по этому сообщению гдз французский язык 7 8 класс синяя птица гдз решебник по русскому греков 10 11 онлайн узнать больше здесь гдз

 

Resenhas e Análises Literárias

Nathaniel Hawthorne

"A Letra Escarlate"



 

O autor de “A Letra Escarlate” é Nathaniel Hawthorne, um escritor naturalista, poético “a la” Turgueniev. “Nós não podemos evitar nós mesmos”, Hawthorne nos confessa, “pois embora saibamos o que devemos ser e o que seria muito belo e encantador que o fôssemos, ainda assim, não conseguimos sê-lo”.

Melville, o épico escritor de “Moby Dick”, dizia a respeito de seu amigo e escritor: “Hawthorne diz Não! Nem o próprio diabo conseguiria fazê-lo dizer Sim, pois todos os homens que dizem sim mentem… e todos os que dizem não estão na condição de felizes judiciosos viajantes que percorrem a Europa sem bagagens: eles cruzam as fronteiras da Eternidade com apenas uma bolsa de viagem- quer dizer, o próprio Ego.”

“A Letra Escarlate”, escrita em 1850, não é um romance agradável, gracioso. Está mais para uma espécie de parábula, na qual devemos buscar os sentidos ambíguos de cada episódio, de cada personna; uma história mundana com um sentido demoníaco, de destruição.

Phelps considerou “A Letra Escarlate” o maior livro jamais escrito no Ocidente, mantendo-o dentre os quinze maiores romance da humanidade! O mínimo que podemos considerar a respeito desse romance, de não mais de duzentas páginas, é que ele é surpreendente, amargo e fabuloso!

Uma história profundamente humana que nos dá o retrato sombrio da comunidade puritana, do puritanismo calvinista e da hipocrisia nele enrustida, hipocrisia que trazemos, em maior ou menor dosagem, dentro de nós mesmos. O pecado, a culpa, o ódio, a ausência de amor; a presença da luxúria, da paixão, do destemor e da covardia, da coragem e do orgulho, da traição e da pusilanimidade; a automutilação e o sado-masoquismo, todos eles estão presentes e marcados a ferro e fogo nos personagens do drama. Esses são os componentes dessa história que ocorre entre imigrantes ingleses  nas terras de Boston, por volta de 1650.

“A Letra Escarlate” pratica uma dissecação da alma americana no seu nascedouro. Lawrence, o mesmo que escreveu “Mulheres Apaixonadas”, expressa que: “O olhar do leitor precisa ir além da superfície da arte americana para ver o diabólico interno de seu significado simbólico. Do contrário, tudo não passaria de infantilidade. A consciência deliberada de americanos tão loiros e de fala tão mansa, e, por baixo, uma consciência diabólica. Destrua! Destrua! Murmura a consciência profunda. Ame e produza! Ame e produza! Repete a consiência aparente. E o mundo só ouve esse grasnido. Recusa-se a ouvir o murmúrio subjacente da destruição. Até o momento em que é obrigado a ouvir. O americano precisa destruir. É o seu destino.”http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

 

Síntese do romance.

Na introdução, o narrador fala-nos sobre a Alfândega de Salem. Nada mais que um desabafo irônico sobre o esquenta-banco dos serviços públicos. Serviço esse que ele havia acabado de perder quando se dedicou a escrever seu maior romance. Ele é o chefe da alfândega; nas horas vagas, encontra no fundo de um baú que estava por ali há uns duzentos anos, uma estranha letra A, bordada a ouro. Sua pesquisa lhe diz que tem em mãos o símbolo que os adúlteros deveriam carregar por toda a vida, na Boston puritana de 1650. No mesmo baú, ele ainda encontra papéis que o conduzirão a um triângulo amoroso e a uma Pérola, fruto do pecado. O símbolo do adultério, A Letra Escarlate, sobreviveu ao tempo e ainda subsiste. Subsiste no preconceito, na submissão feminina, e na vontade de submissão de cada ser humano.

A ação se inicia quando a bela Hester Prynne é exposta, com sua filha de três meses à execração pública. Sobre o peito, no lado esquerdo, a Letra A, em cor escarlate. Ela é levada da prisão, lugar de uma mulher adúltera, para ser exposta no pelourinho na praça do mercado, ao lado da cadeia.

As primeiras ações de toda comunidade puritana que se implantava na Nova Inglaterra, consistiam em erguer uma cadeia e seu pelourinho da humilhação, castigo, torturas e execução, assim como o cemitério comunitário e uma pequena igreja. A lei e a religião eram para aquela gente quase a mesma coisa, “e em cuja mentalidade ambas se fundiam de tal maneira que os mais severos e os mais suaves atos de disciplina coletiva eram, igualmente, veneráveis e terríveis”.

Na cenenário de execração da pecadora, numa plataforma elevada da igreja está representado o poder: o governador, o mais velho dos sacerdotes de Boston e um jovem pastor, o senhor Dimmesdale, chegado recentemente da Inglaterra, dono de grande fervor e eloquência religiosa. E, logicamente, a guarda garantidora do poder, com suas lanças e porretes.

Cabe a Dimmesdale chamar Hester à responsabilidade de delatar o seu amante, o pai da criança nascida em pecado. Hester se nega, jamais dirá! Prefere carregar só a sua culpa, voltar à prisão com sua filha, a rebaixar-se perante aquela assembleia rude, invejosa, sequiosa de seu sangue e de seu romance.

Na primeira linha da multidão que se comprime para a tudo assistir, está um homem mais velho, testa inteligente, olhos atentos, recém-chegado à terra. É Roger Chillingworth, o marido de Hester, por todos desconhecido, que dela está separado há anos. Apresenta-se na cidade como um misto de médico e de mágico, versado em ervas curadoras.

No dia seguinte ao da execração pública de Hester ele é chamado à cadeia para atender à criança. Hester lhe diz: “Não te fui fiel”. O marido: “A culpa é tanto tua como minha. Eu sou um intelectual, velho e tu és uma bela mulher; por que havíamos de nos casar?” Ele compreende a traição, mas não pode perdoar; quer, sim, saber quem foi o cúmplice no sexo com Hester e puni-lo.

Ele fareja o pastor Dimmesdale seja o pai da criança, de Pérola. E durante sete anos ele o atormentará. Dimmesdale tantas vezes “confessará” o seu pecado do púlpito, mas ninguém está interessado em compreender a sua confissão, exceto o seu grande inimigo, que se faz passar por salvador.

Hester, já em liberdade, vive de suas rendas e suas agulhas, distante de todos, numa pequena cabana, absolutamente só, com a Pérola. Chegamos, então, aos sete anos do nascimento da garota. A história caminha para seu apogeu e desenlace.

A luz e a sombra alternam-se nos personagens e na natureza. Pérola é mais luz que sombra, enquanto Hester é penumbra. Ela somente consegue ser luz quando retoma a sua sensualidade, que por tantos anos retraiu-se e, nesse momento, arranca o seu A da vergonha e tenta convencer o pastor a fugirem os três para a Austrália ou para Londres, para a vida.

Já o pastor possui dois momentos de luz; um primeiro quando, após ouvir na floresta a proposta de Hester, imagina por momentos abandonar a hipocrisia da farsa puritana. Mas a sombra logo o ofusca novamente. No desfecho da história, um segundo vislumbre de sol o iluminará já no pelourinho, quando conta a todos a verdadeira paternidade de Pérola. Entretanto, ele jamais deixaria a sua comunidade.

Melville comenta: “O negrume é como uma nuvem negra que só se torna visível e audível pelos traços fugazes dos relâmpagos e trovões que o exprimem. As brilhantes cintilações que se dão a ver não são senão franjas a jogar sobre as bordas de nuvens de tempestade.”

 

Sobre o pecado.

Alguém acredita que Adão nunca havia transado com a bela Eva, estando os dois juntos e nus naquele edílico paraíso, onde cada animal tinha seu par? Transado tinham, sim, e muito, como um casal de animais. Mas a “coisa” somente virou pecado por causa da árvore do conhecimento, da eterna e inocente maçã que dela frutificou. O sentir, que era só instinto, antecedeu a consciência. Foi quando Adão olhou para si mesmo, possivelmente em seu reflexo nas águas cristalinas de alguma lagoa e, depois, para sua fêmea Eva e disse-lhe: “O que está acontecendo entre nós? O que estamos fazendo? Eu tenho algo que você não tem...” Assim começa o conhecimento, a consciência. Eva também se interrogou, pois os dois queriam saber os porquês de certas coisas, o que, definitivamente, não acontecia com os seus parceiros animais.

E assim nasceu o pecado, não pela prática, mas pelo conhecimento de sua existência. Eles se olharam, examinaram, chegaram até a sentir algum constrangimento pela nudez: “Transar é pecado, disseram um ao outro”, e esconderam-se. E Deus, vendo contrariada a regra inventada e imposta por ele mesmo, expulsou-os do paraíso. Sendo suas as leis, o que mais poderia ter feito? Agora o pecado estava criado e praticado; hora da maldição! Acionado pelo Empíreo, berrou-lhes o anjo pretoriano Miguel: “Fora com os imorais! “De espada flamante em punho expulsou-os!

O pecado é uma coisa esquisita. Ele não é a ruptura de um mandamento divino, e sim, a ruptura de nossa própria integridade. Por exemplo, o pecado de Hester e Arthur Dimmesdale somente foi pecado porque os dois fizeram o que acharam que era errado fazer. Se quisessem realmente ser amantes, e se tivessem tido a coragem sincera de sua própria paixão, não haveria pecado, mesmo que o desejo fosse apenas passageiro.

Mas foi exatamente o fato de fazerem aquilo que eles próprios achavam errado que criou o principal encanto do ato! O homem inventa o pecado para poder desfrutar do sentimento da transgressão. E também para esquivar-se à responsabilidade de suas atitudes. Um Pai Divino lhe diz o que fazer. E o homem, travesso, não obedece. Depois, trêmulo, o homem ignóbil abaixa as calças para apanhar.

Logo o pecado é sempre a consciência dos próprios atos, a vigilância das atitudes. Já o instinto detesta ser conhecido, ele se dá melhor na privacidade. A consciência espiritual do homem, de algum modo, detesta a força obscura do instinto, tenta ocultá-lo, mantê-lo numa certa privacidade, em penumbra.

Só existe um castigo real: a perda da própria integridade. O homem nunca deveria fazer aquilo que acredita ser errado. Porque, se o fizer, perde sua simplicidade, sua integridade, sua honra natural. Quando se quer fazer alguma coisa, das duas uma: ou acredita-se sinceramente que fazê-la é de sua natureza ou, então, tem que esquecê-la. Uma coisa na qual se acredita de fato não pode estar errada, na pior das hipóteses será a sua mentira.

 

Ambiguidades do romance.

Temos o pastor Dimmesdale, o puro, possuidor da palavra divina. Aos pés dele a bela Hester, a puritana. A primeira coisa que ela faz é seduzi-lo. E ele deixou-se seduzir gostosamente. Ah, pecado suculento, pudera! No cinema quem encarna Hester é Dame Moore! Ele era um rapaz tão puro, aliás, da pureza de um idiota! A própria psiquê americana! Claro que a melhor parte da brincadeira era manter uma aparência de pureza. E o maior triunfo da mulher é seduzir um homem, especialmente se ele for, aparentemente, “puro”, difícil, disputado.

O alfa e o ômega, o princípio e o fim! A é a Letra Escarlate, A de adúltera, A do alfa, que Hester carregará nas suas roupas. O fim é a letra A escrita a fogo sobre a pele do peito do ministro de Deus, que ele também carregará, escondida por suas roupas de serviço puritano.

Hester e Dimmesdale acreditavam no Pai Divino e pecaram contra Ele jubilosamente. A própria alegoria do Pecado. Ah, Hester, você precisa ser um demônio; um homem precisa ser puro para você seduzi-lo e provocar sua perdição. E o mundo estará invejando o seu pecado e castigando-a, pois com seu pecado você se pôs em vantagem sobre ele.

Quando Hester é exposta para a execração pública na praça do pelourinho, o cínico Hawthorne nos diz: “ Se houvesse um papista naquela multidão de puritanos, ele teria visto naquela bela mulher, tão pitoresca em seus trajes e em sua pose com uma criança ao colo, uma imagem da Mater Dolorosa”.

Serão duas as espécies de pecado que o autor nos mostrará: a do amor contra as convenções e a das convenções contra o amor. O autor é um puritano, mas ao mesmo tempo, daqueles pioneiros que buscam libertar-se das amarras do passado. Hawthorne duvida do velho estilo calvinista de representar a raça humana como uma chusma de criaturas pecadoras apanhada entre um “Disribuidor de Tarefas Celestial” e um “Verdugo Infernal”. Suas simpatias não estão com os juízes, mas com a orgulhosa e destemida Hester Prynne.

Vejamos Hester e Dimmesdale mais de perto. Ela é a grande nêmese, o destino, feito mulher; apenas capturou o que é seu, o que lhe aprouve. Quem morre é Dimmesdale. Mas o amor espiritual deste era uma mentira. Enquanto em seus sermões ele bramia uma atitude grandiosa, na intimidade ele prostituia a mulher, como costumam fazer muitos religiosos tão convictos hoje em dia. Mas, a bem da verdade,  ele havia sido puro... até Hester tocá-lo nos lugares certos e ele sucumbir. Mas manteve as aparências. Os puros são puros! A culpa é da fêmea devoradora que sabe tocá-lo no seu ponto frágil, ora essa, afinal, não foi Eva quem ofereceu a maçã?!

Depois do sexo e da humilhação pública da amante, o sr. Dimmesdale desfruta de altas diversões solitárias, torturando-se, chicoteando-se. A autoflagelação, hoje fora de moda, é no fundo, uma espécie de masturbação: masturbando-se sublimava a ausência de sua Madalena particular.

Mas com o passar do tempo as pessoas da comunidade se acostumarão com a Mulher Escarlate e ela irá se transformar numa Irmã de Caridade, em uma santa reconhecida! Uma Madalena!

Passados sete anos, finalmente, irá querer que seu amante parta com ela para uma nova vida. Mas como? Dimmesdale já não possuia nenhuma vida mais! E, ademais, ele sabe que de nada adiantaria mudar de ares, pois seria a mesma coisa em lugares diferentes! Dimmesdale já perdera sua integridade de Ministro do Evangelho, ao mesmo tempo em que perdera sua força vital. E, finalmente, ele não vê sentido em abandonar tudo para entregar-se às mãos de uma mulher, aquela que o levou à perdição. Ele sabe que ela desprezaria a sua fraqueza, como toda mulher despreza o homem que caiu por obra dela; depreza-o com o mais terno dos desejos.

Creio mesmo que ele a odiava, pois ela o fizera de bobo, ele e toda a sua espiritualidade. Quando homens como Dimmesdale caem, não mais se levantam, arrastam-se e rastejam, abominando quem provocou sua queda. Dimmesdale e sua covardia hipócrita se redimirão, um pouco, quando ele sobe ao  cadafalso onde Hester e sua filha haviam sido expostas e faz uma confissão pública, antes de entregar-se à morte, nos braços da “enfermeira”Hester. Pronto, o pastor vingou-se de todos. Ele morre jogando o “pecado” na cara dela e fugindo na morte: “A lei nós infringimos!” Ah, ele detesta quem o corrompera perante Deus!

O ser humano tem duas opções: ou bem é fiel à crença que diz professar e obedece às suas leis ou admite que essa crença é inadequada e se prepara para algo novo. Não ocorrera alteração na crença de Hester nem na de Dimmesdale, tão pouco na do escritor, Hawthorne. Manteve-se a velha crença traiçoeira disfarçada no Espírito, na pureza e no amor desinteressado e na consciência pura. Eles continuariam obedecendo-a só para desfrutarem a sensação de tê-la, mas não fariam outra coisa senão fraudá-la.

Hester usava a letra ao final de sete anos como um adorno, para que todos a vissem. Ela vivera graças ao seu orgulho, isolada de uma sociedade hipócrita, mas que orbitava ao redor dela. Hester jamais se arrependeu do que fez. Aliás, por que se arrependeria? Ela só tinha medo de um dos resultados de seu pecado: Pérola.

 

Falemos de Pérola, a própria encarnação da letra escarlate. A revolta que havia em Hester produziu um revoltado ainda mais puro. Hester sempre se perguntara se o nascimento da pobre criatura seria um bem ou um mal, pois uma parte de Hester odeia a filha, e a outra a tem como o bem mais precioso. Pérola é a continuidade de sua vingança contra a vida, vingança que atinge até ela mesma, a mãe.

A roupa de Pérola era um deboche jogado na cara dos puritanos, lembrando-os que também ela era uma letra escarlate.  Enquanto as crianças idiotizadas pelo puritanismo brincavam vestidas de pequenos adultos em branco e preto, ela era multicolor. Seus brinquedos? A natureza.  Seus amigos? Os animais silvestres. Sua companhia? A própria imagem refletida. Pérola é pagã, uma Diana que se idolatra.

A menina que sabe ser tão terna amorosa e compreensiva; que, em seguida, depois de ter compreendido tudo, dá uma “bofetada” na mãe ou no pai e se volta com um sorriso de escárnio. Pérola é uma criança precoce, contemporânea, uma criança dos dias de hoje.

Ela recusa cabalmente qualquer ideia de um Pai Celestial; Pérola teria que o considerar como uma fraude, tal qual o era o seu Pai Terrestre. Frita sem dó o piedoso Diemmesdale, e limpa na água corrente um beijo tardio que este lhe dera aos sete anos. Pobre almazinha valente e atormentada, sempre pronta para o bote.

E assim, Pérola não tem como pecar contra Deus. O que fará ela, então, sem ter um Deus contra quem pecar? Ora, evidentemente ficará impedida de pecar. Seguirá o seu próprio caminho alegremente e fará o melhor que lhe der na telha, para depois dizer, quando a confusão estiver armada: “É verdade, eu fiz isso. Mas agi na melhor das intenções, por isso não tenho culpa, a culpa é dos outros”.

Quando não se tem um Pai Divino contra quem pecar, e quando não se peca contra o Filho, só resta pecar contra o Espírito Santo.  Agora vem a parte pior: pecar contra o Espírito Santo não é tão fácil assim, pois “isso não lhe será perdoado”. O Pai perdoa, o Filho perdoa, mas o Espírito Santo não perdoa, e agora? O Espírito Santo não perdoa porque está dentro de cada um. Ele é seu próprio eu! De modo que se, por pretensão do ego, abrir-se uma brecha na própria integridade, como poderá alguém ser perdoado? É mais ou menos como rasgar as próprias entranhas.

 

A terceira pessoa do triângulo amoroso é Roger Chillingworth. Ele é uma mistura de mágico com alquimista e médico, um intelectual da velha estirpe, um descendente de outro Roger, o Bacon. Envelhecido e manco. Não é cristão e não está em busca de nada. Representa a velha autoridade masculina, mas sem a fé passional. Ah, esses Rogers em toda a vida sentem ódio quando se deparam com personalidades masculinas, frágeis e hipócritas, como a de Dimmesdale.

Ora, Hester e Roger foram cúmplices na derrubada do Ministro puritano, Dimmesdale. Ela escondeu do amante a verdadeira identidade do médico. Roger, como médico, lentamente envenenará a alma do “santo”; mas o corpo ele manterá vivo por mais de sete anos. Ouve o pastor se martirizar atrás da porta e sorri, preparando-lhe alguma poção que o mantenha vivo, mas no tormento.

No último lance da partida Dimmesdale marca mais um gol; ao invés de fugir com sua amante, ele acaba com a alegria da festa ao confessar-se publicamente, e, desaparecendo na morte, deixa Roger duplamente enganado. Uma grande vingança! Roger, perdido o seu “lietmotif” entra em decadência e morre, como todo pobre demônio abandonado.

Pérola é a única que escapa, conduzida por sua mãe. Casará na Europa com um conde, graças à fortuna que lhe destina por testamento Roger Chillingworth. Gerará e criará novas Pérolas. Hester retorna à Boston, à suas origens. Continuará seu destino de Irmã de Caridade e conselheira de moças que estejam dispostas a se transviar.

Em “A Letra Escarlate” até mesmo o pecado se deteriora, se esvai, transforma-se em letra morta.

 

"A Casa das Sete Torres"



“A  casa das sete torres”, escrita em 1851, ao lado de “A letra escarlate”, constituem os romances mais representativos do autor em seu estilo gótico e sem dúvida é uma autêntica obra- prima da ficção clássica norte-americana.

O enredo, rico em implicações morais, recorre aos valores simbólicos, por meio dos quais Hawthorne denuncia a degradação que se apodera do indivíduo e da coletividade quando se orientam para uma visão mesquinha e autoritária da existência.

Pode-se dizer que, nesse livro, a oposição entre o Bem e o Mal está sempre presente, assim como a inocência versus a malícia, a entrega versus a luta pela vida. A leitura nos convida a repensar nossos princípios e preconceitos; quando os verdadeiros valores parecem ganhar ênfase e a falsa moral se expõe como uma arma letal capaz de corromper o caráter mais intacto, com sua ideologia acumulada por séculos de puritanismo ditatorial. A perpetuação dos bons costumes hipócritas, defendidos pelos opressores a fim de reduzir o livre pensamento entre as grandes massas, parece nunca cessar. Essa história poderia com toda certeza ser ambientada nos dias atuais em que as elites sociais tentam iludir os cidadãos, pois desejam a todo custo perpetuar a opressão e o espírito de submissão entre fortes e fracos.

Hawthorne, frequentemente assombrado “pelos pecados de seus antepassados”, envolvidos na caça às bruxas de Salém, com os pés fincados no autoritarismo e nas forças do mal presentes entre os puritanos nobres e de olhos azuis da Nova Inglaterra, examina a culpa e procura a “katarsis” particular nesse romance. Olhando para trás e analisando o presente, Hawthorne conhece profundamente a maldade e a covardia dos homens. Os olhos azuis tementes a Deus não o enganam. Somente a força de uma juventude descompromissada com o passado pode varrer os preconceitos e a aristocracia para baixo do tapete.

A família Pyncheon carrega um grande fardo – por quase 200 anos – como resultado da maneira desonesta pela qual foi adquirido o terreno onde se situa a casa das sete torres. No prefácio ao romance, o autor afirma que “a transgressão de uma geração vive nas sucessivas e... torna-se um prejuízo puro e incontrolável”. “A casa das sete torres” percorre as desventuras de uma família aristocrata através de várias gerações.

Desde sua fundação pelo então chefe puritano, Coronel e Magistrado Pyncheon, suas paredes foram marcadas pelas maldições rogadas pelo verdadeiro dono das terras onde a propriedade fora construída. Pyncheon, cobiçando as terras de seu vizinho Mauler, fez com que ele fosse condenado à morte por bruxaria. Mauler vingou-se no momento em que a corda envolveu seu pescoço, amaldiçoando todas as gerações do Coronel que desejava perpetuar a tradição e seu poder por meio da imposição de sua mansão. Condenou-os a morrer afogados no próprio sangue.

O patriarca também não sobreviverá à inauguração da casa. Morre de apoplexia, doença que atropelará as gerações dos Pyncheons. Mas seu retrato se perpetuará no escritório principal e duzentos anos passados ainda tenta, agora em vão, incutir o antigo predomínio aristocrático e puritano perdidos.  

Nos dois séculos, os mais variados parentes-herdeiros da casa das sete torres buscaram inutilmente reconstruir o prestígio e a riqueza perdidos com a morte do primeiro e implacável Pyncheon. A decadência da família, entretanto, lentamente se evidenciará para todos os moradores da pequena vila onde se passou a história.

O único rastro de esperança começou a surgir quando uma das herdeiras decidiu retomar uma vida mais simples e abrindo uma pequena loja na lateral da mansão, travou uma grande luta entre seus princípios aristocratas e sua real condição de pobreza. Ela, além de si, cuida de um irmão a quem muito ama, Clifford. Clifford passara os últimos trinta anos preso por um crime que jamais cometera: o assassinato do rico tio Jaffrey Pyncheon. Ora, o tio Jaffrey fora vítima da mesma doença que, por gerações, vitimava os Pyncheons. Pobre Clifford, estando na casa tem o seu raciocínio embotado, o medo lhe tolhe até mesmo os movimentos. Pairam sobre ele novas ameaças de um outro Pyncheon.

O atual Juiz todo poderoso, futuro Governador, também de nome Jaffrey Pyncheon, há trinta anos incriminara o primo pela morte do tio para apossar-se como herdeiro único da fortuna deixada. Partiu da casa das torres e estabeleceu-se numa bela propriedade rural. Mas ele ainda pensa que o pobre Clifford possa ter conhecimento de terras do tio morto às quais ele não tivera acesso e por isso o atormenta.

Outras figuras entraram na história para servir como suporte a essa guerra interna vivida pela velha solteirona Pyncheon e pelo velho Clifford, aquela em busca de sua dignidade e este, de liberdade. Uma prima jovem e cheia de vida, Phoebe, como a própria deusa Artemis, aparece na Casa para que a primavera floresça na terra e no coração das pessoas, trazendo por onde passa o aspirador que suga a poeira e a maldade entaladas pelos séculos obscuros e pelos atavismos de uma falida aristocracia. Também temos um outro jovem presente, Holgrave, um daguerreotipista portador de ideias libertárias e determinados poderes hipnóticos e que é de certa forma, um dos pensionistas da Casa.

Com grande destreza, esses personagens se aprofundaram em reflexões abrangentes de suas vidas e por meio de discussões extremamente lúcidas colocavam em cheque o puritanismo da Nova Inglaterra, bem como todas as pilastras que regem a então considerada boa sociedade. Eles se viam salvos pela consciência moral que os redimia.

Eles, de todos os modos, vivem entre sombras de maldições e a dura realidade de suas condições, pela opressão representada pelo Juiz Pyncheon, que procurava estimular nos moradores da casa das sete torres as fraquezas e pecados íntimos, escondidos sem muito êxito por seus portadores.

O Juiz é como uma reencarnação do primeiro Coronel Pyncheon em todo o seu poder, avareza, cobiça e inflexibilidade. Com sua morte por apoplexia, na mesma cadeira do fundador da casa e debaixo de seu severo retrato, todo um circuito se fecha.

Agora a velha Hepzibah e o irmão Clifford estão livres para partirem em busca de uma nova vida em contato com a natureza, libertos da Casa. Phoebe e o daguerreotipista, descendente do antigo “feiticeiro” Maule, libertam-se para viver seu amor. Partem todos para a bela casa campestre onde vivia o Juiz morto.

Mas Hawthorne conhece como ninguém o coração do homem, particularmente o do americano! Toda a fortuna do Juiz morto sem deixar descendência irá para as mãos de Phoebe. E ela está apaixonada por Holgrave que lhe propõe casamento. Ela pergunta-lhe: mas e seus ideais libertários? Holgrave lhe responde que isso já era parte de seu passado. Havia que administrar o dinheiro!

 Obs.: O filme The House of Seven Gables, de 1940, dirigido por Joe May, teve aquela que foi considerada a melhor performance artística de Vincent Price.