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Contos, Novelas e Crônicas

Crônicas e Ensaios- III

Auschwitz: “Arbeit macht frei”, ou “Só o trabalho liberta”



“Auschwitz é o ponto zero da História, o começo e o fim de tudo o que existe. Ele é a referência final e em relação a ele, todo o demais será julgado”... “Porque vimos a aniquilação de comunidades judaicas, ciganas, comunistas, democratas, pelo câncer nazi- fascista na Europa, temos que combatê-lo sem um minuto de trégua, para salvar o mundo do contágio”. (Elie Wiesel)

Aproximadamente um milhão e trezentas mil pessoas, sendo mais de oitenta por cento deles judeus, morreram nesses campos. Aqueles que não foram executados nas câmaras de gás de Birkenau, morreram de fome, devido aos trabalhos forçados, doenças infecciosas, e ainda  por execuções individuais  ou por “experiências científicas”.

Auschwitz foi a maior rede de campos de concentração operada pelo Terceiro Reich, formatado por  Auschwitz I ( campo principal e centro administrativo);  Auschwitz II–Birkenau (campo de extermínio); Auschwitz III–Monowitz ( centro de trabalho escravo).

No seu Portal de entrada os recém chegados liam três palavras escritas com escárnio: “Arbeit macht frei”, ou “Só o trabalho liberta”http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Auschwitz III–Monowitz, o centro do trabalho escravo.

O campo central se subdividia em mais de quarenta campos satélites, de acordo com as exigências de mão de obra dos grandes monopólios industriais alemães.

Entre os campos satélites, em outubro de 1942, foi instalado o de Buna- Monowitz a pedido dos proprietários da IG Farben, com o objetivo específico de fornecimento de trabalho escravo para seu complexo industrial de Buna-Werke (o nome buna é derivado da borracha sintética que aí era produzida).

A partir dessa iniciativa da Farben, várias outras indústrias alemãs construíram suas fábricas em Monowits, sempre utilizando o trabalho escravo, criando seus próprios sub-campos, como a Siemens- Schuckert e a indústria de armamentos Krupp.

Quase todos esses pequenos campos de concentração eram usados em benefício da indústria alemã. Campos foram instalados próximos a fundições, perto de minas de cobre; forneciam ainda prisioneiros para a indústria química e para empresas de eletricidade.

As SS nazistas cobravam três a quatro reichsmarks por hora, por trabalhador, das empresas instaladas nos Campos de Concentração, e ½ reichmark por criança. Elie Wiesel esteve confinado em Monowitz com seu pai, quando adolescente. Ele relata que a expectativa dos trabalhadores judeus nas fábricas era de três a quatro meses; para aqueles que trabalhavam nas minas ao redor, apenas um mês; os considerados fisicamente inaptos para o trabalho eram enviados para as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau.

Auschwitz-Birkenau- o campo de extermínio

Sua construção começou em outubro de 1941, para descongestionar o primeiro campo; abrigou várias categorias de prisioneiros e funcionou como campo de extermínio nos moldes imaginados pela cúpula nazista como a "Solução Final para o problema judeu", o extermínio dos judeus como povo. Por isso era equipado com câmaras para o assassinato coletivo, onde inicialmente empregou-se o pesticida contendo cianureto, com a marca Ziklon B, produzido pelas Indústrias Químicas Tesch e Degesh ( Siemens- Bosh tentou o seu registro em 2002 sem consegui-lo). Também possuía crematórios “industriais” para incineração dos corpos. Em Birkenau, a estrutura era de tal monta que mais de vinte mil pessoas podiam ser gaseificadas e cremadas por dia.

Na sua construção os nazistas abriram concorrência pública para as câmaras de gás. As seguintes empresas se habilitaram: 1. Top e Filhos de Frankfurt ( propunha-se a construir cinco fornos triplos com elevadores elétricos para retirada dos incinerados); 2. Vider Works de Berlin ( economizava nos elevadores utilizando-se garfos de metal com cilindros); 3. C.H. Gori ( assegurava a eficácia e durabilidade dos fornos de cremação graças ao prestígio de quase cem anos de mercado).

O  comandante do campo, Franz Hössler, no seu sadismo extremado, tinha um discurso pronto para os grupos de judeus e prisioneiros russos destinados ao extermínio, que proferia pessoalmente na antecâmara, onde os prisioneiros se despiam para “desinfecção”, pouco antes de serem levado à câmara de gás. Muitas vezes, proferia o discurso alisando a cabeça de uma das crianças que seria assassinada:

"Em nome da administração do campo eu lhes dou as boas-vindas. Isto não é uma colônia de férias, mas um campo de trabalho. Assim como nossos soldados arriscam suas vidas na frente de combate para conquistar a vitória para o Terceiro Reich, vocês terão que trabalhar aqui para o bem-estar de uma Nova Ordem. Como irão desempenhar essa tarefa depende apenas de vocês. A chance existe para cada um. Vamos cuidar de sua saúde e também ofereceremos trabalho bem pago.... Agora, por favor, tirem suas roupas. Pendurem-nas nos cabides que nós providenciamos e, por favor, lembrem-se de seu número. Depois do banho haverá uma tigela de sopa, café e chá para todos. Oh sim, antes que eu me esqueça, tenham seus certificados, diplomas, boletins escolares e outros documentos à mão, para que possamos empregar todos de acordo com seu treinamento e habilidade. Os diabéticos que não podem consumir açúcar comuniquem ao pessoal de serviço após o banho".

Depois que as portas das câmaras de gás eram trancadas, os SS despejavam o cianureto através de aberturas no teto ou nas paredes. Os gritos de desespero eram ouvidos por até vinte minutos antes que outros “internos” retirassem os corpos para o crematório.

O Bloco 10, as “experiências científicas”.

Os médicos de Auschwitz realizaram uma ampla série de experiências com os prisioneiros, individuais e coletivas. Os doutores Carl Clauberg e Kurt Heissmeyer são alguns dos mais conhecidos a usarem cobaias humanas para testar suas teses e novas drogas. Clauberg fez experiências com os raios-X como método de esterilização feminina, administrando largas doses de radiação nas prisioneiras. Heissmeyer, que considerava judeus e cobaias de laboratório como a mesma coisa, comandava experiências em crianças e fez diversas delas injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente no pulmão de prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a doença.

A empresa farmacêutica Bayer comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias no teste de novas drogas, dentre elas sulfas altamente tóxicas para a função renal.

O médico que conseguiu a mais infame notoriedade após a guerra, porém, foi o Dr. Joseph Mengele, conhecido como "Anjo da Morte”. Ele tinha uma especial predileção por gêmeos e anões. Mengele fazia cruéis experiências com os primeiros, como provocar doenças num deles para saber o que acontecia com o segundo ou matando este quando o primeiro morria, para fazer autópsias comparativas. Eles eram separados por idade e sexo e guardados em barracões especiais, onde injetava corantes diferentes nos olhos para observar se mudariam de cor. Chegou até mesmo costurar gêmeos uns aos outros para tentar criar xifópagos.

Mulheres grávidas também eram alvo das experiências de Mengele, em quem praticava vivisseção, dissecando-as em vida, antes de mandá-las às câmaras de gás.

Entre 1943 e 1944 ele fez experiências em mais de mil e quinhentos prisioneiros. Cerca de duzentos deles, entretanto, sobreviveram, graças ao avanço do Exército Soviético.

O Exército Vermelho salvou e cuidou de milhares de judeus

Em princípios de janeiro de 1945, devido o rápido e incontível avanço do Exército Vermelho, os alemães desocuparam às pressas Auschwitz, sob ordens estritas de Hitler de que todos os homens ainda em condições de trabalho deveriam ser despachados para os campos de Buchenwald e de Mauthausen na própria Alemanha.

Os alemães também tinham ordens de não deixar nenhum “interno” vivo. No entanto, os bombardeios dos soviéticos, cortando a rota de fuga dos nazistas, impediram que eles concluíssem o extermínio dos debilitados.

Primo Levi sobreviveu por doze meses à internação no campo de concentração de Buna- Monowitz, “uma aldeia com seus doze mil internados”. Dos setecentos italianos que com ele haviam sido deportados para Auschwitz, somente três sobreviveram e retornaram à Turin, libertados e tratados, como os demais sobreviventes dos campos de concentração pelo Exército Vermelho.

Primo Levi escreve sobre os seus salvadores: “ E, contudo, sob as aparências anárquicas e negligentes, era fácil reconhecer neles, em cada um daqueles rostos rudes e abertos, os bons soldados do Exército Vermelho, os homens valentes da Rússia nova e da velha, doces na paz e atrozes na guerra, fortalecidos por uma disciplina interior, nascida da concórdia, do amor recíproco e do amor à Pátria; uma disciplina mais forte, justamente porque interior, do que a disciplina mecânica e servil dos alemães. Era fácil entender, vivendo entre eles, por que aquela e não esta tinha vencido afinal.”

Em 1946, já em sua casa, Primo Levi escreveu os seguintes versos:

Sonhávamos nas noites ferozes,    Sonhos densos e violentos,

Sonhados de corpo e alma:   Voltar; comer; contar.

Então soava breve e submissa.   A ordem do amanhecer:

“Wstavach” (levantem);   E se partia no meio o coração.

Agora reencontramos a casa,  Nosso ventre está saciado,

Acabamos de contar.   É tempo. Logo ouviremos ainda

O comando estrangeiro:  “Wstavach”.

Entre-nós 

Quantos dos que passamos pelos Doi-Codi de São Paulo não tínhamos “nossos corações partidos” quando nas manhãs éramos acordados pelo balançar proposital das chaves dos carcereiros, e quantos de nós ainda temos nos ouvidos as palavras acanalhadas de um deles, que berrava na alvorada: “Levantem, arruda, dá-lhe milho”. Era o “wstavach”, sinal de que a tortura recomeçaria.

Nos dias de hoje, por todos os lados o fascismo enraíza a sua penetração social. Favelados brasileiros são acordados no meio da noite, pelas portas arrebentadas pelos policiais. O pobres também têm, como os “internos” de Auschwitz, “os seus corações partidos”, ao ouvirem o “Wstavach” pois:

“Logo que um ser humano é classificado, rotulado, como inferior, ele se torna boa presa para os que o reduzem ao nível de subsistência. O poder e a lei formam ao lado do opressor e ambos têm origem na autoridade que os sanciona. A consequência da desvalorização da raça humana é sempre a violência, o explorado e a vítima”. (Barran, Modern Trends in Violence)

 

 

Auschwitz: histórias de resistência e fuga



Em fevereiro de postamos um ensaio sobre “Rosa Branca” (http://proust.net.br/blog/?p=363), uma pequena organização de resistência dentro da Alemanha nazista, composta por estudantes e professores universitários, que atuou em Munique e Hamburgo no período mais negro da repressão política. Hoje falaremos de mais uma expressão heroica de resistência, tão pouco conhecida, a dos “internos” dos Campos de Concentração de Auschwitz.

A primeira fuga de Auschwitz ocorreu logo em seus primórdios, em seis de julho de 1940, quando o polonês Tadeusz Wiejowski fugiu com a ajuda de trabalhadores civis poloneses empregados do campo. Pelo menos mil prisioneiros tentaram escapar de Auschwitz durante seus anos de funcionamento, sendo que cento e cincoenta deles foram bem sucedidos. O destino de mais de trezentos fugitivos, entretanto, é até hoje desconhecido.

É claro que é um pequeno percentual se tivermos em conta que aproximadamente um milhão e trezentas mil pessoas, sendo mais de oitenta por cento deles judeus, morreram nesses campos, a maioria executados nas câmaras de gás de Birkenau, outros de fome, devido aos trabalhos forçados, doenças infecciosas, e ainda por execuções individuais ou por “experiências científicas”. Às tentativas de fugas, entretanto, temos que associar outras formas de resistência, onde milhares se envolveram, o que não deixa de ser extremamente significativo e honram todos os que foram brutamente exterminados, crianças, mulheres, velhos e adultos, impossibilitados de qualquer tipo de reação perante a bestialidade do mal banalizado.

Mais  ainda, honram a espécie humana!http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Uma punição comum para os que tentavam fugir de Auschwitz era a morte por inanição; as famílias daqueles que conseguiam escapar eram muitas vezes presas e internadas, exibidas com destaque pelo campo para inibir os outros. Sempre que alguém conseguia realmente escapar, a SS escolhia aleatoriamente dez prisioneiros do alojamento de onde havia ocorrido a fuga e os fazia passar fome até morrer.

A mais espetacular das fugas de Auschwitz-Birkenau ocorreu em 20 de junho de 1942, quando três poloneses e um ucraniano fizeram uma ação extremamente ousada. Os quatro, após dominarem o mesmo número de SS, escaparam com suas fardas, armados e num carro oficial, um Steyr 220, roubado do próprio comandante do campo, Rudolph Höss. Nenhum deles foi capturado pelos nazistas.

Em 1943, grupos de resistência haviam se organizado pelos campos que constituíam o Complexo de Auschwitz. Eles ajudaram na fuga de alguns poucos prisioneiros. Estes fugitivos levavam notícias dos extermínios em massa, como, por exemplo, as das centenas de milhares de judeus húngaros executados entre maio e julho de 1944. Ademais, esses grupos organizados escreviam notas, bilhetes e realizavam furtivamente fotos dos crematórios e das câmaras de gás e os “plantavam” nas áreas ao redor dos campos e sub-campos, esperando que pessoas, um dia, os encontrassem. Muitas fotos que chegaram até nós tiveram essa origem. Um jornal, The Auschwitzer Echo, chegou a ser impresso e distribuído secretamente e, durante algum tempo, conseguiu-se que fosse enviado para os movimentos de resistência na Cracóvia.

 

Sonderkommando era a denominação nazista dada a grupos de pessoas que atuavam em campos de concentração a comando destes. Eram recrutados entre os prisioneiros recém- chegados e tinha como função a execução das tarefas brutais, como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos, realizarem a limpeza das câmaras de gás, alguns eram encarregados de escolher dentre as crianças que iriam para as câmaras de gás ou para as “experiências científicas”. Realizavam ainda outros serviços que os servidores alemães não gostariam de executar. Devido à condição de grupo especial, tinham alguns privilégios. Entretanto, após pouco tempo de serviço, integravam a lista de pessoas a serem exterminadas, substituídas por novos “internos”, com o objetivo que as operações de extermínio em massa de Birkenau não se espalhassem pelos campos próximos de trabalho escravo.

Em outubro de 1944, os Sonderkommandos judeus do Kommando III de Birkenau organizaram uma revolta, atacando os SS de surpresa, com o uso de armas improvisadas como pedras, machados, martelos, ferramentas de trabalho; com bombas feitas de excrementos humanos e postas a fermentar em recipientes fechados; com garrafas incendiárias e explosivos roubados de uma fábrica de armas por mulheres prisioneiras. Os revoltados explodiram o crematório IV e se juntaram a eles aos prisioneiros do Kommando I do crematório II, que, por sua vez, dominaram os guardas e fugiram do Complexo. Ao redor de trezentos judeus e outros “internos” morreram em combate. As tropas de elite das SS nazistas tiveram seis mortos e cerca de uma dúzia de feridos.

Foram centenas de prisioneiros que escaparam, mas debilitados pelo tratamento degradante a que haviam sido submetidos e perseguidos pela mais inclemente força repressiva que a humanidade conheceu, quase todos foram recapturados em pouco tempo e executados, assim como um grupo que, apesar de não ter conseguido fugir, havia colaborado com a revolta. As quatro judias que tinham roubado os explosivos da fábrica Union-Werk, após barbaramente torturadas, foram enforcadas em público.

 

O Armia Krajowa, o Exército de livre resistência polonesa, foi uma das forças armadas clandestinas mais fortes e melhor organizada na Europa sob domínio nazista. No momento de sua capacidade máxima de combate (verão de 1943) as forças do Armia Krajowa eram compostas por aproximadamente 380 mil homens, incluindo 10 mil oficiais. Em janeiro de 1943 foi estabelecida uma nova unidade militar, a ’’Kedyw ’’ que realizava ações de sabotagem e contra-espionagem.

Witold Pilecki (Ołoniec, 13 de Maio de 1901 — Varsóvia, 25 de Maio de 1948) foi dos fundadores do movimento armado de resistência polaca, ingressou no “Kedyw” e foi a única pessoa a optar pela prisão voluntária no Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau. Ali chegando, organizou a resistência interna criando um movimento subterrâneo chamado União de Organização Militar (Związek Organizacji Wojskowej – ZOW). Desenvolveu também uma rede de informação que se comunicava por rádio com os aliados,  graças a um transmissor de ondas-curtas, escondido no Bloco 11, e que enviava notícias diretamente para o governo polonês no exílio, em Londres. A ZOW chegou a planejar uma tentativa de levante geral em Auschwitz, coordenado com um ataque aéreo aliado e um cerco externo por terra a ser realizado pela Armia Krajowa.

Infelizmente, as tropas Aliadas não deram prioridade para o plano da resistência polaca e o ataque aéreo com desembarque de paraquedistas poloneses jamais aconteceria. Neste meio tempo, a Gestapo trabalhava para descobrir os integrantes do ZOW e conseguiu identificar e matar muitos deles.

Pilecki decidiu fugir do campo na esperança de convencer pessoalmente os líderes da resistência de que um ataque a Auschwitz seria possível. Conseguiu escapar numa noite de abril de 1943. Seu plano, entretanto, foi considerado muito arriscado pelos ingleses e americanos, que, ademais, não quiseram acreditar em suas histórias sobre Auschwitz, que consideraram “muito exageradas, fabulosas, extremistas”.

Mala Zimetbaum

Em 24 de junho de 1944, Mala Zimetbaum, uma prisioneira judia belga de 22 anos, escapou do Campo com seu namorado, o polonês Edek Galinski. Zimetbaum, que trabalhava em Auschwitz como tradutora num dos escritórios do campo principal, levou com ela cópias das listas de deportação de judeus a que tinha acesso. O casal passou pelos portões, ele vestido num uniforme roubado de soldado da SS e ela como sua namorada. Em 6 de julho, os dois foram presos perto da fronteira da Eslováquia e levados de volta à Auschwitz, onde, depois de uma estadia no Bloco do Terror, o Onze, foram sentenciados à morte. Galinski foi executado, mas Mala tentou o suicídio cortando os pulsos no alojamento antes do momento da execução e esbofeteando a guarda que tentou impedi-la, a qual lhe quebrou a mão. Gritando que a libertação estava próxima e que todos deviam se rebelar porque era melhor morrer lutando do que morrer como estavam morrendo, foi atacada pelas guardas femininas e teve a boca esmagada, os dentes destruídos.

A supervisora-chefe do campo feminino, SS Maria Mandel, "A Besta de Auschwitz", disse que tinha chegado uma ordem de Berlim para que Mala fosse cremada viva. Ela foi levada de maca até o crematório e seu fim diverge de acordo com as testemunhas. Uns asseguram que ela já chegou morta pela hemorragia e outros afirmam que um SS apiedado a matou com um tiro antes de seu corpo ser enfiado no forno pelos Sonderkommandos. De acordo com a sobrevivente Raya Kagan, em depoimento oficial em Israel durante o julgamento por crimes de guerra do nazista Adolph Eichman em 1961, as últimas palavras de Mala Zimetbaum a seus carrascos alemães em Auschwitz foram: "Eu morrerei como uma heroína e vocês como cães!". Mandel, que deu a ordem para que ela fosse cremada viva, foi executada na forca, em janeiro de 1948, por crimes contra a humanidade.

Somente em agosto de 1944, aviões britânicos e norte-americanos bombardearam as fábricas de combustível líquido e borracha sintética da IG Farben nos arredores de Auschwitz III – Monowitz. Não devido a motivos humanitários, mas devido à sua importância no esforço de guerra nazista para a construção das Bombas V2.

A libertação de Auschwitz apenas aconteceria em janeiro de 1945, quando dos avanços do Exército Vermelho e do bombardeio das ligações ferroviárias que conectavam os campos ao sul da Polônia e à Alemanha.

Conforme nos pontuou Israel Charny, o “genocídio é um tema do presente e do futuro, e não apenas do passado” e Camus, “há mais de vinte séculos a soma total do mal não diminui no mundo.”

O nazismo e o fascismo necessitam de combate permanente. Somente poderemos enfrenta-los criando uma nova ética arquetípica: a de que a vida humana deve ser tratada como sagrada!

 

 

Villa-Lobos e a independência musical do Brasil



Heitor Villa- Lobos foi o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música de arte e o maior expoente musical do modernismo brasileiro.

Carioca, nascido em 1887, filho de Raul Villa-Lobos, um músico amador, foi  ele quem lhe deu as primeiras instruções e adaptou uma viola usada para que o pequeno Heitor iniciasse seus estudos de violoncelo. Aos 12 anos, pobre e órfão do pai, Villa-Lobos passou a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes. Em 1903, terminou os estudos básicos no Mosteiro de São Bento.

Costumava juntar-se aos grupos de choro, que foi sua primeira paixão na música popular, tocando violão em festas e em serenatas. Conheceu e tocou em parceria com músicos populares famosos como Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e João Pernambuco.

Villa possuía uma iniludível necessidade de conhecer a fundo a musicalidade e o folclore de nosso povo. Tendo com recursos unicamente a sua viola e a capacidade de ensinar, realizou suas famosas viagens pelo norte e nordeste do país, as quais duraram mais de sete anos. Os instrumentos musicais regionais, as cantigas de roda e os repentistas deixaram-no absolutamente impressionado. O jovem Villa assimilou em cada povoado, em cada cidade, nas tribos indígenas, nos sons dos animais da mata, a musicalidade de nosso povo e seus regionalismos. Não sem razão é lhe atribuída a “descoberta musical” do povo brasileiro.

O folclore musical será a base de uma criação imensa artística, que por toda uma vida, nem mesmo as doenças interromperam, resultando numa exuberante floresta tropical de obras, maravilhosa, imbricada, extasiante. “O folclore foi uma base filtrada e revigorada pelo temperamento de uma personalidade vigorosa, de força vulcânica”, na expressão de Carpeaux.

Retorna ao Rio em 1912 e já em 1913 casa-se com a conhecida pianista Lucília Guimarães. O domínio exímio do piano, que principiara com uma tia, ele o deveu a essa sua primeira esposa.

Se as primeiras composições de Villa-Lobos trazem a marca dos estilos europeus da virada do século XIX para o século XX, contendo influências de Wagner, de Puccini, de Cesar Frank e logo depois dos impressionistas, será nas “Danças Africanas” (1914), que ele iniciará seu “repúdio” aos moldes europeus e a iniciará o desenvolvimento de uma linguagem própria, que viria a se firmar nos revolucionários bailados “Amazonas” e “Uirapuru” (1917).

Villa chegará à década de vinte, já perfeitamente senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras que, em sua época, conquistaram até mesmo o Velho Mundo. Aquilo que podemos denominar de uma segunda fase musical é cheia da frescura e de descoberta, sendo essencialmente pianística. Nela encontramos as “Cirandas”, a “Lenda do Caboclo”, a “Prole do Bebê”. As experiências pessoais com o folclore brasileiro resultaram em "O Guia Prático", uma coletânea de canções destinadas à educação musical nas escolas.

Em 1922, Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna. Nesse momento, ele deu forma musical a uma boa parte da poesia do modernismo brasileiro, destacando-se a adaptação do lirismo íntimo de um Manuel Bandeira, assim como às quatorze “Serestas” de 1925. Deste período ainda teremos o “Noneto”, quase uma panorâmica folclórica do interior brasileiro, traduzida pelo gênio do compositor. Também os “Choros” e a “Alma Brasileira”, para voz e piano, aquela que inclui um dos pontos mais altos de toda a nossa musicalidade, o “Rasga Coração”.

Um Villa já formador de opinião viajaria a estudos para a Europa, em 1924 e novamente em 1927, financiado pelo milionário carioca Carlos Guinle, retornando ao Brasil em 1930. Durante esse tempo no Velho Mundo, seu estilo eclético incorporou uma forte influência de Debussy e de Stravinsky, tendo ainda adensado um profundo estudo de Bach e de outros mestres do passado. Seus companheiros e amigos da época relatam que ao virtuosismo ele aliava um trabalho incansável de aprendizado.

Em seu retorno, Villa engaja-se na nova realidade produzida pela Revolução de 1930; realiza uma turnê por sessenta e seis cidades, assim como a inovadora “Cruzada do Canto Orfeônico", levada à cabo na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1932, Vargas, de quem Villa-Lobos tornar-se-ia grande amigo, assinou um decreto que tornava obrigatório o ensino de canto orfeônico nas escolas. No mesmo ano, foi criado o Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico e o Orfeão de Professores do Distrito Federal, ambos os projetos de Heitor Villa-Lobos.

Ele manteve o mesmo apoio recebido durante o Estado Novo. Contier explicou que, através de seu projeto de educação musical, Villa-Lobos procurava aproximar-se das massas, objetivando incutir-lhes os ideais de civismo, disciplina e ordem. De acordo com este historiador, pela primeira vez no Brasil, um grande número de pessoas, em coro, teria entoado marchas e canções cívicas.

Além de funcionar como um eficiente método de musicalização infantil em larga escala, o programa de ensino do canto orfeônico implantado oficialmente por Villa-Lobos, funcionava como inteligente mecanismo de transmissão da doutrina política e estética oficial do Estado Novo. Villa-Lobos definia o canto orfeônico como um “fator poderoso no despertar dos sentimentos humanos, não apenas os de ordem estética, mas ainda os de ordem moral, sobretudo os de natureza cívica. Influi, junto aos educandos no sentido de apontar-lhes, espontânea e voluntária, a noção de disciplina, não mais imposta sob a rigidez de uma autoridade externa, mas novamente aceita, entendida e desejada. Dá-lhes a compreensão da solidariedade entre os homens, da importância da cooperação, da anulação das vaidades individuais e dos propósitos exclusivistas...”

Mirelle Ferreira em sua tese sobre Villa, concluiu: “O grande interesse do maestro ao desenvolver seu projeto era ensinar música às crianças nas escolas. Ainda que fosse bem remunerado pelo Estado, não podemos afirmar que o dinheiro movia seu trabalho. Embora Villa-Lobos expressasse sua postura política (alinhado ao Estado Novo), a preocupação principal dela era a música, o ensino, a educação.”

No ano de 1937, o Mestre desenvolverá a “Missa de São Sebastião” e a suíte “O Descobrimento do Brasil”, obra prima de uma polifonia desvairada, tropical, quase do tamanho de um “O Guarani” de Carlos Gomes, no século passado. “O Descobrimento do Brasil” que foi adaptada para o cinema.

O casamento de Villa com Lucília Guimarães termina na década de 1930, conflituoso como já o era de há muito. Lucília jamais concederia o divórcio, ao Maestro.

Em 1936, Villa conhecerá Arminda Neves d'Almeida, a Mindinha, com quem viverá até a morte em 1959. A ex-aluna foi sua grande companheira tanto nos momentos mais difíceis, como após a cirurgia de câncer a que deverá se submeter em 1948, quanto nos momentos de maior glória mundial vivida nos anos quarenta e cincoenta. Deve-se a ela a compilação e divulgação de uma parcela imensa da obra de Villa que permanecera inédita, durante sua vida.

Em 1942, quando o maestro Stokowski e a The American Youth Orchestra foram designados pelo presidente Roosevelt para visitar o Brasil, o maestro solicitou a Villa-Lobos que selecionasse os melhores músicos e sambistas, a fim de gravar a Coleção Brazilian Native Music; Villa-Lobos reuniu Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Cartola, que sob sua batuta realizaram apresentações e gravaram a coletânea de discos, pela Columbia Records. Esta coleção que teve uma enorme repercussão incluiu definitivamente a música brasileira no repertório internacional de vanguarda.

Em 1944/45, Villa-Lobos viajou aos Estados Unidos para reger as orquestras de Boston e de Nova York, onde foi homenageado. Apareceu pessoalmente no filme da Disney, Alô, Amigos (1940), ao lado do próprio Walt Disney.

Em uma entrevista, em Nova York, Villa-Lobos foi perguntado sobre o uso de melodias indígenas em sua música. Ele respondeu que usava, sim, mas que eram melodias tão antigas que os índios atuais não as conheciam. Pergunta: "Se as melodias foram esquecidas pelos índios de hoje, como o senhor conseguiu entrar em contato com elas?".

Villa-Lobos, rápido: "Pelos papagaios. Os papagaios brasileiros ouviram essas melodias há muitos anos e não as esqueceram. Eles vivem até uma idade muito avançada. Ouvi os papagaios e anotei as melodias".

Tirada típica do caráter e temperamento do compositor, um trocista emérito.

Em 1945 fundou a Academia Brasileira de Música.

A fase que muitos chamam de neobarroca de Villa, estendeu-se por quase quinze anos, cujos maiores destaques foram as “Bachianas Brasileiras”, em número de nove, para diversas formações instrumentais e de vozes. Formam um tributo a Bach que nosso maestro considerava o maior folclorista de todos os tempos. As “Bachianas Brasileiras” são uma síntese absolutamente “sui generis” e genial, que funde sob formas pré-clássicas elementos do folclore brasileiro, como a música caipira, com a intenção explícita de construir uma versão brasileira dos Concertos de Brandemburgo.

Alguns trechos se tornaram mais populares mais que outros, como o quarto movimento da Bachiana n° 2, a tocata “O Trenzinho do Caipira”; a ária “Cantilena”, que abre a Bachiana de n° 5; o coral “O Canto do Sertão” e a dança “Miudinho”, ambos na Bachiana n° 4.

"Há setenta e sete livros sobre Villa-Lobos, em diversos idiomas, com enormes diferenças de opinião sobre suas obras", afirma Appleby, um de seus biógrafos. Ele destaca que o compositor, sempre bem humorado, também se dedicava a fantasiar os relatos sobre seu passado. "A cada pessoa ele contava uma história diferente sobre suas viagens entre 1905 e 1911, sobre o tempo em que teria morado com tribos indígenas. Saber o que realmente aconteceu foi o mais difícil", afirma.

Ao analisar o legado do compositor, Appleby diz que "Villa-Lobos criou o reconhecimento internacional da música brasileira que tornou possível o sucesso, mais tarde, da música popular brasileira", colocando-o como um precursor de Tom Jobim, Caetano Veloso e Chico Buarque.

"Villa-Lobos não ligou para diferenças estilísticas entre música clássica e música popular", afirma. "Tentou exprimir a alma brasileira com as idéias dele, formulando seu estilo individual."

Não constitui exagero afirmar-se que com Villa-Lobos, a música brasileira alcançou a sua independência!

O maestro foi retratado nos filmes “Bachianas Brasileiras: Meu Nome É Villa-Lobos” (1979), “O Mandarim” (1995) e “Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão (2000)”.

 

O consciente e o inconsciente na religiosidade grega



A religiosidade na antiga civilização grega para ser compreendida necessita de que esqueçamos conceitos como “fé” e “crença” do modo como são entendidos nos nossos dias. A religião grega não tinha um livro, uma bíblia, ou uma Igreja. O que existia era o sacerdócio, apanágio de algumas famílias antigas e que gradualmente se transformaram em magistraturas, que como outras funções cívicas, possuíam delegados eleitos pelo voto em assembleias realizadas na Ágora.

Deste modo, jamais existiu a figura do corpo sacerdotal permanente, do profissional, do mesmo modo como não havia uma teologia, nem dogmas e muito menos credos. O “crer” do grego é inseparável do conjunto das relações sociais e das práticas sociais. Ou seja, entre o sagrado e o profano não existia uma oposição radical ou um corte rígido.

Vernant coloca a questão dessa crença dentro dos três elementos que constituem o sistema religioso:

1. Os rituais: crer é cumprir certo número comum de atividades durante o dia ou durante o ano, com festas que são fixadas pelo calendário, que funcionam da mesma maneira como praticar os atos da vida cotidiana. Tudo isto não se faz de qualquer forma, mas existem regras que englobam esses comportamentos e que também possuem um caráter religioso. Por exemplo, o sacrifício de animais é a um só tempo uma cerimônia religiosa, com todo o seu ritual preconizado pelos deuses para que os homens se alimentem e os homenageiem e, ao mesmo tempo, uma cerimônia social que reúne os cidadãos e que aumenta a “phylia”, a amizade, entre os mesmos.

2. As figuras dos deuses, suas imagens e seus ídolos: os ídolos ou ícones constituem as primeiras figurações e são pessoais ou pertencem aos “guenos”, às famílias. Gradualmente, a cidade como que “sequestra” esses ídolos “familiares” e os transforma em públicos.

3. O mito: como a crença no sagrado não se esteia em livros, ela é contada por meio de narrativas, que somente adquirem uma forma canônica no século VI a.C., a partir de Homero, Hesíodo e poetas como Píndaro. As crianças e os jovens, no processo que os gregos denominavam “paideia”, iriam estudar esses versos narrativos e decorá-los.

Cremos que não havia um único grego que pensasse que as coisas realmente haviam acontecido como os poetas as descreveram, mas isso não quer de forma alguma dizer que eles as considerassem falsas. Acontece que a crença religiosa dos gregos não era dogmática e o politeísmo era flexível o suficiente para adequar-se a versões múltiplas.A religião grega pode claramente ser definida como “uma religião política”. E isso significa que o religioso, por ser sociopolítico, é muito mais uma forma de vida social e coletiva do que, primeiramente, “uma forma de experiência pessoal e de relação pessoal com a divindade”. Para os gregos, o amor que vai do homem aos deuses é um amor exclusivamente utilitarista, pois amamos o que necessitamos ou o que nos privaram, sem nenhum tipo de contrapartida esperada dos deuses para com os homens.

Os deuses que se situam no mundo, o mesmo que nós habitamos, eles não o criaram, mas foram criados pelo mesmo processo cosmogônico que criou o universo e os homens. Os deuses somente são superiores aos homens por sua imortalidade, por não envelhecerem e com isso deixarem de ser belos e saudáveis e, finalmente, por seu poder em relação aos "efêmeros".

Os gregos jamais fechavam a sua religião a novas divindades. Estão sempre dispostos a aceitarem, desde que disso tirem proveito, os deuses estrangeiros. Isto porque eles não possuem nenhuma visão de que sua crença represente uma verdade absoluta, que precise conquistar novos povos para “a verdade”.

O que existe é um relativismo intrínseco, utilitário e complacente: os gregos estão convencidos de que para eles as “coisas são assim”, e entendem perfeitamente que para outros povos possam ser diferentes.

A harmonização do consciente e do inconsciente- O culto a Dionísio

Dionísio é uma dessas divindades de origem asiática, que foi astuta e resolutamente apropriada pelos gregos e terminou por incorporar-se à sua "religiosidade cívica". A abrangência de seu culto progride ao mesmo tempo em que a aristocracia é derrotada pelas tiranias e essas, substituídas pela democracia.

Dionísio era o deus que aproximava o homem da natureza e liberava seus instintos. Ele é o culto do “deus máscara” e existe aqui uma ruptura radical com os deuses mais antigos, quer os de Homero, quer os de Hesíodo ou Píndaro.

Em seu culto, contrariamente aos olímpicos, esse deus não se contenta com momentos de piedade que para com ele tenham os homens, pois diferentemente de todos os outros, a Dionísio não bastam orações e sacrifícios, pois na sua relação com os homens não há o “dar e receber”, não há moeda de troca, que era a tônica de toda a religiosidade vista até agora.

Dionísio é o deus que somente se satisfaz com o total arrebatamento, sua satisfação somente se esgota no abranger de todo o ser humano; ele permite o êxtase, a ultrapassagem das medidas, sendo capaz de conduzir os mortais desde o mais profundo horror ao mais alto patamar da realização da alma.

O deus-máscara, não incidentalmente, metamorfoseia-se em um humano e age como tal, de uma maneira diferente que todos os deuses homéricos; Dionísio assume-se como homem divinizado, ou deus humanizado. Por isto Dionísio é o deus que possui a habilidade de arrastar o ser humano à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como à loucura e à destruição.

Portanto, seu culto leva o homem a assumir-se enquanto instinto, enquanto natureza viva. A tendência a ver Dionísio somente como o deus inventor do vinho- esta graça dada aos homens-, não engloba seus atributos, sendo apenas parcela dos mesmos, o vinho, a seiva íntima da própria natureza.

Nietzsche assinala: “sob a magia do dionísico torna a selar-se não somente o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem”.

O culto a Dionísio e as bacanais foram se estendendo por toda a Grécia, não sem gerar reações dos aristocratas, dos reis e governantes, que resistiam às orgias populares.

“As Bacantes”, uma das derradeiras tragédias de Eurípedes, retrata a resistência da aristocracia ao novo -  representada pelo rei Penteu-, assim como sua submissão e esquartejamento no culto do deus-máscara. Não por acaso as bacantes eram mulheres , matronas e donzelas, a se libertarem momentaneamente de um mundo patriarcal pelo “entusiasmo” propiciado pelo vinho, em rituais de danças em contato íntimo e direto com a natureza. O culto a Dionísio rompe com o poder aristocrático e é agente transformador social, incorporando mulheres, servos e clientes.

Se o dionisismo foi um componente importante da própria democracia no âmbito cívico-religioso, é justo  acentuarmos  o correto contraponto que a “sophrosine” ou o equilíbrio grego o submetia. Pois enquanto muitos povos tiveram apenas e tão somente seus libertadores do espírito e dos instintos, mesmo dos mais violentos e libertinos, que possibilitavam a mistura incontida de volúpia e crueldade, para os gregos, no mesmo patamar de importância de Dionísio, erguia-se a figura monumental e sóbria de Apolo.

Voltando-se a Nietzche, era “o sonho se opondo à embriaguez”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol, gerador da beleza do mundo onírico, formatado pela consciência.  Foi o deus délfico Apolo quem “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente, Dionísio, as armas destruidoras, mediante uma reconciliação concluída no seu devido tempo”.

Enquanto o carro que conduz Dionísio está coberto de flores e grinalda, puxado que é pela pantera e pelo tigre, trazendo ao homem a liberdade, permitindo-lhe que “viva” e libere seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”, caminha lado a lado outro carro, aquele do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao ritmo ditado por uma cítera. Apolo, o próprio portador da harmonia, da beleza onírica, da verdade, do poder do “logos”, com a coroa de louros premonitória,  doada por Dafne.

E é fruto desta união, do conflito e da harmonização entre Dionísio e Apolo, entre o consciente e o inconsciente, da natureza e da consciência humana, que nasceu o melhor da arte grega e, quiçá, da arte de todos os tempos.

 

Ariadne entre Baco e Teseu



O triângulo amoroso entre Ariadne, Teseu e Baco, foi analisado por Nietzsche em "Zaratustra", em "Ecce Homo" e em "A Vontade de Poder". Ele introduz perspectivas interessantíssimas de serem por nós visualizadas.

No mito, Ariadne começa odiando seu meio irmão Minotauro- Baco; depois apaixona-se por Teseu, viajor que recém aporta a ilha de Creta, e lhe entrega o novelo que o levará ao labirinto e o conduzirá para fora do mesmo. Somente esse fio condutor permite que o amante sacrifique o filho de Minos.

Teseu é o herói ateniense, hábil em decifrar enigmas, viajar por vingança, adentrar ao labirinto do palácio e abater o Touro. Para Nietzsche ele caracteriza o homem sublime, o homem superior, “o feiticeiro”. Tem por isso mesmo o espírito grave, aprecia carregar fardos, despreza a terra, sendo, por outro lado, incapaz de rir, de brincar, de gozar a vida. Cumpre missões.Para ele é real tudo aquilo que pesa, que deva carregar pelos labirintos do destino.

Como símbolo da teoria do “homem superior”, Teseu é uma denúncia da mistificação do humanismo. Ele pretende levar a humanidade à perfeição do que ele mesmo considera perfeito, superando as alienações, realizando o homem total e colocando-o no lugar de Deus, constituindo “uma potência que afirma e que se afirma”. Para Teseu é real tudo o que pesa, tudo aquilo que carrega consigo. Os emblemas naturais do "homem superior", como não poderia deixar de ser, são o asno e o camelo. O touro é uma antípoda.

Se o touro em luta no labirinto da vida é vencido pelo “homem superior”, essa constitui uma vitória parcial, de Pirro, pois o filho de Minos lhe é superior. O Minotauro é um ser com o selo de autenticidade, enquanto o “homem sublime” é uma máscara, uma "personna".  “Deveria fazer como o touro, e sua felicidade deveria ser cheirar a terra e não o desprezo por ela.” O “homem superior ou sublime” por desprezo busca submeter, dominar a natureza. É verdade que ele vence os monstros, expõe os enigmas, mas da mesma forma que Teseu e Édipo, eles ignoram o enigma e o monstro que eles próprios o são!

Eles não sabem que afirmar não é carregar, atrelar-se, assumir o que é, mas pelo contrário, afirmar-se é se desatrelar, livrar-se, descarregar o que se leva pela vida. Criar valores novos que façam a vida leve e afirmativa. Teseu não compreende que o Minotauro possui a única superioridade verdadeira: prodigiosa besta-fera no fundo do labirinto, mas que se sente igualmente à vontade nas alturas, besta que desatrela e afirma vida.

O homem superior evoca o conhecimento e por isso pretende explorar o labirinto que é a floresta do conhecer. Mas o conhecimento é somente o disfarce para a moralidade, pois “o fio no labirinto é o fio moral”. A moral, por sua vez, é em si mesma um labirinto, disfarce do ideal ascético e religioso, sendo que o que se persegue é sempre matar o touro, isto é, negar a vida, reduzi-la sob as forças reativas. O “homem sublime” é um falsário em sua ansiedade por negar a vida.

Voltemos a Ariadne. Enquanto ama Teseu ela participa desse empreendimento de negação da vida. Teseu é o Espírito da negação, “o grande escroque” e Ariadne, parceira, Ânima, a alma que é reativa, no seu ódio ao irmão Minotauro, ela encarna a alma do ressentimento.

Alerta-nos Deleuze: "Toda a obra de Nietzsche é atravessada por um aviso: desconfiem das irmãs" (e ele tinha razão em seu caso particular; após a morte de Nietzsche, sua irmã tentou manipular a obra do filósofo para o desfrute do nazismo e do anti-semitismo). Ariadne, a irmã, é quem segura o fio do labirinto, o fio da moralidade.

Mas ela é abandonada por Teseu após o mesmo abater o touro. O “niilismo é vencido por si mesmo”. À alma resta enforcar-se e diz Nietzsche para Ariadne, pela boca de Teseu: “Enforcai-vos com esse fio”. É quando Ariadne sente a aproximação de Baco. Baco- Touro é a afirmação pura e múltipla, a afirmação verdadeira da vontade.  Ele nada carrega, não se responsabiliza por nada, mas torna leve a vida, pois sabe fazer aquilo que o “homem superior” desaprendeu: sorrir, brincar, dançar, gozar, isto é, “afirmar a vida”. Baco está além do herói, em outra coisa que já não é o próprio homem.

Era necessário que Teseu a abandonasse: “É esse com efeito o segredo da Alma, somente depois que o herói a deixou, dela se acerca, em sonho, o além-do-heroi”.  A Alma que era tão pesada quando Teseu, sob Baco é Leve, adelgaçada, aspira à natureza, ao céu. Sabe que aquilo que antes desejava nada mais era que vingança, ressentimento e o que acreditava ser uma afirmação não passava de disfarce.

Ariadne compreende sua decepção: Teseu nem era mesmo "um verdadeiro grego", “ele era muito mais um alemão”. Mas ela desperta para Baco, para um verdadeiro grego e a Alma torna-se ativa e ela torna-se o Espírito que diz Sim. E Baco acrescenta à canção de Ânima- Ariadne uma nova estrofe, que se torna um diritambo:

“Sê prudente Ariadne!...

Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas:

Pode aí uma palavra sensata!

Não é preciso primeiro nos odiar se devemos nos amar?...

Sou teu labirinto...”

Baco tem necessidade de uma noiva e nessa canção de solidão ele a reclama. Sendo Baco a afirmação do Ser, Ariadne é a afirmação da afirmação. “É a mim que tu queres? Somente a mim- totalmente?” O labirinto já não é o caminho da moral e do conhecimento, o caminho de quem irá matar o Touro. O labirinto tornou-se Baco, o próprio Toro Branco, Baco e Ariadne precisam ter orelhas iguais, labirínticas, para responder a afirmação ao próprio ouvido de Baco.

Com Baco, Ariadne adquiriu pequenas orelhas, as orelhas do Eterno Retorno, pois o labirinto transmutou-se. Não mais é um pedaço de terra, mas é sonoro e musical. 

É Nietzsche se separando do velho falsário e “feiticeiro”, Wagner. A música torna-se o leve, ausência pura de gravidade. A história de Ariadne foge da saga dos nibelungos, estando muito mais próxima da musicalidade de um Offenbach e de um Strauss.

Entretanto, no lado oposto, o de Teseu e de Apolo, também existe música. Mas essa música é um canto de trabalho, da marcha militar de uma Valquíria; mas também canto de repouso, de ninar bebê.

Mas é a música de Baco que liberta, que abala os alicerces e de onde se depreende um poderoso canto da Terra, da Natureza a dançar. É como um diritambo que se espraia sobre a Terra inteira.  O labirinto sonoro, o próprio canto da Terra, o Eterno Retorno em pessoa.

Somente Baco- Touro, o artista criador, atinge as potências das metamorfoses que fazem o devir, dando testemunho de uma vida que jorra. São vis ou baixos os Teseus que só sabem disfarçar-se, travestir-se, isto é, tomar uma forma, que é sempre a mesma.

Para Ariadne, passar de Teseu para Baco é uma questão de saúde, de cura. Para Baco também, pois ele precisa da Alma, de Ariadne. Baco é a afirmação pura, Ariadne como Ânima, a afirmação redobrada. É nesse sentido que o Eterno Retorno é o produto da união de Baco e Ariadne, e ele entende que esse pensamento é consolador, seletivo, e inseparável de uma transmutação, que somente se afirma e transforma em futuro o que é ativo. Nem as forças reativas e nem a vontade de negar retornarão, eliminadas pela transmutação, pelo Eterno retorno que impedirá a volta de um Teseu.

A orelha circular tanto simboliza o Eterno Retorno quanto o anel nupcial; o labirinto, que deixou de ser o lugar da perdição, transformou-se no Retorno e nesse modificar simboliza-se a Vida e o Ser na Natureza.

O “além- do herói” é o oposto do “ser superior”. É o homem que vive nos cumes dos morros e nas cavernas, a criança amada e concebida pela orelha, o filho de Ariadne e do Touro.

 

Bakunin: agitador, internacionalista, libertário e anti-autoritário



Bakunin foi uma das mais importantes personagens revolucionárias do século XIX. Cada minuto de vida dedicou-a em pró da liberdade e da luta pelo socialismo. Na juventude participou da esquerda hegeliana e, posteriormente, recebeu forte influência do anarquismo de Proudhon. Membro da Primeira Internacional, Bakunin foi, depois de Karl Marx, uma dos mais influentes personagens do movimento internacional de trabalhadores no século XIX. Esteve presente pessoalmente em cada evento revoltoso, em toda escaramuça por uma nova ordem social em praticamente todos os países da Europa, exceção feita aos dezesseis anos de prisão política, quatro dos quais acorrentado pelos tornozelos, pulsos e pescoço, numa masmorra czarista.

Mikhail Alexandrovich Bakunin nasceu no dia 18 de maio de 1814, em uma família rica e de linhagem nobre. Seu pai, que se identificava com o liberalismo europeu e com a Revolução Francesa, ofereceu aos filhos uma educação inicial baseada nesses ideais. No entanto, depois do levante “decembrista” e da repressão que se abateu sobre a parcela liberal da aristocracia, Alexander Bakunin, por medo, tornou-se um leal czarista e mandou Mikhail para São Petersburgo, para que seguisse carreira militar.

A displicência do jovem, entretanto, influenciado pela idéias libertárias da infância, faria com fosse desligado rapidamente do Exército. Aos 21 anos, contrapondo-se ao projeto de vida paterno, mudou-se para Moscou com o objetivo de estudar filosofia. Bakunin engajou-se no estudo sistemático de filosofia idealista. Primeiro foi Kant, depois progrediu para Schelling, Fichte, e Hegel. Tornou-se altamente influenciado pelo pensamento hegeliano e realizou a primeira tradução de parte da obra do grande filósofo idealista para o idioma russo. Durante esse período ele conheceu os socialistas Herzen e Ogarev, com todos travou amizade para toda a vida.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Bakunin partiu para novos estudos acadêmicos em Berlim em 1840. Tomou parte de um coletivo de estudantes denominados de "a esquerda hegeliana" e terminou por unir-se ao movimento socialista. Em seu ensaio de 1842, “A reação na Alemanha”, ele argumentava a favor da ação revolucionária da negação, resumida na frase “a paixão pela destruição é uma paixão criativa”.

Depois de três semestres em Berlim, Bakunin tinha abandonado a Universidade, devotando mais e mais do seu tempo à promoção da revolução. Devido à sua relação com o movimento revolucionário polaco, foi obrigado a mudar-se para Bruxelas, onde se encontrou com membros da Associação Internacional de Trabalhadores, da qual participavam Marx e Engels.

Em 1844, Bakunin foi a Paris, nessa época considerada a “Meca” das idéias socialistas e estabeleceu contato tanto com Marx e como com o anarquista Pierre-Joseph Proudhon. Este último lhe impressionou prontamente e com ele Bakunin estabeleceu fortes laços pessoais e ideológicos.

Tendo se tornado um dos referenciais da luta internacional dos trabalhadores, em dezembro de 1844, o imperador Nicolau lançou um decreto retirando todos os privilégios de Bakunin, destituindo-o de seu título de nobre bem como de quaisquer direitos civis, confiscando suas posses na Rússia, e condenando-o à prisão na Sibéria para o resto da vida, caso as autoridades russas alguma vez conseguissem pegá-lo. Do dia para noite, um “barin” rico, porém revolucionário, fora transformado em um pobre imigrado e com ordem prisão e de degredo.

Bakunin  respondeu ao decreto com uma longa carta “La Réforme”, denunciando o imperador como um déspota e fazendo um chamado à democratização da Rússia. Conclamou  por uma aliança entre a população russa e a polonesa em prol do "colapso definitivo do despotismo na Rússia". Em consequência deste chamado foi expulso da França e fugiu para Bruxelas. Uma vez em Bruxelas, Bakunin restabeleceu contato com poloneses revolucionários e voltou a se encontrar com Karl Marx. Em um encontro organizado por Lelewel em fevereiro de 1848, ele realizou um discurso profético sobre o grande futuro reservado aos eslavos, cujo destino era rejuvenescer a Europa Ocidental.

Uma vez em Berlim foi impedido pela polícia de chegar a Posen, onde estava acontecendo uma insurreição popular. À época, essa cidade fazia parte dos territórios poloneses tomados pela Prússia nas divisões da Polônia. Frente ao impedimento, partiu Praga onde participou do Primeiro Congresso Paneslávico. O Congresso foi seguido por uma insurreição malfadada, da qual também tomou parte.

Retornando a Breslau, ficou sabendo que Marx havia alegado publicamente que ele era um agente do imperialismo russo, graças a uma denúncia leviana de George Sand. Face à acusação, Bakunin exigiu que ela apresentasse provas. Marx se retrataria publicamente depois que a própria George Sand se confessou equivocada a respeito (aliás, não foram poucas as vezes em que essa senhora ainda se equivocaria sobre revolucionários).

No outono de 1848, Bakunin publicou seu “Apelo aos Eslavos”, no qual propunha que os revolucionários eslavos se unissem com os revolucionários húngaros, italianos e alemães para derrubar as três maiores autocracias da Europa, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro, e o Reino da Prússia. Até esse ano, Bakunin se auto-proclamava comunista e escrevia artigos sobre o mesmo no periódico Schweitzerische Republikaner.

Ele teve um papel de destaque no Levante de Maio de Dresden, em 1849, ajudando a organizar a defesa das barricadas contra as tropas prussianas, lado a lado com Richard Wagner e com o poeta Wilhelm Heine.

Bakunin seria feito prisioneiro pelos saxões em Chemnitz e trancafiado por treze meses antes de ser condenado à morte pelo governo da Saxônia; uma vez que os governos da Rússia e Áustria também estavam atrás do mesmo, sua sentença foi comutada para prisão perpétua. Em junho de 1850, ele foi enviado para as autoridades austríacas. Onze meses depois recebeu uma sentença de morte compulsória, que também seria comutada em prisão perpétua. Finalmente, em maio de 1851, Bakunin foi entregue às autoridades russas.

Na Rússia, foi trancafiado na terrível prisão da Fortaleza de Pedro e Paulo. No início de sua sentença, um emissário do Imperador visitou Bakunin e comunicou-lhe que o Imperador requisitava uma confissão por escrito, esperando que a confissão pudesse beneficiar Bakunin espiritual e fisicamente. Uma vez que todos seus atos eram conhecidos, ele não possuía segredos a serem revelados, decidiu escrever em “Confissões” ao Imperador: “O senhor quer a minha confissão; mas precisa saber que um criminoso penitente não é obrigado a implicar ou revelar as ações de outrem. Guardo apenas a honra e a consciência de que jamais traí quem quer que tenha confiado em mim, e é por esse motivo que não lhe entregarei nenhum nome.”

A “Confissão” seria publicada muito posteriormente, após ser descoberta em meio aos arquivos imperiais. Este documento provou ser controverso e por diversas vezes foi analisado no contexto da literatura mundial (vide “O Homem Revoltado” de Camus, p.ex.).

Depois de três anos em uma pequena cela da Fortaleza, ele passaria outros quatro, de uma maneira ainda mais degradante. Foi trancafiado acorrentado nas masmorras subterrâneas do castelo de Shlisselburg. Foi acometido de escorbuto, com a perda de todos os dentes. Mais tarde, Bakunin diria que ele encontrou algum alento ao rememorar mentalmente a lenda de Prometeu acorrentado. Seu contínuo aprisionamento nessas condições fez com que ele implorasse ao irmão que lhe trouxesse veneno para que desse um fim ao seu sofrimento. Esse, entretanto, negou-lhe o cianureto e com isso ganhou a humanidade.

Após a morte de Nicolau I, o novo imperador Alexandre II exigiu que o nome de Bakunin ficasse fora da lista de anistia. No entanto, em fevereiro de 1857, sua mãe fez um apelo que resultou na deportação do libertário ao exílio na cidade de Tomsk, na Sibéria Ocidental. Após um ano de sua chegada em Tomsk, Bakunin casou-se. Em agosto de 1858, recebeu uma importante visita que iria propiciar-lhe mais uma conspiração e, finalmente, a fuga para a liberdade: seu primo em segundo grau, o conde Nikolay Muravyov, governador-geral da Sibéria Ocidental.

Muravyov era liberal e Bakunin, enquanto parente, tornou-se seu primo favorito. Na primavera de 1859, Muravyov ajudou Bakunin com um emprego na Agência de Desenvolvimento de Amur o que permitiu que ele e sua companheira se mudassem para Irkutsk, a capital da Sibéria Oriental. Esta mudança possibilitou que Bakunin fizesse parte do círculo de discussões políticas centrado no quartel general da colônia de Muravyov. Neste ambiente emergiu a proposta para a criação de um “Estados Unidos da Sibéria”, independente da Rússia, seguindo o exemplo dos Estados Unidos.

O primo Muravyov, no entanto, seria forçado a se aposentar do cargo de governador-geral, em parte por sua conduta liberal, em parte pelo temor de que ele pudesse levar a Sibéria a um movimento de independência, sob a influência do indomável Bakunin.

Em junho de 1861, Bakunin deixou Irkutsk para supostamente tratar de negócios da companhia. No entanto, no porto de Olga, Bakunin conseguiu convencer o capitão americano da nau SS Vickery a levá-lo a bordo. Passou despercebido pela Marinha russa e fugiu.

Em agosto, chegou ao Japão. Lá, por um acaso, encontrou o poeta Wilhelm Heine, um dos camaradas de armas de Dresden. Deixou o Japão na sua companhia. Chegou a São Francisco e, via Panamá, alcançou Nova York, tudo isso em menos de um mês.

Tinha volúpia de reintegrar-se ao movimento revolucionário. Foi imediatamente a Londres para ver Herzen. No princípio da noite irrompeu na sala de jantar onde a família comia sopa. Seu cumprimento tornou-se famoso: "O que! Você esta sentado aí comendo ostras! Bem! Conte-me sobre as novidades. O que está acontecendo, e onde?!"Bakunin tornou a mergulhar no movimento revolucionário.

Em 1860, enquanto ainda estava exilado em Irkutsk, Bakunin e seus associados políticos tinham se impressionado com Giuseppe Garibaldi e sua expedição à Sicília em nome de Vitor Emanuel II. Ele escreveu para Garibaldi em 1862: “Se você pudesse ver como eu vi o entusiasmo apaixonado de toda a cidade de Irkutsk, a capital da Sibéria Ocidental, frente às notícias de sua marcha triunfal através das terras do louco rei de Nápoles, você teria dito como eu disse que já não existem distâncias ou fronteiras.”

Bakunin deixou Londres em fins de 1863 chegando à Itália onde, pela primeira vez, se declarou anarquista e expôs suas ideias enquanto tal. Lá ele concebeu o plano de forjar uma organização secreta de revolucionários para levar à frente o trabalho de propaganda e preparar o proletariado e o lupemproletariado para a ação direta. Recrutou italianos, franceses, escandinavos, e eslavos para uma Irmandade Internacional, a também chamada de Aliança dos Socialistas Revolucionários.

Em Julho de 1866 Bakunin escrevia para Herzen e Ogarev sobre os bons resultados de seus esforços em relação aos últimos dois anos. Sua sociedade secreta possuía então membros na Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Rússia e Polônia.

Durante o período de 1867 e 1868, respondendo ao chamado de Emile Acollas, Bakunin envolveu-se na Liga de Paz e Liberdade para a qual ele escreveu o longo ensaio “Federalismo, Socialismo, e Anti-Teísmo”. Nesse escrito ele defendia o socialismo federalista, baseado no trabalho de Proudhon. Apoiava a liberdade de associação e o direito de secessão para cada unidade da federação, mas enfatizava que essa liberdade deveria ocorrer conjuntamente com o socialismo já que: “Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão.”

Bakunin desempenhou um importante papel na Conferência de Genebra em setembro de 1867, e juntou-se ao Comitê Central. Participaram desta conferência em torno de 6.000 pessoas. Quando Bakunin se ergueu para falar, escutou: “Bakunin!” era Garibaldi, que se levantou, avançou uns poucos passos e o abraçou. Este encontro solene de dois velhos e experientes guerreiros da revolução produziu uma impressão estonteante… todos se levantaram e houve um prolongado e entusiasmado bater de palmas.

Entre os anos de 1869 e 1870, esteve envolvido com o revolucionário russo Sergey Nechayev (personagem que inspiraria Dostoievski em “Os Demônios”, na figura de Verkhovenski, tema de um próximo ensaio que estaremos divulgando), em um número significativo de projetos clandestinos. Em conjunto os dois teriam escrito os livretos "Palavras à juventude – princípios da revolução" e "Catecismo de um revolucionário", obras que são exemplares em seu maquiavelismo. De certa forma, coisa de que Bakunin iria se arrepender posteriormente, eles ousaram dissociar a revolução da amizade e do amor. “O revolucionário é um condenado, sem interesses nem sentimentos pessoais, nem sequer um nome que seja seu.” Tem apenas uma idéia, a revolução e já rompeu com todas as leis e o código moral do mundo instruído. “Tem que ser frio disposto a matar e a morrer, preparar-se para resistir à tortura, só poder sentir amizade por aqueles que servem a seus propósitos.”

No entanto, um pouco mais tarde, após Nechayev coordenar à morte um estudante russo que não reconhecia nele a autoridade revolucionária, Bakunin rompe com o mesmo, “devido aos seus métodos sem honra”, como o próprio Bakunin posteriormente definiria. Desde então, autocriticamente, passa a criticar a ideia de Nechayev “de que todos os meios são justificáveis para atingir os fins revolucionários”.

No Congresso de Berna de 1868 ele e outros libertários se encontravam em minoria. Romperam com a Liga estabelecendo outra organização, a Aliança Internacional de Democracia Socialista que adotara o programa socialista revolucionário.

Bakunin participou da seção de Genebra da Primeira Internacional, na qual ele permaneceu muito ativo até sua expulsão por Karl Marx e seus seguidores, o que se daria no Congresso de Haia, em 1872. As discordâncias entre Bakunin e Marx ilustram a crescente divergência entre as seções "antiautoritárias" da Internacional que advogavam a ação e organização dos trabalhadores de forma a abolir o estado e o capitalismo, e as seções socialdemocratas, que sob a batuta de Marx defendiam a conquista do poder político pela classe operária.

Ainda que Bakunin aceitasse a análise de classe marxista e suas teorias econômicas relacionadas ao capitalismo, reconhecendo em Marx a sua genialidade, ele o considerava um arrogante, e dizia que “seus métodos poderiam comprometer a revolução social”. Criticava de forma efusiva o que chamava de "socialismo autoritário" e o conceito de “ditadura do proletariado”. “Se você pegar o mais ardente revolucionário, e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele seria pior que o próprio Czar”.

As palavras de Bakunin soam um tanto proféticas com relação aos acontecimentos do século XX: “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiadaEsta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário a partir do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

As seções expulsas da Primeira Internacional criaram seu próprio Congresso Internacional em Saint Imier. Agregando grupos libertários de vários países e importantes pensadores anarquistas - entre estes os irmãos Reclus, Kropotkin, Enrico Malatesta - esta organização internacional seria responsável por um novo fôlego na tradição anti autoritária, mutualista e de caráter descentralizado do anarquismo nas próximas décadas.

Em 1870 Bakunin atuou como articulador de um levante na cidade francesa de Lyon, chamando a população a se rebelar em resposta ao colapso do governo francês durante a Guerra Franco-Prussiana, procurando transformar um conflito imperialista em revolução social. Este levante, que efetivamente fracassou, mostrou-se um importante precedente da Comuna de Paris, com a qual compartilhou princípios e modelos. Em suas “Cartas para um Francês Sobre a Presente Crise”, ele defendeu uma aliança revolucionária entre a classe trabalhadora e o campesinato. “Precisamos difundir nossos princípios, não com palavras, mas com ações, esta é a mais popular, mais potente e mais irresistível forma de propaganda.”

Ele foi um forte incentivador da Comuna de Paris de 1871, que compreendeu como uma "rebelião contra o Estado e os privilégios de classe". Bakunin elogiou os homens e mulheres que posteriormente ficaram conhecidos como “communards” por rejeitarem não só o estado, mas também uma "ditadura revolucionária".

Bakunin retirou-se para a cidade suíça de Lugano em 1873. Mesmo doente, com alguns estudantes e intelectuais funda uma editora na qual parte de seus livros são publicados sob o título de “Estadismo e Anarquia”. Bakunin ainda participaria no ano seguinte, 1874, de uma tentativa de revolta na cidade italiana de Bologna. Esta, ao fracassar, fez com que o velho revolucionário retornasse à Lugano, onde passou seus últimos anos. Em 1876, com a saúde muito deteriorada, Bakunin é levado por um amigo para um hospital em Berna. Lá encontrou seu fim, em 1 de Julho de 1876.

Seu corpo foi enterrado no cemitério de Bremgarten. Seu túmulo é mantido graças às doações de um suíço anônimo, sendo visitado por anarquistas vindos de todo o mundo. Segundo o diretor, não é incomum que em algumas noites grupos de jovens entrem no cemitério e se reúnam para beber junto ao túmulo de Bakunin, de longe o mais visitado daquele cemitério.

 

Em sua perspectiva política, Bakunin rejeitou todos os sistemas de governo, fossem quais fossem os seus formatos. Questionou qualquer governabilidade baseada na escolha divina, bem como toda forma de autoridade externa, que fizesse prevalecer sobre as demais vontades a vontade de um soberano, ou de elites cuja ascensão pudesse ser favorecida pela implementação de um sufrágio universal. “A liberdade do homem consiste tão somente nisso: de que ele obedeça às leis da natureza às quais ele por si próprio reconhece enquanto tais, e não porque elas foram impostas externamente sobre ele por vontade exterior, humana ou divina, coletiva ou individual.”

De forma similar Bakunin rejeitou a noção de quaisquer posições ou classes privilegiadas, desde que esta é a peculiaridade do privilégio. “O homem privilegiado, seja ele privilegiado politicamente ou economicamente, é um homem depravado em intelecto e coração.”

Por "liberdade", Bakunin não se referia a um ideal abstrato, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica dos outros. Liberdade consiste no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material." Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade," não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou individual." Ele também desenvolveu uma crítica ao marxismo, prevendo que se os marxistas tivessem êxito em ocupar o poder, eles iriam criar uma ditadura de partido "em tudo mais perigosa porque ela se apresentaria como uma falsa expressão da vontade do povo."

A forma de socialismo que concebia era conhecida como "anarquismo coletivista", condição na qual os trabalhadores poderiam administrar diretamente os meios de produção através de suas próprias associações produtivas. Assim haveria "modos igualitários de subsistência, fomento, educação e oportunidade para cada criança, menino ou menina, até a maturidade, e recursos e infraestrutura análoga na idade adulta para dar forma ao seu próprio bem estar através do próprio trabalho."

Por federalismo, Bakunin entendia a organização da sociedade "da base até o topo, de acordo com os princípios de livre associação e federação." A sociedade poderia ser organizada "com base na liberdade absoluta dos indivíduos, das associações produtivas, e das comunas," com "todos os indivíduos, todas as associações, todas as comunas, todas as regiões, todas as nações" tendo "o direito absoluto da auto-determinação, de se associar ou não, aliar-se com quem quer que desejassem."

"A ideia de Deus implica na abdicação da razão humana e da justiça; esta é a mais decisiva negação da liberdade humana, e necessariamente termina na escravidão da humanidade, na teoria e na prática." Bakunin invertia o famoso aforismo de Voltaire de que se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo, afirmando que "se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo." Refutava a ideia religiosa do livre-arbítrio e defendia uma explicação material dos fenômenos naturais. A "missão da ciência é, por observação das relações gerais, compreender os fatos verídicos e estabelecer as leis gerais inerentes ao desenvolvimento de um fenômeno no mundo físico e social."

Os argumentos de Bakunin se contrapunham aos ideais defendidos por um número considerável de marxistas, para os quais nem todas as revoluções precisariam necessariamente ser violentas.  Do mesmo modo ele rejeitava o conceito marxista de "ditadura do proletariado", que mantém o poder concentrado no Estado até a futura transição ao comunismo. Bakunin insistia que qualquer "elite iluminada" só deveria exercer influência discreta, jamais se impondo na forma de uma ditadura a outrem e nunca se aproveitando de quaisquer direitos oficiais, em termos de benefício ou significância.

Defendia que o Estado deveria ser imediatamente abolido após a revolução porque todas as formas de governo, eventualmente, levariam à opressão. “Nenhuma ditadura pode ter qualquer outro objetivo para além de sua auto-perpetuação; ela pode apenas levar à escravidão o povo que tolerá-la; a liberdade só pode ser criada através da liberdade, isto é, por uma rebelião universal de parte das pessoas e organização livre das multidões de trabalhadores de baixo para cima.”

Apesar da oposição veemente à proposta marxista de revolução, ele considerava as análises econômicas apresentadas por Marx extremamente importantes, tanto que foi ele próprio, o primeiro tradutor do “O Capital” para o idioma russo.

De seu exílio em Londres, Marx observava os movimentos do inquieto russo. Nas suas cartas, o teórico alemão descrevia Bakunin como um “intrigante” ou “esse maldito moscovita”. No entanto, quando escreveu sobre a insurreição de Dresden de 1848 afirmou que "no refugiado russo Michael Bakunin, eles (os rebeldes de Dresden) encontraram um líder capaz e de cabeça fresca." Marx também escreveria em uma de suas cartas para Engels sobre o encontro que tivera com Bakunin em 1864, depois da fuga da Sibéria. “No geral ele é um dos poucos, penso eu, que não retrocedeu após estes 16 anos de prisão, pelo contrário, avançou ainda mais."

Os métodos defendidos por Bakunin em seu programa revolucionário estavam em consonância com seus ideais, princípios e com sua própria vida. Os trabalhadores do campo e da cidade iriam se organizar em uma base federalista, "criando não só as ideias, mas também os fatos do futuro”. Os sindicatos e organizações operárias poderiam "tomar em sua posse todas as ferramentas de produção bem como prédios e recursos." Os camponeses "ocupariam a terra e colocariam para fora aqueles senhores de terra que vivem do esforço de outros."

Diversos acontecimentos políticos do século XX tiveram grande influência das ideias de Bakunin. A insurreição anarquista de 1918, no Rio de Janeiro, é um dos exemplos. Comandada por Domingos Passos, negro, carpinteiro e operário, que ficou conhecido como “Bakunin brasileiro”, o apelido conferido a Domingos se deveu tanto à sua audácia e determinação em enfrentar o patronato, como pelos seus discursos marcados em igual medida pela agressividade e coerência.

A vida e a obra de Bakunin formataram a base do anarco- sindicalismo, de enorme importância nas conquistas dos trabalhadores até a primeira metade do século XX. Ainda influenciarão diversos movimentos nas últimas décadas do século e princípios do XXI, como os grupos ambientalistas e aqueles que utilizam a tática de ação direta das “massas”. Movimentos cooperativistas, de ocupação e de reforma urbana, grupos e locais de trabalho de auto-gestão, também carregam em si o germe da ideologia anarquista e o pensamento célebre de Bakunin.

Para além de seu legado político e filosófico propriamente dito, Bakunin tornou-se ele próprio um símbolo do antiautoritarismo no mundo das ideias. Uma figura lendária que inspirou inúmeros personagens literários ficcionais e lutadores sociais por mais de cem anos, Bakunin segue sendo uma referência presente entre os anarquistas contemporâneos, dentre estes, Noam Chomsky.

 

Pompéia e Herculano, cidades imortais



A última erupção do Vesúvio havia ocorrido em 1737 e um ano após o evento, a montanha se mantinha calma. Depois da explosão, uma grande quantidade de estátuas e imagens havia sido encontrada por certo General d’ Elboeuf, amante de antiguidades e entregue ao rei das Duas Sicílias, Carlos de Bourbon. O rei, recém casado com Maria Cristina, não se pode negar ao “capricho” da rainha que se encantara com a beleza das peças e desejava ainda mais “relíquias”. Ordenou o Rei que o chefe do Exército se encarregasse da expedição. Este, então, recrutou seus trabalhadores dentre os prisioneiros e com pólvora e ferramentas iniciou as perfurações a partir de um poço de exploração aberto pelo d’ Elboeuf.

Era preciso vencer mais de quinze metros de dura massa vulcânica. À custa de explosões e picaretas os corredores principiaram a ser abertos. Em determinado momento, a picareta tocou em metal e o golpe soou como um sino. Era o primeiro achado: três fragmentos de cavalos de bronze.

Somente então, o Exército chamou um especialista, o Marquês Venuti, diretor da Biblioteca Real, que passou a superintender as explorações posteriores. Seguiram-se três esculturas de mármore, romanos vestidos de togas, colunas pintadas e um cavalo inteiro de bronze de quatro metros de altura. O entusiasmado Marquês resolveu descer pessoalmente nas escavações e descobriu uma escada que o conduziu a uma inscrição em bronze onde se podia ler: “Theatrum Herculanense”, construído à custa de um mecenas de nome Rufus.

Estava descoberta uma cidade submersa, pois onde havia um teatro deveria existir uma cidade. O poço aberto por d’ Elboeuf apontava diretamente para o palco! Este estava repleto de estátuas e ali foram encontradas empilhadas porque uma formidável torrente de lava derrubara sobre o palco a parede do cenário de fundo, soterrando seus corpos de mármore, bronze e pedra para um repouso de dezessete séculos.

Desde o teatro, com a perfuração de mais cinco metros em meio à lava, a massa de pedras liquefeita e endurecida: lá estava a cidade de Herculano! Carlos de Bourbon, graças a Herculano, instalou um museu como jamais existira no mundo.

Tal como muitas vezes acontece na História e na vida dos homens, o mais difícil ocorre primeiro e o caminho mais longo é, não raramente, tido como o mais curto. O Cavaliere Alcubierre, engenheiro da corte, levou muito tempo para convencer o idoso monarca a transferir o local das escavações para o lugar que os sábios apontavam haver sido o lugar em que Pompeia existira e fora soterrada no mesmo dia que Herculano. Transcorreriam mais trinta e cinco anos até se empreendessem os primeiros passos para a descoberta da cidade gêmea, coberta por “lapilli”, pequenas pedras vulcânicas que junto com cinzas a haviam soterrado, formando camadas muito mais fáceis de serem removidas com as ferramentas da época.

No ano de 1748, tiveram início as escavações e em seis dias foi encontrada uma primeira grande e maravilhosa pintura mural, absolutamente conservada. Na semana seguinte, o primeiro cadáver petrificado e, ao seu lado, as moedas de ouro e prata que o morto deixara escapar das mãos. Foi o que bastou para que as escavações perdessem o rumo e começassem por todos os lados. Perdera-se o foco da descoberta trocada pela ganância real. Mal eles sabiam que, por incrível sorte, haviam chegado ao fórum de Pompeia!

A vitória para Alcubierre era um problema técnico e de ganhos financeiros. Winckelmann (o primeiro verdadeiro cientista a estudar as cidades) diria alguns anos após que o engenheiro tinha tanto a ver com antiguidades quanto “a lua com os caranguejos”. De todo modo, quando os homens de Alcubierre chegaram à platéia de um anfiteatro, onde obviamente não encontraram ouro, prata ou estátuas, não o reconheceram como tal e o abandoram.

Escavaram para os lados de Herculano e próximos aos portões deram com uma Vila, que concluíram, sem nenhum critério, haver pertencido a Cícero. Nas paredes estavam afrescos maravilhosos que foram recortados e copiados. Uma vez feito isso e, na ausência de “valores maiores”, atulharam a Vila com entulho e a abandonaram.

As escavações em Pompeia foram praticamente foi abandonadas por alguns anos e as atenções dos exploradores se voltaram para a rica Herculano, onde descobriram um verdadeiro tesouro: uma biblioteca que fora usada pelo filósofo Filodemos, hoje chamada “Villa dei Papiri”.

Finalmente em 1754, descobriram ao lado sul de Pompeia os restos de túmulos e de muros antigos. A partir desse dia e até hoje, com poucas interrupções, prosseguiram as escavações nas duas cidades gêmeas.

Só conhecendo a espécie de catástrofe que desabou sobre as cidades, poderemos formar uma idéia do efeito que sua descoberta exerceu no século do pré-classicismo.

Em meados de agosto do ano 79 de nossa era, o Vesúvio deu sinais de princípios de erupção, da mesma maneira que o fizera tantas vezes. Entretanto, nas horas que precederam o dia 24, os sinais de uma catástrofe antes nunca vista tornaram-se evidentes. Com um trovão horrendo fendeu-se o ápice do monte. Uma coluna de fumaça subiu e abriu-se sob a cúpula do céu e, acompanhada de estrondos e relâmpagos, uma chuva de pedras e cinza precipitou, escurecendo o dia. Ao mesmo tempo, uma enchente inundou as ruas, não se sabendo se provinha da terra ou dos ares.

Naquela manhã de verão, as duas cidades estavam entregues as suas atividades matinais. Seu fim viria de duas maneiras. Um misto de chuva de cinzas e uma tromba d’água e lava vulcânica derramou-se sobre Herculano, penetrando por ruas e ruelas, portas e janelas, cobrindo a tudo e a todos. Em Pompeia foi diferente, tudo começou com uma leve chuva de cinzas que era fácil sacudir; depois caíram os “lapilli”, seguidos por pedras de muitos quilos. Aí chegaram os vapores de enxofre, seguidos por gases de ácido sulfúrico. Os homens não tinham como respirar e se saíam de suas casas eram massacrados pelos “lapillis”, então, suas casas desabavam sob a pressão das pedras e se buscavam abrigo debaixo de pilastras os gases os matavam.

Passadas apenas quarenta e oito horas, o sol voltou a luzir e do vulcão apenas uma fina coluna de fumo era expelida. Pompeia e Herculano, tal e qual Sodoma e Gomorra no relato bíblico, haviam deixado de existir. Num círculo de dezoito quilômetros ao redor do Vesúvio, a paisagem estava arrasada, as campinas cobertas. Partículas de cinza haviam voado até a África.

Na verdade é difícil imaginar uma possibilidade melhor que uma chuva de cinzas para conservar uma cidade em toda a sua azáfama da vida diária para a posteridade. Pompeia e Herculano não foram velhas cidades do passado, mortas pelo processo lento de extinção ou devastadas por conquistadores. Ali, cidades vivas foram tocadas subitamente pela varinha mágica e a lei do tempo, do vir a ser, do devir, perdeu sua validade.

Com as escavações, paulatinamente, começou a ser percebido o processo dramático e as informações dos antigos autores sobre a catástrofe ganharam vida em achados como o do porquinho que não chegou a sair do fogo, nem os pãezinhos do forno. Que história se oculta por trás dos restos de duas ossadas que ainda conservam as algemas de escravos? O sofrimento do cão, acorrentado, encontrado sob o teto de um aposento? Foram achadas mães que ainda seguravam no colo seus filhinhos, protegendo-os com pedaços dos seus véus, antes que fossem sufocados. Homens e mulheres que, reunindo seus tesouros, chegaram às portas de suas casas, sendo mortos pela saraivada de “lapillis”. “Cave canem” (cuidado com o cão), diz o mosaico em frente da casa onde duas mocinhas tombaram tentando a fuga.

Diante de Herculano foram encontrados corpos ao lado de corpos, carregados com utensílios domésticos. Num aposento soterrado estava uma senhora com seu cão. Enquanto o esqueleto do cão conservara-se, o de sua dona espalhara-se por todo o aposento. Teria a fome do cão, ao não morrer imediatamente, obrigado-o no desespero a se alimentar do cadáver de sua dona? Não longe dali, um banquete fúnebre fora interrompido e depois de dezessete séculos foram encontrados os convivas acomodados em seus canapés. Aqui, sete crianças a brincar num quarto, quando a morte as surpreendeu e ali, trinta e quatro pessoas às quais se juntara uma cabra no intento de salvação.

Exatamente como estavam no momento, habitadas e cheias de vida, assim foram encontradas as casas, o Templo de Ísis, o anfiteatro. Nas salas de escrever achavam-se tabuletas de cera; na biblioteca, rolos de papiro; nas oficinas, as ferramentas; nos banhos públicos, os pentes; sobre as mesas dos restaurantes, tigelas e o dinheiro deixado pelo último freguês que pagou. Nas paredes das casas, versos de amantes apaixonados ou desiludidos.

Nas paredes das Vilas maravilhosos afrescos que, no dizer de Venuti, “eram mais belos que as obras de Rafael”.

Pompeia e Herculano, no momento mesmo de sua catástrofe, legaram para a posteridade o conhecimento vivo de seus hábitos, costumes, seu modo de pensar e agir e suas magníficas manifestações artísticas. Dessa forma, tornaram-se cidades imortais.

 

Lima Barreto: jornalista e escritor



Somente após a sua morte, Lima Barreto foi reconhecido como um dos mais importantes literatos brasileiros; quando em vida, o seu jornalismo militante e de princípios éticos foi o que mais o distinguiu.

Literariamente podemos afirmar que encarnou o difícil momento de continuidade e ruptura entre um passado que morria com Machado de Assis e um futuro que pertenceria ao movimento modernista. Se por um lado foi fiel ao modelo do romance realista e naturalista, resgatando as tradições cômicas e picarescas da cultura popular, por outro, seu estilo despojado, fluente e coloquial, tanto influenciaria os modernistas, quanto antes havia enfurecido os parnasianos.

Com relação ao jornalista Lima Barreto, este não possuía apreço especial pela grande imprensa de sua época. Sua atenção era mais voltada para a imprensa alternativa. “ Gosto dos jornais obscuros, gosto dos começos, da luta entre a inteligência e a palavra, das singulariedades, das extravagâncias, da livre ou buscada invenções dos principiantes”. Coerente com esse pensar, por toda a vida foi solidário com aqueles que lutavam por causas que ficavam acima “dos mesquinhos interesses pessoais”.

Em 1907, coerentemente, editou uma pequena revista, O Floreal. Verdadeira peça jornalístico- literária, em cujas páginas surgiram publicados os primeiros capítulos de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Apesar de haver existido somente até o quarto número, a revista não passou despercebida do olhar atento de José Veríssimo. Ele reportaria suas impressões na prestigiosa Revista Literária do importante Jornal do Commercio. Pela primeira vez o nome de Lima Barreto seria divulgado para o grande público.

As concepções revolucionárias a respeito dos objetivos da obra de arte e do papel do escritor engajado com a problemática nacional, podem ser exemplificadas em algumas citações transcritas de seus escritos:

“A obra de arte tem que dizer o que os simples fatos não falam. E eles estão aí para fazermos grandes obras de arte... Ela tem o destino de revelar umas almas às outras, de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento entre os homens.”

“Os escritores brasileiros não deveriam perder tempo nem amesquinhar-se em cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado.”

“A arte deve ser um instrumento de edificação moral da população. Devemos mostrar que um negro, um índio, um português ou um italiano podem-se entender e se amar, no interesse comum de todos nós.”

“A solidariedade humana, mais que nenhuma outra coisa, interessa ao destino da humanidade.”

Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 1881. Era filho de um tipógrafo, negro liberto, e sua mãe era professora primária, também descendente de escavos.

Concluiu o curso secundário na Escola Politécnica, contudo, a falta de dinheiro obrigou-o a abandonar a faculdade de Engenharia. Sustentava-o o emprego como escrevente na Secretaria de Guerra, obtido graças à indicação de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto.

Durante toda a vida enfrentou tanto o preconceito por ser mestiço quanto por ser um revoltado. Pobre desde o nascimento e por toda a vida, a solidão e a boemia levaram-no ao alcoolismo. Crises de alucinações e delírios provocaram a sua internação por duas vezes na Colônia de Alienados da Praia Vermelha. Seus sofrimentos na Colônia foram relatados de forma poética em O cemitério dos vivos.

Lima Barreto faleceu no primeiro dia do mês de novembro de 1922, vítima de ataque cardíaco, aos quarenta e um anos de idade, reconhecido mais como jornalista de vanguarda, que pela enorme contribuição literária deixada para a posteridade.

 

Logicamente, o emprego na Secretaria de Guerra lhe trazia entraves à livre expressão do seu pensar. “Durante os quinze ou dezesseis anos em que guardei as conveniências da minha situação burocrática, comprimi a muito custo a minha indignação e houve mesmo momentos em que ela, de certo modo, arrebentou”. Um desses arrebentar foi “Policarpo Quaresma”, sátira política pouco igualável no romance brasileiro. Outro foi Clara dos Anjos, um libelo literário contra o racismo sofrido pelos negros e mestiços.

A maior parte das crônicas, ensaios e materiais jornalísticos foram originados entre 1918 e 1922, após a aposentadoria por doença. Alguns meses antes de falecer ele organizou o material jornalístico sob o título de “Bagatelas”, publicado anos após. São escritos coloquiais e  descuidados, quase familiares, fora do tom formal de seu tempo.

Sem ser panfletário, Lima Barreto esgrimia uma áspera crítica política, social e de costumes. Nenhum cronista de sua época soube como ele perceber as consequências políticas do pós Primeira Guerra Mundial e denunciou a farsa de Versailles, “que produziu um tratado de paz cujas condições e cláusulas trazem em seu bojo a próxima guerra”.

Pacifista convicto, expressava o sentido do humanismo: “o objetivo da civilização não é a guerra, mas sim, a concórdia entre os homens de diferentes raças e de diferentes partes do planeta; é o aproveitamento das aptidões de cada raça ou de cada povo, para o fim último do bem estar de todos os homens”.

De formação eclética, heterodoxa, uma mistura de positivismo com anarquismo e pitadas de um liberalismo a la Spencer, ele se auto enquadrava filosicamente como um maximalista. No artigo intitulado “No ajuste de contas”, o autor propõe uma série de medidas que a seu ver, caso implementadas, viriam resolver a maioria dos problemas brasileiros. Com coragem, Lima Barreto declara que se inspirara na Revolução Soviética para propô-las: “revolução que viera abalar não apenas tronos, mas fundamentos de nossa vilã e ávida sociedade burguesa... não posso esconder o desejo que tenho de ver um movimento semelhante aqui, de modo a acabar com a chusma... precisamos deixar de panacéias, a época é de medidas radicais.”

O jornalista Lima Barreto foi, sem dúvida, o crítico mais agudo da República Velha, rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem republicana que manteve os antigos privilégios de políticos, de famílias aristocráticas e de militares. No Manifesto Maximalista ele expressa um ardente desejo de revolução social: “Cabe aos homens de coração desejar e apelar para uma violenta convulsão que destrone e dissolva de vez essa societa sceleris de políticos envolvidos com comerciantes, industriais, jornalistas ad hoc, que nos esfaimam, emboscados atrás das leis republicanas.”

Quando a greve insurrecional de 1918 eclodiu no Rio de Janeiro, assim como já havia feito com a greve de 1917 em São Paulo, solidarizou-se imediatamente com a mesma. Em Carta Aberta ao Presidente Rodrigues Alves, denuncia a violência e as calúnias policiais, amplamente difundidas pela Grande Imprensa do ponto de vista da repressão. “Se o chefe de polícia tivesse expedido uma circular a tal respeito, em papel com o timbre da polícia, a obra sairia igual a todos os artigos de nossos grandes jornais.”

Num período em que o Congresso Nacional aprovava açodadamente as leis de excessão contra os movimentos grevistas, foi do jornalista mulato a voz de mais alta denúncia. “É essa a República que desejamos?”

Foi Lima Barreto quem cunhou em nossa imprensa o termo plutocratas para os representantes de nossas elites corruptas. “O Estado atual é o ‘dinheiro’ e o ‘dinheiro’ são os plutocratas que açambarcam, que fomentam guerras, que elevam vencimentos para aumentar os impostos, de forma a drenar para seus cofres todo o suor e todo o sangue do País, em forma de preços e juros.”

Os plutocratas também eram os latifundiários e nosso escritor tinha claro, em 1920, que a reforma agrária era a condição indispensável para o livre desenvolvimento da economia nacional. Para ele era necessário antes de tudo, “dividir a propriedade agrícola, dar a terra ao homem que efetivamente nela trabalha e não ao doutor vagabundo e parasita, que vive na Casa Grande, no Rio ou em São Paulo”.

As ilusões e, após, as desilusões do major Policarpo Quaresma estavam intimamente ligadas às condições da vida rural brasileira. “Havendo tanto barro, tanta água, porque as casas não eram de tijolo e não tinham telhas?” “Pensou ser um homem ... mas aquilo era uma situação de camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha voz humana articulada.”

Destoava da grande maioria dos jornalistas de seu tempo os sentimentos anti-ianques do nosso grande escritor negro. O estilo de vida que a burguesia norte-americana pretendia apresentar ao mundo como padrão ideal da sociedade capitalista, como o supra-sumo da ordem e da prosperidade, era o aspecto que mais execrava, daí os seus ataques aos “hipócritas norte-americanos”. Dizia que o “fundo do espírito americano é a brutalidade”. E denunciava com sarcasmo  e sem medo aqueles colegas que se embasbacavam diante do colosso: “Nós só vemos dos Estados Unidos o verso, mas não vemos o reverso ou o avesso; e este é repugnante, vil, horroroso... Quando os americanos falam em paz e outras coisas bonitas, é porque premeditam alguma ladroagem ou opressão.” Em “O nosso ianquismo”, Lima Barreto resumiu tudo numa frase: “ no fundo, não passamos de um disfarçado protetorado”.

Pese toda a repulsa que lhe inspirava a República Velha, assim como a revolta contra a subserviência ao “ grande irmão do norte”, nosso escritor jamais se permitiu o pessimismo em relação ao desenvolvimento de nosso País. E previu o que, felizmente, após quase um século, ensaia alguma evolução:

“Não dou cincoenta anos para que todos os países da América do Sul, Central e México se coliguem a fim de acabar de vez com essa atual pressão disfarçada dos ianques sobre todos nós, e que a cada dia se torna mais e mais intolerável.”

 

Lima Barreto e suas "Bagatelas"



Poucos meses antes de sua morte aos quarenta e um anos de idade, em 1922, Lima Barreto reuniu em um só livro que denominou de “Bagatelas”, as principais matérias jornalísticas que refletiam sua visão da realidade brasileira. Nesse trabalho, estaremos resenhando seus principais artigos, ensaios e até mesmo panfletos, que nos fornecem um importante perfil da nossa sociedade nas primeiras três décadas republicanas do ponto de vista de um jornalista honesto e militante.

Lima Barreto enfrentou uma série de preconceitos: sua origem social (pobreza extremada), racial (mulato descendente de ex-escravos), alcoolismo, tendência familiar a distúrbios psíquicos, e, principalmente, por sua verve contestadora de jornalista independente. A todos os preconceitos enfrentou com a coragem e o desprendimento que lhe eram peculiares.

O Brasil dos anos vinte e a política na República Velha

Cotidianamente nos deparamos com leis que são feitas para não serem cumpridas. Pois Barreto tinha a mesma opinião há quase um século e denunciava que a Constituição da República Velha dizia no seu parágrafo 7, artigo 72: “Nenhum culto ou Igreja gozará de subvenção oficial, nem isenções de quaisquer espécies, nem terá relações de dependência ou alianças com o Governo da União ou dos Estados”. Até os dias de hoje, diversas Igrejas e Cultos recebem subvenções e isenções governamentais, proibidas desde aquela época, mas esquecidas por nosso “Estado Laico”.

A vida política na República Velha sempre esteve sob suas lupas investigadoras e o jornalismo foi sua maneira de denunciar distorções que ainda hoje buscamos modificar: “A República, mais que o antigo regime, acentuou o poder do dinheiro, sem freio moral de espécie alguma, e nunca os argentários do Brasil se fingiram mais religiosos que os de agora(...) Estes trinta anos de República têm mostrado mais que no Regime Imperial, além da incapacidade dos dirigentes para guiar a massa da população na direção de um relativo bem estar, a sua profunda desonestidade, os baixos ideais da política em presença de propinas, gorjetas ou lucros por superfaturamento (...) Fizeram crescer os desfalques com suas dilapidações aos cofres públicos; inventaram obras suntuárias nas cidades, custando elas o dobro, o triplo, ou o quádruplo, com o claro objetivo de endinheirar parentes e apaniguados políticos”.

Barreto tinha absoluta clareza sobre o papel do Estado numa sociedade de classes: “Tenho dito muitas vezes que o princípio geral a que obedece a política republicana é enriquecer cada vez mais os ricos e empobrecer cada vez mais os pobres.”“Os construtores, os empreiteiros de estradas de ferro, os arrendatários de concessões públicas estão ricos, mas as estradas de ferro virtualmente não existem, pois não preenchem a sua missão.”

Nosso país herdou os cartórios e tabeliães do tempo em que era uma Colônia de Portugal, mas que se perpetuaram pelos séculos. “Vivemos a época dos registros e dos tabeliães, mas é o tempo das maiores falsificações; é a época dos códigos, mas também a das maiores ladroagens; é a época das polícias aperfeiçoadas, apesar de ser também o tempo dos crimes monstruosos e impunes; é o tempo dos fiadores, endossantes etc., verificando-se nele os maiores calotes; é a época dos diplomas e das cartas, entretanto, sobretudo entre nós- é o tempo da mediocridade triunfante, da ignorância arrogante, escondida atrás de diplomas de saber.”

Sabemos o quanto a seca do nosso nordeste foi utilizada no passado como meio de enriquecimento dos coronéis dos sertões. Lima Barreto inúmeras vezes denunciou o desvio dos recursos públicos que fizeram as fortunas e o poder político dos coronéis. “Há anos criou-se na cidade do Rio de Janeiro uma Inspetoria contra a seca do nordeste. Mas as secas, sem abrandamento nos efeitos, continuam a devastar o desgraçado nordeste. O arcebispo do Ceará reportou que nos últimos anos mataram setenta mil pessoas e dois milhões de cabeças de gado. Onde estão os açudes pelos quais pagamos?”

A repressão política

O chefe de polícia da Capital do Brasil, no governo de W. Luiz era o Sr. Aurelino Leal, que se especializara em prender e espancar estudantes e trabalhadores. Quando todos calavam suas vozes, lá surgia a de Lima Barreto a denunciar as arbitrariedades da repressão. “O Sr. Aurelino anda arrebanhando para os seus cárceres, sob o pretexto de serem anarquistas e conspiradores, acusações que ele não baseia em documento algum, pretendendo atirá-los para Fernando de Noronha ou qualquer outro desterro...”

“A República admite a máxima liberdade de pensamento; e desde que o anarquista seja pego jogando bombas, dando tiros de revólver, perturbando a ordem, cai no domínio do Código Penal e o que a justiça tem em mãos já não é o anarquista, mas o desordeiro, o mau feitor, o qual deve ter um julgamento regular, em conformidade com as provas obtidas... e não como desejam fazer com os operários apreendidos em 18 de novembro, julgá-los sem direito à defesa e condená-los em segredo.” “Que não se repitam as cenas dantescas do “Satélite”, das deportações para os pantanais do Acre, dos tormentos das masmorras da ilha das Cobras e de outros fatos assaz republicanos.” ( vide nossa homenagem ao líder operário Domingos Passos, massacrado nessa onda repressiva http://proust.net.br/blog/?p=427).

Os reacionários da época criticavam as leis por serem muito liberais e os “pais” daqueles que hoje insistem com a criminalização de menores, também criticavam “os processos legais e humanos de julgar”, que eram tachados de protetores dos criminosos e dos inimigos da ordem social; “os deveres impostos pela solidariedade humana, os sentimentos de comiseração e piedade pelas dores dos outros e pelos oprimidos constituem aos olhos dos pensadores de artigos de fundo na imprensa, os últimos vestígios de uma filosofia sentimental e chorosa.” Os anseios autoritários sempre estiveram voltados para o cultivo “de um ideal novo de força, de ação, cheio de ambições, rico de instintos robustos da expansão e domínio... Pobre Brasil! É a rã querendo chegar a boi!” Nos dias em que vivemos, mal parece que um século de desenvolvimento humano tenha ocorrido em nossa Pátria!

As plutocracias e a necessidade imperiosa da reforma agrária

Lima Barreto introduziu em nosso jornalismo o termo plutocracia, principalmente em relação à oligarquia que ele mais odiava, a paulista: “Sinto que o seja para representar a calamitosa oligarquia paulista, a mais odiosa do Brasil, a mais feroz, pois não trepida em esmagar as suas barulhentas dissidências a macete, a pilões, como se castram ou se castravam touros valentes para serem depois mui mansos carros de boi”.

Quase profetizando as ditaduras cívico-militares que vitimizariam nosso país, ele diz: “Não são apenas os militares que aspiram à ditadura ou a exercem. São os argentários de todos os matizes, banqueiros, especuladores da bolsa, fabricantes de tecidos, etc., etc., que pouco a pouco a vão exercendo, coagindo, por essa ou aquela forma os poderes públicos a satisfazer todos os seus interesses, sem consultar o da população e os de seus operários e empregados...

“Temos que agir para que o poder público não se transforme em verdugo dos humildes e desprotegidos.”

Com que visão estratégica nosso Lima Barreto considerava, em 1918, que a reforma agrária era o nosso “Problema Vital”: “Precisamos combater o regime capitalista na agricultura, dividir a propriedade agrícola, dar a propriedade da terra ao que efetivamente nela trabalha e não ao doutor vagabundo e parasita que vive na Casa Grande ou no Rio ou São Paulo.”

Os costumes nos anos vinte

Lima Barreto estava pelo menos meio século adiante de seu tempo no que tange ao casamento e à sua dissolução: “Eu sou por todas as formas de casamento; não me repugna admitir a poligamia ou a poliandria, mas se fosse governo manteria a monogamia como a forma legal de matrimônio, mas suprimiria toda essa palhaçada de pretoria e juizado de paz... O divórcio seria completo e podia ser requerido por um dos cônjuges e sempre decretado, mesmo que o motivo alegado fosse o amor de um deles por um terceiro.”

“A vida do homem e o progresso da humanidade pedem mais do que dinheiro e consumo... pedem sonho, pedem arte, pedem cultura, pedem caridade, piedade, pedem amor, felicidade; e esta, a não ser que se seja um burguês burro e intoxicado pela ganância, ninguém pode ter, quando se vê cercado da fome, da dor, da moléstia, da miséria de quase toda uma grande população”.

Foi Barreto um dos primeiros combatentes na árdua batalha em defesa das mulheres, perante uma sociedade rigorosamente machista. “Uma das sobrevivências nefastas dessa ideia medieval, aplicada nas relações sexuais entre marido e mulher, é a tácita autorização que a sociedade dá ao marido de assassinar a esposa, quando adúltera. No Brasil, é fatal a sua absolvição pelo júri.”

Os Estados Unidos e as Américas

Lima Barreto foi o único jornalista de expressão a desnudar com clareza a democracia americana nos anos vinte. “Nós brasileiros temos muito poucas informações do que é a política dentro dos Estados Unidos... A política lá é negócio e os representantes políticos da nação, se não são homens de negócio, representam tais homens. Uma eleição custa fortunas e só os sindicatos argentários podem pagá-las”.

Também denunciou a possessão branca que os Estados Unidos estabeleceram na América Central. “Vimos como a América do Norte promoveu traiçoeiramente a guerra com a Espanha; vimos como ela a derrotou; vimos como se apoderou de Porto Rico e das Filipinas e estamos vendo o que é a independência de Cuba! E o Havaí?” “Os Estados Unidos se opuseram oficialmente, durante muito tempo que a Espanha fizesse a emancipação da escravidão negra em Cuba.”

E com que clareza, sem jamais haver saído do Brasil, ele reproduziu o sentimento ianque em relação ao nosso povo e a todos os demais povos: “Os Estados Unidos têm por todos nós um desprezo rancoroso e humilhante; quando falam em liberdade, paz e outras coisas bonitas, é porque premeditam a ladroagem ou opressão.” “O fundo do espírito americano é a brutalidade, o monstruoso, o arqui-gigantesco. Ele não tem o sentimento de proporções que toda a criatura humana deve guardar com o próprio homem. Desde que não sintamos essas proporções; desde que não possamos perceber uma relação oculta conosco e com as forças normais, não sei como se pode achar beleza num monumento, edifício, enfim, de uma civilização; e o sentimento que ela possa inspirar será o de esmagamento e de opressão, sensações muito opostas à de beleza que é suave e macia.”

A respeito da guerra do México, diz Eduardo Prado, na “Ilusão Americana”: “A má fé do governo de Washington começou com a questão do Texas. Fomentou tanto quanto pode a revolta daquele território, animando-o a separar-se do México, para mais depressa absorvê-lo e declarou guerra ao México, verdadeira guerra de conquista, humilhou aquela república até o extremo e arrebatou-lhe a metade de seu território.”

Lima Barreto complementa o intelectual Eduardo Prado: “O que Prado não diz é que os estados escravagistas do sul dos Estados Unidos, temendo perder a maioria que tinham no Senado americano, fomentaram a insurreição no Texas, que com a anexação propiciaram senadores perfeitamente escravocratas. A escravidão que há muito havia sido abolida no México foi restabelecida em todo o território anexado... Eles são capazes de tudo!”

Lima Barreto denunciou também os “Cavalheiros da Liberdade”, organização precursora da “Ku Klux Klan”, como “a primeira das grandes companhias de bandidos que se alugam a industriais e capitalistas para reprimir greves operárias, enforcar e torturar ativistas. A segunda, denominada Pinkerton, já se tornou famosa em todo o mundo e começa a exportar sua mão de obra.”

A Academia Brasileira de Letras

Lima Barreto, o criador genial de “Policarpo Quaresma”, de “Clara dos Anjos” e de “Cemitério dos Vivos”, foi candidato à Academia Brasileira de Letras. Ele teve tão somente um único voto! Para a vaga a que concorreu foi eleito o médico Miguel Couto. “A Academia Brasileira de Letras, onde era de se esperar houvesse mais independência espiritual, só elegeu os Senhores Osvaldo Cruz, Miguel Couto e Aluísio de Castro, seus imortais membros, todos eles médicos e que nada têm a ver com as letras, apenas porque eram doutores”.

“Acontece que a Academia é o cemitério das letras e dos literatos. Os que estão lá não passam de cadáveres bem embalsamados.”

Leia mais sobre: “Lima Barreto, jornalista e escritor do povo brasileiro”, em http://proust.net.br/blog/?p=604  

 

Rio de Janeiro antigo



O Rio antigo, cidade das melindrosas e dos almofadinhas, “flaneurs” tropicais, cidade múltipla, carnavalesca, sentimental, terra de revoltas populares, de muitas alegrias e tristezas, de trabalho suado, de inclusão e exclusão social, da repressão e das conquistas populares, o Centro Político e Cultural do Brasil por quase dois séculos. Em 2015, a Cidade Maravilhosa completará quatrocentos e cincoenta anos!

Vivaldo Coaracy, um de seus maiores memorialistas, refere-se a episódios da História relacionados às lutas políticas e aos movimentos populares que os habitantes do Rio de Janeiro sustentaram nas mais diversas épocas contra o escravagismo, o colonialismo, a prepotência de usurpadores dos direitos populares e lutas por melhores condições de vida.

I- Nos tempos da Colônia

Os africanos escravizados foram trazidos pelos navios negreiros desde a sua fundação. Em 1583, o Governador Salvador Correa de Sá instituiu uma taxa por escravo trazido de África, oficializando o tráfico. Deixou ao português João Gutierrez Valério o monopólio das “carnes humanas”. As primeiras revoltas não se fizeram esperar. Os negros, primeiro de forma individual e, depois em grupos, fugiam para “os matos” em busca da liberdade. Os quilombos na Serra dos Órgãos multiplicaram-se rapidamente e, em 1625, foram considerados “um perigo público”.

A autoridade colonial instituiu prêmios para a prisão de negros fugidos, fixando taxas a serem pagas pelos proprietários dos mesmos. Uma nova profissão surgiu e prosperou na província, a dos caçadores de escravos denominados capitães-do-mato.

A Câmara Municipal decidiu, em 1640, organizar uma milícia civil armada, a primeira de tantas a serem criadas no Rio, que teria direito a dois terços do valor do escravo capturado, além de todas as “crias” que apanhasse no mocambo. O primeiro comando da milícia foi construída na fazenda dos Jesuítas, nos contrafortes da Serra dos Órgãos. Apesar de toda a repressão, a resistência quilombola permaneceria ativa e cresceria até mesmo após o treze de maio de 1888.

O Rio, cidade contestadora, assistiu em 1660 a um dos primeiros levantes populares de homens livres, também conhecido como a Revolta da Cachaça, encabeçado por Jerônimo Barbalho.

No antigo Forte da Conceição, que abrigava a Casa das Armas, trabalhavam operários na conservação e produção de artefatos militares. Em 1791, num Forte Militar ocorreria a primeira greve operária da História do Rio.

Na sequência, temos os registros das lutas pela Independência do Brasil. Não por acaso foi no Rio de Janeiro que a Inconfidência Mineira teve o seu trágico desfecho, com a execução de Tiradentes. Importa àquele que se dobra sobre a História estudar as vinculações da Inconfidência com as lutas políticas do povo carioca pela Independência. E analisar as repercursões e consequências do terror desencadeado pelos portugueses e seus acólitos  contra os brasileiros no período pós Inconfidência.

Vivaldo Coaracy,  ao contar em seu livro a História da Rua do Cano (atual Sete de Setembro), ressalta a fundação de uma Academia Literária e Científica libertária alguns anos após a execução de Tiradentes. A Academia foi fechada pelas autoridades e seus membros metidos na cadeia pública por longos meses, dentre eles o poeta Silva Alvarenga e o jovem doutor Mariano da Fonseca, que mais tarde seria o Marquês de Maricá.

Os intelectuais progressistas da época eram acusados de “propagadores da subversão”, pregadores das “nefastas ideias francesas”.

II. No Brasil independente de Portugal 

Após a proclamação da Independência, surgiu a mobilização que forçou a abdicação de D. Pedro I em 1831. Seguiram-se as rusgas do período regencial, e em seguida, as lutas pela Abolição da Escravatura e pela República.

A mais famosa greve do período foi a dos  gráficos da imprensa carioca em meados do século XIX, que durou mais de dois meses, durante os quais um único jornal diário era editado: aquele dos próprios grevistas, “para que a população não ficasse sem notícias do país e do mundo”. Em 1880, um novo e importante movimento popular contra a carestia, denominado Revolta do Vintém, trouxe milhares às ruas e o preço dos cereais foi reduzido por decreto Imperial.

Também foi no Rio de Janeiro que surgiram os primeiros Clubes Republicanos, seus jornais e manifestações.

A Proclamação da República, teve como batismo a greve dos ferroviários da Central do Brasil, nos primórdios de 1890. Logo após a mesma, entraram em greve os carroceiros e os cocheiros, num movimento que praticamente paralisou o Rio.

Depois da proclamação da República, parcela da população juntou-se à resistência de Floriano Peixoto à revolta da Armada, população esta que, após a vitória, sentiu-se traída pelo déspota no poder.

Em 1910, a  revolta gloriosa contra a Lei da Chibata, encabeçada por João Cândido, nosso imortal “Almirante Negro”, terminou com um pacto de anistia entre o poder e os revoltosos, o que não impediu que a repressão desencadeada contra os mesmos fosse a mais bárbara possível.

Num local denominado Largo do Capim, que desapareceu para a abertura da Avenida Presidente Vargas,  foram fundadas a Federação Operária e o Centro de Estudos Sociais. E neste mesmo modesto local, em 1915, organizado o Comitê Popular contra a Guerra Mundial e a favor do internacionalismo proletário. Desse mesmo Comitê partiu a iniciativa de um Congresso pela Paz, que reuniu delegados argentinos, espanhóis e portugueses.

O movimento popular carioca evoluiu para a poderosa onda grevista de 1918/ 1920, que enorme influência exerceu no movimento operário brasileiro, propiciando a formação do Partido Comunista.

Na Praça da República, esquina da Rua da Constituição, junto ao antigo Arquivo Nacional, esteve localizada a primeira sede do Partido Comunista do Brasil, nos poucos meses que antecederam ao estado de sítio decretado em decorrência da Revolta do Forte de Copacabana (o princípio do Movimento Tenentista), em 1922.  Anos mais tarde, no mesmo prédio seria instalada a primeira sede legal do Bloco Operário e Camponês.

O Largo da Carioca também guarda muita História. A Confederação Operária Brasileira e seu órgão de imprensa, “A Voz do Trabalhador”, funcionou há cem anos num edifício, na esquina das Avenidas 13 de Maio  e Almirante Barroso. Lá foi preparado o II Congresso Operário Brasileiro. De toda forma, o Largo da Carioca seria a arena de grandes eventos políticos do Rio antigo, onde ocorreram dezenas de comícios na campanha pela Constituinte em 1945, quando imensas multidões se reuniam para ouvir a palavra do líder comunista Luís Carlos Prestes.

Luís Edmundo da Costa, em suas Memórias, descreve as belezas e as feiuras da cidade abençoada pelos deuses. O Rio das duas últimas décadas do século XIX cheirava ranço colonial, com muita sujeira, febre amarela epidêmica, e, ao mesmo tempo, tinha suas principais ruas percorridas por sujeitos de sobrecasaca preta, colarinho duro e cartola, julgando-se na Europa, mas sob um calor de quarenta graus à sombra.

Ao mesmo tempo, fala-nos do Rio dos boêmios, “gente mais ou menos literata”, ao lado de sujeitos estróinas e barulhentos, que se espalhavam pelos cafés, confeitarias e jornais da Rua do Ouvidor.

O Rio, o segundo lar do maranhense Catulo da Paixão Cearense, autor do imortal O luar do sertão, que viveu despreocupado na boemia e morreu na mais negra pobreza. Parceiro de Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Francisco Braga, foi tão bem retratado pelo escritor carioca libertário, Lima Barreto, em Triste fim de Policarpo Quaresma, como o responsável pela reabilitação do violão e da “modinha” nos salões e favelas da sociedade carioca.

Aquele Rio, o de Mário Penaforte, rei de nossas valsas, parceiro de Nazaré, Eduardo Souto e Sinhô. Penaforte que acordou até mesmo Paris com suas valsas, uma Paris envolvida na Grande Guerra de 1914.

Enfim, o velho Rio de Machado de Assis que desapareceria sob os escombros de um terremoto chamado Pereira Passos.

 

Com a Abolição da Escravatura, a cidade passou a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. Entre 1872 e 1890, sua população duplicou, passando de 274 para 522 mil habitantes.

O contingente populacional, levou ao aumento da pobreza que agravou a crise habitacional, traço constante na vida urbana da cidade desde meados do século XIX. O epicentro dessa crise era a Cidade Velha e suas adjacências, onde se multiplicavam as habitações coletivas e eclodiam as violentas epidemias de febre amarela, varíola e cólera-morbo, que conferiam à cidade a qualificação internacional de “porto sujo".

Muitas campanhas de erradicação perpetradas pelos governos da época não foram bem recebidas pela população carioca. Houve várias revoltas populares, entre elas a Revolta da Vacina, de 1904, que também teve como causa a tomada de medidas impopulares, como as reformas urbanas do Centro.

Logo, o Rio de Janeiro foi também o de Pereira Passos e de Oswaldo Cruz, renovando-se, “civilizando-se”, com a abertura da Avenida Central, a Avenida Beira-Mar, sob o “binóculo” do jornalista e escritor Figueiredo Pimentel. Nessas reformas, foram demolidos centenas de cortiços, e a população pobre, desapropriada de suas habitações, foi expulsa para as encostas dos morros, zona portuária e Caju, no princípio de todo o processo de favelização e exclusão social que se extende até os dias de hoje.

Figueiredo Pimentel manteve por mais de vinte anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta de Notícias. Como autor vanguardista, publicou O Aborto, que o conservadorismo jamais permitiu a reimpressão. Figura destacada na cena da Belle Époque carioca, foi o autor da máxima: “O Rio civiliza-se”.

Ao lado da cidade fútil e descuidadosa, surgia um importante centro turístico de atração  mundial, a Cidade Maravilhosa. A Cidade Maravilhosa do Art Nouveau, do Movimento Modernista, do Cassino da Urca, do Teatro Municipal, das Réjanes e dos Brulés.

Cidade Maravilhosa que é ao mesmo tempo uma cidade de trabalho, de movimento operário vigoroso e de classe média revoltada, de excluídos sociais, de intelectuais e pensadores. Durante um século, a cidade farol nas lutas pela construção de um novo Brasil!

Em 1930, um movimento revolucionário levará ao poder Getúlio Vargas. O ímpeto dos movimentos grevistas que haviam sido a tônica dos anos de 1932/35,  dariam vaza ao Movimento Insurrecional de 1935.

Mas isso é outra parte da História e será assunto para nova crônica!

 

W. Benjamin e o anjo da História



Em 1940, ano da sua morte, ao fugir do nazismo, Benjamin escreve aquela que seria a derradeira obra, considerada por muitos como o mais importante texto sobre o materialismo histórico desde Marx; para outros, a antiga ortodoxia, um retrocesso no pensamento benjaminiano: são as “Teses Sobre o Conceito de História”.

Adorno, referindo-se àquele de quem foi o único discípulo, Benjamin apesar de não ser poeta pensava poeticamente inclusive questões tão concretas como o materialismo histórico. Seu expressar-se é quase sempre metafórico, na própria acepção grega de “metaphorien”, do transporte que estabelece conexões sensorialmente percebidas, dispensando muitas interpretações. O sentido da importância do progresso material, por exemplo, é por Benjamin cotejado com a excelente metáfora do Anjo da História:

Paul Klee desenhou o “Angelus Novus”. “Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão 
escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O Anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruínas sobre ruínas e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

“Minhas asas estão prontas para o vôo,

Se pudesse eu retrocederia,

Pois eu seria menos feliz,

Se permanecesse imerso no tempo vivo”.

(versos de G. Sholem, o amigo mais próximo de Benjamin, sobre o Anjo da História)

O “historicista” e o materialismo histórico

Para Benjamin, todo historiador que não traga em seu coração o materialismo histórico estabelecerá uma relação de empatia com os Vencedores e estes são os que dominam aqueles que têm sido sempre os Vencidos. Esta empatia diz tudo para um materialista histórico: “Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de agora espezinham os corpos dos (vencidos) que estão prostrados no chão”.

“Os despojos carregados em cortejo são o que chamamos bens culturais”. Estes devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram como à corveia anônima de seus contemporâneos. “Nunca houve um momento da cultura que também não o fosse da barbárie”.

A luta de classes que um historiador educado por Marx jamais perde de vista é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes as coisas do espírito não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão cada vitória dos dominadores.

Dessa maneira, articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como de fato ele foi”. Significa apropriar-se sempre de uma reminiscência, tal como relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como a mesma se apresenta nesse momento ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso.

Esse perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o risco é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. “Em cada época é preciso arrancar da tradição o conformismo, que quer apoderar-se dela”. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. “E esse inimigo não tem cessado de vencer na História”.

Fascismo e “o progresso”

A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de História que corresponda a essa verdade. O fascismo se beneficia da circunstância de que seus adversários, os democratas e marxistas, enfrentam-no em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. Ora, o assombro com o século XX não gera conhecimentos, a não ser o conhecimento de que a concepção de História do qual emana é insustentável.

“Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso dos políticos antifascistas, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelhamento da máquina incontrolável são três aspectos da mesma realidade”.

O conformismo, que sempre esteve na essência da social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas ideias econômicas. Nada fora mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava a favor da corrente. O desenvolvimento técnico era visto como a água do rio. Daí só haveria um passo para crer que o trabalho industrial, sob o manto do progresso técnico, representava a grande conquista política. O trabalho era definido como “fonte de toda a riqueza e civilização”.

A social-democracia preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. E esta desaprendeu na escola social-democrata tanto o ódio de classe quanto o espírito de sacrifício, “pois tanto um quanto o outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados e não dos descendentes que um dia serão libertados”.

A ruptura necessária

A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que é transição, mas que estaciona no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. Enquanto o “historicista” apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz deste passado uma experiência única. “Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo com a meretriz que principia com o fatídico ‘era uma vez... ’”

O trabalho do ponto do capitalismo desenvolvido visa à exploração da natureza, comparada com igual complacência à exploração do proletariado. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o complementar da natureza que “está ali, grátis”, para ser usada, massacrada e destruída. Ora, a natureza não se reproduz na velocidade de sua destruição, como sói ocorrer com a classe operária.

Nesse planeta, um grande número de civilizações pereceu em sangue e horror. Naturalmente é preciso desejar ao planeta que algum dia experimente uma civilização que tenha abandonado o sangue e o horror; de fato estou inclinado a pensar que nosso planeta espera por isso. Mas é terrivelmente duvidoso que nós consigamos trazer tal presente em sua festa de aniversário de 100 milhões ou de 400 milhões de anos. E se não o fizermos o planeta nos punirá a nós, com nossos irrefletidos bons votos a ele, presenteando-nos com o Juízo Final.”

 

 

Contos
Novelas
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