como espiar un celular con gps programa espião virtual gratis download keylogger software for windows 8 go here whatsapp hacking software for windows phone

 

Resenhas e Análises Literárias

Machado de Assis

"Memorial de Aires".



“Memorial de Aires” foi publicada em 1908, poucos meses antes do falecimento de Machado de Assis. O então viúvo era um homem solitário, bastante doente e desiludido com a vida, revivendo lembranças de um passado feliz compartido em trinta e cinco anos com a esposa, Dona Carolina.

Machado aborda em seus últimos trabalhos essencialmente temas existenciais como o amor, a paixão, a solidão, a velhice e a morte, assim como impressões e reflexões sobre o tédio, a ausência de sentido e horizonte da própria vida.

Obra semiautobiográfica, não por acaso D. Carmo, esposa do banqueiro Aguiar e o “Memorial de Aires”, assim como o narrador, o conselheiro Marcondes de Aires, possuem as mesmas iniciais de sua defunta esposa e dele mesmo.

Ao visualizar a viúva Noronha, Fidélia, o narrador, viúvo e aos 62 anos, tal qual Machado, sente-se tocar pela beleza da mulher. Sua irmã Rita, que o acompanha, lhe insinua uma paixão outonal, ao que ele responde a la Shellei: “I can give not what men call love.”Só lhe cabia, naquela altura da vida, uma paixão estética.

E, a seguir, nos traz uma deliciosa reflexão a respeito do nome dado às pessoas na pia batismal: “Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que às crianças só se punham nomes de santos ou santas. Mas Fidélia...? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado à filha do barão, como a forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven? Pode ser; mas eu não sei se ele teria dessas inspirações e reminiscências artísticas. Verdade é que o nome da família que serve ao título nobiliário, Santa-Pia, também não acho na lista dos canonizados, e a única pessoa que conheço, assim chamada, é a de Dante: Ricorditi di me, che son la Pia”.

E conclui o raciocínio de um modo absolutamente futurista: “Parece que já não queremos Anas nem Marias, Catarinas nem Joanas, e vamos entrando em outra onomástica, para variar o aspecto às pessoas. Tudo serão modas neste mundo, exceto as estrelas e eu”.

Fidélia, mesmo sem chorar, mantém um luto fechado pela morte do marido, que ao conhecer Tristão, se abrirá para um novo amor. Diz Aires: “Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens — ou mais pacientes, ou mais capazes de sofrer a dor e a adversidade...”

A inserção histórica do último romance machadiano.

O período de tempo reportado na obra foram os anos de 1888 e 1889. A presença aparentemente tênue da Abolição no Memorial de Aires tem dado margem à suposição que Machado de Assis, em seu último trabalho, não trata de questões histórico-sociais, mas apenas de aspectos da vida íntima e particular. Isto é absolutamente incorreto.

No Memorial de Aires, os tipos sociais representados pelas personagens pertencem todos, assim como o próprio narrador, à elite fluminense do final do Segundo Reinado: um fazendeiro do Vale do Paraíba, a filha do fazendeiro, o filho do comerciante de café, o sócio de banco, o desembargador. Ao fundo apenas, como sombras, os negros libertos da fazenda do Vale do Paraíba, Santa-Pia.

Os homens livres não proprietários, cuja situação complexa dentro da sociedade escravista o escritor vinha estudando atentamente em outras obras, estão ausentes, pois no “Memorial”, nenhum agregado, nenhuma jovem bela é cooptada pelo sistema escravagista. Toda a ação transcorre no interior de uma classe dominante ligada à Monarquia, classe que perdia sua função e que iria se amoldar a uma nova forma de exploração social: a lavoura decai, o fazendeiro morre, o corretor encerra os negócios, o diplomata se aposenta. Paira uma atmosfera de “décadènce” no ar onde, em reuniões íntimas, as personagens apenas tomam chá, jogam cartas, tocam piano, falam de outros e da Europa.

Ao incorporar as ideias da elite de seu tempo ao discurso literário, Machado de Assis faz da leitura do romance uma experiência histórica concreta. Para compreender o livro, o leitor tem de aprender a questionar o discurso narrativo, portanto a contestar a ideologia das elites, o que implica não concordar, no caso do Memorial, com a versão oficial da Abolição. Enquanto o conselheiro Aires tenta suprimir o juízo autônomo do leitor, o escritor procura criar um leitor independente e crítico.

Por outro lado, quando se esposa o obscurantismo do conselheiro e não a malícia machadiana, contribui-se, de uma forma ou de outra, na preservação dos privilégios de classe que persistem até hoje, modificados ou não.

Logo, uma das características essenciais do Memorial de Aires é o compromisso de classe do narrador, numa sociedade escravagista no momento da Abolição formal da escravatura.

A feição social do diário íntimo do conselheiro Aires insere-se em relação a seus pares da classe dominante. Por isso, as infrações das personagens em relação a princípios, que elas enfaticamente assumem como seus, são trazidos ao leitor como atitudes naturais, geralmente emprestadas ao repertório de ideais liberais burgueses importados da Europa. Dois exemplos: o amor eterno de Fidélia pelo marido morto, que “terminará enterrado uma segunda vez”, ou a vocação profissional e o apego à Pátria de Tristão, que quando a política e a glória em Portugal o chamam, deixa a Pátria e os “pais de empréstimo” e se vai.

As menções à Abolição, apesar de raras, conferem sentido histórico ao confinamento do romance à esfera da vida privada, cuja lógica passa então é tratada dentro de uma  lógica mais ampla, a da formação social do Brasil.

Veja-se, por exemplo, o registro da primeira soirée do casal Aguiar, que acontece no dia da promulgação da Lei Áurea: “A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a atribui somente ao fato dos amigos juntos, mas também ao grande acontecimento do dia... Na verdade, (a alegria) era devida a carta ( do filho postiço ausente); como a liberdade dos escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente os felicitei, com ar de quem sabia tudo”.

A prioridade dada por nossas elites aos assuntos particulares, em detrimento das questões públicas, interessou desde cedo a Machado de Assis. Na cena transcrita acima, é como se a Abolição não existisse para o casal Aguiar. Após um momento de surpresa, Aires — não sem a ironia de quem acusa defendendo, procura normalizar a indiferença do casal Aguiar, de tal modo que ela acaba sendo coroada por uma máxima filosofante: "Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular", dando ares de universalidade à legitimação de uma conduta particularista, antissocial.

Com efeito, o diplomata e Conselheiro Aires compartilha o desinteresse dos Aguiar pelo destino dos negros. Ao comentar a doação das terras de Santa-Pia aos libertos, ele se pergunta: "Poderão estes fazer a obra comum e corresponder à boa vontade da sinhá-moça? É outra questão, mas não se me dá de a ver ou não resolvida; há muita outra cousa neste mundo mais interessante".

Mesmo quando o conselheiro demonstra simpatia pela Abolição, sua satisfação parece estar menos ligada à liberdade dos escravos do que à imagem do país — do ponto de vista da classe dirigente — diante das nações modernas: “Dizem que, abertas as câmaras, aparecerá um projeto de lei. Venha que é tempo... Mais de um jornal fez alusão nominal ao Brasil, dizendo que restava agora que um povo cristão e último imitasse aquele (EUA) e acabasse também com os seus escravos. Espero que hoje nos louvem”.

A duplicidade do conselheiro encerra sempre em si um elemento de cinismo, que convida o leitor menos ingênuo a uma espécie de cumplicidade acanalhada ou ao piscar de um olhar maroto com o velho Machado.

Acontece que desde a década de 70, a alta dos preços dos escravos e a modernização das técnicas de beneficiamento do café haviam tornado o trabalho escravo cada vez mais caro e improdutivo em relação ao trabalho livre possibilitado pelos imigrantes europeus. A Abolição vinha libertar a nova oligarquia cafeeira de uma mão-de-obra excessivamente onerosa e mal adaptada às novas condições de produção. Por sua vez, as plantações de café do Vale do Paraíba, como as de Santa-Pia no “Memorial de Aires”, em processo de esgotamento, foram sendo progressivamente abandonadas pelos fazendeiros, que se dirigiram para os promissores campos de São Paulo ou para a Corte, em busca de cargos públicos, sempre muito bem remunerados.

No “Memorial de Aires”, o dramático êxodo dos libertos do Vale do Paraíba não recebe um comentário sequer do narrador. O fato é mencionado pelo desembargador Campos, a partir da perspectiva de ver os negros como ingratos e hipócritas em relação à antiga sinhá-moça: "Os libertos, apesar da amizade que lhe têm ou dizem ter, começaram a deixar o trabalho".

Machado de Assis registra o êxodo dos ex-escravos das velhas zonas cafeeiras, e o faz dentro do quadro da indiferença e da ideologia das elites. O artifício da construção consiste em dar a palavra à classe dominante: o descaso pelos fatos ligados à emancipação dos escravos revela uma forma literária do verdadeiro significado da Abolição.

"Escravo Pancrácio" - crônica escrita por Machado de Assis, publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888 (livro "Bons Dias"), nos diz: “Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos... Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre”.

Retornando ao Memorial, ao criar um cronista particularmente descarado, o Conselheiro Aires, Machado potencializa o efeito de sua crítica social, deixando claro que a Abolição não modificaria a situação do negro, assim como não reduziria a possibilidade de abusos da classe dominante, e que a ideia que um negro pudesse ter acesso aos bens da sociedade era apenas uma mentira forjada pela elite, em benefício de si própria.

Aos olhos de Machado de Assis, a libertação dos escravos no Brasil era uma grande farsa.

Machado de Assis percebeu cedo que o fim do escravismo não traria liberdade verdadeira aos ex-escravos e que as velhas estruturas econômico-sociais, com algum rearranjo, sobreviveriam à Abolição. Conforme demonstra o trabalho de Roberto Schwarz, lá pelos anos 80, Machado abandona tanto a esperança de uma reforma interna do paternalismo como a perspectiva da possibilidade de superação das relações de dependência por meio do trabalho livre, passando a explorar, a partir das “Memórias póstumas de Brás Cubas”, sem mais qualquer tipo de freio ideológico, as virtualidades retrógradas e perversas do avanço do “progressismo” no Brasil.

Machado desmascara as alforrias de última hora, desmistifica os principais nomes políticos ligados à elaboração e à aprovação da lei, inclusive o da Princesa Isabel, e prevê o advento de uma república oligárquica e branca, tanto quanto a república escravista da Confederação do Sul dos Estados Unidos.

Assim, visto que o 13 de Maio não afetou substancialmente as elites, nada mais realista que a indiferença do narrador e das personagens pelos acontecimentos ligados ao fim da escravidão. Em virtude da peculiaridade da matéria histórica e da maestria do romancista, o apagamento da Abolição potencializa sua presença. Na contramão da retórica abolicionista, Machado de Assis denunciou, a seu modo, com rara lucidez, a farsa da Abolição, cujo significado profundo ele compreendeu e dramatizou em seu último romance!

Vamos à narrativa: um proprietário decide alforriar seus escravos às vésperas da Abolição. O barão de Santa-Pia pertence à oligarquia cafeeira decadente do Vale do Paraíba. Libertar os próprios escravos, antes que o governo o fizesse, era uma questão de honra, o último recurso de que dispunha o proprietário para garantir a força simbólica do domínio absoluto sobre sua propriedade: "O que era seu era somente seu", escreve Aires. Fez da liberdade de seus escravos uma concessão e não o resultado de uma exploração ultrajante e desmoralizadora. "Será a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar esse ato, anterior de algumas semanas ou meses ao outro (o de 13 de Maio)?"

Voltando à alforria concedida por Santa-Pia, suas implicações conservadoras implicam no aspecto de que o liberto deve ser grato ao seu senhor. Logo, a alforria funciona como perpetuação dos vínculos da escravidão, que acabam sendo preservados também na prática. No “Memorial de Aires”, o futuro é o passado estendido ao infinito: "Estou certo que poucos deles deixarão a fazenda; a maior parte ficará comigo, ganhando o salário que lhes vou marcar, e alguns até sem nada".

Com efeito, após a morte do barão, cinco semanas após a Abolição, Fidélia escreve aos Aguiar contando que os libertos continuam vivendo e trabalhando na fazenda. "Por amor da sinhá-moça", afirma Tristão. "Livres com a mesma afeição de escravos", escreve o conselheiro Aires, nos termos da ideologia de sua classe. "Ele é bom senhor, eles bons escravos", assegura Fidélia ao conselheiro, referindo-se ao pai e aos cativos de Santa-Pia.

Sabemos que a realidade era outra. Sem ter para onde ir, pois não conseguiam competir com os imigrantes nas zonas rurais mais prósperas, precisando desesperadamente de dinheiro para morar e alimentar a si mesmos e a suas famílias, parte dos libertos do Vale do Paraíba permaneceu nas plantações ou retornou a elas após alguns dias de festa e perambulação pelas estradas: aceitavam qualquer quantia como remuneração por seu serviço; trabalhavam, como nos tempos de cativeiro, do nascer ao pôr do sol, sempre sob vigilância armada; e continuavam morando nos velhos alojamentos, as senzalas, agora chamados "dormitórios de camaradas".

Quando se trata de corresponder à suposta afeição dos negros, os parâmetros do paternalismo já não valem. O modelo passa a ser o das relações contratuais e impessoais, próprias da ordem burguesa. "Para quê?", pergunta o conselheiro, agora nos termos do utilitarismo moderno, ao cogitar da hipótese de a viúva levar os ex-escravos para a Corte consigo. No mesmo espírito, Fidélia se desobriga de qualquer responsabilidade por seus destinos: "Custou-lhe muito fazer entender aos pobres sujeitos que eles precisam trabalhar, e aqui não teria onde os empregar logo". Adotados conforme convém, o critério paternalista e o critério liberal se alternam quase que a cada frase.

E, finalmente, vem dos lábios do Conselheiro, uma frase filosófica: “Costumes e instituições, tudo perece”.

 

"Esaú e Jacó"



"Esaú e Jacó", escrito em 1904, é uma das últimas e mais importantes obras de Machado de Assis. Ao longo de sua obra, ele nunca deixou de tratar as questões de cunho político-social de forma profunda e ironicamente mordaz. É na narrativa de Esaú e Jacó, entretanto, que o Bruxo do Cosme Velho vai fundo na crítica à conformação política do país, denunciando o jogo de interesses que antecederam a proclamação da República no Brasil.

O que é extremamente significativo no romance é a maneira como, explorando divergências políticas das elites que são apenas aparentes, transcende a crítica simplesmente política.  Consegue assim, chegar ao trato estético da questão dos dualismos falsamente contraditórios, mas que não passam de aparências.

A narrativa se desenrola desde o ponto de vista do Conselheiro Aires, um diplomata aposentado. O personagem pode ser interpretado como o retrato da elite brasileira: uma elite inteligente, calculista que, acima de tudo, evita o conflito enquanto classe dominante. Aires adota uma postura de não confrontar-se em momento algum. Essa figura da elite é volúvel, apegada nas aparências de um intelectualismo liberal importado da Europa, mas parceiro fiel do atraso, no seio de uma sociedade escravocrata e elitista.

“Aires tinha o coração inclinado a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio a controvérsia”.  “O Conselheiro mantinha um horror a multidões. Acreditava que não havia paraíso que valia o gosto da oposição”.

A proclamação da República, propriamente dita, é explicitada claramente no episódio da tabuleta de uma confeitaria. O português Custódio, proprietário doceiro, é vizinho de Aires. No diálogo a respeito da tabuleta, entre ironias e metáforas, a opinião do genial autor sobre a quartelada de 15 de Novembro é claramente expressa.

Custódio, depois de muita relutância, mandara repintar a tabuleta que levava o nome de sua loja: “Confeitaria do Império”. O pintor o avisa que “a tábua está velha e precisa outra, pois está rachada e comida de bichos”.  A alusão à Monarquia é óbvia: um regime decadente, comprometido e sem sustentação, que não suporta mais nem uma reforma e tem que mudar. O proprietário encomenda uma nova tabuleta justamente no dia do golpe de 15 de Novembro. Custódio manda um bilhete para pintor com o seguinte recado: “Pare a pintura no d.” Não sabia se era melhor concluir a pintura com a palavra "do Império" ou "da República".

A indecisão de Custódio quanto ao nome é sintomática de um país em que algo sempre muda para que se mantenha, na essência, tudo como está. O Conselheiro o “aconselha” que escreva um nome neutro. Machado de Assis, assim, compara a proclamação da República a uma simples troca de tabuletas, uma mudança só de nomes. República e Império se equivalem como rótulos de fachada.

Raciocina Aires sobre o decreto de exceção assinado por Deodoro: “Bem pensado, a morte não é outra coisa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpétua, ao passo que o decreto daquele dia (15 de Novembro) durou apenas 72 horas. Ao cabo de 72 horas todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver”.

O simbolismo dos gêmeos filhos de um banqueiro como uma dama da alta sociedade.

A referência bíblica que empresta seu nome à obra, “Esaú e Jacó”, nos traz gêmeos que brigam desde sua permanência no útero e que lutarão toda uma vida por reconhecimento materno-paterno e pela herança, jamais convivendo em harmonia.

“O que o berço da, só a cova tira, diz um velho adágio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever: “Dico, Che quando l’anima mal nata...””

No romance, Pedro, um dos gêmeos, vem de São Pedro, que na tradição bíblica se vincula ao conservadorismo; faz Medicina, carreira que figura como conservadora na literatura da época e é um defensor da Monarquia. Paulo, o outro, remonta a São Paulo, faz Direito, carreira tida como liberal, e defende a mudança do regime para a República. Mas com a proclamação da República, pressupõe-se que Pedro, sempre a favor da monarquia, se tornaria um crítico do novo regime, e que Paulo passaria a defendê-lo. Mas não é o que ocorre. Aliás este é um dos curtos período em que as brigas entre os irmãos é contida.

Por isso, ao invés de caracterizá-los meramente como conservador e liberal, podemos usar as expressões situacionista e oposicionista, ou seja, os gêmeos não são idênticos apenas na aparência, a ponto de Flora (uma paixão de ambos) mal distingui-los, mas na sua própria essência, apenas com revestimentos  e discursos diferentes.

O olhar crítico de Machado está aí: no Brasil, não se consegue perceber a diferença entre Monarquia e República — diferentes no discurso, mas semelhantes em suas práticas políticas. Machado, relativista, mostra que o destino do homem permanece uma questão de fé, tanto para a religião quanto para a própria ciência. O mesmo ocorre com a política, República ou Monarquia, já que a disputa entre ambas é  mera questão partidária, de interesse de grupos políticos que são diferentes apenas na aparência e representam, ao alternarem-se, mera troca de poder.

Dizia Aires: “E lembrava-se do discurso do Senador Albuquerque que dizia não haver nada mais parecido com um liberal que um conservador e vice-versa”. Ainda referindo-se aos políticos da Velha República: “Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito”.

Um pouco mais do enredo.

Natividade, esposa do banqueiro e futuro barão Santos, está grávida de gêmeos e decide, como tantas madames, visitar incógnita uma cabocla tida como “vidente” no Morro do Castelo. A previsão da cabocla é animadora: “Serão grandes”! Ao chegar a sua casa, a mulher relata as previsões ao marido. O homem fica feliz, mas resolve procurar um amigo e mestre espírita Plácido para saber sobre pontapés sentidos no ventre. O amigo o tranquiliza, afirmando que os meninos seriam grandes homens e por isso brigavam antes mesmo do nascimento. De todas as maneiras, tudo “seriam cousas futuras”.

Pedro e Paulo crescem idênticos fisicamente, mas completamente diferentes na personalidade. Paulo, republicano e Pedro, monarquista. Jamais exercerão a proissão por cada um escolhida. Preferem o “flaneur” característico de uma sociedade, que, mesmo após a abolição da escravidão recente, permanece alicerçada no sinhô, na sinhá e nos que trabalham para servir, naturalmente negros e mulatos.

Os gêmeos encantam-se por Flora, filha de um político oportunista, Batista, ora conservador, ora liberal, na dependência do grupo político no poder. Cláudia, sua esposa, lhe diz quando vacila: “Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha”.

Atente-se como Machado compõe Pedro e Paulo nessa perspectiva, diferentes, mas análogos, e como, nesse jogo de contraditórios, Flora, metonímia do Brasil, se confunde e definha. A interlocução direta do narrador ao leitor acentua sua consciência de versão, de ficção. A moça, dividida entre os gêmeos, depois da proclamação da República falece na casa de Rita, irmã do narrador, sem ter tempo para escolher um dos dois. Os irmãos sofrem, mas depois logo dão curso às suas carreiras e vidas. Em seu momento realista, os amores escorrem e se perdem com a vida.

Os irmãos sempre se enfrentam na vida política, deputados em lados opostos no Parlamento. Com a morte de Natividade, a mãe e atendendo a seu último pedido, cessam os desentendimentos. A paz, entretanto, dura pouco, logo os irmãos voltam a trocar farpas e terminam separados, agora por uma questão de partição de heranças. “Um ódio comum é o sentimento que mais liga duas pessoas”.

Por outro lado, de forma muito sutil, o autor trata o conflito entre fé, ciência e religião, em voga no início do século. Na época, as descobertas da ciência experimental, o advento do materialismo e a redefinição do homem acabaram causando uma sensação de desencantamento, instaurando um ceticismo desesperado. “Aires negava que fosse incrédulo. Ao contrário, sendo tolerante, professava todas as crenças desse mundo”.

Logo nos primeiros capítulos, o conflito apresentado, ainda que de forma ironicamente branda, gira em torno da crença. Pode-se inferir que, entre os espaços de crença (o barracão da cabocla e a Igreja) se coloque o espiritismo, na figura de Plácido, como tentativa de estabelecer a união entre fé e ciência, o que pelo vazio de suas propostas é inalcançável.

Quanto ao narrador onisciente, o Conselheiro Aires, afirma Machado: “Aires tinha particular amor à sua terra e, por ventura, tinha se cansado de outras. Não atribuía a esta tantas calamidades. Na verdade estava cansado de homens e mulheres, de festas e vigílias. Dado às letras clássicas, achou em padre Bernardes a tradução de um salmo: “Alonguei-me fugindo e morei na soedade”. Mas como tudo cansa, até a solidão, Aires acabou trocando uma palavra e o sentido: “Alonguei-me fugindo e morei entre a gente””.

Isto porque “tudo é possível abaixo do sol e da lua. A nossa felicidade é que morremos antes”.

Em suas Memórias, assinala Aires: “De todos os maus costumes, o de envelhecer é o pior. Deixa para lá filósofos dizerem que a velhice é um estado útil pela experiência e outras vantagens. Não envelheças minha amiga, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O estio é bom, cálido, as noites são breves, é certo, mas as madrugadas não trazem neblina, e o céu aparece logo azul. Assim dançarás sempre”.

Sobre o destino, ensina-nos Machado que tudo são instrumentos em mãos da vida: “Aires suspirou e curvou a cabeça ao destino. Não se luta contra ele, dirás tu. O melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos”, pois:

“Quando se envelhece os receios da morte crescem. Mas não bastam os receios, é preciso que a realidade venha atrás deles. Daí as esperanças. Mas também não bastam esperanças, pois a realidade é sempre urgente”.

"Memórias Póstumas de Brás Cubas"



“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira, é antes de tudo uma sátira social e de costumes, muito bem definida pelo próprio autor como fundadora do seu “realismo fantástico”.

O pano de fundo é a sociedade escravocrata de meados dos anos oitocentos. A elite política e econômica que praticamente se confundem, mantém um comportamento absolutamente retrógrado do tipo senhor-escravo, mesmo que parcela da mesma se dê ares de um pseudo liberalismo importado da Europa. Uma vez na Corte ou nas Províncias, seus membros  exercem a política baseada no compadrio e na corrupção, ou apenas nada fazem na vida, exceto flanar. Já o trabalho real ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista.

Essa é a centralidade do enredo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Machado de Assis com este trabalho se antecipou a muitos elementos do modernismo e do realismo mágico.

No romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos  da obra de um gênio.

Um morto se dirige aos vivos para criticar a realidade humana! A leitura do romance deve levar em conta esta dupla condição do protagonista: um Brás vivo e um Brás morto. O Brás vivo tem a existência marcada por futilidades sociais, pelo desprezo que manifesta por todos aqueles que não pertençam à elite. Já o Brás morto é o narrador capaz de expor sem nenhum pudor os defeitos próprios e alheios, dado que não pode ser atingido pela ira de seus contemporâneos, e a sepultura lhe deu a sabedoria necessária para perceber o modo de agir de seus semelhantes. 

Como sátira, a estridência e os artifícios são numerosos, prendendo a atenção do leitor desde a primeira à última linha. “É obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio... se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

 

O tempo histórico do romance se dá entre a data da morte do narrador, 1869, até a de seu nascimento, 1805. Roberto Schwartz enumera algumas das referências históricas mais evidentes, comentadas de maneira não conformista, ainda que prudentemente cifradas e reservadas a um pequeno grupo de leitores muito atentos:

  1. O protagonista nasce em 1805, nos últimos anos do Brasil colônia. Sua educação, em que aprende a não conhecer normas e obedecer só ao próprio capricho, coincide com o tempo do Rio Velho e do baixo valor do escravo.

  2. O primeiro cativeiro sentimental de Brás é a paixão por Marcela, uma espanhola de  vida “alegre”, que coincide com os festejos da Independência, 1822. “Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude.” O paralelo entre “o amanhecer da alma pública” e as primeiras auroras amorosas de Brás tem a clara intenção de chocar o público da época.

  3. Brás ainda gastou trinta dias até chegar ao coração de Marcela pois tinha um concorrente  que a presenteava, embora tuberculoso; estamos no primeiro mês de incertezas pós-independência, o que nos leva a outubro de 1822.

  4. “ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”,  chegaremos a março de 1824, quando Dom Pedro outorga ao Brasil  sua Constituição, encerrando a aventura liberal da Primeira Constituinte, cujo modelo havia sido a “carta espanhola” .

  5. Interrompidos à força os amores com Marcela, Brás vai à Europa “beber” da cultura do tempo. “São anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”, durante os quais o personagem colhe de todas as coisas a fraseologia, a casca e o ornamento”. Muitos julgam ver aí uma alusão ao Primeiro Reinado, ao Imperador e à maneira pela qual o Brasil, recém-saído do confinamento colonial, abraçava as ideias modernas, apenas como ornamento.

  6. O paralelismo dos períodos prossegue; a fase europeia encerra-se com a volta precipitada de Brás ao Brasil após oito anos, com a mãe a morrer; estamos em 1831. Logo morre também o pai e Brás fica órfão, como se dizia do Brasil com a abdicação de Dom Pedro I.

  7. A etapa seguinte de vida desperdiçada, dissoluta e semi- reclusa coincide com os anos da Regência, que igualmente o foram.

  8. Com a Maioridade de Pedro II, em 1840, Brás vem abrilhantar a vida da Corte na qualidade de leão da moda e amante “meio secreto e meio às claras” de uma mulher elegante da época, casada com um forte político.

  9. Em 1885, encontramos Brás como deputado e aspirante a Ministro. Quando profere o famoso discurso sobre as barretinas da Guarda Nacional, a conjuntura política era a da “Conciliação” (1853-1857) entre conservadores e liberais, e a futilidade dos antagonismos parlamentares tomava a feição de um programa político.

  10. O progresso financeiro de Cotrim, o cunhado de Brás, como contrabandista de escravos, ocorre entre 1850 e 1860 (após a proibição do tráfico), até ser beneficiário de suprimentos superfaturados à Marinha, durante a Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870), período de grandes negociatas. Machado assinala esteticamente que o tráfico de negros fora substituído por uma imoralidade mais contemporânea, a corrupção com o conluio entre empresários e políticos.

  11. A data de sua morte, 1869, coincide com a evolução capitalista do país e princípio da decadência do Segundo Reinado. Ele mesmo, antes de ser um defunto, começara a interessar-se por colonização, câmbio, vias férreas, e invenções sensacionalistas, estilo norte-americano, como o “Emplasto Cubas”, para o tratamento do mal do século: hipocondria e melancolia.

“Emplasto Brás Cubas. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.”

John Gledson levanta uma pergunta muito pertinente: e se “Brás” significasse o Brasil, de quem o nome são as primeiras sílabas? E se por acaso, Cubas, que se reporta a um tanoeiro, fazedor de cubas, fosse a origem nada nobre da elite escravocrata que se dá ares aristocratas?

 

A forma do romance é biográfica. Como numa película, passam diante de nossos olhos os momentos da vida de um carioca rico e desocupado: ao nascer, uma infância sem limites; estudo de Direito em Portugal, que mais se assemelha a anos de folia e dissipação; amores e a banalidade do  consumo; veleidades literárias e filosofias de bolso de colete; a atividade política, cujo ato maior é o discurso sobre a altura da barretina no uniforme da guarda nacional; e, ao final, a morte.

Estão absolutamente ausentes o trabalho ou qualquer projeto de vida minimamente consistente e a passagem de uma etapa a outra da vida se dá pelo cansaço e perda de interesse, privilégio de classe que é uma extensão da iniquidade social.

“Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito!”

Cabe uma ressalva para o amor. É como se na elite brasileira esta fosse a única manifestação autêntica do espírito. Todos os demais, como filosofia e conhecimento científico, o acento satírico do autor os transforma em afetação, em preenchimento do tempo e banalidade.

A vida de Brás, mesmo que cheia de satisfações, é totalmente ausente de sentido. O que predomina é o sentido geral da mediocridade. O romance se conclui num nada.

“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semi demência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

A essência pessimista ao destino do homem, Machado a expressa ainda no capítulo denominado “Delírio” diz: “Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva ... nada menos que a quimera da felicidade.”

Os “nhos” e seus escravos, em três episódios.

O sinhozinho Brás se autodenomina  “menino diabo”:  “Fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco... e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia,  algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!

“Dessa terra e desse estrume, nasceu esta flor”, expressão emblemática da formação dos filhos de senhores de escravos.

Machado também nos trás a reprodução da violência por parte de quem a sofrera. Muitos anos após, o negro Prudêncio, uma vez alforriado, compra um escravo para si e reproduz o tratamento recebido: “Era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente... Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — que meu pai libertara alguns anos antes”.

Em outro momento, Brás Cubas se esmera na defesa de seu cunhado Cotrim, o que, mesmo sob o ponto de vista um pouco mais esclarecido do século XIX seria um escândalo; no entanto, o narrador, como a elite brasileira, trata-a como exótica, reconhecendo virtudes e “normalidades” onde somente haveriam más ações e crimes.

“Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado... Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.

“A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos... Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades... Não era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro beneficio que praticava...”

A elite, os pobres e agregados.”

Eugênia

Somente entre os pobres, os personagens de Machado nos revelam integridade moral. O símbolo desta é Eugênia, por quem Brás reporta o único sentimento legítimo, embora passageiro, que sentira em vida.

A moça, filha natural, quase fora erguida à abastança pelos braços de Brás aos dezesseis anos, e terminou pedindo esmolas na porta de um cortiço aos sessenta. “A flor da moita”, como o mau caráter do narrador a denomina, ao justifica o desprezo para com a moça concebida, possivelmente, atrás do mato, por Dona Euzébia, uma solteirona, com Villaça, um cavalheiro abastado.

“Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”.

Eugênia não se submete aos caprichos de Brás Cubas. Na desesperança de um casamento, corta suas fantasias da paridade social e mostra “conhecer o seu lugar”. Jamais se entrega ao moço e se despoja de quinquilharias em seu último contato. Para ela os adereços típicos da classe superior não lhe interessavam.

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”

Em outras palavras, o futuro das pessoas em uma sociedade escravagista depende do capricho de pessoas da classe dominante; a pessoa da classe inferior pode se dar por amor e se transformar excepcionalmente em senhora ou em pedinte. A dignidade natural ou cidadã Eugénia não traz o vinco da subordinação à oligarquia.

Muitos anos após o pequeno namoro, Brás volta a encontrar-se com a “coxa”. “Agora é que não são capazes de adivinhar..., achei a flor da moita, Eugênia, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste. Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista”.

Dona Plácida

“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias... Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.”

Assim Machado de Assis descreve a gênese daqueles que nasceram para trabalhar sem descanso até que as mortes os dispensem. Qual o sentido de suas vidas? Servir, nada mais, pois o explorado tem uma finalidade, embora humanamente sustentável, de reproduzir a ordem social que a sua própria desgraça torna possível.

D. Plácida, o próprio nome o sugere, possui a conduta maleável e curva-se aos caprichos de Brás e de sua amante Virgília, servindo-os como alcoviteira.

“Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos, — os cinco contos achados em Botafogo, — como um pão para a velhice. Dona Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo (pela relação adúltera)”.

“Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude”.

Isto não impede que, ao final, o destino da pobre agregada se cumpra. “Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia; onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara”.

A relação no interior da elite.

A relação “inter-paris” é principalmente simbolizada pelo trio amoroso Brás Cubas, Lobo Neves e Virgília, esposa do segundo e amante do primeiro.

O liberalismo europeu dava sentido à emancipação da sexualidade como esfera autônoma de vida. Isso é simbolizado pela relação prolongada entre Brás e Vigília. Relação medíocre e nada romanesca. A princípio o amante procura tomar a mulher ao marido, mas logo se acomoda no adultério, esquecendo qualquer exigência de amor exclusivo. “Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma”.

Com o decorrer da longa relação, cresce o número de futricas e denúncias anônimas de traição chegam até Lobo Neves. Mas a vitória sempre estará ao lado do cumprimento de convenções, evitando o escárnio público num mundo de aparências.

“Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu juízo for temerário!) — pareceu-me que ele tinha medo — não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião pública. Supus que esse tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do Lobo Neves. Talvez já não amasse a mulher; e, assim, pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos... Cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias, antecedências, induções, provas... obstou à dispersão da família. Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria a divulgação. Ele não podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; e teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos”.

Expressando a consciência de sua classe social, “teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...”

A filosofia de algibeira, misto de positivismo e darwinismo social.

A filosofia é trazida a Brás por um antigo conhecido de escola, Quincas Borba, que escorregara até a miséria, mas que tornara a ascender na escala social com a herança de um parente.

“Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta três fases: a estática, anterior a toda a criação; a expansiva, começo das coisas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contará mais uma, a contrativa, absorção do homem e das coisas”.

“Para entender bem o meu sistema, concluiu Quincas Borba, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados como único fim de dar mate ao meu apetite”.

Dizia ainda Quincas Borba para o narrador: “O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer...  E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre, — prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime”.

Chega a um ponto na narrativa em que o “filósofo” enlouquece e Brás confessa: “Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de coisas opostas desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e mandá-los de presente a Aristóteles.”

E podemos concluir com defunto narrador: “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo”.