гороскоп совместимости близнец крыса овен коза нумерология 9 жизненный путь восточный гороскоп по стихиям совместимость гороскоп павла глобы на 2017 год по знакам нумерология вычисление любых событий онлайн

 

Resenhas e Análises Literárias

Dostoiévski

Introdução a Dostoiévski



 

Este trabalho, que versa sobre algumas obras de Fiodor Dostoievski, tem por objetivo servir de “meio”,colocando as pessoas interessadas, numa relação receptiva para com estas obras de arte. Nosso esforço não é voltado para o crítico ou para o especialista em Dostoievski, dado não possuimos nenhuma presunção de realizar  análises que já não hajam sido feitas ou aprofundar julgamentos técnicos, estéticos ou mesmo aportar abordagens inovadoras sobre a obra do grande mestre. O objetivo é, tão somente, abrir “poros” naquele sentido grego do desbravamento de veredas, que conduzam o principiante em Dostoiveski a uma compreensão do que e do quanto ele poderá obter na leitura direta dos principais escritos de grande escritor. E, talvez, em sendo felizes, auxiliá-lo no processo interpretativo, dado que “um livro é de fato descoberto apenas quando for compreendido”, conforme nos ensinou Goethe.

Talvez devêssemos dizer nesta introdução que, para autores como Steiner,  Dostoievski está entre os primeiros romancistas de toda a história da humanidade, dado que ele possuia o poder de construir através da linguagem, realidades sensíveis, concretas, e, no entanto, impregnadas pela vida e pelo mistério do espírito. Para este crítico de arte ao “estilo antigo”, com quem concordamos plenamente, três foram os principais momentos da literatura universal ocidental: um primeiro com os dramaturgos atenienses e Platão; um segundo, já na época elizabetana, com Shakespeare, e, finalmente, o florescimento do romance russo, no últimos 45 anos do século XIX.

A arte de Dostoievski, do ponto de vista do leitor, é direcionada aqueles que possuem o mesmo ardor e a tensão dos personagens do grande russo, porque somente a paixão conduz até ele. Por um lado, não há como negar que as relações travadas com suas obras não são nem afetuosas nem agradáveis; que ele conduz os leitores até conflitos intensos, que podem ser perigosos e até mesmo cruéis. Por outro lado, as relações apaixonadas dentro das obras, agem de  forma hipnotizadora, enfraquecendo a nossa própria vontade, pois “com uma volúpia consciente, diabólica, ele retarda o momento em que seremos conquistados, levando-nos ao paroxismo da angústia interior”, nos sublinha Zweig.

I.

Ao iniciamos a leitura de um livro de Dostoievski, deparamo-nos com um escritor que em meia dúzia de frases descreve todo o ambiente em que seus quadros se passarão. Vestuários, mobiliário e praticamente todo o espaço dedicado por outros à Natureza, é aqui ocupado pela humanidade e dado que não encontraremos mais que suscintas descrições ambientais, tudo estará repleto de seres humanos. O ambiente, deste modo, apenas fornece uma restrita base material para que os personagens se locomovam.

Talvez herança de Balzac, Dostoievski possuia uma forte inclinação fisiognomista, buscando nas características faciais e corporais e nas próprias expressões, a identificação de aspectos do caráter e do estado de alma de seus personagens; mas este componente descritivo, tal qual os ambientais, ocorre de forma rápida e suscinta, sendo realizado com extremada maestria. Logo, as personagens dostoievskianas, imediatamente se tornam inconfundíveis para o leitor.

Se buscarmos identificar o principal motivo disto tudo, veremos que cada uma das personagens tem um envolvimento tipicamente trágico, expressando-se quase que exclusivamente através da “paixão”. É no desenvolvimento desta “paixão” que surgem as controvérsias que incessantemente emulam  cada indivíduo, que anseia por interpretar a si mesmo, a todos os outros personagens, ao mundo e, até mesmo, a Deus. Tal e qual no teatro trágico, nos momentos em que essas “personnas” ultrapassam suas medidas, transformam-se em seres “possuídos” e que no descrever de Zweig “quando extravasam os seus sentimentos, já incandescentes, é quando desnudam toda a verdade de sua alma”.

Ora, por isso mesmo as personagens de Dostoievski dificilmente podem ser por nós percebidas como pessoas de carne e osso, que pratiquem os atos diuturnos de todos nós, posto que elas são compostas quase que exclusivamente por espírito. Até mesmo quando comem, bebem, dormem, tudo isto é dissertado tendo como referência o seu significado na ação espiritual do drama, no desenvolvimento de suas “paixões”.

E como nos é transmitida esta “paixão”? Esta transmissão, como nos ensina Bakhtin, se dá quando o autor ultrapassa a ideia do diálogo e chega ao que ele denomina multivocalismo, à polifonia, pois “após Shakespeare, talvez Dostoievski seja o maior e mais polifônico de todos os dramaturgos”. Toda a paixão nos é transmitida através da palavra, pois é preciso ouvir e fazer falar suas personagens para que elas nos transmitam sua existência.

Para Bierdiaiev, a preocupação exclusiva de Dostoievski é o homem e seu destino, “para ele todo homem é um microcosmo, o centro de um ser, um sol em torno do qual tudo se move”.

Ainda um aspecto importante de ser assinalado nessa introdução, é que por muito tempo julgou-se que o grande autor não escrevia adequadamente, ou o fazia de modo apressado, pressionado por suas permanentes dívidas ou pelo sustento de seus familiares diretos e agregados, coisas que o afogaram por quase toda a vida. Nada mais ingênuo. Novamente Bakhtin, nos descortina que, através da inexistência de subjetividade, seus personagens não têm uma clara identidade unitária e, neste sentido, a visão de mundo do escritor torna-se um espaço controverso, contraditório e sem unidade, despedaçado. As paradas, as repetições, o gaguejar, são indispensáveis, porque “debaixo dessa palavra que falhou existe uma vibração, uma comoção secreta, e nós saberemos não somente o que uma personagem discursa mas também o que ela dissimula”.

Thomas Mann dizia serem os seus romances “dramas colossais, cênicos  em quase toda a estrutura; neles, uma ação que desloca a profundidade da alma humana e que frequentemente é compactada em uns poucos dias, é representada em diálogo surrealista e febril”.

Se o seu estilo é essencialmente romântico, quer seja pela glorificação dos sentimentos e dos instintos, quer seja pela desvalorização das ciências e da razão, para Steiner, o criador de “O Idiota” e do “Grande Inquisidor” permanece o mais sombrio dos nossos metafísicos trágicos. Tem-se a impressão que Dostoievski escrevia seus livros como peças teatrais, retinha a estrutura essencial do diálogo e daí expandia as direções de cena, e o resultado é o que conhecemos como suas narrativas. Ele concebia primeiramente a ação; na raiz da mesma estava seu “agon”, o evento dramático. Os Irmãos Karamasov, até o julgamento de Dmitri, ocorre em cinco dias; toda a primeira parte, a mais volumosa de O Idiota, em 24 horas, Crime e Castigo, uma semana.

Observação: Quando estivermos realizando nossa resenha e interpretação dos principais romances da fase de maturidade do autor, no primeiro deles, “O Idiota”, nós o faremos sob a formatação de uma apresentação teatral, com seus atos e cenários, utilizando o mesmo formato que, acreditamos, de certa forma, tenham sido primeiramente formulados os roteiros do autor.

II.

“Cuidando essencialmente do homem e da finalidade de sua existência sobre a Terra, procurando desvendar os motivos e as consequências ocultas de todos os nossos atos, ansiando perpétuamente por resolver o secular problema do determinismo e do livre-arbítrio, fundamentando toda a sua obra na discussão metafísica do problema da liberdade, Dostoievski fundou uma antropologia, que é, antes de tudo, uma gnose”. Esta definição de Wilson Martins equaciona um dos aspectos essenciais num escritor religioso, para quem Cristo sempre está presente, mesmo quando ele nem é pressintido na narração.

Dostoievski  deseja mostrar exclusivamente a ação espiritual, seja conscientemente ou inconscientemente de suas personnas. Se o seu paradigma é a imagem de Cristo, esta é uma imagem sem dúvida diferente daquela que nós ocidentais dele possuímos, pois a que ele incorpora é profundamente ortodoxa e eslavófila; um Cristo que é destituído de sua liturgia e encarado única e exclusivamente como homem, como o homem em sua perfeição. E neste sentido, Ele simboliza a Verdade, oferecendo a nós, mortais, a verdadeira Liberdade, uma Liberdade final.

Pois bem, a Liberdade, o Bem e o Mal que sempre estão presentes em Dostoievski, apresentam-se exclusivamente sob o aspecto metafísico e nunca do ponto de vista político. Berdiaev distingue dois aspectos desta Liberdade: “a primeira como a inicial e a última, a liberdade final e entre estas duas estende-se o caminho do homem, cheio de tormentos e sofrimentos, o caminho do desdobramento”. Para este grande conhecedor do pensamento dostoievskiano, a liberdade inicial é aquela que escolhe o bem, supondo a possibilidade do mal; já a liberdade superior ocorre ao nível divino, religioso, no próprio seio do bem.

Um outro aspecto a se considerar dentro do conceito de liberdade, é que ela carrega limites  necessários, e em seus termos cabe ao homem posicionar-se, dado que a liberdade sem limites, como um valor absoluto, é destruidora e abre as portas ao niilismo, ao orgulho e ao individualismo absoluto, que a tudo nega e a tudo corrompe.

E entre o bem e o mal, na afirmação de sua liberdade, todos os sentimentos humanos são complexos, instáveis; eles confundem-se, atropelam-se, combatem-se com extremo vigor. Zweig observou  que “a  alma em Dostoievski é um puro caos; pois bem, encontramos na sua obra bêbados por desejo de pureza, criminosos por desejo de arrependimento, homens que violam virgens por respeito pela inocência, blasfemos por necessidade religiosa”. Ainda Zweig assinala que não há unidade nesse psiquismo humano, o que subsiste é uma psicologia analística que dissocia e desfibrila; ele, como comparação literária nos diz que se em Homero, “Ulisses é manhoso, Aquiles, corajoso, Ajaz irascível e Nestor é prudente”, em Dostoievski, todos os seus personagens são ambíguos e suas condutas são imprevisíveis. De tal forma que de conflito em conflito eles chegam a estados de desdobramento de suas personalidades e temos o surgimento do seu “duplo”.

Se a tragédia grega buscava a “katarse” dos seus heróis e do público que a presenciava, nas obras do grande escritor seu correspondente é a “confissão”, que leva, através da humilhação, à purificação da alma. Logo, o mundo trágico de Dostoievski é um mundo de dor, pois todos sofrem, quer na doença, quer na miséria, nas injustiças sofridas, ou em decorrência das paixões.

Já a sensualidade amorosa, por ser paixão, nunca é um sentimento doce, terno e harmonioso; pelo contrário, muitas vezes ele é uma tentação monstruosa que, ao invés de conduzir à felicidade, conduz à loucura e à ruína da personalidade. Sofre-se por tudo isso, muitas vezes ao mesmo tempo, e serão as dores e os sofrimentos que resgatarão do mal e do pecado os seus personagens.

III.

Já falamos da fé de Dostoievski em Cristo, referencial onde aportarão todos os seus anseios de máxima humanidade. O que queremos ressaltar agora é que, diferentemente de Cristo, a crença em Deus é muito mais problemática no autor. Seus personagens  confessam que “Deus torturou-me a vida inteira”, falando pela boca do próprio autor, simbolizando um conflito persistente entre sua razão a negar e a sua sensibilidade a afirmar a necessidade de um porto seguro onde abrigar-se-ia a pureza, o amor e a paz. Zweig diz que “como Sísifo, Dostoievski empurra eternamente o rochedo para as alturas do conhecimento de onde cai sempre.”

Essa dúvida atroz empurra o grande escritor para o abrigo de um Cristo que torna-se russo, e é da Rússia que ele crê que surgirá a salvação de toda a humanidade. Pois só o povo russo possuiria a capacidade de compreender aos outros povos e por isso seria até mesmo necessário “que todos os homens se tornem russos”, como chegou a dizer. Esse messianismo, na verdade, constitui uma nova ambiguidade, pois se Dostoievski chega a desprezar as influências ocidentais, racionalistas, democratas e socializantes em pró de um novo eslavismo e a preferir a ordem à luta pela liberdade política, por outro lado, ele jamais se aliou aos poderosos, em nenhum momento frequentou os aristocratas, sempre se revoltou contra aqueles que atacassem os “humilhados e ofendidos”. Viveu uma vida humilde, sofrida, entremeada de crises epilépticas, perseguido por dívidas, e por suas incongruências e dúvidas.

Na verdade, na visão de mundo de Dostoievski há mais que uma luta anti-racionalista; ele condena os germes de uma revolução social que já fermentava em terra russa. Presume que qualquer revolução que se fizesse contra a autocracia redundaria em uma nova autocracia, quando apenas ocorreria uma mudança de senhores e o povo permaneceria reduzido à servidão, em sua situação de rebanho. Prevê que o princípio religioso seria sacrificado e, em nome de uma futura felicidade social, crimes seriam praticados.

Fiodor Dostoievski era conservador, mas um conservador liberal e profundamente humanista. Ele propugna pela dignidade do ser humano, pelo amor ao próximo, pela fraternidade universal, expressando como ninguém o sentimento de com-paixão pelos fracos e oprimidos e pela redenção dos degradados sociais. Ao mesmo tempo, satiriza e ridulariza como ninguém as vaidades, a corrupção social e a mediocridade das altas rodas. Segundo André Guide, Dostoievski “tem sempre qualquer coisa para desagradar a todos os partidos” e na linguagem do século XX, a todas as correntes ideológicas.

 

 

Um íntimo dos tormentos da alma



Em nosso ensaio anterior falamos da lucidez consciente de Tolstói, de seus romances épicos que surgiram quando o século XIX fechava as suas cortinas. Hoje nos deteremos em seu contemporâneo na Rússia czarista, aquele que ocupou para a posteridade uma importância universal, cujo conjunto da obra é tão atual quanto o possam ser os tormentos da alma humana e os escaninhos de nosso subconsciente.

Enquanto Tolstói simbolizava o corpo, o saudável, a natureza, o apolíneo, o epopeico, Dostoievski encarnava a alma, a doença, a pobreza infamante e, porque não, o dionisíaco que leva à curiosidade do conhecimento do coração humano, cujas veleidades mais ocultas e mais criminosas ele punha a nu. Daí o impacto moral, o horror religioso do seu estudo da alma.

Se por um lado Tostói insistia “nada tenho a ocultar dos homens”, o homem das dvorniks de São Petersburgo comentava: “eu carregava dentro de mim o amor sigiloso, tinha horror a que me pudessem ver, encontrar, reconhecer”.

Dizia Merejkovski: “ao lermos Dostoievski deparamo-nos com nossos próprios pensamentos ocultos que não confessaríamos nem a um amigo e nem a nós mesmos”, porque eles contêm uma arrepiante revelação: a revelação das profundezas da consciência, os mistérios do subconsciente.

Nietzsche jamais ocultou o quanto bebeu em Dostoievski chamando-o de “meu mestre, com seu profundo e criminoso rosto de santo”, cujos medos consistiam em “um receio profundo e místico, que obriga ao silêncio; começa diante da grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo atormentado e possesso, no qual o santo e o criminoso são um só...”. Freud, por seu lado, carregava consigo todas as obras da maturidade do escritor e a cada página colava suas observações. A seu amigo Zweig ele confessou jamais passar sem ler Dostoievski pelo menos um dia por semana.

Se o estilo do grande escritor é essencialmente romântico pela glorificação dos sentimentos e dos instintos, pela desvalorização das ciências e da razão, Steiner debita ao criador de “O Idiota” e do “Grande Inquisidor” a qualificação de ser o mais sombrio de todos os metafísicos trágicos.

Dostoievski escrevia seus livros como peças teatrais onde retinha a estrutura essencial do diálogo, e a partir daí expandia as direções de cena. Resultavam dramas colossais, cênicos  em quase toda a estrutura, com todas as ações compactadas em poucos dias. Em “Os Irmãos Karamazov”, até o julgamento de Dimitri, tudo se passa em apenas cinco dias; já a primeira parte, a mais volumosa, de “O Idiota”, transcorre em 24 horas; “Crime e Castigo” tem a duração de apenas uma semana.

Dostoievski conduz seus leitores até conflitos intensos de alma que podem até mesmo serem cruéis. As relações apaixonadas dentro das obras agem de  forma hipnotizadora, enfraquecendo a nossa própria vontade, pois “com uma volúpia consciente, diabólica, ele retarda o momento em que seremos conquistados, levando-nos ao paroxismo da angústia interior”, sublinha Zweig.

Personagens dostoievskianas-

Ao iniciamos a leitura de um livro de Dostoievski, deparamo-nos com um escritor que em meia dúzia de frases descreve todo o ambiente em que seus quadros se passarão. Vestuários, mobiliário e praticamente todo o espaço dedicado por outros criadores à natureza, é aqui ocupado pela humanidade e dado que não encontraremos mais que sucintas descrições ambientais, tudo estará repleto de seres humanos. O ambiente, desse modo, apenas fornece uma restrita base material para que os personagens se locomovam.

Herança de Balzac, Dostoievski possuía uma forte inclinação fisiognomista, buscando nas características e nas expressões faciais e corporais, a identificação de aspectos do caráter e do estado de alma de seus personagens; mas este componente descritivo, tais quais os ambientais, ocorre de forma rápida, sendo realizado com extremada maestria.

Se buscarmos identificar o principal motivo disso tudo, veremos que cada personagem tem um envolvimento tipicamente trágico, expressando-se quase que exclusivamente através da “paixão”. É no desenvolvimento desta “paixão” que surgem as controvérsias que, incessantemente, emulam  o indivíduo que anseia interpretar a si mesmo e, ao mesmo tempo, a todos os outros personagens, ao mundo e, até mesmo, a Deus.

Tal e qual no teatro trágico grego, nos momentos em que essas “personas” ultrapassam suas medidas, transformam-se em seres “possuídos” e que, no descrever de Zweig, “quando extravasam os seus sentimentos, já incandescentes, é quando desnudam toda a verdade de sua alma”.

Ora, por isso mesmo as personagens de Dostoievski dificilmente não podem ser por nós percebidas como pessoas de carne e osso, seres que pratiquem os atos diuturnos de todos nós, posto que elas sejam compostas quase que exclusivamente por espírito. Até mesmo quando comem, bebem e dormem, tudo isto é dissertado tendo como referência o seu significado na ação espiritual do drama, no desenvolvimento de suas “paixões”.

E como nos é transmitida essa “paixão”? Essa transmissão, como nos ensina Bakhtin, ocorre quando o autor ultrapassa a ideia do diálogo e chega ao que ele denomina multivocalismo, isto é, a polifonia, pois “após Shakespeare talvez Dostoievski seja o maior e mais polifônico de todos os dramaturgos”. Toda a paixão nos é transmitida através da palavra, portanto é preciso ouvir e fazer falar suas personagens para que elas nos transmitam suas próprias existências.

Por muito tempo julgou-se que o grande autor não escrevia adequadamente, ou o fazia de modo apressado, pressionado por suas permanentes dívidas e pelo sustento de seus familiares diretos e agregados, coisas que o afogaram por quase toda a vida. Nada mais ingênuo. Bakhtin nos descortina que, por meio da inexistência de subjetividade, os personagens não têm uma clara identidade unitária e, nesse sentido, a visão de mundo do escritor torna-se um espaço controverso, contraditório e sem unidade, despedaçado, ocupado por seus “doentes sagrados”. As paradas, as repetições, o gaguejar, são indispensáveis, porque “debaixo dessa palavra que falhou existe uma vibração, uma comoção secreta, e nós saberemos não somente o que uma personagem discursa, mas também o que ela dissimula”.

Um drama trágico com “doentes sagrados”-

Zweig observou  que “a  alma em Dostoievski é um puro caos; encontramos em sua obra bêbados que o são por desejo de pureza, criminosos por desejo de arrependimento, homens que violam virgens por respeito à inocência, blasfemos por necessidade religiosa”. Assinala ainda que não haver unidade nesse psiquismo humano, sendo que subsiste uma psicologia analítica que dissocia e desfibrila; como comparação literária nos diz que se em Homero, “Ulisses é manhoso, Aquiles, corajoso, Ajaz irascível e Nestor é prudente”, enquanto que em Dostoievski, todos as personagens são ambíguas e suas condutas, imprevisíveis. As prostitutas são santas, assassinos arrependem-se e, condenados pelo fórum íntimo mais que pelas leis ou justiça, alcançam a altura de espíritos libertos.

De toda maneira, de conflito em conflito, as personagens chegam a estados de desdobramento de suas personalidades e temos o surgimento de um “duplo”. Michikin e Rogogin são a cara e a coroa de “O Idiota”.

Se a tragédia grega buscava a “katarse” dos seus heróis e do público que a presenciava, nas obras do grande escritor seu correspondente é a “confissão”, que leva, por meio da humilhação, à purificação da alma. Logo, o mundo trágico de Dostoievski é um mundo de dor, onde todos sofrem, quer na doença, quer na miséria, quer nas injustiças sofridas, em decorrência de suas paixões.

A sensualidade amorosa, por ser paixão, nunca é um sentimento doce, terno e harmonioso; pelo contrário, muitas vezes ela é uma tentação monstruosa que, ao invés de conduzir à felicidade, conduz à loucura e à ruína da personalidade. Sofre-se por tudo isso, muitas vezes ao mesmo tempo, e serão as dores e os sofrimentos que resgatarão do mal e do pecado os personagens, libertando-os.

Religiosidade num escritor eslavófilo-

A fé de Dostoievski em Cristo é o referencial em que aportarão todos os seus anseios de máxima humanidade. O que queremos ressaltar é que, diferentemente de Cristo, a crença em Deus é muito mais problemática no autor. Seus personagens confessam que “Deus torturou-me a vida inteira” (Ivan Karamazov), simbolizando um conflito persistente entre sua razão a negar e a sua sensibilidade afirmar a necessidade de um porto seguro onde se abrigaria a pureza, o amor e a paz. Zweig diz que “como Sísifo, Dostoievski empurra eternamente o rochedo para as alturas do conhecimento de onde despenca sempre.”

Essa dúvida atroz empurra o grande escritor para o abrigo de um Cristo que se torna russo, e é da Rússia que ele crê que surgirá a salvação de toda a humanidade. Nesse sentido ler Dostoievski significa penetrar no universo de um grande nacionalista, onde o próprio destino da humanidade passa pelo destino do povo russo. Por isso, nele, jamais haverá uma só emoção da alma humana que não encontre seu lugar decisivo na alma do povo russo. “Apresentar a emoção humana mergulhada em sua aura, flutuando livre e solta dentro do elemento nacional, talvez seja a quintessência da liberdade na arte do grande escritor”, disse W. Benjamin.

Dostoievski deseja mostrar exclusivamente, seja conscientemente ou inconscientemente, a ação espiritual de suas “personas”. Seu paradigma é a imagem de Cristo, mas esta sem dúvida é diferente daquela que nós ocidentais dele possuímos, pois a que ele incorpora é profundamente ortodoxa e, como não poderia deixar de ser, eslavófilo; um Cristo que é destituído de sua liturgia e encarado única e exclusivamente como homem, como o homem em sua perfeição. É nesse sentido que Ele simboliza a Verdade, oferecendo a nós, mortais, a verdadeira Liberdade, uma Liberdade final, que jamais ocorrerá na Terra.

Logo, a Liberdade, assim como o bem e o mal sempre presentes em Dostoievski, apresenta-se exclusivamente sob o aspecto metafísico, nunca do ponto de vista político.

Outro aspecto a se considerar dentro do conceito de liberdade, é que ela carrega limites  necessários, e em seus termos cabe ao homem posicionar-se, dado que a liberdade sem limites, como um valor absoluto, é destruidora e abre as portas ao niilismo, ao orgulho e ao individualismo absoluto, que a tudo nega e a tudo corrompe. E entre o bem e o mal, na afirmação de sua liberdade, todos os sentimentos humanos são complexos, instáveis; eles confundem-se, atropelam-se e se combatem com extremo vigor.

 

Somente o povo russo possuiria a capacidade de compreender aos outros povos e por isso seria até mesmo necessário “que todos os homens se tornem russos”, ele chegou a dizer. Esse messianismo, na verdade, constitui uma nova ambiguidade. Na verdade, na visão de mundo de Dostoievski há mais que uma luta anti-racionalista; ele condena os germes de uma revolução social que já fermentava em terra russa. Presume que qualquer revolução que se fizesse contra a autocracia redundaria em uma nova autocracia, quando apenas ocorreria uma mudança de senhores e o povo permaneceria reduzido à servidão, em sua situação de rebanho. Prevê que o princípio religioso seria sacrificado e, em nome de uma futura felicidade social, crimes seriam praticados.

Dostoievski chega a desprezar as influências ocidentais, racionalistas, democratas e socializantes em pró de um novo eslavismo e a prefere a ordem à luta pela liberdade política; ao mesmo tempo, ele jamais se aliou aos poderosos, em nenhum momento frequentou os aristocratas, sempre se revoltou contra aqueles que atacassem as crianças, aos “Humilhados e Ofendidos” da Terra. Viveu uma vida humilde, sofrida, entremeada de crises epilépticas, perseguido por dívidas, por suas incongruências e dúvidas.

Enquanto Tolstói em toda a sua vida buscou soluções sociais para os problemas humanos, ele próprio intitulando-se “ um anarquista cristão”, Fiodor Dostoievski era um conservador. Um conservador liberal e profundamente humanista, que propugnou pela dignidade do ser humano, pelo amor ao próximo, pela fraternidade universal, expressando como ninguém o sentimento de com-paixão pelos fracos e oprimidos e pela redenção dos degradados sociais. Ao mesmo tempo, satirizou e ridicularizou como ninguém as vaidades, a corrupção social e a mediocridade das altas rodas.

Segundo André Guide, Dostoievski “tem sempre qualquer coisa para desagradar a todos os partidos” e na linguagem ainda do século XX, "a todas as correntes ideológicas".

 

"O Idiota"- Uma adaptação teatral



Adaptação livre para drama em três atos

Principais Personagens

  • Príncipe Liév Mischkin (O Idiota) – O protagonista do drama. Ele retorna a Petrogrado após anos de tratamento de seus ataques epiléticos e “crises de idiotice” na Suíça. Considera-se praticamente curado e permanecerá lúcido enquanto estiver na Rússia, o que caracteriza o princípio do drama até a apoteose do assassinato de Nastásia Philippovna, quando, então, retornará à clínica suíça, tendo perdido toda a sua capacidade de discernimento mental. Entrementes, Mischikin experimentará o amor por duas mulheres, Aglaia e Nastásia, mas seu amor está distante da paixão carnal, é muito mais amor pela alma pela primeira e compaixão pela segunda mulher.
  • Parfen Rogójin - Esta personagem representa o lado da animalidade, da violência, do amor passional, de puro antagonismo em relação à espiritualidade do príncipe Mischkin. Enquanto este é luz, Parfen é sombra. Mas um não sobreviverá sem a presença do outro, e como duas facetas de um “duplo”, eles experimentarão o amor e caminharão juntos para a catástrofe.
  • Nastásia Filíppovna- Personagem feminina central na trama; apesar de origem nobre, educada, fora em sua adolescência abusada por seu tutor, do qual se tornará amante. Este fato transtornou sua personalidade. Ela apaixona-se por Mischkin, mas tem certeza de poder destruí-lo se com ele casar-se; por isso sempre fugirá para os braços de Rogojin, que a ama verdadeiramente, e por quem se sente atraída fisicamente.
  • Afanássi Tótski - É um homem da alta sociedade, nos seus cinquenta anos, amante e mantenedor de Nastásia. Em conjunto como general Epantchin, elabora uma manobra para casá-la com Gavrila, pois o moço presta-se ao papel de testa-de-ferro por dinheiro. Com esta manobra conta livrar-se de Nastásia e casar com uma das filhas do general Epantchin.

Os Epantchins

  • Ivan Epantchin- É um general que se sente na fase ideal da sua vida, em pleno gosto por ele próprio e pela sua família. É alto funcionário do governo e ainda acumula lucros advindos de suas propriedades. A sua família é composta pela esposa e pelas suas três filhas, que são adultas e solteiras.
  • Lisaveta Epantchiná- É a mulher do general Epantchin, tendo por isso o estatuto de generala. É proveniente da linhagem dos príncipes Mischkin, sendo um parente distante do protagonista da história. Ela é dotada de forte poder de comando sobre toda a família, possui suas crises de desmandos, mas sua essência é benevolente; em certos aspectos ela reflete atitudes do Príncipe.
  • Aleksandra, Adelaída e Aglaia Epantchiná- São as três filhas do casal Epantchin. Umas pequenas princesas, educadas, a quem tudo é servido, devido à linhagem principesca da mãe. Bonitas, dotadas de cultura e inteligência. Teriam cerca de vinte cinco, vinte e três, e vinte anos respectivamente. A irmã do meio é a mais feliz e a mais simpática, Adelaide, a “sem brilho”; a mais velha, a mais enigmática, e por último, Aglaia, a mais jovem, é das três irmãs a mais importante na história. É caprichosa e bastante temperamental. Seu nome refencia-se a uma das Três Graças, “A luminosa”, que força o contraste com a obscuridão da “loucura” de Nastásia, com quem disputará o coração do Príncipe Mischkin.

Os Ívolguins

  • General Ívolguin – Uma figura extraordinária, o patriarca da família, que é atormentado pelo filho Gravila, de quem depende financeiramente. Um homem acabado pela amizade com a bebida, que possui uma necessidade compulsiva de mentir, mas as suas mentiras jamais visam trazer a maldade, e sim, entrelaçar, criar um vínculo afetivo com cada personagem.
  • Gavrila (Gánia)- No princípio da história é secretário do general Epantchin. Este Gania é um homem totalmente voltado ao dinheiro, sem escrúpulos, déspota na relação com seus familiares. Aceita um casamento de fachada arquitetado pela dupla Epantchin-Totski, exclusivamente por dinheiro, pois ele ama Aglaia, que, por seu lado, o despresa. Será o primeiro a denominar o Príncipe Mischkin de “idiota”. No entanto, quando os seus planos financeiros fracassam, passará a conviver com o Príncipe e modificar-se-á, tornando-se um homem bom, embora destruído para a ação prática.
  • Nina - É a mãe de Gavrila Ardaliónitch. Uma mulher modesta e digna, embora ressentida e amargurada por uma vida triste e difícil.
  • Varvara - A irmã de Gavrila Ardaliónitch.
  • Ptítsin- Usurário, que vive dos juros e penhoras, apesar de não ser uma má pessoa; após casar-se com Varvara Ardaliónovna, e depois da decadência de Gravila, torna-se suporte do lar dos Ivolguins.
  • Kólia- Um adolescente que reflete e dissemina pureza, filho do general Ivolguin e que devota sua vida a auxiliar a todos, principalmente ao Príncipe a quem é devotado, sem nenhum interesse financeiro.
  • Liébediev- Típico funcionário subalterno, bajulador, que está a par de todas as fofocas, dos ditos e dos não ditos na alta sociedade, à qual ele não possui acesso. No princípio do drama fará parte do grupo de beberrões, decaídos e fanfarrões, como Keller, Zaliojev e tantos outros, que acompanham Rogojin, mas que, posteriormente, juntar-se-ão a Mischkin, como parte de um processo de “redenção”, o mesmo que se passará com Gania.
  • Hippolit- Tísico praticamente condenado à morte, é filho da viúva capitã por quem o general Ivolguin é apaixonado. Pobre, faminto, decaído e conhecedor de seu estado, o que o transforma em um ser egoísta e mau, sumamente lamentável.

 

PRIMEIRO ATO

PRIMEIRO CENÁRIO: O cenário é um vagão da terceira classe, onde o príncipe Mischkin e Rogojin estão sentados um defronte ao outro. “Lá pelos fins de novembro, por volta das nove horas da manhã, um trem da linha Varsóvia- Petrogrado aproximou-se desta última, a toda velocidade”, assim principia a narrativa. Aquela aproximação inicial entre Mischikin e Rogojin é definidora, pois eles são parcelas de uma mesma figura complexa, onde o bem e o mal estão indissoluvelmente ligados. A animalidade, o instinto, o desejo sexual, a tomada de decisão estarão sempre ao lado do mundano Rogojin. O príncipe Mischkin é antes de tudo uma criança em sua inocência; encontramos nele aspectos de Cristo e de Don Quixote; mas ele é humano e em sua humanidade possui o seu lado Rogojin e neste sentido eles serão sempre companheiros inseparáveis, “irmãos”. Iniciam juntos no romance e saem do mesmo cada um para um lado, mas ambos condenados.

A necessidade do mal está para Dostoievski na justa necessidade do conhecimento, como o da árvore da vida no Paraíso. Portanto, a presença de Rogojin fará com que Mischkin desenvolva a sua inteligência. Na sua ausência, ele se idiotiza, num jogo permanente de claro e escuro. Sempre que o Príncipe estiver numa encruzilhada, por exemplo, quando retorna a Petersburgo, ele sente o par negro de olhos infatigavelmente a acompanhá-lo. Ele que é loiro, de olhos azuis, doces e transparentes. Rogojin, com seus olhos negros, duros e sensuais. O Príncipe é loiro, de aspecto delicado, quase um menino na sua ingenuidade e pureza de sentimentos. Rogojin é moreno, têm a mesma idade, mas é forte e passional.

No mesmo vagão de trem encontramos também “um homem de cerca de quarenta anos, com roupas de um escriturário, um nariz vermelho e o rosto muito manchado”. É Liebediev, um homem grotesco, que compõe, à guisa de público e coro, o entorno de personagens secundárias muito bem individualizadas pelo autor. Essas personagens são atraídas como moscas pelo mel de um escândalo, cortejam as presas por uma recompensa, não lhes importando a própria degradação nas mãos dos ricos e poderosos. São parasitas, que nadam colados aos corpos dos tubarões, para empanturarem-se dos restos dos repastos. Voltando a Liebediev, ele é um vasto fundo de intrigas que derrama já na primeira cena. Como um Corifeu, relata tudo o que sabe sobre os Epantchins, os parentes distantes do Príncipe; ao mesmo tempo que revela a grande herança, por morte do pai, que faz do outro mal-trapilho, Rogojin, um homem estupidamente rico; ao aludir ao fato da antiga e mais alta nobreza do paupérrimo Príncipe, deixa a entender que fala de uma linhagem ainda mais alta que a da nobreza terrestre, a do próprio Cristo. A riqueza da terra e a nobreza do céu, num contraponto de abertura.

Liebediev também traz à baila a paixão de Rogojin pela bela Nastásia Philippovna, que é protegida de um rico e pervertido homem, Totski, que por sua vez, é amigo do General Epantchin. Quando o trem chega, Liebediev se agrupa aos seguidores de Rogojin, um bando de valentões, desocupados e deserdados da sorte, que, sabedores da fortuna herdada, formarão, inicialmente, o esquadrão de beberões e farristas, a segui-lo por todas as partes. Final da cena, Mischkin e Rogojin se separam com protestos de amizade. O Príncipe, com sua pequena trouxa de roupas sai em busca da família Epantchin, cuja matriarca, a boa Lizavieta, viria a ser sua remota parente.

 

SEGUNDO CENÁRIO: São 11 horas da manhã. Na sala de espera do do escritório, de um luxuoso palácio ocupado pela família do General Epantchin, o Príncipe que começa a revelar a inocência de sua sabedoria, abre sua alma frente a um espantado criado, o primeiro que o atende. Percebemos que tudo o que o Príncipe toca transforma-se em transparência, pois ele não distingue posições e nem distinções sociais; conversará com o criado sobre os mesmos temas que com os senhores. E, na medida da ausência de convenções sociais tudo é dito dentro da inocência, sem malícia.

Quem conduz o Príncipe ao General é seu secretário particular Gânia. Por uma coincidência própria das tragédias, neste mesmo dia, Nastásia Philippovna completaria 25 anos e anunciaria se aceitaria ou não casar-se com Gânia. Um casamento arrumado por Totski e pelo General. Totski que seduzira Nastásia quando criança, mantém-na no maior luxo mas tem medo de seus repentes e de suas decisões. Como planeja casar-se com a filha mais velha do General, Aleksandra, o casamento com Gânia seria algo muito bem arrumado e pelo qual ele pagaria 75.000 rublos. O General, por sua vez, planeja tornar-se amante da lindíssima Nastásia e lhe encomenda um caríssimo colar de pérolas. Mas Gânia nutre um amor não correspondido por Aglaia, a filha mais nova dos Epantchins. Pese a ambiguidade de seus sentimentos, o que prevalece é a oportunidade de enriquecer às custas dos patrocinadores de seu casamento com Nastásia.

Gravila ( Gânia) possui um retrato de Nastásia e quando permite que Mischkin o veja o Príncipe diz: “é um rosto orgulhoso, terrivelmente orgulhoso! Eu não consigo dizer se ela é boa ou gentil. Oh, se ela fosse realmente boa, isto tornaria tudo maravilhoso!” Quando Gânia pergunta-lhe se ele casaria com aquela mulher, instigando-o, Mishikin confessa ser “um inválido”, a impotência sexual que o impedirá de transformar os seus amores em paixão. Gânia não se satisfaz e pergunta-lhe, então, se Rogojin casar-se-ia com Nastásia. “Creio que sim; ele a desposará amanhã e a matará em uma semana”. A centralidade da obra está dada. Mischkin percebera na foto uma Nastásia todo um orgulho, que é mórbido, auto-destrutivo, mas procurará desvendar o enigma de sua beleza, pois neste se refletirão muitas de suas qualidades morais. Gânia estremece com a afirmação do Príncipe, com a profecia da morte a ser realizada, feita sem nenhum esforço.

Lá pelo meio-dia, o Príncipe é apresentado a Lizavieta e a suas três filhas: Aleksandra, Adelaide e Aglaia. A inocência e a capacidade de proporcionar emoção em suas narrativas encantam a todas as quatro mulheres. Primeiro ele conta, sob o véu de ficção, o próprio processo de condenação à morte e simulação de execução que o escritor, Dostoievski, sofrera em sua juventude e que o marcará para sempre. Quando Aglaia lhe pergunta por que contava aquilo, ele não se explica, mas solta mais duas novas narrativas. Uma sobre uma execução de um prisioneiro, e outra sobre um conto de sedução e perdão de uma pobre moça com quem haveria convivido na Suíça, onde fora tratar-se de sua “idiotice” e dos ataques epiléticos. Nessa última história, visualizamos o Príncipe cercado por crianças, ele que as amava e respeitava. A história que Mischkin conta, aproxima-o de Nastásia e do próprio Cristo, a narrativa com Maria Magdalena e com os pequeninos. Mischkin observa melhor Aglaia e a qualifica como “quase tão adorável quanto Nastásia”. Nesta mesma recepção, por sua total transparência e incapacidade de conter-se socialmente, ele fala sobre Nastásia Philippovna causando um alvoroço, pois a senhora Epantchin está a par dos rodeios do marido e do casamento arranjado com Gânia. Este, então, é chamado pelas mulheres e questionado; em seu momento de ódio, pela primeira vez dirigi-se-á a Mischikin como “um idiota”. Mas Gânia terá que suportar a presença do Príncipe, dado que o General o convencera a hospedá-lo em sua casa, e para lá eles se dirigem.

 

TERCEIRO CENÁRIO: O cenário é, inicialmente, a casa de Gânia, no final da tarde do mesmo dia da chegada de Mischikin e Rogojin a Petrogrado. Aquilo que seria uma reunião familiar da mãe de Gânia, de Varvara, sua irmã e do seu pai, o general Ivolguin, com seus hóspedes, transforma-se totalmente com a entrada em cena de Nastásia e, posteriormente, de Rogojin e de seu bando; então, eis um momento eletrizante e que, por si só, valeria todo um romance.

Varvara sabe que Nastásia está sendo vendida a seu irmão e isto a enfurece. Gânia reage e tenta esbofeteá-la. O Príncipe o impede e recebe ele a ofensa física. Mas o tapa na face é recebido como Jesus o faria: Mischikin, vira-se para a parede e deplora Gânia pois “um dia ele iria envergonhar-se de sua ação”. Os dois ainda não se dão conta, mas o que está em jogo entre eles não é Nastásia, mas o amor por Aglaia. Rogojin, presente, revolta-se com Gânia por ele haver atingido “um cordeiro”; neste momento Nastásia volta a olhar para Mischikin e afirma “eu já o vi em algum lugar”, provavelmente na imagem de algum ícone. Temos que ambas as afirmações nos remetem a Cristo.

Mishikin pergunta “in off” a Nastásia se ela é realmente a espécie de mulher que finge ser. E isto é crucial, pois ela o encara nos olhos e diz “não”. Mas a resposta dada por Nastásia representa tão somente um aspecto da realidade, ou seja, a faceta com a qual ela que se apresentará ao Príncipe, mas que não exclui as suas loucuras, maldades e os comportamentos histéricos que ela praticará com outras pessoas, e para as quais se servirá do “duplo”de Mischkin, Rogojin. A vinda de Nastásia ao clã de Gânia, que tanto clima provocou, tinha como objetivo convidá-los para sua festa de aniversário, onde somente aí ela declararia com quem se casaria, pois os setenta e cinco mil rublos de Totski agora foram cobertos pela oferta de cem mil por Rogojin, para desposá-la.

Pois bem, à noite deste dia, a recepção na casa de Nastásia, que constitui uma continuidade da visita à casa dos Ivolguins, reúne todos os interessados em seu casamento: o General Epantchin, Totski, Gânia e alguém que se apresenta sem ser convidado, o próprio Mischikin. Rogojin, sempre cercado por sua troupe, chegará logo depois. Então um dos convidados propõe um jogo: cada um dos presentes deverá relatar a pior ação praticada em toda a sua vida. Três deles contam suas histórias, uma de roubo que recaiu sobre uma pobre criada; uma segunda, reporta a morte de um amigo devido a uma bricadeira cruel. Estas histórias criam um anti-climax para aquela que Nastásia prometera contar. Mas ao invés disso, ela dirige-se ao Príncipe e pergunta-lhe: “devo casar ou não? O que decidires, será”. Nastásia justifica sua escolha porque ele era “o primeiro homem de verdadeira franqueza de espírito que conhecera”. “Mas casar com quem?”, pergunta-lhe o Príncipe. “Com Gravila”, ela responde. Sente-se neste momento a atmosfera como que rarefeita ao redor dos personagens, e o Príncipe esforça-se para proferir seu veredito: “Não, não se case”. Leia-se, não se venda!

Neste momento a beldade disputada solta-se e rindo histericamente recusa casar-se com Gânia e devolve o colar de pérolas, presente de Epantchin, pedindo-lhe que “presentei a sua esposa”. Ouve-se a entrada da troupe de Rogojin, que chega “feroz”e “entorpecido”. Com ele os cem mil rubros mas, tal qual Mischikin, ele possui dignidade, embora numa versão rude, pois ele os oferece a Nastásia como se nada representasse para si mesmo e aguarda a sua decisão. Rogojin não disfarsa uma compra como o fazem os Totski e Epantchins. Para ele, menos que uma compra, é um jogo que está disposto a ganhar pois ama apaixonadamente. Mas quem intervém é o Príncipe, para a surpresa de todos e ele,sim, agora propõe casamento a Nastásia: “Eu considero que é a senhora quem me dará a honra e não eu à senhora. Eu não sou nada, já a senhora sofreu e saiu de um grande inferno, e pura, e isso é muito.” Mas Nastásia olha-o e diz que ele precisaria mais de “uma enfermeira que de uma esposa”. Teria ela se dado conta de que o “amor” que lhe dedicava o Príncipe seria um amor de compaixão? Que ele seria incapaz de amar sexualmente? Ou apenas que ele seria muito pobre, pese ser um aristocrata?

Ainda é muito cedo para concluirmos, e de certa forma, a acertiva da moça é feita “en passant”. Neste momento, numa atitude melodramática, o Príncipe saca do bolso uma carta que atesta ser ele o herdeiro de uma grande fortuna. Instala-se o caos a partir de então: o pobre Príncipe transforma-se em um rico herdeiro. Nastásia tem uma explosão de orgulho, pode virar uma princesa e rica se o quiser, e sente-se deliciada na vingança contra Totski e Epantchin. Rogojin abre seus braços e pede ao Príncipe que reconsidere sua proposta de casamento. Mischikin, sempre na presença de Rogojin, adquire alto nível de inteligência e percepção. Sabe ser o amor do amigo muito mais autêntico e completo que o seu. Dirige-se a Nastásia: “a senhora é altiva, mas talvez seja tão infeliz que já se considere culpada”.

Dostoievski sempre indaga se o orgulho não adquire seus prazeres mais autênticos na auto-dilaceração espiritual. Com um olhar de louca, Nastásia rindo lhe responde: “E estavas mesmo achando, Príncipe, que eu casaria contigo? Quem gosta de crianças é o Totski”, referindo-se, com malícia, ao fato de que Totski a estuprara quando menina. Perde então o seu senso de pudor e declara que depois, teria sido amante do mesmo. Propõe então ao Príncipe que ele se case com Aglaia. Mas como ela soubera a respeito da paixão nascente entre ambos? Dostoievski, sempre nos extremos dos conflitos, faz seus personagens adquirirem, em algum sentido, a capacidade da percepção absoluta. Mas aquela mulher que fora na vida ofendida revela sua faceta sádica. Atira ao fogo o pacote dos rubros trazidos por Rogojin e diz que se Gânia os recuperar das chamas eles lhe pertencerão. Teria, entretanto, de queimar-se os dedos. Todos ficam hipnotizados pela pequena fortuna a arder, mas Nastásia não admite que ninguém se aproxime. Apenas Gânia poderá fazê-lo. No coração do moço trava-se a enorme batalha entre sua alma vil e uma nesga de dignidade. Ao final ele desmaia. Sua dignidade está salva. Nastásia mesma recolhe o dinheiro do fogo e dele se apossa. “Vamos embora Rogojin! Adeus Príncipe, eu vi o homem pela primeira vez na minha vida.” Teria “o homem” a conotação de Cristo? Talvez o autor quisesse expressar isto.

Mas eu creio que o sentido de “o homem” simbolize, para quem sempre vivera em meio ao escárnio e à corrupção, a descoberta de que um homem que pode ser bom, honesto e amoroso. Saem em desabalada carreira em sua troica para uma temporada de orgias numa cidade vizinha de Ekateringov, no que serão seguidos pelo Príncipe, mas sob os protestos do general Epanchin, que já figurava nele, Mischikin, um fututo bom partido para sua filha Aglaia. Fecham-se as cortinas do PRIMEIRO ATO. Passaram-se 24 hs desde que o Príncipe travara conhecimento com Rogojin no trem chegando a Petersburgo.

 

ENTRE-ATO O Príncipe, após os eventos descritos, desapareceu de Petersburgo por seis meses. De concreto sabia-se que ele estivera em Moscou para receber sua herança. Coincidentemente, tanto Rogojin como sua “troupe” e Nastásia Filíppovna também estiveram fora da cidade. Notícias e boatos falavam que todos haviam estado em Moscou, até que Mischikin chegara a viver um mês com Nastásia, que, após comprometer-se a casar com Rogojin, abandonara-o na igreja. Gravila por sua vez, renunciou ao trabalho na casa dos Epantchins e recolheu-se a uma enorme melancolia. Dizia-se também que Gânia encontra-se pela madrugada do dia fatídico da partida de Rogojin e Nastásia com o Príncipe, no seu retorno de Ekateringov, e lhe entregara o pacote de dinheiro que pertencia a Nastásia. Que muito haviam conversado, o que acalmara o pobre rapaz. Em junho, aproveitando o verão, os Epantchins viajaram para sua datcha em Paulovsk. O Príncipe, que desde Moscou enviara a Aglaia uma carta para que ela não o esquecesse, carta esta que ela guarda por acaso dentro de um livro: “Don Quixote”, retorna a Petrogrado. Incorpora agora um novo visual, excessivamente na moda, mas costurado para um homem que não possuia o menor interesse nisso.

 

SEGUNDO ATO

PRIMEIRO CENÁRIO:: Preâmbulo: “... em Dostoievski, onde não há somente criação de seres humanos, mas de moradias, como a casa do assassinato de Crime e Castigo, com o seu dvornik; ela não é quase tão maravilhosa quanto a obra-prima dos assassinatos em Dostoievski, aquela sombria, e tão comprida e tão alta e vasta casa de Rogojin, onde este mata Nastásia? Essa beleza nova e terrível de uma casa, essa beleza nova e mista de um rosto de mulher, eis o que Dostoievski nos deu de único no mundo.” Assim se expressou Proust a respeito das personagens e das moradias de Dostoievski. Estes locais são habitados por avarentos, judeus que emprestam a juros exorbitantes ou penhoram os bens dos desesperados, funcionários bêbados, estudantes rotos e sem dinheiro, costureiras, moças virtuosas, mas também as decaídas, por crianças famintas e com os olhos arregalados, tuberculosos que dificilmente saem de suas camas, velhos e velhas esclerosadas que encomendam suas almas a Deus. São recantos emergentes de um conto de terror gótico.

Nossa cena terá como palco um prédio antigo, ocupado por certo tipo de judeus que se tornavam eunucos por opção, para qua a sua única paixão na vida fosse dedicar-se a amealhar dinheiro. O prédio possui um cartaz que diz: “Pertence aos herdeiros do honrado cidadão Rogojin”. O Príncipe, que andava ao acaso, tinha certeza de que seu amigo Rogojin ali residiria e lá deveria estar estar. O prédio era grande, sombrio, sujo; quase sem janelas e tudo, por dentro e por fora era inóspito e seco, dissimulado e escondido. Mischkin não se enganara, pois desde sua chegada na estação ferroviária, sentira sobre si aquele olhar negro e ao encontrarem-se diz a Rogojin: “Teu prédio tem a fisionomia de toda a tua família…isto é uma escuridão, pois vives no escuro”. No centro da conversa entre eles está Nastásia Fillipovna. Aparentemente ocorre uma disputa entre os amigos pelo amor da moça. Enquanto o Príncipe diz que “não a ama por amor, mas por compaixão”, Rogojin confessa que possui por ela um amor de perdição, sente-se usado e diz que “tudo em mim é ridículo para ela”. Mischikin assegura-lhe que se eles ficarem juntos será a perdição de ambos: “Haverás de odiá-la por esse amor de hoje, por todo o sofrimento que ora aceitas. Ela já te rejeitou duas vezes e fugiu na hora do casamento”.

Mas em Rogojin tudo é paixão, tudo ele converte em paixão. Caso não fosse Nastásia, ele seria como o pai ou como os eunucos, pois trancar-se-ia naquele prédio e juntaria dinheiro, assim como quadros arrematados por dois rubros em leilões, até o final de sua vida. “Tudo isso ainda acabará num rio ou na ponta de uma faca…Ela ama outro. Tu, Mischikin! Mas Nastásia acha impossível casar-se contigo pois iria te cobrir de vergonha e arruinar-te”. O Príncipe e Rogojin comungam quando juntos; quando separados, o Príncipe possui a sensação de ser perseguido pelos olhos negros e Rogojin pensa em assassinar o rival. Mas agora eles comungam, trocam suas cruzes, Mischikin é abençado pela velha mãe do amigo. Ao partir, entretanto, depara-se com um quadro sobre a porta, uma cópia de Holbein: o Cristo sendo retirado da cruz. Um Cristo humanizado, um homem dilacerado pela tortura que sofrera como homem, e não como deus, até a morte. O Príncipe impressiona-se, chega a tocar em uma tesoura nova por duas, três vezes e pressente a desgraça. Rogojin, referindo-se a amada lhe diz: “Fiques com ela, é tua”. O Príncipe nada responde, parte. No entanto, o Hotel para o qual se dirige é praticamente uma reprodução da casa de Rogojin, uma extensão do mesmo Cenário. Ele se crê seguido pelos olhos negros e decide procurar Rogojin nos corredores que mais se assemelham a labirintos. Defronta-se com a imagem de Rogojin, mas que possui um punhal a vibrar em sua mão. Nesse instante, Mischkin sofre um ataque epilético, cai e rola doze degraus sem ser tocado pela lâmina.

 

SEGUNDO CENÁRIO: Vamos ao balneário de Paulovsk, próximo a Petrogrado, para onde, recuperado, Mischkin viajara. As ações ocorrerão na datcha onde ele se hospeda, pertence a Liebiediev. Ela é luminosa, bonita, possui um amplo alpendre, onde Príncipe recepcionará todos os desordeiros que antes acompanhavam Rogojin. Além desta datcha, a apenas um quarto de hora de caminhada, localiza-se a belíssima casa de campo ocupada pelos Etpanchins. Um pouco mais longe, teremos a terceira datcha, a da amiga de Nastásia, Dária.

Sabedores do retorno do Príncipe e de sua doença, toda a família Etpanchin vêm visitá-lo e Aglaia declama o poema de Puchkin, “O Cavaleiro Pobre”, uma espécie de Don Quixote, puro e nobre, que ela dedica ao Príncipe, por quem começa a enamorar-se. Mas esta visita será conturbada pela chegada de uma nova “troupe”, um grupo de jovens niilistas que vem exigir dinheiro do Príncipe. Com eles, um pretenso filho bastardo do antigo benfeitor de Mischikin, que publicara um artigo na imprensa ofensivo ao Príncipe: “aristocrata, milionário e idiota- todas as qualidades que faziam com que nenhuma mulher conseguiria encontrar um partido tão bom assim.” Mischkin encarregara Gravila, de pesquisar o que existiria de verdade naquela demanda e Gânia irá desmacará-los. O bastardo que não o era, filho de uma mãe que jamais tivera relações extra-conjugais com o protetor de Mischken. Não obstante, o Príncipe não se sente ofendido, busca mesmo entender os “niilistas” que tratam de agredí-lo e termina por colocar o dinheiro à disposição dos mesmos.

Mas o comportamento superior do Príncipe, de certa forma, agride o espírito prático dos Etpanchins, exceto o de Aglaia, que, entretanto, pede-lhe que “não ouse visitá-la”. O Príncipe é ingênuo. Será preciso que Lizavieta lhe diga que o que a filha deseja é exatamente sua visita, mesmo porque “ela precisa de um palhaço como tu; há muito não havia outro, mas tu bem que o mereces, venha à nossa casa.” O último movimento da cena nos é dado por uma carruagem de alto luxo que se detém por instantes em frente à varanda da casa de Liebiediev, e dentro dela encontra-se Nastásia com uma amiga, que tratam de injuriar a um dos convidados de Mischkin. O objetivo da moça era simplesmente o de fazer anunciar sua chegada a Paulovsk, principalmente ao Príncipe.

 

ENTRE-ATO Lizavieta conduz o Príncipe à sua casa e reúne-o a suas três filhas, a dois futuros pretendentes a mão de duas delas. O Príncipe diz a todos que jamais pensara em pedir em casamento a mão de Aglaia. No dia seguinte, entretanto, num banco de jardim, o amor entre ambos ficará claro. Nastásia planeja que o Príncipe case-se com Aglaia. Passa a escrever à filha dos Ivoguins chegando mesmo a sugerir que fizessem um casamento duplo: ela e Rogojin; o Príncipe e Aglaia. Em um ato de desespero, arroja-se aos pés de Mischiken, em prantos pergunta-lhe se ele é feliz, se ele e Aglaia se casarão. Promete que é a última vez que se verão e parte com Rogojin.

 

TERCEIRO ATO

PRIMEIRO CENÁRIO: A datcha de Daria, a amiga de Aglaia, onde ela se encontra hospedada em Paulovsk. Aglaia quer tirar tudo a limpo e promove um encontro, ou melhor, uma batalha que definirá as vidas de todos eles. Para tanto, leva consigo o Príncipe. O que Aglaia, na realidade deseja é eliminar a concorrência de Nastásia e tê-lo apenas para si. Ela se veste com um manto claro e sua oponente a receberá de preto fechado. Em cena Mischikin, Rogojin e as duas mulheres. Elas insultam-se mutuamente de tal modo a não se permitirem recuo; apenas um caminho resta, o desastre. Nastásia, quando Aglaia lhe joga na face que Mischikin estaria ligado a ela apenas por compaixão, que ela sim, o ama, pois “quem quiser enganá-lo, e a quem quer que o engane, ele depois perdoará, a todos e a qualquer um”, sai de seu comportamento áspero e caminha para uma total insanidade. Esta é a primeira vez que Aglaia declara claramente seu amor ao Príncipe e o faz num jogo de tensão e luta.

Mas Mischkin é mais facilmente levado ao erro por si mesmo que por qualquer outra pessoa; nele a separação entre amor e compaixão é muito instável para levá-lo à mesma conclusão lúcida de Aglaia. Nastásia é uma mulher muito mais experiente que a jovem Epantchina, e disso tirará partido nesta batalha. Ela insiste para que sua inimiga fale, enrede-se, confunda ainda mais o pobre Príncipe. E Aglaia cai em sua armadilha quando a acusa de não trabalhar. “E por acaso, você não vive no ócio?”, retruca Nastásia, como se a virgindade da mesma dependesse de sua fortuna, e que sua degradação tivera origem na pobreza. Pelo menos esse é o sentido apreendido por Mischkin. Quando Aglaia pronuncia o nome de Totski e diz que se Nastásia fosse honesta trabalharia como lavadeira, ela perde a compostura e seu ataque é eivado de presunção social. Esvaiu-se a angelicidade de Aglaia. Mishikin reage chorando e diz: “Aglaia, não! Isto é indelicado.” Nastásia sabe-se vencedora, talvez mesmo sem o querer; Rogojin já não sorri. Ela arrancará o Príncipe da filha do general, ao mesmo tempo em que assina sua própria sentença de morte, pois tal como nas tragédias gregas, após os grandes duelos, não há vitórias ou vencedores, apenas os grandes desastres. “Se você resolveu vir aqui, foi por medo de mim. Não se despreza a quem se teme… e sabe (Aglaia) porque a senhora me teme e o principal motivo desta reunião? Quer se certificar se ele ama mais a mim que a senhora, pois está com um enorme ciúme…” Aglaia ao sentir perdida a sua causa mente: “Ele a odeia, disse-me”. “Mentira, ele jamais poderia dizer-lhe isto”. Incontinente Nastásia ordena que o Príncipe escolha uma das duas. Mischkin olhou e encontrou em seus olhos o desespero, a loucura e aquele olhar “trespassou-lhe como uma flecha o coração”. Dirigiu-se a Aglaia e disse-lhe apenas “mas ela é muito infeliz”.

Encontrou na face da moça apenas sofrimento e um ódio infinito e antes que pudesse tomar qualquer atitude, Aglaia partiu e nunca mais Mischkin tornaria a vê-la. O final da cena é melodramático; Nastásia grita num ataque histérico: “É meu, é meu. A grande moça foi embora e pensar que eu já o havia dado para ela. Louca, louca! Agora, Rogojin, deixe-nos, vá embora!” Mishikin e Nastásia permanecem a sós; o Príncipe a acaricia como se faz a uma criança… Dostoievski nos conduz a um interlúdio de paz, aquela paz trágica que prenuncia o desastre inevitável. O Príncipe e Nastásia marcam a data do seu casamento; no dia aprazado, entretanto, ela tornará a fugir com Rogojin, deixando o noivo com os convidados. Troca as carícias e a paz com Mischikin, o doce anjo, pelo sensual e vulgar, mas que “conversava” com a “metade” maníaca de sua personalidade. Existe nela alguma coisa que se opõe à volúpia, à alegria da felicidade; é a volúpia da dor, a alegria de se torturar. O Príncipe “saiu da igreja pelo visto tranquilo e animado; pelo menos foi o que as pessoas que o viram, contaram”. No entanto, no dia seguinte, toma o primeiro trem para Petrogrado: irá procurar por Nastásia e Rogojin.

 

SEGUNDO CENÁRIO: A casa de Rogojin, com todas as janelas fechadas, tudo na mais completa escuridão. Rogojin assassinou Nastásia. Ele procura por seu “irmão”, seu duplo, Mischikin e o encontra na rua a rodear o edifício; toma-o pelo braço, não se falam. Para que se está tudo claro? Se tanto o Príncipe quanto a própria assassinada pressentiam o que aconteceria? Desde o primeiro dia em que Nastásia avistou Rogojin, ela sabia que seria por ele assassinada e por isso fugia. Conhecia até mesmo a tesoura que transporia, um dia, seu peito. Seu último retorno para o amante ocorrera para que seu “destino”, afinal, se realizasse.

Atravessam a rua, e entram na casa onde jaz o corpo. Uma sensação de solenidade e de harmonia em todos os campos da percepção. Inimigos pelo amor, irmãos pelo sentir penetram no quarto. Quando falam, sentimos o céu estremecer sobre nós, os espectadores, dado o nível de crueza e de brutalidade. Os dois têm apenas uma preocupação: “o cadáver cheirará mal”? E Rogojin dirá a Mischikin que comprou “uma boa lona americana”, sobre a qual “derramou quatro frascos de desinfetante”. A verdade excede a si mesma e transforma-se em em martírio. Dormem um ao lado do outro, querem preservar-se, aos três, para si mesmos.

Depois de muitas horas, quando as portas foram abertas e as pessoas que procuravam por eles entraram, encontraram o assassino completamente sem sentidos e febril. O Príncipe estava sentado ao lado dele e calado. A cada vez que Rogojin gritava ou delirava, ele se apressava em passar a mão por seus cabelos e faces, “como se o afagasse, acalmando-o”. Já não compreendia nada do que lhe perguntavam e não reconhecia a quem lhe cercava. Se seu próprio médico o encontrasse agora, diria: “Idiota”.

Irmãos Karamasov- resumo comentado



Introdução

 

Stefan Zweig, ao terminar de escrever o seu livro “Os Construtores do Mundo”, no qual incluiu análise sobre a vida e obra de Balzac, Dickens, Holderlin, Kleist, Nietzsche e Dostoievski, foi convidado a realizar  um resumo comentado da principal obra do grande escritor russo: “Os Irmãos Karamazovi”. Pensou seriamente em realizar tal projeto, facilitando para as novas gerações uma leitura simplificada no estilo, condensada em sua trama, mas que não deixasse de inserir os eixos conceituais humanísticos, psicológicos, religiosos e políticos da obra.

Ele sabia que, num primeiro contato, o leitor de Dostoievski corre o risco de acreditar que está na presença de uma obra pouco movimentada, mas prolixa, dada a polifonia de cada personagem, além disso, inserida num mundo com hábitos e até mesmo nomes bastante estranhos. Fatores mais que suficientes para  induzir o leitor de “primeira viagem” ao desânimo nas primeiras páginas do livro.

Infelizmente, uma série de circunstâncias como o advento da Segunda Guerra Mundial e o falecimento prematuro do grande intelectual e escritor vienense  impediram que ele executasse tal projeto.

Talvez seja uma grande pretenção nossa a tentativa de realizá-lo, e em pleno no século XXI, quase cento e cincoenta anos após a primeira edição de Os Irmãos Karamazovi. No entanto, cremos que aqueles que obtiveram  iluminação  através da leitura e da compreensão da vida e do homem aportados pelos “ Construtores do Universo”, carregam uma espécie de dívida de gratidão para com aqueles que não somente são imortais, mas também, no dizer de D.H. Lawrence, autores de livros “titânicos”. De toda forma, cientes de nossas limitações, empenhamo-nos de corpo e alma na tarefa árdua, excitante e extremamente compensadora de levar tal projeto adiante.

Que título melhor para nosso modesto trabalho que o próprio nome dado por Dostoievski para o local onde se passa toda a tragédia dos Karamazovi senão Skotoprigonievski, uma cidadezinha que justapõe palavras em russo cujo significado é “um depósito de animais”? O grande depósito de animais que simboliza um universo, microcosmo de nosso mundo de humanidades, no dizer de Ivan, repleto de “focinhos humanos”.

O narrador afasta-se da história por meio do relato feito a partir das ações de terceiros, cujo vértice é o mais novo dos Karamazovi, Aliocha, de quem se define “biógrafo”.  Nosso trabalho será um resumo de “Os Irmãos Karamazovi”, livro a livro, capítulo a capítulo, da mesma forma como foi estruturado pelo autor. O leitor que o desejar, a qualquer momento poderá interromper a leitura do nosso texto para aprofundar-se no original, o que esperamos que ele sempre o faça.

Reservamos, ao final de nosso trabalho, um espaço destinado a uma breve explicação do conjunto da obra.

 

Primeira Parte

Livro I- A história de uma família

Fiodor Karamazov-  Casou-se pela primeira vez com Adelaida Miusova, bela, rica. Todos se perguntam como um “doidelo” conseguiu raptá-la para forçar o seu casamento; talvez uma das explicações seria a “independência de mulher”, uma forma de protesto contra o despotismo familiar do qual  Adelaida desejaria escapar. De sua parte, Adelaida talvez tenha sido no mundo, a única mulher por quem Fiodor não  se sentiu sexualmente atraído. Se ele a raptou foi exclusivamente pelo dinheiro e posição social. Casados, roubou-lhe o dote. Adelaida, por sua vez, desprezava-o e não demorou muito para que passasse a lhe bater fisicamente, com o que ele se habituou.

Ao final do quarto ano, ela abandonou-o e ao filho, Dimitri (Mítia), com três anos de idade. Fugiu para Petrogrado e foi viver com um seminarista, sem um tostão de sua pequena fortuna, quase na miséria.

Fiodor, então, transformou sua casa num verdadeiro bordel; embriagava-se constantemente e em um de seus porres soube que sua mulher morrera de tifo. Ele regozijou-se com a libertação, chorando a morte de sua libertadora. Clamava pateticamente pelas ruas: “Deixa morrer o teu servo!” Muitas pessoas, mesmo as más, são mais ingênuas e mais simples do que pensamos, conclui o narrador.

 

Karamazov livra-se do filho-  Fiodor esqueceu-se de seu filho Dimitri por completo. O pequeno Mítia foi recolhido por seu servo fiel, Grigori, que o criou. Adelaida tinha um primo, o ilustre Piotr Miusov, homem culto, de ideias avançadas, conhecedor de Bakunin e de Proudhon. Ao ver a situação de extrema penúria pela qual passava o menino abandonado, conseguiu ser nomeado tutor e levou-o consigo para morar. Devido a suas viagens ao exterior, ele terminou passando Dimitri para uma tia que, ao morrer, legou-o à filha. Antes de sua adolescência, portanto, Dimitri teve quatro lares distintos.

Devido à influência de seus parentes maternos, ele cresceu achando que possuía alguma fortuna e que, na maioridade, tornar-se-ia independente. Seus estudos não o conduziram até o final do ginásio; ele ingressou no Exército, atingindo o posto de tenente, mas devido a um duelo, foi do mesmo excluído. Desde então, entregou-se à orgia e ao esbanjamento de seu dinheiro. O pai, que somente voltaria a vê-lo na maioridade, de tempos em tempos, enviava-lhe algum dinheiro, fruto de herança materna da qual ele se apropriara. De qualquer modo, jamais pai e filho coabitaram o mesmo teto.

Quando foi chegada a hora do acerto definitivo de contas, Dimitri deu-se conta de que, formalmente, não lhe restara quase nada e que talvez até devesse dinheiro ao pai. O rapaz suspeitou de que havia sido fraudado, quase perdeu a razão e passou a detestar o velho Fiodor.

 

Novo casamento, novos filhos-  Depois que se livrou de Mítia, Fiodor Karamazov casou-se novamente e essa união durou oito anos. Sofia Ivanova era órfã e vivia com a viúva de um general, que tanto a educara quanto a maltratara. A moça que era doce, paciente e cândida, aos dezesseis anos consentiu em ser raptada por Fiodor, que agora era atraído  pela beleza e não por dinheiro. Mas o tipo de atração que aquela criatura sentia era apenas sensualidade.

Ao contrário da força que Adelaida possuia, Sofia era fraca. Seu marido logo após o casamento, transformou a própria casa em um bordel; Grigori, o servo fiel, tomou as dores da pobre moça e até mesmo chegou a expulsar algumas raparigas que por lá andavam. A pobre passou a sofrer crises histéricas, o que popularmente eram traduzidas como um tipo de “possessão”. Não por acaso o nome Sofia significa na ortodoxia “aquela que é tocada pela graça”. Ela deu ao marido dois filhos: o primeiro, Ivan e, dois anos após, Alieksei (Aliocha). Quando o menor completou quatro anos, Sofia morreu.

Aquele pai voltou a esquecer os filhos, que, a exemplo de Dimitri, foram recolhidos por Grigori, caso contrário teriam morrido de fome no desamparo. Foi na isbá do servo que aquela viúva do general, que educara Sofia, encontrou-os maltrapilhos. Deu um par de tapas na cara do pai, Fiodor, e levou as crianças. Pouco depois, a velha senhora faleceu, deixando algum dinheiro para a educação de cada menino e um parente próximo encarregado dos mesmos. Esse parente apegou-se ao mais novo, Aliocha, o qual sempre lhe foi mais próximo.

Ivan, por sua vez,  tornou-se um adolescente sombrio e fechado, percebendo bem cedo a sua situação de dependente de desconhecidos. Esse fator, assim como o comportamento do pai, causavam-lhe muita vergonha. Ao contrário de Aliocha, estudou com afinco e entrou para a Universidade, ao mesmo tempo em que trabalhava para ganhar a vida como colaborador em jornais. Chegou mesmo a produzir um artigo que lhe angariou certa fama, versando sobre os “Tribunais Eclesiásticos”.

Foi de uma hora para outra que Ivan apareceu na cidade e instalou-se na casa do pai e os relatos da época indicavam que se deram até muito bem. Somente mais tarde descobriu-se que Ivan viera em defesa dos interesses de Dimitri, o irmão com quem se correspondia. Como Aliocha vivia há um ano no mosteiro próximo, pela primeira vez a família reunia-se numa mesma localidade. Convém que informemos o leitor que a idade do mais novo dos Karamazovi, Aliocha, no momento dos fatos a serem relatados, era de vinte anos, Ivan tinha vinte e quatro e Dimitri, vinte e oito.

 

O terceiro filho: Aliocha- O jovem noviço não era um fanático e, nem tão pouco, místico, “mas um filantropo muito adiante de seu tempo”. Seu nome remonta ao Santo Alieksei, o “homem de Deus” na ortodoxia cristã. Escolhera a vida monástica por ter encontrado um ser absolutamente excepcional, o stariets Zózima. Aliocha sempre gostara de seus semelhantes e em toda vida teve fé nos mesmos. Era de um pudor e de uma castidade exaltada. De sua infância ele trazia uma alentadora imagem que jamais o abandonava nos momentos mais difíceis: a sua mãe, durante uma de suas crises de histeria, com seu rosto exaltado, mas sublime, levando-o até aos pés da imagem de Virgem Maria e colocando-o sob sua proteção. Ele era o único dos filhos Karamazovi que possuía uma única recordação reconfortante da casa paterna.

Após a morte de seu benfeitor, ainda estudou dois anos de ginásio e desistiu, indo morar com parentes daquele, pois na verdade, Aliocha jamais se importara às custas de quem vivia, sendo nisso o oposto do orgulhoso Ivan. Na verdade, o mais novo dos Karamazovi ignorava o valor do dinheiro.

Quando decidiu vir até à casa do pai, fazia-o em busca do túmulo da mãe. Ao reencontrar, adulto, o pai Fiodor Karamazov, esse  mal sabia localizar o túmulo que estava em sua propriedade, dado que se negara a comprar um espaço ao lado da Igreja; até mesmo a colocação de uma simples lápide fora obra de Grigori.

Como um parêntese na narrativa, devemos contar que Fiodor, três ou quatro anos após a morte de Sofia, deixara a cidade, reaparecendo somente depois de doze anos, portando-se de modo  mais descarado que nunca: o antigo bufão agora gostava de rir-se às custas dos outros. Retornara com um excelente capital, de mais de cem mil rublos, obtido através da usura e de alguns negócios obscuros. Embriagava-se cada vez mais e era o patrono do bordel da cidade. Seu aspecto era de prematuro envelhecimento. Bolsas pendiam dos olhos descarados, desconfiados e maliciosos. Sua cara gorda terminava em um queixo pontudo e um grande pomo-de-adão que lhe conferiam um aspecto ao mesmo tempo luxurioso e repelente. Possuia uma boca de carniceiro com lábios entumecidos que revelavam os cacos enegrecidos dos dentes e, quando falava, não conseguia evitar a saliva que se espalhava.

Desde o retorno de Aliocha à cidade, o seu pai, quando bêbado, beijava-o, o que jamais fizera, pois talvez fosse Aliocha a única pessoa a quem Fiodor amava. Quando soube que a decisão do filho era residir no mosteiro e não em sua casa, pôs-se sentimental. Era ao mesmo tempo mau e sentimental.

Aliocha era um jovem bem feito, de faces vermelhas e olhar límpido, sendo mesmo bastante belo. Os milagres jamais o perturbaram, dado que ele era um realista. Precisamos esclarecer que “no realista a fé não nasce a partir de um milagre; mas o milagre da fé, na medida em que o sujeito adquire a sua fé, deve em virtude do realismo, admitir também o milagre”. Possuia uma alma despreendida das trevas e desejava “viver para a imortalidade”. Se Aliocha não acreditasse em Deus e nem na imortalidade, ele seria, com certeza, ateu e socialista, mas ele tinha a concepção de que ser socialista significaria construir uma Torre de Babel, não para atingir os céus, mas para trazer os céus à terra.

Logo após conhecê-lo, o stariets Zózima, disse-lhe: “Largas tudo o que tens e segue-me”. Assim o fez.

 

Os starietsi-  Os starietsi surgiram na Rússia no século XVIII, apesar de existirem no Sinai e no Monte Atos há mais de mil anos. Constitui aquela figura religiosa que absorve “tua alma na dele”. E tendo-o escolhido e sido escolhido, o religioso o obedecerá com toda resignação. Constituirá uma dura apreendizagem voluntária, para após toda uma vida, atingir a “liberdade perfeita”, aquela liberdade para consigo mesmo, evitando a má sorte daqueles que não se encontram a si mesmos. A confissão torna-se um ato contínuo e perpétuo, unindo o seguidor e o stariets num elo indissolúvel. É verdade que, como muitas coisas, essa relação pode ser uma arma de dois gumes, pois em lugar do desenvolvimento da humildade e do domínio de si mesmo, de repente acontece de um orgulho satânico desenvolver-se no mestre e, ao invés de um homem livre que se submeteu, teremos um escravo.

Tal coisa jamais aconteceria com Zózima. Ao longo de sua vida, ele adquirira uma grande perspicácia; logo ao primeiro olhar sobre o desconhecido sabia o motivo pelo qual estava ali, aquilo de que necessitava e até mesmo o que atormentava sua consciência. Todos que adentravam em seus aposentos mais que simples, monacais, com temor e inquietação, saiam radiantes, e até o rosto mais sombrio iluminava-se.

Muitos doentes o visitavam e retornavam de joelhos dizendo-se curados. Seriam realmente curas ou decorrências de processos naturais ou psicológicos? Aliocha nem se inqueria a respeito. Ele acreditava na força espiritual de seu stariets; deste modo, sabia que as pessoas vinham a ele como a um ser que fosse depositário da verdade divina, e sonhava com o dia em que a verdade se instalaria na Terra e, todos então, livres do pecado, amar-se-iam uns aos outros, não existindo mais pobres e ricos, nem elevados e nem humilhados.

Retornando à relação entre os Karamazovi, Aliocha ligava-se mais a Dimitri, pois Ivan para ele era um estranho. Até mesmo o moço se perguntava se não haveria um certo desprezo de parte do ateu sábio, em relação a um pobre noviço. O que mais o espantava era o respeito que Dimitri nutria por Ivan, dado que eles eram totalmente diferentes.

Na pequena cidade, todos conheciam as pendências financeiras entre Dimitri e seu pai. A ideia de uma reunião de reconciliação entre ambos partiu do próprio Fiodor Karamazov. Ela dever-se-ia realizar com um mediador e foi escolhido o stariets Zózima e, em sua cela marcou-se o encontro familiar, incluindo Piotr Miusov. Desde o princípio, Aliocha desacreditara desse encontro; para ele, Piotr e Ivan iriam por curiosidade e seu pai faria o papel de palhaço. Unicamente Dimitri o levaria a sério, o que afinal se confirmou.

 

Livro II- Uma reunião intempestiva

Chegada ao mosteiro- Piotr Miusov, se nos recordamos, era primo da primeira falecida esposa de Fiodor. Para o encontro, ele fez-se acompanhar de um outro parente afastado, o jovem Kolganov. Por seu lado, Fiodor fez-se acompanhar de Ivan; Dimitri, inexplicavelmente, atrasou-se.

Fiodor, objetivando ter uma boa relação com o mosteiro, acabara de realizar uma doação de mil rublos, atitude tão fora de sua vida mesquinha que a todos deixara estupefatos. Já Miusov, livre-pensador, possuia há anos uma richa com os padres a respeito de certas terras para caça e pesca. Simplesmente  para se ver livre de aborrecimentos, estava disposto a abrir mão de seus direitos, pese considerar que    “aquelas criaturas de exterior plasmado pelos séculos, tinham um íntimo que não era senão charlatanismo e absurdo”. De toda forma, logo ao chegarem, todos foram convidados pelo padre abade para jantar  assim que concluíssem a reunião com o stariets e aceitaram de boa vontade.

Caminharam pelo pequeno bosque que separava do mosteiro o humilíssimo eremitério, abrigo que servia de residência para o  stariets e onde ele recebia pessoas de fora do convento. Somente excepcionalmente ele recebia em sua própria cela.

 

Um velho palhaço-  Zózima estava acompanhado do erudito padre Paísi, do padre bibliotecário e de dois noviços, Aliocha e um outro, de nome Rakitin. Recebeu  todos amavelmente, mas os convidados esquivaram-se de sua bênção, o que provocou o primeiro embaraço para Aliocha.

Fiodor apresenta-se como “um velho palhaço”, dizendo que fala apenas para “fazer rir e ser agradável”, quando, na verdade, se o fazia era para mentir, assim como não levar os outros e nem a si mesmo a sério. Ele transforma um clima de veneração, respeitado pelos livres pensadores como Miusov e Ivan, em algo intolerável. As piadas que conta subvertiam tudo. Somente ele não se curvava ao ambiente em que só o amor e a bondade, inspiradores do arrependimento, imperavam, assim como a vontade de resolver problemas advindos da consciência moral ou dos sentimentos. Como um bufão pergunta como faria para regenerar-se.

O stariets responde-lhe: “Não se constranja e não tenha tanta vergonha de si mesmo, pois todo o mal vem daí… Há muito tempo o senhor sabe o que precisa fazer: não se entregue à embriaguês e à intemperança da linguagem, não se entregue à sensualidade, sobretudo à paixão ao dinheiro. E, sobretudo, não minta! ” E, a seguir: “Aquele que mente a si mesmo e escuta a sua própria mentira vai até ao ponto de não distinguir a verdade, nem em si nem em torno de si, pois perde o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar entrega-se ao gozo e a paixões grosseiras, chega mesmo à bestialidade em seus vícios e tudo isso decorre da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender a si próprio. Ele sabe que ninguém o ofendeu, mas mente para embelezar, até o prazer que lhe dá grande satisfação e, com isso, chega pela mentira, ao verdadeiro ódio.”

 

As mulheres crentes-  No erimitério havia uma sala reservada para o atendimento de mulheres de “qualidade social” e uma galeria de madeira onde se acotovelavam as mulheres do povo. O stariets, aproveitando o atraso de Dimitri, fez um intervalo no encontro para atendê-las.

Nesse dia, havia umas vinte mulheres na galeria e foi a elas que Zózima dirigiu-se em primeiro lugar, abençoando-as. Ao atendê-las, primeiramente ocupou-se de uma mulher em crise histérica. Tanto a “possuída” quanto seus acompanhantes achavam que ela estava tomada por algum “espírito” e esperavam sua “cura”.  E, realmente, como em vezes anteriores, só a bênção do stariets a curava, nem que fosse por um minuto. Depois consola com a esperança da vida eterna a uma mãe que perdera o filho de três anos, criança que possuia o mesmo nome de Aliocha, Alieksei, “o santo homem de Deus”. A uma mulher que confessa seu pecado ele diz: “Se te arrependes, é porque o ama. O amor redime tudo e salva. O amor é como um tesouro tão inestimável que em troca pode-se adquirir o mundo inteiro.”  Finalmente, atende uma pobre camponesa que, carregando um filho no colo, ali se encontrava apenas para entregar algum dinheiro “que não lhe fazia falta”, para que ele o destinasse a alguém com mais precisão que ela.

 

Uma dama sem muita fé-  Na sala reservada, esperava pelo stariets uma proprietária, viúva e ainda muito bonita nos seus trinta e três anos, que trazia numa cadeira de rodas a filha de quatorze anos, paralítica. Ela chama-o de “grande curador”, ao que Zózima replica: “Mas eu a curei? Ela está em cadeira de rodas”. “Mas a febre noturna desapareceu”, afirma a mãe, “sua saúde melhorou”.

A mãe confessa ser infeliz e que não crê na imortalidade da alma. Também diz querer praticar o bem, cuidar de enfermos, mas que o medo que possui da ingratidão das pessoas a faz recuar. O stariets recomenda-lhe que “experimente o amor que age”, que somente na medida em que ame ela convencer-se-á da existência de Deus e da imortalidade. O stariets conta a história de um médico que dizia amar a humanidade em geral, mas quanto mais a amava no geral, menos amava o homem em particular, como indivíduo. Dizia: “Desde que alguém esteja próximo, sua personalidade oprime o meu amor-próprio e constrange minha liberdade.” Ele possuia um amor contemplativo, aquele que tem sede de realização imediata e de atenção geral. Já o amor que age prescinde de elogios, é o trabalho pelo próximo e o domínio de si mesmo.

Sua filha chama-se Lisa e é amiga de infância de Aliocha, com quem brincara. Ela entrega-lhe uma carta de Katierina Ivananova, pedindo-lhe que a visite, dado que residia como hóspede de sua mãe. O bilhete é enigmático, mas Aliocha compromete-se a visitá-la. De qualquer forma, a menina também deseja a visita de Aliocha, que evita seus olhares instigantes. Ao final da entrevista, Zózima promete-lhe, com um sorriso, que Aliocha irá vê-la.

 

Que assim seja!-  Após atender às mulheres, Zózima retorna à sua cela e tem início uma nova discussão tão ao sabor de Dostoievski. Trata-se da separação da Igreja do Estado. O ponto de partida é o artigo de jornal escrito por Ivan Karamazov a respeito dos Tribunais Eclesiásticos. Para ele, a questão de qualquer compromisso entre Igreja e Estado, no que tange à Justiça seria impossível. “Que a Igreja ao invés de ocupar um lugar no Estado, deveria absorver todo o Estado”. Em síntese esse era o posicionamento de seu texto.

O padre Paísi externa o ponto de vista de que a Igreja pertence a esse mundo e Cristo teria vindo para estabelecê-la. Tudo o que não pertence a esse mundo já está no reino dos céus. Ivan dirige-se ao stariets, dizendo que desde que o Estado romano, pagão, adotou o cristianismo como religião de Estado, ele incorporou a Igreja. Paísi novamente intervém, estabelecendo o ponto de vista ortodoxo, de que “não é a Igreja que deve se converter em Estado, mas sim, o Estado que deve mostrar-se digno de ser uma Igreja e nada mais.”

Miusov intervém com ironia na discussão: “trata-se de um ideal infinitamente longínquo, aí pelos tempos do regresso de Cristo. É o sonho utópico do desaparecimento das guerras, dos bancos, da diplomacia…algo que se assemelha ao socialismo”.

Zózima retoma a questão da justiça do ponto de vista dos crimes e dos castigos. Diz que todas as deportações, trabalhos forçados, punições corporais não emendam ninguém e, sobretudo, não atemorizam  nenhum criminoso. O número de crimes cresce e a sociedade não resulta preservada. Se alguma coisa pode emendar o condenado e fazer dele outro homem é a lei de Cristo que se manifesta pela voz de sua própria consciência. Desta forma, é somente perante a Igreja que um criminoso pode reconhecer sua falta e não diante do Estado. Se a justiça pertencesse à sociedade na qualidade da Igreja, ela saberia revogar a excomunhão a quem retornasse a seu seio. Em não sendo assim, a Igreja deve renunciar ao castigo do criminoso e cercá-lo de sua edificação paternal. O criminoso é um filho caro à Igreja e ela não deve perdê-lo, sobrevivendo como justiça na consciência do criminoso, no instinto de sua própria alma. Num futuro, a Igreja compreenderá o criminoso e seu crime de um modo totalmente diferente do presente. Saberá converter o excomungado, prevenir intenções criminosas e regenerar o recaído, “mas ela mesma, a Igreja, ainda não está preparada para isso”. Paísi complementa o raciocínio de Zózima, dizendo que não é a Igreja que se transformará em Estado- isto é, Roma e seu sonho- mas o Estado que se transformará em Igreja.

É interrrompido por Miusov: “Os senhores são socialistas-cristãos”, sentencia.

 

Tal homem existe?-  Uma hora depois, chega Dimitri e imediatamente recebe a bênção do eremita. Ele fora enganado por Smerdiakov, servo de seu pai, sobre o horário da reunião. De todo modo, continua a discussão teológica. Comentam que Ivan teria afirmado que nada no mundo obrigaria as pessoas  amarem seus semelhantes ou, mesmo, a humanidade. Zózima fita Ivan e lhe diz que esta questão da imortalidade e de Deus, não estando resolvidas em sua alma, o torturariam, mas que de todos os modos, dever-se-ia agradecer a Deus por haver-lhe dado um coração sublime, capaz de atormentar-se e meditar a respeito dessas questões essenciais. Nesse momento, Ivan levanta-se e é por ele abençoado.

Fiodor Karamasov decide mudar totalmente o assunto e acusa Dimitri de ser um de “Os Bandidos”de Schiller. Este defende-se, pois seu pai unicamente busca o escândalo. Então, Fiodor diz que o filho já recebera toda a herança a que tinha direito, estando mesmo a dever-lhe dinheiro. Ainda comenta que  ele surrara um capitão reformado, que por sua ordem procurara pela jovem Gruchenhka, devido a umas promissórias de dívidas assinadas, o que lhe permitiria que metesse o filho na cadeia por falta de pagamento.

Ao ouvir o nome de Gruchenhka, Mítia defende-se dizendo que o seu pai age, além de tudo por ciúme, pois ela o despreza. Fiodor como fanfarrão e palhaço não titubeia em dizer que se Mítia não fosse seu filho, chamá-lo-ia a um duelo. Dimitri: “Um velho debochado e vil comediante, por que tal homem existe?”e complementa: “Pode-se permitir que ele desonre a Terra?”

Grita Fiodor como um bufão: “Parricida! Talvez essa mulher, a sereia Gruchenhka, seja mais santa que todos vós, santos de Igreja”. E no auge do deboche: “Ela caiu na juventude, mas muito amou. Ora, Cristo perdoou quem muito amou”.

Basta! De súbito, o stariets levanta-se e dirige-se para o canto onde se encontra Dimitri, ajoelha-se frente a ele. Levantando-se e já saindo, diz: “Perdoem-me todos”. Está terminada a reunião, do modo como intuíra Aliocha.

Ao sairem do eremitério, Piotr, Fiodor e Ivan dirigem-se para o jantar com o padre abade. O pai Karamazov, no meio do caminho, decidirá partir, desfazendo do convite aceito por ele, apenas para encontra uma oportunidade extra para se fazer passar por palhaço.

 

Um seminarista ambicioso-  Enquanto aqueles se dirigiam ao refeitório, Aliocha, que deveria servir o jantar, ao despedir-se do stariets ouve sua recomendação de que o futuro do mesmo não seria no mosteiro e que após a sua morte, ele deveria retornar ao mundo: “Perigrinarás, casar-te-ás e deverás suportar tudo até voltares.”

Depois de deixá-lo, Aliocha encontra-se com Rakitin, aquele seminarista esperto e metido a tudo saber, tudo perceber, que estivera presente à reunião. Põe-se a interpretar o comportamento do stariets, que o velho havia farejado um crime, pois “a tua casa está a feder”. “Entre teus irmãos e teu rico pai, ele designou o criminoso”. E prosseguiu: “Entre pessoas muito honestas, mas sensuais, há uma linha que não se deve transpor. O teu pai é um bêbado e debochado sem limites. Nenhum dos dois, Dimitri e seu pai, conter-se-ão e ei-los no fosso”. E, englobando o próprio Aliocha diz que “na família Karamasovi a sensualidade chega até o frenesi” e que não pode conceber como o amigo ainda seja virgem, pois “até mesmo tu és sensual por parte de pai e inocente por tua mãe”.

Esse Rakitin possui opinião sobre tudo e julga a todos por si mesmo. A respeito de Gruchenhka, de quem se diz “íntimo”, diz que ela excita pai e filho, sem decidir-se sobre quem lhe é mais vantajoso. Sabe que pode arrancar mais dinheiro de um ( do velho) , mas esse não se casará com ela. Já Dimitri abandonaria sua própria noiva, rica e nobre para casar-se a pobre com a pobre Gruchenhka. Ficamos sabendo que ela é mantida pelo prefeito, o ex-mujique, o velho e depravado Samsonov. “Ora, de tudo isso, sairá um crime, aliás é o que Ivan espera, pois teu outro irmão dará um duro golpe, casando-se com Katierina e levando 60.000 rublos. E Mítia acreditará que ele lhe fez um favor”.

Aliocha rebate sua reflexão maldosa de que Ivan não busca o dinheiro, mas o que ele procura ‘’é o sofrimento”. “Ivan não precisa para isso de milhões, apenas de seus pensamentos”.

Rakitin arvora-se em possuir um pensamento avançado, apesar de um comportamento  leviano e de um coração atormentado e invejoso. Despede-se de Aliocha, retomando um tema sobre o qual haviam conversado na cela, dizendo-lhe que “mesmo sem crer na imortalidade da alma, a humanidade ainda tem força para viver na virtude. Tira-a do amor à liberdade, igualdade e fraternidade”, reproduzindo a temática da Revolução Francesa.

 

Um escândalo-  Fiodor Karamazov que, momentos antes despedira-se de todos, retorna  para o grupo que iria jantar, dizendo que “sejamos verdadeiros palhaços, porque todos, mesmo os mais destacados de todos vós, sois mais estúpidos e vis que eu.” Em seguida principia por acusar os padres, mesmo a respeito de fatos que nem conhecia, numa atitude bufa diz: “Reverendo padre, vós , com vossos vinhos e jejuns, explorais o povo”. Retoma temas de vinte anos atrás, acusando os monges de haverem colocado sua falecida mulher contra ele e, em seguida, por pura fanfarronice, ordena que Aliocha abandone o mosteiro.

O jantar está perdido, o escândalo feito e todos partem.

 

Livro III- Os sensuais

Na antecâmara-  A casa de Fiodor, apesar de seu estado de deterioração, era bastante agradável. Possuia um só andar, com sótão, e muitos corredores e recantos ocultos. Nela abrigavam-se apenas Ivan e o pai, enquanto os criados, Grigori, sua esposa Marfa e Smerdiakov, viviam em um pavilhão à parte, fora da casa.

Grigori era um velho honesto e incorruptível. Para Fiodor fora um achado cercar-se de pessoas não pusilânimes e firmes. Ademais seu servo, durante toda a vida, tirara seu patrão de apuros, dada a maldade e a luxúria desmedida do mesmo, de modo que Grigori possuia um apreço tão grande, natural e sincero por quem absolutamente não o merecia. Ao contrário do patrão, gostava de crianças. Por esse motivo, recolhera simultaneamente Dimitri, Ivan e Alieksei, quando o pai esqueceu-se deles. O casal chegou a ter um filho, mas que viveu apenas duas semanas. Na noite em que a criança foi enterrada, Marfa ouviu um choro de recém-nascido. Grigori procurou na propriedade de onde vinha o som e, junto à latrina do quintal encontrou, moribunda, a idiota da cidade, Lisavieta Smerdiakovna ( literalmente, “a fedorenta”) que acabava de dar à luz um menino.

 

Lisavieta Smerdiakovna-  Lisavieta tinha pouco mais de vinte anos quando, desvairada, caminhava à toa por toda a cidade. Quer fosse inverno, quer verão, andava descalça, vestindo apenas um camisolão. Baixa, rosto saudável, totalmente idiota, tinha um olhar plácido, mas fixo e desagradável. Era órfã de mãe e frequentemente sofria espancamento pelo pai alcoólatra. O povo possuia imensa pena da pobre “fedorenta”, mas tudo o que lhe davam por misericórdia ela abandonava, vivendo apenas de nacos de pão preto e água. Quando seu pai morreu, sem um lar, ela foi praticamente adotada pela cidade. Dormia em qualquer lugar que lhe dava na teia. Pulava as cercas e pronto, tinha um canto do qual ninguém imaginava retirá-la.

Houve, entretanto, uma noite, há muitos anos, em que cinco ou seis farristas, dentre eles Fiodor Karamasov, que usava uma faixa de luto no chapéu pela mulher falecida, encontraram-na pela madrugada. Ele disse aos amigos que seria algo até mesmo “picante” possuir a idiota. Os amigos se afastaram e ele ficou. Quando Lisavieta apareceu grávida, o boato apontava-o como o autor da patifaria. Grigori tomou a defesa de seu patrão, dizendo que o mal fora praticado por um fugitivo da justiça.

No dia do parto, a cerca que Lisavieta escolheu para saltar foi a de Fiodor Karamazov e lá, na privada, pariu seu rebento e faleceu. Grigori em seu misticismo, recolheu a criança e a depositou nos joelhos de Mafra “ como um filho que Deus lhes dera, filho de um Satanás e de uma justa”. Fiodor batizou-o e permitiu que recebesse o patronímico de Fiodorovitch, apesar de, cinicamente, negar sua paternidade. Foi incorporado ao serviço da casa e, posteriormente, quando adulto, cursou aulas de cozinha em Moscou e passou a ser o cozinheiro oficial da residência.

 

Confissão de um coração ardente-  Aliocha, graças ao bilhete que lhe fora entregue pela viúva na audiência com o stariets, a mãe de Lisa, que se chamava Khokhlakova, caminha para o encontro de uma mulher que lhe procova profunda agitação, Katierina Ivanovna. Ele não temia as mulheres, exceto essa, a noiva de Dimitri. Lembrava-se dela como sendo uma pessoa altiva, bela, imperiosa, orgulhosa. Ele sabia dos esforços que ela fazia para salvar Dimitri, mas cada vez que pensava nisso um arrepio de premonição percorria-lhe o corpo. De qualquer forma, para chegar à casa em que ela estava hospedada, deveria margear a propriedade de seu pai, uma pequena e decadente propriedade em que viviam duas pobres mulheres. Para sua surpresa encontrou, atocaiado a vigiar a propriedade paterna, seu irmão Dimitri.

Mítia lhe declara seu amor fraterno e faz uma confissão. Começa por apresentar-se como um homem humilhado, que não enxerga um caminho para a vida. Crê-se vil, maldito e degradado, mas crente em Deus. “Nós Karamazovi somos assim, insetos gratificados por Deus com a luxúria, e esse inseto também vive em ti, meu irmão, pois a sensualidade é uma tempestade, talvez, algo mais ”. “A beleza é algo terrível e espantoso. Terrível por indefinível e não é possível que a definamos pois Deus só criou enigmas. A beleza é um mistério. Não posso tolerar que um homem de grande coração e inteligência comece pelo ideal de Madona e venha a acabar no de Sodoma. Mas o horrível é, trazendo no coração o ideal de Sodoma, não repudiar o de Madona, arder por ele como nos dias de inocência…O coração acha beleza até no ideal de Sodoma que é, aliás, o da maioria. É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha”.

 

Confissão de um coração ardente e anedotas-  Dimitri segue em sua confissão. Diz que, para ele, o dinheiro não passa de um acessório, no fundo, uma encenação. “Hoje sou amante de uma dama, amanhã de uma mulher da rua; divirto a ambas prodigalizando dinheiro e o dou a elas.” Confessa gostar da devassidão pela sua própria abjeção, assim como de certas maldades, pese não ser nenhum percevejo ou inseto malfazejo. Jamais vendera ou comprometera nenhuma mulher. “Sou um Karamazov, está tudo dito”.

Aliocha também faz a sua confissão: “Eu sou igual a ti. A escada do vício é a mesma para todos. Estou no primeiro degrau e creio que não sou capaz de não galgá-los”.

Dimitri relata-lhe a história de sua relação com Katierina, coisa que somente o fizera ao seu outro irmão. Quando era oficial do Exército e servia numa guarnição distante, o coronel comandante do destacamento era o pai dessa moça e de sua irmã, Agáfia. Enquanto Agáfia era simples e bonita, bem ao gosto russo e residia com o pai, a irmã Katierina estudava em Moscou. Ela era a mais jovem, filha de um segundo casamento do pai com uma mulher da nobreza. Katie era nobre, altiva e orgulhosa.

Em um determinado baile, Katie, recém chegada de Moscou, menosprezara Dimitri e ele ficara à espera de poder vingar-se. Acontece que, nessa mesma época, ele recebera do pai Karamazov 6.000 rublos, como quitação de sua herança.

O coronel e a família viviam à larga, talvez porque o mesmo utilizava-se dos rendimentos dos fundos do caixa da guarnição, empregando-os a juros. Acontece que, por um azar, o último empréstimo, no valor de 4.500 rublos, não fora pago pelo tomador, e, o coronel corria o risco de ser desmoralizado caso se descobrisse o rombo no caixa. Dimitri soube do ocorrido e, através de Agáfia, propôs-se  a pagar a dívida do pai, desde que sua irmã Katie fosse buscar pessoalmente o dinheiro em sua casa. E Katie prestou-se ao sacrifício, o que significava oferecer-se ao libertino, mas ele não a tocou. Apenas entregou-lhe o envelope com o dinheiro, olhando-a “com um ódio imenso”. A moça curvou-se até o chão, numa atitude de suprema humilhação e se foi. O velho coronel, que faleceu quinze dias após, teve salva a sua honra.

 

Confissão de um coração ardente e desbocado- Com a morte do pai, Katie, Agáfia e as tias partiram para Moscou. Logo depois, uma parenta da mãe de Katie falece e deixa-lhe uma boa fortuna. Numa manhã, Dimitri recebe pelo correio um envelope com a exata quantia que dera à moça; junto com o dinheiro vem uma carta na qual ela se declara apaixonada por ele e pede-lhe que “mesmo que não a ame, que consinta em ser seu esposo”. Textualmente dizia ainda: “Quero amá-lo eternamente e salvá-lo de você mesmo”.

Dimitri diz que lhe escreveu em resposta, falando de sua permanente falta de dinheiro; mas que, afinal, confessa que havia viajado até Moscou, tendo prometido a Katie mudar de vida, e, finalmente, haviam ficado formalmente noivos, antes de seu retorno à cidade de seu regimento.

Posteriormente pedira ao irmão Ivan, que em Moscou residia, que a visitasse com frequência. Aconteceu de Ivan apaixonar-se por Katie e que ele seria o ideal com quem a moça deveria se casar. Aliocha diz não concordar com Mítia, pois para ele, “é exatamente a um homem como você que ela deve amar”. Mítia: “Não, irmão, ela ama a sua própria virtude. Minha alma é um milhão de vezes mais vil que a dela…Aliocha, eu afundarei na lama e ela ainda casará com Ivan”.

Pede que Aliocha vá até sua noiva e, apresentando-lhe seus cumprimentos, rompa com os vínculos que os uniam, pois que apaixonara-se por outra mulher, Gruchenhka, a quem conhecera por um acaso. Conta ao irmão que ele fora um dia à casa dessa com intenção de espancá-la, dado que Gruchenhka estava no negócio com seu pai, comprando determinadas promissórias que ele assinara, para colocá-lo na cadeia por dívidas. “Ela é uma mulher muito ordinária, amante de um velho comerciante chamado Samsonov; além disso, usurária sem compaixão, velhaca e desbocada. Mas ela é a peste”.

Vem, então, a segunda parte dessa confissão. Um dia Katierina chamara-o para pedir-lhe que postasse 3.000 rublos para sua irmã. Mítia, que estava sob o encantamento de Gruchenhka, pegou o dinheiro e bancou uma tremenda farra numa hospedagem num lugarejo chamado Mokroie, com direito a mulheres e ciganos. Em três dias, não tinha nem um tostão. Mesmo assim não conseguiu possuí-la e a “sereia” lhe disse rindo: “Se quiseres, casarei contigo, embora pobre, mas terás de prometer-me não me bater e deixar-me fazer o que quiser.”

Diz ao irmão estar disposto a casar-se com ela, mesmo se tiver que esconder-se no quarto vizinho quando os amantes da mesma chegarem. “Sabe, Aliocha, há nisso um delírio e uma tragédia. Dimitri jamais foi um ladrão, mas agora o sou”. Pede-lhe mais um favor:  que além de Katierina, visite também seu pai, pois por 3.000 rublos estaria disposto a esquecer todo o passado, a dar por quites toda e qualquer pendência entre eles.

Mas ele mesmo sabe que essa seria uma missão impossível. Que seu pai jamais lhe daria esse dinheiro. Pois por cúmulo das coincidências, também Fiodor estava apaixonado pro Gruchenhka e que, se ela o visitasse, pagar-lhe-ia com 3.000 rublos que estavam em determinado envelope, conforme lhe dissera Smerdiakov, que, no caso, era seu aliado. Eis o motivo de Aliocha encontrá-lo naquele local de tocaia. Estava disposto a impedir de qualquer forma que a moça se entreguasse ao velho Karamazov e, se não o conseguisse, declarava-se disposto a matar o próprio pai.

 

Smerdiakov-  Aliocha decide primeiramente visitar seu pai. Encontra-o em grande felicidade, na companhia de Ivan e ao lado dos dois criados, Smerdiakov  e Grigori.

Smerdiakov, a quem Fiodor chama de “a burra de Balaão” é um tipo pouco sociável e taciturno, arrogante e que nutria por todos os que o circundavam um desprezo absoluto. Quando criança sua diversão era enforcar gatos e enterrá-los. Grigori até mesmo questionava se uma pessoa que não gostava de ninguém como ele,“se seria humano”. Era vítima de epilepsia que, de conformidade com os médicos consultados, não possuia cura. Dentro de enorme cinismo professava submissão ao patrão e grande honestidade, tanto que Fiodor proibira a Grigori que lhe batesse, chegando mesmo a franquear-lhe a chave da biblioteca que continha muitos livros de sua propriedade, cujo dono jamais os lera.

Um dia, cansado da péssima comida preparada por Marfa, Fiodor enviou Smerdiakov a Moscou para apreender culinária. Ao regressar, transformara-se em excelente cozinheiro. Todo o seu ganho era gasto com cosméticos, botas e ternos. Isso chamava a atenção pois o rapaz não gostava nem de homens e nem de mulheres e Ivan chegará a chamá-lo de eunuco. De toda forma era de um tipo psicológico contemplativo, que armazenava toda impressão; poderia talvez tornar-se um eremita ou pôr fogo em toda a sua aldeia, ou, ainda, ambas as coisas ao mesmo tempo.

 

Uma controvérsia-  O grupo conversa sobre um soldado russo, que preso por asiáticos e sob a ameaça de tortura e morte, fora concitado a abjurar o cristianismo e a converter-se ao islamismo. Ele preferira o martírio. Smerdiakov externa a sua opinião de que não teria havido pecado algum se o soldado houvesse renegado o nome de Cristo para salvar a vida, sendo que depois, poderia dedicar sua vida à prática de boas ações. E que, no instante mesmo em que renegasse Cristo, tornando-se pagão, ele já, como excomungado, não poderia ser julgado no reino dos céus, do ponto de vista que um cristão.  E que “se hoje as montanhas já não se movem, por que deixar-se esfolar sem nenhum proveito?”

 

Saboreando o conhaque-  Após o jantar haver sido servido, Fiodor Karamazov expulsa os dois criados e fica apenas com os filhos, servindo-se de mais conhaque. Falam sobre Smerdiakov. O pai diz que Ivan o atrai e este comenta que “ele fará parte da vanguarda (de transformação social) quando o momento chegar”. Mas ainda complementa Ivan: “Haverá outros e melhores, mas também haverá muitos como ele, um lacaio, um pulha. Ele armazena ideias”. Diz o pai: “ Mas não tolera nenhum de nós.  Sou a favor das pessoas de espírito. Deixamos de bater nos mujiques por liberalismo, mas eles continuam a chicotear a si mesmos. Eu odeio a Rússia, isto é, não a Rússia, mas a todos os seus vícios”. Justamente ele, Fiodor Karamazov, um desbocado, fanfarrão e alcoólatra. E segue: “Os padres deveriam ser mortos pois impedem o progresso”. É claro, entretanto, que ele não fala a sério, mas como um palhaço que é. “É necessário que se suprimam os mosteiros, essa engenhoca mística, a fim de que a verdade resplandeça”. Ele ainda questiona Ivan sobre a existência de Deus e da imortalidade. Ivan:  “Não há Deus; não há imortalidade por menor que seja”. E o diabo? Pergunta finalmente o velho. “Também não existe, mas sem a invenção de Deus não existiria a civilização”.

Após essa conversa “mais séria” os efluxos do conhaque faz o dono da casa falar sobre as mulheres e “que jamais encontrara nenhuma feia, pois basta o sexo e já é muito”.Passa até mesmo a contar as vilanias que praticara com a mãe de Aliocha, esquecendo que falava também da mãe de Ivan. Somente interrompeu sua fala ao deparar com os olhos cheios de ódio do filho. Justo nesse instante, ouve-se um grande barulho e Dimitri irrompe na sala de jantar. O velho se desespera e agarra a aba do paletó de Ivan; “Ele vem me matar, não me entregue!”

 

Os sensuais-  Dimitri tivera que espancar Grigori para forçar sua entrada; ele estava possesso pois acreditava que Gruchenhka estava escondida em algum canto da casa. Começa por revirá-la toda e o pai tenta detê-lo, pois semi-bêbado, também passa a crer que a moça esteja realmente em sua casa, sem que soubesse. Mas ela não está em lugar algum. Ao final, o velho acusa Dimitri de havê-lo roubado e é pelo filho espancado e ferido na cabeça. “Não me arrependo de ter vertido o teu sangue, diz”. “Eu te maldigo e renego”, reponde o pai com o rosto ensanguentado.

Para completar o cenário, Grigori desespera-se por Mítia, a quem socorrera na infância, ter ousado agredi-lo. “Que Deus o preserve”, diz Aliocha ao irmão. Ao passo que Ivan: “Que os répteis se devorem entre si, esse é o seu destino”, e complementa dizendo que, apesar disso, “não permitirá que ocorra um assassinato”. Dimitri parte e o velho pede aos filhos que perguntem a Gruchenhka com quem ela prefere casar-se.

No jardim Aliocha questiona Ivan sobre o que este dissera a respeito dos répteis se devorarem uns aos outros: “Pode alguém arvorar-se o direito de julgar seus semelhantes, e de decidir o que é digno de viver e o que não é?”

Ivan: “Que vem fazer aqui a apreciação dos méritos e dos direitos? O coração se baseia sobre outros motivos mais naturais. Quanto ao direito quem não o possui de desejar? Por acaso, crês-me capaz, como Dimitri, de derramar o sangue de Esopo ( o apodo pelo qual denomina o pai)?” Aliocha: “Não, não o creio”. “Eu o defenderei sempre. Mas deixo o campo livre para os meus desejos”, conclui Ivan.

 

Os dois juntos-  Finalmente Aliocha vai à casa onde se encontra hospedada Katierina, cujo porte nobre, a desenvoltura altiva e a segurança orgulhosa voltam a impressioná-lo. Ao olhar aqueles olhos e lábios encantadores, no entanto, não encontra neles a capacidade de reterem seu irmão Mítia por muito tempo. Ao contrário de uma visita anterior, esses mesmos olhos refletiam hoje uma confiança serena e forte, uma fé no futuro. Ao transmitir a saudação do irmão, ela é recebida não como um rompimento, mas como espécie de bravata, mesmo porque ela não se importa com o dinheiro que lhe é devido, está mesmo disposta a perdoá-lo e deseja salvá-lo para sempre, e, afinal, “que ele se envergonhe diante de si mesmo e não diante de mim”.

Aliocha crê ser seu dever contar o ocorrido na casa do pai, ao que a segura Katie responde: “Pensa que não suportarei sua ligação com aquela mulher? Ele não casará com ela, afinal, pode um Karamazov queimar-se com um ardor eterno? Nem mesmo ela o quererá.”E para espanto de Aliocha, ela chama por Gruchenhka que estava na sala vizinha e que a tudo escutava e a anuncia como “um anjo”. A voz da “sereia” soa melíflua aos ouvidos de Aliocha, mas ele se depara com o “monstro”pela primeira vez e o que vê é uma criatura vulgar, bem verdade que com seus encantos e uma beleza comum, mas essencialmente vulgar. Tinha ao redor de vinte e dois anos e expressava certa atitude infantil, ingênua. Ao falar arrastava as palavras, pois não falava com naturalidade. Alguma coisa estava fora de eixo, pensa nosso herói.

Assim que ela entra, Katierina toma-a pelas mãos e beija-as três vezes, assim como os seus lábios. Deseja conquistá-la, é evidente. Gruchenhka, por seu lado, consentia passivamente em receber os carinhos e elogios. Em determinado momento, talvez cansando-se da encenação da rival e respondendo a Katie, diz: “Sou talvez pior do que pareço. Tenho um coração mau, sou caprichosa. Foi apenas para zombar de Dimitri que eu o conquistei”.

Katie expõe suas cartas e pede que a moça desfaça o feitiço e diga a Mítia que seu amor era por um outro, pelo seu primeiro amante, o oficial polonês que a seduzira. Mas ela não se mostra disposta a fazê-lo. “Eu sou voluntariosa e inconstante…se Mítia voltar a me agradar eu ficarei com ele”. A seguir ainda prepara uma ofensa ainda maior e pedindo a mão de Katie, como se fosse devolver a reverência recebida, ri alegremente e lhe diz: “Sabe, meu anjo, não lhe beijarei a sua mão”.

Katierina começa a compreender a armadilha em que voluntariamente caíra e no acesso de ódio expulsa a rival de sua casa. “Fora fêmea vendida”, lhe diz. No que Gruchenhka responde com uma inconfidência que Mítia bêbado lhe fizera: “Vendida, que seja. Mas você mesma saía à noite em busca de dinheiro”. Aliocha impede que a agressão física ocorra e ouve de Katie: “Seu irmão é um canalha”.

 

Outra reputação perdida-  Aliocha volta a encontrar seu irmão Dimitri e relata-lhe o ocorrido entre as duas mulheres. Ele explode em uma gargalhada. “Gruchenhka é uma tigresa. Ela é a rainha de todas as fúrias que se possa imaginar. Já Katie pensou que tudo pudesse vencer, tentou enfeitiçar justo quem…” Por fim diz ao irmão: “Cumprirei meu negro destino e nada se compara em baixeza à infâmia que trago no peito (e bate em um ponto logo abaixo do pescoço) e que não reprimirei. Adeus, não reze por mim pois não sou dígno”.

Aliocha retorna, então, ao mosteiro e encontra o seu stariets mais enfraquecido, sonolento. Antes de repousar ele insiste com o pupilo de que seu lugar era no mundo, fora do mosteiro. Nosso biografado, sem o querer, coloca a mão no bolso e encontra um bilhete que lhe haviam entregue quando da visita a Katie. Trata-se de um bilhete com uma declaração de amor que lhe faz Lisa.

 

Segunda Parte

Livro IV- Os tumultos

O padre Fieropont-  Mesmo morrendo, o stariets mantinha toda a sua lucidez. Dizia aos monges que amassem uns aos outros, que não se sentissem menos pecadores que os leigos somente pelo fato de serem reclusos. Dentre suas recomendações destacam-se as de não deixar o “rebanho”na mão de estrangeiros e de não se ligarem ao ouro e à prata.

Devido à sua morbidez física, as pessoas da cidade já começavam a se aglomerar no mosteiro à espera de algum acontecimento que não se sabia exatamente qual, mas que passava pela realização de algum tipo de evento milagroso, devido à santidade atribuída ao padre Zózima. Esse sentimento difuso poder-se-ia perceber também entre os monges, exceto em relação ao padre Paísi, a quem Zózima recomendara que fosse o pai espiritual de Aliocha, quando ele morresse.

Existia no mosteiro um outro padre, Fieropont, um grande jejuador e observador do silêncio, que vivia em uma choupana em ruínas, considerado como um adversário de Zózima. Muitos padres viam em Fieropont um insensato, mas cuja loucura os cativava. Pese seus 75 anos e uma vida apenas regada a pão e água, cogumelos e bagas, era muito forte fisicamente. Vivia vestido de farrapos e carregava como penitência uma corrente de 35 libras no corpo. “Quem necessita comer é ligado ao demônio, dizia”. Soube-se que o recluso via demônios por todas as partes dentro do mosteiro, até mesmo dentro do vestuário dos monges. Dizia-se ser visitado pelo Espírito Santo, ou melhor, pelo Santo Espírito, que vinha até ele sob a forma de pássaros. Contava ver maravilhas, até mesmo Cristo.

 

Aliocha em casa de seu pai-  Zózima ao despertar pede que Aliocha sirva as pessoas que dependem dele espiritualmente e que, ele próprio, não se permitiria morrer antes do seu retorno ao mosteiro. O jovem noviço retorna à casa do pai, onde o encontra de péssimo humor e ainda com os ferimentos na testa recebidos na noite anterior de seu irmão Mítia. Fiodor revela ao filho por que necessita de todo o dinheiro que acumulara e que jamais daria nada a nenhum filho. Tinha ele 55 anos e esperava ainda viver com virilidade mais uns 20. Ele, com o tempo, “tornar-se-ia repulsivo” e as mulheres não mais viriam a ele de boa vontade. “Quero viver até o fim na libertinagem; é a existência mais agradável, apesar que todo mundo deblatera contra, mas vive nela às ocultas. Eu o faço em pleno dia”.

E confidencia que, para ele, Ivan está na sua casa a vigiá-lo, para que não tire de Dimitri a amada. “Ele é um miserável”. Aliocha diz ao pai: “O senhor não é mau, mas seu espírito está corrompido”, ao que o pai lhe retruca: “ Ivan não é como nós, pois ele não ama ninguém; já Dimitri, eu o esmagarei”.

 

Encontro com colegiais-  A caminho da casa da sra. Khoklakova, Aliocha cruza um pequeno riacho e presencia uma luta desigual: de um lado, um grupo de colegiais atirava pedras em um outro menino que estava só, do outro lado do veio de água, que também atirava suas pedras no grupo. O menino solitário, ao perceber a presença de Aliocha, transforma-o em alvo. Os colegiais explicam-lhe que o menino ao qual cognominavam “esfregão de tília” o identificara como um Karamazov. Quando o solitário é atingido no peito por uma pedra, Aliocha resolve se aproximar e é surpreendido por uma pedrada e uma mordida dilacerante que o garoto prega-lhe no dedo. Então, o pequeno o olha com ódio e, chorando, põe-se a correr.

 

Em casa da sra. Khoklakova-  Lisa se desvela para tratar o ferimento que o menino provocara no dedo do noviço. Em resposta ao seu bilhete com declaração de amor, Aliocha afirma que também a ama, e que, como deixará o monastério, pede-a, então, em casamento.

Despois de estar com a amiga, Aliocha é conduzido pela mãe da moça a um encontro com o irmão Ivan e Katie, dizendo- lhe: “É uma comédia fantástica; ela ama seu irmão Ivan, mas trata de convencer-se de que ama Dimitri”.

 

O tumulto no salão-  No ponto de vista de Aliocha, Katie não poderia amar um homem como Ivan, mas que na realidade deveria amar a Mítia, tal como ele era, malgrado a estranheza desse amor. Perguntava-se se aquilo que dissera a mãe de Lisa fazia algum sentido. Ele tinha claro que tão somente Dimitri poderia submeter-se à vontade de alguém com Katierina, jamais Ivan. Mas “e se ela não amasse nem um nem outro?” Ivan não deixara escapar que o pai e Dimitri eram répteis a comerem um ao outro? Onde entraria Katie nisso tudo? O que sentiria Ivan? Se Aliocha se preocupava e mesmo se atormentava com os conflitos que afligiam os seus era porque buscava ajudá-los, pois o seu amor tinha um caráter ativo.

Ao se juntarem no salão, Katie declara que já não sabe se ama Dimitri, talvez tenha apenas compaixão por ele, pois “se o amasse ainda, o que ela sentiria seria ódio”. E diz que Ivan, a quem considera seu maior amigo, apoia a sua resolução de que mesmo se Dimitri desposasse a outra, ela não o abandonaria jamais. “Quando ele se sentir infeliz com aquela ainda encontrará em mim uma amiga, uma irmã que terá lhe sacrificado a existência”. Aliocha observa que, ao expressar isso, seu rosto tornara-se mau, pois no fundo, ela buscava orgulhar-se de sua decisão.

Ivan profetiza à moça: “Sua existência, Katie, irá consumir-se em uma dolorosa contemplação de sentimentos heroicos e de pesar”. Então Ivan comunica a ambos que partirá no dia seguinte para Moscou. Isso faz com que a fisionomia de Katie se resplandeça e ressurge uma mulher senhora de si e de uma alegria inesperada.

Aliocha sente-se num teatro onde Katie representa papéis. E não se contém: “A senhorita talvez nunca tenha amado Dimitri; por outro lado, ele jamais a amou, apenas a estima. É preciso que alguém diga a verdade” e conclui: “A senhorita faz Ivan sofrer somente porque o ama e seu amor por Dimitri é uma mentira”. Mas quem o contesta é Ivan: “Enganas-te, pois Katie jamais me amou e conhece há muito tempo o meu amor por ela. Não fui tão pouco seu amigo, pois tanto orgulho não tem necessidade de minha amizade. Mantinha-me por perto para vingar as ofensas recebidas por Dimitri” e conclui: “Katierina, fique sabendo que você não ama senão a ele e isso na proporção de suas ofensas. Eis o que a dilacera. Se ele se regenerasse, você o abandonaria e deixaria de amá-lo. Tudo isso por orgulho, para sentir-se heroica e censurar-lhe a traição. Adeus. Você me fez sofrer demasiadamente consciente para que eu possa perdoar agora. Quem sabe algum dia…” E deixa-os.

Katierina, então, entrega a Aliocha 200 rublos e pede-lhe que os repasse ao capitão reformado, aquele que  fora desonrado por Dimitri. “Ele é muito pobre, chama-se Smieguirov, mas o faço por compaixão, nada tem a ver com a ofensa praticada”.

 

O tumulto na isbá-  Aliocha, deixando Katie, busca pela vivenda do pobre capitão Smieguirov, quase advinhando que o menino que o agredira seria filho do mesmo. Encontra o quarto em que vive toda uma família. Tudo é uma enorme bagunça, imerso em total pobreza.

A mulher de Smieguirov é doente dos nervos, dona de um olhar interrogador e arrogante. Afinal o que viria um noviço fazer naquela espelunca? Pedir esmola? Ao lado da mulher, Aliocha vê uma moça de rosto pouco simpático, cabelos raros e ruivos, pobremente vestida, mas limpa. À direita havia outra criatura, a única que tinha um olhar doce; era aleijada e corcunda. Por fim, nosso biografado ainda veria o menino, chamado por Iliucha, o que mordera o seu dedo, deitado numa cama ao abrigo de um lençol estendido. Essa era a família do capitão reformado, o qual deveria possuir por volta de seus 45 anos, pequena estatura, magro, com uma barba rala que, vista de perto, realmente, assemelhava-se a um “esfregão de tília”. Denotava algo de áspero, apressado, irritado, um rosto que refletia impudência e covardia visível. Ele mesmo apresenta-se como alguém “envilecido por seus próprios atos”.

Aliocha apresenta-se e relata a mordida que seu filho lhe dera no dedo. O pai diz como fanfarrão: “Pois vou açoitá-lo”. Quando o moço diz que não está ali para reclamar de nada e não desejaria jamais que ele o açoitasse, o capitão lhe responde: “E pensava que eu faria isso para seu divertimento?”.

Aliocha diz que seu irmão, Dimitri, pedirá perdão por havê-lo ofendido e o pobre diabo, apontando a família, conta-lhe por que não desafiara Dimitri para um duelo depois da ofensa realizada: “Esta é toda a minha ninhada. Se eu morrer quem os amará? E enquanto eu viver, quem me amará com todos os meus defeitos, senão eles?”

 

E ao ar livre-  O capitão conduziu nosso amigo para fora do quarto e contou-lhe a ofensa pela qual passara; que Dimitri arrastara-o pela barba para fora do bar justamente quando passavam os colegiais, e, no meio deles, seu filho, que, desesperado pedia ao agressor que o soltasse, chegando mesmo a beijar-lhe a mão. Ao final, por ser também um oficial, ele chamou-o a um duelo. E diz por que não poderia ir ao “campo da honra”: “Se eu morrer em um duelo, o que acontecerá ao meu lar? O que se tornarão todos eles? Se me estropiar será ainda pior, pois quem trabalhará? Terei que mandar Iliucha parar de estudar. Isso é o que significa para mim um duelo”. Tão pouco poderia apresentar queixa por agressão contra Dimitri Karamazov, perante o juiz, dado que fora ameaçado por Gruchehka com a perda de seus serviços.

Voltam a conversar sobre Iliucha e Aliocha aconselha que o pai não o deixe voltar à escola por algum tempo até que o mesmo se acalme, dado que as agressões físicas aos colegas partem dele.“Os colegas começaram a chamá-lo “esfregão de tília”; “essa idade é impiedosa…tomados separadamente são uns anjos, mas juntos são implacáveis, principalmente na escola”.

O pai: “Um menino fraco teria se resignado e teria vergonha… mas ele se ergueu contra todos na defesa de seu pai, da verdade e da justiça”. “Os filhos dos mendigos, e desprezados mas que sejam nobres, aprendem a conhecer a verdade desde os nove anos. Como os ricos a aprenderiam? Eles não penetram jamais nessas profundezas, ao passo que Iliucha percorreu toda a verdade ao beijar a mão que me submetia sem clemência”. Conta-lhe também que o filho pedira-lhe que se batesse em duelo, mas que lhe explicara sobre a impossibilidade pela vida da família. O menino prometera-lhe que, quando adulto, derrubaria Dimitri Karamazov e com um sabre em sua garganta o perdoaria. “Que cidade de gente ruim é a nossa, papai”.

Aliocha diz jamais pretender ofendê-lo, mas que a noiva de Dimitri desejava oferecer-lhe 200 rublos, em exclusiva solidariedade para com sua situação financeira, “como se a dádiva viesse de uma irmã”. E implora-lhe que aceite, pois de outro modo, “no mundo somente existiriam inimigos”. O capitão estremeceu, pois nem mesmo em sonhos jamais imaginara aquela quantia financeira;  ela seria suficiente para se mudarem de onde viviam e iniciar outra vida, o sonho de toda a família. Retoma todos os castelos de sonho que realizara com o seu filho. Aliocha de tão contente, queria abraçá-lo. De repente, com as duas notas novas de 100 rublos na mão, o capitão pôs-se lívido e tenso. “Quer que lhe mostre um jogo com as mãos?” Ele as amarrota com toda a força e as atira no chão, pisando-as. “Eis o que faço com o teu dinheiro”. E com um orgulho indizível: “Vá dizer aos que o enviaram que o esfregão de tília não vende a sua honra”. Antes de entrar em sua casa, parou e disse: “O que diria o meu rapaz se eu tivesse aceito o preço de nossa vergonha?”

Aliocha abaixou-se, recolheu o dinheiro ainda intacto e foi prestar contas à Katierina de sua missão.

 

Livro V- Prós e contras

O noivado-  Nosso herói foi diretamente à casa da mãe de Lisa. Conversa com Lisa sobre o ocorrido, assegurando-lhe que, de um modo ou outro, o dinheiro terminaria nas mãos do capitão. “Ele é um homem sincero e bom…chorou de alegria ao receber o dinheiro, falou de seus planos, onde levaria as filhas, mas que depois de ter-se expandido, teve vergonha de haver-me exposto sua alma e imediatamente detestou-me. É desses pobres envergonhados mas extremamente orgulhosos. Ofendeu-se sobretudo por ter cedido muito rapidamente. E cometi um erro: disse que se os 200 rublos não bastassem para que mudasse de vida, eu traria mais dinheiro. Eis o que também o magoou, pois é extremamente penoso para um desgraçado ver que todos se consideram seus benfeitores”. Mas, afinal, conclui nosso noviço: “Se ele tivesse aceito o dinheiro choraria de humilhação…mas agora partiu orgulhoso e em triunfo, todavia precisará do socorro que esse dinheiro significa. Será então o momento em que eu voltarei a oferecer-lhe o dinheiro e ele aceitará”. “A alma dele não é mesquinha, mas bastante delicada”.

Após a conversa sobre o capitão ofendido, vivenciamos o doce, terno, inocente idílio entre dois jovens, sendo ela um pouco mais que adolescente, com a indiscrição, o atrevimento e o voluntarismo da idade; ele, saído da puberdade, nos seus vinte anos, próximo a abandonar o mosteiro. Amam-se e se necessitam. Planejam casar-se em dezoito meses.

A mãe, a sra. Khoklakova, que tudo escutara escondida, pergunta a Aliocha se o que ouvira era para valer e o moço o confirma.

 

Smerdiakov e sua guitarra-  Aliocha parte em busca de Dimitri. Procura-o no mesmo local em que estiveram juntos, na propriedade ao lado da casa do pai. Ao chegar,entretanto, escuta Smerdiakov  tocar a sua viola e a cantar ao lado de Maria, a vizinha. Instintivamente permanece quieto e, oculto, ouve a conversa após a canção. Smerdiakov diz odiar tudo o que seja russo, odeia a si mesmo, preferindo haver morrido ainda no ventre da mãe, que ele mesmo denomina de “a fedorenta”. Também odeia o Exército e seus soldados. Quando Maria pergunta quem defenderia a Pátria de invasões ele responde com uma pergunta: “E quem defendeu a Pátria em 1812? E teria sido melhor que os franceses nos tivessem conquistado, um povo inteligente conquistando um estúpido.”

O assunto volta-se para os costumes e Smerdiakov afirma que os corruptos ocidentais se assemelham aos russos.”São todos velhacos, com a diferença que os estrangeiros têm as botas envernizadas e os nossos tratantes vivem de cócoras em suas misérias e não se queixam”. “É preciso fustigar o povo russo, como diz Fiodor Karamazov, mas tanto ele quanto seus filhos são loucos”. Nesse ponto, um espirro de Aliocha o delata. Isso basta para que Smerdiakov, descoberto, queixe-se com o mesmo a respeito de Dimitri, que o ameaçara de morte caso visse Gruchenhka vindo à casa do pai e não o alertasse. Ao saber que Aliocha    procura o irmão, comunica-lhe que deveria estar no bar A Capital, juntamente com Ivan.

 

Os irmãos travam amizade-  No bar, Aliocha encontrará somente Ivan e ambos começam uma longa conversa relembrando a infância, onde uma diferença de quatro anos tornara difícil a camaradagem entre os mesmos. Ivan deseja aproveitar a noitada pois partirá no dia seguinte e confidencia a Aliocha que admira a firmeza de seu caráter, ao que este responde que, por seu lado, Ivan constituia um enigma, mas que gradualmente passava a vê-lo como um rapaz de vinte e três anos, gentilmente ingênuo.

Ivan confidencia que, “se ele chegasse a não ter nenhuma fé na vida, se duvidasse da mulher amada, se a ordem universal lhe parecesse um caos e mesmo se estivesse preso aos horrores da desilusão, que, mesmo assim desejaria viver… Que depois de beber da taça encantada só a deixaria uma vez esgotada”. “Até os trinta anos minha mocidade ainda triunfará sobre tudo, sobre os desenganos, sobre os desgostos…Essa vontade de viver á característica dos Karamasovi; ela está em ti e não tem que ser vergonhosa”.

“Vivo mesmo a despeito da lógica; não creio em nenhuma ordem universal, mas amo os brotos primaveris, o céu azul, certas pessoas, mesmo sem saber por quê. Amo o heroísmo no qual deixei de crer, mas que venero por hábito”. “Quero viajar pela Europa. Sei que lá não encontrarei senão cemitério, mas quão querido! Queridos mortos nele repousam, cada pedra atesta a vida ardente deles, sua fé apaixonada nos seus ideais, sua luta pela verdade e pela ciência. Oh! Cairei de joelhos diante daquelas pedras e as beijarei, derramando lágrimas que serão de alegria, de felicidade. Porque é o coração que ama; o ventre, a inteligência e a lógica não entram aí para nada”.

Aliocha lhe diz que deve-se amar a vida acima de tudo. Primeiro amar, depois compreender o seu sentido, e, “na segunda parte está a salvação”. Em que consiste essa segunda parte, pergunta-lhe Ivan. “Em ressuscitar os teus mortos, que talvez ainda estejam vivos”.

Chegam ao tema do momento: como acabará a luta entre o pai e Dimitri? Ivan parafraseia Caim: “Serei eu o guarda de meu irmão?”

Fugindo um pouco ao tema, Ivan diz se sentir livre, pois de um só golpe ousara libertar-se da Katierina. “Sinto-me leve, em minha primeira hora de liberdade”. Foram seis meses de uma paixão que desmoronara em um dia. “Ela sempre soube que eu a amava, e era a mim que ela amava  e não a Dimitri. O amor a Dimitri só serve para ela se torturar. Deixei-a para sempre”.

Voltam à metafísica. Aliocha há três meses queria interrogar Ivan sobre questões de fé religiosa. Ivan: “Imagina que eu talvez admita Deus…Voltaire mesmo disse que se Deus não existe o homem teria de inventá-lo”. “O espanto não consiste em que Deus exista realmente, mas que essa ideia da existência dele tenha vindo do espírito de um animal tão feroz e mau como o homem e, por ser uma ideia santa, comovente  e sábia, tanta honra faz ao homem.” “Há muito já renunciei a pensar se Deus inventou o homem ou o homem inventou Deus”. Ainda Ivan: “Não é Deus que eu renego, mas a criação. Estou convencido como uma criança, que o sofrimento desaparecerá, que a comédia revoltante das contradições humanas se esvanecerá como manifestação vil de impotência mesquinha. Que ao final do drama, quando aparecer a Harmonia eterna, uma revelação se produzirá, preciosa a tal ponto que estremecerá todos os corações…de sorte que se poderá não só perdoar mas justificar tudo o que se passou sobre a terra”.

Frente a certo espanto de Aliocha, ele lhe diz: “Irmãozinho, eu jamais desejaria abalar a tua fé; antes eu queria curar-me ao teu contato”.

 

A revolta-  Ivan: “Jamais pude compreender como se pode amar ao próximo. Não se pode amar ao próximo, a não ser que ele esteja distante; para que se possa amar alguém é preciso que ele esteja oculto, pois desde que ele se mostra, o laço se desfaz…O amor de Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra, pois nós não somos deuses…Pode-se, isso sim, amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias- aliás nunca as acho feias- Já os adultos, esses comeram o fruto proibido, discerniram o bem do mal, tornaram-se semelhantes aos deuses. Mas as criancinhas não, são inocentes…Veja que homens cruéis, como os Karamazovi, amam por vezes as crianças.”

Prossegue Ivan dizendo que comparar a crueldade humana com a dos animais silvestres é uma enorme injustiça para esses, pois as feras jamais atingiriam os refinamentos do homem. “Se o diabo não existe e foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança.”

A seguir Ivan com suas pequenas histórias, os seus “casos”:

Caso 1. Fala-nos sobre um tal de Richard, que, em Genebra, converteu-se ao cristianismo antes de morrer. Filho natural, tinha sido “dado”, aos seis anos, pelos pais a uns pastores que o educaram para o trabalho, como uma coisa, tal qual um escravo. Cresceu como um pequeno selvagem, faminto, sem roupas, a pastorear no inverno, aos sete anos de idade. A fome levou-o a comer da lavagem que era dada aos porcos, mas, quando pego, era surrado. Quando jovem, passou a roubar e assassinou um velho. Foi preso, julgado e condenado à morte. Na prisão, cercou-o uma multidão de almas caridosas, pastores, religosos e senhoras. Ensinaram-no a ler e a escrever, assim como o Evangelho. Catequizaram-no e ele confessou o seu crime ao Tribunal, dizendo-se um monstro, mas que Deus o esclarecera. Toda Genebra filantrópica e pia emocionou-se. “Deves morrer pois derramaste sangue; és ladrão pois roubaste aos porcos, mesmo que não seja tua culpa se ignoravas a Deus”. No dia da execução, Richard chorava e repetia que era o dia mais lindo de sua vida, pois iria a Deus. Toda a sociedade segue a carreta que o conduz ao cadafalso. “Morre irmão, morre no Senhor”, gritavam. E, coberto de beijos, Richard sobe ao cadafalso e a sua cabeça rola com a graça divina.

Caso 2. “Entre nós, torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato”. O poeta Nekrassov relata como um mujique bate com seu chicote nos olhos de um cavalo que não consegue atravessar um lamaçal. “É um bom russo. Quem já não viu isso? Bate encarniçadamente, sem saber o que faz, os golpes chovem numa espécie de embriaguez. A besta sem defesa se debate desesperadamente enquanto seu dono açoita seus olhos doces, de onde rolam lágrimas…Mas não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Os tártaros nos legaram o chicote para quê?  Para isso.”

Caso 3. Mas também podem-se açoitar pessoas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o pai está feliz pois a vara tem espinhos. Há seres que se excitam a cada golpe, até o sadismo, progressivamente. Bate-se na criança um minuto, depois cinco, dez, sempre mais forte. O caso torna-se escandaloso e chega ao Tribunal. Toma-se um advogado, mas “há muito tempo o povo russo chama ao advogado de uma consciência de aluguel”. Trata-se apenas de um caso em família, o rábula argumenta. E o júri absolve marido e mulher e o povo o aplaude.

Caso 4. Existe um pendor especial, em muitos, para o prazer de açoitar crianças; essas mesmas pessoas, em sociedade mostram-se amáveis e ternas, mas fazer as crianças sofrerem é sua forma de amá-las. A confiança angélica dessas criaturas sem defesa seduz os seres cruéis. Cada homem oculta em si um demônio: acesso de cólera, sadismo, paixões ignóbeis, doenças contraídas na devassidão. Os pais eram instruídos, mas praticavam muitas sevícias na pobre menina. Açoitavam-na e seu corpo vivia repleto de equimoses. Refinaram, então, sua crueldade: nas noites de inverno encerravam a menina na privada para que ela não perdesse tempo urinando na cama. Esfregavam-lhe os escrementos na pequena face e a mãe obrigava-a a comê-los. E essa mãe dormia tranquila, insensível aos gritos da pobre criança. E o pequeno ser, sem saber ao certo o que acontece, bate em seu pequeno peito, chamando o bom Deus em socorro! “Ora, toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança”.

Caso 5. No começo do século XIX, na época da servidão, um antigo general, rico proprietário, vivia em uma fazenda com mais de duas mil almas de servos. Tratava a todos com desdém, e tinha uma centena de capatazes e várias de cães amestrados. Um dia, um pequeno servo de oito anos, acertou uma pedra em um de seus cães favoritos. O general ordenou arrancar a criança dos braços da mãe e jogou-o numa masmorra. No dia seguinte, ele, em uniforme de gala, montado para ir à caça e cercado por seus parasitas, reúne todas as almas para “dar um exemplo”.  Trazem a mãe e o menino. “O general ordena que, na manhã fria, tire-se toda a roupa do garoto, que por sua vez, tremia de medo, sem dizer palavra”. “Façam-no correr, ordena”. Nisso ele assula a matilha e os cães estraçalham a criança diante de sua mãe.

Ao terminar de falar sobres seus casos, Ivan conclui: “Aliocha, limitei-me às crianças. Nada disse sobre as lágrimas humanas, de que a terra está encharcada. Não compreendo esse estado de coisas. Os homens são os únicos culpados: tinham-lhes dado o paraíso, cobiçaram a liberdade e arrebataram o fogo dos céus, sabendo que seriam infelizes. Não merecem, pois, compaixão.” “Compreendo como estremecerá o universo quando céu e terra se unirem num grito de alegria, quando tudo quanto vive ou viveu proclamar: Tens razão, senhor, tuas vias nos são reveladas! Quando, então, o carrasco, a mãe e o menino se beijarem. Mas eis a dificuldade, pois não posso admitir tal solução. Recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Enquanto não se redimir as lágrimas de uma criança não se poderá falar em harmonia. Os carrascos sofrerão no inferno, tu me dizes, Aliocha. Mas de que serve o castigo se as crianças já tiveram seus infernos? Aliás que vale essa harmonia que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo que ela não vale tal preço. Que lhe perdoe o sofrimento a mãe, mas não o que sofreu a criança estraçalhada pelos cães. Ainda mesmo que seu filho perdoasse, ela não teria esse direito. Se o direito de perdoar não existe, que vem a ser a harmonia? Pelo amor pela humanidade é que eu não quero essa harmonia. Prefiro conservar a minha indignação persistente mesmo se não tiver razão. Aliás, deram excessivo valor a essa harmonia, cujo preço nos é demasiado caro. Entrego meu bilhete na entrada. Como homem de bem tenho o dever de entregá-lo o mais rápido possível. Não recuso adimitir Deus, mas muito respeitosamente, devolvo-lhe o meu bilhete”.

Aliocha retruca que tudo aquilo não é nada mais do que revolta.

Ivan: “Pode-se viver revoltado? Ora, eu quero viver. Imaginas que os destinos da humanidade estejam em tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, seria necessário torturar um ser, um ser apenas, tu o consentirias?”

 

O Grande Inquisidor-  Ivan relata um conto que reporta ao século XVI, ao tempo do auge da Inquisição espanhola. A ação passa-se em Sevilha, quando Cristo, que há quinze séculos prometera voltar, mostrou-se ao povo sofredor. Em Sevilha, sob o comando do Grande Inquisidor, acendiam as fogueiras em glória a Deus e os hereges ardiam em “atos de fé”. Cristo apareceu docemente, quase sem se fazer notar, mas todos O reconheceram, comprimiam-se à sua passagem e Ele caminhou pela multidão com um sorriso de compaixão infinita. Um cego estende-lhe os braços e uma casca desprende-se de seus olhos e ele vê. Hossana ouve-se e Ele sobe os degraus e para nas portas da catedral no momento em que trazem o caixão de uma menina de sete anos. A mãe lança-se a seus pés e diz:”Se és Tu, ressuscita-a”. Ele contempla e apenas diz “talita kumi” e a morta levanta-se e sorri. No meio da turba há agitação e choro.

Naquele momento passa pela praça um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, rosto ressecado, olhos cavados, o Grande Inquisidor. Usa uma batina grosseira e não a majestosa, aquela vestimenta de gala que usa quando os inimigos da Igreja Romana são queimados. Quando vê a ressurreição, um brilho sinistro clareia seu olhar, aponta-O à guarda e ordena que O prendam. Tão grande é seu poder, tal o medo de uma multidão acostumada à submissão, que os esbirros prendem-nO sem nenhum trabalho. Como um só ser, toda a multidão inclina-se para o Cardeal que a abençoa. O Prisioneiro é levado para a masmorra do Santo Ofício. À noite, o Inquisidor vem só e com um facho de luz ilumina a Santa Face.

“És tu, não és? Cala-te, aliás, o que poderias dizer? Não tens o direito a acrescentar uma palavra ao que disseste outrora. Por que nos vieste estorvar? Ignoro que Tu és e nem quero sabê-lo: Tu ou apenas Tua aparência…amanhã Te condenarei e serás queimado como o pior dos hereges e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés, trará a lenha em que ardirás. Tens por acaso o direito de revelar um só dos segredos do mundo de onde vens? Não, não tens o direito porque essa revelação se juntaria a de outrora e isso seria retirar dos homens a liberdade que defendias tanto na terra. Todas as revelações novas feririam a liberdade da fé, pois pareceriam miraculosas; ora, tu punhas há quinze séculos essa liberdade acima de tudo! Pois bem, viste os “homens livres””, diz com sarcasmo.

“Sim, isso nos custou muito caro, mas levamos a cabo aquela obra em Teu nome; foram séculos de grande trabalho para instaurar a liberdade, mas está feito. Tu me olhas com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de Te indignares! Mas saiba que jamais os homens se sentiram tão livres como agora, pois sua liberdade eles a depositaram humildemente a nossos pés. Só agora (com a Inquisição) que se pode pensar na felicidade dos homens. Eles são naturalmente revoltados e, revoltados podem ser felizes?”

“Tu estavas advertido, conselhos não Te faltavam, mas não os levaste em conta, rejeitaste o único meio de proporcionar felicidades aos homens. Felizmente, ao partires, nos transmitiste Tua obra, concedendo-nos o direito de ligar e desligar e, decerto, não podes imaginar em retirá-lo agora. Por que vieste estouvar-nos?”

“O Espírito terrível e profundo da destruição e do nada falou-Te no deserto e as Escrituras relatam que Te “tentou”. É verdade? E nada se podia dizer de mais penetrante do que Te foi dito nas três perguntas…Estas três questões provam por si só que têm a ver com o Espírito eterno e absoluto, pois resumem e predizem toda a história posterior da humanidade, porque são as três formas em que se cristalizam todas as contradições insolúveis da natureza humana. Decide pois Tu mesmo quem tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te do sentido da primeira pergunta? Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que lhes causa medo. Jamais houve nada de mais intolerável para o homem e para a sociedade! Vês as pedras do deserto árido? Muda-as em pães e atrás de Ti correrá a humanidade como um rebanho dócil e reconhecido. Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que ela era incompatível com a obediência cobrada com pães. Replicaste que nem só de pão vive o homem, mas sabes que em nome desse pão terrestre o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá. Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crime e, por conseguinte, não há pecados, só famintos.”

“Nutre-os e, então, exija que sejam virtuosos. Eles nos procurarão e dirão: “dai-nos de comer, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus, não o fizeram”. E nós os faremos crescer, utilizando falsamente o Teu nome. Depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: “reduzi-nos à escravidão mas alimentai-nos”. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A sua impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. Milhares te seguirão pelo pão sagrado, mas e os milhões e bilhões que preferirão o pão da terra? As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”

“Acreditarão que somos deuses pondo-se sob nosso comando e reinaremos sobre eles, os quais terão medo de serem livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em teu nome. E esta, a mentira, será a origem de nosso sofrimento.”

“Não há para o homem que fica livre preocupação mais constante e mais ardente que procurar um ser diante do qual se inclinar. Mas somente querem se inclinar perante uma força incontestável, que todos respeitem por consenso. Porque essa necessidade de procura de um culto no qual todos comunguem unidos pela mesma fé é o principal tormento da humanidade e para realizar esse sonho exterminar-se-iam em guerras. Os povos forjaram deuses e desconfiaram uns dos outros: “abandonai vossos deuses, adorai os nossos, senão, ai de vós e de vossos deuses”. E assim será até o final dos tempos quando postar-se-ão diante de ídolos.”

“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência. O pão Te garantiria o êxito; o homem se inclina perante quem lhe dá, mas se um outro se torna dono de sua consciência, largará ali mesmo o Teu Pai para segui-lo. Nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.”

“E em lugar de pricípios sólidos que teriam tranquilizado para sempre a consciência humana, Tu escolheste noções vagas, estranhas, enigmáticas, tudo quanto ultrapassa a força dos homens, e com isso agiste como se não os amasses, Tu que vieste dar Tua vida por eles. Aumentando a liberdade ao invés de confiscá-la impuseste ao ser moral o pavor pela liberdade. Querias ser livremente amado, voluntariamente seguido por homens fascinados. Em lugar da dura lei antiga, os homens com os corações livres deveriam discernir o bem e o mal, não tendo como guia senão a Tua imagem, mas Tu não previste que eles repeliriam Tua imagem, esmagados por essa carga terrível, a liberdade de escolher!”

“Há três forças que podem subjulgar para sempre a consciência desse fraco revoltado: o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste os três. O espírito terrível, transportando-Te ao pináculo disse: “queres saber se és filho de Deus? Lança-Te abaixo pois os anjos Te sustentarão. Mas Tu recusaste. Se Te jogasses no precipício terias tentado o Senhor e, perdendo nele a fé, Te arrebentado. Pelo Teu exemplo o homem se contentaria com Deus sem o milagre. Mas o homem rejeita Deus, pois é sobretudo o milagre que ele procura e como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios milagres, inclinando-se perante o prodígio dos magos, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que sejam revoltados, hereges, ímpios confessos. É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, diante de questões cruciais e dolorosas, agarrar-se à livre decisão dos corações?”

“Tu não deceste da cruz… novamente rejeitaste o milagre, pois querias uma fé livre e não inspirada no maravilhoso. Tinhas necessidade de um amor livre e não de um escravo atemorizado. Fazias demasiada ideia dos homens, mas eles são escravos, se bem que rebeldes. O homem é mais fraco, covarde e vil do que pensavas. A grande estima que tinhas por ele fez mal à tua compaixão. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É a alegria infantil que lhes custará caro. Derrubarão templos e incendiarão a terra de sangue. Mas perceberão, por fim, que são crianças estúpidas, fracas revoltosas, incapazes de revoltarem-se por muito tempo”.

“Poucos são os homens fortes, os que são capazes de Te seguir. Vieste na verdade apenas para os eleitos? Então é um mistério para nós e temos o direito de pregá-lo aos homens que não é a livre decisão dos corações, nem o amor que importam, mas o mistério, ao qual devem se submeter cegamente, malgrado sua consciência. Corrigimos Tua obra baseados no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens se regozijaram por serem de novo levados como um rebanho e serem libertados do dom funesto que lhes causava tormentos. Não tínhamos razão? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo, tolerar mesmo o pecado de sua fraca natureza, mas com a nossa permissão?”

Por que vir agora entravar a nossa obra? Por que guardar silêncio com Teu terno olhar? Eu não Te amo. Cada um de nós sabe com quem fala. Não estamos Contigo, mas com Ele há muito tempo. Aceitamos Roma e o gláudio de César e declaramo-nos os únicos reis da Terra. Ainda não terminamos a nossa obra, pois estamos apenas começando e a Terra ainda terá que sofrer muito, mas atingiremos o nosso fim, seremos cézares e, então, pensaremos na felicidade universal.”

“Terias podido tomar o gláudio de César e seguindo o terceiro conselho do grande Espírito realizarias tudo quanto os homens procuram na face da terra: um senhor perante quem inclinar-se, um guarda de sua consciência e o meio de se unirem em uma comunidade universal de formigas. A união universal é o terceiro tormento da raça humana. Com a púrpura de César terias fundado a comunidade universal e dado a paz ao mundo.”

“Os homens, mesmo os revoltados, virão a nós e dirão: salvai-nos de nós mesmos. Recebendo de nós o pão, verão que os tomamos de seu próprio trabalho para distribuí-los, sem nenhum milagre. Compreenderão o valor da submissão definitiva e, enquanto não o compreenderem, serão infelizes. Nós os persuadiremos a não se orgulharem porque elevando-os, foste Tu que os tornou orgulhosos. Serão tímidos e não nos perderão de vista; nossa cólera os fará tremer, mas ao nosso sinal passarão ao riso e à alegria das crianças. Seremos os seus benfeitores, que tomam a si a carga de seus pecados perante Deus. Submeter-nos-ão os segredos mais penosos de suas consciências. E todos serão felizes exceto uns cem mil, que somos nós, os depositários do segredo. Os felizes serão bilhões e haverá cem mil mártires encarregados do conhecimento maldido do bem e do mal. Felizes morrerão tranquilamente, mansamente em Teu nome e no outro mundo não encontrarão senão a Morte. Mas nós os ninaremos para a felicidade, com uma recompensa eterna no céu”.

Nós, sobrecarregados com pecados, quando voltares, Te diremos : Não Te tememos, também eu estive no deserto, vivi de gafanhotos e de raízes, também eu abençoei a liberdade com que gratificaste os homens e me preparava para figurar entre os Teus eleitos. Mas dominei-me e não quis servir a uma causa insensata. Voltei a juntar-me aos que queriam corrigir a Tua obra.”

“Amanhã queimar-te-ei, pois ninguém mais que Tu mereceste a fogueira. Dixi”.

O Inquisidor se cala, espera a resposta do Prisioneiro. Ele aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios. É toda a sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, caminha até a porta e abre:  “Vai-Te e não voltes nunca mais!” O Prisioneiro sai.

Os irmãos iniciam, então, uma breve discussão sobre a história contada por Ivan. Ele pergunta a Aliocha se não seria crível que dentre tantos jesuítas e inquisidores poderia existir um único mártir, presa de um nobre sentimento e amante da humanidade. Que dentre tantas criaturas sedentas de bens materiais talvez se pudesse encontrar uma só como o velho inquisidor que vivera de raízes do deserto e domou o próprio espírito para tornar-se livre e que sempre tenha amado à humanidade.

Aliocha contrapõe: “Mas teu Inquisidor não crê em Deus”. Ivan: “Advinhaste. Talvez aquele velho maldito, que ama tão obstinadamente a humanidade à sua maneira, exista ainda agora em vários exemplares e isso não por efeito do acaso, mas sob a forma de uma aliança, de uma liga secreta, organizada desde muito tempo para manter o mistério e roubá-lo aos desgraçados e fracos para torná-los felizes.”

Aliocha ainda insiste: “Quer dizer que tudo é permitido?” e Ivan retruca: “ Há em mim uma força que resiste a tudo isso! A força dos Karamazovi.” Aliocha levanta-se e beija o irmão nos lábios. Esse sorri: “é plágio!” Sai caminhando e, somente então, Aliocha se dá conta que Ivan cocheava ao andar.

 

Onde só reina a obscuridade-  Ivan se dirige à casa paterna e lá encontra Smerdiakov. Dá-se conta de que este o incomodava e de que sua alma não conseguia suportá-lo. Não fora sempre assim; a princípio, chegara até mesmo a sentir certa simpatia por aquele contemplador, aquele “eunuco”. O complicador da relação fora o fato de que Smerdiakov colocava-se sempre como solidário aos pensamentos que acreditava serem os de Ivan e isso o incomodava muito.

Desta vez, Smerdiakov diretamente insiste em que Ivan deveria viajar, ir à Tchermachniá, onde o velho Fiodor tinha umas questões de madeira a serem solucionadas, o qual pedira ao filho que delas cuidasse. Ivan repele-o, ao que Smerdiakov acrescenta que “ele deveria saber por que ir se fosse um homem de espírito”. Quase na sequência, o cozinheiro revela ter ficado entre Dimitri e o pai Fiodor na questão Gruchenhka e que “no dia seguinte iria ter uma crise epilética que duraria horas”.

Ivan retruca-lhe ser impossível prever-se uma crise epilética; Smerdiakov diz que, no dia seguinte estaria na porta do sótão ou do celeiro e de lá cairia, sobrevindo a crise. “Mas por que simular uma crise?” questiona-o Ivan. Como única resposta o servo lhe diz que o faz por temer pela própria vida. Que talvez Dimitri não o mate pois prestara-lhe um favor: traindo seu “patrão”, transmitira ao filho todos os sinais combinados com Fiodor, no caso em Gruchenhka viesse até à casa; certos sinais fariam o velho abrir a porta que era mantida a ferrolho durante a noite. Acontece que, sobrevindo a crise epilética, ele não poderia estar de vigia e nem Grigori, que coincidentemente, estava com um lumbago que o manteria na cama, pelo menos até o dia seguinte.

Fala ainda sobre determinado envelope contendo 3.000 rublos, com os quais Fiodor intencionava pagar Gruchenhka pela visita e que também revelara tal fato a Dimitri. Ivan responde-lhe que o irmão jamais iria matar e roubar o pai ao mesmo tempo! Concede que poderia até mesmo matá-lo por loucura, mas jamais roubá-lo.

Smerdiakov não ouve argumentos. Diz que se o velho casar-se com Gruchenhka, ela passaria tudo para o seu nome e os irmãos Karamazovi perderiam, cada um, 40.000 rublos. Responde-lhe Ivan: “Aconselhava-me partir para Tchermachniá amanhã. Irá acontecer alguma coisa?” “Irá”, responde-lhe secamente. Ao que Ivan retruca: “Parto amanhã para Moscou, definitivamente”. Smerdiakov lhe diz que deveria viajar para algum lugar mais próximo, para o caso de algum telegrama. Ivan sorri, mas não era um sorriso de jovialidade e nem mesmo ele saberia dizer por que o fazia.

Dá gosto falar com um homem de espírito-  Ivan mal pode conciliar o sono. Sentia uma enorme vontade de espancar Smerdiakov, ele se lhe tornara odioso. Por outro lado, não tinha nenhuma espécie de ódio para com o pai que, transloucadamente, caminhava na sala de um lado para o outro à espera de algum sinal de Gruchenhka. Pela manhã levantou-se e preparou suas malas de viagem. À saída, o pai insistiu para que ele fosse até Tchermachniá, para tratar da questão das madeiras com um certo Liagavi. Tanto ele lhe pediu e como teria de se desviar pouco da rota para Moscou, Ivan acabou concordando em satisfazer-lhe: “Então, mandas-me a essa maldida localidade?”, diz com um sorriso maldoso. Ao subir à carruagem, Smerdiakov despediu-se dele dizendo-lhe: “Dá gosto falar com um homem de espírito”.

No caminho, entretanto, Ivan mudou de ideia, não foi tratar das madeiras e viajou diretamente a Moscou, pedindo que avisassem ao seu pai. “Sou um miserável”, disse para consigo mesmo.

Após a partida do filho, o velho Karamazov soube que Smerdiakov escorregara nos degraus da adega e entrara em crise epilética. Isto o transtornou. À noite, teve um outro aborrecimento, pois ficou sabendo que Grigori estava enfermo e de cama. Era justamente a noite, anunciada por Smerdiakov, em que Gruchenhka dissera ao servo, que viria ao encontro. Tinha muito medo de Dimitri, mas por outro lado,   “ jamais uma esperança tão doce embalara o seu coração”.

 

Livro VI- Um monge russo

O stariets Zózima e seus hóspedes-  Aliocha retorna à cela do stariets Zózima e ouve duas recomendações: deveria encontrar-se novamente com Dimitri, pois quando se ajoelhara, na reunião com a família Karamazovi, perante o moço, estava “prevendo o profundo sofrimento que ele preparara para si mesmo”. A segunda recomendação: “deixarás esses muros e viverás no mundo não religioso; terás muitos adversários, mas teus próprios inimigos te amarão; a vida te trará muitas desgraças , mas nisso encontrarás a felicidade e tu a abençoarás”.

Zózima está muito fraco, porém lúcido e cumprindo com o que prometera, fala ainda uma vez na vida com aqueles que o amavam. Principia dizendo que, de certa forma, Aliocha conectava, para ele, o passado e o presente. Assemelhava-se espiritualmente a um irmão que falecera aos dezessete anos e a quem muito amava, o qual terminara sendo o fator decisivo para a sua entrada para o monastério. A seguir, de acordo com as anotações feitas por Aliocha, a biografia narrada por Zózima.

A biografia do stariets Zózima - 

a- O jovem irmão-  Chamava-se Markel e era oito anos mais velho que o garoto Zózima; o pai  falecera deixando-os em boa situação financeira. Markel morre prematuramente, não antes de tornar-se amigo de certo filósofo e declarar-se, aos parentes, ateu. De estrutura frágil, sofria de tuberculose. Na sua última Páscoa, já gravemente enfermo, para agradar a mãe, consentiu em ir à missa e que também ícones fossem acesos à cabeceira de sua cama. Passou a ser grato à vida que se ia. Dizia: “não deve haver amos e servidores, por isso eu quero servi-los como eles me servem”. “Cada um de nós é culpado perante tudo e todos e eu mais que os outros.” O médico que o atendia dizia à família que era a doença que o fazia perder a razão. Um dia, entretanto, ele chamou seu irmão Zózima e disse-lhe: “Vá brincar agora e viva por mim”. Pouco tempo depois faleceu.

b- A sagrada escrita-  A mãe colocou o segundo filho no corpo de Cadetes, e, em seguida, na Guarda Imperial, vindo a falecer pouco tempo depois. Disse Zózima: “Só tenho recordações preciosas do lar paterno pois elas são para os homens as mais preciosas de todas, as recordações da primeira infância, conquanto que a concórdia e o amor reinem, ainda que pouco, na família… E pode-se conservar uma recordação comovida até mesmo da pior família, tendo-se uma alma capaz de emoções.”

Zózima conta aos ouvintes a história de Jó, aquele que, submetido à perda de todos os seus bens e filhos não perdera a fé e, depois ganhara outros. “Pois a dor antiga se transforma misteriosamente em doce alegria; à impetuosidade juvenil sucede a serenidade da velhice; eu abençoo a cada dia o nascer do sol, meu coração canta-lhe o hino de outrora apesar de preferir seu poente de raios oblíquos, evocando dores e eternas recordações, queridas imagens da vida e, dominando tudo, a verdade divina que acalma, reconcilia, absolve!” “Aquele que não crê em Deus, não crê no seu povo!”

c- Recordações da mocidade- o duelo-  Durou oito anos o período de Zózima no corpo de Cadetes, o qual ele denomina de “tempo de endurecimento”, pois o haviam transformado em um indivíduo “quase selvagem, cruel e tolo”, ao qual se associava um certo verniz de polidez social e de prática do mundo. Soldados estavam prontos a derramar sangue pela honra do regimento, mas  a respeito da verdadeira honra, “ninguém tinha a menor noção da mesma”. Embriaguês, devassidão e a impudência levavam-nos quase à altivez. No entanto, ele era, de certa forma, motivo de espanto no regimento pois dedicava-se à leitura.

Nessa época ligou-se sentimentalmente a uma excelente moça, mas o egoísmo e as seduções da vida desregrada falaram mais alto e ele não pediu a mão da moça em casamento. Logo a seguir, tendo-se ausentado do local por algum tempo, ao retornar soube que ela estava casada com um senhor que há muito era seu noivo. Apenas por soberba, Zózima provocou tanto essa pessoa que terminaram por bater-se em um duelo. Um dia antes, voltando ao acampamento, o cadete Zózima, por motivo banal espancou de modo selvagem seu ordenança. “Até hoje, após quarenta anos, ainda guardo vergonha e dor”.

Tendo-se recolhido para dormir, desperta à noite em prantos, com a lembrança do falecido Markel. Sentiu-se o mais culpado de todos os que o rodeavam e deu-se conta do que estava por fazer: matar  um homem de bem e infelicitar para sempre sua viúva. Logo chega sua testemunha e ele deve partir, ao alvorecer, para o duelo. Antes, dirige-se ao ordenança ofendido e lhe implora o perdão. Então, alegremente caminha para o duelo com uma outra decisão tomada.

O adversário é o primeiro a atirar e a bala apenas lhe provoca um arranhão. Na sua vez de atirar, jogou fora a sua arma sem disparar um tiro e disse: “Senhor, perdoe este estúpido…saiba que o senhor vale dez vezes mais que eu.” Ora, as testemunhas eram de seu batalhão e sentiram-se “desonradas” com a atitude do camarada de armas. Zózima recorda ter-lhes dito: “é tão espantoso assim encontrar um homem que se arrepende de sua tolice e que reconhece publicamente sua falta?”O regimento todo queria que ele pedisse baixa, sem saber que ele já o havia feito. Em seu arrazoado disse: “Entrarei para um mosteiro”. A sociedade, ao entendê-lo, reconciliou-se com ele.

d- O misterioso visitante-  Ele era um homem rico, respeitado, casado e com três filhos. Tinha um ar severo, reservado e falava pouco. Um grande benfeitor, mas isto somente saber-se-ia após a sua morte. Certo dia, surgiu na casa de Zózima, após sua baixa militar, atraído por sua boa reputação. “Vejo no senhor grande força, pois não temeu servir à verdade, arriscando atrair para si o desprezo geral”. A seguir, pediu ao jovem Zózima que descrevesse suas sensações ao pedir perdão no ato do duelo, seguramente possuindo algum objetivo secreto de sua parte. A partir de então, tornaram-se grandes amigos e a sua visita era uma constante.

“O paraíso, dizia o visitante, está oculto no íntimo de cada um de nós…Quanto à culpabilidade de cada um por todos e por tudo, quando os homens o compreenderem será para eles o advento do reino dos céus, não em sonhos, mas na realidade…Esse sonho ainda se realizará um dia como um fenômeno moral e psicológico. Para renovar o mundo é preciso que os homens mudem de caminho, e enquanto cada um não for irmão de seu próximo não haverá fraternidade. Os homens jamais saberão, em nome da ciência ou do interesse, repartir pacificamente entre si as propriedades e os direitos. Ninguém terá bastante e todos terão inveja uns dos outros e exterminar-se-ão mutuamente. O sonho somente virá quando houver terminado o isolamento humano”.

“Esse isolamento consiste em desejar gozar, individualmente, a plenitude da vida. As pessoas caem numa solidão e num individualismo completo. Nesse século todos se fracionam…isolam-se a si e a seus bens, amontanham riquezas e felicitam-se pelo poder e pela opulência; ignoram, no entanto, os insensatos, que quanto mais amontoam mais se encerram numa impotência fatal. Por toda a parte o espírito humano começa a perder de vista que a verdadeira garantia do indivíduo consiste não no seu esforço isolado, mas na solidariedade.” Assim falava o visitante.

Zózima não o pressionava o visitante para conhecer-lhe o segredo. Mas um dia ele disse-lhe: “Eu cometi um assassinato”. Há 14 anos assassinara uma linda senhora por quem se apaixonara, pois ela dera seu coração a outro. Fora muito astuto e jamais  atraíra sobre si nenhuma suspeita. Como despiste, até havia roubado algumas joias da vítima, que doara multiplicado para entidades de beneficência. A polícia suspeitara de um criado que, internado, morrera de uma febre contraída antes da prisão. De todos os modos, o caso terminou arquivado.

No entanto, cedo a consciência começara a pesar-lhe. Casara-se, tivera filhos e atormentava-se “como criá-los na virtude com o sangue que havia derramado?” Sonhos terríveis passaram a visitá-lo. E como o mundo todo o respeitava, a situação tornara-se-lhe insuportável. Pensara em suicídio. Mas um sonho, então, começou a persegui-lo: fazer uma confissão pública do crime. Essa obsessão durava já três anos. “Não lhe darão crédito”, disse-lhe Zózima. “Apresentarei provas”, retrucou. Apenas o impediam o juízo da mulher e dos filhos. Pede-lhe conselho sobre o que fazer e Zózima não titubeia: “Vá e confesse, pois tudo passa e somente a verdade fica. Seus filhos quando crescerem compreenderão a grandeza de sua determinação.”

Certa noite, duas semanas após, reapareceu desesperado e, nesse momento, disse ao futuro stariets:     “Já expiei meus sofrimentos pelo sangue derramado e ninguém pagou pelo meu crime. Saberão as pessoas reconhecer a verdade, apreciá-la?” Zózima leu-lhe uma passagem de “Os Hebreus”: “É coisa horrenda cair nas mãos do Deus vivo”. O visitante saiu dizendo-lhe que jamais voltaria. No entanto, horas após retornou. “Fitava-me e dizia: Lembra-te que voltei para te procurar”. E partiu de vez.

No dia seguinte era o dia do aniversário daquele senhor e na presença de toda a sociedade leu uma confissão completa de seu crime: “Sendo um monstro, separo-me da sociedade. Deus visitou-me e quero sofrer”. Acontece que ninguém quis crer nem em suas palavras e nem nas provas que ele apresentou. Cinco dias após, caiu enfermo e os médicos disseram que estava louco. A sua esposa proibiu a visita de Zózima, acusando-o de haver transtornado o marido. Finalmente, o próprio enfermo conseguiu que lhe trouxessem Zózima e disse-lhe no leito: “Depois da confissão minha alma entrou em um paraíso; ouso amar e beijar os meus filhos. Não me acreditam, ninguém crê em mim, vejo nisso a mão da misericórdia divina”. Confessa-lhe que no dia em que retornara para vê-lo, planejava matá-lo, pois não poderia encará-lo se não se acusasse publicamente. O homem morreu ao final de uma semana e toda a sociedade voltou-se contra Zózima. No entanto, algumas pessoas adMítiam as verdades da confissão e vinham, por pura maldade, interrogá-lo, “pois a queda e a desonra de um justo causam satisfação”.

 

Extratos da doutrina do stariets-

e- Do religioso russo e do papel possível-  Os monges humildes e mansos, aqueles que aspiram à solidão para suas preces, salvarão a terra russa, pois guardam a imagem de Cristo e a revelarão ao mundo abalado quando chegar a hora. O mundo proclamou a liberdade, mas ela representa a escravidão e o suicídio. Ela aumenta as necessidades dos homens pois os pobres possuem os mesmos direitos que os ricos. Esse aumento das necessidades leva os ricos à solidão e ao suicídio espiritual, os pobres à inveja e aos crimes, pois conferiram-se direitos sem se indicar os meios de satisfação das necessidades. Os ricos não vivem senão para invejarem-se mutuamente, pela sensualidade e ostentação. Quanto aos pobres, afogam na embriaguez a insatisfação de suas necessidades. Mas que em breve, a afogarão em sangue. Afinal, os bens materiais aumentaram e a alegria diminuiu.

Diferente é o caminho do religioso. As pessoas zombam da obediência, do jejum, da oração, no entanto são os únicos caminhos para a verdadeira liberdade, à liberdade do espírito e com ela à alegria espiritual.

É o povo quem salvará a Rússia. O mosteiro sempre esteve com o povo. Ele derrubará o ateu e a Rússsia será unificada pela Ortodoxia. Preservai o povo, velai pelo seu coração. Instruí-lo na paz. Eis vossa missão de religiosos, pois esse povo traz Deus em si.

f- Amos e servos podem tornar-se irmãos em espírito?-  O sofrimento das crianças deve ter um fim, levantai-vos e pregai. Existem crianças de até nove anos em fábricas, quando crianças precisam de sol, bons exemplos e um mínimo de simpatia. O povo humilde reconhece Deus. Já os grandes proclamaram que não há crime e nem pecado! Nosso povo não é servil, apesar da escravidão de dois séculos. Não é vingativo e nem invejoso. Já os ricos, os açambarcadores e os sanguessugas estão na maior parte pervertidos. Mas o rico depravado acabará por envergonhar-se de sua riqueza perante o pobre e o pobre, vendo sua humildade, compreenderá e amigavelmente lhe estenderá a mão. Só há igualdade na dignidade espiritual. Repetindo o seu irmão falecido: “E por que eu não serei o servidor de meu servidor? Penso que realizaremos essa grande obra de Cristo”.

g- Da oração, do amor, do contato com outros mundos-  A prece é uma educação. A cada hora milhares de seres terminam sua existência terrestre, muitos no isolamento, ignorados, tristes, isolados e angustiados na indiferença geral. Tua prece pode interceder por eles. Não temais o pecado, amai toda a criação no seu conjunto! Somente amando cada coisa compreende-se o mistério divino. Cada folha, cada flor, o raio de luz, animais, plantas e pedras. Homens, não vos ergais acima dos animais; eles não têm pecados ao passo que vós deixais por onde passais rastros de podridão! Amai particularmente as crianças, pois elas, como os anjos não têm pecados. Frente ao pecado jamais empregueis a força, mas o amor sublime. A humildade cheia de amor é uma força tremenda. O amor é mestre, é preciso saber adquiri-lo porque necessita um esforço prolongado; é preciso amar não por um instante, mas até o fim. Sede alegres como uma criança, como as aves do céus, pois a maldade, o pecado e a impiedade são poderosos. Deus tomou de empréstimo a outros mundos as sementes e as semeou aqui.

h- Pode-se ser o juiz de seu semelhante? Fé até o fim-  Não podeis ser o juiz de ninguém. Antes de julgar um criminoso deve o juiz saber que ele próprio é tão criminoso quanto o acusado. Só quando assim o entender poderá ser juiz. Se os que vos cercam por malícia ou indiferença recusam ouvir-vos, põem-vos de joelhos e pedi-lhes perdão, porque na verdade é por vossa culpa que não vos escutam. O justo desaparece, mas a luz fica. Após a morte do salvador é que a gente se salva. O gênero humano repele seus profetas, massacram-nos, mas os homens amam seus mártires e veneram aqueles que eles mesmo fizeram perecer. É pela coletividade que trabalhais, pelo futuro que agis.

Não pocureis recompensa nessa terra, pois já tens a alegria que só o justo partilha. Amai incansavelmente, insaciavelmente, a tudo e a todos, procurai esse êxtase e exaltação.

i- Do inferno e do fogo eterno-   Pergunto a mim mesmo “o que é o inferno?” “Ele é o sofrimento por não mais poder amar”. Fala-se do fogo do inferno no sentido literal. Penso que se houvesse mesmo verdadeiras chamas, os danados se rogozijariam, pois esqueceriam com os tormentos físicos, ainda que por instante, a mais horrível tortura moral. É impossível libertá-los dela, pois o tormento está neles e não fora. E se pudesse, mais desgraçados seriam, pois se os justos do paraíso os perdoassem e os chamassem a seu amor infinito, não fariam senão aumentar-lhes o sofrimento, excitando neles essa sede ardente dum amor correspondente, ativo e grato, doravante impossível.

Infelizes dos suicidas! Penso que não pode haver ninguém mais infeliz que eles. É um pecado, dizem-nos orar por eles. Mas eu tenho orado toda a minha vida.

O stariets Zózima sentiu de repente uma dor aguda no peito, empalideceu e colocou as mãos à altura do coração. Prostrou-se beijando a terra e entregou sua vida suave e alegremente.

 

 

Terceira Parte

Livro VII- Aliocha

O odor deletério- O corpo do stariets foi preparado pelo padre Paísi de acordo com o rito estabelecido para os ascetas e durante toda a cerimônia fúnebre seria lido o Evangelho.

Acontece que, entre a multidão de visitantes e a própria comunidade religiosa, havia enorme agitação, uma expectativa febril. Paísi e Yosif faziam de tudo para acalmar os ânimos, na medida em que todos esperavam milagres; doentes também estavam afluindo de todas as partes trazidos por seus parentes, pois Zózima era considerado um verdadeiro santo. No fundo, até mesmo os padres e Aliocha esperavam que alguma coisa acontecesse. E algo se passou, não exatamente o que se esperava, dado que, prematuramente o cadáver entrou em decomposição e pôs-se a exalar um odor deletério.

As pessoas começaram a se agitar e algumas se lembravam de casos ditos sobre outros corpos de religiosos que haviam baixado a sepultura sem que nada se cheirasse. Junto a um desses túmulos Aliocha chorava pela manhã. O padre Yosif dizia a todos, sem muita repercussão, que a incorruptibilidade dos corpos não era um dogma da religião.

De repente, para complicar a situação, surge o padre Fieropont. Ele era um adversário ferrenho do stariets e quando chega próximo do cadáver grita: “Eu venho afugentar os demônios”, ao que padre Paísi responde: “Afugentas o maligno e talvez tu mesmo o sirvas. E quem pode dizer de si mesmo que seja um santo?” E, em sequência, para que o escândalo não se alastresse mais, expulsa-o dizendo-lhe: “Não cabe aos homens julgarem, mas a Deus! Talvez aqui vejamos uma advertência que talvez ninguém seja capaz de compreender, nem tu, nem eu”.

Após o incidente, o padre avista Aliocha que se apressava em sair da sala, mas que não se dirigia à missa. Aliocha desvia dele o olhar e Paísi sentiu a profunda mudança que nele se operava e lhe diz: “Foste também tu seduzido? Estarias também dentre as pessoas de pouca fé?” Aliocha não lhe responde e deixa o erimitério sem ordem pela primeira vez. Paísi somente lhe diz: “Voltarás”.

 

Momento crítico-  Ora, a perturbação do moço não advinha de sua “pouca fé”, mas fruto de sua fé ardente, sentia uma perturbação em seu espírito, angústia e agitação, dado que, ao invés de um milagre, o corpo se decompusera rapidamente. Não buscava milagres, mas sentia a justiça suprema violada a seus olhos. Tinha sede de justiça e não de milagres, pois aquele que deveria ser elevado acima de todos achava-se rebaixado e coberto de vergonha.

Estando no campo, com a face ao solo, surge diante dele Rakitin; ele abre um pouco seu coração utilizando quase a mesma expressão que Ivan usara: “Não me insurjo contra Deus, mas contra o seu universo!” Em sua “revolta” concorda em dividir a salsicha e a vodka com o amigo e até mesmo em visitar Gruchenhka, aquela “que ainda o comeria”. Rakitin, por sua vez sentia-se feliz por “contemplar a ignomínia do justo” e, quem sabe, apreciar “a transformação de um santo em pecador”. Além disso, a moça prometera-lhe dinheiro caso ele lhe trouxesse Aliocha.

 

A cebola- Gruchenhka, desde que tomara o velho Samsonov por protetor, residia há quatro anos na casa da viúva Morozov, local em que este a colocara quando tinha apenas 18 anos; a moça fora seduzida aos 17 por um oficial polonês e abandonada tanto por ele quanto pela família, ficando na ignomínia e na miséria. Nesses quatro anos a jovem, transformara-se de franzina a viçosa, rosada, de uma beleza russa típica; possuía um caráter enérgico, era orgulhosa, impudente e hábil no manejo do dinheiro. Com a ajuda financeira de Samsonov, ela soubera emancipar-se comprando e vendendo títulos de pessoas endividadas, atividade que repartia com Fiodor Karamazov. Por outro lado, tornara-se sexualmente inacessível e somente seu velho protetor desfrutava de seus favores.Quando Grucha entrou em contato com Dimitri, o velho recomendara-lhe que ela ficasse com o pai deste.

Quando Aliocha entra em sua casa na companhia de Rakitin, ela cai das nuvens dado que não o esperava e, sim, temia pela visita do irmão Dimitri. Estava enfeitada e alegre, pronta para sair de casa, ao encontro de quem ainda julgava amar. Entretanto, recebe-os e senta-se nos joelhos do mais novo dos Karamazovi e o abraça. Mas Aliocha estava, de certa forma, encouraçado contra tentações, e aquela mulher terrível transmitia-lhe somente terror.

“O meu oficial acaba de chegar, encontra-se em Mokroie e mandará me chamar”, esse é o segredo confessado, e por isso enfeitara-se e temia uma visita de Dimitri.

Diz a Aliocha que o ama de uma forma diferente, o que desarma o moço, que, por sua vez  o leva a dizer que havia vindo encontrar uma alma perversa e se deparara com “uma verdadeira irmã, uma alma amorosa, um tesouro”. É nesse instante que Grucha conta-lhe a lenda da cebola.

Havia uma megera que morrera sem deixar atrás de si uma única virtude. Logo os diabos a atiraram em um lago de fogo. Seu anjo da guarda quebrava a cabeça para encontrar-lhe uma virtude e falar com Deus. Lembrou-se, finalmente, que uma vez ela arrancara uma cebola da horta e dera a um mendigo. E Deus disse ao anjo que ele, por sua vez, pegasse uma cebola e tentasse erguer a mulher do lago e, conseguindo-o, ela iria para o paraíso. Vendo que o anjo a erguia agarrada à cebola, outros pecadores também tentavam já agarrarem-se a ela para subirem e a megera, aos ponta-pés os expulsava, até que a cebola partiu-se e ela voltou ao lago.

“Aliocha não creia que eu seja boa, muito ao contrário”, concluiu Gruchenhka. Confessa haver pago a Rakitin para que o trouxesse: “Serias o primeiro após Samsonov”. E ela queria devorá-lo porque sentia que ele a desprezava. Por haver sido desprezada pelo oficial a quem amava, passara  odiar a todos, mas somente “do primeiro” queria  vingar-se. “Mas, agora ele chegou, eu me arrastarei até ele como um cão batido”. Confessa também que Mítia era apenas uma diversão, não o amava. Ao que Aliocha também abre seu coração, pois, por covardia, viera até ela para “perder-se”; que Grucha era “uma alma que ainda não se reconciliou, que seria precioso poupar… pois oculta um tesouro”. Gruchenchka explode num sorrir e diz que poderia vestida como está, ir até o polonês apenas para extasiá-lo e, no auge, mandá-lo beber em outro pote, pois ainda não sabe se o perdoará. Poderia até mesmo largar tudo e empregar-se como criada e declara-se devedora de Aliocha. O moço lhe diz: “Eu apenas lhe dei uma pequena cebola”.

Chega o emissário do oficial e Grucha, partindo diz: “Afastem-se todos, parto para uma nova vida. Saúda teu irmão e que ele não guarde uma má recordação de mim. Foi a um miserável que Gruchenhka se deu. A ele eu o amei por uma hora, que ele se recorde de mim por toda a vida…”Parte .

Rakitin comenta que o oficial, hoje, é um pobre diabo, perdera o posto e voltara ao saber que Grucha possuia dinheiro.

 

As bodas de Canaã- Aliocha retorna ao monastério e encontra tão somente o padre Paísi, que lendo o Evangelho, era o único a velar pelo morto. Um ar fresco entrava pela janela aberta e o jovem ajoelhou-se para rezar. Não se sentia mais angustiado e nem indignado pela corrupção cadavérica. Sua consciência apaziguara-se. O padre lia as Bodas de Canaã. Aliocha sente que o caixão desaparece de suas vistas e o velho stariets o convida a celebrar. “Dei uma cebola e eis-me aqui…e também tu, meu rapaz, hoje também deste uma pequena cebolinha…é o começo de tua obra”.

Quando despertou de seu enlevo, levantou-se, tocou o ombre de Paísi e saiu da cela. Estava reconciliado com a vida; ainda ouviu: “Rega a terra com tuas lágrimas e ama-a…”Havia se prostrado fraco, adolescente e reerguera-se um lutador sólido para o resto de sua vida. Pensou: “Minha alma foi visitada naquela hora”. Três dias após deixou o mosteiro e foi viver sua vida.

 

Livro VIII- Mítia

Samsonov-  Durante dois dias Mítia “lutou com o seu destino para salvar-se”. Gruchenhka, “que o amara  por somente uma hora”, atormentava-o impiedosamente, não permitindo que ele conhecesse suas intenções. Curiosamente, ele sentia ciúme exclusivamente do pai; não o sentia em relação ao velho Samsonov ou do primeiro amante, que seduzira a moça. Para ele, o passado estava definitivamente enterrado e desde que se casassem, perdoar-se-iam mutuamente as faltas e iniciariam nova existência. Bastava que ela dissesse que lhe pertencia e ele seria capaz de largar tudo e transformaria, longe dali, toda a sua existência, uma vez que o lodaçal em que mergulhara já lhe era insuportável. Se, em relação a Katierina ele sentia-se um miserável, não desejava sê-lo também aos olhos da outra, dado que se Grucha se decidisse a viver com ele, de alguma forma necessitaria de dinheiro.

Além desse dinheiro, ainda desejava pagar Katie, restituindo-lhe os 3.000 rublos, mas ele era um pobretão que sempre buscava alguma alternativa para que o vil metal lhe caísse dos céus. É o que acontece às pessoas que só sabem desperdiçar seu patrimônio sem saber como se adquire o dinheiro.

Colocou-se como primeira estratégia encontrar o protetor de Gruchenhka, cuja vida de velho libertino já estava por um fio. Na sua ingenuidade, acreditava que aquele velho sovina apresentava algum tipo de arrependimento por sua relação com a moça e que, estando à morte, desejaria que ela possuísse um novo protetor. Mítia propôs que o velho usurário lhe desse 3.000 rublos em troca dos direitos de sua herança materna, que dizia ter sido usurpada pelo pai, mas que advogados competentes poderiam cobrá-la. E que “necessitava do dinheiro para salvar-se”, etc.. Disse-lhe o frio Samsonov: “Desculpe-me mas não tratamos de tais negócios…Mas se quiser, dirija-se a Liagavi, comerciante de madeiras em Tchermachniá e faça a ele a mesma proposta que fez a mim”. O entusiasmado e desesperado Dimitri agradeceu-lhe como pode a indicação que lhe fora feita apenas graças ao espírito malígno e irônico de Samsonov, em quem o moço despertava uma espécie de antipatia mórbida.

De qualquer forma Dimitri prepara-se para deixar a cidade, mesmo correndo o risco de deixar a amada sem vigilância.

 

Liagavi-  Restava-lhe um relógio de prata a penhorar. Com os 5 rublos obtidos e mais 3 que as boas pessoas que lhe alugavam um quarto lhe emprestaram, viajou até a pequena localidade de Tchermachniá, em busca do comerciante Liagavi. Acreditava que ele seria sua salvação; no caminho se encontrou com um padre, que o conduziu até a isbá vizinha à do guarda florestal. Este alertou-o que jamais chamasse Liagavi pelo nome, o que o deixava possesso, devendo chamá-lo apenas pelo apelido de Gorstkin. Inútil precaução, pois Liagavi dormia o sono dos bêbados e Dimitri foi obrigado a pernoitar a seu lado. Pela manhã, devido o cansaço, demorou a despertar, o suficiente para deparar com Liagavi desperto, mas já irremediavelmente bêbado. O pobre desmiolado sentiu como uma pancada na cabeça e colocou-se no caminho de volta, dizendo para si mesmo: “Por toda parte desespero e morte”. Teve sorte por conseguir carona em uma carreta de um mujique.

 

As minas de ouro-  O ciúme de Mítia consistia em, estando longe da mulher amada, imaginar todos os tipos de traição, mas ao retornar a seu lado, persuadido de sua desgraça, ao primeiro olhar doce de Grucha, esquecia todas as suas suspeitas e sentia, mesmo, vergonha de seus ciúmes. Puchikin dizia que Otelo não era ciumento, mas confiante e se ele se sente transtornado é porque perdeu seu ideal. Por isso, o mouro não irá se ocultar, espionar às portas , dado que é confiante. Não foi fácil a Yago persuadí-lo de que era traído. O mesmo, entretanto, não ocorre com o verdadeiro ciumento, não se podendo imaginar a infâmia e a degradação a que pode chegar, sem nenhum remorso. Otelo jamais poderia resignar-se a uma traição ou perdoá-la. Bem diferente é o ciumento. Tem-se dificuldade em imaginar os compromissos e a indulgência de que são capazes, pois são os primeiros a perdoar e as mulheres  sabem disso. A reconciliação é sempre de curta duração, pois na ausência de um rival, o ciumento inventa um outro.

Dimitri ao voltar da curta viagem necessitava de algum dinheiro; restam-lhe tão somente um par de pistolas e ele as penhorou com um colecionador por 10 rublos. Ao retornar à sua habitação soube tanto da partida de Ivan para Moscou quanto da crise epilética de Smerdiakov. Asseou-se e dirigiu-se à casa da viúva Klokhlakova, sua última tentiva para obter o dinheiro de que tanto necessitava. Seu raciocínio baseava-se em que ela o destestando, que melhor negócio poderia fazer para livrar a amiga Katierina do noivo que a deixaria e iria embora com Gruchenhka, a quem a viúva também detestava. O plano de garantia do “empréstimo” era o mesmo que apresentara a Samsonov.

“Vou salvá-lo”, diz-lhe a viúva ao ouvir seu pedido, “porque seu lugar é nas minas de ouro da Sibéria, e estou persuadida de que lá o senhor encontrará um filão”. Coloca-lhe no pescoço uma pequena medalha votiva, retirada da gaveta da cômoda, justamente de onde Mítia espera que surgissem as notas de 100 rublos. “Abandone tudo, sobretudo as mulheres e vá fazer fortuna, Dimitri Karamasov. Dinheiro eu não tenho”.

Mítia saiu nas trevas, batendo no peito, no mesmo lugar em que o fizera, dois dias antes ao despedir-se do irmão Aliocha. Era um segredo que ocultava a sua desonra. Desesperado chega à casa de Gruchenhka um quarto de hora após sua partida para o encontro com o oficial, em Mokroie. Ao saber que ela não estava em casa, apossa-se de um pilão de metal, sob as vistas de Frienia, criada da moça, e corre à casa do pai, julgando lá encontrá-la.

 

Nas trevas-  Chegando à casa do pai ele escala a sebe, exatamente no mesmo local em que o fizera Lisavieta Smerdiakov, tantos anos atras. Viu luz no quarto do pai e teve certeza de que Gruchenhka lá estaria. Sabendo que Grigori e Smerdiakov estavam doentes e não o escutariam, aproximou-se da janela do quarto de dormir, onde as peças eram separadas por um biombo chinês. Vê o pai com um roupão novo, muito bem arrumado, postado junto à janela, com ar de espectativa. “A impaciência o devora, ela não se encontra aqui”, pensa o moço. Produziu, então, os sons que o pai combinara com Smerdiakov, para quando a moça chegasse; a janela abre-se e o velho diz: “Grucha, és tu? Onde estás? Estás na porta?  Vou abri-la. Preparei, também, um presentinho para você”. Uma cólera imensa percorreu o coração de Dimitri: “Eis meu rival, o carrasco de minha vida”, e tirou do bolso o pilão.

“Deus me preservou naquele momento”, diria mais tarde Dimitri, pois foi justamente então que o velho Grigori despertou e lembrou-se de que não havia fechado a porta do jardim. Levantou-se e a primeira coisa que viu foi a janela do dormitório do patrão aberta e uma sombra que deslizava junto à sebe. Cortando caminho, conseguiu agarrar Mítia por uma perna, quando esse já subia a paliçada para partir. “Parricida” vociferou o velho. Caiu fulminado por um golpe de pilão. Dimitri largou o pilão e tentou socorrer o velho cuja cabeça sangrava, estancando o sangue com seu próprio lenço. Após uns cinco minutos, acreditando tê-lo matado, colocou o lenço no bolso do sobretudo e saiu correndo em direção da casa de Gruchenhka.

 

Uma decisão súbita-  Entrou alucinado e agarrando Fénia pela garganta, soube que a amada havia ido para Mokroie, encontrar o oficial que a abandonara. Ficou, então, mortalmente pálido e sem voz. Tinha as mãos ensanguentadas e por havê-las levado ao rosto, o sangue tingia-lhe a testa. Apenas diz para consigo: “Há uma barreira alta e formidável, mas amanhã, ao nascer do sol, Mítia a transporará…vive minha amada…tu me amaste uma hora, lembra-te sempre de mim…”

Dez minutos após estava em casa do funcionário Pierkhtin, o jovem com quem empenhara as pistolas. Esse, vendo-o manchado de sangue, assusta-se. Mas o espanto do funcionário só aumenta quando vê notas de 100 rublos nas mãos de Dimitri, que deseja retirar as pistolas do empenho, num valor de 10 rublos. Leva-o a que se veja no espelho, toma-lhe o lenço com sangue coagulado com o qual o desnorteado tentava limpar-se e faz com que o mesmo se lave.

Pierkhtin encarrega um empregado que vá até o maior armazem da cidade para trocar uma nota de 100 rublos. Nesse mesmo armazem Dimitri encomendara o seu primeiro banquete, algum tempo atrás, em Mokroie. O funcionário depois diria que Dimitri não parecia dar muito valor ao dinheiro, dizendo que quem o dera “fora uma senhora para que eu fosse às minas de ouro, a sra. Khokhlakova”. Pierkhtin assegurava que ele lhe dissera haver recebido 3.000 rublos. Ao dar-se conta de que Dimitri deseja encomendar um novo banquete no mesmo armazem, pergunta-lhe se não mais iria às minas, ao que Dimitri responde: “Vou a Mokroie, eu tinha tudo, não tenho mais nada” e escreve num papel que coloca no bolso: “Castigo-me como expiação pela minha vida inteira”.

Ao chegarem ao armazem, o jovem funcionário é posto a par de muitas coisas que são ditas porque alguém um dia as ouvira dizer. Que tempos atrás, Dimitri gastara 3.000 rublos na festança regada a vinho, champanhe e contratando ciganos que o roubaram; chamara os mujiques e as moças simples da aldeia para festejarem, oferecera-lhes doces, bombons. O próprio Dimitri confessa-lhe que, ao final de toda a festa, Gruchenhka permitira-lhe apenas que lhe beijasse os pés.

Ele deseja, agora,  preparar um festa nos mesmos moldes. Gasta em bebidas e comidas 300 rublos e não mais, pois Pierkhtin evita que o roubem. Mesmo assim, não consegue impedi-lo de distribuir gorgetas mais que generosas. Contrata uma tieliega onde levará consigo o champanhe; o restante deverá levar umas horas a mais e chegará numa carroça a Mokroie. Antes de partir confessa: “Amo a vida, amei-a demais, até enjoar. Basta agora…É preciso esmagar um inseto maligno, impedir de estragar a vida dos outros” e pergunta se Pierkhtin já roubara, “não do tesouro público, pois desse todos roubam, mas de alguém”. “A única coisa que roubei até hoje foram 20 copeques de minha mãe, quando criança”.

Dimitri parte na tieliega em desabalada carreira e em meia hora chega à hospedaria da aldeia.

 

Sou eu quem chega-  A alma de Mítia estava perturbada e não tinha outro pensamento naquele instante senão para seu ídolo, que queria rever pela derradeira vez. Entendia que Gruchenhka encontrava o seu primeiro amor e que ele não tinha o direito de intrometer-se. Sentia no bolso o papel escrito e a pistola carregada com a bala que havia se destinado. Sentia, também, no fundo de sua alma que jamais a amara tanto.

Havia luzes na hospedaria, logo, estavam acordados. Disse ao cocheiro: “Tocai os guizos: sou eu quem chega!”.

O dono do local chamava-se Trifon, que, apesar de já ter feito na vida um bom par de meia, adorava espoliar os farristas. Lembrava-se que o último regabofe de Dimitri rendera-lhe 200 rublos. Todo servil, relata-lhe que sua amada estava na sala, em companhia de um polonês e de um companheiro deste, além de dois hóspedes, o jovem Kolganov e o proprietário Maksimov. Dimitri oferece novos 200 rublos por coro, canções e danças. Quer iniciar a farra, manda que tragam a champanhe, mostra-lhe um pacote de dinheiro e diz “que o restante, vinho e guloseimas estão a caminho”.

Ao entrar no recinto vê Grucha sentada em uma poltrona perto de uma mesa; a seu lado, o jovem Kolganov e Maksimov; em um sofá ,um homem a fumar cachimbo; era corpulento e baixo, tinha um ar carrancudo. Ao seu lado, o seu companheiro de viagem, alto e magro. Quando Gruchenhka o vê entrar solta uma exclamação de medo.

 

Primeiro e indiscutível-  Mítia, contrariando a espectativa da amada, aproximava-se civilizadamente do grupo e adianta que viajará já na manhã seguinte. Dirige-se ao “pan” ( senhor em polonês) do cachimbo e exibe-lhe, na face, o maço de notas de rublos a gastar, “se minha rainha consentir…” Grucha o convida a reunir-se ao grupo e, quando ele se volta para a parede sem conseguir impedir as lágrimas, ela se diz muito contente de que tenha vindo, “pois o aborrecimento ali é enorme”.

Assim que começam a beber, Mítia olha a todos com uma alegria tímida, com pequenos risos nervosos, parecendo por momentos, haver-se esquecido de tudo e achegando-se cada vez mais para o lado da moça. A figura do “primeiro” era cômica; além da obesidade, tinha um bigode encerado e usava uma peruca barata que lhe caía pelas têmporas; notava-se também que, tanto ele quanto o amigo, estavam muito mal vestidos.

Iniciaram uma conversa de salão onde o centro das piadas era Maksimov que pretendia que Gogol o havia colocado em cena ao escrever “Almas Mortas”. Os “pannies” não gostam da brincadeira e Grucha começa a irritar-se com eles. De tal forma que quando passaram aos brindes, fizeram-nos primeiro em honra à Polônia. Quando tocou a vez do brinde à Rússia houve a discidência dos “pannies”, graças à recente anexação territorial. Mítia já os considerava como dois imbecis, e Gruchenhka, “tristes convivas”.

Iniciam um jogo de baralho, com cartas novas que o próprio Trifon fornece, mas que, posteriormente, vem a se saber que os poloneses as haviam trocado por cartas marcadas. Rapidamente Mítia perde 200 rublos e Kolganov tem o bom senso de interromper o jogo. Aproveitando a interrupção do mesmo, nosso Karamazov carrega para um recanto o primeiro polonês, que se faz acompanhar pelo amigo. Oferece-lhe 3.000 rublos para que eles partam e deixem Gruchenhka. Daria 500 como sinal e, na cidade, outros 2.500. Entretanto, o pan baixinho não acreditou no cumprimento da segunda parcela e Mítia disse-lhes: “Se pensais tirar vantagens de Gruchenhka, estais muito enganados, sois verdadeiros idiotas”.

O “primeiro e indiscutível pan” resolve queixar-se com a “ex-noiva” e inicia-se um diálogo em que as relações começam a se redefinir. Diz-se disposto a perdoá-la pelos amantes que tivera e que Mítia oferecera-lhe 3.000 rublos para que ele partisse, mas que não os aceitara. Grucha, dirigindo-se a este pergunta: “Estarei eu à venda?” Mítia responde ao pan: “Ela é pura, pan, jamais foi minha amante”. Ao que a moça, também dirigindo-se ao seu “primeiro” diz: “Não foi por virtude ou por temor a  Samsonov que eu me conservei pura, mas para ter o direito de tratar de miserável a esse homem. Recusou mesmo o teu dinheiro, Mítia?” “Não o recusou, apenas o queria à vista”.

O polonês quer-se dar por ofendido, mas a moça finaliza toda e qualquer perspectiva que ele talvez acalentasse: “Voltas de onde vens! Tola fui por atormentar-me durante cinco anos! Mas não era por ele que me atormentava, era o rancor que eu alimentava. O outro, aquele de cinco anos atrás, era um falcão, mas tu, hoje, não passas de uma galinha molhada.”

Para finalizar, aos gritos entra o hospedeiro que localizara intocado o baralho novo que fornecera para o jogo. Os poloneses, desmacarados como ladrões, não participarão da festa e acabam sendo presos em um quarto a chaves.

 

Delírio-  A festa quase transforma-se em uma orgia. Grucha e Mítia se aproximam e esse começa a embriagar-se como na vez anterior. O coro e as danças principiam e Mítia beija a todos, servindo-os tanto às moças quanto aos mujiques. Trifon, o hospedeiro, dele não se descola, para que o moço não  distribuisse a todos o dinheiro que lhe restava.

No meio da festa, Grucha pegou-o pela mão, sentou-o a seu lado e confidenciou-lhe que tivera medo de sua chegada e que pensara que Mítia queria cedê-la ao “pan”. O rapaz lhe diz: “Eu não queria perturbar a tua felicidade”. Mas a tristeza que se estampa em sua face apenas parcialmente  é traduzida pela moça: “Querias suicidar-te amanhã, verdade? Estás disposto a tudo por minha causa, não é? Mas por que segues triste? Fiques alegre também, sabe, eu amo alguém que está aqui.”

Mítia ouve-a e se afasta em busca da escuridão “pois se tenho de matar-me será aqui e agora”. Ao chegar a Mokroie, ele estava absolutamente decidido, pois a mulher que amava pertencia a outro e a opção pela morte lhe parecia natural. Mas as coisas mudaram; Grucha confessa-lhe seu amor e, então, resta-lhe pedir a a Deus que “ressuscite aquele que jazia na paliçada”. Dirige-se aos céus: “Afaste de mim esse cálice! E se o velho ainda viver arrancarei esse dinheiro de dentro da terra”.

Quando Mítia retorna à festa, o hospedeiro Trifon já não parece o mesmo, está calado e taciturno. Depara-se, então, com Grucha sentada em um baú a chorar, empolgada pela bebida. “Mítia, Mítia, eu o amava! Por cinco anos, mas seria a ele ou ao meu rancor? Encontrei-me com uma metamorfose daquele que havia sido. Sinto vergonha por toda a minha vida. Malditos cinco anos!” E confessa-lhe, agora, seu amor: “Quando entraste, meu coração me disse: tola, eis a quem amas… Tu apareceste e tudo se iluminou! Mas o que temes? A eles, os poloneses? Mas não existe homem que te cause medo! Como pude imaginar que amaria a outro após te haver amado por uma hora?” e persigna-se: “Perdoas-me, Mítia, por ter-te feito sofrer. Era por pura maldade que eu torturava a todos, que eu enlouqueci o velho Fiodor”. Mítia a toma nos braços e beija-a. “Serei tua escrava, por toda a minha vida, faze-me sofrer, é preciso”.

Deixam-se por alguns momentos quando Grucha interage com o grupo que dança. Estão todos bêbados. Os dois apaixonados buscam um canto em um dos quartos. “Mítia, sejamos doravante honestos e bons, não nos assemelhemos aos animais. Leve-me para bem longe”. É tarde, no entanto. Mítia responde-lhe: “Grucha eu sou um ladrão, roubei Katie”, ao que a amante lhe responde: “Nada lhe roubaste, tome o meu dinheiro, reembolsa-a. Aliocha ordenou-me que trabalhasse e o farei. Não serei tua amante, mas tua mulher, tua escrava. Entregue o dinheiro e ama-me. Esquece-a”. “É a ti que eu amo, Gruchenhka, até na Sibéria”. “Que seja onde quiseres”, retruca-lhe apaixonada.

No momento seguinte os dois percebem que o quarto enchera-se de pessoas. Presentes o spravinik Makaritch, espécie de xerife, e o juiz de instrução. Makaritch já o chama de “parricida, monstro, o sangue de seu pai grita sobre ti”, no que é interrompido pelo juiz que olhando Dimitri lhe diz: “O senhor é acusado de ter matado o teu pai, que foi essa noite assassinado”.

 

Livro IX- O processo preparatório

O funcionário Pierkhtin inicia a sua carreira-  Assim que Dimitri o deixara, Pierkhtin fora até a casa em que Gruchenhka residia e lá soube que Dimitri dissera ter estado na casa do pai e que teria matado alguém. O mais simples seria ele ter ido até a casa de Fiodor Karamazov e conferir se alguém havia sido assassinado. Mas não o fez, primeiro por receio de parecer ridículo caso ninguém hovesse morrido e depois por falta de intimidade. Decidiu-se, então, confirmar a história dos 3.000 rublos que teriam sido dados pela viúva Khokhlkova, e, se ela não confirmasse, iria diretamente à casa do spravinik, que aliás foi o que aconteceu. A viúva não confirmou a doação e ainda disse que se Dimitri possuisse o dinheiro que mostrara, ele teria assassinado o pai. Outro resultado dessa entrevista foi um encantamento mútuo ocorrido entre ambos.

 

O alarme-  Pese ser um homem honrado, o spravinik era um ser muito limitado. “Tenho alma mais de militar que de civil”, dizia. Quando Pierkhtin chegou ele tinha visitas: o médico recém formado, Varvinski, e o procurador-suplente Ipolit Kirilovitch. Esse último era um homem ainda jovem, tuberculoso, irascível, que trazia uma ideia exagerada de seus próprios méritos. O caso Karamasov o apaixonou imediatamente, graças a seus pendores pela psicologia. Além de ambos, também se fazia presente o juiz de instrução Nicolai Nieliudov, um homem muito educado, mas que no desempenho de um caso tornava-se grave, graças à alta ideia que fazia de seu papel e obrigações. Pierkhtin não trazia novidades, pois Marfa, a mulher de Grigori,  acordara durante a noite graças a um acesso de Smerdiakov e, não encontrando o marido, saíra a procurá-lo. Ouvira, então, um gemido de alguém ferido e encontrou Grigori todo ensanguentado. Ao socorrê-lo ele lhe disse: “Ele matou o pai”. Foi então que a senhora correu até a janela da casa, que estava iluminada, e viu o cadáver de Fiodor que jazia de costas. A porta da casa estava aberta e Marfa desabou a correr até a casa do spravinik, chegando cinco minutos antes do jovem funcionário.

As autoridades resolveram agir. Foram ao local do crime e verificaram que Fiodor Karamazov tinha a cabeça partida. Não se via uma arma, mas concluiu-se que deveria ser o mesmo pilão com que Grigori fora atacado e encontrado ao lado da paliçada. Grigori recuperara-se e, apesar de tonto, já estava lúcido. Notaram também que o quarto da vítima estava em ordem e, perto do leito, encontrou-se um envelope vazio que dizia na subscrição: “3.000 rublos para o meu anjo Gruchenhka, se ela vier”. Após todos os relatos, as autoridades convenceram-se de que deveriam partir imediatamente para Mokroie, antes que Dimitri Karamazov se suicidasse, pois “semelhantes cabeças loucas fazem sempre assim: a farra antes da morte”.

Guardas foram enviados imediatamente para a hospedaria da aldeia e haviam sido eles que colocaram Trifon de sobreaviso. As autoridades chegaram todas juntas ao romper do dia.

Purgatórios de uma alma: primeiro purgatório-  Mítia olhava as pessoas que invadiram o quarto com um ar estupidificado: “Não sou culpado, não derramei o sangue de meu pai”, foi sua resposta ao spravinik. Gruchenhka diz ser dela a culpa, pois “por minha causa Dimitri matou. Aquele pobre velho eu o torturei”. Precisaram empregar a força para separar o casal. Por alguns momentos, em virtude do álcool e do susto, ele desfalece e quando volta a si diz para as pessoas que o cercam: “Derramei o sangue de outro velho, não o de meu pai…mas se meu pai está morto, quem o teria matado senão eu?”

O juiz de instrução decide tirá-lo daquela aflição e lhe comunica que Grigori estava bem, mas que “ele havia feito um depoimento terrível a seu respeito”. Ao ouvir a notícia, Mítia fica exultante pois “Já não sou mais um assassino e esse sangue angustiou-me durante toda a noite”.

De toda forma tem início o interrogatório preliminar. Dimitri diz que jamais escondera os seus sentimentos em relação ao pai e que até jurara perante testemunhas que o mataria. Seu ódio era movido pelo ciúme e pelo dinheiro que julgava que o velho lhe devia, mas que esteve sempre disposto a de tudo dar quitação por 3.000 rublos. “Mas agora que ele está morto, penso diferentemente. Não são remorsos; eu mesmo não brilho pela bondade e nem pela beleza, de modo que eu não tinha o direito de achá-lo uma pessoa repugnante”.

 

Segundo purgatório-  A questão central do interrogatório volta-se para o porquê de ele necessitar dos tais 3.000 rublos. Inicialmente recusa-se a falar sobre o que denomina sua “dívida de honra”. Descreve todo o empenho que tivera para tentar obter aquele valor como a tentativa com Samsonov, depois sua viagem atrás de Liagavi, a visita à senhora Khohhlakov. Detalha todos os seus movimentos nos dias fatídicos, a vigilância exercida junto à sebe da casa vizinha à do pai, os sinais que lhe ensinara Smerdiakov, que este, por sua vez, os combinara com o pai e que mais ninguém conhecia. Reconhece quase haver agredido Fiénia e o pilão com que ferira Grigori. Relata-lhes, então, um sonho: alguém de quem tem medo o persegue até nas trevas, foge e oculta-se atrás de portas, mas  perseguidor finge ignorá-lo, a fim de o atormentar por mais tempo.

 

Terceiro purgatório-  Mítia não desejava omitir nenhum detalhe da noite do crime de seu pai. Comenta até sobre os sinais de batida na janela que fizera com que Fiodor a abrisse, crendo ser a moça. Nessa hora tivera a certeza da ausência de Grucha e, por isso, saíra correndo em direção à sebe. Ouvira seu pai gritar de medo pois o avistara. Tivera, entretanto, a perna segura por Grigori quando saltava a paliçada para fugir.

O promotor pergunta-lhe se a porta da casa do pai estava aberta, ponto sobre o qual insistia Grigori, pois o velho Fiodor fora assassinado dentro da própria casa. Mítia responde ter certeza de que ela estava fechada até sua fuga e que jamais entrara na casa. O promotor quer induzi-lo a acusar Smerdiakov, ao que Dimitri responde que não poderia ser ele o assassino pois “é de natureza tão vil e covarde, sendo um composto de todas as covardias sobre dois pés…e por que ele mataria o meu pai? Nem gosta de dinheiro…” Quando o juiz lhe diz que Smerdiakov está sob forte crise epilética, Mítia conclui: “Só pode ser o diabo que o matou”.

O interrogatório encaminha-se para o porquê de sua disposição em suicidar-se, razão pela qual nem mesmo ele se importara em se limpar do sangue das mãos e rosto.

Voltam ao dinheiro, pois quem não tinha um copeque como entrara em casa de Pierkhtin com um punhado de notas de 100 rublos? Onde o arranjara? Mas Dimitri luta por não revelar um motivo que, para ele era “mais vergonhoso que o próprio assassinato de um pai para roubá-lo”. As autoridades pedem que ele deposite todo o dinheiro em sua posse: 800 rublos. O promotor faz todas as contas sobre os gastos de Dimitri e chega apenas a 1.500 rublos. Mas ele dissera a todos que desejavam ouvi-lo possuir 3.000 rublos! Obrigam-no, então, a despir-se para busca e sua roupa termina confiscada como prova, mas nada encontram dos 1.500 rublos, teoricamente restantes.

 

O procurador confunde Mítia-  Após ficar sem sua roupa, deram-lhe uma que não lhe pertencia, permitindo-lhe manter exclusivamente as meias. Mítia sente-se “vestido de palhaço”. Insistem na questão do dinheiro e fazem com que ele veja que a solução desse ponto seria vital para sua história. Mostram-lhe mesmo o envelope vazio encontrado ao lado do morto. Nesse momento Dimitri grita: “Foi Smerdiakov, pois somente ele sabia o esconderijo do velho, eu o ignorava”. E adiciona: “Sem o sinal meu pai não abriria a porta. Ele fez o sinal e entrou”. Após isso, concorda em confessar onde conseguira o dinheiro, o motivo de sua vergonha.

 

O grande segredo de Mítia. Zombam dele- “Esse dinheiro era meu, isto é, eu o tinha roubado para mim. Havia 1.500 rublos que sempre andaram comigo, no meu peito, costurados num pano e preso ao meu pescoço.” Ele o trazia junto ao corpo há um mês. “Somente ontem à noite, roubei-o definitivamente”. A seguir a história de que sua noiva, Katierina, dera-lhe 3.000 rublos para que os enviasse a Moscou. Mas que ele, estando apaixonado por Gruchenhka, separara metade e fizera a farra de um mês atrás com a mesma, mas reservara e costurara os 1.500 restantes.

O promotor lhe diz que todas as testemunhas são coincidentes em dizer que ele gastara 3.000 rublos naquela ocasião, ao que o acusado responde “que ninguém os havia contado”. “Mas por que não falou sobre isso a ninguém e por que havia feito aquilo?”

Mítia começa a explicar-se: “O roubo é o cúmulo da desosnestidade. Há um mês guardava o dinheiro, pois ao devolvê-lo deixaria de ser desonesto. Mas por um mês não consegui fazê-lo”. Ademais, como amava Gruchenhka, se ela o aceitasse ele também precisaria do dinheiro. “Eu não a conhecia ainda. Supunha que ela não perdoaria a minha pobreza”. “Durante um mês eu me dizia: és um canalha, um ladrão! Esse sentimento inspirou-me a praticar diversas violências”. Somente se decidira rasgar o amuleto ao acreditar-se um assassino e como Grucha estaria com seu primeiro amor, tudo lhe parecia perdido. E destruído o amuleto, perderia a chance de dizer a Katierina “sou desonesto, não ladrão”. “Nessa noite aprendi que é preciso ser honesto para enfrentar a morte”. “Sobre o gasto de 3.000 rublos, menti sempre por gabolice, talvez para esquecer o dinheiro que havia guardado”.

 

Depoimento das testemunhas- o neném- A questão central para o promotor era esclarecer se Dimitri havia gasto realmente 1.500 ou 3.000 rublos na primeira noitada em Mokroie, bem como o valor da véspera. Nesse ponto todas as testemunhas falaram contra o acusado. Quando o polonês, o “primeiro”de Gruchenhka é interrogado, diz que lhe fora ofertado receber 2.500 rublos na cidade. O promotor imbui-se da certeza de que Karamazov escondera parte do dinheiro. Quando interrogado a respeito, Dimitri dizia que se tratava da antiga ideia, a da “venda dos direitos que propusera a Samsonov”. Seriam “os direitos à sua herança”, os que daria ao polonês.

Ao final do interrogatório, permitiram que o réu repousasse. Teve um sonho estranho: viajava pela estepe e um mujique conduzia uma tieliega; fazia frio e a neve caia. O mujique chicoteia os cavalos, aproxima-se de uma aldeia onde se avistam as isbás que são negras, muitas foram incendiadas. Na entrada da aldeia tem algumas mulheres magras e descarnadas. Uma tem o rosto desfeito e traz nos braços uma criancinha que chora, seus peitos já esgotaram o leite, estão ressequidos. Mítia pergunta ao mujique por que elas choram e ele responde que é o nenem quem chora. Por quê? Não o aquecem? “Porque são pobres, suas isbás foram queimadas e não têm pão”, responde o mujique. Mas Mítia não quer compreender: “Por que aquelas desgraçadas se conservam aqui, por que tanta miséria, por que as pessoas não se beijam cantando canções alegres, não dão de comer ao bebê?” Sabe que suas perguntas são absurdas, mas não pode impedir-se da fazê-las. Sente-se enternecer, chorar, gostaria de amparar a todas aquelas pessoas sem nada levar em conta, com todo o ardor dos Karamazov. Escuta ainda em sonho a voz de Grucha: “Jamais te deixarei”. Seu coração se abrasa e vibra uma luz longínqua. Quer viver, seguir o caminho da luz que o chama. Desperta e comenta com seus inquisidores que tivera um belo sonho.

 

Levam Mítia preso-  Depois da assinatura do seu depoimento, o juiz leu para Mítia o seu auto de processo e prisão. Permitem-lhe que se despeça de Gruchenhka que se diz “culpada por ter causado a tua perda pelo meu amor”. Mítia faz um breve discurso dizendo: “Quero sofrer e redimir-me pelo sofrimento. Talvez o consiga. Escutem-me pela derradeira vez, eu não matei meu pai. Aceito o castigo não por havê-lo matado, mas por ter querido matá-lo e talvez, o tivesse mesmo feito”.

Ao ser conduzido ninguém mais dele se despede, mesmo aqueles que tanto o bajulavam quando dele podiam extrair algum dinheiro. Somente o jovem Kolganov, parente de Miusov, o faz e depois chora como uma criança, por acreditar na inocência de Dimitri. “Que podem valer as pessoas depois disso? Será que viver vale à pena?”

 

 

Quarta Parte

Livro X- Morte de Iliucha

Kólia Krasotkin-  A casa da viúva Krasotkin é pequena, limpa por dentro e por fora (uma excessão nas casas de Dostoievski, era uma residência luminosa). A moça ainda é jovem e a vida que leva é modesta e digna. Desde a morte prematura do marido consagrara-se ao filho, Kólia, a quem amava cegamente. Quando Kólia entrou para o ginásio, a mãe pôs-se a estudar todas as matérias curriculares para auxiliá-lo nos estudos; além disso, adulou seus professores e colegas para facilitar-lhe a vida. Em virtude disso, o menino era chamado de “o queridinho da mamãe”. Mas aquele jovem tinha espírito e logo passou a se fazer respeitar por si mesmo. Desde o início do ginásio fora um bom aluno, forte, esperto e de espírito audacioso e empreendedor. Embora afetando certo grau de superioridade não era orgulhoso. Com o tempo, como seu pai deixara-lhe uma boa biblioteca, adquiriu o hábito de ler, o que lhe roubava o tempo que poderia dedicar a brincadeiras.

Cheio de amor-próprio, de certa forma exercia um comportamento despótico junto à mãe, que tudo suportaria, exceto a ideia de que pudesse não a amar. Certa vez foram mãe e filho passar alguns dias com uma parenta, cujo marido era ferroviário. Kólia levado pelo amor-próprio e por sua temeridade, calculou que se ficasse imóvel entre os trilhos do trem deitado, o mesmo passaria sem feri-lo. Dito e feito, apostou com seus amigos que o faria e fez. Depois que o trem passou seus amigos acorreram a socorrê-lo pois ele não se mexia. Estava incólume, mas havia desmaiado de medo e somente sua mãe tomaria conhecimento desse fato. Acontece que o acontecimento ganhou enorme divulgação; a viúva fez de tudo para que as autoridades escolares não punissem o jovem intimorato. O professor Dardanielov apoiou-a e foi o suficiente para que Kólia não fosse punido.

Ora, Dardanielov era apaixonado pela viúva a quem já havia pedido, no passado, a mão. Acontece que o professor não lhe sendo nada indiferente, ela o recusou, pois “temia que um novo casamento pudesse constituir uma traição a Kólia”. Este, por seu lado, ao perceber as intenções do professor, passara a desprezá-lo. O incidente do desafio do trem e a sua posterior defesa por Dardanielov, melhorou sua aceitação pelo rapaz.

Kólia possuia um enorme cachorro a quem batizara Carrilhão. Ele o achara na rua e o trouxera para casa, isso há mais ou menos um mês. O cachorro era muito esperto, adorava seu dono e atendia a diversos comandos que esse lhe ensinara.

Finalmente, Kólia era o menino a quem o jovem Iliucha, o filho do capitão Snieguiriof, havia ferido com um canivete.

 

Gente miúda-   A viúva Krasotkin alugara um quarto de sua casa para um casal com dois filhos. O marido da inquilina viajara e há dois meses não mandava nenhuma mensagem. As duas mulheres fizeram-se amigas e justamente nesse dia, a única empregada da casa, que estava grávida, fora levada à parteira pelas senhoras. Kólia, então, tomou a seu cargo as crianças, mesmo tendo um importante compromisso a cumprir. Acontecesse que ele gostava muito dos pequenos e, além de servir de montaria para os fedelhos, trouxera um livro infantil para ler-lhes. Também Carrilhão, que, diga-se de passagem, era cego de um olho e tinha uma orelha cortada também cumpria sua parcela de responsabilidade no entretenimento infantil. Caminhava sob as patas trazeiras, deitava de costas sem se mexer fingindo-se de morto. Por sorte, surge uma senhora para substituí-lo e ele pode sair, com muito atraso, para seu compromisso.

 

O colegial-  Assim que chegou à rua, localizou o amigo Smúrov, aquele mesmo garoto que atirava pedras em Iliucha, quando de seu encontro com Aliocha. E seguem os três, Kólia, Smúrov e Carrilhão o mesmo caminho. “Pena que não seja Besouro”, diz Smúrov, apontando para Carrilhão. “Besouro desapareceu”, retruca o amigo. “Mas são parecidos, não poderias dizer que é ele?” “Colegial, evita a mentira, mesmo que seja por um bom fim”, retruca Kólia. “Notaste como os cães se farejam quando se encontram? É uma lei da natureza. Nela nada há de ridículo apesar do que pense o homem com seus preconceitos. Se os cães pudessem raciocinar e criticar encontrariam muito mais tolices nas relações humanas que na relação entre eles”.

E confessa em sua ingênua ardorosidade: “Eu sou socialista”. Smúrov pergunta-lhe sobre o que seria ser socialista, ao que o Kólia responde: “É quando todos são iguais, têm uma opinião em comum, não há casamentos, sendo a religião e as leis como convém a cada um”.

O caminho do trio é a casa de Iliucha, cuja tísica levou o Dr. Herzenstube prognosticar sua morte para dali a uma semana. O responsável por aquela visita assim como a de todos os outros colegas ao enfermo fora Alieksei Karamazov, cujo irmão seria julgado por homicídio no dia seguinte. Quando chegam à casa, Kólia pede que ainda não seja anunciado ao enfermo, pois gostaria de conversar antes com Aliocha, fora da casa.

 

Besouro-  Kólia ardia de desejo de conhecer o mais novo dos Karamazovi. A aparência de Aliocha, dado que abandonara a batina, ganhara muito com a mudança. Seu rosto gentil irradiava sempre uma alegria doce e tranquila e cumprimentando o colegial lhe diz: “Nós o esperávamos com impaciência… Iliucha lembrou-se muitas vezes em seu delírio; ele gostava muito de ti antes do incidente com o canivete. Esse cachorro é o Besouro? ”.

“Não, esse é  Carrilhão”, responde Kólia, que a seguir comenta a respeito de Iliucha, dois graus abaixo dele no colégio, rapazinho raquítico mas que não se submete, orgulhoso, sempre mal vestido. Essas por si seriam razões suficientes para que fosse humilhado pelos colegas e, por isso, Kólia colocara-o sob sua proteção e resolvera “educá-lo”. “Eu gosto muito de garotinhos; tenho agora dois em minha casa sob minha proteção”. Relata a seguir a enorme agitação do “pupilo”, pois Smerdiakov ensinara-lhe uma brincadeira estúpida: fazer uma bolinha de pão com um alfinete dentro e atirá-la aos cães. Besouro era um cão abandonado, esfomeado. Após fazerem isso com o pobre animal, ele corria gemendo de dor. Iliucha tinha remorsos pois sabia que realizara uma ação vil, mas para que ele aprendesse a lição, Kólia rompera com suas relações. Logo a seguir ocorrera o incidente entre Mítia e o pai de Iliucha. Vendo que Kólia o abandonava, os meninos começaram a chamá-lo “escovão de tília”, uma forma de sempre avivar-lhe a humilhação. “Teve uma vez em que ele apanhou muito, senti por ele compaixão e aproximei-me; mas vendo-me, agrediu-me com um canivete e fugiu chorando”.

Aliocha diz que o enfermo acredita estar sendo punido pela morte de Besouro e por esse motivo todos os meninos buscavam, inutilmente, pelo pobre animal. Kólia confessa-lhe que somente não viera antes porque tinha que treinar Carrilhão.

Kólia tem uma questão que o engasga: afinal que tipo de homem era o pai do doente? Aliocha lhe aclara: “Há pessoas de alma sensível, mas que vivem como que esmagadas. A palhaçada é uma espécie de ironia malévola para com aqueles a quem não se ousa dizer a verdade na cara, em consequência da própria humilhação e timidez. Creia-me que semelhante palhaçada é às vezes das mais trágicas. E Iliucha é tudo para ele”.

À cabeceira de Iliucha-  O menino já não conseguia deixar o leito sem a ajuda do pai, que parara de beber para estar sempre próximo a ele. O que o distraia e alegrava o final da vida era a visita constante de seus colegas.

O capitão, por seu lado, tal como Aliocha previra, terminara aceitando a ajuda financeira de Katierina. E, desde então, comidas e gulodices não faltavam. Além disso, Katie pagara a vinda de um médico tido como sumidade em Moscou para tratar o menino.

Mas a questão do Besouro persistia; o pai dera-lhe um belo cãozinho de presente mas ele não “era Besouro”. Quando Iliocha e Kólia se encontraram uma grande emoção envolveu todo o ambiente, à qual somente não foi compartilhada pela mãe imbecilizada. Logo em seguida, Kólia assovia e entra Carrilhão. “Teu Besouro desapareceu”, diz Kólia, dado que “não mentia às crianças”. “Em troca trago Carrilhão e é para ti”. E Carrilhão entra na peça elegantemente, nas duas patas traseiras. Chorando, o pobre Iliucha exclama: “Mas é Besouro!” Imediatamente Kólia faz-lhe o jogo: “Quem pensavas que era? Olhe um olho cego e a orelha cortada. Ele não deve ter engolido tua bolinha ou teria morrido”. Além de Carrilhão ele trouxera para o amigo um pequeno canhãozinho que disparava com pólvora seca. O capitão, antigo militar, preparou-o e ele deu um tiro. Foi o maior sucesso e a idiota da mãe de Iliucha pede para si o brinquedo, no que é atendida pelo bom filho.

A conversa à cabeceira do enfermo é interrompida pela chegada do médico de Moscou que, mesmo regiamente pago por Katie, titubeia antes de entrar em local tão pobre. Somente após olhar a todos e a tudo com enorme asco, perguntou pelo paciente.

 

Desenvolvimento precoce- Todos saem para que o exame médico seja realizado. Para Kólia, todos os médicos são, de uma forma ou de outra, charlatães. Como um adolescente com hábito de leitura, ele possui um conhecimento que, mesmo superficial, extende-se sobre quase todos os assuntos. Dizia-se socialista e quando Aliocha pergunta-lhe a respeito de Deus, responde que “nada tinha contra Deus”, sendo ele apenas uma hipótese, mas uma hipótese necessária à ordem do mundo e, parafraseando Voltaire, “se Deus não existisse seria necessário inventá-lo”. “Pode-se amar a humanidade sem crer em Deus; Voltaire não acreditava e a amava”.

Aliocha responde-lhe que Voltaire acreditava em Deus fracamente e amava a humanidade da mesma maneira e que se admira de ele, aos quatorze anos, já ter condições de se dizer socilaista e conclui: “quando for mais idoso verá a influência da idade sobre as ideias”. Tergiversam ainda sobre literatura e filosofia, quando Aliocha antevê que Kólia será muito infeliz na vida, mas que, afinal, a abençoará. Responde-lhe o jovem: “Nós nos entenderemos e o que mais me encanta é que o senhor me trata como um igual”.

 

Iliucha-  O doutor saíra da habitação com ar irritado e com receio de sujar a sua indumentária. O capitão corre atrás dele, sempre com deferências, e implorando por um prognóstico de esperança. “Preparem-se para tudo”, diz ele e, cinicamente, sugere ao pobre homem que “envie o paciente para Siracusa e a mulher para o Cáucaso e depois, Paris, para uma clínica de alienistas”. Como o médico olhasse com certo receio para Carrilhão, Kólia lhe diz “Não tenhas receio curandeiro, ele não te morderá”. O médico quer saber quem seria o jovem “e que deve ser açoitado”, ao que Kólia responde para forçá-lo a se despachar: “Mas saibas que se eu ordenar, Carrilhão poderá mordê-te, curandeiro”. O médico foge praguejando e Iliucha abraça-se ao pai e a Kólia. Sabe que irá morrer, mas preocupa-se em consolar ao pai. Este, longe do leito, repete uma passagem bíblica: “Se eu esquecer-me de ti, Israel, poderei ser fulminado”.

 

 Livro XI- Ivan Karamazov

Em casa de Gruchenhka- Passaram-se dois meses desde a prisão de Dimitri. Gruchenhka que se restabelecia de uma enfermidade, emagrecera e mudara muito, mas Aliocha se admira de que ela, apesar de tudo, mantinha a alegria de outrora. Nos seus olhos altivos brilhava doçura, que era ofuscada pelo ódio quando pronunciava-se o nome de Katie, mas Aliocha o avaliava apenas como fruto do ciúme. Em sua casa, a moça agora abrigava um pobre velho, Maksímov, que se encarregara também de sustentar. Em relação ao seu antigo protetor, Samsonov, que estava nas últimas e lhe proibira qualquer visita, ela se interessava pelo seu padecer.

A mais uma pessoa Grucha amparava com seu dinheiro, ao polonês, ele que já fora “o primeiro” e por quem Dimitri passara, agora, a ter ciúme. “O que me ofende não é o ciúme dele, o contrário teria me ofendido. Eu admito o ciúme, sendo eu mesma ciumenta.” O que a atormenta é o amor dele por Katie: “Ele a ama e ela pagou a vinda de um advogado de Moscou para o julgamento”. “Ele não a ama”, assegura-lhe Aliocha, “e quem pagou a vinda do advogado fomos nós três, eu, Ivan e Katie, sendo que o mesmo cobrou somente 2.000 rublos, mesmo porque todos os jornais russos falaram sobre o caso. O que Katie pagou, isso sim, foi um médico de Moscou, que dirá no julgamento que Mítia matou num acesso de demência, mas meu Mítia não permitirá isto”.

Por meio dela, Aliocha vem a saber que Ivan e Dimitri se encontram na prisão e que existe algum segredo entre eles, a qual Grucha não conhece, mas deseja ardentemente conhecer.

 

O pé doente- A sra. Khokhlakova estava com o pé inflamado e, apesar dos emplastos e almofadas, colocava-se de modo cada vez mais faceiro e, observara-o Aliocha, isso coincidia com as frequentes visitas do funcionário Pierkhtin,  que a conhecera quando buscava uma origem para o dinheiro que Mítia exibia na noite fatídica.

Pela primeira vez, Dostoievski nomeia a cidadezinha onde todos os eventos ocorrem: Skotoprigonievski, que na acepção dos termos significa “cidade depósito de animais”.

 A viúva queria mostrar a Aliocha um artigo jornalístico que a denegria, escrito por Rakitin e motivado pelo ciúme e despeito por Pierkhtin, que estava a roubar-lhe uma rica e bela presa. Além disso ela estava muito nervosa, pois sua filha Lisa desistira de casar-se com ele, Aliocha, tendo já, por duas vezes se entrevistado com Ivan.

 

Um diabinho-  Lisa diz claramente ao moço que o ama, mas que não o respeita por ele não possuir as reações normais de amor e ciúme. “Eu quero que alguém me faça sofrer, que case comigo, depois me torture, engane e abandone. Não quero ser feliz”. Aliocha indaga-lhe se havia se apaixonado pelo caos, pela desordem, ao que ela responde acertivamente. “Talvez porque vives na riqueza, no esbanjamento”, ao que a moça retruca: “Eu penso muitas vezes em fazer o mal, coisas vis, às ocultas e que, de repente todos ficarão sabendo”. “Há momentos em que o homem ama o crime”, responde-lhe Aliocha. “Há como que uma convenção geral da mentira…Pretendem odiar o mal e todos o amam dentro de si mesmos”.

Afinal pede-lhe, em surdina, para que a mãe não a ouça, que entregue um bilhete a seu irmão Ivan. Quando o jovem aceita o encargo e sai, Lisa coloca o dedo contra o batente de uma porta e a fecha até que o sangue saia. Seus lábios tremiam quando balbuciou: “Miserável!”

 

O hino e o segredo-  Na noite anterior ao julgamento de Dimitri, Aliocha visita-o:  “Amanhã será um dia terrível para ti. Vai se cumprir o julgamento de Deus…” Responde-lhe o irmão: “Senti nascer em mim, desde minha prisão, um novo ser, um homem que ressuscitou! Ele já  existia em mim, mas nunca teria se revelado se um raio não o atingisse…que me importa cavar vinte anos nas minas? Meu medo é que esse homem ressuscitado se retire de mim. Irei por causa do neném ( aquele que o visitara no sonho), porque todos são culpados perante todos. Todos são nenéns, há crianças grandes e pequenas, é preciso que alguém se devote por elas. Não matei meu pai mas aceito a expiação. Estaremos acorrentados, privados da liberdade, mas em nossa dor ressuscitaremos para a alegria, sem a qual o homem não pode viver e nem Deus existir, porque é ele quem a dá… um forçado não pode passar sem Deus, ainda menos que um homem livre. E então, nós, os homens do subterrâneo, cantaremos das entranhas da terra um Hino Trágico ao Deus da Alegria!” “Pode até acontecer que eu nada diga no Tribunal…com a força que encontro em mim, creio-me em condições de dominar todos os sofrimentos desde que eu possa dizer: eu existo !”

Conversam sobre o irmão e Mítia diz que Ivan oculta seus pensamentos, cala-se. “Deus me atormenta e eu só penso nisso, pois o que fazer se Deus não existe? Rakitin diz que ele é uma ideia forjada pela humanidade. Nesse caso o homem seria o rei da terra e do universo. Mas como o homem poderá ser virtuoso sem Deus? Quem amará o homem então? Rakitin diz que se pode amar a humanidade sem amar a Deus.”

Logo o enfoque da conversa muda. Referindo-se ao fato de ter feito Gruchenhka sofrer por causa de seus novos ciúmes “indevidos” pelo “polonês”, Mítia aconselha o irmão: “Jamais peças perdão à mulher amada, pois a mulher, meu irmão, quem diabo sabe o que ela é? Se tentar reconhecer os teus erros, sofrerás uma saraivada de censuras, jamais terás um perdão franco, simples; ela começará por te humilhar, envilecer, censurar-te os agravos imaginários, e, só então, perdoar”.

Aliocha viera também para conhecer o tal segredo de que lhe falara Grucha e Mítia lhe diz que coloca em suas mãos a decisão sobre realizar ou não a ação. Ivan propôs-lhe a fuga para a América, juntamente com Gruchenhka. O plano já estaria estabelecido e pessoas-chave contatadas. O custo da fuga seria de 10.000 rublos. Imediatamente Mítia receberia mais 10.000 e 20.000 quando estivesse na América. Ivan pedira que não falasse a ninguém sobre o plano, sobretudo ao irmão mais novo, “pois ele tem medo que sejas minha consciência viva”. Aliocha responde: “Você mesmo decidirá após o julgamento”. Ao se abraçarem Mítia diz que Ivan propõe-lhe a fuga, mas tem a certeza de que ele é o assassino. Quer saber a opinião de Aliocha: “Jamais acreditei por um só instante de que fosses o assassino”. “Irmão, restituiste-me a vida”, conclui Mítia.

 

Não foste tu!-  A caminho da casa de Ivan, Aliocha passa antes pela de Katierina, encontrando o irmão de saída e, a pedido de Katie, os dois entram na residência. O mais jovem dos Karamazov vê nos olhos da moça um clarão de maldade, que até a torna ainda mais bela. Em toda a sua agitação ela lhe diz: “Eu não me conheço… é possível que amanhã, depois do interrogatório, tu venhas a me detestar…pois a mulher nem sempre é leal; mas será Dimitri um assassino?” E, dirigindo-se a Ivan: “Tu me convenceste de que ele é um parricida”. Ivan, irritadíssimo, sai e Katie pede que o irmão o acompanhe pois ele “estaria enlouquecido”. Aliocha entrega ao irmão o bilhete de Lisa que Ivan rasga sem ao menos lê-lo e comenta: “Ela se oferece”, pois a moça tenta, sem o conseguir, espicaçar o ciúme de Aliocha a quem verdadeiramente ama, sentimento que o moço é incapaz de sentir.

O que o enlouquece Ivan é não saber se no dia seguinte Katie aparecerá para salvar ou perder Mítia. “Irmão, ela te ama”, tenta ampará-lo Aliocha, ao que ele retruca: “Ela não me agrada, mas só posso romper depois do julgamento ou ela porá a perder aquele desgraçado, porque ela o odeia e tem consciência disso. Aqui é mentira sobre mentira! Enquanto ela tiver esperança não botará a perder aquele monstro, sabendo que eu quero salvá-lo!”

As palavras assassino e monstro impressionaram dolorosamente Aliocha. Então Ivan fala para o irmão a respeito de uma carta escrita por Mítia, um dia antes do assassinato dizendo, que iria perpetrá-lo, e que Katie a possui em suas mãos. Apesar da carta, Aliocha diz ao irmão: “Não foste tu!” Ivan olha para o irmão e contesta-lhe: “Desde quando eu disse que fora eu? Eu não o matei”. “Mas tu acusa-te o tempo todo do  assassinato, mas não és tu! É Deus quem me envia para dizer-te.” Ivan olha novamente para o irmão e diz: “Alieksei, não gosto de epiléticos e nem de enviados divinos. Desde agora rompo contigo”.

 

Primeira entrevista com Smerdiakov-  Ao se despedir do irmão, Ivan decide buscar Smerdiakov. Seria a terceira vez que ia até ele desde seu retorno de Moscou.  Vira-o então pela primeira vez; as duas vezes subsequentes ocorreram no hospital onde aquele estava internado para tratamento.

Apesar de todas as testemunhas e evidências do caso apontarem para Dimitri, Ivan sabia perfeitamente que Aliocha desde sempre considerava o filho bastardo como o assassino do pai. Ivan por seu lado, não gostava de Mítia, pois somara à aversão o desprezo, que, por outro lado, se mesclava  com  compaixão. Quanto ao amor de Katie pelo irmão, este o indignava e, ao fim e ao cabo, para ele, Mítia realmente era o assassino.

Recordava-se da primeira visita que realizara a Smerdiakov no hospital. Questionara-o sobre a sua previsão de que teria um ataque epilético no dia fatídico. Assim também o fato de que lhe havia recomendado ir para Tchermachniá para “afastar-se do pecado”. Smerdiakov respondera-lhe que simplesmente sugerira que ele não se afastasse demais, indo para Moscou, para proteger o pai. De todo modo o bastardo possuia todas as respostas prontas, de modo a incriminar Dimitri no assassinato. Mas Ivan, que quase chegara a acreditar no que esse lhe dizia, recordava-se da despedida em que “o eunuco” piscara-lhe o olho e dissera-lhe: “Dá gosto conversar com um homem de espírito”. “Eis porque mentes, estavas feliz com minha partida”. Smerdiakov nega e lhe diz que “era apenas uma forma de se tranquilizar”.  Pese a tudo, Ivan possuía o juízo de Aliocha em grande conta, incriminando Smerdiakov.

Posteriomente à visita, Ivan conversara com o doutor Herzenstube e esse confidenciou-lhe que Smerdiakov agora estava aprendendo francês, talvez por alguma perturbação mental.

Nesses dias outra coisa guiava-lhe o raciocínio. Desde seu retorno de Moscou, o moço dera-se conta de estar loucamente apaixonado por Katie. Aliás, amava-a e odiava-a por vezes, a ponto de ser capaz até mesmo de matá-la, porque ela ainda estava presa a Mítia, “não desejando traí-lo” e não se entregara totalmente ao amor por ele. A isso tudo Ivan chamava de mentira sobre mentira.

Num outro dia, Ivan ocasionalmente encontrou-se com Aliocha que o interrogou sobre a expressão que certa vez utilizara: “Que desejava que os répteis se devorassem mutuamente”. Referia-se claramente ao desejo pela morte do pai. Foi no dia seguinte que ocorreu a segunda visita ao bastardo.

 

Segunda entrevista com Smerdiakov- Smerdiakov já deixara o hospital, estando para Ivan totalmente reestabelecido e também um pouco mudado; ganhara óculos e um olhar malévolo e orgulhoso. Ivan interroga-o a respeito da conversa que haviam tido no portão, no dia de sua partida da casa do pai. “Era alguma ameaça ou existia algum acordo entre nós?”

Ao que o outro responde: “O senhor mesmo desejava a morte de seu pai, esse é o significado. Eu o sondava…O senhor não era capaz de matá-lo pessoalmente mas desejava que outro o fizesse.” Ivan interroga-o sobre o motivo que teria para assassinar o pai. “Pela herança, antes que Gruchenhka transferisse o capital para o seu nome. Sendo seu irmão o assassino, aí, então, o senhor herdaria muito mais”. Ivan o desafia: “Se eu tivesse que contar com alguém para essa infâmia, seria contigo”. “Eu o sabia e se o senhor partia isso queria dizer: podes matá-lo, não me oponho”.

A seguir Ivan o questiona sobre o aprendizado de francês ao que o outro responde que pensa algum dia visitar Paris. “Eu suspeito de ti como assassino e se não te mato é porque te denunciarei à polícia”. Mas Smerdiakov não expressa receio pois “não há nada que me comprometa”.

Após entrevistá-lo, Ivan foi à casa de Katie e disse à amiga: “Não foi Dimitri o assassino mas Smerdiakov, sou seu cúmplice por não haver impedido o crime. Cheguei mesmo a impeli-lo? Não sei…” Para acalmá-lo Katie mostrou-lhe a tal carta que lhe escrevera Dimitri, quando bêbado no bar Capital, depois da cena em que Gruchenhka a insultara em sua própria casa. A carta era logicamente incoerente, prolixa, escrita no papel de contas a pagar do botequim.

Dizia mais ou menos o que segue: “Katie, amanhã arranjarei os 3.000 rublos; adeus mulher rancorosa, adeus também meu amor! E se ninguém me der o dinheiro irei à casa de meu pai, quebrar-lhe-ei a cabeça e me apoderarei do dinheiro debaixo do travesseiro, contanto que Ivan tenha partido…Katie não me desprezes. Dimitri é um assassino, não um ladrão! Matou o seu pai e se perdeu para não ter que suportar o teu orgulho. E para não te amar! Roga a Deus para que me deem o dinheiro e, então, não derramarei sangue. Teu escravo e teu inimigo, Dimitri Karamazov.”Após ler essa carta Ivan convenceu-se de que o assassino fora realmente o seu irmão.

A partir dessa cena, passara-se um mês e o médico dizia que Smerdiakov estava ficando louco. Mesmo com toda a aversão que sentia por Dimitri, Ivan, dez dias antes do julgamento, começara a preparar a fuga do irmão, uma vez condenado. É até mesmo possível que quisesse com isso afastar de sua consciência a hipótese levantada por Smerdiakov aventada relativa ao aumento da herança.

Quando Ivan decidiu novamente procurar Smerdiakov, obedecia a uma indignação, pois Katierina dissera na sua frente a Aliocha que fora ele quem a persuadira de ser o irmão o culpado, ao invés do bilhete que estava em sua posse. E, quando soube que a moça o visitara, queria saber o porquê .

 

Terceira e última entrevista com Smerdiakov- A caminho, um mujique bêbado que ziguezagueava, esbarrou-lhe. Num ímpeto de ódio, Ivan sentiu vontade de matá-lo. Empurrou-o e o bêbado caiu de face na neve. Disse “vai gelar”e seguiu para a isbá onde vivia Maria, a antiga vizinha da casa de seu pai e que abrigava Smerdiakov. Maria disse-lhe ao chegar que o inquilino parecia-lhe fora de juízo apesar de demonstrar calma.

A entrevista se dá a sós em um quarto abafado e forrado por papéis, onde se escutava as baratas caminharem por baixo. Smerdiakov diz a Ivan que ele nada tem a temer no julgamento e acusando-o pela autoria intelectual do crime, assume sua autoria material: “O senhor matou, é o principal assassino; eu não fui senão seu instrumento. O senhor sugeriu, eu realizei”. “Mentes”, diz Karamazov. Nesse momento o antigo cozinheiro tira de sua meia um maço de dinheiro e o deposita na mesa. “Está tudo aí, os 3.000 rublos”. Ivan tombou lívido como linho em sua cadeira. “Então realmente não sabias?”, pergunta-lhe o assassino. “E tu o mataste só, sem o Dimitri?” Smerdiakov o mira e diz:”Só, mas com o senhor. O senhor era tão atrevido, tudo era permitido e agora treme?”

A seguir o assassino narra como tudo realmente ocorrera, desde o simulacro da crise epilética. Ele esperava que Dimitri  viesse pois estava sem notícias suas; contava com que ele matasse o pai, mas sabia que não levaria o dinheiro, pois mentira sobre sua localização debaixo do travesseiro. Depois que o filho matasse o pai, ele entraria e roubaria. Contava com que a partida de Ivan fosse a chave para sua ação e, ademais, este já não necessitaria dos 3.000 rublos, pois com a exclusão de Dimitri da herança, o que aconteceria sendo ele condenado, teria mais de 80.000 rublos seus. E continua em sua narrativa. Está deitado e ouve tanto os gritos de Fiodor quanto os de Grigori, depois, silêncio. Sai, vê a janela aberta, aproxima-se e diz a Fiodor Karamazov que Gruchenhka chegara, mas que se escondera; que Dimitri partira após “matar” Grigori. O velho Fiodor ainda vacila e Smerdiakov faz o sinal combinado na porta, que ele abre e deixa-o entrar. Vai até a janela para chamar pela amada que crê estar escondida e é quando, com um peso de papel, Smerdiakov esmaga-lhe o crânio. Rapidamente lava o peso, busca o envelope com dinheiro escondido atrás de um ícone e deixa no chão apenas o envelope. A seguir, um tronco oco torna-se o receptáculo provisório para o fruto do latrocínio. Volta para a cama e põe-se a gemer até que Marfa desperte. Seu objetivo com o dinheiro era viver em Moscou ou no exterior.

Ivan levanta-se e diz que no dia seguinte iriam ao julgamento e que, juntos, diriam a verdade. Antes de partir, recolhe o dinheiro, sua “única prova da inocência do irmão”. Smerdiakov duvida que Ivan se denuncie, pois o crê “demasiadamente inteligente e que ama o dinheiro, sendo orgulhoso e doido pelo belo sexo. De todos os filhos de Fiodor Karamazov, o senhor é o que mais se o assemelha, é a mesma alma”. Ivan lhe diz: “E pensar que acreditava que fosses só um tolo”.

No seu caminho de volta Ivan reencontra o bêbado a gelar. Tomou-o nos ombros e mandou-o a um médico, salvando-lhe a vida. “Se eu não tivesse tomado uma decisão firme para amanhã não teria socorrido o bêbado”. Ao chegar à sua casa pressentiu uma estranha presença; sentia que delirava e que alguma coisa no sofá que estava à sua frente o irritava.

 

O diabo, uma alucinação de Ivan Karamazov- Ivan estava na iminência de uma crise nervosa. Frente aos conselhos médicos para que se tratasse, dizia: “tenho ainda forças para andar; quando eu cair tratará de mim quem quiser”.

Em seu delírio viu que no sofá sentara-se um senhor de fisionomia afável, por volta dos cincoenta anos, cabelo grisalho e longo, barba em ponta, trajando uma idumentária surrada e fora de moda. Dirige-se ao anfitrião: “Foste à casa de Smerdiakov para informar-te sobre Katierina e vieste embora sem nada saber”. Era Ivan quem deveria lembrar-se disso, “mas bastou que aparecesses para que eu acredite que a sugestão partiu de ti”. “A fé não se impõe”, diz o cavalheiro, “nesse domínio as provas materiais são ineficazes. Tomé acreditou porque quis acreditar e não por ter visto o Ressuscitado”. “Os espíritas buscam provas da existência de outro mundo. Ora, o outro mundo demonstrado materialmente! Que ideia!”

Ivan: “Hoje já não me exasperarás com antes. Conta o que quiseres, não me importa. Por vezes deixo de ver-te, ouvir-te, mas advinho o que queres dizer pois sou eu quem fala e não tu”. Levanta-se da cadeira e utiliza um guardanapo que molha e coloca na testa. “Se não podes ir, invente ao menos algo engraçado, pois não passas de um parasita. Mas não te temo e não me internarão…és uma alucinação, mas não sei como desembaraçar-me de ti, pois és uma parte de mim… de meus pensamentos mais sórdidos, mais vis”.

“Começas a tomar-me por um ser real e não como produto de tua imaginação, como o sustentavas da última vez. Há pouco tempo não questionaste Aliocha? Portanto acreditas em minha existência…É verdade que estás mais amável que na última vez. Deve ser a tua decisão de te sacrificares, defender teu irmão…” Ao que lhe responde nosso enfermo: “Tu escolhes os meus pensamentos mais estúpidos…és besta e vulgar. Que fazer, que fazer?”

“Meu amigo”, retorna a visão, “quero permanecer um cavalheiro e ser tratado como tal. Geralmente se admite que eu seja um anjo caído, mas gosto sinceramente dos homens, pese haverem-me caluniado muito. Quando me transporto para a terra ganho um aspecto de realidade e isto me agrada. Porque o fantástico me atormenta como a ti mesmo, aprecio o realismo terrestre. Entre vocês tudo é definido, matemático, mas entre nós só existem equações indeterminadas! Meu sonho é encarnar-me definitivamente, ter todas as suas crenças, hábitos e doenças…Sendo Satanás, nada do que é humano me é alheio”.

“Teu fim é persuardir-me de que existes e eis que tu mesmo te pretendes um sonho”, questiona Ivan.

“Meu amigo”, diz o velhote, “só existe o espírito. Por uma questão de decreto inexplicável tenho a missão de “negar” e, no entanto, sou visceralmente bom e inapto para a negação…mas sem negativas não há críticas…pois bem, como não fui eu que inventou a crítica, tenho é servido de bode expiatório. Cumpro minha missão, a contragosto, para suscitar acontecimentos e realizo o irracional, cumprindo ordens. Mas as pessoas levam essa comédia a sério, malgrado todo o seu espírito. Para elas é uma tragédia, sofrem, mas em compensação vivem uma vida real, pois o sofrimento já é vida. Sem o sofrimento que prazer ela teria? Seria um “Te Deum” interminável, santo sem dúvida, mas muito tedioso. Eu sofro e, no entanto, não vivo. Sou uma incógnita, o espectro da vida, que perdeu a noção das coisas, esquecendo até mesmo meu nome”.

“Também tu não crê em Deus”, afirma Ivan. “Ora, meu amigo, Deus é testemunha de que não sei de nada que não tenho nada a te dizer de melhor. Deus e o próprio Satã, tudo isso não me é provado. Afinal eles têm uma existência própria ou serão apenas uma emanação de mim, o desenvolvimento sucessivo de meu “eu” que existe pessoal e temporalmente?...veja que tudo o que existe entre vocês existe também entre nós e te revelo esse mistério por amizade, se bem que seja proibido”.

“Vou te falar de uma lenda sobre o paraíso. Havia na terra um filósofo que tudo negava, sobretudo a vida divina. Morreu pensando entrar no nada e ei-lo que se encontra “na vida futura”. “É contrário às minhas convicções, pensa”. Foi, então, condenado a percorrer nas trevas um quaquilhão de quilômetros, sabendo que ao terminar as portas do paraíso estariam abertas para ele”.

“E que outros tormentos há no outro mundo além do quaquilhão?”, pergunta-lhe Ivan. “Outrora havia-os para todos os gostos”, responde a visão, “agora funciona muito mais o sistema de torturas morais, os remorsos da consciência, como os chamam…devemos isso à doçura dos costumes de vocês. E quem tira proveito disso? Somente os que não têm consciência e que zombam dos remorsos. Já as pessoas decentes, que conservam o sentimento de honra, essas sofrem.”

“Peguei-te”, exclama Ivan, “essa lenda dos quaquilhões eu a inventei no ginásio. És meu produto”.

“Não, pelo contrário, fui eu a pegar-te. Contei essa história apenas para enganar-te. O conflito entre a fé e a dúvida constitui tal sofrer para um homem escrupuloso que mais vale se enforcar. Conduzo-te entre a fé e a incredulidade com o fito de depositar em ti um minúsculo germe de fé, que dará nascimento a um carvalho e terminará por te fazer um anacoreta… Vou contar-te outra anedota: uma jovem normanda chega à casa de um velho padre. Ajoelha-se e conta o seu pecado ao que o padre retruca: mas minha filha, você voltou a recorrer no pecado, não tem vergonha? Ela responde: mas padre, causou-lhe tanto prazer e a mim tão pouco trabalho! É o grito da natureza Ivan, que vale mais que a inocência. Dei-lhe a absolvição e, ao sair, ouvi que o padre marcava um encontro com a pecadora”.

E segue dizendo: “Não exijas de mim o grande e o belo e seremos bons amigos…Sou talvez o único ser no mundo que ama a verdade e quer, sinceramente, o bem. Estava presente quando o Verbo foi crucificado e ouvi os cantos angelicais de “hossana” e juro que quis a eles juntar-me. Mas não poderia, dado que tudo no mundo se dissolveria…Na minha opinião, quando se destruir a ideia de Deus no espírito do homem, a antiga concepção de mundo desaparecerá e, sobretudo, a antiga moral. Os homens, então, se unirão para retirar da vida todos os gozos possíveis; o espírito humano se elevará até um orgulho titânico e a humanidade será deificada”.

Ivan atira no diabo um copo de água que estava na mesa e ouve que alguém bate à sua janela. Aliocha o chama. Quando os laços entre ele e “sua aparição” se romperam, Ivan conseguiu abrir a porta. “Não é um sonho. Aconteceu”, fala consigo mesmo. Entretanto, o guardanapo ainda estava seco e dobrado em seu lugar e o copo da mesa estava ainda cheio.

Aliocha vem dizer-lhe que Smerdiakov enforcara-se há uma hora atrás e deixara um bilhete: “Ponho fim aos meus dias voluntariamente, não acusem ninguém por minha morte”.

 

Foi ele quem disse-  Ivan diz para seu irmão que era bom que tivesse vindo vê-lo, “mas eu já sabia que Smerdiakov se enforcara, pois ele me dissera a pouco”. “Ele quem?”, pergunta-lhe Aliocha. “Teve medo de ti, afinal és um querubim”. “Estás doente, meu irmão”, é o que o visitante consegue dizer.

Ivan já não consegue ouvi-lo. “Não foi um sonho, ele estava aqui no sofá. Não é a primeira vez, não são sonhos, mas a realidade. Ele é estúpido meu irmão, muito estúpido…ele me disse: “Vais praticar uma ação por virtude e não és virtuoso, eis o que te atormenta”, e disse mais: “Com Smerdiakov morto, quem te acreditará no Tribunal?” E comenta a última frase da “aparição”: “Que não passo de um porco como Fiodor Karamazov”.

Ao perceber que o irmão perdera o elo com a realidade, Aliocha despiu-o e colocou-o a dormir. Começava a entender a doença do irmão: “Os tormentos duma resolução orgulhosa, uma consciência exaltada”. Ele irá depor, pensava. “Ou Ivan despertará à luz da verdade ou sucumbirá no ódio, vingando-se de si mesmo e dos outros, por ter servido a uma causa na qual não acreditava”.

 

Livro XII- Um erro judiciário

O dia fatídico-  No dia seguinte, às 10:00hs, foi aberta a sessão do júri popular que julgou Dimitri Karamazov. A casa estava lotada com gente local, de Moscou e de Petersburgo. As senhoras formavam metade do público e havia tantos juristas que não se tinha onde colocá-los. Se a simpatia feminina pendia para Mítia, o elemento masculino, era, de certa forma, hostil ao réu.

Com relação à defesa, Fietiukovitch era considerado o maior advogado criminal russo; o público acreditava que ele massacraria o assistente local de promotor público, homem um tanto dado a psicologismos.

O júri por sua vez, era todo masculino, gente simples. Na abertura dos trabalhos foi anunciada a morte de uma testemunha de acusação, Smerdiakov. Mítia não se conteve e proclamou: “Para cão, morte de cão”. Admoestado pelo presidente, foi submetido à pergunta de praxe se reconhecia a sua culpa. “Sou culpado de embriaguez, devassidão e preguiça. Sou inocente da morte de meu pai e inimigo. Não roubei tão pouco. Dimitri Karamazov é um canalha, não um ladrão”.

 

Testemunhos perigosos- Desde o princípio do julgamento todos tomaram consciência da imensa força da acusação e da fragilidade da defesa. As senhoras pensavam: “Ele é culpado, mas irão absolvê-lo”. Já os homens interessavam-se pela luta que Fietiukovitch travaria com o promotor. A primeira testemunha a ser chamada foi o velho Grigori, que repetiu de uma maneira franca o que dissera na fase de instrução, adicionando, entretanto, que Karamazov jamais se interessara pelo filho e nem a partilha da herança fora  justa para com Dimitri.

O próximo a ser interrogado foi Rakitin. Dele muito esperava o promotor pois “de tudo sabia”e sobretudo, “falava”. O defensor, entretanto, cuidou de desmoralizá-lo ao revelar o dinheiro que ele recebera para levar Aliocha até Gruchenhka.

O depoimento do capitão Snieguiriov não prosperou devido ele ter vindo até o Tribunal absolutamente bêbado e esfarrapado.

Trifon, o hospedeiro, convocado pela acusação, também terminou desmoralizado pois subtraíra 100 rublos do acusado durante sua bebedeira, e com os poloneses se passou o mesmo, perante a confrontação de seu depoimento sobre “a venda de Gruchenhka” e o roubo no jogo de cartas, situações perfeitamente arguídas pela defesa.

 

A perícia médica e uma libra de avelã-  O primeiro médico a ser inquirido como perito foi o velho dr. Herzenstube, filantropo, que tratava gratuitamente dos pobres deixando, inclusive, dinheiro para os que necessitavam de remédios. Era, entretanto, uma pessoa mais teimosa que “uma mula”. Ele disse que considerava o réu anormal do ponto de vista mental, tal a maneira como entrara no julgamento.

O segundo médico, aquele vindo de Moscou, discorreu sobre obsessão e mania e, se bem que o acusado tivesse consciência, no caso de ter praticado o crime, poder-se-ia dizer que o realizara quase involuntariamente, sem poder resistir ao ato.

Finalmente, o jovem médico local afirmou que o réu era absolutamente normal; que o nervosismo em que vivia nada tinha a ver com a obsessão que seu colega alegara.

Chamado, agora, não mais como perito, mas como testemunha, o dr. Herzenstube relembrou-se de quando chegara à cidade há mais de vinte anos e tivera pena de uma criança praticamente abandonada, Dimitri. Recorda ter dado uma libra de avelãs, fruta da qual jamais provara. Vinte e três anos após, Dimitri, retornando à cidade, viera agradecer-lhe as avelãs. “És um jovem agradecido, disse-lhe, e choramos quando apertei-o em meus braços”, relata emocionado.

 

A sorte sorri para Mítia- Quem depunha era Aliocha. Ele caracterizou o irmão como um ser violento e arrebatado pelas paixões, mas também nobre, altivo, generoso, capaz até de sacrifícios. “Não foi ele quem matou meu pai, eu vi em seu rosto. E se não foi ele somente poderia ter sido Smerdiakov”. O promotor pergunta-lhe se possui provas. Ele diz que não. Quando interrogado pela defesa, Aliocha lembra-se de algo importante: Mítia, da última vez que o encontrara antes da morte do pai, batia no peito, não na altura do coração, mas um pouco acima, dizendo que possuia a força para escapar a uma vergonha horrenda que o ameaçava, que não ousava confessar. “Ele designava precisamente o amuleto onde costurara os 1.500 rublos. Dizia que poderia pagar exatamente a metade de sua vergonha, mas que a fraqueza de seu caráter o impedia”.

Em sequência, Katierina Ivanovna foi interrogada. Vestida toda de preto, em seu rosto não se descortinava nenhuma emoção, mas uma resolução brilhava em seus olhos sombrios. Ela relatou haver sido noiva do acusado até ser abandonada. Quanto ao dinheiro que dera ao acusado disse que não esperava que ele o enviasse a Moscou imediatamente, talvez dentro de um mês, pois o noivo desse necessitava. Limitava-se, de todos os modos a responder apenas o essencial: “Estava certa de que o noivo enviaria o dinheiro assim que o pai o pagasse”. Disse que jamais Dimitri fizera ameaças ao pai na sua frente e que não poderia ser com ele exigente, pois um dia ela recebera, quando em necessidade, soma muito maior do mesmo. Forçada, terminou por contar todo o episódio, não omitindo sua humilhação de curvar-se perante o tenente Dimitri Karamazov, quando ele entregara-lhe os rublos que salvaram seu pai. Katierina, tão imperiosa e altiva, humilhou-se perante o júri ao relatar o episódio do passado, para salvar aquele que a havia traído e ofendido. Após seu depoimento, esgotada, Katie deixou-se cair no banco e cobriu o rosto com as mãos. Dimitri  grita de seu banco: “Katie, por que causaste minha perda, agora estou condenado!”

No entanto, a partir desses testemunhos, o caso sofreu como que uma reviravolta. O advogado de defesa poderia até mesmo afastar a acusação de roubo.

Seguiu-se o depoimento de Gruchenhka. Ela era uma dessas naturezas altivas, incapazes de suportar o desprezo. Disse: “Tudo isso é culpa minha, zombava do velho e do filho, levei ambos aos extremos. Sou a causa desse drama”. Sobre Samsonov chama-o de “seu benfeitor”, “foi quem me recolheu descalça quando me expulsaram de casa”. Disse que soubera da existência do envelope com dinheiro, mas que jamais iria à casa dos Karamazovi. Soubera dele através do“ lacaio Smerdiakov, que matou seu amo e enforcou-se ontem”. E num ímpeto de ódio, diz que fora Katierina quem perdera o acusado. Conta, inclusive, que ela a chamara até sua casa para seduzi-la, pois “não tem um pingo de vergonha”. Finalmente, ela destrói o que sobrara das incriminações feitas ao réu por Rakitin, ao revelar ser o mesmo seu primo.

O próximo a depor é Ivan Karamazov.

 

Súbita catástrofe-  Ivan avançou para o local das testemunhas com uma lentidão estranha, cabeça baixa. Sacou um maço de dinheiro que carregava no bolso e disse: “É o mesmo que estava no envelope e por causa dele mataram meu pai. Oficial de justiça, onde devo depositá-lo?” A seguir informa ao júri que recebera os 3.000 rublos de Smerdiakov, pouco antes que ele se enforcasse, “pois ele foi o assassino, mas eu o incitei a isso…afinal, quem não deseja a morte do pai?”

Forma-se um alvoroço no plenário. O presidente do julgamento é obrigado a interrompê-lo e pergunta-lhe se está em seu pleno juízo, ao que Ivan responde que “sim, estou no meu juízo…um juízo vil como o vosso, como o de todos esses focinhos que estão aqui!” E voltando-se para o público: “Mataram os seus pais e simulam o terror- fazem caretas uns para os outros, os mentirosos…todos desejam a morte de seus pais, pois um réptil devora o outro e se não houvesse parricídio, zangar-se-iam. Panem et circenses!”

Aliocha levanta-se de seu banco e pede que não deem ouvidos a um doente; por sua vez, Katie levanta-se também, mas lívida de terror e seus olhos se fixam em Ivan. Este continua: “Tranquilizai-vos, não sou louco, apenas um assassino…não tenho testemunhas a não ser que o cão do Smerdiakov envie um documento do outro mundo, num envelope…mas, desculpem-me, talvez eu tenha uma testemunha, mas ele tem cauda! É um diabinho sem importância. Até deve estar por aqui, debaixo de alguma mesa”. E apontando Dimitri: “Prendei-me no lugar dele”. Imediatamente a seguir, Ivan derruba o oficial de justiça que o segurava, mas os guardas acorreram e o puseram para fora do tribunal.

O tumulto tornou-se geral e, antes que a calma se restabelecesse, Katierina teve uma crise de nervos. Gemia e soluçava sem querer retirar-se da plenária e, de repente, gritou para o presidente: “ Tenho algo a dizer…eis uma carta! é uma carta do monstro que está ali”, diz apontando Dimitri. “Foi ele que matou o pai e escreveu-me dizendo que o faria. O outro está doente com febre nervosa”.

Aquela carta foi decisiva no julgamento. Sem ela talvez Mítia não houvesse sido condenado. O Presidente apresentou o documento escrito no papel da conta de um botequim às partes e ao júri. Ao perguntar a Katie se já se restabelecera para dar seu depoimento, ela respondeu vivamente: “estou pronta!” E relata como recebera a carta na véspera do crime. “Ele me odiava então, tendo tido a baixeza de seguir aquela criatura…e também porque me devia 3.000 rublos”. “Três semanas antes de matar o pai veio a minha casa; eu sabia que ele precisava de dinheiro e para que…precisamente para seduzir aquela criatura e levá-la consigo…Como não compreendeu ele que o “envio à minha irmã nada significava”? “Precisas de dinheiro para trair-me: aqui está; sou eu que te dou se tens coragem. Isso dizia o meu olhar, pois queria confundi-lo. Pois bem, ele aceitou o dinheiro e o gastou em uma noite com a criatura…compreendera que eu sabia de tudo e que dava o dinheiro para experimentá-lo e sua infâmia foi aceitá-lo!”

Mítia, do banco dos réus, grita: “É verdade. Desprezai esse desgraçado! ”

Katierina segue: “Essse dinheiro o atormentou; queria devolvê-lo mas não podia. Por isso matou o pai, mas não me restituiu nada, partiu para onde o prenderam. Quando me enviou aquela carta estava convencido de que eu não a mostraria a ninguém. Sabia que eu não queria colocá-lo a perder por vingança! Mas ele premeditou o seu crime. Sóbrio não teria escrito, mas essa carta é uma programação de um assassinato.”

Novamente Mítia se manifesta, a ponto de o presidente ameaçar colocá-lo a ferros. “Nós nos odiávamos por muitas causas, mas juro-te que malgrado meu ódio, eu te amava e tu me amavas.”

Na confusão formada, nem o promotor e muito menos o defensor sabiam por que a moça escondera carta até aquele momento e a questionaram. Katierina: “Ele me desprezava desde que fiz a saudação até o chão por causa do dinheiro que me dera. Julga a todos por si mesmo. Queria casar comigo por causa da minha herança. Estava certo que por toda a vida poderia desprezar-me e dominar-me. Tentei vencê-lo por um amor infinito, queria mesmo esquecer a sua traição, mas ele nada compreendeu!” A seguir ela fala sobre Ivan, que julgava ser o seu melhor amigo. Ele dizia-lhe que se não fosse o irmão que matara o pai, teria sido Smerdiakov e acreditava-se culpado de consciência, “pois Smerdiakov sabia que eu não gostava de meu pai e pensava, talvez, que eu desejasse a sua morte”.

Pois bem, essa era Katierina, a jovem impetuosa que havia corrido à casa do libertino para salvar o pai; que sacrificara o seu pudor, no primeiro depoimento para salvar Dimitri. E agora se sacrificava igualmente por Ivan, imaginando que ele se perdia com o seu depoimento. Ora, ela acreditava que o ingênuo Mítia, que ainda a adorava até então, zombava e desprezava-a. Somente por orgulho ela deixara-se dominar por um amor extremado por ele, talvez por orgulho ferido, e esse amor assemelhava-se à vingança. Mítia a havia ofendido até o fundo da alma com a sua traição e aquela alma não perdoava. De repente, o rancor doloroso acumulado no coração da mulher ofendida, exalara-se de um jato. Tendo entregado Mítia, entregara-se ela própria. Foi necessário que a retirassem do recinto  em crise histérica.

Gruchenhka, de seu local, não resiste : “Aquela víbora te perdeu”. Grita para Mítia.

O espetáculo que antes do depoimento de Ivan parecia ter perdido sua graça, definitivamente voltara a vale à pena de ser assistido.

 

A acusação- caracterização-  Dessa forma iniciou a promotoria sua peroração: “Quem é essa família Karamazov que adquiriu de súbito tão triste celebridade? Ela resume certos aspectos de nossa sociedade contemporânea…vede o velho debochado que acabou tão tristemente. De raça nobre, na vida um mesquinho parasita, quando um casamento imprevisto lhe trás um pequeno capital; a princípio vulgar palhaço e ocioso, é, antes de tudo, um usurário. À medida em que enriquece resta um cínico mau e gozador, um debochado. Nenhum senso moral, mas uma sede inextinguível de viver. À parte dos prazeres sensuais nada mais existe, e é o que ensina aos filhos. Como pai não assume nenhuma obrigação moral, esquece-se dos filhos ainda crianças e quando os levam embora, melhor, sente-se livre… Engana seu filho com o dinheiro que a mãe lhe deixara e procura, ainda, tomar-lhe a amante.”

“Seria caluniar a sociedade dizer que há muitos pais como ele? A maior parte deles não se exprimem com tanto cinismo porque são mais bem educados, porém, no fundo, têm a mesma filosofia. Vejamos seus filhos. Ivan é um rapaz moderno, brilhante pela instrução e inteligência, que em nada crê, como o seu pai. Ontem suicidou-se um desgraçado, talvez filho natural do velho. Esse, Smerdiakov dizia que Ivan o amedrontava ao dizer que “tudo é permitido e nada deve ser proibido”. O idiota ainda disse: “Aquele que mais se parece com o pai é Ivan”. Mas como vimos aqui, a verdade ainda é muito forte em seu jovem espírito.”

“O mais moço é piedoso e modesto, possui nobres sentimentos e se suas aspirações pelos desejos populistas não degenerarem num misticismo sombrio e num estúpido chauvinismo do ponto de vista cívico…pois são dois dos males que ameaçam a nação, talvez mesmo até mais graves que a perversão precoce proveniente da cultura ocidental, mal compreendida e adquirida em vão, que é o mal de que sofre o irmão Ivan.”

“O terceiro membro dessa família, o réu, esse sim representa a Rússia natural, claro que não toda ela. A nossa querida Rússia, uma estranha mistura do bem e do mal”. A seguir o promotor diz que não deixará a ninguém a defesa do réu. Recorda sua infância abandonada, o dinheiro que, quando adulto, recebeu e dissipou rapidamente até praticamente esgotar-se a herança materna. Recorda o ato de generosidade e nobreza para com Katierina quando lhe dera o dinheiro que restara da herança recebida e, com a mesma moça, a vilania praticada com os 3.000 rublos. Por quê? “Porque somos de uma natureza ampla, Karamazovi, capazes de reunir todos os contrastes e de contemplar ao mesmo tempo dois abismos, o do alto, dos ideais sublimes, e o de baixo, o abismo da mais ignóbil degradação”. “Disse-nos Rakitin referindo-se aos Karamazovi, que a consciência da degradação é tão indispensável a essas naturezas desenfreadas quanto a consciência da nobreza moral.”

 

Rascunho histórico-  O promotor Ipólit concordava com o laudo do jovem médico que via o acusado gozando de todas as suas faculdades, e o que constituia o objeto da exaltação do mesmo não era o dinheiro mas o ciúme. “Não era o dinheiro que importava, mas o cinismo repugnante que conspirava contra a sua felicidade, usando o mesmo dinheiro que Dimitri acreditava ser-lhe devido.” Até o momento da carta trazida por Katierina, o promotor confessa que descartava a premeditação, mas o escrito a denunciara. Após descrever todos os movimentos do réu no dia do assassinato, o promotou falou sobre Smerdiakov.

 

Dissertação sobre Smerdiakov- O promotor Ipólit reproduz todas as declarações por aquele “ser fraco,  instrução rudimentar, conturbado por ideias filosóficas acima de seu alcance, aterrorizado diante de certas doutrinas modernas sobre o dever e a obrigação moral”.

Todos os depoimentos  reportados denotam a extrema perspicácia de Smerdiakov, quem tudo fizera para incriminar Dimitri, a quem odiava. “Os epiléticos têm a mania de acusar-se a si mesmos. A consciência de sua culpabilidade atormenta-os, têm remorsos muitas vezes sem motivos, exageram as suas faltas, forjam mesmo crimes imaginários”, e segue o promotor: “Para ele, Ivan significava uma defesa, uma garantia, conquanto não partisse…”. Como podemos constatar, o comportamento dissimulado do epilético também o enganara totalmente.

 

Psicologia a vapor. A troica em disparada-  Prossegue a acusação a Dimitri que sempre ciumento, não o fora perante o primeiro amante de Gruchenhka. De repente, resolvera respeitar aquela mulher e  reconhecer os direitos de seu coração, mas isso somente ocorreu quando já possuia as mãos tintas de sangue do próprio pai. Mas o que pode ele oferecer-lhe agora? Nada e por isso toma a decisão de suicidar-se. E como grã-prelúdio, organiza uma festa de arromba, de tal forma que a amada se lembrará de quanto Mítia a amava e o lamentará! “A culpabilidade desse ser salta aos olhos. Não foi ele que gritou ao cocheiro: “Conduzes um assassino”? Mas o que lhe reservava o destino? Que o antigo amante  da amada não era tão “indiscutível”. O triunfo de Karamazov sobre o rival fora completo. Começa, então, para ele, uma crise enorme, a mais terrível que já atravessou”.

“Pode-se reconhecer, senhores jurados, que a natureza ultrajada e o coração criminoso exercem um castigo ainda mais rigoroso que o da justiça humana!...Na embriaguês da festa, mais sedutora que nunca, Gruchenhka não se afasta de seu lado; esse ardor apaixonado pode abafar, até mesmo por um instante, o temor da prisão e do remorso!”

“Suponho que terá experimentado a situação análoga a do criminoso que levam à forca; é preciso ainda percorrer uma longa rua, dobra-se depois outra rua, ao final da qual está o lugar fatal. No começo do trajeto, o condenado em cima da carreta deve imaginar que ainda tem muito tempo para viver. As casas se sucedem, não tem importância, ainda está longe a próxima esquina a ser dobrada, ele pensará “há ainda muitas outras”. E, assim, até o local da execução.” Assim, conforme a acusação, passou-se com Karamazov após descobrir que Gruchenhka o amava. De toda forma, “consegue de um modo ou outro, esconder o seu dinheiro”, em torno dos 1.500 rublos.

Conclui a promotoria: “Senhores jurados, há no exercício de nossas funções, momentos em que nós mesmos temos medo da humanidade: é quando se contempla o terror bestial do criminoso que se vê perdido, mas que quer ainda lutar! É quando o instinto de conservação nele desperta e ele fixa em nós um olhar penetrante, cheio de ansiedade e sofrimento; quando escruta o vosso rosto, vosso pensamento, pergunta a si próprio de que lado virá o ataque, imagina no seu próprio espírito mil planos, mas teme falar, teme trair-se! Esses momentos humilhantes para a alma humana, esse calvário, essa avidez bestial de salvação são horríveis, fazem tremer o próprio juiz e excitam a sua compaixão”.

 

A defesa, uma arma de dois gumes- O grande advogado iniciou a sua tese de defesa como se a fizesse para um grupo de amigos. Gradualmente foi elevando o seu tom até atingir o patético. Toda a defesa baseava-se em que havia uma concordância esmagadora de fatos contra o réu, mas nem um só fato que suportasse o crivo da crítica, uma só circunstância que não tivesse uma outra forma possível de ser interpretada. “A psicologia tanto trabalhada pela acusação pode ser uma arma de dois gumes”. A seguir avalia a noite do crime do ponto de vista do réu.

 

Nem dinheiro, nem roubo- O defensor explorou a impossibilidade de uma acusação de roubo sem a prova material do que fora roubado. Existiram os 3.000 rublos? Quem os vira? Somente Smerdiakov dissera que estavam em um envelope subscrito. Contou isso ao acusado, a Ivan e a Gruchenhka, mas ninguém tão pouco o vira. Smerdiakov dissera que estava embaixo do travesseiro, mas a cama foi encontrada pela polícia arrumada e o envelope caído no chão! Se o réu tinha sangue nas mãos por que o envelope não possuia manchas, assim como os lençois da cama estavam todos limpos? A única prova de um roubo era, enfim, um envelope vazio, nada mais.

Ainda argumentou que, se Dimitri havia matado o pai e depois agredido Grigori por que voltara para socorrê-lo? Um parricida teria voltado para assassinar a única testemunha que poderia acusá-lo, e jamais para socorrê-la, usando do próprio lenço para estancar o sangue. “Eis uma outra espécie de psicologia; com ela pode-se tirar o que se queira”, fala em contraposição ao psicologismo do promotor. “Repilo a acusação de roubo pois ela só é possível caso se indique o objeto do roubo!”

 

Não houve assassinato-  A defesa se contrapõe à acusação de assassinato premeditado, dado que a promotoria afirmara haver assumido a premeditação somente após a carta escrita num bar por um bêbado! Esse se armara para cometer um crime com um pilão que “estava à mão”. Ora, um crime premeditado…e se o pilão não estivesse à mão, Dimitri mataria usando as próprias mãos? “A verdade é que ele fora à casa do pai à procura da amante”. O argumento da acusação baseava-se em que: “estando no jardim, matou”. O único testemunho é o de alguém ferido na cabeça, que julga ter visto a porta da casa aberta, por onde o assassino teria entrado, mas que tão pouco ninguém o vira.

Toda a lógica da acusação se traduz em “quem poderia matar, exceto ele?” A promotoria não tem ninguém para colocar em seu lugar. “Será bem isso?”, questiona o defensor. “Cinco pessoas estiveram no local do crime: o morto, Grigori e sua esposa, todos inocentes, fora de qualquer dúvida. Dimitri e Smerdiakov. Estive com esse último e a impressão que me causou foi: fraco de saúde mas não de caráter, jamais a frágil criatura pintada pelo promotor. Nenhuma ingenuidade, extrema desconfiança, timidez dissimulada sob a aparência de simplicidade, um espírito capaz de meditar. Fiquei convencido de tratar-se de uma pessoa má, desmedidamente ambiciosa, vingativa e invejosa. Detestava a sua origem, tinha vergonha de haver nascido de uma fedorenta. Maldizia a Rússia, sonhava tornar-se francês. Desrespeitava tanto Grigori como sua esposa, que sempre dele cuidaram. Não amava ninguém exceto a si próprio, crendo-se elevado. A cultura consistia no visual apresentado. Particularmente odiava os filhos de Fiodor Karamazov.

Contou-me, inclusive, que fora ele próprio quem colocara os 3.000 rublos em um envelope, quantia que jamais em sua vida sonhara tocar e estar ao seu alcance.” “A pergunta da acusação foi que motivos teria Smerdiakov para assassinar o pai? A resposta está dada: roubar os 3.000 rublos e colocar a culpa no filho do patrão. A cupidez apoderou-se dele no momento da certeza da impunidade.”

“Mas por que no momento do suicídio não assumiu a culpa do crime? Passa que sua consciência não chegou até aí, pois consciência já é arrependimento, e talvez o suicida não apresentasse arrependimento, mas apenas desespero. O desespero pode ser mau e irreconciliável e o suicida, no momento de liquidar-se, podia detestar mais do que nunca aqueles por quem tivera inveja toda a vida”.

“Senhores jurados, cuidado para não cometer um erro judiciário. Lembrai-vos de que lhes foi dado um poder ilimitado de ligar e desligar. Mas quanto maior é o poder, mais terrível é o seu uso!”

 

Um sofista-  “Mas o que é um pai? ”, a defesa inicia a sua conclusão. “Um pai verdadeiro já é uma ideia grandiosa …o defunto nada tinha de um pai. Ele se assemelhava a uma calamidade. O réu é violento, impiedoso e selvagem, mas alguém testemunhou-lhe um pouco de afeto na infância? E aquele velho ainda denigre o filho na sociedade, compra duplicatas por ele emitidas para colocá-lo na cadeia!” “Esses corações violentos, como os de Dimitri Karamazov, são muitas vezes sedentos de ternura, de beleza, de justiça. Parecendo apaixonados e violentos são capazes de amar até o sofrimento uma mulher”.

“Os senhores não estão julgando um parricídio, pois o velho é indigno de ser chamado de pai. O amor filial não justificado é absurdo. Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos, escreve o apóstolo. Pratiquemos em primeiro lugar os preceitos de Cristo e somente então exijamos algo de nossos filhos. Senão não seremos pais, mas inimigos para eles e por nossa culpa! Não basta procriar para ser pai, é preciso merecer esse título…a morte de Fiodor Karamazov como sendo a de um pai, não é um parricídio senão por puro preconceito!”

 

Os mujiques mantiveram-se firmes- Assim que Fietiukovitch concluiu, o entusiasmo de seus ouvintes não conheceu limites. Tal qual as mulheres, muitos homens até choravam. Nesse clima ocorreu a tréplica da promotoria. “Censuram-nos de ter inventado novelas. Mas o defensor fez outra coisa? Só faltaram versos…Não passa de um preconceito qualificar de parricídio o assassinato de um pai. Mas se o parricídio é um preconceito e se cada menino pode perguntar a seu pai o porquê de amá-lo, no que se transformarão as bases familiares e sociais?”

A seguir, o presidente deu a palavra a Dimitri. “Vão me julgar, sinto a mão de Deus sobre mim. É o fim de um homem transviado! Repito pela última vez: não matei meu pai. Eu era desregrado, mas amava o bem. Constantemente aspirava emendar-me e vivi como um animal selvagem. Senhores, poupai-me!”

A maioria das damas presentes, muitos homens e até mesmo o defensor consideravam a absolvição inevitável. Quando o júri retornou de seu isolamento para deliberar, a resposta, entretanto, dada a todos os quesitos foi  “culpado”, sem nenhum tipo de atenuante.

A esse fato seguiu-se enorme tumulto, pois as mulheres choravam e gritavam e Mítia falou com voz dilacerante: “Juro que não derramei o sangue de meu pai! Katie, eu te perdôo! Irmãos, amigos, velai pela outra, Gruchenhka”.

O narrador, ele próprio, ouviu ao sair do Tribunal: “Sim, os nossos mujiques se mantiveram firmes. Acertaram suas contas com Mítia”.

 

Epílogo

Projetos de evasão- Logo após a cena no Tribunal, Katierina transportara Ivan, inconsciente, para sua casa e lá o tratava. O médico moscovita partira sem dar um prognóstico para o caso.

Passaram-se cinco dias do julgamento. Aliocha vai até a casa de Katie. Pressentindo do que se tratava, ela estava pálida, extenuada e presa de uma agitação doentia. Ivan, antes de seu depoimento, traçara todo o plano de fuga do irmão com Gruchenhka, e tudo deveria ocorrer nesse mesmo dia, no caminho do preso para o presídio na Sibéria. Ela estava de posse dos 10.000 rublos, o custo da fuga. Na impossibilidade de Ivan, Katie tomaria todas as providências, inclusive o suborno dos agentes.

Ela aproveita a presença de Aliocha e realiza um longo desabafo em que desnuda sua personalidade e tenta transformar em confissões alguns auto-enganos: “Minha irritação contra aquela criatura fizera com que Ivan acreditasse que eu estava com ciúmes dela e, por conseguinte, ainda enamorada de Dimitri.” Há muito tempo ela declarara a Ivan ter deixado de amar o irmão, mas que amava sim, a ele. “Fiquei estupefata ao ver que, malgrado o seu ciúme e persuadido de que eu amava Dimitri, Ivan não renunciava salvar o irmão e confiava em mim para isso”.

De seu imenso orgulho tece um reconhecimento: “Quanto sou infeliz, que gênio horrível o meu! Ele me deixara para viver com alguém mais fácil do que eu…Ivan nunca me afirmou que Dimitri matara o pai, foi apenas para feri-lo que eu o disse. A causa de tudo é a minha violência…aquela abominável cena perante o Tribunal fui eu que provoquei…Sou a causa de tudo, a única culpada”.

Para Aliocha ela chegara àquele grau de sofrimento intolerável em que o coração mais orgulhoso abdica da altivez e se confessa, vencido pela dor. Katie ao mesmo tempo em que se sente culpada perante Dimitri, também o odeia por alguns momentos.

Finalmente, temos a parte mais difícil para o rapaz:  convencer Katie de que, pela última vez, Dimitri necessitava vê-la e “ainda hoje”. “É teu dever, pois tu lhe és mais necessária que nunca. Ele está doente como um louco… bem mudado desde o julgamento e compreende a extensão dos agravos que te fez. Quer somente vê-la, no limiar da cela, não o seu perdão”. Mesmo um condenado a vinte anos de trabalhos forçados sonha ainda com a felicidade. “Irás ver uma vítima que é inocente”. Finalmente, após  garantir-lhe que Gruchenhka não estará presente, Katie aquiece em satisfazê-lo.

 

Por um instante a mentira torna-se verdade-  Mítia, antes de sua deportação fora transferido para o Hospital e estava no mesmo quarto que dera abrigo a Smerdiakov. Pelos relatos de Aliocha, Mítia tem a certeza de que Katie estaria persuadida de que Ivan morreria. Aliocha também está apreensivo, mas espera a cura. O irmão assegurara-lhe a visita de Katie e que, Ivan não podendo fazê-lo, ela pessoalmente se encarregaria da execução de sua fuga, conforme planejada pelo irmão. “Não tens necessidade duma provação tão dolorosa como a que te imporiam, pois não mataste. Se quiseres te regenerar guardas sempre dentro de ti esse ideal, pois teres te furtado a essa prova servirá para sentires um dever ainda maior…Se tua evasão custasse caro a outros, oficiais e soldados, eu não permitiria que te evadisses. Decerto é desonesto corromper consciências, mas nesse caso, abster-me-ei de julgar, pois se Ivan e Katie me tivessem confiado um papel nesse negócio eu não teria hesitado em obter a corrupção”.

Dimitri revela ao irmão seus planos de chegar à América , mas tanto ele quanto Grucha são russos até a raiz dos cabelos. “Amo a Rússia, amo o Deus russo, por mais vil que eu seja”. “Trabalharemos na lavoura como ursos e ao fim de três anos saberemos inglês. Então, adeus América. Voltaremos como americanos à Rússia e ficaremos longe daqui, pois a nostalgia da Pátria nos faz envelhecer bem depressa”.

Nesse momento Katie aparece na soleira da porta; correm um ao encontro do outro e se tomam pelas mãos. “Perdoaste”, pergunta Mítia. “Eu te amo, tens um coração generoso”, responde a moça. “Não tens necessidade de meu perdão, nem eu tão pouco do teu. A lembrança de cada um ficará com uma ferida no coração do outro. Por que vim? Para dizer-te que ainda és meu deus, minha alegria, que te amo loucamente”. As lágrimas corriam pelas faces da moça e ela, tomando as mãos de Mítia, beija-as. Continuou um pouco menos afogueada: “O amor desapareceu, Mítia, mas está em nosso passado, e é-me dolorosamente  querido. Fica-o sabendo sempre. Agora, amamos cada um por nosso lado; no entanto, amar-te-ei sempre e tu também, sabia-o? Ouve-me, ame-me toda a vida”.

“Sim, eu te amarei por toda uma vida”, reponde-lhe Dimitri. Assim trocaram eles essas frases quase absurdas e exaltadas, mentirosas talvez, mas eram sinceros e tinham nos seus sentimentos confiança absoluta.

De repente, adentra ao quarto Gruchenhka. Katie não pode abafar um grito e, lançando-se para a porta, com uma palidez de cera, rogou-lhe baixo: “Perdoe-me”. A outra fitou-a e com uma voz carregada de ódio  disse-lhe: “Somos más todas as duas! Como haveremos de perdoar uma à outra? Mas salva-o e com isso eu rezarei por ti toda a minha vida”.

Após a saída de Katie, Dimitri interroga Grucha: “Recusas a perdoar-lhe?” “Era o meu orgulho e não meu coração que falava. Se ela salvá-lo, perdoar-lhe-ei tudo”.

 

Enterro de Iliucha. A locução perto da pedra- Iliucha morrera dois dias após o julgamento e seu enterro fora bancado por Katierina. Aliocha e todos os meninos, tendo à frente Kólia Krasotkin, assim como os familiares, acompanharam o pequeno corpo até a igreja.

Até mesmo no féretro os mesmos expressavam suas opiniões sobre o julgamento; quando Aliocha expressa a sua, sobre a inocência do irmão, todos dizem possuírem a mesma ideia. Kólia ainda diz: “Se eu puder um dia, sacrificar-me-ei pela verdade! Quereria morrer pela humanidade inteira. Respeito o teu irmão”.

O pobre pai, o capitão, pese nada haver bebido, comportava-se como um bêbado e insistia em enterrar o filho junto a uma pedra que eles tanto amavam e que a consideravam como “deles”. Mas termina convencido pelo grupo de que Iliucha deveria ter sepultura no cemitério ao lado da igreja. Seguiu-os com um pedaço de pão para espicaçá-lo em cima da terra para que “Iliucha ouvisse os pássaros a comer”. Assim que o corpo baixou à sepultura, o capitão agarrou algumas flores e pôs-se a correr como um possesso, enquanto os meninos choravam.

À noite haveria uma comemoração em sua casa, tal qual nos tempos do cristianismo primitivo. Kólia diz que “é estranho tudo isso. Tal dor e pastéis, como tudo é estranho em nossa religião”.

No caminho o grupo de meninos e Aliocha se deparam com a pedra. Eles se emocionam e é emocionado que Karamazov diz: “Meus amigos, vamos nos separar. Ficarei ainda algum tempo com meus irmãos, um dos quais será deportado e o outro que está morimbundo. Mas convenhamos que aqui, diante da pedra de Iliucha, jamais o esqueceremos e nos lembraremos uns dos outros. E qualquer que seja o nosso futuro não o esqueceremos e tão pouco como nos foi doce comungar aqui  um bom sentimento, enquanto amávamos o pobre menino, talvez melhores mesmo do que somos na realidade. Sabei que não há nada de mais nobre, de mais forte, de mais são e de mais útil na vida que uma boa recordação, sobretudo provinda da juventude, da casa paterna. Se fizermos uma provisão de tais recordações para a vida, salvamo-nos  definitivamente. E mesmo se só guardarmos no coração uma única recordação, isso poderá um dia servir para nos salvar”.

“Sejamos generosos e corajosos como Iliucha; inteligentes, corajosos e generosos com Kólia, porém modestos e amáveis como Kartachov”, um dos outros colegiais. “E agora vamos ao jantar fúnebre. Não vos perturbeis por comermos pastéis. É uma velha tradição que tem seu lado bom”.

 

 

Posfácio

1. Os Irmãos Karamazovi constitui o apogeu e o final da obra do grande escritor dramático do século XIX. Dostoievski esperava sequenciá-lo com um trabalho que coroaria toda a sua enorme produção literária, no qual possivelmente continuaria a retratar a vida de Alieksei Karamasov; já possuia até mesmo um título: O Grande Pecador, romance que não passou de seus primeiros desenhos arquitetônicos, pois, infelizmente, o autor não viveu para encetá-lo.

Karamazov é originário etimologicamente de kara (castigo) e mazat ( sujar). Dostoievski desde o título nos dirige para “aquele cujo erro o leva à própria punição”, ou se o quisermos, dentro do trágico, aquele que ultrapassa as suas medidas e caminha para a própria condenação, como uma etapa necessária à redenção ou o caminho para a perdição.

A cidadezinha de Skotoprigonievski, onde a trama se desenvolve, simboliza um “depósito de animais”, onde todos nós poderemos de um modo ou outro encontrar a nossa “isbá”, o nosso lar. Essa cidade que arde pelas paixões, pelos ódios, pelas desmedidas  humanas, também é capaz de gerar um Alieksei   (Aliocha, um servidor de Deus), um homem que procura a verdade e a fraternidade e que para isso, primeiramente se distancia da sociedade, buscando refúgio num monastério. Mas nele não permanecerá e ao retornar ao mundo temos a contrapartida  de sua transformação psicológica, pois ele, que se escondera da perversão humana, irá se mover da castidade para o envolvimento com os homens; tendo sido monge e homem ele significará,  para Dostoievski, a humanidade total.

 

2. Afinal, tanto hoje como no passado, o que desejam os homens? Serem felizes, possuírem riqueza, poder e, quem sabe, acima de tudo, consumir. Entre os personagens de Dostoievski nenhum deles aspira a isso diretamente, mesmo porque eles não se estabelecem em lugar algum, nem mesmo diante da própria felicidade. Eles necessitam seguir um caminho, pois têm uma espécie de alma interior que  tortura a si mesma no eterno caminhar. De alguma forma parece ser-lhes indiferente sentirem-se ou não felizes e contentes. Eles desprezam a fortuna ainda mais do que a desejam, talvez porque nada almejem de particular neste mundo; mas se nada querem de particular, no geral aspiram a tudo, à plenitude dos sentimentos, à vida inteira. Os Karamazovi , para Zweig, têm músculos de aço, sede de vida brutal, “essas bestas ferozes de sensualidade, de alegria do viver”, indecentes e fanáticas, que sorvem as últimas gotas do cálice antes de o quebrarem.

Nessa mesma linha de raciocínio eles são do tipo dos que querem o tudo e o nada, desejam o bem e o mal e tal qual os heróis das tragédias gregas, excedem os seus limites, mesmo porque estão permanentemente a testá-los. Querem saber o que são, querem ir até o extremo do “eu”, conhecer seus limites.

Essa inquietude é, do mesmo modo, um suplício, pois o sofrimento dilacera a todos; vivem de “febre em febre” e nos seus intervalos sofrem espasmos, muitas vezes, como o próprio Dostoievski, de origem epilética. Quando se embebedam, eles não buscam o prazer ou o sono, mas, na embriaguez o esquecimento da loucura;  jogam um dia inteiro para matar o tempo; entregam-se à dissolução, não por prazer, mas para perderem o controle nos excessos que cometerão.

 

3. O mito de Dostoieviski é a fecundidade do “eu”, múltiplo em cada indivíduo, híbrido de “Deus e do Diabo”, por isso tantos veem nele o fundador do existencialismo humano.

Algumas das personagens dramáticas  são as mulheres decaídas, como Gruchenhka, no ódio que devota aos homens que por ela se apaixonam; no entanto essas decaídas possuem um coração de ouro. Outras, como Kathierina, têm em si um orgulho e paixões desenfreadas e incontidas; outras ainda, como Dimitri, fruto da mãe Terra, Demeter, expõe uma força brutal e ingênua, age como um menino e um homem desesperado, possui a capacidade de amar simultaneamente a duas mulheres, cada qual a seu modo. Smerdiakov no seu “eu” dramático, simboliza a dissuação, a hipocrisia, uma inveja incontida, dentro de uma vida sem nenhum sentido. Ele é feio, bastardo, “eunuco” e será o instrumento da morte paterna, do parricídio que ambos os irmão, Ivan e Mítia, gostariam de haver cometido.

Outra personagem, Ivan Karamasov, transporta para a obra, na sua polifonia, muito mais do autor  do que qualquer outro personagem; seu alimento não é o pão, a carne e o vinho, mas as reflexões; diferentemente de Katie, de Gruchenhka, de Mitia, de Fiodor, Ivan não age impulsionado nem pelo amor, nem pelo ódio. Onde os seres humanos buscam oxigênio para seu cérebro, ele somente luta por ideias, mesmo ao custo de o alucinarem.

 

4. Temos desenvolvida nesse romance, com toda a sua profundidade, a problemática essencial da existência ou não de Deus, que tanto angustiou a vida  do autor, lado a lado com as questões do bem e do mal e da consequente responsabilidade humana, do livre-arbítrio, da liberdade de salvar-se e de libertar-se. Dostoievski impulsiona para um momento superior, religioso, seus personagens que  procuram a fraternidade universal no mistério da reconciliação geral e no reconhecimento fraterno, tal qual num canto orfeônico de almas.

Dostoievski traçou um retrato de “seu Cristo” na Lenda do Grande Inquisidor. Sua beleza e graça inefável são sutilmente evocadas; Cristo nada responde, nada fala. Esse silêncio, no dizer de D.H. Lawrence, é um sinal de aquiescência, da humildade do artista em contraposição à derrota da linguagem de seus seres polifônicos, como o Inquisidor. Cristo se calaria, pois Deus estaria na contramão da polifonia humana.

Esse conto tem como fulcro a liberdade do homem. Ele que é completamente e terrivelmente livre para perceber o bem e o mal, optar por um deles e encenar sua escolha. A ideia do Anticristo é a daquele que também viveu no deserto, alimentou-se de gafanhoto e mel e ofereceu a Cristo a tríplice tentação: os milagres, o pão e a autoridade, com as igrejas estabelecidas e o Estado. Ele as rejeitou, em nome da liberdade do homem. Se o corpo de Cristo tivesse descido da cruz ou se Zózima não exalasse os odores  da putrefação de seu cadáver, o homem deixaria de ser livre, seria forçado pela evidência a crer, da mesma forma como os escravos, que obedecem ao poder da força e não por livre escolha.

As igrejas privam os homens  de sua liberdade essencial ao interpor entre Deus e a agonia da alma individual a segurança da absolvição e dos mistérios dos rituais. O Inquisidor possuia uma crença radical no progresso humano através de meios materiais, uma crença na razão pragmática, uma rejeição da experiência mística e uma total absorção pelos problemas do mundo, a ponto de quase excluir Deus de seu Universo.

O niilismo é a servidão do pensamento para Dostoievski; de acordo com Gide, “na psicologia de Dostoievski o que se opõe ao amor não é primeiramente o ódio, mas “a ruminação no cérebro”. Os homens estão pendurados na dúvida metafísica porque Cristo lhes permitiu a liberdade da escolha entre o bem e o mal, porque a árvore do conhecimento tem sido mais uma vez abandonada perigosamente. O Inquisidor acusa Cristo de ter superestimado a estatura do homem ou a sua habilidade em suportar o livre-arbítrio, argumentando que os homens preferem a calma bruta da escravidão. Para ele os homens conhecerão a felicidade somente quando um reino perfeitamente regulado for estabelecido sobre a terra, sob os auspícios dos milagres, da autoridade e do pão.

No dizer de Steiner, o Grande Inquisidor de Dostoievski,que ele nos apresenta como “um poema sem sentido de um estudante sem sentido” é prometeico: ele prenuncia os regimes totalitários do século XX, com o controle do pensamento, o aniquilamento e os poderes redentores das elites, o prazer brutal das massas na Revolução Cultural, nas Danças de Nuremberg e no palácio dos Esportes de Moscou, o da total submissão do privado à vida pública. Mas a visão do Inquisidor também aponta para as recusas de liberdade real nas sociedades capitalistas e as formas  tão somente exteriores das denominadas “democracias representativas”, assinalando a vulgaridade da cultura de massas, do charlatanismo, e dos rigores sobre o “pensamento genuíno”. Aponta para a fome dos homens por líderes e mágicos que retirem de suas mentes as selvagerias da liberdade. “Os segredos mais dolorosos de sua consciência, eles nos trarão todos”, quer ao padre, ao psicanalista ou à polícia.

 

4. Não por acaso o romance, por ser religioso, é dividido em quatro partes, totalizando doze capítulos, e um epílogo, pois a obra prima de Dostoievski é aquela que expressa de maneira mais acabada sua religiosidade, que é Cristã e ortodoxa. O  número de  capítulos  simboliza a atuação de Deus sobre o espírito, na dualidade das coisas e do homem. Para a ortodoxia o número  doze simboliza Jesus, sendo ainda o número dos apóstolos de Cristo, do número de estações de sua via crucis, das tribos de Israel, a base dos 144 mil salmos bíblicos.

Tal qual Cristo pedia que “deixai vir a mim as criancinhas”, o mesmo o faz Aliocha, sempre rodeado por elas, buscando que cultivem as memórias de seus momentos felizes, de pureza infantil, essenciais na felicidade do futuro adulto. As crianças constituem o símbolo da pureza e da capacidade redencional do homem e, no dizer de Ivan “ o maior dos crimes consiste em agredi-las, degradá-las”.

Tal como em Crime e Castigo, existe uma propensão para o alto, para a redenção. Os “criminosos e pecadores” de certa forma são penetrados pela divindade, num processo semelhante à “metanoia” dos gregos,  buscando no sofrer e no arrependimento o retorno ao “ser híbrido”, como um ser mais elevado, onde o trágico não pode ser dissociado do fantástico. Ao final do romance, o retorno do homem ainda livre de suas faltas: Aliocha rodeado pelas crianças irmanadas num sentimento de intensa fraternidade.

 

5. “Dostoievski nada é se não o vivermos em nós mesmos. Para reconhecermos a força de nossa própria simpatia é preciso verificá-la e bebê-la no mais profundo de nós mesmos e elevá-la a uma receptividade nova e acrescida. É preciso penetrar até às raízes mais secretas de nosso ser para descobrir o que nos liga à sua humanidade, bizarra, à primeira vista, mas depois tão maravilhosamente verdadeira. Lá no mais íntimo de nós mesmos, no que há de eterno e imutável, fibra por fibra, poderemos descobrir os laços que nos unem a Dostoievski”. ( Stefan Zweig).

Bibliografia

Zweig, Stefan, Os Construtores do Mundo, Editora Guanabara, 1956.

Steiner, George, Tostoi ou Dostoievski, Editora Perspectiva, 1999.

Ponde, L.F., Crítica a Profecia, Editora 34, 2003.

Frank, J., Dostoievski: Os Anos Milagrosos, Edusp, 2003.

Berlin, I., Pensadores Russos, Companhia das Letras, 1988.

Irmãos Karamazovi, tradução de Raquel de Queiroz, José Olympio Editora, 1962.

Os Demônios- breve análise



Um romance de Dostoievski é um exemplo supremo da “totalidade do movimento dramático” de Hegel. Talvez em nenhum dos seus cinco grandes romances ele haja atingido a totalidade como o fez em “Os Demônios.” Enquanto “Irmãos Karamazov” é gigantesco, colossal, “Os Demônios” é de uma extrema complexidade de entendimento.

O autor estava distante da Rússia, em Dresden, quando o principiou. A inspiração básica para o mesmo foi o momento histórico e filosófico vivido pela juventude russa nos anos 60/ 70 do século XIX, que partindo do niilismo chegava ao assassinato. O fato concreto que lhe propiciou o foco narrativo foi o assassinato do jovem Ivanov, por ordem do niilista Nechaiev, em 1869. Na maior parte dos esboços que Dostoievski realizou, o personagem Piotr Verkhovenski é simplesmente denominado de Nechaiev.

Outro fato da vida real que o impressionou e sem dívida serviu-lhe de inspiração foram tantos os incêndios nos bairros operários ocorridos durante a Comuna de Paris, em 1871, quanto os incêndios de Petrogrado de 1868. Desse fato ele extrai a destruição pelo fogo do bairro operário que, no final do romance leva à morte de Liza.

Lênin considerava “Os Demônios” como repulsivo, porém colossal! Lunacharski descrevia Dostoievski como o mais atraente escritor russo de todos os tempos. O centenário de seu nascimento foi comemorado por tributos oficiais, em 1920. Antes, em 1918, Lênin e Lunacharski haviam inaugurado o seu busto ao lado do de Tolstoi, como os maiores legados literários russos. Somente com o Stalinismo, após 1930, Dostoievski passou a ser visto como um inimigo perigoso, um herético. Apenas toleravam “Recordação da Casa dos Mortos” (por sua crítica ao czarismo) e “Crime e Castigo”. Todos os demais grandes romances, especialmente “Os Demônios”, foram banidos até o final do stalinismo.

  • Pontos de maior relevo

As sessenta horas culminantes de Os Demônios iniciam-se na festa de Iulia Lembke, esposa do governador. A “quadrilha literária” que encerra a miserável festa é interrompida pelo fogo no quarteirão que margeia o rio, e que destrói todas as casas de madeira. A “quadrilha” é uma figura retórica do niilismo intelectual e de irreverência da alma na qual Dostoievski discernia a origem dos futuros motins. O fogo é o arauto da insurreição, ofensa à normalidade da vida, que buscaria arrasar as velhas cidades para imporem a fundação de uma nova cidade da justiça.

Num Apocalipse feroz, o governador Lembke enlouquecido corre para o fogo e grita à sua comitiva: “É tudo niilismo! É tudo incêndio! Se algo está pegando fogo é o niilismo!” Em seu pânico ainda grita: “O fogo não está nos telhados, mas na cabeça das pessoas.” Esta frase poderia ser o prólogo ao romance, pois as ações que ele descreve são gestos da alma quando ela se encontra em dissolução. Os demônios entram por essas gretas e por mero contágio as chamas se propagam dos cérebros aos telhados das casas.

Todos os quatro grandes romances do autor possuem em seu âmago um assassinato. Aqui ele é triplo, conduzindo-nos para a visão trágica. Quando as chamas se amainam Lebiadkin e sua irmã Maria, assim como sua velha criada estão mortos, esfaqueados. Tudo indica que o incêndio fora provocado para encobrir os crimes.

As chamas a arder na margem do rio nos encaminham como um farol para uma janela da casa de Stavroguin. É madrugada e Liza observa o brilho ao longe. Stavroguin está junto dela e seu vestido está um pouco amarrotado, alguns botões desabotoados, aquela noite está toda nesse detalhe. Mas ela havia sido desastrosa, terminou revelando a desumanidade de quem amava. Dostoievski não é explícito sobre a incompetência sexual de Stavroguin, mas o impacto da esterilidade da noite é fragrante. Liza, que viera quase publicamente se entregar a ele explode: “É esse Stavroguin, o vampiro Stavroguin, como te chamam?” Liza foi sangrada na vontade de viver, mas ela também penetrou no âmago de Stavroguin, pois sabe que algo pavoroso e ainda assim ridículo, um segredo lhe domina a mente. “Sempre achei que você me levaria a algum lugar em que viveria uma enorme aranha má, do tamanho de uma pessoa e que lá passaríamos toda a vida a olhá-la com medo”.

Entra Piotr Verkhovenski e Stavroguin diz a Liza: “Se você ouvir algo estou avisando que a culpa é minha”. Foi ele quem “involuntariamente” dispôs a cena dos crimes? E um dos dogmas ocultos de Piotr, o verdadeiro Demônio de Dostoievski, após já por duas vezes haver confessado a Stavroguin que “não sou socialista, sou um assassino”, é descortinado: “Não, essa canalha democrática com seus quintetos é um mau sustentáculo: aí se precisa de uma vontade magnífica, vontade de ídolo, despótica, apoiada em algo que não seja ocasional...”

Piotr não pode permitir que seu ídolo se destrua que é o que acontecerá se ele assumir os assassinatos. No entanto, ele deve partilhar a culpa, pois Stavroguin e Verkhovenski estarão emaranhados mais intimamente. “No fundo você não tem nada a temer. Em termos jurídicos é de todo inocente e de consciência também, porque você mesmo não queria, não é? Não queria? Mesmo você não tendo nenhuma culpa nessa história, nem em pensamento, não obstante... Em toda a situação se dá um excelente jeito: de repente você é viúvo e livre, e pode-se casar com essa bela moça, riquíssima, que, de mais a mais já está em suas mãos. Veja o que pode fazer uma coincidência de circunstâncias simples e grosseiras.”

A agonia na interrogação de Stavroguin move-se não pelo temor da chantagem: a ameaça está em seu pode de destruir o lhe que resta de lucidez. O homem- demônio Piotr, está tentando remodelar seu deus à sua própria imagem, que é simplesmente vil.

Stavroguin diz a Piotr que “nessa noite Liza adivinhou de algum modo que não a amo... o que ela sabia o tempo todo na realidade”. O pequeno demônio considera tudo extremamente “gasto”.  Stavroguin desata a rir: “estou rindo de meu macaco”. Piotr é sordidamente familiar a Stavroguin e ele o “macaqueia” de modo a sujar ou destruir a imagem de si mesmo.

Piotr se delicia com o fracasso daquela noite que ele engendrara, trazendo Liza para Stavroguin. Seu sadismo se delicia na observação da moça. Mas ele subestimou o “cansaço” de seu deus. Ele diz à moça: “Eu não os matei, fui contra, mas sabia que eles seriam mortos e não impedi os assassinos”. Piotr pensa pela primeira vez em destruir seu deus. Saca da arma, mas confessa sem coragem: “Eu sou um bufão, mas não quero que você, a minha melhor parte, se torne um.”

Stavroguin o descarta com essas palavras: “Vá para o diabo agora... para o inferno... para o inferno!”

Descartado, Verkhovenshi tenta se vingar em Liza, mas ela é salva de suas garras pelo antigo noivo, Mavriki, que a espera nos jardins da propriedade, e ela quer que ele a acompanhe à cena do assassinato. Quando eles chegam, a multidão formiga com a possível culpa de Stavroguin. Ela é identificada e a assassinam. O narrador comenta que “tudo aconteceu de modo absolutamente acidental... eles estavam bêbados e irresponsáveis.” Entretanto, a impressão que nos causa é que Lisa buscou uma morte num ritual de expiação; morre ao lado dos corpos assassinados pela desumanidade de Stavroguin.

Corre o boato de que Stavroguin abandonara a cidade e seguira para Petrogrado. Horas após, Verkhovenki encontra-se com a célula de cinco conspiradores. Ninguém dormiu por duas noites e Dostoievski sugere o embaçamento da razão. Ele os convence da necessidade de assassinarem Chatov, convencendo-os de que ele estaria por entregá-los às autoridades. Piotr, desde a partida de Stavroguin, perde sua luz própria, o pivô de sua lógica enlouquecida.

Quando caminha com Liputin, ele repete a postura anterior de Stavroguin quando com ele caminhara. Ocupa toda a calçada fazendo com que quem o siga caminhe atas de si, suportando a lama a respingar. Liputin retruca em seu ódio: “Em lugar das muitas centenas de quinhentos em toda a Rússia, somos o único grupo, e não existe rede nenhuma”. Mas a tirania de Piotr já dominou seus súditos. Liputin, consciente, mas incapaz de reagir, recolhe-se ao seu andar.

As trinta e seis horas restantes são ocupadas pelo assassinato de Chatov, pelo suicídio de Kirillov, pelo nascimento do filho de Stavroguin com a antiga companheira de Chatov, também Maria, o acesso de loucura de Liamshin e a desintegração do pretenso grupo revolucionário. Essa parte de “Os Demônios” contém uma das maiores realizações estéticas de Dostoievski. O encontro entre Piotr e Kirillov, quando eles discutem o suicídio desse último, deixando uma carta em que este assume todos os crimes do grupo de Piotr Verkhovenski, terminando com a pavorosa morte do engenheiro. E o reencontro entre Maria que está para dar a luz e Chatov e o redespertar do amor deste por ela. O assassinato de Chatov no parque noturno e, finalmente, a despedida de Piotr que foge para o exterior (tal e qual Chagaliev) e sua despedida do mais patético dos assassinos, o jovem Erkel.

 

Se não há sentido na experiência, então o sentido da arte que contém a tragédia da desordem e do absurdo se aproximará ao máximo do realismo. Rejeitar coincidências e tons extremados seria ler na vida uma espécie de harmonia e respeito ao provável que ela não tem. Desse modo, Dostoievski destemidamente acumula o real sobre o fantástico. É bizarro o retorno de Maria para Chatov, grávida e para dar à luz ao filho de Stavroguin, às vésperas do assassinato de próprio Chatov; é totalmente implausível que nenhum dos cúmplices de Piotr, dois quais apenas o jovem Erkel ainda nele acreditava como percursor de uma “nova sociedade”, não o houvesse denunciado pelo assassinato planejado e executado. Que Kirillov, amigo de Chatov, não o houvesse prevenido. É quase impossível de crer que Virginski e sua esposa (aquela fizera o parto de Maria na casa de Chatov), não impedissem o assassinato, mesmo estando certos de que o assassinado jamais trairia o grupo, pois tudo era intriga de Piotr Verkhovenski para manter o grupo de assassinos sob seu controle. O próprio suicídio de Kirillov é absolutamente inacreditável quando ele se sente “iluminar” e descobre que o niilismo de Piotr havia levado ao assassinato de Chatov.

Dostoievski acreditava que esse “realismo profundo” deveria, em virtude de sua intensificação, retardar o significado autêntico de uma época histórica que ele concebia como a chegada do apocalipse. Por isso, ele, secamente, registra a cronologia do pandemônio: Chatov é assassinado às sete horas; Piotr chega à casa de Kirillov à uma da manhã e este se mata às duas e trinta; às cinco e cincoenta, Piotr, em companhia de Erkel, chega à estação ferroviária. Dez minutos depois, convidado, sem nem ao menos despedir-se de seu “companheiro” fiel, ele entra na primeira classe a jogar uiste. O trem engata e ganha velocidade. Piotr, o demônio, escapa, via Petrogrado para o exterior.

Em nenhum romance de Dostoievski poderemos separar o trágico do fantástico. O episódio da morte de Kirillov ilustra com perfeito detalhe como a fantasia gótica e a maquinaria do horror nos conduz ao efeito trágico. Piotr precisa assegurar-se que Kirillov realmente cumprirá o prometido de suicidar-se, assumindo todas as responsabilidades pelos crimes cometidos por Verkhovenski e seu grupo. Mas o engenheiro que se move entre os estados místicos e de desprezo rústico não se decide. Ambos, Mefistófeles e Fausto estão armados. Mas Kirillov, após dilacerar um dedo de Piotr se suicida em desespero abjeto, porque não consegue se matar numa afirmação de sua libertação.

 

Dostoievski considera o tormento de crianças e, particularmente, sua degradação sexual, como um símbolo do mal, uma ação simplesmente irreparável, um pecado imperdoável. A Confissão de Stavroguin incorpora o atormentar uma pobre menina aleijada até levá-la ao suicídio. Também é sugerido que ele tivesse participado de um grupo de prática do satanismo e orgias, no passado. E essas serão as cruzes que ele carregará por sua vida niilista, até o suicídio.

Um entrelaçamento interessante com temas bíblicos ocorre quando Stepan Verkhovenski encontra ao final de sua vida, justamente quando decide assumir seu destino e deixar de ser um parasita ornamental da mãe de Stavroguin, a mulher-evangelho, aquela nova Sofia e pede que ela leia o Sermão da Montanha e depois determinada passagem de Lucas, onde os demônios são, por ordem de Cristo, incorporados aos porcos que se jogam de um despenhadeiro. “Somos nós, também o Petrusha (seu filho Piotr), loucos e endemoniados... nos lançaremos do rochedo ao mar.”

“A charada fácil” de Maria Timoviena, a aleijada e pobre irmã massacrada pelo irmão bêbado, palhaço e poeta, que reproduz o pai Karamazov, é um dos nós mais complexos e mais significativos do romance. Stavroguin ao casar-se com ela sob segredo e, depois, dispondo-se em divulgar o casamento, está na verdade buscando uma catarse de sua afronta à pequena que ofendera até o martírio na sua juventude. Ela diz que tivera um filho de Stavroguin que jamais a tocara, entretanto. Que o filho morrera e ela o enterrara num sudário. Maria, na verdade reproduz Maria, mãe de Cristo. Stavroguin tem uma parte niilista, que a todos possui mas que não é possuído pelo mal. Pois há beleza em Stavroguin, há algo de Hamlet nele, “príncipe Harry”. Cada um possui sua própria imagem de Stavroguin e procura invocar os seus poderes em prol de algum desejo pessoal ou sacrificial. Verkhovenski sabe disso e lhe diz: “ Sem você eu não sou ninguém, eu preciso de você....Você é tão orgulhoso e tão belo quanto um deus”.

Seria para Dostoievski, Stavroguin o Anticristo? São muitas as semelhanças com o verdadeiro Messias. Quando nasce seu filho com Maria Chatov, ela lhe dá o nome de Ivan, um presunto herdeiro de Czar, tal qual já o chamara Verkhovenski, certa vez.

Stavroguin não é impotente, mas o único momento de sensualidade na obra, quando ele passa a noite com Liza é extremamente complexo, inconcluso e nos permite acreditar em falha do mesmo ao apossar-se do corpo que se lhe entregava.

Muito do mal que nubla “Os Demônios” surge da dessacralização ou da perversão do amor. Homens e mulheres rendem-se ao Príncipe Harry, mas ele nem honra e nem devolve a dedicação deles. Essa falta de reciprocidade é enraizada em sua desumanidade essencial, que cria a desordem e o ódio. E o Príncipe, seguido por Verkhovenski, seu falso profeta, vai abandonando os apóstolos em um patético e sinistro vazio de espírito.

Crime e Castigo



Crime e Castigo”, o romance mais famoso deDostoiévski,é ao mesmo tempo um dos mais bem escritos de toda literatura mundial. Foi feliz Marcel Proustao escrever que todos os romances dessegrande escritor russopoderiam ser denominadosCrimes e Castigos, uma espécie de tributo àquele escrito que é um marco na formatação do pensamento moderno.

Quando o romance genial era tão somente anotações, desenhos, um plano, Dostoiévskienviou a um editoruma carta oferecendo-lhe a venda antecipada dos direitos autorais. Nela, traçavao esboço, quase uma resenhado futuro “Crime e Castigo”:“Será o estudo psicológico sobre um crime. Um romance da vida contemporânea. Por sua instabilidade mental, um jovem ex-universitário, completamente sem dinheiro, fica obcecado por essas ideias amalucadas que estão no ar. Resolve fazer alguma coisa que o livre imediatamente da situação desesperadora. Decide matar uma velha agiota. A velha é estúpida, gananciosa, surda e doente, pessoa sem maior valor, cuja existência é aparentemente injustificável, etc.. Todas essas considerações desequilibram o rapaz... Ele não se torna suspeito, não seria possível que suspeitassem dele, e é aqui que todo o processo psicológico do crime se desenvolve. De repente o assassino se vê frente a frente com problemas insolúveis e sensações inauditas começam a atormentá-lo. O próprio assassino resolve aceitar o castigo para espiar a sua culpa”.

Nessa fase o autor via o livro escrito na primeira pessoa, tal qual “O homem do subterrâneo”. Nele,o próprio Raskholnikov falaria num diário ou em um formato de confissão. Mas, de alguma maneira, ocorreu uma mudança de planos que tornariam“Crime e castigo”um romance muito mais universal. Nas anotações em seu Diário, Dostoiévski registra o fato: “Farei a narração do ponto de vista do autor, uma espécie de ser invisível, porém onisciente, que jamais abandonará o herói.” “Onarrador observará tudo do ponto de vista de Raskholnikov, reagirá a tudo o que ele fala e pensa, sem deixar de vê-lo do ponto de vista do mundo exterior”.

O romance foi aclimatado na Petersburgo da segunda metade do século XIX, a cidade mais fantástica do mundona visão de Dostoiévski ,onde proliferam seres estranhos e os muros das ruas e das paredes das casas se dissolvem em visões terríveis. O personagem Svidrigailov diz que “é uma cidade de gente desequilibrada, cheia de influências sombrias, cruéis e estranhas”.

Pela pena implacável de Dostoiévski desfilarãocontrastes sociais extremos, a vida miserável que prolifera nas ruas, nos espaços públicos e cortiçosescuros, induzindoo herói do livro a um “estado psicológico extremo”. Raskholnikovperambula pela cidade, refletindo que “mesmo a magnificência (de Petersburgo) é a encarnação de algum espírito vazio e morto”.A cidade mais ocidentalizada da Rússia é um lugar de doenças e febres, suicídios e mortes súbitas, acidentes de ruas e brigas violentas, e em todas as partes está repleta de gente humilhada e ofendida. É também o lugar em que brota a revolta na juventude, cidade de ideias novas e incendiárias.

 

Dostoiévskiem sua maturidadeestá prenhe da tradição gótica. Daí,com a percepção do ambiente físico e psicológico presente em seu tempo, os assassinatos em suas obras ocorrem em porões e casas soturnas, os crimes e influências magnéticas corroem a partir da cidadea alma de seus habitantes. Diz Proust: “Em Dostoievski não há somente criação de seres humanos, mas de moradias, e também a casa do Assassinato de Crime e Castigo com o seu dvornik... Essa beleza nova e terrível de uma casa, essa beleza nova e mista de um rosto de mulher, eis o que Dostoievski nos deu de único no mundo.”

Raskholnikovorigina-se do termo“raskholnik”, uma pessoa cindida, dissidente, e do mesmo modo como seu duplo sinistroSvidrigailov, é um homem nascido da raiva e do tédio da vida contemporânea, um ateu e niilista que acredita no direito libertário de criar sua própria moralidade e transcender as leis, os costumes e a religião em nome de algo superior por ele mesmo criado. Como um intelectual moderno, exploraa liberdade de um mundo que perdeu suas raízes, onde a injustiça é a tônica e a sociedade é um lugar de sofrimento universal. Acredita na “idéia napoleônica” do indivíduo que influi na história do mundo, no homem excepcional cujos poderes lhe conferem o direito de cometer qualquer ato que se justifique no futuro. Ele é, no dizer de Porfiri, o juiz de instrução do caso, “ um caso típico de nossa época, em que o coração dos homens torna-se imundo. Temos aqui sonhos intelectuais, um coração exacerbado por teorias”.

Dostoiévski denominou de “realismo fantástico” o que escrevia. O que ele torna fantástico é o nosso mundo contemporâneo, o mundo que tenta apropriar-se do presente e transformá-lo em futuro. Já o livro é escrito a partir de uma vívida percepção da vida interior, emocional e psicológica do protagonista, e é também um método de intervenção profundamente dramático e intenso.

 

“Crime e castigo”divide-se em seis partes e um epílogo. O crime é cometido logo na primeira parte, e todas as seções subsequentes abordam o castigo, que por sua vez é essencialmente um processo de crise psicológica e de autoacusação. Ele culminará com a confissão, primeiro em privado, depois em público, na rua, e finalmente, na polícia. No epílogo encontraremos Raskholnikovnuma colônia penal siberiana ainda sofrendo o seu castigo. Sua redenção não se completa, pois se nega a compartir um trecho da Bíblia (a ressurreição de Lázaro) que lhe fora oferecida por Sônia, uma das prostitutas santas de Dostoiévski, recusando-se a reassumir a sua humanidade por meio do sofrimento e do arrependimento.

Raskholnikov, no princípio da narrativa,está encerrado em seu quarto que fica embaixo de uma escada. Ele tem o hábito de ficar na cama “pensando um mar de absurdos”. Acaba alheando-se de tudo e de todos, não deseja mais ver ninguém e quando passa pela cozinha da senhoria, cuja filha andara cortejando por estar atrasado no pagamento do aluguel, termina sendo possuído por uma espécie de terror.

Despreza todos os que não ousam uma “palavra nova, uma atitude nova”. Ele mesmo não sabe ainda bem o que deseja fazer. “Não é nada muito sério. Estou só me distraindo, entregando-me a sonhos fantásticos”... “Fosse o que fosse era preciso tomar uma decisão ou renunciar completamente à vida. Aceitar o destino docilmente tal como é, de uma vez para sempre, e abafar tudo no meu íntimo, o que significa renunciar a todo o direito à ação, a viver, a amar.”

Embora Raskholnikovdesejasse manter-se afastado de Petersburgo com seu barulho e sua violência, ou ter umnívelsocial superior ao seu próprio, ele será sempre parcela  desse mundo dos pobres e marginalizados, e cada uma de suas sensações reflete-se no exterior.Os acontecimentos que o cercam fazem parte de seu estado mórbido e alucinatório, misto de repulsa, terror, angústia e autoconfiança.

Visita uma velha agiota, deixa algo penhorado e sai. Entra em um bar. Ao sair,conhecerá Marmieladov, um ex-funcionário público destruído pela bebida. Os olhos desse homem degradadobrilham num misto de inteligência e loucura.  Principia a falar a respeito de modernas teorias utilitárias que teriam banido da Terra todos os sentimentos de piedade. Diz ,ambiguamente, que se acalma com a bebida. “É por isso que bebo, porque na bebida encontro o sofrimento... bebo porque quero sofrer em dobro... não é de alegrias que tenho sede, mas de tristezas.” A história familiar que Marmieladovconta é trágica: a família toda entra em declínio por sua degradação no álcool:Sônia, sua filha,prostitui-se para sustento da mãe, de uma irmã aleijada e dele próprio. Mas ele não deseja compaixão,prefere que o crucifiquem a que tenham por ele sentimentos de pena. Raskholnikov antevê no alcoólatra uma face de si mesmo, dele se apieda e o leva para casa de cômodos onde conhece Sônia, sua futura confidente, a primeira a quem o jovem confessará seu crime.

O livro segue no mesmo ritmo de acúmulo de misérias humanas que cercam Raskholnikov e atormentam-lhe o espírito. Sua irmã, Dunia, é perseguida pelo ex-patrão, o cruel e insaciávelSvidrigailov, que deseja seduzi-la, não uma, mas repetidas vezes.

Dunia, tanto quanto Sônia, busca o sacrifício por amor a seus familiares: a irmã de Raskholnikovpor meiodo casamento com um pretensioso senhor autoritário, Luznin,  a quem não ama, ao contrário, despreza, busca dinheiro para sustentar o irmão na ilusão dos futuros frutos de seus propalados estudos. No fundo, o casamento com Luznin é uma reprodução da prostituição a que se submete a filha de Marmiedalov.

Roskholnikov não aceita o sacrifício da irmã, odeia o prepotente Luznin. “O que lhe agradava acima de tudo era o fato de Dunia ser pobre, pois é preferível casar com uma mulher pobre para ter um total domínio sobre ela e poder sempre lançar-lhe no rosto que é nossa protegida.”Tudo se articula para que a mente do jovem busque “alguma solução imediata”. A situação é trabalhada por Dostoiévski na forma de um sonho terrível que Raskholnikov tem: um mujique açoita um cavalo que não consegue andar na lama, principia a tortura pelos olhos do animalaté matá-lo a chibatadas. “Num estado doentio os sonhos costumam distinguir-se pelo seu extraordinário colorido e clareza e pela estranha semelhança com a realidade.”

Uma conversa ouvida por acaso na rua informa-o de que a irmã da velha agiota não estará na casa no dia seguinte e isso o faz recordarde outra fala escutada ao acaso: “O que representa a vida de uma velha má e doente quando pesada na balança do bem da humanidade?”

Chegamos agora à tremenda cena do crime. O mais terrível é que depois que Raskholnikov mata a velha agiota, a irmã dela, Lisavieta, uma semi-idiota,retorna da rua e ele se sente obrigado a matá-la também.  A machadinha conseguida no prédio em que reside “cumpriu” um duplo assassinato. Mas a cena do crime envolve uma dissociação entre o ato-instrumento e o ato-criminoso, como se houvesse uma separação entre pensamento e ação, com Raskholnikov realizando um ato que faz parte de sua autoalienação, do inconsciente que, somente mais tarde, se tornará consciente. “Quando chegou a hora, tudo aconteceu como ele não tinha previsto, assim como por acidente, quase inesperadamente”, nos diz o narrador.

Após o assassinato, Raskholnikov transforma-se num amontoado de contradições, febres, sentimentos de ira, sonhos e alucinações, considerando-se ora um ser heroico, ora um verme.

Boa parte da investigação do duplo assassinato é conduzida por Porfiri, um juiz de instrução, outra das imortais criações do romance.  Só ao final,saberemos que Porfirijá suspeitava do assassino antes mesmo que o ato fosse perpetrado, ao ler uma crônica em que o jovem diz que “um homem excepcional tem o direito de cometer grandes crimes a favor da História e da humanidade”. Ele pergunta a Raskholnikovem uma das várias entrevistas que tiveram  “de que forma é possível identificar esse indivíduo? Ele tem um uniforme, uma marca especial?” Desse modo o juiz abala a autoimagem de arrogância daquele que se vê como um personagem “napoleônico”.

Porfiri é um interrogador moderno, especial, um psicólogo ao nível de um assassino também da modernidade, como Raskholnikov. Mas quem é a caça e quem é o caçador?

O leitor é envolvido à medida que o assassino vai traçando um círculo ao redor de si mesmo, sendo ele mesmo o próprio caçador. Se Porfiri já sabe a resposta, ele exige que Raskholnikov também a saiba e que descubra o seu próprio castigo na confissão.

Porfiri diz: “Esperei por você com impaciência, pois toda essa maldita psicologia é uma faca de dois gumes”. O crime, ele o diz, foi psicológico. O roubo praticado por Raskholnikov jamais seria encontrado pela polícia. O assassino jamais tocara em seus valores. Escondera-o e somente voltaria a buscá-lo para confessar o crime às autoridades.

A purgação do crime, seu castigo e a busca da redenção é um longo processo que o assassino deve assumir. Começa mesmo logo após o ato criminoso com pesadelos.

Ao ir à delegacia de polícia, pois fora denunciado por dívida pela dona da pensão onde reside, Raskholnikov ouve o falatório sobre o duplo assassinato das velhas e desmaia. Começa a visitar a cena do crime e a comentá-lo com amigos. Ao mesmo tempo afasta-se das pessoas e entra num mundo pavoroso de relações estranhas, de adversários e duplos, de acusados e acusadores. No seu inconscientedeseja que o inculpem pelo assassinato.

Divisa dois caminhos a seguir: a independência arrogante ou o arrependimento humilde. No primeiro estará em companhia do cínico Svidrigailov, que matara a própria esposa por dinheiro, “num desespero cínico” e, no segundo, na trilha de Sônia, a filha de Marmieladov, “a esperança mais irrealizável”.

Svidrigailov, aquele que considera o bem idêntico ao mal, após ouvir escondido a confissão de Raskholnikov a Sônia (hospedara-se na mesma espelunca que a moça e sua família), ainda tentará possuir Dunia à base da chantagem, mas ela não se entrega a sua bestialidade. Num último ato teatral, Svidrigailoventrega todo o seu dinheiro à Sônia e suicida-se com um tiro em frente a um soldado judeu postado numa torre de vigia.

Raskholnikov, ao contrário,buscará o caminho de Sônia, a meiga e compreensiva testemunha da confissão do jovem. A princípio irrita-se com sua simples fé religiosa e a boa vontade com que se sacrifica pelos outros, ou melhor, por quem ama. Termina em sua confissão por dizer que ao assassinar as velhas matara também a si próprio. Sônia lenta e pacientemente mostra-lhe o caminho da redenção que passa pela confissão pública do crime e por se ajoelhar e beijar o chão pelo qual passa a humanidade da qual ele se considerava um ser superior. Será essa maravilhosa mulher quem entrará com Raskholnikov na delegacia de polícia, e depois da condenação o acompanhará aos trabalhos forçados na Sibéria e tomará conta não somente do homem que ama como detodos os companheiros de infortúnio que estejam próximos.

No exílio siberiano, expresso no epílogo do romance, mantém-se todo o clima de crise psicológica. Raskholnikov se crê com a consciência livre de seus crimes, mas ainda mantém sonhos alucinados como os de uma peste que levará a humanidade à crença de que a libertação depende apenas dos próprios homens. Conservaseu orgulho intelectual e nega-se a ler com sua protetora a passagem bíblica do renascimento de Lázaro.

“Crime e Castigo”não éum romance totalmente concluso. Se por um lado Dunia encontra a felicidade ao lado de um ex-colega de faculdade do irmão, em relação a Raskholnikov, o parágrafo finalafirma que “ele terá que encontrar a regeneração em outro local, numa outra realidade até então por eledesconhecida”.

 

Recordação da Casa dos Mortos-um ensaio



Uma companhia toca insistentemente na madrugada primaveril de São Petersburgo; o ano é de 1849. O jovem Dostoiévski, em trajes de dormir, abre a porta de sua habitação espantado, tem medo. Espera-o uma mensagem de violência, de morte. Oficiais e cossacos entram, vasculham todo o simples quarto, levam consigo os papéis que encontram e, acorrentado,  o escritor que recém experimentara o sucesso com o seu romance Gente Humilde.

Durante os próximos oito meses ele vegetará preso em uma solitária na Fortaleza de Pedro e Paulo, sem processo formal ou noção do destino que o espera. Seu crime? Ele não o sabia ao certo, somente presumia. É verdade que participara de um grupo intelectual denominado “Círculo Petrashevski”. O grupo de estudos era dedicado à discussão sobre as condições de vida na Rússia, centrada em obras da biblioteca pertencente ao próprio Petrashevski,que continha livros proibidos pela censura. Também é certo que  Dostoiévski participava há três meses de uma organização radical secreta, liderada por Nikolai Spechniev. Essa sua associação, por sorte, jamais chegaria a ser descoberta pelas autoridades da época, somente vindo a público após a Revolução Socialista.

Afinal, a principal acusação que foi assacada contra Dostoiévski foi haver lido em público uma carta aberta do escritor social- revolucionário Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, na qual o autor de “Almas Mortas” era criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras.

O espectro das revoluções de 1848 assustava a Europa. Nicolau I ( o mesmo Czar que seria imortalizado por Tolstói no contoNicolas Palkine) mostrou-se temeroso de que qualquer organização clandestina poderia colocar em risco a autocracia, a exemplo do que ocorrera na França e Alemanha. Nada melhor que inventar uma conjuração contra o Império, denominando-a de “Conspiração Petrachevski”. Em 22 de dezembro, sem nem ao menos a pantomima de um julgamento, O Czar condena os acusados à pena de morte.

Ao amanhecer do dia seguinte, Dostoiévski e seus nove companheiros são retirados da cela e, no pátio de execuções, já amarrados a postes, têm os olhos vendados. Ouvem a leitura da sentença de condenação à morte e, em seguida, o rufar os tambores. O desespero de Dostoiévski e o desejo pela vida, congelam-se por um instante naquele cérebro colossal. O oficial que comanda o fuzilamento ordena o posicionamento, os recrutas apontam suas armas, mas a ordem de fogo não não é dada. A “maldade” do Czar montara a ópera bufa de uma farsa.

Os presos são desvendados e desamarrados. É lhes anunciada a graça, o perdão imperial; Nicolau I transformara a pena de morte em prisão com trabalhos forçados na Sibéria. A Dostoiévski couberam quatro longos anos de reclusão, que seriam seguidos por mais quatro de prestação de serviços ao exército, ainda na Sibéria.

A Bíblia é o único livro que lhe será permitido levar consigo no longo martírio que vivenciará na casa prisional siberiana, onde será  uma sombra entre as sombras, sem nome, apenas um número, esquecido dentre os “mortos sem sepultura”. Quando, chegando a Sibéria os soldados tiraram-lhe das pernas feridas as correntes que as prendiam, o condenado de vinte e oito anos perdera muito de sua saúde. Mas o que lhe permaneceria intocável e indestrutível era a alegria de viver, o desejo de escrever e de tudo anotar em sua prodigiosa memória para, um dia, servir-lhe, talvez catarticamente, de material de criação.

Em carta ao seu irmão, descrita em O Idiota, Dostoiévski comenta sobre o calvário vivido: “ Não me abati e nem senti desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora de nós. Ao meu lado há pessoas, e permanecer sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem e cair no desânimo- eis em que consiste a vida, em que consiste seu objetivo.”

Na “Casa dos Mortos” ele terá como companheiros de jornada criminosos, ladrões, pobres homens do povo que um dia haviam se revoltado contra a fome, alguns aristocratas degradados e uns poucos presos políticos, aliás como ele próprio. Logo descobrirá que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que vivenciara do lado de fora. Ele relatará como os camponeses zombavam dos intelectuais, por sua falta de destreza física nos trabalhos forçados, pois ao fim e ao cabo, embora todos comungassem do mesmo pão amargo, carregando pedras, telhas, limpando neve, cortando madeira, cortando rochas, aos “nobres” cabiam os trabalhos não tão rigorosos.

“Estou no presídio e esta vai ser minha vida por anos, o lugar em que irei sentir tão inverossímeis, tão mórbidas impressões. E quem sabe, ao deixá-la sinta saudades – com uma mescla dessa maliciosa impressão que as vezes degenera na necessidade de remexermos propositalmente na ferida, pelo desejo de distrairmo-nos com nosso próprio sofrimento, reconhecendo que no exagero de toda infelicidade há também prazer”.

Suas “Recordações”  serão uma coletânea interminável de suplícios físicos e psíquicos que o poder, através de seus esbirros, aplica aos pobres condenados. Afinal, “os presídios e o sistema de trabalhos forçados não melhoram os delinquentes, aos quais apenas castigam”. Presídios nada mais são que depósitos de escravos a serem destruídos física ou espiritualmente; uma forma clara de sinalizar aos marginalizados do processo econômico e político o que os aguarda se transgredirem certas normas.

A mesma forma de exercer o poder que nos transporta ao mal que varreria o século XX chegando aos dias de hoje: a tortura generalizada contra os pobres marginalizados, a morte banal, os campos de concentração e extermínio, presídios e casas de detenção onde “o mal radical”, que no dizer de Immmanuel Kant, destrói e aniquila não somente suas vítimas diretas, mas também os meios com que poderiam tentar reagir a ele.

“Não é em vão que em toda a Rússia, o povo chama desgraça ao crime e desgraçado ao criminoso”, nos relata o sensível narrador.

Os torturadores

Como “quase todas as manifestações espontâneas da personalidade de um preso são consideradas como crime”, os motivos para a tortura e aniquilação física de um prisioneiro na Casa dos Mortos são banais. Como concluiria  Arendt, um século após, o mal radical, descrito por Kant  e a banalidade do mal têm o mesmo significado, pois dizem respeito ao mesmo fenômeno: os das massas tornadas supérfluas, quando os seres humanos na sua distinção, singulariedade e plurariedade se tornam supérfluos. E quem é mais supérfluo que um presidiário pobre e esquecido?

Dostoiévsk, em 1856, escreveu: “A natureza do verdugo encontra-se em germe em quase todo homem contemporâneo. Mas as qualidades brutais do homem não se desenvolvem por igual.” Hanna Arendt identificaria em todo ser humano, onde não se desenvolva a capacidade de pensar, um potencial para o genocídio.

O narrador identifica dentre os torturadores dois tipos de verdugos: os voluntários e os obrigados por força burocrática. “O verdugo voluntário é, sob todos os aspectos muito pior que o obrigado…”.

O verdugo que age por “dever de ofício”, embora o bater lhe cause algum nível de prazer, não sente nenhum ódio supérfluo contra a vítima. Ele se esmera na destreza do golpe, no conhecimento do ofício, “em seu desejo de destacar-se ante os seus camaradas que esporeiam o amor-próprio”. “Esse torturador “de ofício” esforça-se na função pois sabe muito bem que é um réprobo para a sociedade, que em todos os lados encontrará um terror supersticioso que o seguirá por toda a parte e que isto tem sobre ele a influência de fomentar o seu ardor, as suas inclinações bestiais”.

Quando Dostoiévski refere-se aos verdugos voluntários, ele força nas tintas e os compara a “tigres ávidos de beber sangue humano”.  São seres sádicos, psicopatas no melhor estilo do mundo do Marquês de Sade, que saem da literatura instalam-se no mundo real.

Independentemente do gênero de torturadores ao final, “quem exerceu esse poder, esse ilimitado domínio sobre o corpo e a alma de um semelhante seu, de uma criatura; quem conheceu o poder e a plena faculdade de infligir a suprema humilhação a outro ser, que traz em si a imagem de Deus- converte-se em um escravo de suas sensações.”

A tirania torna-se um costume que possui a faculdade de desenvolver-se e degenerar-se numa doença. “O melhor dos homens pode embrutecer-se e, embora por efeito do hábito, descer ao nível de uma fera enlouquecida”.

“Seja como for, o verdugo antes do castigo, encontra-se em excitação, sente a força que possui, reconhece-se poderoso; nesse minuto é um ator: o público admira-o e teme-o e é com prazer que ele grita para a pobre vítima antes de comandar o espancamento: “aguenta que queima”. Custa a acreditar a que ponto pode corromper-se a natureza humana!”

Sartre, ao referir-se ao processo de torturas a que o Exército Francês submeteria o povo argelino nos anos 50 do século XX, disse: “ A tortura não é desumana; ela é simplesmente um crime ignóbil, crapuloso, cometido por homens e que os demais homens podem e devem reprimir. O desumano não existe em nenhuma parte, exceto nos pesadelos que o medo engendra.”

Na rotina da  Casa dos Mortos o poder absoluto sobre o outro ser destrói o escravo e modifica o seu senhor: “O sangue e o poder embriagam, engendram o embrutecimento, a insensibilidade, de tal forma que a inteligência e o sentimento acabam por achar aquilo natural e, por fim, aprazíveis as manifestações de anormalidade. O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano; é lhe quase impossível regressar à dignidade humana, ao arrependimento, a uma nova vida.”

Dostoiévski, a seguir, detém-se na descrição do comandante do presídio, um Major do Exército: “A um homem como ele era absolutamente necessário oprimir sempre alguém, tirar algo qualquer de um outro, despojar um terceiro de seus direitos, em suma, alterar a ordem de qualquer maneira”. O castigo fez-se para a insolência- assim pensam esses indivíduos- Estes inflexíveis cumpridores da lei não compreendem que a sua aplicação estrita, sem discernimento, nem compreensão da sua alma, conduz diretamente à desordem.” E o comandante vivia com toda a sua família num anexo do Presídio, de tal forma se sentia um “fiel cumpridor das regras”, um “homem de bem”.

Um segundo personagem é escrutinado, o chefe de disciplina, um tenente. Dostoiévski incorpora ao tipo físico nauseabundo uma personalidade pervertida: “era um homem de uns trinta anos, de estatura mediana, gordo, com umas bochechas coradas, regurgitando de gordura, uma dentadura enorme e um sorriso ameaçador, inquietante. Gostava muito de castigos, de dar pauladas, excitava-se quando era designado como executor. O tenente era comparável a um gastrônomo refinado na sua maneira de ser carrasco. Gostava imensamente da arte de ser verdugo e amava-a como uma arte. Deleitava-se e como um patrício do Império Romano enfastiado pelos prazeres e inventava vários requintes, várias modalidades antinaturais, com o fim excitar-se um pouco e de fazer agradáveis cócegas na sua alma atafulhada de gordura”.

A visão do autor de Recordações da Casa dos Mortos sobre a tortura é perene, atual e de certa forma, sinaliza a transformação social radical pela qual passaria a Rússia meio século depois: “ A sociedade que contempla com indiferença esse espetáculo está minada pela base. Em resumo: o direito de impor castigos corporais, outorgados a uns sobre os outros, é uma das pragas da sociedade, um dos meios mais poderosos para aniquilar nela todo germe de civilidade e a base completa para a sua dissolução inevitável e infalível.”

A respeito dos torturados

Todos os condenados, por mais temerários  e duros que sejam, têm medo de tudo num presídio. “Quanto o preso está por sofrer um castigo, esse é um outro caso. Não há dúvida alguma  que os momentos que antecedem o castigo são terríveis para o presidiário…” Os réus quando eram castigados deviam, infalivelmente, gritar e perdir compaixão ao verdugo, sob pena de que aplicassem mais força às varas de suplício.

“Esforçava-me por imaginar o estado psíquico daqueles que se encaminhavam para o suplício. Disse já que, perante o castigo, raro era aquele que conservava o sangue frio. Quase sempre o condenado sentia um medo terrível, puramente físico, involuntário, e inevitável, que afetava todo o ser moral da criatura.”

O narrador descreve dezenas de desgraçados condenados a morrer sob a vergasta e a ação reservada ao médico do presídio, no processo da tortura: “O médico só mandou suspender a execução quando viu que se prolongassem o suplício, o sentenciado corria o risco de morte”. A continuidade da tortura far-se-ia após a recuperação física do sentenciado.“Quando por acaso a pessoa encontrava presos sentenciados à espera do retorno à tortura, jamais se esqueceria  dos rostos espantados, consumidos e pálidos, de seus olhares de delírio.”

Um delator

Quando Dostoiévski se debruça na análise de um delator, é enorme o desprezo que flui de sua pena: “Ele (o delator) não era mais que um pedaço de carne com dentes e estômago e com uma sede insaciável dos mais grosseiros e bestiais prazeres carnais. Era capaz de matar e assassinar a sangue frio conquanto aquilo lhe proporcionasse satisfação do mais repelente e caprichoso dos prazeres. Era um exemplo daquilo a que pode chegar um homem quando não é, interiormente, obstado por nenhuma norma, nenhuma lei. Como me repugnava aquele eterno sorrizo trocista daquele quasímodo moral, daquele monstro.”

Conclusão

Anos após o exílio forçado na Sibéria, Dostoiévski retornaria a Petersburgo e editaria seu romance semi auto-biográfico Recordações da Casa dos MortosComo os ex-forçados eram proibidos de escrever memórias e relatos, Dostoiévski disfarçou a obra como ficção, dizendo-a ser o diário de um homem preso por assassinar a esposa em crise de ciúmes. O romance causou tal impacto na Rússia, que até mesmo o próprio Czar Nicolau I mandou que se divulgasse que ele havia chorado ao lê-lo. O caminho de  Dostoiévski como escritor de prestígio acabava de abrir-se e o genocídio praticado na Sibéria, ganhava pela primeira vez, seu lugar na literatura.

 

O Eterno Marido



Trata-se de um dos romances mais curtos da maturidade de Dostoiévski, escrito em apenas três meses, vindo à luz em 1870. Muitos dos temas mais caros ao autor estão nele referidos de uma maneira compacta: o mau trato a crianças no interior dos lares, o tormento psicológico carregado de culpas, as figuras jocosas e ao mesmo tempo trágicas de um “eterno marido”, daqueles que chegam ao extremo da degradação humana sem conseguir “curarem-se”.

Em poucos de seus tantos escritos, observamos um Dostoiévski mais livre, sarcástico, irônico e por que não, bem humorado. Ele vivia uma realidade pessoal de todo modo nova: seu casamento com Ana Grigorievna era harmonioso e ela engravidara pela segunda vez; sentia saudades da Pátria, pois residia em Dresden (fugira da Rússia devido às dívidas que poderiam levá-lo à cadeia), mas em compensação nem os credores, nem os censores oficiais lhe batiam à porta. Há algum tempo também deixara as roletas e os baralhos, considerando-se curado do antigo vício do jogo.

I. O Eterno Marido insere-se num ambiente de costumes sociais e literários em mutação.

O “eterno marido” é aquele que complementa a mulher, numa inversão da moral corrente da mulher submissa, a esposa socialmente aceita.

A grande Revolução Francesa de 1789 erguera a mulher-cidadã ao mesmo patamar do homem-cidadão. A Restauração pós-napoleônica, entretanto, fizera a condição feminina retroagir a antes da revolução burguesa: submissão ao marido, mulher objeto, esposa decorativa e procriadora. Somente após 1830, ao mesmo tempo em que na Europa ocorre um abrandamento da repressão política, gradualmente, a mulher irá reiniciar um longo processo de reconquista de seus direitos.

Na literatura, Balzac, idolatrado por Dostoiévski, foi entre os anos 1830/ 1840 o primeiro a romper com as cortinas da hipocrisia. O “ciclo de Vautrin”, nas Ilusões Perdidas, apodera-se da homossexualidade masculina e define um perfil de mulher que se torna independente do machismo dominante. Em Pai Goriot a mulher busca seu futuro à custa do antigo terror familiar - um “eterno pai” tornado “manso” e escravizado pela ambição filial. Em A menina dos olhos de ouro, Balzac expõe a homossexualidade feminina, no que é seguido, em 1850, pelo próprio Dostoiévski com Nietochka Nezvanova.

Flaubert, em 1857, rompe radicalmente com os preconceitos e padrões sociais e Madame Bovary, durante dez anos censurado na França, é a mulher que escolhe seus amantes. Carlos Bovary prenuncia o “eterno marido” de Dostoiévski, com treze anos de antecipação.

Do outro lado do mundo, em Norte América, Hawthorne publica A letra escarlate, ou a mulher que ousa ter um filho fora do casamento, acoberta o amante e cria a criança, enfrentando todo o puritanismo do século anterior, mesmo às custas da letra A, de adúltera, bordada em vermelho sobre a camisa (vide A letra escarlate http://proust.net.br/blog/?p=349).

Após O Eterno Marido, Tolstói, em 1877, tornará o mundo estupefato com Anna Karenina, a mulher que não somente escolhe seu amante, como se separa do marido, obrigada a deixar-lhe o filho amado, busca na droga um refúgio ao seu desespero e, finalmente, exerce a suprema liberdade do suicídio.

O Eterno Marido transfere às suas mulheres dons tidos como masculinos. O caráter decidido e dominador de sua esposa faz com que as infidelidades femininas jamais pesem na consciência dela. A esposa do “eterno marido” o trai com os amigos em comum, estando sempre pronta a “denunciar a depravação dos costumes, jamais a sua própria”.

II. O Eterno Marido carrega alguns traços biográficos de seu autor.

Quando condenado pelo czarismo a trabalhos forçados na Sibéria, ele realizara um primeiro casamento com a viúva de um amigo, Maria Dmitrievna, construindo um relacionamento conflituoso. Na própria noite de núpcias Dostoiévski fora acometido por ataque epilético que, desde então, o perseguiria por toda a vida. Infeliz na relação, ele apaixonou-se por Suslova, uma estudante de dezesseis anos e enveredou pelo mundo do jogo. Suslova logo o trocou por outro amante e ele voltou para Maria Dmitrievna, uma agonizante pela tísica. Em seu leito de morte, com muito ódio, confessa-lhe que sempre o havia traído, até mesmo na noite de núpcias que não chegara a se consumar.

Desde a morte da esposa, Dostoiévski agita-se na degradação espiritual das salas de jogo onde todo o dinheiro que consegue com seus livros, perde nas cartas ou é extorquido por seus parentes. Somente anos após, aos quarenta e quatro anos de idade, conhecerá Anna Grigorievna, a estenógrafa, por quem se apaixonará e que desposará, redimindo-se do inferno das jogatinas.

A mulher de Trusotski, O Eterno Marido, sempre o traíra. Será após sua morte, por tísica, que o marido descobrirá um pequeno cofrinho (um substituto do coração de Maria Dmitrievna) e nele as correspondências trocadas entre ela e os seus ex-amantes. Também fará a tremenda descoberta de que Lisa, a filha que tanto amava, não era biologicamente sua, mas de Vielthananinov, ex-amante da falecida e amigo do pobre Trusotski.

Desde então, ao saber que seu lar alicerçava-se na mentira, o “eterno marido” desmorona em vícios. Abandona suas posses (era um homem rico) e sua cidade - que o autor chama de “A Mentira” e vai residir em um pardieiro de Petersburgo, numa das famosas “dvorniks” presentes em todas as obras de Dostoiévski. Entrega-se ao alcoolismo, busca aventuras com as prostitutas que estejam ao seu alcance, passa a atormentar a pobre criança que trouxera consigo, desejando destruí-la numa contrapartida de sua própria degradação. Torna-se, enfim, um homem sórdido.

Numa atitude ambígua, anseia por encontrar e conviver com os amantes de sua falecida mulher. Veltchaninov é um homem bonito em seus quarenta anos, hipocondríaco, niilista, que leva uma vida de esbanjamento e desregramentos. Está ao alcance de embolsar uma terceira herança quando Trusotski volta à sua vida, depois de dez anos. No “dvornik” onde estão hospedados pai e Lisa, Veltchaninov tem a certeza de que a menina é sua filha. Ele se encanta com a garota e encontra um objetivo para viver. Ainda nesse reencontro, percebe que Lisa está atormentada e propõe a Pavel Trusotski que a deixe com uma família conhecida sua para que ela se recomponha. Isso não impedirá a morte da criança, vítima de uma febre desconhecida.

Após a morte da criança, Trusotski, com seus sessenta anos, volta à casa de Veltchaninov e anuncia que vai se casar com uma jovem de quinze anos e convida o amigo para acompanhá-lo à casa da noiva. Prepara-se para encenar pela segunda vez o “eterno marido”. Mas a tentativa soçobra.

Passam-se dois anos e eles se reencontram, agora, num trem. Veltchaninov, curado de sua hipocondria, defende uma jovem e atraente mulher de uma humilhação. Os dois conversam e ela o convida para uma visita em sua casa. Nesse momento, ela apresenta seu marido, ninguém menos que Trusotski. Espantado ao ver o ex-amante de sua primeira esposa, e pela maneira doce com que sua atual mulher trata um estranho, ele se sente ameaçado novamente pelo antigo conhecido. Mas para Veltchaninov não lhe interessa a reprise de uma tragicomédia  conhecida.

III.  Chaves para a compreensão de “O Eterno Marido”.

Primeira:  A Vielthananinov, Trusotski reproduz Homero quando diz na Ilíada:

“Acabou Pátroclo, o vil Tersites ainda vive”.

O belo Pátroclo, o nobre, o amante de Aquiles, foi morto em luta franca com Heitor, às portas de Troia. Teve, portanto, uma “kallos thanatoi”, uma bela morte, a mesma de Bagautov, outro amante de sua falecida esposa.

Tersites não tinha “aristoi”, era plebeu, feio, envelhecido, será espancado por Agamêmnon e implorará pela vida. Sofrerá uma morte degradante estrangulado pelas mãos de Aquiles. O grande herói grego será flagrado por Tersites justamente na hora em que tem uma relação necrófila com o cadáver de Pentisileia, pelo próprio Aquiles morta em batalha. Tersites perde a crença na “aristoi” e ri, motivo suficiente para provocar o assassinato.

Trusotski, o Tersites Dostoiévskiano, sente-se vil, degradara-se a ponto de tentar a morte numa forca improvisada, mas que desmorona.

A degradação moral tanto em Dostoiévski, quanto em Shakespeare, ocorre quando se perde a crença, quer seja numa ideologia, numa pessoa ou numa instituição como o casamento. Otelo não assassina Desdêmona por ciúmes, mas pela quebra de uma crença, de um ideal. Dostoiéviski ao nos expor seu “eterno marido” o apresenta não como um ciumento, mas como um homem que perdera a crença.

O Tersites de Dostoiévski não satisfeito com a primeira experiência de desposar mulheres bonitas e sem dotes financeiros, extremamente mais jovens que ele mesmo, ainda voltará a casar-se e experimentará a “cegueira” de seguir não vendo ao seu lado os amantes de sua futura mulher.

Segunda: Vielthananinov sofre a culpa de ter deixado a amante grávida, mas seu sofrimento caracterizado pela depressão e pela hipocondríase são inconscientes. O niilismo que o invade possui sua chave na citação realizada pelo autor sobre Turguêniev ( autor de Pais e Filhos http://proust.net.br/blog/?p=648).

Apenas quando toma conhecimento da existência da pequena Lisa, que é torturada por quem ela crê ser seu pai, é que se inicia a sua “katarsis”. Novamente, a aquisição da consciência ocorre através da dor. Depois de retirá-la das mãos do padrasto e levá-la para um lugar seguro, Vielthananinov se sentirá renascer somente após toda a dor que lhe trás a morte da pequena filha que jamais soube que ele era o seu pai.

Terceira: O beijo e a navalha. Trusotski aproxima-se do ex-amante da mulher e pai de Lisa buscando encontrar aquele que se fizera amar por sua falecida esposa, de certa forma admira-o porque Vielthananinov jamais se sujeitaria cumprir um papel de “eterno marido”. Por esse motivo o beija na mesma noite em que, com uma navalha improvisada, tentará assassiná-lo. O assassinato estava no subconsciente de Trusotski e ele só o descobriu quando se aproximava do rival que dormia. A tentativa de assassinato faz com que Vielthananinov sinta-se redimido de suas culpas.

Quarta: O “eterno marido” é como “o cão que guarda o feno”. Não come e não quer conscientemente permitir que outros o façam, mas no que é traído por seu subconsciente. Ele permite à mulher uma vida socialmente cômoda, assim como a aproximação de rapazes mais jovens, mas mantém-se vigilante quanto ao feno.

Quinta: A música de Glinka. Na festa de Nádia, a pretensa noiva de quinze anos de Trusotski, ela canta Glinka, principal representante da música folclórica russa. Glinka, o autor da ópera “A vida pelo Czar”, expressa o eslavismo de Dostoiévski e manifesta a nostalgia do exílio em que vivia.

Conclusão: O Eterno Marido é um romance extremamente envolvente e que nos surpreende a cada momento. É uma pequena obra-prima que muitos críticos, como André Gide, consideram um dos mais bem acabados romances curtos de Dostoiévski. 

O Crocodilo



"O crocodilo", escrito em 1864, é um conto satírico sobre o comportamento da burocracia estatal e do funcionário público engolido pela máquina.

O momento político-econômico  é o da inserção da Rússia agrária no capitalismo, refletindo as profundas contradições entre aqueles que defendiam o “progresso do ocidente”, com a entrada do capital estrangeiro para a exploração das riquezas russas e a criação de sua própria burguesia e os “conservadores”, que buscavam uma solução originalmente russa para os problemas russos.

Dostoiévski, pese seu conservadorismo, era absolutamente anticapitalista e na sua ambiguidade via na importação dos hábitos ocidentais e no avanço do capital estrangeiro, os maiores riscos para os “humilhados e ofendidos” da Rússia.

Sob enorme influência dos “Contos Fantásticos” de Hoffmann, através de “O crocodilo”, um conto inacabado, onde Dostoievski assinala uma nova senda literária, o Surrealismo, ao qual  recorrerá Kafka, após cinquenta anos, ao escrever sua “Metamorfose”.

Não por mera coincidência, logo no ano seguinte, o grande mestre escreveria um  outro conto, “O homem do subterrâneo”, que sem dúvida consubstancia a obra inaugural do Existencialismo Moderno.

No "O crocodilo", um mero funcionário público, com passagem marcada para uma viagem pela Europa que faria com a esposa, vai, por insistência desta, a uma exposição de animais organizada por um alemão. Basta um pequeno descuido e o crocodilo, imóvel em sua bacia, engole o rapaz, que, entretanto, não morre, mas encontra abrigo numa enorme barriga extensível e de lá principia a filosofar, a sonhar e a acreditar-se um “ser superior”.

O ambiente político e social

Sob o czar Nicolau I (denominado por Tolstoi de Nicolau “Palkine”, o espancador), Dostoievski envolveu-se no grupo Petrachevski, de contestação humanística e literária ao regime. Era o ano de 1848, aquele que foi marcado pelas sublevações em toda a Europa, denominado de “A Primavera dos Povos”, marcado pelo lançamento do Manifesto Comunista, por Marx e Engels.

Na Rússia, o país mais atrasado de toda a Europa, aumentaram as perseguições aos revoltosos e aos intelectuais que clamam por reformas liberalizantes, como a libertação dos servos, a abolição dos castigos corporais e o absolutismo czarista.

Em abril de 1849 Dostoievski e todo o seu grupo são presos. Condenado à morte, na hora da execução esta foi comutada para trabalhos forçados, o escritor sofrerá durante nove anos na Sibéria, quatro dois quais sob trabalhos forçados. Seu retorno a Petrogrado ocorrerá somente em 1859.

Em 1863 a Rússia entrou em guerra contra uma coligação formada pela França, Prússia e Inglaterra, na chamada Guerra da Criméia, que permitiria a seu vencedor o controle do Mar Negro. Ela termina em 1858, com a derrota dos russos.

Durante a guerra, faleceria Nicolau I, em 1855, tendo sido sucedido por Alexandre II.

As crises política e econômica forçam o czarismo a realizar, pela primeira vez a algumas reformas como:

Abolição gradual da servidão, processo que graças às altas indenizações a serem pagas pelos ex-servos, demoraria mais que vinte anos para se consolidar. Logo, os camponeses, nominalmente libertos, ficaram economicamente dependentes dos senhores feudais.

Organização de governos locais, os zemtvos, ou assembléias, sempre comandadas pela aristocracia e dependentes de sanções centrais.

Reforma judicial com criação de tribunais especiais para camponeses, com jurados e juízes eleitos.

Reformas no Exército, com a redução do castigo por chibatadas imposto aos soldados, que não raro os levavam à morte. Ao mesmo tempo, institui-se o Serviço Militar Obrigatório (uma das mães dos males modernos, segundo Tolstoi).

De todo os modos, a reforma de Alexandre II, apesar de modesta, foi uma prova evidente de que o paquiderme- crocodilo do Estado Czarista poderia mover-se. E é nessa conjuntura que surge “O crocodilo”.

O escritor

Os anos de 1859 a 1865 foram transformadores para Dostoievski. Ao retornar do exílio a Petersburgo, junto com seu irmão Mikhail, fundou a Revista “O tempo”, cujas páginas definirão seus pensamentos sobre os destinos da Rússia. Em “O tempo” será também publicado, em forma de folhetim, “Humilhados e ofendidos”.

Em 1862, pela primeira vez, aos quarenta e um anos de idade, Fiodor viajará à Europa onde descobrirá duas paixões: uma pela roleta e outra por Pauline Suslova, uma estudante russa liberada de preconceitos, que pousava de intelectual. Suslova com seus dezesseis anos torna-se amante do escritor que principiava a ser famoso. Mas a paixão de Dostoievski não era correspondida pela jovem; troca-o por um novo amante e ele, um ano após a partida, retorna à Rússia.

Em Petrogrado aguarda-o a esposa tuberculosa Maria Dmitrievna, com quem mantinha uma relação tão somente de amizade. Logo após, falece seu irmão Mikhail, e a revista “O tempo”, é fechada pela censura.

Abre uma nova Revista “A época”. Mas o destino reserva-lhe um tempo de profunda solidão. Em 1864 falece a enfermiça Maria Dmitrievna. O escritor, que sempre teve enormes problemas de relacionamentos interpessoais encontra-se totalmente só, com dívidas e, tendo de cuidar do sustento de si mesmo, da família do irmão morto e de um enteado.

É quando escreve “O homem do subterrâneo”, uma obra de um pessimismo azedo, anti-racionalista, com enorme influência de seu estado de espírito depressivo e absoluto isolamento, logo após o seu trabalho mais irônico: “O crocodilo”, princípio da fase de maturidade criativa.

"O crocodilo"

Dostoievski é o escritor-filósofo por excelência. A grande força de sua obra é dada pela intensidade dramática e ficcional de suas idéias, idéias que deixam de ser puramente abstratas e transformam-se sempre em algo vivo tão carnal quanto o possa ser um crocodilo, um funcionário público, sua mulher “deliciosa” e um alemão com sua “mutter”.

O crocodilo é o animal de estimação do estrangeiro, um alemão, próprio para exibições públicas, e ele possui um nome e goza do status de filho. Quando engole o pobre funcionário Ivan, o alemão teme pela saúde do paquiderme e brada por indenização, enquanto a esposa “bombom” do funcionário, grita para que se retire do animal o marido engolido.

Mas ninguém a acompanha nessa pressão contra o proprietário, pelo contrário, ela é até mesmo ameaçada de maldição pela “Crônica do Progresso”.

A surpresa surge quando o engolido fala de dentro do crocodilo e declara estar muito bem e que lá poderia viver pelos próximos mil anos. Ele e o crocodilo tornam-se uma atração pública e o preço do ingresso cobrado pelo alemão para a visitação pública quintuplica. Diz o funcionário de dentro de sua maquinaria: “É preciso considerar as coisas do ponto de vista econômico.”

O capitalista com sua engenhoca já se crê um futuro milionário, enquanto o funcionário engolido apesar de estar preocupado em como será visto pelos chefes “o contratempo de estar na barriga do paquiderme”, sonha com a fama, e em seu delírio já se descortina dentre Ministros de Estados, aconselhando-os, participando de dentro do crocodilo em um Salão Mundano a ser inaugurado, com toda a pompa burguesa, por sua esposa, a doce e volúvel Eliena.

Após o susto inicial, Eliena, a mulher bombom, preocupa-se apenas consigo mesma, com o divórcio e em como ficará a pensão do marido. Ela se ocidentalizou, perdeu as perspectivas da mulher russa. Na mesma noite do infortúnio do marido, diverte-se em um baile de máscaras, mantendo próximo a si um amante. Dostoievski, rejeitado pela linda e volúvel Pauline Suslova na vida real, espelha nela a Eliena de seu conto.

O narrador, amigo de Ivan e como o ele mesmo funcionário público, corre atrás de um colega mais experiente, Timofei. Mas dele não ouve nenhum tipo de indignação pelo fato de Ivan ter sido engolido pela máquina, afinal, por que tanto espanto “por algo tão normal?”

Timofei vai além, fala do alemão como o agente indispensável para o progresso, que o aporte de capital estrangeiro deveria ser tal que todas as terras russas pudessem ser por ele compradas e com lucro, posteriormente divididas, exterminando-se as propriedades comunitárias, tão pouco produtivas.

No entanto, o delírio do pequeno funcionário público engolido não cessa. “Desse crocodilo sairão a verdade e a luz”. Reconhece claramente que o crocodilo, por ser oco, tem uma única função: “engolir homens”.

O amigo do engolido ainda possui algumas esperanças em artigos sobre o amigo que possam surgir na Imprensa. Nova decepção! A “Folha” publicou o assunto de uma maneira tão destorcida que levava o leitor a crer que um grande glutão ingerira num banquete pedaços do crocodilo em exibição.

Outro jornal, “O Cabelo”, estampou: “Um estrangeiro, dono de um crocodilo, chega a nosso país para exibir seu animal. Apressamo-nos a saudar um novo ramo de indústria de que carecia a nossa pátria... Pois bem, ontem entra no local da exibição um homem muito gordo e embriagado e foi se meter justo na goela do animal que não tinha outra coisa a fazer senão engoli-lo. Nem os gritos do domador, nem os da polícia, conseguiram acordá-lo... e o pobre ‘mamífero’, desfazia-se em lágrimas inúteis por ser obrigado a engolir um intruso que dali não queria sair”.

Dostoiveski, na voz do jornal proclama ser o paquiderme um “mamífero”. Muitos viram nisso um erro do escritor pelo pouco contato com os filhos do “reino dos Faraós”. Ora, que melhor cognome para a máquina que engole seres humanos que não o de “mamífero”?

O amigo do engolido sente-se estupefato com a insensibilidade geral, mas afinal, a não ser para o próprio pequeno funcionário que se sente enaltecido  na barriga do paquiderme, quem por ele se importa?

Tornou-se apenas um insignificante parafuso da máquina que engole gente, a burocracia estatal!

“Krotkaia”ou “A esposa dócil”



Escrito em 1875, logo após “Notas do Subsolo”, "Krotkaia" nos aporta uma problemática atualíssima na relação a dois: a fatalidade humana ligada ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, à arrogância, à mesquinhez, a opiniões e idéias que exigem meios ilícitos e sacrifícios dentro de uma relação conjugal.

Em Dostoievski, escritor existencialista com quase um século de antecipação,  o homem e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos são o eixo do universo, em conformidade com Sartre: “A existência precede e governa a essência”.

Pouco antes da primeira publicação de “Krotkaia”, ele redige no seu “Diário de um escritor” comentários a respeito de uma notícia jornalística: uma costureira, recém-casada,  atingida pela miséria, suicidara-se em Moscou, jogando-se da janela de um alto edifício, agarrada a uma imagem da Virgem. Em vez de um bilhete de despedida, um ícone sagrado. Era o mote do qual se originaria “Krotkaia”.

O conto consiste em um monólogo interior de um homem diante da esposa morta, que se jogara da janela do quarto, suicidando-se agarrada a um ícone.

Ele, nobre, Ela, plebéia. Ela, dezesseis anos, Ele, quarenta e um. Ele é um homem solitário, autoritário, articulador, vive da usura e do penhor (Dostoievski, por tanto depender dos “penhoristas”, odiava-os), com passado desdenhado pelos que o conhecem (covardia num duelo, expulsão do regimento, decadência moral e financeira da qual fora salvo por uma herança), contumaz no jogo do silêncio, da sedução e da contradição.

Ela, uma professora desempregada, órfã, miserável, submissa, com arroubos doentios, arvora-se “o direito de amar”; ignorando muito da vida adquiriu convicções gratuitas, sendo ao mesmo tempo dócil e submissa,  podendo chegar à tirana impetuosa, agressiva e desvairada, nervosa e histérica. Vive assustada, pensativa, e está para ser “vendida” pelas tias para um gordo comerciante de mais de cincoenta anos.

A busca desesperada por emprego leva-a a realizar anúncios em jornais, e, para tal, ela penhora o pouco que possui. Por último lhe restará um ícone com o qual um dia morrerá abraçada. Chega ao escritório do Narrador. O início da relação surge. Utilizando-se da fraqueza financeira da moça miserável, o agiota “culto” decide se impor como gerenciador do casamento e dos sentimentos da ingênua moça. “Compra-a” em casamento e tira-a, da casa das tias. Parodiando Mefistófeles de Goethe, Ele lhe diz: “Eu, sou aquela parte do todo que quer fazer o mal, mas cria o bem”.

“ O senhor é um salvador, caiu do céu, obrigada por estar levando a senhorinha”, confessa-lhe uma das tias.

Após o casamento, o casal irá residir no quarto anexo à casa de penhores. Ele possui um ideal: juntar dinheiro em três anos para libertar-se da profissão que o oprime, de um mundo que despreza e onde odeia estar.

Sequencialmente, na vida a dois, encontraremos tanto a submissão e dominação da esposa, quanto a transgressão e a rebeldia. No princípio era ele quem ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se tirano com uma moça doce, mansa e angelical, mas não conseguia mudar de atitude. Esta é uma das contradições que Dostoievski trabalha: o homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, seu instinto e suas ações.

“As pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo, mais coisas dizem; basta não os cansar, se você quer conseguir algo.”

Krotkaia é iniciada na profissão do marido e nesse “ritual de iniciação” aprende a atirar com uma arma de fogo. Seguem-se uma longa série de acontecimentos que contribuem para aumentar as tensões cotidianas do casal. A mesquinhez do agiota, a dependência financeira da esposa, a discordância na avaliação dos penhores, os arroubos de Krotkaia na tentativa de enlace afetivo, o silêncio que se estabelece entre ambos, a rebeldia da moça, o encontro secreto que ela buscará com um inimigo do marido.

No desenvolver dos acontecimentos, o tirano enfrentará dificuldades para submeter a esposa, pois a jovem o enfrenta com desdém, principalmente com seu silêncio (embora ele se autodenomine “mestre na arte de falar em silêncio”).

Será como numa peripécia que ela se transformará: de dócil, em algoz e tirânica criatura. A esposa “dócil” irá torna-se impetuosa, orgulhosa, temperamental, e dentro do silêncio compartido, as relações tornam-se cada vez mais extremas e agudas. As desavenças, as diferenças, a severidade, o enigma, o dinheiro, as pequenas intrigas, a verdade sobre o passado, as mentiras, a revolta, a desconfiança sobre uma suposta traição, a recusa do marido ao duelo com o rival, levam ao extremo aquela esposa que passa a desejar a morte de seu antigo Herói e "salvador", quando a docilidade ceder o lugar à ferocidade.

A intensidade psicológica da narrativa ganha força extrema, pois as desconfianças e conclusões do Narrador redobram na busca de explicações para seu relacionamento e sua “tática” para voltar a ter o domínio perdido da esposa e, desta maneira, manter a função de marido dentro de um contexto social. A moça por sua vez, busca a desordem e vira tudo pelo avesso.

Ela decide-se por um encontro secreto com o grande inimigo do marido, aquele que o fizera abandonar a carreira militar. Uma das tias, entretanto, vende o segredo ao narrador, graças (como sempre), a um bilhete extraviado. No momento do encontro ele se coloca à espreita no quarto ao lado da casa de rendez-vous. Mas Krotkaia não tem coragem suficiente para ir até o final. Não se entrega e é aqui que se revela toda a sua inteligência e astúcia feminina. O marido que a tudo escuta surpreende-se: viera para flagrá-la na traição e redescobre uma mulher que nada mais tinha a ver com a moça de dezesseis anos. Ele a tira das mãos do rival-inimigo, mas sua covardia o impede de bater-se em duelo. Ela que já o desprezava, a partir deste momento passa a odiá-lo e a si própria por não ter conseguido se entregar à aventura amorosa.

Domínio, revolta e liberdade são os contrapontos de todo o grande conflito. A cena seguinte se passa no quarto do casal. O marido adormece. Ela busca a arma e por duas vezes encosta-a em sua cabeça. Ele está desperto e ela o sabe, mas falta-lhe a coragem de apertar o gatilho. O ato da esposa e a sua decisão de enfrentar a morte sem reagir, libera a alma do marido de seus traumas, de sua covardia e produz um efeito redentor.

Nova peripécia: ele vê a esposa com outros olhos e busca penitenciar-se. Ela enfrenta a febre e o delírio por semanas. A mente do opressor passa por um processo de amaciamento, de flexibilidade e de expansão sentimental, por vê-la “tão esmagada, tão arrasada”. Em estado contemplativo, o esposo passa a tecer sonhos de uma vida feliz ao lado da mulher. “Afinal, tinha eu estado dentro de minha alma?”, ele se questiona. Confessa-lhe seus ressentimentos, o ódio pela sociedade e declara ser Krotkaia vítima de sua vingança.

O narrador deseja extrair da esposa uma promessa de fidelidade, uma esperança de partirem e serem felizes. Logo, a desigualdade entre o casal se inverte com as atitudes do homem: se outrora o fascínio pela ingenuidade dela o comovia e o alimentava em seus objetivos tirânicos, agora sua fragilidade o compromete, pois, ela, assustada, entra em histeria nervosa.

O que resta à mulher neste contexto? Mas ela já é incapaz de amá-lo. E não encontra energias para libertar-se. Assustada, opta pela destruição, fazendo com que nos recordemos das dificuldades que Madalena (em “São Bernardo”, de Graciliano Ramos) enfrenta em seu matrimônio com o fazendeiro Paulo Honório.

Uma reflexão com a cabeça encostada na parede do quarto, um ícone apanhado, uma janela aberta e se jogar  para  a morte se corromper como alternativa de um amor que não pode cumprir, ou mesmo para castigar definitivamente o marido que odeia.

Voltar a ser livre concretiza-se primeira mente por atirar seu vestido de noiva pela janela e, depois, a si própria.

Com a morte trágica de “esposa dócil”, o marido revela toda a  solidão quando seu mundo ordenado se decompõe; esbraveja então contra tudo e todos numa ruminação é desoladora. “Não quis me enganar com um amor pela metade, sob uma fachada de amor ou com um quarto de amor.” Até mesmo ele admite que, se o pedisse, ele viraria o rosto para que a esposa o traísse, desde que não o abandonasse (numa reprodução literária de “O eterno marido” e da própria relação vivida com Maria Dostoievskaia, sua primeira esposa).

O Narrador revela-se é um Herói trágico. Um homem profundamente isolado, cujas esperanças foram destruídas, que tomado pela dor, tenta reter ao lado de si, o  cadáver da suicida. “Eu a esgotei, isso sim.” e “... quando a levarem amanhã, o que vai ser de mim?” Logo, sob a tensão dramática, que reflete a penetração do Herói na autoconsciência ocorrida no presente trágico e na lembrança do passado, ele transforma-se num ser humano profundamente despedaçado, cindido, ferido.

O espetáculo finaliza com a fusão das imagens com a lamparina acesa junto aos ícones, símbolos da elevação espiritual obtida através da dor e do dilaceramento do nosso narrador.

Ler Dostoievski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo no nosso consciente e no subconsciente, um porão meio abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, desnuda tragicamente o essencial do homem. “Krotkaia”ou “A esposa dócil”, um de seus contos menos conhecidos, é um dos píncaros da literatura existencial.