os ínferos para entrelaçar a todos nós no essencial. Quanto amor eu sinto preencher essa noite insone, que perdeu sua tristeza e, prenhe de alegria transformou-se em beleza insólita…”

“ Um dia haverá uma nova ordem nesse nosso mundo, em nosso país tão injusto quanto belo, tão brutal quanto amigo, decadente mas com enorme força de sua juventude. Essa febre sem sono, essa falta de paz e tranquilidade, a esperança que agarra-se às últimas fímbrias de nossa resistência, não precisarão esperar para sempre. Embora os ditadores e seus acólitos tentem destruir toda a perspectiva de um mundo novo, destroçando os corpos e as almas dos homens que poderiam transformá-lo, tudo isso será insignificante perante a força da vida, que, no seu renascer, torna-se sempre ainda mais exuberante e bela. O que agora sentimos como medo, pois mesmo desafiando-os o fazemos com o medo entranhado na alma, será tranformação em direção ao sublime, ao amor e respeito ao próximo, base da fraternidade. Um dia, sem lamento e quase com saudades, pensaremos eu e meus companheiros nessas noites insones, gigantes, incomensuráveis, pois só quem sofreu a dor da doença mais cruenta pode reconhecer a doçura da felicidade da convalescença; somente aqueles, hoje insones, reconheceremos o imenso gozo do sono reconquistado.”

“Alguns dentre nós talvez não suportem a pressão do próprio organismo por alimento; outros, a pressão dos torturadores para que voltem a comer; ainda haverá aqueles que herdarão danos físicos irrecuperáveis e, finalmente, se não conseguirmos nossos objetivos, alguns talvez morrerão. Mas se, dentre todos, uns poucos lograrem sobreviver e num dia distante, ganharem as portas da liberdade, esses serão muito mais felizes e gratos à vida e a cada um daqueles com quem comungou nessa batalha. A memória dos nossos mortos, sacrificados nas lajes dos templos da luta, queridos e amados, torná-los-á pessoas ainda melhores, honestas, justas, sérias, construtoras de um novo amanhecer libertário, socialista e humanitário. Uma das melhores maneiras de apreciar o valor da vida, do sentir, do amar e de banhar-se no belo”.

Esses foram os trechos que chegaram até nós dos pensamentos daquele insone, um jovem idealista, talvez imaturo, um pouco romântico, mas,sem dúvida, um revoltado em seu tempo. Quem o poderá julgar?

 

 

Capítulo XIII- Memórias de um Subversivo



“Entre- Grades”

 “Lasciate ogni speranza voi che entrate!”*

 

   *”Deixai toda a esperança, vós que entrai!”

Com o passar dos dias, a ingestão exclusiva de água gradualmente levava aquelas pessoas a uma fraqueza crescente. As gorduras de reserva eram transformadas pelo metabolismo, que atua sem considerações político- ideológicas, em energia que mantinha vivos os corações e as mentes. Uns ressentiam-se mais que outros, dado que o poder de resistir a uma ausência absoluta de alimentos por um tempo maior ou menor depende de fatores individuais. De um modo geral todos, já nos primeiros dez dias  de greve, apresentavam uma queda acentuada na pressão arterial, com as consequentes tontura e atordoamento; em alguns, dificuldades urinárias já se manifestavam. Alexandrino também se recorda de seus joelhos que doíam ao somente se tocarem e das articulações maiores que se esqueciam de que ele não era, ainda, nenhum velho reumático, e insistiam em fazerem-se notar.

Por outro lado, a greve de fome, como fato político, extrapolara as fronteiras dos presídios, reverberara em setores da sociedade, na Igreja e nas organizações humanitárias no exterior. Tornara-se difícil para a Ditadura assumir, simplesmente, a morte coletiva  de mais de três dezenas de prisioneiros. Por esse fato, Alexandrino e seus companheiros foram levados a uma ala denominada “enfermaria” da Penitenciária. As celas, como todas as demais, eram de total isolamento, rompido duas a três vezes ao dia pela visita de um enfermeiro e, dia sim, dia não, pela de um médico plantonista. Examinavam-lhes o pulso, a pressão arterial, a temperatura e, ocasionalmente, uma auscultação cardíaca era realizada. Inevitavelmente perguntavam-lhes pela frequência e volume da urina.

Determinada manhã, Alexandrino, deitado em seu catre e voltado para a parede, ouviu a abertura do ferrolho da cela, o que assinalava a chegada ou do médico ou de um enfermeiro; o que lhe causou alguma estranheza foi que o carcereiro, deixando passar quem quer que fosse, voltara a trancar a pesada porta novamente. O ruído do abrir e do fechar despertara-o.

Alexandrino recorda-se que sonhava com a mãe e essa preparava um prato de nhoques napolitanos, como somente ela sabia fazer.  Aliás, durante a greve de fome, tanto os sonhos quanto os pesadelos, parcela considerável dos quais antes eram voltados  para o sexo irrealizável, haviam mudado do quarto de dormir para a cozinha, ao lado. Sonhava-se com comidas, refeições copiosas e delícias que, como única consequência, produziam, ao despertar, certa dorzinha de estômago, numa sensação de vazio. O acordar abrupto deixara-lhe o cheiro do molho de tomates nas narinas; quando se virou, viu que um homem vestido de branco trazendo um estojo de enfermagem a tiracolo, puxara um pequeno banco de madeira e sentara-se folgadamente a observá-lo.

Era um homem forte, com  fisionomia enérgica, onde o maxilar profundo contrastava com a testa baixa e larga. Seu olhar era desconcertante e obliquo, não mirando diretamente nos olhos de seu interlocutor; o queixo, pesado, somente não dava a impressão de que iria cair porque toda a figura inspirava músculos, força. Os lábios eram um pouco separados e pareciam prontos ao sorriso ou à fala, o que contribuía para seu aspecto decidido, de quem “vende” energia. No entanto, quando o enfermeiro  começou a falar, sua voz soava estranha, como fruto de certa reverberação. Alexandrino lembrou-se de que, num dia distante, seu pai levara-o menino até um circo e lá ele vira um ventríloquo que conversava com a plateia por intermédio de seus bonecos. Aquilo o impressionara…

“Vim para ver como você está, aliás, para o que mais seria, não é mesmo?”, falou com um sorriso largo. Após tomar a pressão, a temperatura e o pulso, como de praxe, disse-lhe: “Assim não vamos bem, você e seus companheiros estão emagrecendo rapidamente, perdendo massa. Como a gordura se acabou vocês vão começar a comer seus próprios músculos. Você, por exemplo, com sua altura de um metro e oitenta, não chega a mais de sessenta quilos. Além disso, ou talvez seja o pior, é que estão todos altamente desidratados. A sua pressão já está em dez por seis. Você imagina o que pode acontecer se vocês persistirem nessa insensatez, meu rapaz?”

E continuou com sua voz de barítono em ressonância: “Agora  vocês mal que mal ainda conseguem se levantar da cama, mas em breve a tontura aumentará e a fraqueza tomará conta de vez. Não sairão do lugar. Vocês bebem muita água, mas isso não basta porque não ingerem sal e a desidratação já- já irá afetar os seus rins, a pressão cairá ainda mais e depois chegará a vez do estômago começar a sangrar, talvez, depois coma e… adeus! E isso é a melhor das hipóteses, para vocês, logicamente, pois podem sobreviver com sérias lesões nos rins, no cérebro, sei lá onde mais. Por meu lado, eu sou um profissional, nada tenho nem a favor e nem contra vocês, só o que prezo é o meu emprego e gostaria de ajudá-los.”

Depois de uma pequena interrupção em que pela primeira vez o enfermeiro o encarou, prosseguiu: “Faço um trato com você. Ninguém, nenhum de seus amigos ficará sabendo de nada. Prometo e não consta que eu não cumpra com o prometido. Isso nunca aconteceu antes, veja bem. Vamos lá, o que custa tomar um chazinho, comer umas bolachas salgadas, só por uma vez, só por hoje?”

Alexandrino, percebendo o rumo que seguiria a conversa simplesmente fez um sinal negativo com a cabeça, mas o enfermeiro insistiu: “Muito bom, vamos por outro caminho, então. Que tal colocarmos um soro com glicose na sua veia? É tão simples. Você me estende o braço, eu pego a veia, coloco uma agulhinha que levará para dentro de você o conteúdo do frasco, um simples sorinho que trocaremos a cada seis horas. Sua pressão melhora, os rins vão funcionar e o nível de glicose vai impedir as vertigens. Talvez, depois, quem sabe, lhe façamos um sanguinho na veia para começar a recuperar a forças. Sabe, você não precisa nem mesmo comer, aliás, eu nem cozinheiro sou, como você pode ver…” E soltou mais uma risada.  

Alexandrino exercendo toda a paciência, que, diga-se de passagem, nunca foi a bem dizer o seu forte, respondeu-lhe: “Meu amigo, eu sei que você pouco tem a ver com isso, mas não entramos, eu e meus companheiros nessa greve por diversão. Se aqueles que mandam não reconhecerem os nossos direitos de seres humanos, estamos dispostos a ir até o fim e o fim é a morte. Por isso não quero seu chá e nem lhe estendo o meu braço. Se você me aplicar o soro à força, vou arrancar tudo nem que seja a última coisa que faça, é só esperar para ver.”

“Não nos desafie, não. Se eu quiser você tomará o meu sorinho nem que eu tenha que amarrá-lo nessa merda de cama, mesmo que tenha que colocá-lo pra dormir. Não que eu me interesse por sua vida, mas, nesse momento, meu jogo é que você viva e que me implore para que lhe dê o soro e a comida e, então, você se empanturrará e me agradecerá por tê-lo deixado comer.” Agora a risada soou avacalhada e a voz de barítono perdeu sua sonoridade e buscou notas mais altas, parecendo até mais natural.

“Agora você fala no plural e na linguagem que eu estou acostumado a ouvir dos torturadores, dos carcereiros, de meus inimigos. Falava antes como um enfermeiro ou um médico, com a fantasia que tomou  emprestada de alguém”, respondeu Alexandrino.

A metamorfose do visitante estava num crescendo. A expressão facial se modificando, tornando-se dura. Seu olhar encarava e desafiadoramente. De repente, ganhara um par de óculos, talvez para ocultar a vermelhidão de seus olhos profundos. O corpo já não se representava tão musculoso e o que perdera em imponência, ganhara de acanalhamento.

“Engana-se, idiota, aliás, está errado como em tudo o mais. Nunca fui a escola alguma de enfermagem, ou melhor, a nenhuma e a todas as escolas ao mesmo tempo. O Nelsinho, seu odiado juiz auditor, o delegado de primeira-classe Fleury, o chefe do DOI-CODI , o coronel Tibiriçá, é por esse nome de guerra que vocês o conhecem, não? eles são meus discípulos, servos, corja da qual me utilizo para meus próprios desígnios. Mas nem pense que eu os tenha escolhido, não. A canalha vem até mim por si só, rasteja, implora para se colocar aos meus serviços. Eu não forço ninguém a fazer nada que não queira, que não seja próprio de seu espírito.Tão somente acolho aos que a mim chegam espontaneamente. Veja bem que, nada do que fizeram ou farão, eles o cometerão por mim, mas por eles mesmos.”

E prosseguiu: “O que eu tenho para dar a quem me procura? Simplesmente tempo, mas não pense que se trata de qualquer tipo de tempo. O meu é um tempo especial, especialíssimo, que a todos satisfaz, de conformidade com cada espírito. Eu dei, por alguns anos, àqueles que querem a destruição de vocês, o poder de desfrutarem o prazer sobre a vida e a morte, o poder de ganhar muito dinheiro e de fama entre seus pares! Isso não é pouco, não. Mas o gozo de destruir é deles, o de matar e torturar, igualmente, o de esquartejar e, ainda, fazer evaporar os cadáveres daqueles de sua espécie, também. E de permanecerem impunes por todos os seus crimes, é claro, fui eu que lhes concedi esse privilégio por algum tempo… A não ser que alguém, no futuro, lhes proporcione um tempo especial, pois também com o tempo de empréstimo eu trabalho, mas basta por aqui, estou falando  demais e me precipitando nas coisas, num futuro que ninguém sabe como existirá”.

E  ganhando uma expressão ainda mais velhaca, prosseguiu: “O que quero deixar claro é que todas as bestialidades que Fleurys, Ustras cometem, são eles que as realizam e não eu, apesar de que, afinal, tudo será colocado sobre meus ombros! Sabe, prisioneiro 3218, vou lhe fazer uma confissão. Essa canalha de que me cerquei são violentos ao meu sabor, corrompidos até a raiz de seus cabelos, não possuem nenhum desses freios morais e éticos decadentes, daqueles que  eu odeio; mas apesar de tudo isso eles são uns merdas de incompetentes. E sabe por quê? O trabalho que fizeram não foi completo ou vocês todos não estariam aqui e em greve de fome, teriam, isto sim, desaparecido há muito tempo”. A gargalhada do ser que ressoa pela cadeia silenciosa assemelhava-se a um ganido de cão selvagem.

“Você não existe, não está aí e eu estou tendo uma alucinação”, resmunga Alexandrino;  “isto tudo é comigo mesmo e já me aconteceu uma vez no passado, no começo desse movimento.”

“Não está alucinando, isso é que não. Estou na sua frente e você poderia me tocar se o quisesse. Mas vou lhe dizer mais uma coisa. A ninguém eu forço a fazer nada que não queira realizar, tudo é de livre e espontânea vontade. Por isso não o forcei a tratar-se o amarrando na cama. Por outro lado, se você  tivesse aceitado o meu chazinho com bolachas, ou houvesse estendido o seu braço magro para receber meu sorinho, teria perdido toda essa batalha, porque após o chá ou o soro, desde que recebidos espontaneamente, viriam outras concessões e você terminaria por comer, até mesmo por implorar comida”.

“Eu sou ateu, não sei de nada de você,  e quer saber, não tenho negócios nem com você e nem com quem o criou. E, veja, esta é apenas e tão somente uma suposição que faço, e pergunto para minha ilusão, afinal, por que o diabo nos odeia tanto? Não somos nenhuma espécie de santo e nem mesmo cremos em Deus, pelo menos a maioria de nós.”, questionou-o Alexandrino.

“Quem me criou, você falou? Então, se fui criado, se tenho uma origem é porque você reconhece minha existência. Mas vamos ao seu ponto, meu caro ateu de meia pataca. É claro que eu não trato com santos e por acaso, onde já se viu santos revoltados? Não é minha especialidade, mas tão pouco isso nunca se viu! Claro que não! Já crer ou não em um deus ou em outro, ou em nenhum, essa é uma questão íntima de cada um  e declaro com todas as palavras que nada tenho a ver com isso. Quer saber, então, por que eu os odeio? Simplesmente porque a rebelião de vocês me desafia: ela quer estabelecer padrões de comportamento humano que me são detestáveis, tais como fraternidade, igualdade, lealdade, ética. É somente por isso que fico do outro lado, e, insisto, nada existe de pessoal nisso, percebe agora?”

“E já que eu não consegui convencê-lo a espontaneamente tomar meu chazinho vou indo, pois tenho mais clientes a visitar e o meu tempo é precioso. Mas saiba que estarei sempre por perto, inclusive de você. E algo que também espero dizer até mesmo a outros seus companheiros de jornada, aqueles que talvez não sejam tão intratáveis como vocês, é que eu estou sempre às ordens”.

“Sou um vendedor de tempo, tempo da melhor qualidade.  Vendo o tempo que para alguns significa o gozo da violência, da destruição, da sensação de a tudo poder perverter a seu bel-prazer, sem terem que acertar as contas com ninguém; que para outros, no entanto, o tempo vendido significará tão somente o enriquecimento, o poder, o esquecimento desses velhos preconceitos como honra, comportamento, lealdade, socialismo, esses valores idiotas e ultrapassados no final do século XX. O que unirá tanto uns quanto outros é o fato de que se divertirão a fartar-se no tempo adquirido.”

“Ah, mas ainda faltou lhe contar mais uma coisinha. Na minha senda não existe arrependimento, não tem retorno. Na testa de cada um que compra pedaços de meu tempo poder-se-ia escrever: “laciate ogni speranza voi che entrate”. Afinal, quem você pensa que inspirou Dante?”,uma nova risada acafajestada afugentou o silêncio da noite. “A minha ampulheta sempre esteve e estará pronta, cheinha até o topo de areia, com um furinho muito fininho para escorrer quando ativada, num tempo que, para o homem, até mesmo parecerá  infinito, apesar de que um dia se extinguirá.”

Alexandrino virou-se para a parede. Não queria ouvir mais nada daquele ser que lhe provocava náuseas. Quando deu por si, teve um novo sonho. Nele retornava ao presídio Tiradentes, via-se na cela coletiva que se localizava acima do lugar onde residiam os “corrós”, presos comuns ainda sem julgamento. Era noite. Olinto Denardi, diretor do presídio estava embaixo, ao lado de um poço de água que desde a época em que o presídio era um depósito de escravos servia ao mesmo propósito: o castigo. No seu sonho, três carcereiros faziam com que um pobre sujeito afundasse a cabeça no poço, provocando-lhe sucessivos afogamentos. O homem gritava muito, o som da própria  tortura voltava aos seus ouvidos. Muitos presos políticos começavam a gritar para que parassem com o martírio, enquanto outros, retraíam-se por medo de reprimendas. No meio dos gritos, soa, então, um mais alto: “Torturadores filhos da puta”!  Seu autor: Chiquinho, nordestino pobre, gari nas ruas de São Paulo, semi-alfabetizado, trazido diretamente para a ação armada, sem nenhuma vivência política anterior. Para Chiquinho, filho-da-puta era filho-da-puta, não importava  se o torturador agia contra um preso político ou outro irmão preso comum… Chiquinho com seu modo simples expressava o que lhe vinha n’alma. Alexandrino despertou e lembrou-se de que Chiquinho estava apenas algumas celas adiante da sua. Disse para com seus botões: “ Que aquele  enfermeiro vá vender seu tempo em outra freguesia.”

Algum poeta escreveu que “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.” Há circunstâncias em que a vida assemelha-se a um sonho e os sonhos, à vida; dessas espécies de sonhos dos quais demoramos como que uma eternidade para nos livrar e despertar, e que, ao retornarmos ao mundo do real, percebemos que o sonho ainda não terminou, pois nosso universo, tal qual um sonho, ainda continua dentro de nós. Essa foi a percepção que Alexandrino guarda daquela noite, até os dias de hoje.

 

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