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Helenismo e a Tragédia Grega

Ésquilo

O mundo como deveria ser



Lápide funerária, provavelmente mandada gravar pelo próprio Ésquilo antes de sua morte: “Esse memorial encerra Ésquilo, filho de Eufórion, ateniense, morto em Gela, rica em frumento. O meda de cabelos longos e a baía célebre de Maratona conhecem seu valor”.  

Nascido em 525, Ésquilo tem cerca de 18 anos quando as reformas de Clístenes conduzem o cidadão de Atenas, pela primeira vez, à democracia. Lutou como soldado contra as invasões persas em Maratona (490) e em Salamina (480).

De toda a sua imensa produção artística, estimada em noventa tragédias, mais de vinte dramas satíricos, apenas sete tragédias chegaram até nós: A Trilogia de Orestes( Agamemnon, Coeforas e As Eumênides), Prometeu Agrilhoado, Os Sete contra Tebas, Os Persas e as Suplicantes.

A tragédia como uma forma de identificação da nova cidade democrática, vai, com Ésquilo, procurar no mito antigo do príncipe que se torna tirano, ou no seu parente tirano, a representação dos erros que o conduzirão à perdição; todo o seu comportamento será questionado no jogo dos atores que encarnarão este herói e na oposição movida pelo coro e seus coreutas. Com Ésquilo, o coro que ainda não é o povo da Atenas, dado que é composto normalmente por mulheres, escravas, deusas e velhos, não está ainda qualificado para representar a cidade. O povo está apenas nos degraus do teatro.

Quando os figurantes exercitam o seu direito a voto e conquista da democracia, eles o fazem de maneira muda e sua decisão é comunicada ou pelo herói ou por um deus ou uma deusa. A relação entre os tempos dos deuses e o os homens estão ainda separados e são diferentes, mas a interferência do divino no mundo humano é permanente. Não existe conflito entre os homens que não seja um reflexo dos conflitos que acontecem entre as forças do divino. Toda tragédia que “ocorra” no mundo, constitui, então, quase que um desdobramento de uma tragédia entre os deuses. 

Ao mesmo tempo, o sentido dos oráculos, que são os intermediários entre os dois mundo e assinaladores de caminhos premonitórios, modifica-se pausadamente até atingir a transparência final. Diz Vernant que “a dominação de Zeus, a transcendência de Zeus, o triunfo final de Zeus estão no horizonte de toda a obra esquiliana... ” Por outro lado, enquanto tragédias, é preciso que a cidade que já possui um ordenamento se reconheça e questione: tanto as magistraturas, quanto o poder das assembléias, dos votos, a escravatura, a dominação machista e a exclusão provisória dos jovens das responsabilidades de cidadãos. Uma ordem que exclui dos direitos da cidadania os bárbaros (os não gregos residentes na Grécia) e que segrega até mesmo outros gregos estrangeiros (não atenienses); em que os lanceiros hoplitas levam vantagens sobre os arqueiros e mesmos sobre cavaleiros, que não podiam arcar com os custos de pesadas roupas e onde a ordem familiar se insere na ordem política.

É a ação recíproca de todos esses elementos, nos mais diversos níveis, que constitui a ordem cívica. Ainda se deve ressaltar que os tempos de Ésquilo são antes de mais nada “heróicos”: graças à disciplina, ao combate voluntário na defesa do que o cidadão reconhecia como seu, os exércitos persas haviam sido batidos por tropas gregas muito inferiores em número, mas não em audácia e coragem cívica. A democracia que surgira vitoriosa, afastando os eupátridas e os tiranos internos, agora liderava a libertação de toda a Grécia do domínio do Grande Rei Persa, primeiro Dario, e depois, de seu filho, Xerxes, ambos derrotados pelos gregos.

Todo um novo mundo poderia ser edificado sob valores que iam sendo descobertos ou redescobertos, sob a unidade e comando divinos. Atenas apesar de ainda ser pobre é vencedora. Aí temos,em breves linhas, o panorama das tragédias de Ésquilo. Finalmente, Lesky observa que o homem de Ésquilo cumpre como que um imperativo do destino que, no entanto, não o exime do fato da própria responsabilidade pelos atos praticados, por isso ele representaria em suas tragédias "O mundo como ele deveria ser".

A Trilogia de Orestes



A Trilogia de Ésquilo consiste na única tríade (era, inicialmente, uma quadrilogia, mas a peça satírica perdeu-se) que chegou em sua íntegra até os nossos dias. A trilogia foi publicada em 458 a.C. e nela Ésquilo situa em primeiro plano os sentimentos de poder, ódio, traição e da vingança. As ações humanas deverão ser sempre julgadas pelos deuses e pelos homens.

Ela compõe-se de três partes: 

1. Agamemnon;

2. Coeforas (as libações);

3. As Eumênides. 

 

1. AGAMEMNON

Cena representando Agamemnon que descansa envolto no roupão que o imobilizaria, espreitado por sua mulher Clitemnestra, a qual empunha o punhal com que em breve o matará; na cena ela é secundada por seu amante e parceiro no crime, Egisto.  

 

Na primeira tragédia da trilogia, todo ambiente e o passado da longa história de crimes que marcava o mito da casa dos Átridas, da cidade de Argos, é contada. História que se inicia com Pelops e seus dois filhos, Atreu e Thyestes. Esse último seduz a mulher do primeiro e é exilado. Por iniciativa de Atreu, o primogênito, ocorre um banquete de reconciliação, mas a carne servida é dos próprios filhos do convidado, Thiestes, sacrificados. Apenas um filho de Thyestes não foi imolado pelo tio, exatamente o Egisto de nossa história. Atreu, por seu lado, terá dois filhos, Menelau e Agamemnon, sendo que o primeiro reinará em Esparta e o segundo em Micenas, capital de Argos. 

Os irmãos casar-se-ão também com duas irmãs, Helena e Clitemnestra, filhas do mortal Tíndaro ou de Zeus, dado que ambos compartilhavam o mesmo leito com Leda, a mãe. Helena, que por sua beleza, seduz e é seduzida por Páris, filho do rei da distante Troia, quando ele foi hospedado pelo marido, Menelau, em Esparta. Páris rapta-a e leva a “mais bela das mortais”para a sua cidade, Troia. Este desrespeito, esta falta de medida de Páris, custará muito caro à sua cidade, pois desencadeará a guerra em que todos os gregos se unirão para a destruição de Troia, sob o comando de Agamemnon. Esssa guerra durará mais de dez anos e a tragédia inicia-se no momento em que ela tem um fim. Vamos à Tragédia. 

 

Agamemnon tem por cenário o palácio dos Átridas em Argos, quando a vitória dos gregos sobre os troianos é anunciada; a notícia chega através de centenas de fogueiras acesas que da Ásia Menor a Argos iluminam o céu. Também simbolizam o retorno dos heróis a seus lares, com os seus botins de guerra. Clitemnestra vivia com o seu amante, Egisto, no palácio que pertencia a seu marido, o comandante grego da destruição de Troia.

Sabendo do retorno iminente deste, a rainha dirige-se ao coro e ao público e conta a sua história, justificando uma primeira traição, a da cama, como fruto do resultado de uma vingança: o sacrifício de Ifigência sua filha.  Quando Agamemnon e Menelau preparavam-se para a expedição vingativa contra Troia, ambos tiveram a visão de duas águias, símbolos reais, que aos olhos dos irmãos atacava uma lebre prenha, mantando-a e ao filhote no momento de nascer. Calcas, o vidente, interpretava a visão como os dois Atridas conseguindo vencer a cidade de Troia. Mas acautela-os de que Artemis, ofendida pela invasão ao reino do selvagem (morte da prenhe e da cria) poderia criar obstáculos às frotas gregas. Em decorrência, na ilha de Áulis, a frota é acometida por ventos contrários e, novamente Calcas pressagia que somente o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamemnon e Clitemnestra, traria ventos propícios à continuidade da expedição guerreira. Agamemnon poderia ter reconhecido seus limites e retrocedido, mas o orgulho, a ânsia guerreira e a cobiça preparam a sua desmedida e o sangue de Ifigênia é vertido em sacrifício. Os ventos tornam-se propícios e o comandante dos gregos aporta às terras de Troia.

Clitemnestra ainda diz ao coro que a guerra contra Troia não guarda proporção com o rapto de sua irmã, Helena, a qual acusa de infidelidade e falsidade e, cinicamente, ainda sugere que uma guerra que não respeita os deuses dos vencidos pode ser perigosa para os vencedores. E claramente antecipa as suas ações: “Da justiça a balança se equilibra. E aquele que matou há de ser morto... e que prevaleça a justiça, por enquanto.” O coro traça um contra-ponto e configura a mensagem essencial da peça teatral, ao afirmar que: “O orgulho aqui paga a sua dívida, e aqueles que zombam do direito, aqueles que confiam tão somente na força e na riqueza dos monarcas, um destino cruel tomam. O caminho do meio é preferível: não ser rico nem pobre...uma vez tendo o homem transgredido os ditames do bem e consentido que a sua riqueza e seu orgulho profanem o santuário da justiça, não terá esperanças de esconder-se. Voltar atrás não pode e o demônio da tentação o empurrará para frente, no caminho da perdição...Não é a prosperidade que acarreta o sofrimento humano, e sim, a culpa. As más ações engendram semelhantes, é a essência do mal ao multiplicar-se... mas a Justiça acabará por fim, iluminando as trevas protetoras, desvendando tremores, remorsos e crimes, que a riqueza e o poder podem até esconder, mas nunca para sempre.”

Coloca-se, de certo modo ambíguo, em acordo com Clitemnestra, quando proclama sobre os homens mortos na batalha: “ Morreu nobremente, combatendo como um herói! Mas seus parentes murmuram : Sim, morreu pela esposa de um outro. E a tristeza estimula o rancor, que, por medo, deve se esconder, temeroso. Que os reis se vinguem de outros reis quando quiserem… que o mau ceda o lugar ao pior, quando o orgulho e o sucesso levam os homens a esquecerem as leis da integridade…Prefiro, pois, riqueza moderada que não provoque inveja ou despeito, prefiro ter a vida e a liberdade em vez da guerra e da fúria do destino.”

Agamemnon após tormentosa viagem, retorna à sua cidade, acompanhado pelo principal botim de guerra: Cassandra, filha de Príamo, rei de Troia, tornada sua escrava e amante.

É recepcionado por Clitemnestra que o convence a caminhar sobre um tapete púrpura, cor reservada aos deuses, com os pés sujos e impuros. O orgulho é causa de sua desmedida; Agamemnon comete ainda outra desmedida, pois se crê, pelas conquistas da guerra, semelhante aos deuses. O coro acompanha a entrada do casal no palácio e conclui: “se eu não estivesse certo de que sempre os efeitos e as causas se cumprem na sequência ordenada pelos deuses, não me atormentariam esses presságios que não me permitem o descanso”.

Deixada fora do palácio, Cassandra, a profetiza, novamente cumpre o destino que lhe foi imposto por haver recusado unir-se no amor a Apolo, pois está destinada a que ninguém creia em suas previsões, sempre funestas. Ela recorda todos os horrores que já passaram por aquela casa, onde o sangue das crianças fora derramado e transformado em alimento para o seu próprio pai. Todos os horrores pelos quais passara também ela e todo o povo de Troia, com os seus homens mortos. Seu pai, o rei de Troia, Príamo assassinado, as crianças assassinadas, todo o tesouro roubado, as mulheres escravizadas.

E prenuncia: ”Ela é a leoa em forma humana, que, ausente o senhor, tramou com um lobo, e vai por fim à minha triste vida…A vil cadela contra a vida trama, o Grande General não sabe a vingança que se lhe prepara e a fêmea matará o macho… Mas não vamos morrer ignorados pelos céus. Será vingada a nossa causa por um terceiro homem que irá matar a própria mãe, honrando o sangue derramado de seu pai.” E ainda, caminhando para dentro da casa onde morrerá: “já sinto o cheiro do assassinato. O sangue escorre pelas paredes todas”.

Ouvem-se os gritos de socorro de um Agamemnon mortalmente ferido. O coro se excita: “Façamos algo, o tempo urge, ao que tal ato avisa é evidente: os assassinos querem a tirania… antes a morte à vida sob tiranos.” As portas se abrem do palácio e surge Clitemnestra e a seus pés, morto, Agamemnon em uma banheira de prata, envolto em manto púrpura. A "leoa" descreve o modo como, com astúcia, assassinou o marido, e diz serem seus motivos não apenas a vingança pela imolação da filha, mas também a afronta sofrida pelo marido haver trazido para o lar a concubina troiana. Três vezes ferido, como um animal selvagem pego em emboscada, a morte do rei, tal qual a de Cassandra e Ifigênia, assume ares sacrificiais. Aliada ao único filho de Thyestes que escapara à morte no banquete canibal, Egisto, assume a postura das Erínias na vingança pelo crime perpetrado pelo pai de Agamemnon.

O coro novamente se contrapõe: “A acusação responde à acusação, e a verdade continua não descortinada. Ela matou o matador. Quem ousa matar paga com a morte sua culpa. Enquanto Zeus no céu seu trono ocupe, este princípio valerá na terra: aquele que matou tem que morrer”. Egisto ameaça os anciãos do coro dizendo o quanto é dura e penosa a disciplina, quando à velhice falta a maturidade e que as cadeias e a fome constituem bons educadores. Tinham razões de sobra os anciãos ao temerem a tirania! Mas a Clitemnestra, uma mulher no comando da cidade, não interessa a repressão neste momento, e ela diz ao coro de anciãos: “A violência já foi suficiente, não mergulhemos em sangue mais profundamente.” E, em particular para Egisto: “Esquece esta corja; nós dois juntos imporemos reverência ao trono”.

 

2. COEFORAS

Orestes, impulsionado por sua irmã Electra, assassina a própria mãe, Clitemnestra, utilizando o punhal com que já abatera Egisto.

 

As Coeforas, literalmente “as portadoras de libações”, constitui um contra-ponto de Agamemnon. Na primeira tragédia, a vítima é recebida pela assassina e, na Coeforas, o assassino será recebido pela vítima; na anterior é o homem a ser enganado e nesta, será a mulher a ser enganada. De qualquer forma, os assassinatos serão perpetrados graças à astúcia e à premeditação.

A tragédia tem como quadro inicial o túmulo de Agamemnon, um monte de terra que fica fora das muralhas da cidade de Argos. Orestes que, em companhia de seu amigo Pílades, retorna após muitos anos de exílio, realiza suas homenagens e ora para Zeus e para seu pai defunto, para que defendam seus direitos e herança. Deixa sobre o túmulo um cacho de seus cabelos. Surge um grupo de mulheres e, dentre elas, Electra, portadoras de libações, as coeforas, em homenagem ao pai morto e os jovens ocultam-se.

O coro expressa o sentimento das mulheres que acompanham Electra: “Casa do sofrimento, decadente, estranha e vergonhosa, bem no rumo das trevas, da negra culpa que o homem abomina… houve um tempo em que um princípio era colocado acima de todos os demais: pela casa real, a reverência”. Pudera, numa sociedade machista como a grega, Clitemnestra, levara para a cama o filho de Thyestes, matara o macho da família dominante descendente de Atreu e ainda por cima, comandava o novo consorte, o esperto, mas covarde Egisto.

“O sucesso é o deus dos homens, e, em verdade, mais que um deus… e a maldição pode anos esperar, mas não se esquece, com fúria irrompe, que empecilho poderá detê-la?...Se a porta da virtude for arromabada, por-lhe trancas será impossível.” Electra ergue aos deuses suas preces: “Zeus e meu pai, tende piedade de mim e de Orestes…Não temos um lar, pois foi vendido por nossa mãe e o preço foi Egisto, que te assassinou. Eu como escrava hoje vivo e Orestes, meu irmão, desterrado. Tudo o que eu quero é ter puro o coração e as mãos lavadas, de minha própria mãe ser diferente”. Ao encontrar a mecha de cabelos no túmulo, idêntica aos seus, Orestes, que se escondera, faz-se aparecer e apresenta-se como tal à irmã.

Ele retoma o tema inicial das águias avistadas por seu pai antes da aventura troiana: “Zeus , não tire os olhos de nós e do que vamos empreender. Vê a estirpe da águia deserdada, e a águia morta traiçoeiramente, presa nas roscas da cruel serpente… se nos desamparares, onde irás encontrar quem te seja tão fiel e tão liberal nos sacrifícios?” E declara à irmã o que lhe transmitira o oráculo de Apolo: “Que ao filho que não vinga o assassinato do pai, coisas piores haverá de sofrer; pios as Erínias ( as Fúrias vingadoras dos crimes de sangue) o atacarão, selvagens que são, atraídas pela herança maldita que carrega. E armadas com as setas da loucura, das trevas, do terror, dos pesadelos, irão implacáveis persegui-lo, tornando imundo tudo o que ele tocar”. E por fim, Oreste resume os motivos de sua vingança: “a ordem do deus, a dor que me provoca a perda do pai e, justamente, a minha herança que me foi roubada. E além disso, a vergonha de ver a outrora gloriosa Pátria …governados por uma mulher e um homem efeminado”.

Electra, que é um duplo de Orestes nesta tragédia, complementa: “Que devemos dizer para o pai morto para que em sua justa ira se apresente? Seriam os males e a miséria que nossa própria mãe nos fez sofrer? Ela que se acautele, ainda que nos tente agradar… ah, os filhotes de lobo, pela loba gerados e criados, são iguais à loba! Ái de quem tratá-los bem”. Electra se declara possuidora do mesmo coração de Egisto, o lobo, que se acovarda se tiver que agir abertamente, mas que emprega a astúcia e a simulação. Já Orestes, em relação à mãe, adotará metaforicamente a mesma atitude desta em relação a Agamemnon, a serpente que envolve e mata.

O coro diz a Orestes que nos pesadelos que assolavam as noites de Clitemnestra, ela dissera que sonhara ter dado à luz uma serpente e que, tomando-a nos braços, embalara-a, dando-lhe o seio para mamar o leite e o próprio sangue. Orestes: “Que em víbora eu me torne! O assassino desta mulher tenho que sê-lo por força.”

Astuciosamente, Orestes sem ser reconhecido pois fora exilado desde criança, apresenta-se como mensageiro no palácio dos Atridas. Diz a Clitemnestra que traz a notícia da morte no exílio do próprio Orestes e é aí acolhido como hóspede. A ama que sempre dele cuidara é encarregada de comunicar a morte a Egisto. O coro aconselha-a a mostrar-se alegre e a persuadir Egisto para que venha só e sem escolta até o hóspede. Assim ocorre e Egisto encontra a sua morte pelas mãos de Orestes. Ao seu grito de socorro acorre Clitemnestra e o escravo lhe diz: “É que o morto está ressuscitando para matar os vivos”. Ao que ela responde: “Pela astúcia matamos, por ela vamos ser mortos”.

Clitemnestra implora pela vida. Orestes vacila quando a mãe lhe desnuda o próprio seio, mas é compelido a agir pelo amigo Pílades: “Onde estão as palavras que Apolo pronunciou por seus oráculos? E onde o juramento que prestaste? Podes tornar-te inimigo de todos os homens, mas não te tornes de um só deus”. Orestes empurra a mãe para dentro do palácio e na próxima cena Orestes já está de pé junto aos cadáveres de Egisto e Clitemnestra e escravos seguram o roupão manchado de sangue com que ela prendera Agamemnon. “Sim, matei a minha mãe, mas com todo o direito, pois manchada estava pelo assassínio de meu pai e culpada perante os deuses…Sou culpado ou não? Vede esta espada de Egisto ensanguentada. É minha prova. Sim, prova de sangue. Castiguei. O castigo mereciam... A inquietação, entanto, me persegue, pois é uma vitória que se afoga em sangue… Quanto aos conjuros que a tal ato me impeliram, ofereço com confiança o testemunho do próprio Apolo, cujo oráculo me anunciou que eu estaria livre de culpa se tal ato praticasse.”

Livre de culpa, mas consciente do ato e de sua vontade independente do deus. Logo a seguir, entretanto, Orestes pressente o aproximar das Erínias vingadoras, mas que são visíveis somente para ele próprio. Seu ânimo muda instantaneamente: “Olhai, olhai, elas estão ali! Iguais às górgonas com mantos escuros e serpentes em torno do corpo! Deixem-me fugir…elas são os mastins da vingança que se avultam pelo sangue derramado.” Orestes sai correndo.

O coro conclui: “A morte das crianças perpetrada no passado trouxe a maldição. Pela segunda vez morreu um homem valente e bom, agora outro sangue é derramado… quando se apagará a maldição ancestral e sua fúria se esgotará?”

 

3. AS EUMÊNIDES

 

A perseguição das três Erínias a Orestes, após o assassinato da mãe, ao fundo, apunhalada.  

A terceira parte de tragédia transcorre em dois momentos: o primeiro cenário será o Templo de Apolo em Delfos, onde vemos, em meio à natureza, o templo tido pelos gregos como o umbigo do mundo; o segundo momento será a cidade de Atenas, na Acrópole. Teremos por um lado a natureza selvagem e, por outro, a civilização que se alternam e, ao final ambas se harmonizam.  Tudo principia com a fala inicial da pitoniza apolínea, passa pela instituição do “primeiro tribunal para julgar crimes de morte” e termina com a transformação das Fúrias selvagens em “Bem-Vindas”, Eumênedes, protetoras da democracia e do comportamento civilizado, dando limites à liberdade e o respeito às leis, milagre operado pela deusa Atena e implantado na democrática cidade de Atenas. 

 

As Eumênides principia com a fala da sacerdotiza que explicita as relações dos deuses com seu oráculo e dela com os homens. Mas sua dissertação é interrompida com a cena que encontra no interior do Templo. Ela vê as Erínias, hárpias imundas e mal cheirosas, adormecidas sobre um banco, por ação hipnótica do deus Apolo. Surgem Apolo e Hermes, que aconselham  Orestes a que fuja enquanto as Fúrias dormem e busque abrigo em Atenas, abraçando-se suplicante aos pés da estátua de Palas Atena. Hermes será seu condutor.

Assim que saem de cena, o fantasma de Clitemnestra chega e vem despertar as Erínias, assulando-as contra o filho matricida. Ao despertar, as megeras resmungam: “ o flagelo do remorso, pela mão do destino sustentado e de cujo castigo não se escapa… mas o criminoso contou com a proteção dos jovens deuses, que reinam no lugar dos que reinavam antes". Exclamam: "sagrado Febo, como ousaste em teu próprio templo violar as leis que outros deuses decretaram, protegendo o que as Parcas do destino condenaram? ” Apolo, no entanto, ao entrar ordena que saiam: “Não é aqui o seu lugar, mas sim em algum subterrâneo, onde torturas são praticadas, nalgum antro cheio de olhos arrancados e cabeças decepadas, de corpos empalados. Estes são os banquetes que vos tentam, ( e ordena) fora daqui!”

Trava-se uma discussão entre o coro, representando as Erínias e Apolo, quando este diz que a ligação entre o marido e sua mulher, apesar de não ser uma ligação de sangue, é uma união protegida pela Justiça e é elo abençoado, sendo mais sagrado que um juramento.

Segunda cena: Templo de Palas, em Atenas. Orestes roga pela proteção da deusa, dizendo ter sido o remorso pelo assassinato da mãe apagado de sua alma, pois ele fora obediente a Apolo. Mas ele já é farejado pelas Erínias que insistem com que ele deva pagar o preço pelo crime praticado. O coro que as representa lhe diz: “Não creia que Apolo ou Atenéia tenham o poder de te salvar… perdido, escorraçado viverás, sem sequer se lembrar de uma alegria, como um fantasma lívido e teu sangue será por nós sugado lentamente… Eu o acompanharei, como o Remorso, sem descaso até o dia de tua morte, pois desde o dia do nosso nascimento nos foi dado o poder de castigar a culpa dos mortais… O tormento e o castigo a quem merece, pois quando o ódio surgir no mesmo lar e os parentes matarem-se uns aos outos, lá estaremos para castigar. ”

Entra em cena Atena e estabelece que, mesmo perante a acusação realizada pelas Erínias, “que procuram mais a forma da justiça que a justiça”, ambas as partes devam ser ouvidas. As Erínias, afinal, aceitam a mediação da deusa num julgamento. Ela, primeiramente dá a palavra para que Orestes se explique. Ele descreve seu caso e diz “ter matado justamente , como preço da vida do pai, mas que Apolo é também responsável por seu ato, pois falara-lhes das terríveis consequências de sua inação.”

Atena classifica o caso como muito grave e decide formar um juri, escolhendo um grupo de doze jurados, dentre os cidadãos mais sábios e mais prudentes, um Tribunal que será perpétuo, para julgar os crimes de homicídio. Incita as partes a trazerem provas e convocar as testemunhas que irão depor. O coro, representando sempre a acusação, define uma postura exemplar na tutela da Liberdade e da Justiça: “O bem tem que ser assegurado pelo temor… Se ao contrário, ninguém tiver temor no coração, quem irá se curvar perante a justiça quando for a ocasião? Nem a licenciosidade se procure quando o império das leis não vigore, nem a escravidão sob um tirano. Onde se ajustam a liberdade e a lei o sucesso estará assegurado… A sede insana de lucro, de triunfo a qualquer preço, profanará a sua santidade ( de uma vida ditosa).”

Atena traz consigo os doze jurados e declara iniciados os debates. Primeiro fala a acusação, Orestes é inquerido sobre a morte da mãe, ao que ele responde que cumpria um oráculo que lhe fora passado por um deus, Apolo. O coro pede sua condenação. Em seguida, fala Apolo como deus- profeta, a verdade e a justiça promovendo, deixando claro, desde o princípio, que todas as suas professias são por Zeus determinadas. Assume, em nome de Zeus, haver pronunciado o oráculo que mandara Orestes vingar a morte do pai. É aberto o debate entre defesa e acusação. O argumento central de Apolo é fruto do patriarcalismo e do machismo da sociedade ateniense. “Não é a mãe que realmente gera o filho que é chamado de seu. Ela não passa de uma guardiã, de uma ama que cuida da semente plantada em suas entranhas pelo homem, verdadeiro gerador.”Apresenta como prova de que um pai pode gerar uma filha sem mãe a existência da própria Atena, saída da cabeça de Zeus, mas também profetiza que nenhum deus repetirá esta façanha no futuro, apesar que exceto em relação à morte, Zeus tenha o poder de fazer e desfazer leis as leis divinas. E que o crime praticado por Clitemnestra contra o pai de Orestes, um herói vitorioso, fora tremendo e merecia castigo.

Atena encerra o debate e anuncia a permanência do Areópago, como tribunal específico para julgar crimes de sangue. “Respeitar a forma de governo que se afasta da escravizadora mansidão e da licensiosa liberdade. O homem que vivesse liberto do temor seria justo?” A cada jurado são dadas duas pedrinhas, uma branca e outra preta, a branca absolve, a preta condena. Atenéia, antes da contagem dos votos, anuncia o seu, absolvendo Orestes, “o direito paterno e a varonil supremacia prevalece em tudo, exceto no direito que tenho de ser virgem”. E declara, como os votos foram em idênticos valores pró e contra o réu, que ele está livre.

Mas que jamais a absolvição fará dele um cidadão ateniense, apenas a liberdade para partir lhe é concedida. Imediatamente Orestes se compromete com a cidade de Atenas e com a deusa a partir e corre a acalmar a ira das Erínias ofendidas no seu direito, que ameçam inundar toda a terra de fel, ira e injúrias, pois os humanos, a partir deste exemplo, perderão o receio pela punição por seus crimes.

Palas diz claramente que jamais as Fúrias vingadoras foram desonradas ou mesmo derrotadas, que a honra e a dignidade as esperam e oferece-lhes morada em Atenas, apelando para a persuasão. E declara o que os deuses esperam das Erínias, doravante denominadas Eumênides, as Bem-Fazejas: “Ao recebermos dentro das muralhas as veneráveis e implacáveis deusas, seu ofício será velar pela decência. Todo aquele que a sua inimizade provocar, viverá como um maldito, Nem anarquia, nem despotismo”.

O coro retruca: “Que a guerra civil, prenhe de males, jamais flagele Atenas, e o sangue de irmão nunca mais seja derramado por outro irmão, mas reine a paz em toda a cidade.” Atenas: “Com tais deusas, de formas não humanas, e de olhos repletos de ameaças, que elas sejam cultuadas e que a Justiça, o maior prêmio que em nosso Estado elas conquistem… estas grandes amantes da honra."

Prometeu Agrilhoado



Prometeu, aquele que antevê, surge na mitologia grega pelas mãos de Hesíodo. Ele é um Titã, filho do Titã Japeto, fundador de uma família de rebeldes e irmão gêmeo de Epimeteu. Numa época em que os deuses e os homens sentavam-se à mesma mesa, coube a Prometeu intermediar a distribuição das honrarias e do alimento dos banquetes sacrificiais. O Titã separa os pertences dos animais sacrificados em duas partes: uma de aparência apetitosa, mas que só contém ossos e outra de aparência repugnante, porém com os bons pedaços cosmetíveis. Zeus deve escolher o que será devido aos deuses e, mesmo tendo identificado o engodo, escolhe a primeira opção. Desde então, a fumaça produzida pelos ossos e pela gordura caberão aos olímpicos; os homens comerão a carne assada.

O rei do Olimpo decide fazer com que os homens paguem pelo truque de Prometeu, o benfeitor da humanidade e esconde o fogo celeste. Assim também faz com o bios, a semente do trigo. Antes os homens comiam as carnes cozidas e o pão, dado que o trigo crescia sozinho. A partir desse momento, os homens terão que ceifar a terra e enterrar a semente para depois colher o fruto e a carne será comida como os animais o fazem, crua. Prometeu, entretanto, apieda-se do destino animalesco reservado aos homens e rouba de Zeus uma centelha do fogo e a entrega "aos efêmeros".

Zeus ao descobrir um novo engodo deste deus rebelde, decide castigá-lo, assim como aos homens. Iniciando por esses, Zeus prepara um reverso do fogo roubado, algo que queimará os homens e os secará com o cansaço, preocupações e penas. Terá a forma e a beleza de um presente: a Mulher, batizada pelo nome de Pandora, que será oferecida ao irmão de Prometeu, Epimeteu, aquele que nada previa do futuro. Os homens de antes viviam sem mulheres e desconheciam o nascimento por geração, não envelheciam e desapareciam ainda jovens, na paz de um sonho.

O primeiro casal foi o de Epimeteu e Pandora, inaugurando uma nova era. Desde então, com a Mulher em sua vida, o homem terá que nela semear a semente, gerar filhos, envelhecerá e morrerá. Pandora tem por fora a aparência de uma deusa imortal, impregnada de graças e sedução que a tornam irressistível; mas por encomenda de Zeus, Hermes colocou dentro dela a mentira, o engano e uma alma que a torna um mal; mas será um mal amável, revestido de incrível beleza e doçura. Desde então, ela será a companheira mortal de um homem mortal, aquela Pandora feita por Hefesto a partir do barro.

Mas voltando a Prometeu, o castigo que Zeus lhe preparou também será terrível. Ésquilo desenvolveu uma Trilogia sobre o destino de Prometeu , das quais, entretanto, apenas a primeira parte, Prometeu Agrilhoado chegou até nós. Podemos imaginar que nas duas partes restantes, os destinos dos deuses se harmonizarão, que Prometeu será libertado, mas, infelizmente, somos obrigados a nos contentarmos apenas com o primeiro ato de uma verdadeira epopeia trágica dos deuses humanizados.

 

Prometeu Agrilhoado tem como cenário uma rocha na região desértica da Cítia (Cáucaso). Em cena, Kratos, o poder, e Bia, a violência, transportando o corpo de Prometeu, seguidos por Hefesto, o deus coxo que carrega os instrumentos de ferreiro. Kratos cumpre o papel de impor a Hefesto que acorrente Prometeu às rochas, para que “aprenda a resignar-se aos desígnos de Zeus e desista de auxiliar os homens.” Bia, sempre calada é o braço armado do poder. Hefesto cumprirá a ordem recebida contra sua própria vontade, pois “não cumprir as ordens do pai acarretar-lhe-ia graves males… óh ofício mil vezes maldito!”

Dirigindo-se a Prometeu: “Entregastes aos mortais aquilo que era uma honra dos deuses, ultrapassaste os teus limites…ficarás a partir de agora sobre esta rocha, em vigília dolorosa, sempre de pé, sem dormir…em vão clamarás por Zeus, pois nunca um senhor novo se mostrou piedoso.” Todo novo tirano tende a ser mais cruel, pois ainda são novidades em suas mãos o poder e a violência. No entanto, Hefesto diz que “ aquele que há de te libertar ainda não chegou”. Deste modo ele torna o suplício finito e ação deste “libertador” estaria provavelmente contido nas duas partes perdidas da trilogia. Dirigindo-se a Kratos, que exige imediato cumprimento da ordem e exige que, além de acorrentado, Hefesto crave no peito do Titã uma cunha que o pregue à montanha, Hefesto lhe diz: “Ao Poder, o cinismo corre sempre a par com a crueldade.” Kratos responde-lhe que “todas as atibuições estão já estabelecidas…só Zeus é livre.”

Em nenhum momento desta tortura Prometeu emite um gemido; somente quando os enviados de Zeus se vão é que ele inicia o seu lamento: “É preciso aceitar a nossa sorte com serenidade e compreender que não se pode lutar contra as forças da Moira, o destino”. Pensa estar só em seu suplício, mas é surpreendido pela entrada do Coro de Oceânidas, filhas de Oceano, que habitam os confins da terra, que lhe trazem solidariedade. Prometeu revela-lhes, com sua capacidade de previsão, que “dia chegará em que o senhor dos bem-aventurados ( os deuses) terá necessidade de mim, se quiser saber do novo desígnio que há de despojá-lo do cetro e das suas honras; nem palavras e nem o terror das mais espantosas palavras me dobrarão; não lhe revelarei o segredo se antes não me livrar destes ferros e ele não consentir em pagar a pena deste ultraje”.

Não há poder eternal nem entre os imortais. Assim como Urano foi castrado por seu filho Cronos, que posteriormente foi exilado pelo filho Zeus, este um dia também poderá ser destronado do Empíreo. As Oceânidas temem pelo deus agrilhoado, pois “inflexível é a alma do filho de Cronos, incomovível é o seu coração”. Ao que Prometeu, no auge de sua angústia, já descortina como uma harmonização futura, quando o Poder se abrandará, ferido pelo golpe que lhe prepara o destino. E narra-lhes a sua história, a epopeia do único Titã que permaneceu ao lado de Zeus na sua conquista do poder, vitória que não fora obtida nem pela força, nem pela violência, mas pela astúcia. De como ele se sente traído por quem tanto ajudara, e que seu erro consistira em impedir que, num ímpeto de raiva, Zeus atirasse toda raça humana ao Hades, exterminando-a. Sua amizade pelos homens atraiu o ódio divino. “Esse espetáculo é a vergonha de Zeus”.

As Oceânides pedem que Prometeu lhes conte como ajudara os efêmeros e ele elenca as suas ações: primeiro colocou a esperança em seus corações, depois ofereceu-lhes o fogo e que através dele, os homens aprederam muitas artes. “Mas tudo o que me sucede eu já sabia. Se errei foi por minha vontade e de ninguém mais…apenas não imaginara que tais torturas haveriam de consumir-me para sempre…”Em nenhum momento, na guerra entre os deuses, mesmo atirado à total humilhação, o deus renega seus feitos e nem se arrepende de enfrentar o poder do tirano".

Entra em cena o Oceano que também vem lhe prestar solidariedade e diz a Prometeu que mesmo na queda, ele possui um amigo firme. Permite-se, como amigo, aconselhá-lo: “Conhece-te a ti mesmo…submete-te aos fatos, não insultes quem detém o poder ou os males que te afligem agora parecerão brincadeira de criança…deixa a tua cólera e procura livrar-se de tuas misérias.” O velho Oceano propõem-se a tomar o partido de seu parente, no que é desaconselhado por Prometeu, que recorda-lhe o destino que coubera a seu irmão Atlas, condenado a suportar a coluna que une o céu à terra e o destino de Tifon, que viu suas forças convertidas em pó. Ao que lhe replica Oceano: “Ser louco por excesso de bondade é uma nobre loucura”. Mas este é exatamente o caso de Prometeu. Por fim, Oceano desiste de interceder por Prometeu e volta a seu caminho.

E segue a conversação entre o aguilhoado e o Coro de Oceânidas. Ele então discorre sobre a sua filantropia: “o modo como fiz dos mortais, crianças que eram, seres inteligentes dotados de razão…A princípio viviam sua vida na desordem e confusão…não sabiam construir casas com tijolos endurecidos no calor, não sabiam trabalhar a madeira e viviam em cavernas, faziam tudo por instinto, até que os instruí na difícil questão das entradas e saídas dos astros, depois na ciência dos números e, a mais importante, na composição das letras, memória de todas as coisas, mãe das Musas. Também os ensinei no jugo dos animais, no arar a terra, os veículos com asas de linho que singram os mares…Também os iniciei na arte dos bálsamos, na medicina… Estabeleci a arte advinhatória, ajudando-os a distinguirem os sonhos verdadeiros dos falsos, a lerem os presságios… Também os tesouros que a terra oculta aos homens, como o ferro, o bronze e a prata, eu os revelei”…

“E hoje o desventurado que tanto soube inventar para os outros, não sabe descobrir o segredo que o livrará das misérias presentes”. Mas o deus atormentado ainda revela que das Parcas que tecem o destino, da Moira e das Erínias, que vingam os crimes de sangue, nem mesmo Zeus será capaz, no futuro, de livrar-se. Neste ponto chega, inopinadamente, Io com dois cornos de vaca na cabeça. Entra desesperada sem saber onde se encontra, perseguida pelo espectro de Argos, o dos cem olhos, que mesmo morto a vem perseguir. Io que, como Prometeu, é vítima de Zeus e corre a terra perseguida pelo moscardo enviado por Hera, a de terríveis ciúmes.

Solicitada pela curiosidade das Oceânidas, conta-lhes sua história: após noites e mais noites a sonhar que excitara o amor em Zeus, a donzela fora expulsa da casa de seu pai por ordens de Apolo; que desde este instante cresceram-lhe os cornos e se no início fora perseguida pelo Argos de cem olhos, agora possuia um moscardo a ferroar-lhe a pele, obrigando-a a uma louca corrida sem fim, por toda a terra. E pede a Prometeu que lhe conte o que a espera no futuro.

Prometeu traça-lhe lides e mais lides, fugas por terras bárbaras até o estreito que ganhará o seu nome, Bósforo. Que muito ainda terá que sofrer aquela sobre quem Zeus colocou seus olhos. Io diz que melhor seria o suicídio, ao que lhe contexta o deus que nem isto a ele é permitido. “É possível que Zeus seja um dia derrubado?”, pergunta-lhe. O Titã lhe responde: “ Que sim, ele perderá o cetro por suas insensatas ações, por uma boda da qual se arrependerá… pois daí nascerá um filho mais forte que o pai.” Diz-lhe mais, que um descendente de Io viria libertá-lo, um dia, dos grilhões que o oprimem ( Hércules é um dos descendentes de Io). Prometeu revela dois segredos: um o futuro de Io, e outro, o dele próprio. “Após esgueirar-se de mil perigos e ciladas, ela finalmente chegará a Canope, no Egito, onde Zeus lhe devolverá a razão. Aí dará a luz a um filho, o negro Epafos… passadas cinco gerações, cincoenta virgens, malgrado elas próprias, fugirão para Argos, fugindo à união monstruosa com seus primos. Mas eles as seguirão e serão abatidos pelo Homicídio, de rosto de mulher, que espreita na noite. Cada esposa arrancará a vida ao esposo (este será o tema de outra tragédia, As Suplicantes). Apenas uma das virgens será levada pelo desejo de ser mãe e preferirá que a chamem de covarde a de sanguinária. Dela nascerá uma estirpe real…e deste tronco, nascerá o herói, famoso pelo seu arco, que há de livrar-me de meus males”…

O moscardo maldito volta a ferroar a pobre Io que se sente enlouquecida e foge a correr.

“O que pode temer aquele a quem não é dado morrer?” diz Prometeu após profetizar novamente a queda de Zeus, cumprindo-se a maldição que lhe fora lançada por Cronos, no dia de sua queda. Aproxima-se Hermes, o mensageiro, no dizer do Titã, “o servidor do jovem tirano”. Hermes, em nome de Zeus, vem exigir que Prometeu declare que bodas são essas que gerarão quem o derrubará do poder. Responde-lhe altaneiro o Titã: “Falaste na verdade num tom cheio de soberba como convém aos lacaios dos deuses! São jovens, jovem é o poder que exercem, e julgam habitar um castelo inacessível à dor…Nada hás de saber do que me perguntas…Por nada deste mundo eu trocaria a minha dor pelo teu servilismo. Prefiro ver-me sujeitado a esta dura rocha a ser o dócil mensageiro de Zeus.”

“Também me culpas por tuas desgraças?”, interroga-lhe Hermes. “Se te posso falar com franqueza, dir-te-ei que odeio todos os deuses; cumulei-os de favores, e em paga dão-me um tratamento iníquo.” Hermes comunica ao deus torturado que seus suplícios aumentarão se não responder a Zeus: “Esta rocha saltará sob os raios e os trovões, saltará também o teu corpo, sepultado sob os despojos e antes que possas ver a luz passar-se-ão anos; então, o cão alado de Zeus, a águia selvagem…alimentar-se-á forçosamente de teu corpo, despedaçá-lo-á com suas garras e regalar-se-á com o mangar negro de teu fígado. E este tormento não terá fim, a não ser que algum deus queira te substituir nos sofrimentos e descer ao Hades”.

Responde à Oceânidas o orgulhoso Titã: “Já antes dele chegar eu sabia da mensagem que me traria. Não há afronta em ser chamado como inimigo por um inimigo. Terminemos, que o raio de Zeus caia sobre mim; que o éter seja sacudido pelo trovão e pelo furor convulsivo dos ventos desenfreados: que a sua fúria abale a terra… que as ondas do mar se lancem contra os céus…que me precipite por último no tenebroso Tártaro, entre os torvelinhos da cruel necessidade! Uma coisa não poderá fazer: tirar-me a vida”. Hermes irrita-se com o indomável e também com as Oceânidas que dele se compadecem e as ameaça se não partirem. Respondem ao mensageiro: “Fale-me com outra voz, com palavras que saibam convencer…Incitas-me a cometer uma vilania? Não, prefirimos padecer com ele”.

E, aproximando-se de Prometeu: “Aprendemos a odiar os traidores”! Hermes afasta-se e ouve-se o trovão. Prometeu: “Às palavras seguiram-se os atos. A terra vacila, e o trovão ruge em suas profundidades…eis a força desencadeada, lançada contra mim pela mão de Zeus, para infundir-me medo! Óh majestade de minha mãe Terra; óh éter, que faz girar ao redor do mundo a luz que nos alumia, contemplem as iniquidades que tenho que padecer!”. As rochas saltam em pedaços e Prometeu é sepultado po elas.

Toda a tragédia do Prometeu Agrilhoado é cultivada pela ambiguidades e paradoxos; o Zeus, que em sua sapiência emula os homens, nesta tragédia, ainda jovem reinante, inseguro, ainda com leis por fazer, é um déspota; ingrato para o único Titã que esteve a seu lado na luta pelo poder. Ésquilo aproveitando o mito hesiádico, leva ao teatro questões essenciais como liberdade e opressão, a coragem de dizer não e a covardia de se dizer sim ao tirano, violência, poder e justiça.

Os Sete Contra Tebas



Édipo cego fora banido de Tebas, após "descobrir-se" assassino de seu pai e amante de sua mãe. Seus filhos que, o sucedem no poder, contribuiram para sua expulsão. Etéocles, o mais jovem é o primeiro a ter o cetro real, porém, passado um ano e seduzido pelo poder, ele rompe o acordo que fizera com o irmão Polinices e declara-se rei- tirano. Polinices deixa Tebas, alia-se à cidade de Argos e retorna com um forte exército, sob o comando de sete chefes, dentre os quais ele mesmo, para destruir a cidade de sete portas.

Como todo tirano, Etéocles descobre-se só: deve cuidar dos interesses da cidade e dos seus próprios. Busca o apoio das mulheres e encontra-se com o desespero. Falta-lhe experiência de combate. Mas instado à luta, a defesa da cidade é organizada, cada porta terá um comandante-defensor. Os atacantes de Tebas têm sede de sangue e eles apelam a energias obscuras. Principia o combate sangrento. Mas o resultado da luta, como veremos, é incerto. Polinices e Etéocles decidem duelar em um combate singular, na sétima porta. Ao vencedor, a cidade e o poder. Mas as Erínias da casa de Laio estão presentes e os dois irmãos, cumprindo-se a maldição de Édipo, tombam mortos. E os tebanos expulsam o exército invasor.

 

Os Sete contra Tebas inicia-se com um Prólogo onde Ésquilo, o combatente de Salamina e Maratona, fala pela boca de Etéocles, convocando todo o povo, até mesmo os velhos, à defesa do solo tebano contra o ataque aqueu. Ordena que “armem-se dos pés à cabeça, fortifiquem as muralhas, tomem posição junto aos portões”. A exortação do comandante é interrompida pela chegada do espião enviado até as forças inimigas. O espião relata o que viu. As tropas muito bem equipadas, que cercam Tebas, são comandadas por sete generais, que substituiram os ritos de purificação pelos de sangue, invocando o Terror para invadir e saquear a cidade de Tebas, se dominada pelas armas.

Etéocles implora a Zeus, à Géa e aos deuses pátrios para que protejam os lares em que ressoa a sonora lígua grega, lares de pessoas livres. O Coro de mulheres surge entoando cântigos de medo e de pavor, pois os “argivos cercam a cidade de Cádmo (fundador de Tebas), o terror derramam seus alaridos de guerra, freios das quixadas dos corcéis reproduzem cantos de morte. Sete intrépidos chefes de combate lançam-se contra as sete portas”. Evocam a todos os deuses em busca desesperada de proteção. A voz forte do comandante as enfrenta. Etéocles chama as mulheres de “raça insuportável”, que deveriam “infundir coragem ao exército que as defende ao invés de rastejar ante estátuas, suplicar proteção divina e berrar”.

Como personagem trágica, ele ultrapassa os seus limites,e impõe uma diciplina militar para o combate: “aquele que não se submeter à minha autoridade, seja homem, mulher ou indefinido, levará como castigo a pena de morte”. O Coro retruca que confia nos deuses para evitar a tragédia, ao que Etéocles responde: “Rogai antes que as muralhas contenham a força inimiga. Deuses cuidam da defesa? Os deuses debandam das cidades vencidas.” O Coro de mulheres retruca que “graças aos deuses, habitamos uma cidade livre” e o questionam  “por que proibir práticas piedosas?” O que Etéocles quer de suas mulheres é que entoem o grito de guerra que eleve o moral das tropas que defendem a cidade. Ao final, o que consegue apenas é a promessa de que elas ficarão quietas.

Retorna o espião com importantes informações para o rei-tirano. É conhecido o resultado do sorteio de que general atacará cada uma das portas, cada um com um emblema no seu escudo: Porta 1:  Tideu, o rei de Argos, atacará a porta Proítida. Seu escudo traz um “brasão de orgulho”: “Um céu forjado, brilhando sob os astros e no meio do escudo, resplandescente, a lua cheia”. Etéocles responde que “os brasões não ferem”; mas diz também que a noite, metaforicamente a morte, voltar-se-á contra o seu possuidor. De todos os modos, como assinala Vernant, estamos no cosmos e a lua surge como um anti-sol. De qualquer forma, o comandante-em-chefe determina que Melanipo defenda aquela porta.

Porta 2. Canapeu, o fanfarrão, irá contra a porta de Electra, dizendo que tomará a porta mesmo que Zeus seja contrário. Seu brasão é um “guerreiro nú trazendo uma tocha com fogo, e em letras de ouro proclama “tomarei a cidade””. Diz Etéocles: “Espero que caia sobre ele um raio divino; contra o guerreiro de boca grande porei o imponente Polifontes. O guerreiro nú é o incendiário da noite, do ataque de surpresa, ao qual se contrapõe o hoplita pesadamente armado.

Porta 3. Etéoclo lutará contra a porta Neis. Ele desafia Ares e em seu escudo figura um hoplita de elmo e lança a escalar uma muralha. Etéocles escala para enfrentá-lo Megareu, filho de Creonte.

Porta 4. Ipomedonte, “um tipo desaforado”. Seu escudo traz “o Tifon, com a boca que emite fogo e serpentes curvam-se nas bordas do mesmo". “Só sua jactância traz o medo à porta de Atena. O comandante designa aquele que possui Zeus no seus escudo, aquele que destruiu Tifon, Hipérbio.

Porta 5. O jóvem Partenopeu, atacará a porta de Bóreas, envolto em um escudo que lhe protege todo o corpo. Nele está impresso o vulto da esfinge que possui em suas garras um cadmeu. Etéocles determina que Actor, o líder, irmão de Hipérbio, o enfrente.

Porta 6. Anfiareu é um sábio, um vidente. Ele não ostenta nenhum brasão, pois “ao invés de parecer um herói, quer sê-lo” e estará postado na porta Homolóis. Anfiareu desafiara seu parceiro de lutas,  Polinices dizendo-lhe: “Belo trabalho o seu, banquete para os deuses! Agrides o solo pátrio, os deuses de tua gente.” Etéocles, o comandante, determina que se lhe oponha o impávido Lastenes.

Porta 7. O atacante da sétima porta é Polinices, que tomadas as torres, quer ser o senhor dessas terras. “Ele traz um escudo perfeitamente redondo…um guerreiro em ouro cinzelado vê-se conduzido por uma mulher que o guia com prudência. E ela se diz "dike", a justiça e está escrito que “reconduzirei este homem e ele recuperará a sua cidade e voltará ao lar de seus pais”. O próprio Etéocles enfrentará o irmão.

Neste ponto da narrativa observamos uma inflexão. Etéocles rememora toda a desgraça da família de Édipo; pede que os prantos cessem pois poderiam engendrar dores insuportáveis. “Rei contra irmão, irmão contra rei.” A ate da cegueira já o atinge : “O que há de melhor que se pode desejar para alguem que parte para a morte?” . Toda a coragem e a determinação do comandante se esvai. Resta a maldição, o sopro maldito das Erínias nos ouvidos do pobre filho de Édipo e Jocasta. Neste momento ele demonstra querer dar ouvidos ao Coro das mulheres e estas lhe pedem para que evite a sétima porta.

Tinha razão Etéocles em dizer que as inscrições dos brasões “não causavam ferimentos”; mas eles eram a antecipação da chegada das Erínias. Mas ele não se furtará ao combate. Cumprir-se-á o mando das Moiras, do destino. Etéocles parte para enfrentar o irmão.

Chega um Mensageiro e comunica ao Coro de mulheres que a cidade está liberta; as seis portas resistiram e na sétima, “Apolo levou a termos os acertos com a raça de Édipo e com os desmandos de Laio.” Os reis nascidos do mesmo ventre “jazem abatidos por golpes recíprocos, vítimas das próprias mãos”. “Salva está a cidade. E terra bebeu o sangue real dos guerreiros, irmanados até a morte”.

Chegam Antígona e Ismênia, pobres órfãs, agora desamparadas tambem pela morte de ambos os irmãos. Caminhamos para o êxodo, onde é comunicada a decisão da assembléia dos cidadãos de tebas de dar a Etéocles todas as glória fúnebres e que o cadáver de Polinices seja entregue aos animais. Antígona rebela-se contra a decisão e, mesmo contra a decisão democrática da cidade, quer dar sepultura àquele que tentara a destruição de sua Tebas. O Mensageiro é claro: “Não faças, não desafies um povo, que é severo pois escapou a um desastre”.

Parcela do Coro das mulheres presta solidariedade a Antígona, pois: “A dor comove todos os descendentes de Cadmo. Quanto à justiça, a cidade oscila com frequência.” Responde-lhe a outra parte do Coro: “Acompanhemos Etéocles como o povo e o direito determinam. Depois dos bem-aventurados e do poder de Zeus, foi este que salvou a cidade de Troia, impedindo que morrêssemos submersos.”

Os Persas



Os Persas foi representada em 472 a.C., tendo por corego o próprio Péricles. A apresentação ocorreu no auge da democracia grega, insuflada pela aniquilação da frota dos persas em Salamina e pela derrota dos invasores persas em Psitália, que obrigou o recuo vergonhoso do exército de Xerxes, estimado em mais de um milhão de homens.

Esta tragédia, representa uma verdadeira epopéia, mas, atenção: vista do lado do perdedor, constitui um longo e pungente lamento fúnebre, o cântigo de dor da humilhação do mais poderoso império do mundo antigo, derrotado pela orgulhosa Grécia. Ao contrário de todas as outras tragédias que chegaram até nós, Os Persas não evoca o passado mítico ou heróico; é um tema da atualidade grega, mas suficientemente distante em termos espaciais de maneira que possa conter os elementos básicos do drama e possa levar a platéia à katarse. Como bem disse Urbano Rodrigues: “não sei de quem fique insensível a este longo, trágico lamento, que visa despertar no espectador o terror e a piedade e consegue, acima de tudo, exaltar, em negativo, pela narrativa das desgraças da orgulhosa Pérsia…, a coragem e o civismo da jovem nação grega”.

 

O cenário é uma praça de Susa, capital da Pérsia, em frente ao palácio real. O prólogo é efetuado pelo Corifeu e pelos coreutas, velhos persas que se denominam Os Fiéis, dado que Xerxes, antes de partir na expedição de guerra à Grécia, dera a eles a responsabilidade pela guarda do palácio e dos seus tesouros. O Fiéis numeram todas as forças leais ao imperador, a começar pelos próprios persas e pelos medos, a cavalaria, a infantaria e a grande esquadra naval, a fina nata dos guerreiros asiáticos; o avanço por terra, ultrapassando o estreito de Helesponto com a ligação por cordas entre os barcos, e o ataque pelo mar.

No entanto, notas de inquietação enovelam-se na narrativa. “Irresistível é o exército da Pérsia, e valoroso o coração de seus soldados”. “Mas que mortal pode escapar às astutas armadilhas de um deus enganador? …A ate, a cegueira, com suas carícias atrai o homem a suas redes e nenhum mortal pode evitá-las…” “A saudade dos varões enche de lágrimas os leitos, e todas as mulheres persas, na sua aflição …ficam sós, atreladas ao jugo.”

A rainha Atossa, mãe de Xerxes e viúva de Dario, o Grande, aproxima-se. O Corifeu sugere ao Coro de velhos que se examine para que lado pende a vitória: “Seria a corda do arco que triunfa? ( o arco simboliza os persas) ou a lança com ponta de ferro? (os gregos). A rainha Atossa: “Também eu sinto o coração dilacerado pela apreensão e, confesso, amigos, tenho medo…riquezas sem defensores não impõem à multidão nem respeito nem venereação, e sem riquezas não há brilho proporcional à força…”

Aos atenienses, que viviam sob regime democrático e levavam um tipo de vida disciplinado e “espartano” nessa época, a necessidade do poder imperial possuir riquezas para ser reverenciado, soava como um eco de passado abolido. Assim como a confissão que a rainha faz de que, caso seu filho Xerxes retorne vitorioso, ele seria um herói, mas caso fosse vencido e retornasse, a ninguém teria que prestar contas. Tão diferente da realidade em que os cidadãos livres cobravam os resultados de qualquer atitude tomada por seus estrategas!

Mas a rainha prossegue e pede que o Coro a ajude a interpretar um sonho e uma estranha visão, em que uma águia é atacada por um gavião e, ao invés de defender-se, deixa-se depenar. O Coro recomenda-lhe que ore aos deuses e realize libações ao finado Dario, com o que a rainha concorda. Antes pede que lhe digam em que lugar da terra situa-se Atenas, a cidade que seu filho queria tomar. O Coro indica-lhe a direção e que a queda de Atenas signifaria a submissão de toda Grécia. A rainha quer detalhes e o coro explica-lhe que os combatentes atenienses usam a espada para combater a pé firme e o escudo que trazem no braço, que lutam como homens livres, não sendo súditos e nem escravos de homem algum, totalmente ao revés que o imenso exército persa. E “lutam tão bem que já destruíram o belo e grande exército de Dario”, referindo-se à primeira guerra persa.

Neste ponto chega um Mensageiro e traz a notícia de que o exército “bárbaro foi inteiramente aniquilado”. “As margens do Salamina e todas as terras vizinhas estão repletas de cadáveres…o exército inteiro pereceu pelo choque dos seus navios.” O Coro declara ser para ele, Atenas, um nome detestado; que deste nome não se esquecerá, pois lá, milhares de mulheres persas perderam seus filhos e esposos. A rainha intervem e solicita que o Mensageiro conte-lhes toda a catástrofe, que os mortais têm que suportar as provações que os deuses lhes enviam para recuperar a serenidade. E o Mensagueiro principia pelo fato de que “ Xerxes vive e vê a luz”.

A seguir reporta a série de desastres, tropas inteiras exterminadas junto com seus chefes, graças à desmedida de seu comandate, o rei, que subjulgou o poder guerreiro dos gregos. De como, graças à estratégia, os gregos que possuiam trezentos navios de pequeno porte, venceram e destruiram a armada persa de mais de mil barcos, ao som de um único brado de guerra: “Vamos filhos dos gregos, libertai a vossa pátria, vossos filhos e mulheres, os santuários dos deuses de vossos pais e o túmulo de vossos avós; lutai hoje por todos os vossos bens!”

A este relato da derrota marítima, seguem-se outras desgraças, pois “todos os persas na flor da vida, os melhores na coragem, os mais ilustres e que se encontravam na primeira fila pereceram vergonhosamente”, na ilha de Ptisália, defronte a Salamina, onde cercados pelos gregos por todos os lados, tiveram seus corpos despedaçados. “Xerxes, que observava a batalha chorou e rasgou suas roupas e precipitou-se em fuga desesperada”. A seguir detalha a fome e a sede que torturou os sobreviventes, aumentando a sua desdita.

O Coro relata os sofrimentos que esperam as mulheres persas em seus leitos solitários; os velhos a quem espera uma velhice desamparada e sem descendência; os povos submetidos ao império persa que deixarão de pagar seus impostos a um reino enfraquecido e, finalmente, “o povo que passará a falar mais livremente, pois é isto o que acontece quando se desprende do jugo da força”. A rainha Atossa retorna à cena preparada para realizar as libações por Dario, o rei morto. Dirigindo-se ao coro diz: “Amigos, quem já travou conhecimento com a desgraça sabe que, no momento em que uma vaga de flagelos se abate sobre os homens, tudo os apavora, enquanto se o destino os favorece, eles se convencem de que o sopro da prosperidade jamais deixará de fluir a seu favor”.

Ao invés de simples libação o que Ésquilo nos apresenta é uma evocação aos mortos. O Coro: “Sede clemente, oh Terra, e Hades, príncipe dos mortos, deixai sair de seus domínios este daimon glorioso (aquele que realiza a ligação dos homens com os deuses), esse deus dos Persas… que esta terra nunca viu igual”. Surge, então, a Sombra de Dario: “Bem sabeis que não é fácil sair dos infernos, tanto mais que aos deuses subterrâneos mais é dado agarrar que soltar. Dizei-me depressa que nova desgraça se abateu sobre os Persas”. O Coro tem receio de contar ao rei morto aquilo que tanto o aflige e a Sombra roga à esposa que lhe participe o que ocorre, pois “as desgraças são o lote natural dos humanos; muitas vêm do mar, outras da terra; despencam todas sobre os mortais cuja vida se prolonga”. Atossa conta à Sombra de Dario as desventuras de Xerxes, que pusera a perder todo o seu exército, retornando quase só para Susa.

A Sombra responde: “Como se cumpriram depressa os oráculos; foi sobre meu filho que Zeus fez desabar as negras professias… quando alguém corre de próprio gosto para sua perda, os deuses lhe prestam sua ajuda… Foi nosso filho que em sua cegueira e na sua juvenil audácia consumou a catástrofe. Justamente ele que se gabava de poder acorrentar o sagrado Helesponto… Sendo mortal pensava, imprudentemente, poder triunfar sobre um deus, Poseidon. Uma doença do espírito vitimou meu filho”. A Sombra explana sobre como o Império conquistara seu brilho no passado, mas o Coro necessita de conselhos e alentos: “Como é que nós, o povo persa, poderemos depois disso tornar a viver dias felizes?” Dario responde: “Não levando mais a guerra ao país dos gregos, pois a própria terra combate por eles”. Como a terra, interroga o Coro. Dario responde: “Matando pela fome as multidões demasiado grandes”. Além disso, a Sombra diz ao Coro que as tropas bárbaras desrespeitaram os santuários gregos, incendiaram seus templos quando avançaram por terra e agora estão pagando por isso. “Montes de cadáveres falarão na sua linguagem muda aos olhos dos homens e dir-lhes-ão que um mortal não deve alimentar pensamentos acima de sua condição; a violência, crescendo em terra arável, produz uma espiga de desgraça que só fornece colheita de lágrimas”. Recomenda a Atossa que vá acolher o filho que retorna e lembra para os velhos que, “entre os mortos, a riqueza não serve para nada”. E desaparece. 

Enquanto o Coro rememora os feitos de Dario, Xerxes, como seu contraponto, retorna derrotado, dizendo: “que desgraçado sou por ter caído sob um fado tão terrível e imprevisível!” O Coro não lhe oferece a clemência que o soberano provavelmente esperaria: “Essa terra geme pela juventude morta por Xerxes, abastecedor do Hades, que ele encheu o seu reino de persas… a flor deste país, arqueiros triunfantes. Choremos por nossos valiosos defensores”.

Xerxes: “O deus Ares da Jônia tirou-nos tudo; o Ares armado de barcos de guerra fez pender a balança para o outro lado e ceifou na margem e na planície da desgraça”. Em seguida o Coro cobra seu rei a respeito dos grandes generais persas e dos outros povos asiáticos, por ele comandados, mas todos foram abatidos pelo mar ou pela lança. Xerxes revela que, de todo o poderio do maior dos exército, restara apenas uma aljava com seus dardos. O Coro e Xerxes exortam o povo Jônio, que não foge ao combate e é “por demais belicoso”. O Coro e Xerxes caminham a gemer, a entoar os gritos fúnebres e a rasgar suas roupas em sua total desdita.

Nesta tragédia, que reporta-se a um fato histórico e contemporâneo ao autor, em nenhum momento qualquer general ou herói grego é citado. Quem venceu a luta foi a comunidade grega unida ao redor de Atenas e o poder dos deuses que nela convivem e lhe dão proteção. Por outro lado, nenhuma palavra de desdem é dita em relação aos vencidos. A aparição da Sombra de Dario traz luz sobre a desmedida que tomou o espírito jovem e despreparado de Xerxes, conduzindo- o à cegueira que o fez cruzar o estreito de Bósforo, razão de sua soberba e arrogância. “Aprender a conhecer através da dor”, no pensar de Lesky, “é o caminho que Xerxes palmilha no "Os Persas”".