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Resenhas e Análises Literárias

Herman Melville

MobyDick



       

I.             Melville é um homem dos mares, um poeta das águas, e por assim ser, retém a estranha e misteriosa magia das criaturas marítimas, aquela das sereias, dos polvos e das lulas gigantescas que, ao mesmo tempo que nos atraem, causam certa repulsa: elas não nos são apreensíveis.

Os poetas das águas costumam perder a capacidade de encontrarem-se a si mesmos; além disso, pouco possuem da  habilidade de se misturarem aos outros humanos. Isso os leva a dar as costas à vida e a mergulharem no abstrato, nos seus próprios elementos.

Talvez poucos poetas antes de Melville detestaram tão instintivamente a vida humana, ou melhor, a sociedade como a vivemos. Restava a Melville a necessidade de lutar contra o mundo inteiro real, e,  assim o fazendo, lutar também contra parcela do mais íntimo de seu ser. Mas esse é somente o verso da moeda chamada Melville, pois ao mesmo tempo ninguém esteve mais apaixonadamente repleto do sentido de vastidão e do mistério da vida não humana que ele.

No mar, busca sua fuga! Fugir, deixar a nossa vida para trás, cruzar um horizonte que o levasse a uma outra vida, ao seu elementar. Quando Herman entra no mar à bordo de um barco, então encontra o seu ambiente natural, sua verdadeira casa. Na bagagem, muitas memórias, recordações daquele que atravessou o “Rubicon” da própria vida: ele não aceita mais a humanidade e ao não aceitá-la, deixa de sentir-se parte dela. Que lhe importa que a vida se fragmente, que até os acasalamentos e as procriações cessem? Que o tritão se afaste da fêmea, que o homem abandone sua fêmea e seus filhos e que as mulheres-sereias só se lambuzem com as águas? Com os  lares desfeitos, corroídos, restam-lhe tão somente os elementos do imenso e interminável mar.

Basta de terra! Venham todos os elementos que nada têm a ver com as complicações criadas pela humanidade, como todo o imenso, o velhíssimo oceano Pacífico, que se abre com todas as suas “porias” para os Argonautas do século XIX.

Melville já nasceu odiando o mundo; no mar, navega em busca de um Paraíso.  Mas é um sonho paradisíaco que jamais alcançaria, pois as ondas sempre o conduziriam a um tremendo Purgatório.  Por isso mesmo, em sua vida real, Herman Melville sempre buscou ter uma união perfeita, fruto de uma compreensão, que se reproduzisse num amigo perfeito. Ele jamais conseguiu admitir que qualquer relacionamento perfeito seja possível entre humanos. Cada alma é só. A solidão de cada qual põe uma barreira para o relacionamento pessoal; um bom relacionamento é aquele em que cada parceiro admite que haja várias regiões desconhecidas e que assim devem permanecer na alma do outro.

Não importa, porque Herman pertence ao conjunto das criaturas que nasceram para viver no Purgatório, aquelas almas que precisam encontrar algo ou alguém para triturar. Almas de profundo olfato, que cheiram a injustiça e a insensatez tanto nos “bons homens dos cultos religiosos”, quanto nos brutais capitães dos navios, nos almirantes dos países, ou nos condutores de homens e de arpões. E uma vez seu nariz tendo apurado o tom de enxofre da desmedida, aí o poeta das águas se sente à vontade. Em Melville, a partir de um determinado momento na vida das pessoas, o ideal que as guiara apodrece, transforma-se em algo impuro, em perversão. Até mesmo a caridade que delas emane já é perniciosa, enrustida de segundas e terceiras intenções. São maus tanto os violentos quanto os mansos; até mesmo um “homem santo”, como o Princípe Mishkin de Dostoievski, porque ele tem reações mesquinhas e sutis.

“O Satã de Milton (“O Paraíso Perdido”) é moralmente muito superior ao seu Deus, assim como aquele que  persevera a despeito da adversidade e da sorte é um ser superior àquele que, na fria segurança de um triunfo certo, exerce a mais horrível vingança sobre seus os inimigos”. H. Melville

 

II.            Em seus melhores momentos, Melville escrevia em uma espécie de transe; os acontecimentos que ele narra como sendo “fatos reais” têm, na verdade, um vínculo profundo com sua alma, são reflexos de sua vida interna. Sem que ele se dê conta, o inconsciente melvilliano é místico e simbólico. Jamais retorna sobre seus passos, arrepender-se é um verbo fora de seu dicionário. Mas seu misticismo impedia-o de se abandonar ao desespero ou à indiferença. Melville sempre se importa, tanto para odiar aqueles que se creem portadores de “Missões”, quanto para se emocionar com gestos de compaixão humana.

Filosicamente, Herman veste a roupa de um Rousseau: considera a nobreza dos selvagens em primeiro lugar. Usa um chapéu, o de Chateubriand: os selvagens são pobres ovelhas quando comparadas ao homem civilizado. Homem branco e civilizado, o animal mais feio e mais perigoso de toda o Planeta.

Melville é absolutamente moderno, surreal e simbolista muito antes do futurismo encontrar a pintura e outras artes plásticas. “Ele pressente os meros deslizamento dos elementos. E a alma humana experimentando isso tudo. Às vezes chega aos limites do delírio; quase espúrio, mas sempre extraordinário”, no dizer de Lawrence.

 

    III. Moby Dick

Moby Dick, que somente descobri aos meus 63 anos de idade, é uma epopeia da Alma Humana e das criaturas da Natureza, obra que rivaliza com as épicas Odisseia e Guerra e Paz. O romance é magnífico e aterrador, assim como o é o ser humano e o são as forças incontroláveis da natureza. Quando o homem, em sua insanidade busca dominá-las, obtém até mesmo algumas primeiras vitórias, mas essas nada mais serão senão o garrote que, ao final da jornada, irá enforcá-lo.

Se o livro é belo, fantástico, seu significado é terrível. Viajaremos com a alma humana num desbravar de ondas reais, talvez como a nossa vida e o mar. No cosmos de Melville, os homens são quase sempre ilhas e embarcações para si mesmos.

O protótipo desta ilha humana é o comandante da baleeira “Peckod”, o quáquer Acab, símbolo da humanidade insana, que contém em seu cerne um pouco de todos nós : ele não conhece seus limites, caminha na “hybris”, para vingar-se de um Leviatã. Na busca pelos mares nada conta, tão somente a vingança cega contra a Baleia Branca, imbuído no instinto que dispensa o “logos”. Ao final da busca, o que ele, na realidade encontrará, será um pedaço de cânhamo ao redor do pescoço.

Vamos aos personagens centrais:

  1. Moby Dick é a baleia branca, a caça. Ela é um enorme e velho cachalote, gasta, muitas vezes arpoada, jamais vencida; não vive em bando, nada só, sendo capaz de grande fúria intempestiva e destruidora, símbolo da natureza cega quando agredida. Entretanto, Melville sabia que as baleias não são terríveis, não mordem, dificilmente atacam, têm sangue quente, são mamíferos.
  2. Numa fantástica cidadezinha portuária na Nova Inglaterra, tão fluida quanto o próprio mar, encontraremos o único ser realmente humano em toda a narrativa: Ishamael, o americano branco, narrador da aventura. Em seguida nos é apresentada a sua alma-irmã, Queequeg, um poderoso canibal, com o corpo todo tatuado, um arpoador das ilhas do sul. Os dois homens dormirão juntos, na mesma e única cama da pobre pousada repleta; suas almas se casam, no estrito sentido dos selvagens, selando uma amizade autêntica, entre seres de culturas muito diferentes, um cristão e outro, pagão. Para Queequeg, o selvagem canibal, toda relação de amizade é uma união duradoura. Já para Ishamael, o branco civilizado, a amizade é sempre de oportunidade, e, quando os dois embarcam no baleeiro Pequod, o americano irá se esquecer totalmente do selvagem: a amizade já é uma página virada.
  3. O Pequod é um veleiro estranho, fantástico, dirigido por um espírito atormentado, ao modo do “Navio Fantasma” de Wagner. Sentimos que Pequod é real e velejará pelos oceanos, mas, lentamente, sua metafísica nos impregnará, proporcionando-nos uma viagem da alma. Após dias no mar, apresenta-se Acab, o comandante, o capitão da alma, temente a Deus, caçador implacável da inofensiva e velha baleia que um dia, defendendo-se de seu arpão arrancara-lhe uma perna. Ele é tão velho quanto sua caça, um monomaníaco disposto a sacrificar o barco e toda a tripulação, em holocausto a Moby Dick. A baleia precisa morrer para que ele possa continuar a viver, se asssim pudermos denominar o seu modo de ser. Acab tem três Imediatos na tripulação:
  4. Starbuck, o Primeiro Imediato, também crente, homem bom e responsável, sensato e ousado, calado e confiável; ele é o lado luminoso, apolíneo, justo, ponderado, conduzido pelo vínculo afetivo que o liga tanto aos companheiros de viagem quanto àqueles a quem ama e que deixara em terra. Starbuck não abre mão do respeito pelas forças naturais e nem pelo inimigo abatido, fonte de sua sobrevivência. O Segundo Imediato, Stubb, é o anverso de Starbuck: mau e obscuro, imprudente e divertido, para ele a caça à baleia é um esporte, tal qual a caça a um homem; Stubb é a nossa face que, ao barra-vento, escancara o escárnio por si e por todos. Chegamos ao Terceiro Imediato, Flas, um tipo que é teimoso e obstinado, aliás como todo homem tolo e sem imaginação. Para ele a baleia é “como um rato a ser caçado”.
  5. O Pequod também possui três Arpoadores, todos eles imensos, monumentais, os únicos no mundo capazes de trespassar a baleia branca: Queequeg, o poderoso e todo tatuado canibal ; Tashtego, o pele-vermelha americano; e, completando o leque racial, Daggo, o gigante negro.
  6. Somente tempos após surgirão misteriosos, como formatados pela bruma marítima, alguns malaios estranhos, silenciosos, secretos, vestidos de negro, adoradores do fogo. Eles são os homens de confiança de Acab, aqueles que conduzirão o seu próprio bote caça-baleias.

 

Muitas raças, povos e nações congregadas sob as listras e as estrelas da bandeira americana. Tudo muito prático, mas fantástico e fanático, ao estilo americano; um engenho que soa perfeito na tarefa louca, comandados por um general monomaníco na perseguição cega ao inimigo, focado PARA MATAR!

Um ser material, o narrador; dois heróis, Acab e Moby Dick, dos quais somente o primeiro é trágico em sua consciência e desmedida. A redenção do louco comandante ocorrerá pouco antes de sua morte, quando o velho rijo, imbatível e aleijado se permite chorar no desabrochar tardio de sua humanidade. Ele confessa a Starbuck “sua fraqueza mortal, como um corcunda, um Adão cambaleando para além dos séculos cravados desde o Paraíso”.

Ao Cachalote, o outro herói, caberá detonar, como força da Natureza indômita, tal qual o Satã de Milton, seus perseguidores. É a Natureza dizendo um basta à ousadia do homem que perdeu o limite de sua humanidade e se crê um deus. É ela a mais forte, zera todo o jogo e basta.

Melville ainda nos alerta. A caça à baleia, principiada nos tempos mitológicos por Teseu ao salvar Andrômeda, somente se fez disseminar no decorrer dos tempos, na forma de peixe preso, peixe solto. Os poderosos e os padres desejam que todos os peixes que caiam em suas posses sejam peixes presos, até mesmo nossa consciência. Para as Potências Imperiais, todos os países pobres são peixes soltos, pertencem a quem os destruir primeiro!

 Chegará um dia em que as Moby Dicks estarão extintas, mas as forças naturais seguirão indômitas. Existe uma cena insólita que Melville nos descreve, quando o barco, de repente, se vê num espaço do oceano, brando como uma lagoa, repleto de baleias, onde uma calma pura resplandece. As fêmeas nadam em paz, as baleias jovens aproximam-se dos botes da morte como cães curiosos, os mamíferos no cio fazem amor. Os homens exterminam quantas conseguem.

A esse capítulo segue o momento em que o barco se transforma em uma Refinaria para o óleo extraído das caças. Para isso foram sacrificadas. Toda a carne servirá aos tubarões e à fome do mar. O narrador está no leme e vira-se para ver a fornalha do refino. Num relance místico, o leme se inverte e o Pequod perde o rumo e Ishamael vive uma experiência onírica: quem se submete ao refino não é o óleo do cachalote, mas sua alma.

Acab e sua tripulação, afinal, encontrar-se-ão com Moby Dick. A luta será explêndida, de tal dramaticidade que não se conseguiria reproduzi-la fora das linhas do próprio Melville. Durou três dias o combate. No terceiro dia a baleia torna-se terrível, de caça à caçadora, enfurecida volta-se contra o Pequod, símbolo do homem, de nossa civilização predadora e o destrói, colocando-o a pique. Assim termina um livro de profundo simbolismo, da primeira a última página, que nos enche a alma de espanto e termina com um grito de alerta para a nossa civilização, um berro de condenação ao predador americano! 

Que extraordinária viagem, quantas sacudidelas à bordo da baleeira Pequod, o navio de caça do qual, afinal, restará apenas um sarcófago em busca de socorro!

Uma viagem tanto para os que sabem ler apenas com os olhos quanto para os que leem com a alma. E ninguém paga mais por isso, o preço é fixo!

 

Excertos do Livro "Moby Dick"

“A meditação e a água estarão para sempre unidas. A história de Narciso, que por não poder pegar a sua própria imagem que ele via na fonte, megulhou nela e afundou, essa é a mesma imagem que vemos em todos os rios e oceanos: é o inacessível fantasma da vida, onde se encontra a chave de tudo”.

“Quem não é escravo nesta vida? Todas as pessoas de uma maneira ou outra são obrigadas a servir quase do mesmo jeito, quer do ponto de vista físico quanto metafísico”.

“Os anjos são empresários teatrais”.

“Melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão bêbado. A verdade é que os selvagens possuem o sentido inato da delicadeza…no fundo são extremamente polidos. Se a princípio nos intimidam, depois somos subjugados por sua simplicidade calma e serena, semelhante à sabedoria socrática”.

“Em que recenseamento dos vivos são incluídos os mortos da humanidade? Por que diz um provérbio universal que ele, os mortos, nada contam , embora guardem mais segredos que Goodwin Sands? Por que as companhias de seguro pagam prêmios pela morte dos imortais? Por que todos os vivos se esforçam por calar os mortos? Por que o mais simples rumor em um túmulo é capaz de aterrorizar uma cidade inteira?”

“Na época em que me refiro ao padre Mapple ele atravessava o vigoroso inverno de uma velhice sadia; esta espécie de velhice que parece fundir-se em uma segunda mocidade a florescer, porque entre os sulcos de suas rugas brilhavam os rebentos de uma floração recentemente desenvolvida, o verdor da primavera que assombra até mesmo sob a neve de fevereiro.”

“Se obedecemos a Deus, devemos desobedecer a nós mesmos; e nessa desobediência a nós mesmos é que consiste a dificuldade de obedecer a Deus.”

“A estibordo de cada aflição está um regozijo; o regozijo distante, elevado, interior, destina-se àquele que contra os soberbos deuses e comandantes deste mundo, sustentam sua própria e inexorável personalidade. O regozijo destina-se àquele cujos fortes braços o sustentam quando a nau traiçoeira deste mundo se afunda sob seus pés.”

“Todas as coisas nobres têm um quê de melancolia.”

“Alguns desses quáqueres são considerados os mais sanguinários marujos e baleeiros. São guerreiros vingativos… O piedoso Bildad há tempos concluíra que a religião de um homem é uma coisa e a vida prática, outra.”

“Somos carniceiros realmente; porém igualmente o são todos os belicosos capitães que o mundo insiste em honrar.”

“Starbuck dizia: “Não levarei em meu bote quem não tenha medo da baleia. A coragem mais útil e digna de confiança, é a que se origina da justa avaliação do perigo que se enfrenta, bem como que todo aquele que não sente medo é uma companhia muito mais perigosa que um covarde”. Ele não corria atrás do perigo, nele a coragem não era um sentimento, mas uma coisa útil e sempre disponível em todas as ocasiões praticamente mortais.”

“Os homens podem parecer detestáveis, como as sociedades anônimas e as nações; podem ser patifes, loucos e assassinos… mas o homem como ideal é por demais nobre e cintilante, um ser grandioso e luminoso…aquela imaculada humanidade que sentimos dentro de nós, tão intimamente que permanece inalterada quando todo o bom nome parece desaparecido, sangra com a mais indisfarsável angústia ao observar o espetáculo de um homem com bravura arruinada….Mas esta dignidade augusta a que me refiro não é a dignidade dos reis, mas a que não se esconde em trajes de gala. Está no que prega, naquele que usa uma picareta, aquela dignidade democrática que irradia de Deus sobre todos os trabalhadores. Sua onipresença, nossa divina igualdade!”

Acab: “Esse cachalote está em meu pensamento, me acompanha. Vejo nele uma força enorme com uma inescrutável maldade a movê-la. Essa coisa inescrutável é o que eu odeio; e seja o cachalote branco o agente, é nele que descarrego este ódio…Mais intolerável do que o olhar penetrante dos demônios é o olhar fixo dos tolos!...É injusto que para incendiar os outros tenha-se que, primeiro, combustir-se a si próprio…Na verdade sou diabólico, a loucura demoníaca. Aquela loucura enlouquecida que só se acalma para compreender-se”.

“Acab nutria uma feroz sede de vingança contra o cachalote, tanto mais terrível quanto, em sua frenética morbidez, chegara a identificar com ele não só todas as frustrações anteriores como também todas as iras intelectuais ou religiosas. O cachalote branco nadava diante dele como a encarnação exclusiva de todas essas intervenções maléficas que alguns homens carregam dentro de si e corroem até que se veem vivendo com meio coração ou um pulmão pela metade…todo o mal personificava-se e podia ser atingido em Moby Dick, pois sobre a corcova do cachalote branco ele depositava toda a sua raiva e todo o seu ódio pela humanidade desde os tempos de Adão; e , então, como se seu peito fosse um morteiro, estourava nela a granada de seu coração em chamas.”

“Acab continuava a delirar. A loucura humana é a coisa mais matreira e felina que existe. Quando se pensa que ela se foi, pode ter-se disfarçado em uma forma bem mais sutil. A loucura de Acab não terminou, apenas se escondeu aprofundando-se, no entanto, nem um pouco de sua inteligência natural havia se perdido. Como metáfora, a loucura tomou de assalto sua sensatez e a subjulgou, voltando toda a sua artilharia, concentrada, a serviço de seu louco propósito, de tal maneira que, muito longe de ter perdido a força, Acab possuia agora, para aquela atividade específica, mil vezes mais força do que a que poderia ter aplicado em qualquer objetivo sensato, quando em seu juízo perfeito.”

“Que tormentos sofre o homem que se consome em seus desejos de vingança. Dorme de mãos cerradas e acorda com as unhas ensanguentadas cravadas na palma. Como a mente deixa de existir quando desligada da alma, no caso de Acab, submetendo todos os seus pensamentos e caprichos ao supremo propósito, pelo absoluto arraigamento da vontade, criou contra si mesmo, deuses e contra-deuses, uma espécie de existência própria, auto-assumida e independente.”

“Se teus pensamentos deram origem a uma criatura em ti… aquele cujo intenso pensamento o transformou assim em um Prometeu, um abutre pastará eternamente em teu coração, e o abutre é a própria criatura por ti criada.”

“A condição permanente e orgânica do homem, tal como constituído, pensava Acab, é a sordidez. As coisas mais sem importância, para o monomaníaco parecem caprichosamente repletas de sentido.”

A vida está repleta de momentos e ocasiões bastante estranhos e embaralhados. Nesses momentos a pessoa passa a ver o universo inteiro como uma vasta pilhéria virtual, conquanto apenas em um relance lhe perceba a graça e suspeite muito de que a pilhéria esteja sendo feita exclusivamente às suas custas e de niguém mais.”

“Todos os homens vivem cercados por arpoeiras. Todos nascem com cordas em volta do pescoço; mas somente quando são pegos na súbita e repentina reviravolta da morte é que os mortais compreendem os silenciosos, sutis e sempre presentes perigos da vida.”

“Vá a um mercado de carnes e observe as chusmas de bípedes vivos observando as longas fileiras dos quadrúpedes mortos. Um espetáculo desse tipo não desperta o canibal? Canibal, mas quem não é canibal? No dia do Juízo final será mais facilmente perdoado um fidgiano que tenha salgado um missionário magro na dispensa, a fim de previnir-se contra a fome, do que tu, meu civilizado esclarecido e guloso, que prendes os gansos no chão e regalas-te com seus fígados inchados no teu paté de “foie gras.”

“Não é você a preciosa imagem de cada um de nós, homens, neste mundo igualmente baleeiro? O oceano no qual você está ofegando é a Vida; os tubarões seus inimigos, as pás, seus amigos; e como entre tubarões e pás, você está em apuro e perigos, pobre rapaz!”

“Para Locke o conhecimento é posterior à evidência sensível e para Kant, é apriorístico.”

“O estudo da fisiognomia, como qualquer outra ciência humana, nada mais é que uma fábula transitória.”

“Muito semelhante à aventura de Perseu e Andrômeda- e de acordo com alguns, dela derivada, é a famosa história de São Jorge e o dragão. As baleias e os dragões são mito confundidos nas histórias antigas.”

“Todos têm dúvidas, muitos negam; mas das dúvidas e das negativas, poucos dos que as carregam têm intuições. Dúvidas de todas as coisas terrenas e intuição de algumas coisas celestes: esta combinação não faz ninguém crente ou incrédulo, mas faz um homem se este contempla umas e outras coisas com olhar imparcial.”

“Sua enorme força (a da baleia) não tira a graciosidade de seus movimentos, em que uma infantil facilidade ondula mediante uma titânica pujança. Muito pelo contrário, seus movimentos são resultado de sua mais terrível beleza. O vigor real em nada atrapalha a beleza ou a harmonia, antes as confere; e em tudo que for extremamente belo, a força tem muito a ver com a magia. Tirai os nodosos tendões que aparecem em todo o mármore da estátua de Hércules e seu encanto será diminuído. Quando Eckerman tirou o lençol de linho que ocultava o corpo nu de Goethe, ficou emocionado diante do maciço tórax que se assemelhava a um arco do triunfo romano. Quando Miquelângelo representa Deus dando-lhe uma forma humana, observai a robustez que lhe imprime.”

“Apesar de tudo o que possa ser exposto do amor divino no filho, nas brandas, crespas e hermafroditas pinturas italianas em que se procurou encarnar a sua imagem com maior sucesso, tão despojadas como o são de todo vigor, essas pinturas nada transmitem de força, a não ser a meramente negativa e feminil da obediência e da resignação (a respeito de Rafael).”

“Código baleeiro da Holanda de 1695: 1. Peixe preso pertence a quem o prende; 2. Peixe solto é caça legítima de quem o apanhar.”

“Não se ouve por aí um provérbio segundo o qual a posse é meia propriedade, sem levar em conta o modo como se obteve essa posse? Mas frequentemente a posse é o direito de propriedade. Que são os músculos e almas dos servos russos e dos escravos republicanos senão peixes presos cuja posse significa todo direito à propriedade? Que será para o proprietário a última migalha de uma viúva senão um peixe preso? O que é a mansão de mármore de um vilão enrustido senão peixe preso? O que é um ruinoso ágio senão um peixe preso? Que são os salários de cem mil libras do Arcebispo de Salva-Almas, tirados do pão e queijos escassos de milhares de trabalhadores de costas curvadas senão peixes presos? O que são as cidades e os povoados hereditários senão peixe preso? E com relação a esses todos, não será a posse toda a lei? Mas se a doutrina do peixe preso é em geral bastante aplicável, a do peixe solto o é ainda mais amplamente. Que era a América em 1492 senão peixe solto? Que é a Polônia para o Czar? E a Grécia para os turcos? E a Índia para a Inglaterra? E o México para os Estados Unidos? Que são os Direitos do Homem e as Liberdades do Mundo senão peixe solto? Que são as mentes e opiniões dos homens senão peixes soltos? Que é o princípio da crença religiosa senão peixe solto?”

“Aquele que evita hospitais e prisões e caminha rapidamente ao cruzar cemitérios, prefere falar de óperas a falar do inferno, que chama Cowper, Young, Pascal e Rousseau de pobres-diabos enfermos …esse homem não é digno de sentar-se em lápides sepucrais e de romper a terra verde e úmida, com o insondável e maravilhoso ensinamento de Salomão.”

“Há uma sabedoria na aflição; mas há uma aflição que é loucura. E há em algumas almas uma águia de Castskill, que tanto pode mergulhar nos mais negros desfiladeiros, como voar de novo a grande altitude e se tornar invisível nos espaços cheios de sol. E ainda que ela voasse no desfiladeiro, esse desfiladeiro fica nas montanhas; assim, mesmo em sua mais baixa descida, a águia da montanha voa mais alto que outros pássaros sobre a planície, por mais alto que voem.”

Almanaque: “ Para começar, Áries ou Carneiro- tipo luxurioso que nos dá a vida; depois, Taurus, nos dá a primeira marrada, antes de tudo; depois, Gemini, a Virtude e o Vício; depois, Câncer, o caranguejo que nos arrasta para trás e, então, longe da Virtude, o Leão, um rugidor que deita-se no caminho e dá ferozes mordidas; livramo-nos e saudamos Virgo, que é o nosso primeiro amor; casamo-nos e pensamos ter encontrado a felicidade eterna, quando, de repente, vem Libra ou a Balança: a felicidade é posta no prato e vemos que não era tanta quanto imaginávamos; e enquanto nos entristecemos muito com isto vem Scorpio que nos aferroa por trás; estamos ainda cuidando das feridas quando em nossa volta sibilam as setas de Sagitarium, o Arqueiro que está se divertindo. Quando arrancamos as flechas e saímos do caminho, chega o ariete, Capricórneo, a cabra impetuosa que nos atira de ponta cabeça; então, Aquário verte todo o aguaceiro e nos afoga em um dilúvio. E para concluir, dormimos com os Peixes.”

“Como devo chamá-lo senhor? Sábio ou louco? Se for realmente sábio, possui certo ar de louco; mas se for realmente louco, possui certo ar de sábio.”

“O tempo, por ser humano, começa com o próprio homem.”

“Sentai como um sultão entre as luas de Saturno e considerai abstratamente o indivíduo; parecer-vos-á uma maravilha, uma grandeza e uma calamidade. Mas, do mesmo ponto observai a humanidade em conjunto e vereis que os homens, na sua maioria, parecem formar uma multidão de duplicatas desnecessárias, tanto contemporâneas quanto hereditárias.”

Sobre o ferreiro, que possuia uma vida feliz em família, mas que tudo perdera: “Sua voz lânguida transmite calma, e parece sensatamente magoada. Como sei que não estou em paraíso algum, não suporto nos outros, miséria alguma que não seja loucura. Não pode enlouquecer, ferreiro? Diga, por que não enlouqueces? Como consegue enfrentar tudo sem a loucura? Será que os céus ainda o odeiam tanto a ponto de não lhe permitir enlouquecer?”

“Ego non baptizo te in nomine Patris, sed in nomine diaboli!”

“Que a fé expulse a realidade; que a fantasia ocupe o lugar da memória.”

“Oh clareiras verdejantes, paisagens intermináveis da alma, para sempre primaveris! Em vós, podem os homens correr sempre, como cavalos novos no trevo recente e matinal, e sentir durante alguns momentos fugazes, o fresco orvalho da vida imortal. Quisesse Deus que durassem essas benditas almas! Porém, os fios entrelaçados da vida formam uma teia e uma urdidura. As calmas são atravessadas pelas tormentas, uma tormenta para cada calma.”

“Nesta vida não há progressos contínuos, não avançamos por graduações fixas, com uma pausa no fim: através do encanto inconsciente da infância, da fé irrefletida da meninice, da dúvida da adolescência, depois do ceticismo, depois da descrença, para por fim parar na virilidade, no meditativo repouso da incógnita do homem. Mas tendo feito o caminho, recomeçamos o circuíto: e somos crianças, meninos, homens eternamente. Onde se encontra o encoradouro final do qual não mais zarparemos? Nossas almas são como aqueles órfãos cujas mães não casadas morrem quando nascemos: o segredo de nossa paternidade jaz-lhes no túmulo e neste devemos encontrá-lo.”

“Vejam vocês que acreditam em deuses cheios de bondade, e em homens cheios de maldade. Vejam que os deuses todo poderosos desdenham o sofrimento humano; e o homem, mesmo não sabendo o que faz, é cheio dos doces sentimentos do amor e gratidão.”

“A fé é apenas uma forma de exclamação. É tudo.”

“Os dois são os pólos opostos de uma criatura: Starbuck é Stubb ao contrário, e Stubb é Starbuck ao revés, e os dois são toda a humanidade e Acab permanece sozinho no meio de milhões da terra povoada, sem deuses, sem homens, sem vizinhos.”

“Se Acab tivesse tempo para pensar, certamente esse seria o momento ideal para isso, mas Acab nunca pensa; somente sente, sente, sente; isto é estímulo demais para o homem mortal! Pensar é audácia. Só Deus tem o direito e o privilégio de pensar. Frieza e tranquilidade é o que deveria ser o ato de pensar e o nosso nobre coração pulsa, e nosso pobre cérebro se confunde muito com isso…. Fosse eu o vento e jamais sopraria neste mundo tão ruim e desgraçado. Rastejaria para uma caverna, em algum lugar distante, e nela me esconderia furtivamente. E não obstante, o vento é nobre e heroico. Ninguém conseguiu conquistá-lo. Acab é o ser mais bravo, ele é mais bravo que o vento…Mas todas as coisas que mais exasperam e ultrajam o homem mortal, todas elas são imateriais.”

FINIS