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Contos, Novelas e Crônicas

Crônicas e Ensaios- II

O sentido da revolta



De repente, o Brasil mudou. De repente? A dialética nos ensina que podem ocorrer saltos de qualidade, que por momentos aturdem aqueles que apenas percebem pequenas mudanças quantitativas. O Brasil, onde milhões de pessoas ganharam as ruas para protestar, para externar sua revolta e descontentamento, deixou de ser o mesmo.  Foram manifestações que ocorreram de norte a sul, leste a oeste, com focos múltiplos e que dispensaram a liderança de partidos políticos tradicionais, de sindicatos e outros mecanismos formais de representação.

Confundir a Revolta das ruas com o fascismo é no mínimo miopia. Ela exprime um repúdio por um estilo de política que deixou de representa-la, e não pelos valores democráticos que consideram a democracia como o poder que emana do povo, exercidos em nome do mesmo e em seu interesse.

Cabe à esquerda democrática reciclar-se rapidamente, reaprender com toda essa revolta; cabe à democracia recapacitar-se na realização da tessitura e da urdidura da representação social, abarcando sem medo as reivindicações do povo na rua e auxiliando-o a encaminhar adequadamente seu protesto. Para isso é necessário que o papel de revoltados, que um dia muitos de nós cumprimos, e que hoje tantos criticam, abra-se para esse novo momento, em que “espíritos livres” surgem sem pedir licença a uma democracia formal que se esclerosou.

Mas falemos um pouco sobre a Revolta Histórica.

Muitas vezes nos esquecemos de que a revolta constitui uma das dimensões essenciais do homem, que o revoltado é, antes de tudo, aquele que diz não. Mas ao dizê-lo, ele se recusa a  renunciar aos seus direitos efetivos. Ele quer vivenciar uma nova realidade. Portanto, a revolta se legitima quando se crê que se tem razão, com a invocação tácita de valores de cidadania. Portanto, partindo de uma aparência negativa, ela é, na sua essência positiva, à medida que revela o que no homem deve ser sempre defendido: a sua liberdade, a possibilidade de ação, ou aquilo que é seu corolário: a vontade ativa e a possibilidade de iniciar algo novo.

Existem características que são marcantes num movimento de revolta e os jovens revoltados das ruas os expressam muito bem. Por exemplo, a revolta não é egoísta; o homem se revolta tanto contra a mentira quanto contra a opressão. Quando o revoltado exige para si respeito, o faz na medida em que se identifica com uma comunidade. É na revolta que um homem se transcende no outro, e, desse ponto de vista, a solidariedade humana aflora. Trata-se desse mesmo tipo de solidariedade que nasce nas prisões, nas masmorras, nos campos de extermínio, mas também nas ruas, nos enfrentamentos com as forças repressivas. Solidariedade que somente aqueles que atravessaram momentos da tensão humana maior são capazes de sentir em sua plenitude.

E a solidariedade que se fundamenta no movimento de revolta só encontra justificativa numa estreita cumplicidade. É quando o revoltado ganha a consciência do ser coletivo e a aventura passa a ser compartilhada por todos. A revolta, que retira o homem de sua solidão, fundamenta-se em um valor maior: “eu me revolto, logo, existo, e existo em comunidade!” O jovem deixa de ser somente um indivíduo consumista, um filho do mercado: em seu êxtase de revolta, ele torna-se também cidadão, filho da democracia!

Nos dias de hoje o espírito de revolta em todo o Mundo prolifera em grupos nos quais uma igualdade teórica encobre grandes desigualdades de fato. A revolta torna-se o ato do homem informado, cônscio de seus direitos. E ele se insurge contra um mundo fragmentado para reclamar unidade, contrapõe o princípio de justiça que dentro do revoltado existe, ao de injustiça que vê no mundo real. Essa revolta é como um “fantasma” a assustar todo o Capitalismo Globalizado.

É o revoltado, ao levantar-se diante do opressor, que defende a causa da vida, luta contra a servidão, a mentira e o medo. São estes três flagelos que fazem reinar o silêncio entre os homens, obscurecendo-os e impedindo-os que se reencontrem no único valor que pode salvá-los do niilismo: a longa cumplicidade, cujo limite é precisamente o poder de revolta.

Mas não nos equivoquemos crendo que a verdadeira revolta histórica seja uma reivindicação por liberdade total; pelo contrário, ela ataca permanentemente a liberdade total, contesta o poder ilimitado que permite ao superior violar a fronteira proibida. Longe de reivindicar uma independência geral, o revoltado quer que se reconheça que a liberdade possui limites em qualquer lugar em que se encontre o ser humano, já que o limite é o seu poder de revolta. A liberdade que deseja para si é a mesma que reivindica para o outro. Sua lógica profunda não é a da destruição, mas a da construção.

A lógica da revolta é querer servir à justiça a fim de não aumentar a injusta condição humana, esforçando-se para não se aumentar a mentira universal e apostar, diante do sofrimento humano, na felicidade. Se a revolta pudesse criar uma filosofia, ela seria a dos limites, da ignorância calculada e do riso. Pois não há direito sem expressão do direito. Fazer com que o direito emudeça até que a justiça seja estabelecida é emudecê-lo para sempre. É confiar a justiça aos poderosos. Mesmo quando a justiça não é realizada, a liberdade preserva o poder de protesto e salva a comunicação.

 

O mesmo raciocínio aplica-se à violência que surge em protestos, na revolta quando explode. A não violência absoluta funda negativamente a servidão e as violências do poder, enquanto que a violência sistemática destrói a comunidade viva e a existência que dela recebemos. Para ser profícua, a violência deve encarar os seus limites. E o revoltado deve preservar seu caráter provisório de rompimento, sempre ligado, se não puder ser evitado, a uma responsabilidade pessoal, a um risco imediato.

O fim justifica os meios? É possível, mas quem justificará o FIM? A Revolta responde: os meios. A revolução, após 200 anos de experiências, perdeu seu prestígio de festa e muito produziu sobre o que se refletir.

A sociedade da produção, do “progresso” e do consumo é apenas consumista, não criadora. O mundo de hoje é, em sua realidade uno, mas sua unidade é a do niilismo dos “shopping centers”. A civilização só poderá opor-se à barbárie se, ao renunciar ao niilismo dos princípios formais e ao niilismo sem princípios, auxiliando o mundo a reencontrar o caminho da síntese criadora.

Sabemos hoje que a revolução sem outros limites, que não a eficácia histórica, significa escravidão ilimitada. Para escapar a esse destino, o espírito revolucionário, se quiser continuar vivo, deve voltar a retemperar-se na revolta, inspirando-se no único pensamento fiel a essas fontes, o pensamento dos limites. Se a Revolta quer uma revolução nas relações humanas, ela a quer a favor da vida, de baixo para cima. Longe de ser romântica, ela toma o caminho do verdadeiro realismo. Será a Comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a absolutista, a liberdade refletida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas. Essas são as antinomias que traduzem o longo confronto entre a medida e a desmedida.

Ora, a medida não é o contrário da revolta. A revolta é a medida, é ela quem a exige, quem a defende e recria através da vida e dos seus distúrbios; a medida nascida na revolta só pode ser vivida pela revolta, pois a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, no lugar da solidão. A revolta, a secular vontade de não ceder de que falava Barrès, ainda hoje está na base desse combate. Mãe das formas, fonte da vida verdadeira, ela nos sustenta no movimento selvagem e disforme da história.

Finalmente, a revolta é o próprio movimento da vida; por isso ela é amor e fecundidade ou ela não será nada. A “revolução” sem honra, que coloca o homem abstrato no lugar do de carne e osso, coloca o ressentimento no lugar do amor. A revolta quando se contamina pelo ressentimento, deixando suas origens generosas, nega a vida e corre para a destruição, fazendo sublevar a turba de pequenos escravos que se oferecem aos mercados da servidão e do enriquecimento.

Para além do niilismo e do conformismo, em meio aos escombros, preparemos um Renascimento. Mas devemos aprender a viver e a morrer, para sermos homens. E aqueles que virão após nós serão muito melhores do que já o fomos.

( Referenciado no existencialismo de Camus)

 

O renascer dos espíritos livres- homenagem a Marighella



A geração que passou para a história como a “geração dos anos sessenta”, foi o marco de um grande momento histórico: o ressurgimento massivo dos espíritos livres por quase toda a face da velha Terra, um fenômeno especial e tão tumultuoso que influenciou a política, as artes, os costumes e até mesmo o próprio modo de o ser humano relacionar-se com a natureza.

Falamos dos anos sessenta, mas não podemos deixar de ressaltar que este momento, o do despertar dos “espíritos livres”, já ocorreu centenas de vezes na História da humanidade; alguns deles duraram períodos mais longos como o despertar do Renascimento; outros foram mais rápidos, e, em compensação a chama acesa brilhou com muito mais intensidade, como em 1789, na Grande Revolução Francesa; nas barricadas de 1848 que varreram a Europa reacionária; em 1871, na Comuna de Paris e no outubro de 1917, na Rússia libertária.

Sempre que os espíritos ousaram se libertar, eles assumiram a responsabilidade de mudar o mundo e sob sua ação nada mais permaneceu como era antes. Nem mesmo é importante o fato de que o sentido destas mudanças tenha se perdido ou se desvirtuado no seu próprio processo de vida, que os ideais revolucionários tenham sido substituídos pelo bem-estar pessoal e pelo espírito dos burocratas; o mais importante, o que definitivamente conta é que os espíritos livres fizeram a História da Humanidade e nela escreveram as linhas mais belas, as mais humanas, até mesmo “demasiadamente humanas”.

Os espíritos livres ao surgirem agitam os elementos: os mares se elevam sob influxos lunares descomunais e os céus são cortados por raios e estrondos. Um observador imparcial que tenha vivido um destes momentos históricos teria imaginado que as portas que interligam o mundo terreno com o celestial, a crosta terrestre como o subterrâneo, de repente, tivessem se aberto de par em par. E a crosta social sobre a qual sempre o homem pisou de modo tão seguro e que já se afigurara incerta, gretas e chamas dela se erguem e “tudo que era sólido se desmancha no ar”.

São estes os momentos que tornam a presença do homem sobre a terra justificável, que empurram o niilismo para trás da cortina da vida, que transformam um mundo sem sentido em um universo em si e para si, numa aventura que vale à pena ser vivida, pois os espíritos livres são os arautos da natura e prenunciam o surgimento do novo. Antecipam a luta e a coexistência do divino e maravilhoso com o pérfido e o demoníaco, do criativo com o conservador, do revolucionário com a reação às previsíveis mudanças.

É quando os grilhões que acorrentavam, aparentemente para sempre os espíritos uns aos outros, e estes à rotina sempre vivida de cada classe social, selada aos preconceitos, às infindáveis culpas companheiras de jornada do velho e antigo pecado, rompem-se com estrondo e os espíritos, tornando-se livres das amarras, começam aqui e ali a surgirem, a contaminarem outros acorrentados, a incentivarem o rompimento de outras amarras. Nada mais volta a ser o mesmo após tão sublimes e profundos momentos de arrebatamento, de ruptura, de coragem, de dor e de criação.

Porque quando a jovem alma se liberta, ela rasga o véu nauseante da rotina, arrebata e é ao mesmo tempo arrebatada e, talvez, seja por isso que ela mesma não compreenda muito bem toda a extensão do que se passa no momento dos seus atos. Um impulso, um ímpeto se torna senhor de sua ação, despertando um desejo de ir avante, seja para onde for a qualquer preço; uma jamais suspeitada, mas impetuosa e perigosa curiosidade, uma busca por um mundo inexplorado se inflama e crepita em todos os sentidos. “Antes a morte que a vida mesquinha de antes”- assim soa a voz imperiosa da sedução a negar tudo o que se havia aceitado passivamente até então!

Entroniza-se nos espíritos um súbito pavor e premonição contra o que antes era o antigo e como num relampejar surge o desprezo por tudo aquilo que os espíritos ainda agrilhoados consideravam “ser” e “dever”. O espírito liberto sorve da fonte preciosa de uma nova criatividade antes insuspeitada; sente nas entranhas um desejo tumultuoso, arbitrário mesmo, vulcânico de andança e de negação de tudo que não acompanhe a sua própria mutação; seu ódio a tudo o que represente o antigo transforma-o e ele caminha destruindo até mesmo os seus próprios mitos e imagens.

Somente, então, que aqueles que ousam e tiveram a ventura de serem penetrados pela liberdade do espírito, podem sentir um regozijo, um arrepio de bêbado que se apaixonou pelo perigo e dele retirou o orgasmo que lhe deu toda uma nova vida, assim como o prenúncio de vitória sobre uma sociedade esclerosada e dormente com seus ópios e opróbrios.

O espírito livre sorri conscientemente, mas que não se espere deste sorriso nada de angelical, pois ao libertar-se ele livrar-se-á de seu halo de inocência o qual, ao cair, se dissolveu no pó de um tempo já denominado passado. O sorriso do espírito livre tem um misto de maldade e malícia, e será a sorrir que ele irá revirar tudo o que estava encoberto e, desnudando-se, principia o grande ensaio de entender como seriam todos os conceitos da vida virados simplesmente “no avesso do avesso, do avesso, do avesso”.

Muitas vezes, os espíritos como os de Galileu, Bruno, Babeuf, Danton, Marx, Lênin, Lumumba, Che Guevara, Mário Alves e Carlos Marighella derrubaram marcos de fronteiras, violaram crenças e criaram novos valores políticos e éticos.

Os homens da ordem, os gerentes do capital, os ditos de “bem” de todos os tempos nada criam, apenas aprofundam velhas ideias. A natureza de todos eles é vulgar, pois nunca perdem de vista o seu benefício próprio, o lucro, a influência ou o poder.

Mas os libertos quando surgem, instituem-se em seu próprio e único árbitro - não mais aceitam nenhum valor, nenhuma moral que lhe seja imposta- e sua curiosidade esgueira-se para tudo o que sempre fora um dogma, para tudo o que antes lhes era proibido. A História, ele a quer reescrever e a seu modo.

E, então, ocorre um momento crucial: quando o espírito já negou os valores da sociedade em que vive, por serem falsos, ele vai mais além e, no limite de sua própria existência, coloca em cheque até mesmo os novos valores adquiridos. E isso ele o faz dialogicamente, numa sequência de negar a realidade, negar a negativa, buscar uma síntese que, por sua vez, também será, ao seu tempo, questionada. E neste eterno questionar, os espíritos se perguntam: se todos nós temos sido sempre enganados, por que um dia não nos tornaremos também enganadores de outros espíritos que desejarão se libertar?

Ainda hoje, passados quase cincoenta anos, quando fecho os olhos eu vejo aqueles espíritos livres surgirem nos momentos de explosão da Rua Maria Antônia, pressinto-os ao meu lado ao som do violão de um Vandré; é como se das barricadas erguidas nos Champs Eliseé eles ressurgissem; reconheço-os nos Panteras Negras americanos; farejo-os na resistência à Guerra do Vietnã, na presença de um homem-símbolo da decência humana: Bertand Russel; encontro-os nos movimentos hippies; sinto-me novamente participando das inúmeras reuniões no CRUSP, na marcha dos 100 mil da Cinelândia; vejo-me atuando nas dezenas de organizações de contestação social, armadas ou não, que surgiram, fruto das mais saborosas e fecundas atuações dos espíritos livres de 1968, e de seus guias, oriundos de gerações anteriores, como Carlos Marighella.

Posteriormente, eu ainda os encontro, espalhados com a dignidade dos homens livres, pelos porões da Ditadura Militar e busco reencontrá-los nas covas sem nomes de tantos cemitérios clandestinos, onde seus maravilhosos corpos foram escondidos, onde “seus ossos agora são corais, seus olhos, um par de pérolas”.

Saibam os que me lêem que até mesmo nos dias de hoje, de longe em longe, ainda me deparo com alguns daqueles espíritos livres vivos, talvez apenas para demonstrar que nem todos se esclerosaram e morreram, mas que pena, já são tão poucos... A grande maioria daqueles que nos insurgimos, que buscamos nos anos sessenta destruir os grilhões que aprisionavam os espíritos, fomos cruelmente esmagados pela reação. Formou-se, de todo modo, uma geração de perseguidos, torturados, aprisionados, os melhores dentre nós, assassinados. E então, os esbirros dos porões da ditadura entoaram seus gritos de vitória.

Mas, idiotas, enganaram-se a cada alma nobre que julgavam assassinar. A luta que parcela da geração dos 60 travou se constituiu em uma das páginas mais gloriosas dos tempos pós-guerra. Não existe um final feliz na vida, nem no coletivo, nem no plano individual, pois afinal, ela sempre termina sob uma lápide. Absolutamente, nada na história da humanidade é pré-determinado e a previsibilidade é um voo de baixa altitude. O final feliz só existe nas estórias de Andersen. Os espíritos livres de toda uma época podem ser trucidados, mas não derrotados. Por terem existido e agido, pautaram parcela da História da humanidade, deixaram o exemplo de rebeldia, sacudiram os preconceitos, descortinaram os caminhos para o retorno à democracia, denunciaram como criminosos aqueles que usurparam o poder que só pertence ao povo. Foram e sempre serão os arautos do amor e da solidariedade humana!

Que importa que experiências maravilhosas como a Revolução Soviética não tenham, ao final, conduzido os russos à felicidade utópica da sociedade comunista, da liberdade e da criação do homem novo? Que os Soviets tenham submergidos na burocracia, abandonando os ideais libertários, instituindo uma ditadura em nome de uma classe social que jamais teve poder direto, apenas o teve como representação? Que importa isto diante da pungente mudança instituída pelo povo em armas de 1917, quando o mesmo, sob a liderança de Lênin, assumiu nas próprias mãos o seu próprio destino? Demoramos ainda tanto a perceber que a história é movimento. E assim segue a história da humanidade, pontilhada de espíritos que fazem com que o mundo e a vida, que de outra forma nada mais seria que uma eterna luta animalesca pela exclusiva sobrevivência, ganhe sentido, torne-se, enfim, humana.

A história hoje volta a engravidar-se de novos e pungentes espíritos, que surgem na Europa, nas Américas, no Oriente, na África, nos Estados Unidos e no nosso Brasil. Espíritos que ao se libertarem, buscam as ruas como trincheiras e barricadas de luta, e com ou sem os seus capuzes trazem a alma a pulsar pela liberdade, buscam os direitos sonegados de cidadania e rasgam as túnicas prostituídas de um presente que já ameaça ser passado: medíocre, corrupto e corruptor.

Fiéis ao espírito de revolta de CARLOS MARIGHELLA, condutor e gerador de espíritos livres, os jovens espíritos livres enfrentam com bravura a feroz repressão daqueles que desejam eternizar seus privilégios! Eles prestam em quatro de novembro, dia de seu assassinato, a melhor homenagem que o grande líder desejaria!

 

Tortura e genocídio em Dostoievski



Uma companhia toca insistentemente na madrugada primaveril de São Petersburgo; o ano é de 1849. O jovem Dostoiévski, em trajes de dormir, abre a porta de sua habitação espantado, tem medo. Espera-o uma mensagem de violência, de morte. Oficiais e cossacos entram, vasculham todo o simples quarto, levam consigo os papéis que encontram e, acorrentado,  o escritor que recém experimentara o sucesso com o seu romance Gente Humilde.

Durante os próximos oito meses ele vegetará preso em uma solitária na Fortaleza de Pedro e Paulo, sem processo formal ou noção do destino que o espera. Seu crime? Ele não o sabia ao certo, somente presumia. É verdade que participara de um grupo intelectual denominado “Círculo Petrashevski”. O grupo de estudos era dedicado à discussão sobre as condições de vida na Rússia, centrada em obras da biblioteca pertencente ao próprio Petrashevski,que continha livros proibidos pela censura. Também é certo que  Dostoiévski participava há três meses de uma organização radical secreta, liderada por Nikolai Spechniev. Essa sua associação, por sorte, jamais chegaria a ser descoberta pelas autoridades da época, somente vindo a público após a Revolução Socialista.

Afinal, a principal acusação que foi assacada contra Dostoiévski foi haver lido em público uma carta aberta do escritor social- revolucionário Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, na qual o autor de “Almas Mortas” era criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras.

O espectro das revoluções de 1848 assustava a Europa. Nicolau I ( o mesmo Czar que seria imortalizado por Tolstói no conto Nicolas Palkine) mostrou-se temeroso de que qualquer organização clandestina poderia colocar em risco a autocracia, a exemplo do que ocorrera na França e Alemanha. Nada melhor que inventar uma conjuração contra o Império, denominando-a de “Conspiração Petrachevski”. Em 22 de dezembro, sem nem ao menos a pantomima de um julgamento, O Czar condena os acusados à pena de morte.

Ao amanhecer do dia seguinte, Dostoiévski e seus nove companheiros são retirados da cela e, no pátio de execuções, já amarrados a postes, têm os olhos vendados. Ouvem a leitura da sentença de condenação à morte e, em seguida, o rufar os tambores. O desespero de Dostoiévski e o desejo pela vida, congelam-se por um instante naquele cérebro colossal. O oficial que comanda o fuzilamento ordena o posicionamento, os recrutas apontam suas armas, mas a ordem de fogo não não é dada. A “maldade” do Czar montara a ópera bufa de uma farsa.

Os presos são desvendados e desamarrados. É lhes anunciada a graça, o perdão imperial; Nicolau I transformara a pena de morte em prisão com trabalhos forçados na Sibéria. A Dostoiévski couberam quatro longos anos de reclusão, que seriam seguidos por mais quatro de prestação de serviços ao exército, ainda na Sibéria.

A Bíblia é o único livro que lhe será permitido levar consigo no longo martírio que vivenciará na casa prisional siberiana, onde será  uma sombra entre as sombras, sem nome, apenas um número, esquecido dentre os “mortos sem sepultura”. Quando, chegando a Sibéria os soldados tiraram-lhe das pernas feridas as correntes que as prendiam, o condenado de vinte e oito anos perdera muito de sua saúde. Mas o que lhe permaneceria intocável e indestrutível era a alegria de viver, o desejo de escrever e de tudo anotar em sua prodigiosa memória para, um dia, servir-lhe, talvez catarticamente, de material de criação.

Em carta ao seu irmão, descrita em O Idiota, Dostoiévski comenta sobre o calvário vivido: “ Não me abati e nem senti desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora de nós. Ao meu lado há pessoas, e permanecer sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem e cair no desânimo- eis em que consiste a vida, em que consiste seu objetivo.”

Na “Casa dos Mortos” ele terá como companheiros de jornada criminosos, ladrões, pobres homens do povo que um dia haviam se revoltado contra a fome, alguns aristocratas degradados e uns poucos presos políticos, aliás como ele próprio. Logo descobrirá que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que vivenciara do lado de fora. Ele relatará como os camponeses zombavam dos intelectuais, por sua falta de destreza física nos trabalhos forçados, pois ao fim e ao cabo, embora todos comungassem do mesmo pão amargo, carregando pedras, telhas, limpando neve, cortando madeira, cortando rochas, aos “nobres” cabiam os trabalhos não tão rigorosos.

“Estou no presídio e esta vai ser minha vida por anos, o lugar em que irei sentir tão inverossímeis, tão mórbidas impressões. E quem sabe, ao deixá-la sinta saudades – com uma mescla dessa maliciosa impressão que as vezes degenera na necessidade de remexermos propositalmente na ferida, pelo desejo de distrairmo-nos com nosso próprio sofrimento, reconhecendo que no exagero de toda infelicidade há também prazer”.

Suas “Recordações”  serão uma coletânea interminável de suplícios físicos e psíquicos que o poder, através de seus esbirros, aplica aos pobres condenados. Afinal, “os presídios e o sistema de trabalhos forçados não melhoram os delinquentes, aos quais apenas castigam”. Presídios nada mais são que depósitos de escravos a serem destruídos física ou espiritualmente; uma forma clara de sinalizar aos marginalizados do processo econômico e político o que os aguarda se transgredirem certas normas.

A mesma forma de exercer o poder que nos transporta ao mal que varreria o século XX chegando aos dias de hoje: a tortura generalizada contra os pobres marginalizados, a morte banal, os campos de concentração e extermínio, presídios e casas de detenção onde “o mal radical”, que no dizer de Immmanuel Kant, destrói e aniquila não somente suas vítimas diretas, mas também os meios com que poderiam tentar reagir a ele.

“Não é em vão que em toda a Rússia, o povo chama desgraça ao crime e desgraçado ao criminoso”, nos relata o sensível narrador.

Os torturadores

Como “quase todas as manifestações espontâneas da personalidade de um preso são consideradas como crime”, os motivos para a tortura e aniquilação física de um prisioneiro na Casa dos Mortos são banais. Como concluiria  Arendt, um século após, o mal radical, descrito por Kant  e a banalidade do mal têm o mesmo significado, pois dizem respeito ao mesmo fenômeno: os das massas tornadas supérfluas, quando os seres humanos na sua distinção, singulariedade e plurariedade se tornam supérfluos. E quem é mais supérfluo que um presidiário pobre e esquecido?

Dostoiévsk, em 1856, escreveu: “A natureza do verdugo encontra-se em germe em quase todo homem contemporâneo. Mas as qualidades brutais do homem não se desenvolvem por igual.” Hanna Arendt identificaria em todo ser humano, onde não se desenvolva a capacidade de pensar, um potencial para o genocídio.

O narrador identifica dentre os torturadores dois tipos de verdugos: os voluntários e os obrigados por força burocrática. “O verdugo voluntário é, sob todos os aspectos muito pior que o obrigado…”.

O verdugo que age por “dever de ofício”, embora o bater lhe cause algum nível de prazer, não sente nenhum ódio supérfluo contra a vítima. Ele se esmera na destreza do golpe, no conhecimento do ofício, “em seu desejo de destacar-se ante os seus camaradas que esporeiam o amor-próprio”. “Esse torturador “de ofício” esforça-se na função pois sabe muito bem que é um réprobo para a sociedade, que em todos os lados encontrará um terror supersticioso que o seguirá por toda a parte e que isto tem sobre ele a influência de fomentar o seu ardor, as suas inclinações bestiais”.

Quando Dostoiévski refere-se aos verdugos voluntários, ele força nas tintas e os compara a “tigres ávidos de beber sangue humano”.  São seres sádicos, psicopatas no melhor estilo do mundo do Marquês de Sade, que saem da literatura instalam-se no mundo real.

Independentemente do gênero de torturadores ao final, “quem exerceu esse poder, esse ilimitado domínio sobre o corpo e a alma de um semelhante seu, de uma criatura; quem conheceu o poder e a plena faculdade de infligir a suprema humilhação a outro ser, que traz em si a imagem de Deus- converte-se em um escravo de suas sensações.”

A tirania torna-se um costume que possui a faculdade de desenvolver-se e degenerar-se numa doença. “O melhor dos homens pode embrutecer-se e, embora por efeito do hábito, descer ao nível de uma fera enlouquecida”.

“Seja como for, o verdugo antes do castigo, encontra-se em excitação, sente a força que possui, reconhece-se poderoso; nesse minuto é um ator: o público admira-o e teme-o e é com prazer que ele grita para a pobre vítima antes de comandar o espancamento: “aguenta que queima”. Custa a acreditar a que ponto pode corromper-se a natureza humana!”

Sartre, ao referir-se ao processo de torturas a que o Exército Francês submeteria o povo argelino nos anos 50 do século XX, disse: “ A tortura não é desumana; ela é simplesmente um crime ignóbil, crapuloso, cometido por homens e que os demais homens podem e devem reprimir. O desumano não existe em nenhuma parte, exceto nos pesadelos que o medo engendra.”

Na rotina da  Casa dos Mortos o poder absoluto sobre o outro ser destrói o escravo e modifica o seu senhor: “O sangue e o poder embriagam, engendram o embrutecimento, a insensibilidade, de tal forma que a inteligência e o sentimento acabam por achar aquilo natural e, por fim, aprazíveis as manifestações de anormalidade. O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano; é lhe quase impossível regressar à dignidade humana, ao arrependimento, a uma nova vida.”

Dostoiévski, a seguir, detém-se na descrição do comandante do presídio, um Major do Exército: “A um homem como ele era absolutamente necessário oprimir sempre alguém, tirar algo qualquer de um outro, despojar um terceiro de seus direitos, em suma, alterar a ordem de qualquer maneira”. O castigo fez-se para a insolência- assim pensam esses indivíduos- Estes inflexíveis cumpridores da lei não compreendem que a sua aplicação estrita, sem discernimento, nem compreensão da sua alma, conduz diretamente à desordem.” E o comandante vivia com toda a sua família num anexo do Presídio, de tal forma se sentia um “fiel cumpridor das regras”, um “homem de bem”.

Um segundo personagem é escrutinado, o chefe de disciplina, um tenente. Dostoiévski incorpora ao tipo físico nauseabundo uma personalidade pervertida: “era um homem de uns trinta anos, de estatura mediana, gordo, com umas bochechas coradas, regurgitando de gordura, uma dentadura enorme e um sorriso ameaçador, inquietante. Gostava muito de castigos, de dar pauladas, excitava-se quando era designado como executor. O tenente era comparável a um gastrônomo refinado na sua maneira de ser carrasco. Gostava imensamente da arte de ser verdugo e amava-a como uma arte. Deleitava-se e como um patrício do Império Romano enfastiado pelos prazeres e inventava vários requintes, várias modalidades antinaturais, com o fim excitar-se um pouco e de fazer agradáveis cócegas na sua alma atafulhada de gordura”.

A visão do autor de Recordações da Casa dos Mortos sobre a tortura é perene, atual e de certa forma, sinaliza a transformação social radical pela qual passaria a Rússia meio século depois: “ A sociedade que contempla com indiferença esse espetáculo está minada pela base. Em resumo: o direito de impor castigos corporais, outorgados a uns sobre os outros, é uma das pragas da sociedade, um dos meios mais poderosos para aniquilar nela todo germe de civilidade e a base completa para a sua dissolução inevitável e infalível.”

A respeito dos torturados

Todos os condenados, por mais temerários  e duros que sejam, têm medo de tudo num presídio. “Quanto o preso está por sofrer um castigo, esse é um outro caso. Não há dúvida alguma  que os momentos que antecedem o castigo são terríveis para o presidiário…” Os réus quando eram castigados deviam, infalivelmente, gritar e perdir compaixão ao verdugo, sob pena de que aplicassem mais força às varas de suplício.

“Esforçava-me por imaginar o estado psíquico daqueles que se encaminhavam para o suplício. Disse já que, perante o castigo, raro era aquele que conservava o sangue frio. Quase sempre o condenado sentia um medo terrível, puramente físico, involuntário, e inevitável, que afetava todo o ser moral da criatura.”

O narrador descreve dezenas de desgraçados condenados a morrer sob a vergasta e a ação reservada ao médico do presídio, no processo da tortura: “O médico só mandou suspender a execução quando viu que se prolongassem o suplício, o sentenciado corria o risco de morte”. A continuidade da tortura far-se-ia após a recuperação física do sentenciado.“Quando por acaso a pessoa encontrava presos sentenciados à espera do retorno à tortura, jamais se esqueceria  dos rostos espantados, consumidos e pálidos, de seus olhares de delírio.”

Um delator

Quando Dostoiévski se debruça na análise de um delator, é enorme o desprezo que flui de sua pena: “Ele (o delator) não era mais que um pedaço de carne com dentes e estômago e com uma sede insaciável dos mais grosseiros e bestiais prazeres carnais. Era capaz de matar e assassinar a sangue frio conquanto aquilo lhe proporcionasse satisfação do mais repelente e caprichoso dos prazeres. Era um exemplo daquilo a que pode chegar um homem quando não é, interiormente, obstado por nenhuma norma, nenhuma lei. Como me repugnava aquele eterno sorrizo trocista daquele quasímodo moral, daquele monstro.”

Conclusão

Anos após o exílio forçado na Sibéria, Dostoiévski retornaria a Petersburgo e editaria seu romance semi auto-biográfico Recordações da Casa dos MortosComo os ex-forçados eram proibidos de escrever memórias e relatos, Dostoiévski disfarçou a obra como ficção, dizendo-a ser o diário de um homem preso por assassinar a esposa em crise de ciúmes. O romance causou tal impacto na Rússia, que até mesmo o próprio Czar Nicolau I mandou que se divulgasse que ele havia chorado ao lê-lo. O caminho de  Dostoiévski como escritor de prestígio acabava de abrir-se e o genocídio praticado na Sibéria, ganhava pela primeira vez, seu lugar na literatura.

 

Tolstoi, Arendt e a banalização do mal



Liev Tolstói  legou-nos um conto precioso, em que os princípios da “banalização do mal”, encontrados por Hanna Arendt no caso Eichmann, foram por ele descritos com sessenta anos de antecedência. O conto chama-se Nicolas Palkine (Nicolas refere-se ao Czar russo, Nicolau I e o termo Palkine advém de palka, que em russo significa vara, normalmente com ponta de metal, utilizada em açoites e espancamentos).

Nicolas Palkine sinaliza com clareza meridiana as principais conclusões de Hanna Arendt, traçando o perfil do executor de tortura e massacres e o ambiente que torna propício o surgimento desses indivíduos.

A história desenvolve-se a partir de um diálogo que o narrador mantém com um velho suboficial, que servira primeiramente sob as ordens do Czar Alexandre I e, a posteriori, sob o mando de seu filho, Nicolau I.

O velho declara que estava carregado de pecados e o que mais desejava antes da morte era arrepender-se e comungar, livrando-se do castigo divino! São tantos os seus pecados, pergunta-lhe o narrador, ao que ele responde: “ Não sabeis que servi sob Nicolau? Comecei o serviço sob Alexandre; os soldados o elogiavam, diziam que ele era muito bom…”

Ao que o narrador retruca: “Lembro-me dos últimos tempos do reinado de Alexandre, quando vinte por cento dos soldados convocados para o exército apanhava até morrer; como deveria ser com Nicolau se o tempo de Alexandre era tido como muito bom?”

Bastou esse início de conversa para que o velhinho se abrisse, dizendo que para cincoenta açoitadas, nem mesmo a calça se tirava; davam-se duzentos, trezentos golpes… espancava-se até matar. Ao empolgar-se, o soldado falava com desgosto e horror, mas não sem orgulho da antiga bravura…

“Entre nós, chamávamos o Imperador de Nicolau Palkine, ao invés de Paulovitch”. Quando se lembra desses tempos é que surgem os pecados de consciência! Por exemplo, condenava-se  um soldado por má conduta a cento e cincoenta golpes de vara “e nós aplicávamos duzentos”; mas isso ainda não bastava aos oficiais, “batíamos para valer nos jovens soldados, com a coronha, com os punhos, no peito, na cabeça; o soldado morria e nem ao menos sofríamos uma repreensão”.

“Morria porque apanhava e as autoridades escreviam no prontuário: morreu pela vontade de Deus”.

O narrador solicita ao velho que descreva a aplicação do tipo de tortura por varas: o homem tem cada uma das mãos amarradas a um fuzil; é então empurrado entre duas filas de soldados e os oficiais gritam “bata mais forte, mais forte”. O velho pronunciava estas palavras com voz imperiosa, lembrando-se delas com evidente satisfação e imitando o tom de bravura autoritária.

O pecado, o inferno e a necessidade do perdão cristão advêm, para o velho, do fato de não haver cumprido apenas o ordenado pelos superiores, mesmo que o resultado também conduzisse o supliciado à morte, pois, enfim, somente cumpria ordens. O “pecado” estava em que se excedia no cumprimento do “dever”.

Contava essas minúcias sem nenhum remorso, como se tratasse de bois destinados ao matadouro. Lembrava-se perfeitamente de como o homem ferido resiste e depois cai; percebem-se os sulcos sangrentos; o sangue que corre; a carne que se desfaz em pedaços, até expor os ossos. O infeliz grita, depois urra surdamente a cada pancada e, por fim, se cala, já não tem mais forças. Chega o médico-inspetor, examina o pulso do supliciado e decide se pode continuar a bater nesse homem sem matá-lo ou se é preferível esperar que ele se cure para recomeçar o castigo e acabar de lhe dar a quantidade de pancadas a que os animais ferozes, chefiados por Nicolau Palkine, decidiram submetê-lo.

O doutor emprega toda sua ciência para impedir que o homem morra antes de sofrer todos os suplícios que um corpo possa suportar. Recorda-se o velho daqueles soldados que eram recolhidos em macas e transportados ao hospital para depois voltarem à tortura e de como imploravam pela morte! E o crime dos mesmos era haverem fugido do Regimento, terem tido o atrevimento e a ousadia de protestar contra a má qualidade da alimentação ou por falarem que os chefes roubavam.

Ao terminar a narrativa, o velho se revolta contra o intento de o narrador buscar nele o arrependimento: “Era a lei, estava certa, pois era executada depois de um julgamento, de que posso ser culpado?”

Estava tranquilo em tudo aquilo em que se ativera a uma Lei. Somente seus atos, que considerava  pessoais, o afligiam como haver, por conta própria, aumentado o sofrimento de homens.

O conto vai além e o velho soldado recordava da invasão da Polônia, falava da matança de crianças, de prisioneiros que deixavam morrer de fome ou frio, de um jovem assassinado a golpes de baioneta de encontro a uma árvore, e nesses casos, em absoluto demonstrava qualquer tormento de consciência, pois o genocídio do qual participara fazia parte da guerra: tudo dentro da Lei, pelo Imperador e pela Pátria.

Haver saqueado, assassinado mulheres e crianças inocentes, açoitado até a morte os infelizes que levou ao hospital para novamente torturá-los, nada disso lhe perturbava o espírito, a consciência. Para ele, não eram atos que dependessem dele e mesmo lhe parecia ter sido outro e não ele o autor disto tudo. Apenas e tão somente porque “era a Lei”, mandaram-no fazer! O velho soldado passou a vida a torturar e a massacrar outros homens e “ele não se acreditava culpado de todas as terríveis coisas que praticou”.

“ Que teria pensado esse velhinho se compreendesse que entre sua consciência e Deus não há nem pode haver intermediários, e que também não deveria existir nenhum intermediário que o forçasse a torturar e a matar homens?” O narrador se pergunta se vale a pena atormentá-lo, buscar despertar nele a consciência das perversões genocidas praticadas. Afinal, ele está moribundo e para que “lembrar o que passou?” Mas a doença não passa, pois é uma doença que somente se modifica, penetra mais fundo nos ossos, na carne. A doença que faz homens dóceis, comuns, praticarem crueldades terríveis sem saber por que e com que finalidade!

“Muitos dizem que esse tempo, o de Nicolau I é passado, já passou. No tempo de Nicolau se disse o mesmo de Alexandre; no tempo de Alexandre, o mesmo de Paulo, o mesmo de Catarina, dos furores de sua depravação, da loucura de seus amantes; no tempo de Catarina se disse o mesmo de Pedro, o Grande… Em todos os tempos houve coisas das quais nos lembramos com horror, indignação. Lemos descrições das fogueiras para hereges, de torturas, açoites, suplícios de varas e sentimos horror pela crueldade de que é capaz o ser humano. E declaramos, tudo isso passou…”

Concluindo, o narrador pergunta: “Onde estão nossas salas de torturas, nossa escravatura, nossos açoites? Temos a impressão que desapareceram, que não mais existem, mas eles apenas estão acobertados”. “Existem os mesmos atos e os mesmos horrores, simplesmente não os vemos, assim como nossos antepassados não viam os de seu tempo… Contudo, isso não passa de aparência. Trezentos mil homens estão fechados nas prisões, em redutos estreitos, fétidos, morrendo física e moralmente. Suas mulheres e seus filhos, sozinhos definhando de fome. Guardam-se esses homens em cavernas de depravação, nas prisões e esta reclusão só é útil aos guardas e aos diretores, senhores absolutos desses escravos.”

Por outro lado, Hanna Arendt, sessenta anos após, analisando o caso do criminoso de guerra Eichmann, caminha absolutamente no mesmo sentido do velho soldado descrito pelo escritor russo:

1. O nazista Eichmann carecia inteiramente do senso de ser, tal qual o velho soldado;

2. Ficava perturbado com temas emocionais de agressão, tal qual o suboficial quando o narrador questionava-o sobre os massacres por ele praticados;

3. O que  importava ao nazista era reduzir toda a vida à ordem, ao não movimento, à não emoção, de modo a que toda a vida pudesse ser controlada. Tal e qual o velho suboficial, era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desempenhando  seu trabalho de forma burocrática, às vezes com pequenos deslizes de ordem sádica.

4. Sentiam ambos profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, funcionários fiéis de um grande Estado.

5. Não possuiam remorsos e eram “mentalmente sãos”e bem adaptados.

6. O foco real na vida de um destruidor talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo.

Tolstói ainda antes que Arendt, deixa claro que o genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro. É o tema que revela a natureza real de nossa espécie, capaz do trabalho mais vil que pode sair de mãos humanas: matar outros seres sem defesa. É espantoso para uma imaginação solidária e moral que haja incontáveis indivíduos prontos para cometer o mal intolerável: torturar e matar outros homens!

Como vimos em Nicolas Palkine, os genocidas racionalizam e atenuam seus atos, de modo que, com grande sinceridade, acreditam que estão agindo em defesa deste ou daquele tipo de Lei, de País, de autoridade.

 

As asas da liberdade (p.1)



Amor à sabedoria é a própria definição da filosofia. Sócrates tinha a vontade de conciliar as opiniões e isto não seria possível se cada um quisesse impor a sua como verdade aos demais; por isso ele colocava-se ao mesmo nível de todos.

Para Arendt deve-se distinguir a solidão do isolamento do estar-se só. Trata-se de afirmar o espaço da vontade diante do mecanismo do mundo. Este é o amor da vontade que emerge do amor à liberdade como condição. “A liberdade não pode ser desejada como um prêmio a ser alcançado somente no final de um processo histórico inevitável.” A liberdade é como uma instituição permanente para um novo começo de vida, assim como o amor ao próximo é intrínseco ao se pronunciar sobre a política.

Arendt diz que estar só é fundamental para que a atividade do pensamento se realize; aquele que pensa encontra-se em sua própria companhia e vive a dualidade do diálogo do “eu consigo mesmo”, o diálogo socrático do dois em um. Estar só é um intervalo no estar junto da existência. Ela já é uma pluralidade, pois cada um de nós somos plurais.

De tal forma que o pensar não é algo posterior ao agir, nem na forma da crítica, e nem anterior anterior a ela, pois são os momentos de um mesmo gesto. A ação guiada pelo amor ao mundo encontra seu fim em si mesma, de tal forma que a crítica não lhe tira o encantamento. Kant: “é belo o que agrada ao mero ato de julgar”. O ato de julgar realiza-se como expressão do pensar e do querer, do conhecer criticamente e do encantar-se.

Todo o mundo precisa se reconciliar com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá para sempre um estranho, em sua distinta singularidade. É muito difícil se reconciliar com o horror.

As experiências da atualidade apontam para o divórcio entre liberdade e política, soando com um velho truísmo a afirmação de que a liberdade é a razão de ser da política.  As experiências de hoje revelam a falta de elos entre ética e política. Como, da noite para o dia, os indivíduos podem trocar um código de ética por outro?

A busca de um modelo, que pudesse ser representativo de todo o mundo, de um homem que não se conte nem entre os muitos nem entre os poucos;  que não tenha ambicionado o governo e nem reivindicado aprender como melhorar a alma dos cidadãos; que tão pouco tenha acreditado que os homens pudessem ser sábios e que não tenha invejado a sabedoria dos deuses (se é que eles a possuem), e que, portanto jamais formulou uma doutrina  que pudesse ser ensinada e apreendida: para Arendt, esse homem é Sócrates.

Ela o coloca como a origem do pensamento crítico, modesto, não dogmático ou doutrinário, que coloca em questão o próprio pensar. “Sócrates apostava na phylia entre indivíduos diferentes, a qual instauria a parceria de iguais ao nível da comunidade”. “Ele desejava criar um espaço em que as diferentes maneiras de compreender o mundo aflorassem; quando dizia “sei que nada sei”, estava dizendo que sabia não possuir uma verdade comum para todos, e por isso estimulava cada cidadão a expressar a sua doxa( opinião).

Sócrates era contra aquela que acreditava ser a pior forma de governo, a do demos, pois a democracia foi assim cunhada pelos que se negavam a reconhecer a isocracia, de tal forma que a organização política nao diferenciasse governados de governantes.

Os gregos apreenderam a compreender- não um ao outro como pessoas individuais- mas a olhar o mundo da perspectiva do outro, a ver o mesmo em aspectos muito diferentes e frequentemente opostos. “Para o cidadão grego a palavra polis guarda o segredo da política como aprendizado espontâneo do espaço público-político.”

Logo, a política no sentido de Arendt  nada tem a ver com a forma pervertida de ação comum por influência e pressão de pequenos grupos; depende, sim, da convivência humana, do acordo incerto  e apenas temporário de grande número de vontades e intenções, onde a palavra e o ato não se divorciam, onde as palavras não são vazias e os atos brutais, onde aquelas não são usadas para ocultar intenções mas para revelar realidades e os atos não para violar e destruir, mas para estabelecer relações e criar novas realidades.

O homem não nasceu livre, como acreditava Rousseau, mas nasceu para a liberdade. Ser livre na Antiguidade era possuir a capacidade da novidade. Na polis, os chefes de família que haviam conquistado o domínio sobre suas necessidades, podiam realizar a travessia entre o obscuro espaço privado e o luminoso espaço público. Começar algo e ser livre é o mesmo.

Platão buscou ordenar o mundo no sentido de eliminar a imprevisibilidade  humana, separando  o ato de começar do de realizar. O início seria do governante e a realização dos governados, inspirado na figura do tirano, um rei- filósofo. Tanto ele quanto Aristóteles admitiam a coerção como forma de governo e o despotismo dos dias de hoje bebem deles e não do autoritarismo romano.

Platão usa a autoridade para substituir a persuasão, que na polis era a base do convencimento político. Ele usa a sabedoria como base da coerção, uma cisão do saber- do governante- e do fazer- do governado. Platão ao introduzir este conceito para eliminar a desordem na polis, racionalizou o comando da maioria pela minoria, numa evidência  de que o espaço público- político somente pode ser ordenado às custas da liberdade. Graças a Platão, aliás no que nem ele acreditava, as punições e recompensas em vidas futuras    (para evitar a coerção com violência na atual)- os cristãos se apoderaram deste conceito, e transportaram os castigos para os infernos.

Ao contrário de Platão, Sócrates buscava através da atividade de pensar o significado e não a verdade. Para Nietzsche, o homem é capaz de infinitas interpretações  e o próprio pensar já é interpretação.

Para o filósofo que ama o saber, as interrogações são mais importantes que as respostas. Para Arendt, o pensar representa um perigo se nasce do desejo de encontrar resultados que tornem desnecessário qualquer pensamento posterior.

 

As asas da liberdade (p.2)



Nas sociedades democráticas contemporâneas a liberdade foi perdida em meio a um sistema que deixou de representar os anseios dos cidadãos, tornando a convivência humana fundada na igualdade política impossível. Como decorrência, alijado das decisões políticas e sem espaços para o exercício da liberdade, a população tornou-se desinteressada da coisa pública e seu único Espaço Público reduziu-se à urna eleitoral eletrônica e o “Ser Cidadão” foi transformado em mero eleitor digital.

Até mesmo o espaço público-privado do dia a dia, do trabalho, da escola, da vida comunitária é tão somente formalmente público, dado que dele não mais fazem parte os discursos, as ações comuns, o contato e a proximidade entre cidadãos, enfim, aboliu-se em todos eles a fraternidade. Pelo contrário, as ruas, as fábricas, os shoppings, são espaços consagrados ao isolamento: um espaço que os indivíduos ocupam solitariamente, mas não o compartilham entre si!

As pessoas, no contexto em que vivemos, abdicam da identidade própria e como não são integradas em nenhuma organização fundada no interesse comum, quer seja em partidos políticos, esferas de governança, organizações profissionais ou sindicatos, transformam-se em “massa”. “O fato é que uma sociedade de consumo não pode absolutamente saber como cuidar de um mundo e das coisas que não pertencem de modo exclusivo ao espaço das aparências mundanas, visto que sua atitude central ante todos os objetos, a atitude do consumo, condena à ruína tudo o que toca.” (Arendt)

A ruína do sistema partidário como representante de interesses antagônicos se deu quando as diferenças entre as antigas classes sociais desapareceram no surgimento das “massas”. Já não é necessário manietar ou fazer calar a massa pois ela já é destituida de referenciais políticos ou de classe, ocupada exclusivamente com o consumo e com a sobrevivência. Neutras e indiferentes, “as massas” surgem numa sociedade de classes absolutamente hierarquizada, que permite a ascenção e a participação nos partidos, nos sindicatos e nas organizações políticas apenas para pequena minoria privilegiada. Nas democracias contemporâneas, em que o homem comum é alijado da capacidade do pensar, a existência é também transformada em “objeto” e em consumo. Sendo também excluído do direito a atuar coletivamente, a liberdade política significa participar de algum nível de governo ou não significa nada!

Chegamos, então, às sociedades de consumo em que a prática permanente da violência dentro da própria “massa”  e do poder público contra “a massa” tornou-se corriqueira. O Brasil é um dos mais claros exemplos, pois a quantidade de assassinatos  e da violência praticada nos assemelham a sociedades sob guerra civil aberta.

Nas sociedades como a nossa, o crime, o tráfico, a impunidade, tanto para os agentes públicos quanto para aqueles que habitam o andar superior da pirâmide social, passaram a constituir um conjunto estruturado de fatores que permitem que os governos, os políticos e os lobistas permaneçam com as mãos livres para os desmandos e para a corrupção.

São movimentos todos que convergem. Enquanto os indivíduos mantêm-se em hostilidade, são hostilizados e abandonam o espaço público, os governos e a política deixam de ser os focos de reivindicações para que “o novo” possa ser gerado. Surgem, então, os muros, as grades, cercas, o negócio bilionário da segurança pessoal, os shoppings centers fechados e exclusivistas, os guetos do bem estar e do consumo onde são decididos os destinos dos milhões de excluídos.

A banalidade do mal numa sociedade como a nossa não se reduz a matar, a torturar, a manter o terceiro maior volume de prisioneiros em masmorras medievais, mas e, principalmante, traduz-se na exclusão social, que por sua vez, reforça a violência e enceta o isolamento. A exclusão é a principal criadora das “massas” que não pensam e só votam.

Na visão de Theodor Jaspers, a existência humana é entendida como intimamente vinculada à historicidade e o existir é um transcender na liberdade. Para ele, o problema central nas sociedades contemporâneas transforma-se “em como pensar a existência sem torná-la objeto”, pois “a verdade não é entendida como característica de nenhum enunciado particular: é antes uma espécie de ambiente que envolve todo o conhecimento.” Nessa justa medida, a liberdade foi expoliada e a própria política ganhou um novo significado: a administração pública dos interesses econômicos privados. Sócrates, Buda, Confúcio e Jesus tiveram  uma significação transcendental no enfoque da liberdade. Jesus Cristo suspeitava das aparências de se querer fazer bondade e boas obras sob orbe da política, no que ele denominava de “hipocrisia de fariseus”. “Não saiba a mão esquerda o que faz a direita”.  A própria essência da bondade é esconder-se e não aparecer, pois caso contrário o ato se revela como hipocrisia. Para o existencialista Jaspers, “sem refletir sobre si mesmo, não há bondade humana possível, e refletindo sobre si mesmo, não há bondade inocente.”

O Nazareno, ao contrário de Sócrates que era um homem público da Ágora ateniense, atuava em meio à obscuridade, num espaço que não era nem público, nem privado. Jesus tinha uma total falta de interesse em estabilizar instituições da “polis”, frente ao rigor das leis do Deus de Moisés, que regulavam cada passo dos homens, “ele propunha um adorável descuidar-se” (Arendt).

A fé que remove montanhas- é a liberdade em ação. Em nenhum momento Cristo ameaça com punições ou prêmios após a morte; as boas novas eram sempre “redentoras dos pecadores”. Portanto, Jesus foi o descobridor do perdão nas relações humanas, uma maneira de desfazer o que já tinha sido feito. O amor ao próximo estava no enunciado: “amar ao próximo como a ti mesmo”.  E o próximo que se ama, afirma-se não pelo amor ou pela bondade, mas pela compaixão, que é o ato de sofrer junto, o compartir de outra humanidade, da humanidade de seus Apóstolos, daqueles que lhe são próximos.

Dessa forma, Cristo, no sentido totalmente contrário ao da Lei, não queria obediência, mas amizade e amor, e o cristianismo dos primeiros tempos, semi-clandestino, era apolítico! A desobediência somente foi transformada em pecado mortal séculos após, quando a obediência erigiu-se na base da ética cristã.

Após o declínio do Império Romano, a Igreja passou a ser sua herdeira espiritual: autoridade, religião e tradição. Foi Santo Agostinho, no século IV, quem articulou conceitualmente a doutrina cristã e a filosofia grega à experiência romana, o que permitiu à Igreja atuar na esfera política, ocultando, entretanto, essa atuação da doutrina original.

À Igreja foi dada a Autoridade, aos Príncipes, o Poder. E para evitar uma completa perversão dos evangelhos, Agostinho criou a “Civitas Dei”, onde os homens, logicamente após a  morte, pudessem viver em comunidade, em comunhão, sob a lei divina. Uma “Civita Dei” que, de certa forma espelha a Nova Jerusalém do Apocalipsis de João de Patnos.

Desse modo, enquanto a Igreja prestava legitimidade ao poder temporal, esse protegia a “liberdade” da Igreja, que longe de ficar distante  da política, tinha o dom de excluir aqueles que lhe eram pouco fiéis. Ela legitimizava o poder secular, apelando para “um amor ao próximo”, que ao metamorfosear-se transformara-se em “ finalidade da política”.

O espaço garantido aos fiéis passou por uma profunda alteração, substitutivo da cidadania antiga e que permaneceu até a era moderna: transmutou-se  em público/eclesiástico. Os homens perderam a praça pública e foram empurrados para a obscuridade das absides das Igrejas, sob o pavor inculcado pelo mito do Inferno Platônico, também “traduzido” para o cristianismo pelo mesmo Agostinho, seguramente inspirado no “Apokalipisis” de João de Patmos.

Assim, o cristianismo triunfante pós-agostiniano, criando um sistema de ações/ punições e recompensas futuras, renegou a antiga convicção filosófica de que “a recompensa de uma boa ação seria ela mesma”. A maioria dos homens passou a ser conduzida através do medo pela morte e, de um pavor ainda maior pelo futuro após ela.

Chegaremos ao Renascimento, época em que o homem busca respirar um ambiente menos repressivo. Um grito de liberdade ecoa com todo o seu vigor na Europa asfixiada. No entanto, isso fica para a terceira parte de nossa conversa.

“Se o lugar da liberdade é o mundo, o lugar do amor à liberdade é o coração humano; um lugar sombrio, mas de resistência.”

 

As asas da liberdade (p. 3)



No primeiro ensaio sobre “As asas da liberdade”, enfocamos o pensamento de  Hanna Arendt,  http://proust.net.br/blog/?p=328. No segundo, dedicamo-nos à análise da democracia e do papel de Jesus Cristo, do ponto de vista do exercício da liberdade, http://proust.net.br/blog/?p=354. Nesse terceiro e último ensaio enfocaremos o pensamento crítico na essencialidade da liberdade.

                         A importância do pensamento crítico

Pensar criticamente significa iluminar a trilha do pensamento em meio aos preconceitos, às opiniões não examinadas, e às crenças. Nem dogmático nem cético, o pensamento crítico corresponde à modéstia destruidora que questiona as possibilidades e o limites do pensar. E isto Kant o fazia sem poder vivenciar pessoalmente a liberdade, sob a Prússia reacionária de Frederico II!

Se alguém perguntar-me sobre o que considero como características fundamentais do pensamento crítico eu elencaria, antes de tudo, a reflexão sobre o próprio pensar, depois o pensamento modesto e, finalmente, a popularização do pensar filosófico, por si só questionador.

Dado que o ser humano como tal só existe na comunicação e na consciência dos outros, devemos compartir para aprender, escolhendo nossas companhias. E se essa escolha significa escolher determinados pensadores ou certos companheiros de jornada, o seu objetivo deverá ser a busca de um caminho próprio, que será sempre somente nosso, aberto para as questões do presente! De modo que os pensadores escolhidos se tornem contemporâneos e não o contrário. O Passado possui suas luzes e trevas, mas somente o Presente é vida e é nele que devemos aspirar viver a liberdade!

Ao pensarmos criticamente, a verdade deixa de ser una e estática ou absoluta, assim como a via de acesso a ela. Trata-se de aprender a lidar com o Passado, aliando o querer conservar ao querer destruir de W.Benjamin, para quem buscar significados é sempre um reexaminar sem fim e a cada resultado obtido segue-se a dissolução deste, e, após isto, um reexame.

Se os conhecimentos dogmáticos se estabelecem, isso ocorre porque os “insigts” da razão são tratados como resultados do conhecer e que, uma vez consolidados, ganham o status de “resultados científicos” e tornam-se inquestionáveis. Tendo o pensamento dogmático como alvo, Kant diferencia razão do intelecto, e entre estes a atividade do raciocínio daquela que é apenas senso comum; as atividades do pensar passam ao lado da atividade do conhecer.

Logo, o senso comum, o “bom senso” não se confunde com o pensar. E a ciência, em si, é um prolongamento extremamente refinado do bom senso. Pensar, raciocinar, usar a razão é procurar aprender os significados. A parcela do conhecimento que nasce do pensar é o significado, permanecendo a razão como condição básica para o intelecto.

                        A irreflexão e a perda das “asas da liberdade”­

Sócrates é o descobridor da “consciência em si”, e para ele “seria melhor que uma multidão discordasse de mim do que eu, sendo um, discordasse de mim mesmo e entrasse em contradição comigo mesmo”. Aquele que não pensa não se constitui como personalidade, apenas chega a ser uma “persona”, o possuidor de máscaras. O não- pensante não precisar se ocupar com a harmonia de um “eu interior”, ele não precisa prestar contas do que faz ou do que diz, e nem se importará em cometer um crime, do qual, aliás, se esquecerá no momento seguinte.

Kant, por seu lado, ressaltou que “o diálogo consigo mesmo” é a forma de manifestação da pluralidade humana e contradizer-se significa tornar inimigos os dois parceiros do diálogo interior. “O eu é uma espécie de amigo”. Como nos recorda Arendt, Catão, o romano, dizia com sabedoria: “nunca um homem está mais ativo que quando nada faz, nunca está menos só do que quando está consigo mesmo. Isso o faz refletir”.

A irreflexão ocorre por parte daqueles que se ocupam das coisas do mundo e nunca param para pensar. Ela pode ser encontrada até mesmo em pessoas eruditas, em cientistas e em pessoas inteligentes. No III Reich Alemão, por exemplo, havia intelectuais e eles eram assassinos altamente cultos, “embora nenhum deles tenha composto um poema a ser lembrado, uma música digna ou um quadro que alguém penduraria na parede” (Jaspers).

Isso porque nenhum talento pode suportar a perda da integridade que experimentamos quando perdemos a capacidade comum de pensar, de lembrar e nos emaranhamos no navegar do acovardamento.

O não pensar se torna um problema social em momentos de crise, quando os antigos padrões e códigos de conduta e ética caem por terra. É quando aqueles que não pensam se deixam levar pelas novas regras que terminam sendo ditadas por bandidos movidos por ideologias, ideologias que espelham que mundo deveria ser segundo eles próprios, um mundo criminoso.

Arendt admite que ninguém pode viver sem preconceitos, pois não é possível julgar novamente e continuamente todos os acontecimentos. Isto exigiria uma bagagem e um estado de alerta sobre humanos. Mas “viver sem preconceitos” não vale para a política, que se baseia na formação de opiniões, e não é válido para os momentos de crise, quando é necessário discernir-se o certo do errado. Por isso mesmo “aqueles que pensam, precisam aparecer para julgar os acontecimentos políticos nos momentos de crise”.

A História sempre demonstrou ser prenhe de pessoas que, mesmo sob condições do terror mais extremo, são capazes de resistir, julgando o que é certo e o que é errado, e agirem de acordo com suas consciências.

O problema da irreflexão é que aqueles que se conduzem por códigos e regras são os primeiros a aderir e a obedecer. O nazismo, os autoritarismos e as tiranias, que sempre buscam se implantar na humanidade, substituem o não matarás pelo matarás.

Aquele que não pensa possui um eu que não fundou raízes, é um ninguém. São seres humanos que se recusam a serem pessoas. No entender de Jaspers, ser ninguém é pior que ser mau; esse ser ninguém se revela inadequado para o relacionamento com os outros, porque os bons e os maus são, no mínimo, pessoas. É isto que faz da banalidade do mal o pior dos males: espalha-se rapidamente sem necessidade de qualquer ideologia.

                     As asas da liberdade.

A idéia de que nascemos para a liberdade sugere que de algum modo estamos condenados a sermos livres e esta é uma espantosa responsabilidade da qual se tenta escapar com a ajuda de diversas doutrinas, como o fatalismo ou o fascismo.

Se a pedra de toque de um ato livre é sempre a nossa consciência de que poderíamos ter deixado de fazer aquilo que de fato fizemos, o verdadeiro pensar não aceita as condições sob as quais a vida dos homens é dada.

Onde quer que os homens se encontrem, todos nós somos movidos pelo desejo de sermos vistos, ouvidos, comentados, aprovados e respeitados pelas pessoas que nos rodeiam. A virtude por esta paixão, que se chama emulação, o desejo de superar os outros, entretanto, quando se torna um vício transforma-se em ambição o que leva o “homem da polis” a aspirar ao poder por meio da distinção. Aí encontramos os principais vícios e virtudes psicológicas do homem político.

No entanto, quando a vontade de poder se aparta do desejo de distinção, tal como é o caso do tirano ou do espírito que se corrompe no processo, não se trata mais de um vício, mas uma condição que tende a destruir toda a vida política.

E agora o que importa, o que está em questão, já é o valor da própria vida e a possibilidade de perda das asas com que vivenciamos a liberdade, caso abdiquemos da responsabilidade do pensamento crítico!

 

Genocídios que não podem ser esquecidos



 

1. Agente genocida: Estados Unidos da América

Local: Filipinas, ano 1900.

O escritor americano D.W. Lawrence expressou em 1930 que “a consciência deliberada de americanos tão loiros e de fala tão mansa encobre, por baixo, uma consciência diabólica. Destrua! Destrua! Murmura a consciência profunda. Ame e produza! Ame e produza! Repete a consciência aparente. E o mundo só ouve esse grasnido. Recusa-se a ouvir o murmúrio subjacente da destruição. Até o momento em que é obrigado a ouvir. O americano precisa destruir. É o seu destino!”

O primeiro massacre praticado por aqueles homens e mulheres “tão loiros e de fala tão mansa” foi contra os antigos povos que residiam nas Américas, os “peles vermelhas”. O segundo grande genocídio ocorreu longe da América, no Arquipélago das Filipinas.

Desde meados do século XIX os EUA desejavam se apossar do que restara do império espanhol: Filipinas, Havaí e Cuba. Em 1898, após um agravamento das relações diplomáticas entre os dois Países, um navio de guerra dos EUA explodiu no porto de Havana. Os EUA acusaram a Espanha de sabotagem e iniciaram a Guerra Híspano - Americana de 1898, que resultou na rápida derrota da Espanha.

Como o governo dos EUA prometera a independência para a população das províncias cobiçadas, cubanos e filipinos haviam-se uniram ao esforço de guerra americano. O presidente William McKinley declarou publicamente que se os EUA passassem à anexação das Filipinas, descumprindo as promessas e acordos feitos com o povo filipino, isso "seria, de acordo com o nosso código moral, uma agressão criminosa".

No entanto, foi exatamente a agressão criminosa que ocorreu. Depois da derrota da Espanha, os Estados Unidos voltaram-se contra o povo filipino e invadiram as Filipinas, com o objetivo de tornarem-na colônia de exploração agrícola. McKinley explicou ao  mundo, “que os filipinos eram incapazes de se autogovernarem”, e “Deus lhe tinha dito que Os Estados Unidos da América não poderiam fazer nada melhor que educar e cristianizá-los".

Os filipinos, assim que os derrotados espanhóis abandonaram o arquipélago, declararam sua própria independência, em junho de 1898. Em janeiro de 189, Emílio Aguinaldo foi eleito e empossado como o primeiro presidente da república. Tratou de organizar um congresso e  elaborar uma constituição democrática, nos mesmos moldes da americana.

Mas, o nascente imperialismo americano tinha outros objetivos. Em fins de 1898, um exército composto por 11 000 soldados americanos foi enviado para ocupar as ilhas. Posteriormente, mais 8 000 soldados se incorporariam à tropa de extermínio.

 

Cadáveres de camponeses assassinados e colocados por empilhadiras em valas comuns

As hostilidades começaram em fevereiro de 1899. A única cidade da ilha sob controle das tropas invasoras era Manilha. O presidente dos EUA, William McKinley, disse mais tarde aos jornalistas "que os insurgentes atacaram Manilha", a fim de justificar a violência sem medidas que suas tropas utilizariam.

Em março de 1900, Emilio Aguinaldo, o presidente das Filipinas, foi capturado pelas forças invasoras e feito prisioneiro de guerra. Em junho, Galicano Aplacible, o primeiro embaixador das Filipinas nos EUA, que havia fugido para o Canadá no ano anterior, escreveu uma carta apaixonada ao povo dos EUA, implorando-lhe para que o massacre contra o seu país cessasse.

Pese o terror imposto na cidade, a luta de guerrilha no campo continuou. Entretanto, em setembro de 1903, sofreu um forte golpe quando Ola Simão, um dos chefes resistentes, foi capturado, morto e seu cadáver exposto em via pública para ser devorado pelos corvos.

Estando o presidente Aguinaldo prisioneiro,Macário Sacay, o vice-presidente, assumiu a liderança dos filipinos. Convidado para uma conferência de paz com o comando dos invasores, também foi feito prisioneiro e enforcado pelos mesmos, em 1907.

Para destruir a guerrilha e a resistência campesina- muçulmana, os EUA decidem-se pela destruição em massa do povo filipino: destroem cidades e vilas com incêndios propositais; atua se para quebrar o moral do povo, realizando estupros em massa, onde as filipinas jovens eram postas em fila e estupradas coletivamente pelas tropas. Os fuzilamentos e a tortura generalizaram-se.

A tática de remoção da população das áreas de guerrilha, que foi posteriormente utilizada no Vietnã, teve sua “ avant première”: centenas de milhares de aldeões foram removidos para áreas ermas sem quaisquer condições de plantio, vindo a morrer de fome. Outras pessoas foram vítimas da política de concentração de civis em "zonas protegidas" - um eufemismo para trancafiá-las em campos de concentração, que nada deixariam a desejar em relação aos nazistas, quarenta anos após. O comandante de um dos campos chamou-o de "subúrbio do inferno”.

Na província de Batangas, o General Franklin Bell ordenou, em 25 de dezembro de 1901, que toda a população de duas províncias inteiras das Filipinas, Batangas e Laguna, fossem presas em campos de concentração. Tudo o que não pudessem carregar com o corpo deveria ficar para trás, incluindo casas, roças, sementes para o plantio e o sustento de suas famílias. Todos os pertences deixados para trás foram queimados pelo Exército dos EUA. Todo aquele morador que estivesse fora dos campos de concentração deveria ser executado de imediato.

Em novembro de 1901, o correspondente em Manila do Philadelphia Ledger relatou: "Nossos homens são implacáveis, estão exterminando homens, mulheres, crianças, prisioneiros e detidos, supostos insurgentes e suspeitos de ajudar a guerrilha, meninos de dez anos para cima; a ideia que prevalece é a de que um filipino não é melhor que um cão."

Escrevendo em 1970, sob o título de “Nossa My Lai de 1900”, Stuart Miller registrou que: “ Em 1900, cartas de soldados a parentes descrevem com naturalidade o uso de balas dundum, o fuzilamento retaliatório de prisioneiros e a instalação de campos de concentração para civis. Em uma das cartas para a mãe, um jovem soldado relata seu prazer em abater a tiros homens , mulheres e crianças, como se fossem “coelhos em fuga”. E que, quando os filipinos conseguiam se esconder nos matos , o cães os retaliavam. O tenente Hall declarou aos jornais que o general Funston mandava fuzilar,  como rotina, todo e qualquer prisioneiro”.

Em 1908, Manuel Arellano Remondo constatou: "A população diminuiu devido à guerra. No prazo de cinco anos, a população que fora estimada em nove milhões, no presente (1908), não alcança  oito milhões de pessoas."

O historiador filipino E. San Juan Jr., afirma que a morte de 1,4 milhões de filipinos foi um ato claro e gravíssimo de genocídio, jamais reconhecido pelo Estado americano, até os dias de hoje. O caráter de genocídio fica claro quando se compara o número de baixas dos revoltosos filipinos com o de civis, alvo prioritário americano: enquanto 16 000 insurgentes filipinos foram torturados e mortos, assassinaram-se mais de 1 milhão de civis.

Na imagem do jornal “New Yorker”  vemos a inscrição: “matem todos os maiores de dez anos, uma ordem do general Jacobs”.

 

Na imagem do jornal “New Yorker” . Lemos a inscrição: “matem todos os maiores de dez anos, uma ordem do general Jacobs”.

2. Os Genocidas

O genocídio é um tema do presente, do passado e do futuro da humanidade. No entanto, se a ação genocida é muito antiga, a palavra que a designa é recente, tendo sido cunhada em 1930 pelo jurista Raphael Lemkin, judeu polonês, que requereu à Liga das Nações que proclamasse uma lei contra o assassinato em massa de grupos raciais ou nacionais minoritários.

Malreaux, em “A Condição Humana”, disse que a morte transforma certas vítimas em destino e que a lembrança do sofrimento transforma-se em uma salvaguarda contra o sofrimento. Enquanto isso, Wiesel sentenciou ter sido “Auschwitz o ponto zero da História, o começo e o fim de tudo o que existe. É a referência final, e em relação a ele, tudo será julgado. Por termos visto o triunfo das trevas, temos que falar sobre o sofrimento e a resistência de suas vítimas. Por que vimos o mal em ação, temos que denunciá-lo. Temos de combatê-lo sem dar um minuto de trégua e salvar o mundo do contágio!”

Auschwitz, Hiroshima e My Lai nos ensinaram que assassinato, desenvolvimento tecnológico, sociedade de massas não se excluem mutuamente.

 A agressão, em si mesma, é energia humana, energia vital e pode ser direcionada para a destruição. Para Charny, dois tipos de energias condicionam a vida humana: uma criativa e a outra destrutiva. A primeira busca mover-se, entrar em comunhão com outros seres. Já a destrutiva quer a morte. O Eros e o Tânatus freudianos. Fromm diferencia a agressão entre benigna e patológica. A primeira seria acidental, brincalhona, auto-assertiva e defensiva. A segunda incluiria energias para conquista de poder, vingança e sadismo.

Na Alemanha nazista, pelo menos 275 mil homens , mulheres e crianças foram declarados “inferiores”e executados em hospitais psiquiátricos. Até enurese noturna foi causa de execução infantil, ordenada por médicos psiquiatras para crianças arianas.

Maslow, ainda sobre a agressividade humana, nos diz que ela, assim como a hostilidade, a discórdia, o conflito, a crueldade e o sadismo, são experiências comuns e talvez universais no sofá do psicanalista, isto é, na fantasia do sonho, no sonho. “Suponho que a qualidade da agressão mude acentuadamente quando progredimos da imaturidade psicológica ou da neurose para a auto-individualização ou para a maturidade; que o comportamento sadístico, cruel ou mesquinho seja um aspecto da agressão encontrada no indivíduo subdesenvolvido, neurótico ou imaturo. Mas se ele evolui para a maturidade pessoal e para a liberdade, a qualidade dessa agressão transforma-se em indignação reativa ou justa, em auto-afirmação, resistência à dominação e à exploração, em paixão pela justiça, etc.”.

Laing realizou um estudo em que concluiu que apenas “nos últimos 50 anos nós, seres humanos, massacramos mais de 100 milhões de membros de nossa própria espécie (o  período analisado foi de 1920 a 1970) .” O século XX superou a marca de 120 milhões de assassinatos em massa.

O Dr. Kelley pesquisou o comportamento de diversos líderes nazistas e concluiu que  eles não eram tipos sem iguais, diferenciados. Que eles tiveram três notáveis características em comum e a oportunidade de tomar o poder: “ambição arrogante, baixos padões éticos e um nacionalismo fortemente desenvolvido, que justificava tudo que fosse feito pela pátria alemã”.

Os genocidas e torturadores desenvolvem padrões de comportamento semelhantes: eles racionalizam e atenuam seus atos, de modo que, com grande sinceridade, acreditam estarem agindo em uma espécie de autodefesa deste ou daquele tipo. Chegam a um ponto em que eles já não mais reconhecem o motivo pelo qual realizam a destruição que praticam.

Em muitos aspectos, o homem tende a ser um ser egoísta e atormentado, carente de identidade, com dificuldade de experimentar qualquer ligação com a tragédia do outro. Entretanto, o futuro genocida dá muitos passos além. Ele, mesmo em seus melhores dias , é levado a relegar os outros, os diferentes de si próprio, a um status inferior. Daí a atormentá-los, explorá-los e destruí-los é quase uma decorrência. Pois o denominador comum da perseguição racial, da caça às bruxas, da experimentação médica  com seres humanos é a desvalorização da vida humana. Logo que o ser humano é classificado e rotulado como inferior, ele se torna boa presa para os torturadores e genocidas em geral, pois desumanizar outras pessoas redefine-as efetivamente como não pertencentes à espécie humana. A desumanização torna o outro como imerecedor da proteção devida a membros de nossa própria espécie.

Por outro lado, o poder e a lei figuram ao lado do opressor e ambos têm origem na autoridade que sanciona a desvalorização da vida humana. Shapiro pesquisou os editais de concorrência pública que os nazistas abriram para construção das câmaras de gás. Listamos algumas respostas de mega-empresas fornecedoras do Estado Nazista, algumas até hoje existentes:

1. Tpos e Filhos, Erfurt, fabricantes de equipamentos de aquecimento. “Acusamos o recebimento de sua encomenda de cinco fornos triplos, incluindo dois elevadores elétricos para retirar os cadáveres e um elevador de emergência…”

2. Vidier Works, Berlim: “Para introduzir os corpos nos fornos, sugerimos simplesmente um garfo de metal movendo-se sobre cilindros…”

3. C.H. Kori: “Garantimos a eficácia dos fornos de cremação, bem como sua durabilidade, o emprego dos melhores materiais e nossa perícia impecável”.

Dr. Charny, analisando psiquiatricamente genocidas, concluiu  que “ eles não foram considerados anormais em termos dos conceitos clínicos correntes. Apenas se redefinirmos o objetivo do diagnóstico psiquiátrico para focalizar não em que medida a pessoa é sã de espírito, realista ou competente, mas em que grau ela é humana, a questão adquire mais sentido. No genocida há uma despersonalização, isto é, uma incapacidade de sentir a grandiosidade do processo de vida em si mesmo ou em outro ser humano. Ele considera as pessoas como objetos inexpressivos, destinados a receber ordens e a serem postos em seus lugares. A submissão aos ditames do grupo, ao fuehrer ou ao “deus do eletrochoque” é o valor final para o genocida”.

Ainda o mesmo Dr. Charny concede que “claro que existem genocidas impelidos por emoções, outros por ambição desmedida , loucos pelo poder. Alguns até mereceriam o rótulo de paranoicos ou psicopatas. Estes sempre desempenharam um papel decisivo no núcleo do poder nazista. Mas sem o apoio de líderes “normais e respeitáveis” da sociedade, sem uma grande adesão do povo e sem certas tendências culturais , dificilmente a catástrofe nazista teria assumido sua magnitude”.

O “Caso Eichmann” foi profundamente analisado por psicanalistas e filósofos. As conclusões a que Arendt chegou podem ser esquematizadas da seguinte forma:

1. Eichmann carecia inteiramente do senso de ser;

2. A sexualidade deixava-o embaraçado;

3. Ficava perturbado com temas emocionais de agressão;

4. O que lhe importava era reduzir toda a vida à ordem, ao não movimento, à não emoção, de modo  que a vida ao seu redor pudesse ser controlada.

Conclusão psiquiátrica: perfeito estado de sanidade mental!

Ele era um funcionário calmo, “bem equilibrado”, imperturbável, desencumbindo perfeitamente seu trabalho burocrático, ou seja, a supervisão administrativa dos assassinatos em massa. Eichmann sentia profundo respeito pelo sistema, pela lei e pela ordem, fiel servidor de um grande Estado. Não possuía remorsos pelos milhares de assassinatos dos quais foi o líder; era “mentalmente são”e bem adaptado.

Seus chefes poderiam ser até mesmo psicóticos, não ele. Afinal, quem confiaria um serviço de inteligência e supervisão administrativa a um psicótico? Os psicóticos são suspeitos; já os mentalmente sãos são pessoas bem adequadas, cumpridoras das regras, lógicos, que estarão obedecendo a ordens que consideram sensatas, que lhes chegaram através da cadeia de comando. E devido a sua sanidade mental, eles não terão remorsos depois das ordens cumpridas, tal qual Eichman.

De tal forma que o foco real na vida de um destruidor talvez não seja a destruição como tal, mas a imposição da ordem e a uniformidade em tudo. A coisificação do outro, que o transforma em escravo, facilita a agressão e a exploração cada vez maior da vítima.

Para encerrarmos esse nosso ensaio sobre o genocídio, permitimo-nos citar Laing: “Temos que defender a realidade contra o vazio, a burla e o mal da Irrealidade. É por isso que estamos lutando. Para defender o real contra o irreal. A verdade contra a falsidade. A vida plena contra a vida vazia, o bem contra o mal. O que é contra e o que não é. Eles são muito reais, de modo que vamos ter que recomeçar …Mas então do que é que estamos nos defendendo? De nada? Oh, não, do perigo, da ameaça do inimigo. Eles são reais. Eles são perigosos, eles existem, enquanto existem, corremos perigo. Portanto, temos de destruí-los e eles têm que destruir-nos para impedir que os destruamos, e temos que destruí-los antes que eles nos destruam…esse é o ponto em que estamos nesse momento. Não precisamos nos preocupar com o fato de que a taxa de mortes entre Eles e Nós fique alta demais. Há sempre mais do lugar de onde eles vêm. De dentro de nós mesmos!

 

A defesa do último dos jacobinos: uma homenagem a Ariston Lucena



Graco Babeuf foi um dos mais legítimos filhos da Revolução Francesa. Depois que a guilhotina levara os últimos líderes jacobinos, somente Babeuf, encabeçando a Sociedade dos Iguais, permaneceu fiel aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o fermento do socialismo dos séculos XIX e XX.

O Terror Revolucionário trouxera no bojo de sua derrota, a desilusão, o esgotamento das energias populares e a perda dos ideais revolucionários. A Grande Revolução de 1789, que destruíra as formas feudais da monarquia e expropriara tanto o clero quanto a nobreza, com a derrota dos jacobinos, sob a liderança da Direita, terminou por concentrar a riqueza em poucas mãos e disseminou a pobreza. Pois o Diretório, que sucedeu à Convenção, simbolizava a reação política, sendo manejado por burgueses enriquecidos no processo de especulação com as propriedades confiscadas, por capitalistas e por atravessadores a eles associados. Enquanto isso, os trabalhadores de Paris, no inverno de 1795-1796 morriam nas ruas de fome e de frio.

A reação política terminaria por dar à luz um Napoleão Bonaparte e suas aventuras imperialistas, que, logo após, assassinou a República e fez-se coroar Imperador.

Babeuf, revolucionário de primeira hora, exercera diversas atividades públicas durante e após o período revolucionário; fiel a seu ideário, negara-se a enriquecer e a especular, como tantos outros o haviam feito. Sempre pobre, ele e seus companheiros foram, durante o império da Direita, a única voz dissonante, aquela que tentava ainda despertar o povo para os ideais do grande movimento que havia sido revolucionário.

Ariston Lucena, tal qual Babeuf, foi sempre pobre e um combatente pela humanidade. Ainda menor de idade, incorporou-se ao grupo guerrilheiro comandado por Carlos Lamarca e sentiu abater sobre si e sua família o punho de aço da repressão política. Teve o pai assassinado, a mãe e irmãos presos e após, exilados. Feito ele também prisioneiro aos dezoito anos, foi torturado barbaramente, permanecendo digno e firme, assim como durante sua longa permanência de nove anos na prisão.

Babeuf fundou, em 1795, o jornal A Tribuna Popular, que denunciava a nova Constituição, a qual abolira o sufrágio universal e concedia o direito a voto somente aos proprietários. A Tribuna foi fechada no mesmo ano de sua publicação e Babeuf, preso, junto com seus amigos.

Ao sairem da cadeia, eles fundaram um clube político de oposição ao Diretório, a Sociedade dos Iguais. Seu manifesto de fundação preconizava a abolição da propriedade individual da terra, denunciava que menos de um milhão de pessoas desfrutava os bens que pertenceriam a mais de vinte milhões. Conclamava o povo para a luta por uma República dos Iguais.

A Sociedade foi rapidamente colocada na ilegalidade e seus militantes, agora na clandestinidade, elaboraram uma Constituição alternativa que previa uma comunidade nacional dos bens públicos e uma educação igualitária, pública e laica para todos. Um Governo de Iguais controlaria o comércio exterior e tudo o que fosse impresso.

A organização clandestina rapidamente passou a contar com agentes na Polícia e no Exército Francês. Propunha a Insurreição Popular e a tomada do poder político. A data para o levante chegou a ser marcada. No entanto, às vésperas, graças à ação de um traidor, Paris foi ocupada por batalhões de policiais vindos do interior e a sublevação, antes de sua eclosão, foi sufocada. Babeuf foi feito prisioneiro, junto com seus seguidores.

Os reacionários conduziram o revolucionário dentro de uma jaula por Paris, tratando-o como a um animal hidrófobo. Seu julgamento, que teve a duração de seis sessões, terminou por condená-lo à morte na guilhotina.

 

Ariston Lucena foi o primeiro preso político brasileiro condenado à morte, aos dezoito anos de idade, por um Tribunal Militar comandado pelo Juiz Nelson Guimarães.

 

A defesa que Babeuf apresentou perante seus julgadores foi impressionante, precursora do socialismo e marca até os dias de hoje uma das páginas mais comoventes da História. Ele, ao realizá-la, sabia muito bem que todo esforço revolucionário já estava perdido, que Napoleão galvanizava o que restara de ardor combativo do povo francês, desviando-o para suas aventuras imperialistas. Sua defesa, que ocupa quase trezentas páginas de papel impresso, teve como objetivo servir às gerações futuras. Vamos as suas linhas mais gerais.

Principiou dizendo que aquilo que realmente estaria em jogo não era tanto a questão de uma conspiração contra o governo, mas sim, a divulgação de ideias subversivas para a nova classe dominante. Denunciou que os privilégios de antes da Revolução haviam retornado de maneira ainda mais descarada; que o direito de votar e ser votado foram concentrados em certas castas; que o povo perdera a liberdade de reunião; que a liberdade de imprensa fora esquartejada.

O poder executivo saíra do alcance do povo e não mais dependia da vontade popular real. Havia sido esquecida a educação universal e excluída a ajuda aos necessitados. A Constituição de 1793, que fora aprovada por cinco milhões de votos, acabara substituída por aquela outra, a do Diretório, aprovada por menos de um milhão de pessoas.

Que uma Revolução e a violência se legitimam quando são levadas a cabo contra uma autoridade ilegítima.

Também enfatiza que todos devem trabalhar numa sociedade. Coloca-se como um continuador dos Iluministas, que até mesmo os Bourbons lhes haviam permitido a existência, agora negada pelos “ditos Republicanos”. Evoca  em sua defesa palavras de Diderot, de Rousseau, de Mably. “O trabalho, mais que um direito, é um dever. Numa sociedade, realmente justa, não existiriam pobres e ricos”.

Que o conceito de que toda propriedade privada seja intocável caracteriza uma sociedade humanicida. O monopólio da terra, exercido por um punhado de poderosos, nada mais é que um roubo legalizado e as instituições civis que regulam e permitem essas práticas, cometem latrocínio ao condenar milhões a morrer de fome.

Relembra, ainda, a enorme incoerência dos próprios membros do Diretório, quando ainda não eram o Poder e que diziam ao povo: “Se seguires a cadeia de nossos vícios, descobrirás que o primeiro elo está preso à desigualdade das riquezas”.

“Toda pessoa sincera deve admitir que igualdade política sem igualdade verdadeira é apenas uma ilusão, e o erro mais cruel dos órgãos, que se dizem  revolucionários, é não determinar os limites da propriedade privada”. Dizia mais: “Basta refletir por um momento a respeito das paixões na ascendência desse período de corrupção a que chegamos para ficar claro que a probabilidade de realizar tal projeto é zero”.

 

Ariston Lucena vivia um pouco isolado, no seu canto. Amargava grande desilusão para com a política pragmática sob a qual vivemos. Tinha repulsa, em especial, pelos demagogos e por aqueles que transformaram a política em fonte de patrimonialismo. E pensava assim porque amava, antes de tudo, o nosso povo, tão sofrido como toda a sua própria história de vida.

 

Mas voltemos a Graco Babeuf: “Quando fui preso por causa de meus escritos, deixei sem nenhum recurso minha mulher e meus três desgraçados filhos. Minha filhinha de sete anos morreu de fome e as outras crianças ficaram tão magras que não as reconheci quando as vi. Se falo de nossa família é apenas porque ela é uma dentre milhares, representa a maior parte da população de Paris, cujos rostos, emaciados pela fome, cambaleiam pelas ruas”.

Declara que a sentença de morte não o surpreenderia e nem o assustaria. “A idéia da prisão e da morte violenta acompanha um revolucionário”, mas o que o satisfazia era ver que sua família e seus amigos jamais se envergonhariam do exemplo seu e de seus companheiros. E conclui sua defesa, olhando para seus filhos, para os filhos de seus filhos e para nós mesmos:  “Meus filhos, possuo apenas um arrependimento. Embora eu tenha querido tanto lhes deixar como um legado a liberdade que é fonte de todo bem, prevejo para o futuro somente escravidão. Nada tenho para que vocês herdem. Não posso sequer legar-lhes minhas virtudes cívicas, meu profundo ódio à tirania, minha ardente devoção à causa da liberdade e da igualdade, meu amor apaixonado pelo Povo. Seria um legado desastroso para vocês. O que fariam com ele sob a opressão monárquica que está fadada a desabar sobre vocês? Deixo-lhes na condição de escravos e esse pensamento torturará meus instantes finais”.

Babeuf, após condenado à morte, tentou como um ato político, o suicídio com um pequeno punhal fornecido por seu filho. Era o dia 25 de maio de 1797.

 

Ariston Lucena faleceu na mesma data, mais de dois séculos após.

 

Mas quis a sorte que a tentativa de Babeuf de escapar ao carrasco, esfaqueando-se no peito, não lograsse êxito. No dia seguinte, em coma,  foi arrastado para a guilhotina. De seus seguidores, trinta tiveram como destino a mesma lâmina e muitos outros foram deportados, dentre eles, Ângelo Buonarotti, sobrinho-neto de Michelangelo.

A publicação de sua defesa foi proibida pelos sucessivos governos franceses durante mais oitenta anos, tendo sido liberada integralmente somente na última década do século XIX. Por muito tempo sua imagem foi usada pelas famílias burguesas da França para amedrontar crianças, um bicho-papão.

Em uma carta a um amigo, escrita na prisão, diz Babeuf:“Creio que, em algum dia futuro, os homens voltarão a pensar em maneiras de proporcionar à espécie humana a felicidade que lhes propusemos”. Menos de trinta anos após a sua morte, a tradição do último dos jacobinos renasceria nos bairros proletários de Paris com aLiga dos Justos,  um conjunto de ideias e atitudes políticas que, em breve, desaguariam no marxismo.

 

Ariston Lucena seguiu seu destino, mas seus ideais, seu exemplo de ser humano íntegro, combatente decidido contra a tirania, sua fé nos princípios da Revolução Cubana e no socialismo perdurarão e sempre, afinal, surgirão novas Ligas dos Justos no caminhar da humanidade.

Descanse em paz, ao lado de Graco Babeuf, meu companheiro e irmão.

 

Os primeiros "Primeiros de Maio"



O que diferencia o dia “Primeiro de Maio” de todas as demais datas comemorativas é o fato de ela não haver sido instituída por religião alguma, tão pouco por poderes governamentais, mas sim, por um movimento absolutamente não oficial de homens e mulheres pobres. Nos dias de hoje, o Primeiro de Maio é oficialmente celebrado em mais cento e vinte países, e sua importância nas sociedades somente é comparável aos dias vinte e cinco de dezembro e primeiro de janeiro.

O evento internacional da classe operária e dos trabalhadores foi instituído em 1890, através de uma convocação da Segunda Internacional, a bem da verdade, de sua ala marxista. Foi ela parcela de uma resolução aprovada em Paris, em junho de 1889, em comemoração ao centenário da Grande Revolução Francesa, e sua principal bandeira de lutas era pelo limite do dia de trabalho em oito horas.

Um importante detalhe. A convocação foi feita para uma única manifestação internacional, “que deveria realizar-se de acordo com as condições de cada país”. Como, posteriormente, escreveu Edouard Vailland, um dos mais importantes delegados da Internacional Socialdemocrata: “Quem poderia ter previsto o rápido e impressionante crescimento do Primeiro de Maio?”.

Naquele momento histórico, uma questão importante dividia os comunistas, os socialdemocratas e os anarquistas. Como o primeiro dia de maio de 1890 coincidia com uma quinta feira, necessariamente haveria de ser declarada uma greve, as atividades laborais parariam única forma de viabilizar as atividades previstas. De todo modo, parar as máquinas e manifestar-se consistia numa atitude aberta de desafio político, num gesto de afirmação de classe social em si e para si.

Uma correspondência entre Engels e Bebel enfatiza a necessidade de se evitarem conflitos, de que houvesse por parte da liderança “certo controle das manifestações programadas, evitando-se provocações desnecessárias”.

 

Para enorme surpresa dos organizadores, a convocatória do Primeiro de Maio de 1890 teve uma resposta de massas impressionante, conseqüência do avanço da força e da confiança que a classe operária experimentava naquele momento histórico. Na Grã Bretanha, em decorrência da greve vitoriosa das Docas de 1889 e na Alemanha, onde a vitória dos comunistas e dos socialdemocratas derrotara uma lei antissocial de Bismarck, um sentimento de poder transformador dos proletários, desde que se unissem como classe social, fazia-se sentir.

Novamente, “o espectro do comunismo” voltava a rondar a Europa.

Como resultado, mais de trezentas mil pessoas tomaram o Hyde Park em Londres. Em Berlim, o centro mais reacionário da Europa Central, cinquenta mil operários compareceu à convocatória e em Hamburgo, a “cidade vermelha”, mais de cem mil saíram às ruas. O movimento em Copenhagen teve ao redor de 40% de adesão proletária. Em Viena, nos dizeres de Engels e de Adler ocorrera “a mais impressionante das manifestações”, uma massa superior a duzentas mil pessoas realizou sua caminhada, de forma “organizada e consciente”.

 

 

Tendo em vista o sucesso alcançado em 1890, o próximo encontro da Internacional Socialdemocrata, com os votos contrários dos delegados alemães e dos ingleses, endossou a posição política de Engels, de Adler, assim como a dos delegados espanhóis e dos franceses, a favor da repetição da manifestação do dia Primeiro de Maio, em 1891, “especialmente se combinada com a interrupção do trabalho, e não apenas como expressão de opinião”. Disse Adler, em 1893, “Esse é o sentido do feriado de maio, do descanso do trabalho, que nossos inimigos de classe temem. E temem por saberem que isso é revolucionário”.

Foi em fins de 1891, que o Congresso Internacional de Bruxelas instituiu, agora em forma permanente, que todo o dia “Primeiro de Maio deveria ser um dia de reivindicações econômicas e de afirmação da luta de classes”. Acrescentou também uma nova bandeira às econômicas: a luta pela paz, o que fortaleceu sobremaneira o caráter internacionalista do evento. É importante destacar outra inovação: falava claramente em “comemorar o Primeiro de Maio”, incorporando à data dos proletários, a realização de festividades.

Essa orientação chegou a provocar um início de ruptura política por parte dos anarco-sindicalistas. Para eles, a data deveria ser exclusivamente de lutas, pois encaravam o “Primeiro de Maio” como uma celebração devida aos mártires operários massacrados pela polícia de Chicago, em 1886. Foi no dia 3 de maio de 1886, que a polícia norte-americana disparou contra um grupo de operários da fábrica McCormick Harvester, que estava em greve há dois dias, matando seis e ferindo mais de cinquenta pessoas. Dezenas de operários foram presos. Dia 4, ao final de uma manifestação de protesto, a polícia novamente atacou: centenas de operários morreram ou baleados, ou pisoteados por animais ou pessoas em fuga. Não bastasse tão selvagem repressão, os líderes do movimento foram levados a julgamento por conspiração. A sentença condenou à morte na forca os operários Engel, Fischer, Lingg e Spies; outros dois, Fieldem e Schwab, à prisão perpétua; e Neeb, foi condenado a cumprir quinze anos de prisão.

O “luto” e não a “comemoração” deveria dar o tom.

 

De qualquer modo, quer assumindo o caráter de luta por objetivos econômicos e sociais, com um aspecto festivo, que foi o predominante na Europa Central; quer tipificando-se como uma manifestação ao estilo “martirológico”, no dizer de Hobsbawm, o que veio a ocorrer em países da América Latina, na Espanha e na Itália,em um dia de todos os anos, homens, mulheres e crianças permaneceram ausentes do trabalho, assumindo-se como classe social.

Normalmente os encontros políticos e as passeatas desenvolviam-se na parte da manhã e a tarde era dedicada à sociabilidade e à diversão entre os iguais. Dessa forma, os “invisíveis” expunham-se publicamente e, por um dia, tomavam para si o espaço oficial dos governantes e da “sociedade”.

Em breve, a luta pela democracia viria a ser incorporada às bandeiras de luta já tradicionais, compondo uma espécie de trio de ferro que permaneceu por decênios: o direito ao sufrágio direto e universal, a jornada de oito horas de trabalho e direitos de proteção ao trabalho.

As iconografias dos primeiros dias do proletariado fortaleceram sobremodo a influência de Marx e do marxismo sobre os movimentos operários. Os cartazes alemães de 1890 traziam a imagem de Karl Marx, falecido há já sete anos, de um lado e a da “Estátua da Liberdade” do outro. Nos cartazes austríacos, que convocaram o segundo Primeiro de Maio, o de 1891, Marx aparece segurando o “Das Kapital”, tendo ao fundo um horizonte em que refulgiam bandeirolas com os ideais de 1789: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A permanência dessa data Internacional foi um dos motivos pelo qual o marxismo exerceria, sobre os movimentos de homens e mulheres, uma enorme influência. A maioria deles jamais haviam ouvido falar de Marx, de suas teorias, mas reconheceram que sua convocação à luta tornava-os conscientes deles próprios, tanto como seres humanos, quanto como classe social.

Na maioria dos países onde os movimentos de massa da classe operária já estavam presentes, o “Primeiro de Maio” tornou-se uma rotina antes mesmo do ano de 1914, ou seja, da Primeira Guerra Mundial.

Observação – Uma grande exceção constituiu os Estados Unidos da América, onde a Federação Norte-Americana do Trabalho, que já estava envolvida com os interesses empresariais, decidiu não se arriscar convocando uma greve que coincidiria com os massacres de Chicago. Optaram por um domingo, inicialmente o dia quatro de maio de 1890, e posteriormente, pelo segundo domingo de setembro, como o seu Dia do Trabalho, dele retirando o caráter de interrupção do trabalho, assegurando-lhe, exclusivamente, aspectos festivos e de repouso no lar.

 

Outro aspecto a se analisar são os diferentes momentos em que a data ganhou a categoria de ato oficial. A oficialização do Primeiro de Maio como dia e feriado nacional ocorreu em primeiro lugar na União Soviética, logo após a Revolução de Outubro e durante os primeiros anos da Revolução eles foram magníficos, futuristas, empolgando toda uma nação e todos os delegados de muitos países que lá compareciam representando a sua classe social.

Por outro lado, as forças antissocialistas, reconhecendo as profundas raízes que alicerçavam o movimento, tentaram cooptar a festa dos proletários e acanalhá-la, transformando-a em novo instrumento da política de alienação e dominação social. Não por acaso, Hitler foi o primeiro líder ocidental a oficializá-la na Alemanha. Logo após, o governo fascista de Vichy, sob a liderança de Petain, igualmente tornou oficial o Primeiro de Maio, intitulando-o de “Dia da Concórdia e do Trabalho”. O governo fascista de Franco já havia feito o mesmo na Espanha, logo após sufocar em sangue a República.

Quanto ao Brasil, a chegada dos imigrantes europeus trouxe novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas já conquistados na Europa. Os operários brasileiros começaram a se organizar, inicialmente, sob a influência dos anarquistas e, posteriormente, dos comunistas. Em 1917 aconteceu a primeira Greve Geral brasileira, que parou boa parte da indústria e do comércio. A classe operária se fortalecia e, em 1924, o dia Primeiro de Maio foi decretado feriado nacional pelo governo reacionário de Artur Bernardes. Mesmo tendo sido declarado feriado, até o início da Era Vargas, o Primeiro de Maio era considerado um dia de protesto, sempre marcado por greves e manifestações. A propaganda trabalhista de Getúlio Vargas, conjugada à repressão feroz ao sindicalismo independente, não pelego, habilmente passou a escolher a data para anunciar benefícios aos trabalhadores, transformando-a em “Dia do Trabalhador”. Desta forma, o dia não mais era caracterizado por protestos, e sim, comemorado exclusivamente com desfiles e festas populares, comandado pelas autoridades instaladas em seus palanques.

Foi a partir de 1945, com a derrota do nazi-fascismo e, posteriormente, com o advento da Guerra Fria, que em países onde os proletários possuíam organizações mais combativas e identificadas com o socialismo, que o Primeiro de Maio, apesar de mantido oficialmente como feriado nacional, teve as suas manifestações proibidas, com a repressão abatendo-se sobre os trabalhadores que não se submetiam. Já em outros países, onde a consciência de classe era menos desenvolvida, os Primeiros de Maio mantiveram exclusivamente o seu aspecto de festa, de show, ao estilo dos sindicatos americanos agrupados na AFL-CIO, mas essa já é outra história.

 

A mulher como símbolo da revolta



Marie Deschamps é o nome da modelo, uma mulher do povo, que Eugène Delacroix escolheu para retratar o clima dos embates da Revolução de Julho de 1830, a revolta popular que derrubou o despotismo de Carlos X e a Restauração dos Bourbons. Em uma carta endereçada ao seu irmão, o pintor escreveu: “O meu mau humor está desaparecendo graças ao trabalho duro. Embarquei em um tema moderno, numa barricada, pois se eu ainda não lutei pela liberdade em meu país, pelo menos vou pintar para ela.” Nasceria desse esforço uma pintura imortal, símbolo da modernidade: “ A Liberdade conduzindo o Povo”.

O trabalho de Delacroix foi tão intenso quanto o é Marie, a mulher forte de seios fartos e desnudos, que caminha por sua tela com os passos largos e confiantes, reproduzindo a vibração com que a contagia o clamor do povo em revolta, em luta de vida ou morte.

 

“A Liberdade guiando o Povo”

Quase dois séculos após, sua visualização ainda nos inspira, apaixona-nos, é capaz mesmo de provocar a sensação de um renovado romantismo, do sentir-se recompensado e orgulhoso pelos melhores momentos que a humanidade produziu.

Balzac, em seu tempo, também foi um apaixonado pela figura de Marie, deleitou-se com seu esplendor de camponesa, a pele morena curtida pelo trabalho e pelo sol, tão ardente e verdadeira quanto a imagem dos franceses que lutam e caem ao seu passar. Tocou-o o orgulho e até mesmo a insolência de sua independência, “um contraponto perfeito às mulheres burguesas”.

Deschamps é filha da tomada da Bastilha, é o povo que, depois da Revolução de 1789, seguiu as aventuras imperialistas de Napoleão Bonaparte; foi derrotado e submetido às forças da reação, mas agora retornava à luta para vencer na Revolução de Julho de 1930. Ela é bela, nua, ardente, sua faixa tricolor simboliza a liberdade que a conduz. O barrete frígio ao vento, que lhe encobre parcialmente os cabelos, tem um sentido: os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, aqueles mesmos de 1789, ainda não morreram e jamais perecerão.

Marie é uma mulher do povo, emancipada sexualmente. Ela escolhe seus amantes dentre aqueles homens que lhe despertam a paixão, dando, conforme Barbier “seu corpo forte àqueles homens tão fortes quanto ela mesma e que desejem mudar o mundo”, como ela mesma o quer torná-lo melhor.

Marie é a minha, é a tua, é a nossa companheira de luta, aquela que sempre nos acompanhou e que tantas e tantas vezes nos conduziu.

“A Liberdade guiando o Povo” após ser exposta no Salão de 1831, teve que procurar abrigo na clandestinidade, porque novamente os reacionários retomaram as rédeas do poder e a monarquia, dita “constitucional”, de Luís Felipe, igualmente, a temia. A pintura procurou abrigo em porões, como tantos de seus filhos do século XIX e XX, e somente pôde refletir a luz da aurora dezesseis anos após, em 1848, quando o bravo povo francês retornou à luta nas barricadas. Vitorioso, o parisiense realiza uma nova Revolução e instaura a Segunda República. No mesmo ano de 1848, Flaubert, em sua “Educação Sentimental”, retorna à cena magnífica e compara a imagem da Liberdade àquela das “mulheres livres e comuns” que percorriam as Tulherias, saqueadas na nova revolta. Por isso ele denomina Marie Dechamps de “A  Estátua da Liberdade”.

Desde esse momento, nem mesmo Napolão III com seu Império, terá a coragem de recolher o símbolo da luta contra a opressão e, em 1874, “A Liberdade guiando o Povo” entra definitivamente para a coleção do Museu do Louvre.

No dizer de Hobesbawm, a novidade histórica da “ Liberdade guiando o Povo” reside na identificação da figura feminina nua com uma mulher do povo real, de carne e osso, que desempenha a liderança no movimento dos homens. “A alegoria de Delacroix exclui o papel costumeiro das mulheres nas alegorias, embora ela mantenha o nu, que é enfatizado. Ela não inspira ou representa, Ela AGE”.

A mulher, cujos seios apontam para o futuro, simboliza a força concentrada do povo, um conjunto de classes sociais e profissões diferentes. Representa um ponto de ruptura em que sua imagem é aceita pelos homens como a de líder.

Esse tema reafirma sua popularidade quando, em 1848, Millet torna a retratar a Liberdade, toda nua, apenas com o barrete frígio da Primeira República.

Na Comuna de Paris, em 1871, as mulheres das barricadas, que combatem e morrem lado a lado com seus homens, ainda são retratadas como líderes, mas os seus seios são recobertos. A estátua de “A República” de Dalou , exposta ainda hoje na Place de la Nation, possui os seios exuberantes, mas eles não estão mais nus.

 

Chegamos ao século XX e nos defrontamos com os movimentos sociais e políticos, que  restauram, de certa forma, um puritanismo pré- Delacroix. O papel da figura feminina nua é reduzido nas alegorias artísticas dos movimentos proletários e socialistas. Ocorre certa masculinização nas imagens do socialismo real e do movimento operário. Os nus, quando ocorrem, são quase sempre de operários representados com o torso descamisado, a esbanjarem força e exuberância. Já as figuras femininas encarnam os sentimentos de sofrer, de luta e persistência, seus corpos tornam-se invisíveis sob xales e lenços de cabeça.

Descrição: "La Passionara"

“La Passionara”

A mulher combatente é transformada quase toda em espírito e o carnal, a beleza das formas e da pele, absorvido. Quando, alegoricamente, assume a posição de liderança sobre os homens, ela o faz tal e qual nas inúmeras representações de “La Passionara”, mulher símbolo da militância socialista e de resistência ao fascismo, que traja o negro cobrindo-lhe todo o corpo.

 

O feminino, tão desnudado no século passado, não é incluído pictoricamente nos movimentos proletários e de revolta social, pelo menos até a geração de 1968, quando volta adquirir alguma expressão.

 

O que nos trará de novo o renascer das lutas de emancipação do século XXI, aquelas que farão face à barbárie que destrói os valores de “liberdade, igualdade e fraternidade”? As Marie Dechamps retornarão com os seios nus a apontar os caminhos da “Revolta que Liberta”, a liderar os povos no caminho da felicidade e da humanização?

 

"A Voz do Brasil", a alma e a voz



“A Voz do Brasil” foi criada no governo de Getúlio Vargas, entrando no ar, diariamente, desde 22 de julho de 1935. No entanto, outro foi o seu nome de batismo: “Hora do Brasil”.

O programa radiofônico mais antigo da América do Sul teve por primeiro apresentador ninguém menos que o inesquecível Luiz Jatobá; sua entrada no ar era precedida pelos acordes vibrantes e inconfundíveis da protofonia da ópera “O Guarani”, de Antônio Carlos Gomes. Durante o Estado Novo, em 1938, o noticiário passou a ter veiculação obrigatória nas emissoras de rádio do país, sempre no horário das dezenove horas.

A ditadura de 1964, para marcar presença, modificou- lhe o nome e o conteúdo. Em 1971, por decreto de G. Médici, a “Hora do Brasil” transformou-se em “A Voz do Brasil”, nome que é mantido até os dias de hoje, pese sua programação haver sido modificada no regime democrático.

Mas nosso ensaio não focará o programa radiofônico, e sim, os homens que, emprestando sonoridade  à “A Voz do Brasil” , transmitiram vida e perenidade a ele, ganhando lugar nos corações e mentes de gerações e gerações de brasileiros: falaremos sobre o maestro e compositor Carlos Gomes e sobre o primeiro e magistral locutor, Luiz Jatobá.

O caipira Antônio Carlos Gomes, que assinava nhô Tonico em suas dedicatórias, nasceu em Campinas, no ano de 1836, na casa humilde de um mestre de bandas. Destacou-se pelo estilo romântico e dramático de suas composições, um “verismo com toques wagnerianos” como nos diria Mário de Andrade. Tornou-se, aos trinta e cinco anos, o primeiro compositor brasileiro a reger uma de suas obras no Teatro Scala de Milão, a imortal “Il Guarany”. Foi, sem sombra de dúvidas, o mais importante compositor operístico brasileiro.

A vida desse homem simples, verdadeiro gênio musical, foi desde o princípio marcado pela dor. Ainda criança perdeu a mãe tragicamente assassinada. Seu pai, músico, levava uma vida de dificuldades. É na banda do pai, que Carlos Gomes vai fazer, em conjunto com seus irmãos, as primeiras apresentações em bailes e em concertos. O pão do dia-a-dia ganhava com o dinheiro obtido costurando calças numa alfaiataria.

Ao completar 23 anos, decidiu viajar ao Rio de Janeiro e matricular-se no Conservatório de Música. Ainda costurava para manter-se; foi com a conivência de diretores da Instituição que passou a frequentá-la irregularmente, sem pagar mensalidades. Mas o Conservatório seria amplamente recompensado por essa ação benemérita.

Em setembro de 1861, o Teatro Lírico Fluminense abriu-se para a primeira ópera do jovem campineiro. “A Noite do Castelo” obteve uma receptividade estrondosa e Carlos Gomes foi levado para casa em triunfo por uma entusiástica multidão que o aclamava sem cessar.

Dois anos após apresentou um novo trabalho, a ópera “Joana de Flandres”, que teve no camarote a aplaudi-lo ninguém menos que D. Pedro II. O Imperador que já o agraciara com a Imperial Ordem da Rosa, viu no moço um futuro mais promissor para a ópera em nosso país.

Ainda aluno do Conservatório, Carlos Gomes foi convidado a terminar seus estudos na Europa, às expensas do Governo Imperial. O sentimento de gratidão de nhô Tonico para com o Imperador seria por toda a vida. Foi por influência da Imperatriz, Dona Teresa Cristina, napolitana e amante da música de Verdi, que seu destino foi a Itália e não a Alemanha onde pontificava Wagner, e que teria sido a opção do Imperador.

Em 1866, Carlos Gomes recebia, em Milão, o diploma de mestre e compositor. O acaso muitas vezes nos prepara grandes surpresas. Carlos Gomes desejava ardentemente um tema brasileiro que pudesse trabalhar na linguagem de Verdi. Certa tarde, em 1867, passeando pelo “duomo” de Milão ouviu de um vendedor: “Il Guarany! Il Guarany! Storia interessante dei selvaggi del Brasile!” Era a primeira tradução para o italiano do romance de José de Alencar; o maestro adquiriu-o imediatamente  e buscou por um libretista que o transformasse em uma peça teatral. E, assim, surgiu a ópera  “Il Guarany”, com estreia consagradora no teatro Scala, em março de 1870. O grande Verdi, na noite memorável, teria dito a respeito de Carlos Gomes: “Questo giovane comincia dove finisco io!” (“Este jovem começa de onde eu termino!”).

Na noite de 2 de dezembro de 1870, aniversário do Imperador D. Pedro II, em grande gala, “O Guarani” foi levado à cena no Teatro Lírico Provisório, no Rio de Janeiro. O maestro viveu horas de intensa consagração e emoção. Novas apresentações se sucederam e em uma delas o maestro ficou conhecendo o médico André Rebouças, que o apresentaria a José do Patrocínio e a outros abolicionistas. Seriam amigos por toda a vida. No ano seguinte, ele retornaria à Itália.

Na Itália, em 1873, Carlos Gomes comporia e regeria “Fosca”, que é considerada pela crítica a sua obra-prima.  Posteriormente surgiriam “Salvador Rosa” e “Maria Tudor”.

Casara-se com uma italiana e com ela tivera cinco filhos. A fortuna, entretanto, sorrindo-lhe profissionalmente, destruía-o pelas dores de perdas consecutivas. Um a um de seus filhos foram morrendo em tenra idade, acompanhados em seguida pela mãe. Na velhice restar-lhe-ia o filho Carletto, que a tuberculose também levaria na juventude; uma única filha, Ítala, a ele sobreviveria.

Já ao final dos anos 70, Carlos Gomes, mais que a glória, perseguia a sobrevivência. Abalado por seguidos e profundos desgostos, doente, desiludido, procurava uma situação que lhe permitisse viver em sua pátria e ser-lhe útil. Ainda comporia a grande ópera “Lo Schiavo”, O Escravo, levada à cena pela primeira vez, em 27 de setembro de 1889, no Rio de Janeiro, com grande sucesso. A ópera foi dedicada à Princesa Isabel, que assinara a Abolição da Escravatura, no ano anterior.  Um detalhe: a encenação teatral baseava-se no século XVI, quando o índio era o escravo dos portugueses. A inclusão do Hino à Liberdade foi a apoteose imortal dessa maravilhosa peça dramática.

Carlos Gomes contava permanecer no Brasil e não mais retornar à Itália. Mas a vida deu-lhe outro destino. Estava à espera de sua nomeação para o cargo de diretor do Conservatório de Música, quando foi proclamada a República, e seu grande amigo e protetor, D. Pedro II, exilado. Ninguém, em respeito ou por temor dos militares, aceitou, em nenhuma das províncias, empregá-lo. Os insignificantes da época diziam que ele abandonara a Pátria, que desprezava até mesmo o idioma português em suas composições.

Manuel Guimarães, também campineiro, foi o grande amigo e confidente das dores, dos desenganos e desgostos que atormentaram os últimos anos de vida do maior músico dramático do Brasil. As cartas que chegaram até nós dessa relação nos desvendam a inocência e ingenuidade do músico: “Haverá alguém que possa odiar esse caboclo de Campinas, esse caipora?” Quando ele falava em público não possuía poses ou atitudes estudadas; falava e escrevia com o coração à flor dos lábios.

Em 1889, após as exibições no Rio, ele transporta sua companhia operística para São Paulo e de lá retorna endividado. As elites paulistas preferiam adular os novos donos do poder e o “positivismo nacionalista” de um Floriano Peixoto. De todas as calúnias de que foi vítima o grande compositor, a que mais lhe doeu foi a que se levantou sobre sua pretensa falta de patriotismo. “ Tenho sofrido ultimamente muitos desgostos…De minha parte nada espero do futuro, porque sou muito caipira, não fui feito para adulador”. “ Eu nunca me naturalizei italiano e por isso fui derrotado em Pesaro, quando me apresentei como candidato brasileiro ao cargo no Conservatório, agora dizem que não prezo meu País”.

Em 1890 vende os direitos de onze peças musicais, inclusive, “O Guarany” e “O Escravo”, para pagamento de dívidas. Em 1891 ainda retornaria para uma turnê no Brasil. Mas o empresário que o contratara chegou ao ponto de não lhe dar a passagem de retorno. Sem dinheiro e sem emprego, voltaria ainda uma vez à Itália, “pois lá ainda tinha algum crédito com amigos”. O filho Carletto, tuberculoso, necessitava de tratamento médico e ele pede por carta ao compadre Manoel que lhe penhorasse as joias que sua esposa falecida deixara.

O câncer de língua e garganta nessa época já o fazia sofrer dolorosamente. Todavia, as desilusões, as decepções, a ingratidão de seus compatriotas e as dores físicas não lhe haviam quebrado a resistência. O combatente ainda não tombara. Estrearia duas óperas no Scala de Milão, a “Condor”, com grande êxito, uma peça mais próxima do recitativo moderno e “Colombo”, em 1892, um poema sinfônico que passou incompreendido pelo grande público.

Em 2 de fevereiro de 1895, escreve: “ É triste, cômico, gastar até o último vintém  para no fim ficar prisioneiro de uma feroz inimiga: a Miséria!” Está de viagem marcada para Belém do Pará: “ No Rio não me querem nem para porteiro de conservatório! Em São Paulo, em Campinas idem. No Pará, porém, me querem de braços abertos…Não me querem no Sul, morrerei no Norte… Que me importa, é tudo terra brasileira, amém!” Finalmente, após tanto sofrimento, em 1896, chegou-lhe um convite de trabalho. Lauro Sodré, então governador do Pará, pediu-lhe para organizar e dirigir o Conservatório daquele Estado.

Embarca, no vapor Óbidos, para o Brasil. De passagem por Funchal, tem o prazer de abraçar seu velho amigo, o médico e abolicionista André Rebouças, ali exilado. Escreve: “ Há muitos meses perdi o paladar, meu alimento normal é pão amolecido no leite, nada mais…acrescenta a isso a minha insuportável agitação moral. Só me bastava um emprego, o qual acabo de conseguir no Pará.”

Em 14 de maio, foi recebido pelo povo paraense com enternecedoras manifestações de carinho. Diante de seu estado de saúde, pouco antes de morrer, o governo de São Paulo autorizou uma pensão mensal de dois contos de réis, enquanto ele vivesse. Mas o emprego e o dinheiro tão arduamente perseguidos chegaram-lhe tarde; o pão tantas vezes pedido já não lhe acharia a boca que o ingerisse. Uma única vez ele saiu do hotel e foi até o Conservatório de Música, que nunca chegou a dirigir. Cercado por amigos, com o governador Lauro Sodré à cabeceira, Carlos Gomes morreu no dia 16 de setembro de 1896.

Dois dias depois do falecimento, o corpo do maestro foi transferido para o Conservatório de Música. O cortejo varou a noite de Belém. O carro funerário foi conduzido pelo próprio povo, numa insólita romaria anunciada pelos acordes de O Guarani e iluminado pelas velas e archotes levados pela população ou dispostos nas varandas das casas.

 

Luiz Jatobá trabalhou no rádio brasileiro por 45 anos, numa época em que os conteúdos veiculados por esse meio de comunicação eram os mais consumidos pelo público. Influenciou gerações de locutores, não apenas de rádio, mas de cinema, televisão e vídeo, que o veneraram como o dono do mais famoso timbre vocal masculino brasileiro. Além disso, a voz grave desse locutor, que era médico ortopedista nas horas vagas, esteve associada, às notícias do front da Segunda Guerra Mundial, aos trailers hollywoodianos exibidos por anos a fio nos cinemas brasileiros, assim como a lances decisivos do futebol carioca, apresentados no Cinejornal Canal 100, ao som introdutório do “que bonito é…”.

Luiz Jatobá também atuou na televisão e comandou a primeira edição do Jornal Hoje, ao lado de Léo Batista, o precursor do “Jornal Nacional” da TV Globo.

Na década de setenta, durante a ditadura militar, Luiz Jatobá, já aos sessenta anos, sofreu perseguição política e decidiu emigrar para os EUA, onde retomou, para viver, a gravação de “trailers de cinema”, até falecer, triste e solitário, em 1982.

A alma e a voz de “A Voz do Brasil” pertencem a um passado cada vez mais distante, mas que jamais poderá ser olvidado. Com seus esforços, suor e lágrimas, construíram o mundo que herdamos.

 

 

Uma civilização decapitada: a Asteca



Hernán Cortez, aos dezoito anos de idade, desembarcou na ilha de Hispaniola, atual República Dominicana. Ao lhe perguntarem se desejava uma “hacienda” para cultivo da terra, respondeu que viera fazer dinheiro na América. Aos vinte e quatro anos, sob o comando de Velasques, participou da conquista de Cuba e tornou-se um experiente caçador e comerciante de índios escravizados. Introduziu também, vindo da Europa, o primeiro gado bovino no campo cubano; ainda explorou minas de ouro, enfim, fez muito dinheiro. O bispo dominicano Bartholomé de las Casas, que considerava serem os índios os verdadeiros donos do Novo Mundo, declarou a respeito de Cortez, em carta ao bispo Cisneiros: “Deus é quem sabe à custa de quantas vidas de índios ele acumulou tal fortuna e lhe pedirá contas ao fim de tudo!”.

Mas Cortez ainda queria mais, muito mais. Juntou seus castelhanos em ouro e aplicou-os em armamentos; obteve de Velazques o comando de uma esquadra de onze pequenos navios e partiu para a terra distante, onde se dizia que jorravam ouro e pedras preciosas. Partiu em agosto de 1519 de Cuba para a conquista da cidade do México, capital da civilização mais avançada das Américas no século XVI: a Asteca.

Cortez comandava 553 soldados, 10 peças de artilharia e tinha 16 cavalos; sob o estandarte de veludo negro guarnecido com ouro, com uma cruz vermelha estava ao centro, podia-se ler e a expressão “amigos, sigamos a Cruz e com esse sinal, se crermos, venceremos”. Durante três meses, ele e sua pequena tropa venceram os obstáculos das águas, depois do terreno, do clima e das doenças tropicais. Pelo caminho, travou batalha com alguns milhares de índios e os venceu. No seu caminhar, como costuma acontecer na história, juntaram-se ao invasor ao redor de 6.000 índios, quase todos tlascaltecos, inimigos históricos dos astecas.

O comandante aliava a mais extrema brutalidade a um tato político invejável. É difícil se entender a marcha tão gloriosa de um grupo reduzido de guerreiros, guiados exclusivamente pela cobiça, até às portas da grande cidade do México. Sem dúvida o terror provocado entre os índios pelas armas de fogo deve ter sido um dos fatores decisivos, em igual importância ao pavor que o cavalo provocava entre o povo. Existem mesmo versões que apontam para a crença, entre os astecas, de que os espanhóis seriam espécies de deuses ou semideuses.

O certo é que, durante seu caminhar, Cortez enviou diversas embaixadas com presentes e promessas de paz para o imperador asteca Montezuma. O que não se consegue entender é como Montezuma, comandante em armas de mais de 100 mil guerreiros destemidos, chegou ao ponto de implorar que o bando de aventureiros e seus aliados, não penetrassem na cidade sagrada.

Porém, Cortez não lhe deu ouvidos e no dia 8 de novembro de 1519, entrou na cidade sem nenhuma resistência. Pelo contrário, quando chegaram à grande rua central, viu chegar ao seu encontro, um cortejo de homens paramentados em ouro, prata e pedras preciosas, que conduziam ao centro uma liteira carregada nos ombros de nobres, com ninguém menos que o próprio Montezuma II.

 

Imperador Montezuma

Ao olharem ao seu redor, os espanhóis mal podiam crer no que viam. México era inovadora, linda, diferente, maravilhosa mesmo para olhos que teimavam tão somente em enxergar o que a cobiça e o roubo fossem capazes de carregar.

Quando Montezuma e Cortez se cumprimentaram e trocaram votos de amizade, foram dois mundos, duas épocas que se defrontavam. Um deles estava fadado a desaparecer. Exatamente um ano após esse encontro, Montezuma estaria morto e a esplendorosa capital de toda uma civilização, destruída. Disse o filósofo Spengler: “Este é o único exemplo de uma civilização que teve morte violenta, pois não definhou, não foi sufocada ou detida em seu progresso: foi assassinada em plena floração do seu desenvolvimento, destruída como um girassol cuja flor é cortada por um homem que passa”.

Os homens somente assistiriam a destruições semelhantes na “Era dos Imperialismos”, nos séculos XX e XXI.

 

No terceiro dia na capital asteca, Cortez pediu permissão ao imperador para construir uma capela na ala do palácio real destinado a ele e à sua gente. Montezuma não somente concordou como enviou operários para o ofício.

No entanto, não tardou para que os espanhóis se deparassem com uma determinada parede cujo reboco parecia fresco. Durante a noite não tiveram pejo em derrubá-la. A parede escondia uma sala que comportava o tesouro real asteca. Cortez e seu lugar-tenente Alvarado, não podiam crer no que viam tal a qualidade e a quantidade de adereços, ouro, pedras, pérolas e utensílios. Esperto como uma raposa, Cortez fez com que a parede fosse novamente fechada, à espera do seu golpe de mestre: o sequestro do próprio rei por seu bando de aventureiros.

E assim foi. Durante a missa inaugural da capela, enquanto os padres Olmedo e Diaz realizavam suas prédicas, o precioso convidado asteca, ladeado por homens armados, foi “intimado” a habitar a mesma ala palaciana onde viviam os invasores.

Depois do sequestro daquele que era considerado sagrado por seu povo, Cortez, sentindo-se protegido, não mais se conteve e ordenou que todo o tesouro fosse transportado para seu salão. Quando a soldadesca viu que somente em ouro o botim chegava a mais de 160 mil pesos, passou a exigir a divisão de todo ele em partes iguais, o que, entretanto, jamais passara pela cabeça do chefe. Ele separou as partes em quintos: um deles destinado a si próprio, os outros seriam para o rei de Espanha, para o governador de Hispaniola (que o odiava) e para pagamento das despesas da empreitada. A todos os soldados caberia um quinto. Chegou a haver um princípio de motim, mas que o aventureiro o soube controlar.

Enquanto isto, o governador de Hispaniola, sem ter conhecimento dos progressos da aventura de Cortez no México, havia enviado uma frota marítima para aprisioná-lo. Cortez ao tomar conhecimento do desembarque da mesma, ao invés de defender-se da expedição punitiva, deixou Pedro Alvarado com um terço das tropas, que mantiveram Montezuma em cativeiro, e partiu para o confronto.

A tropa comandada por Narvaez não contava com isso. Numa noite chuvosa, a surpresa do ataque destemido de Cortez eliminou a superioridade do inimigo. Após a morte de seu comandante, a tropa de Hispaniola juntou-se à do aventureiro e ele retornou, mais poderoso, à cidade do México.

 

Acontece que pela primeira vez na história de suas conquistas, os espanhóis não se deparavam com selvagens, como eles denominavam os aborígenes com que até então haviam lidado. A começar por suas crenças religiosas. Os astecas possuíam uma religião politeísta muito bem estabelecida em costumes, rituais e crenças, com tendência a um monoteísmo hierarquizado. A etapa dos rituais primitivos como o culto dos deuses da natureza e da fecundidade, havia sido ultrapassada havia centenas de anos.

A civilização asteca, em seu conjunto, possuía uma íntima relação com a ciência do calendário, muito mais avançado que o dos europeus e que regia o dia a dia de todo um povo. Calendário com suas efemérides, estações do ano, dias sacralizados, previsões, etc..

 

Calendário Asteca

A cidade do México alcançara no século XVI, um nível de planejamento urbanístico, que as europeias pós-renascentistas tardariam pelo menos dois séculos para atingir. O tráfego citadino era regulamentado, as ruas pavimentadas continha passeios públicos; a construção dos edifícios profanos e dos religiosos era pautada pelo fausto e pela funcionalidade.

A cidade era cortada por diques de água e tinha suas “chinampas”, ilhas flutuantes de flores. O esgoto escoava por galerias subterrâneas e a água consumida pela população caminhava por dutos.

A população possuía registro censitário.

A julgar pelos achados arqueológicos na região mexicana de Yucatan, onde viveu um povo vizinho dos astecas, os maias, a arte escultórica, em pedra e cerâmica, de suma criatividade, era extremamente desenvolvida.

Mas os olhos do invasor eram induzidos, em tudo aquela civilização diferente da sua, a ver traços do diabo, o que facilitaria sua tarefa predadora e destruidora, característica de muitos impérios até nos dias de hoje.

É bem verdade que a religião asteca promovia holocaustos humanos, nos quais, cerimonialmente, os sacerdotes arrancavam dos peitos dos inimigos aprisionados, o coração ainda a pulsar. Ora, os espanhóis escandalizavam-se com os “selvagens”, no preciso tempo em que a Sagrada Inquisição Espanhola, sob Torquemada, enviava à fogueira em torno de 20.000 mulheres!

 

Enquanto Cortez esteve ausente combatendo Narvaez, os sacerdotes e o povo asteca pediram permissão a Alvarado para realizarem, no grande “teocale” (templo pirâmide), a festa anual de seu maior deus, Huitzilopochtli. O valente espanhol permitiu sob duas condições: não poderia ocorrer sacrifício humano e todos os presentes deveriam estar desarmados. No dia da cerimônia, ao redor dos 600 astecas, dentre os mais insignes, vergando seus mais preciosos ornamentos, deram início à cerimônia. No seu auge, um grupo de soldados espanhóis atacou-os, assassinando-os até o último homem. Uma testemunha escreveu: “O sangue pagão corria em torrentes como água produzida por forte aguaceiro”.

Ao retornar, Cortez encontrou um povo revoltado que sitiava o palácio onde Montezuma era mantido prisioneiro. Eles já haviam elegido Cuitlahuac como novo Imperador. Cortez, graças às suas hordas reforçadas conseguiu libertar Alvarado e, em represália destruiu mais de trezentas casas, trucidando todos seus habitantes.

O povo asteca, em revolta, incendiou todas as pontes da cidade; por seu turno, Cortez destruiu o grande “teocale”. Foi seu grande erro. Agora a revolta popular contra os invasores era total. Montezuma, inexplicavelmente, ainda tentou exercer um papel apaziguador perante sua gente. Morreu por ela apedrejado, em junho de 1520.

As tropas invasoras, apossando-se dos tesouros e repartindo-os tentou a fuga, naquilo que ficou conhecido como a “triste noche”. Um punhado de espanhóis teria que furar o cerco composto por dez mil guerreiros. Da cidade, transformada num inferno de fogo e destruição, os espanhóis que conseguiram escapar, não passavam da terça parte dos combatentes. Do tesouro de Montezuma somente pequena parte pode ser por eles carregada.

Escaparam da cidade, mas no campo foram cercados por forças ainda mais poderosas, perfeitamente organizadas, como eles jamais haviam visto antes. Foi quando Cortez deu outro golpe de mestre. Já ferido, em um segundo cavalo, pois o seu morrera, agrupou alguns guerreiros e partiu como uma seta para apontada para o peito do comandante de todas as tropas astecas, Cihaucu. O comandante segurava o emblema asteca, uma bandeira de malha de ouro. Na surpresa conseguiu alcançá-lo e matá-lo; as tropas astecas se desorganizaram e o incrível aconteceu: um punhado de homens conseguir colocar em fuga todo um exército, desmoralizado pela morte de seu chefe.

Logo em seguida Cortez recebeu reforços de Cuba e de Hispaniola e voltou a atacar a cidade do México: ele e o rei de Espanha queriam por todos os modos a parte principal do tesouro de Montezuma que ficara na cidade!

Do lado asteca, o novo imperador, Cuitlahuac, logo morreu num ataque de varíola, graças aos vírus trazido pelos europeus. Seu sucessor, Quauhtemoc, com a idade de vinte e cinco anos, lutou bravamente por sua gente e civilização.

Finalmente, em dezembro de 1520, a cidade do México caiu em mãos dos espanhóis. Quauhtemoc foi feito prisioneiro, torturado com todos os instrumentos conhecidos pela Inquisição, mas nada contou sobre o tesouro de Montezuma. Enforcaram-no. Até os dias de hoje, a maior parte daquele tesouro permanece desaparecido.

Os espanhóis destruíram casa a casa toda a maior cidade das Américas, incendiaram seus templos, destruíram seus deuses, atulharam os canais que antes abasteciam a cidade com água pura, destruíram as galerias de esgoto. Arrasaram cada espaço civilizatório que encontraram.

Trouxeram duas mil famílias de espanhóis para a colonização cristã da cidade do México e, para eles deram 30.000 cabeças de índios escravizados. Atrás dos soldados com cavalos e espadas, seguiram os sacerdotes. D. Juan de Zumarraga, o primeiro arcebispo do México, destruiu num gigantesco ato de fé todos os escritos da civilização asteca que pode encontrar; bispos e padres imitaram-no e os soldados, com igual fanatismo, aniquilaram o que poderia restar.

Assim, ao estilo dos Imperialismos do século XX e XXI, uma civilização foi totalmente decapitada, em 1520, no espaço de um ano.

 

A "cultura" da tortura e da repressão no Brasil-parte I



A tortura no Brasil foi praticada de forma contumaz e, até mesmo corriqueira, em todos os períodos de nossa História. No Brasil Colonial e durante o Império, os alvos preferencias eram os índios e os negros escravos; já na República, quer em seus períodos ditatoriais ou nos mais democráticos, com grau maior ou menor de abrangência, aos índios e aos negros juntaram-se os mulatos, os cafuzos, os mestiços e brancos, desde que pobres ou marginalizados. A esse padrão “cultural” veio somar-se, no século XX, a tortura sistemática de presos políticos. Ou seja, a tortura como modo de submissão, de castigo, de investigação ou de simples satisfação sádica, percorre todos os nossos cinco séculos de “civilização branca”, até os dias de hoje.

O Espaço Literário Marcel Proust publicará uma série de artigos jornalísticos e crônicas de época sobre o uso da violência, do desrespeito e do terror contra pessoas indefesas nos períodos de nossa História que remontam até à República Velha. Ao final de cada episódio, reportaremos um caso específico de revolta contra a barbárie, de alguém que se tenha tornado um símbolo, um herói de nossa Pátria, tantos deles escondidos nas brumas da História.

Hoje vamos nos referir a uma crônica escrita pelo jornalista e teatrólogo Arthur de Azevedo, no alvorecer do século XX. Azevedo resenha os tipos de tortura afligidos aos negros escravos, quer os aplicados por autoridades, quer os utilizados pelos senhores-de-engenho e capatazes nas fazendas e nos interiores de nosso país. Ao final da crônica, rememoraremos a “Vivandeira da Coluna Prestes”, na versão literária de Jorge Amado.

Azevedo, inicialmente, relata que nas cidades era extremamente comum a aplicação de açoites nos pelourinhos, colunas de pedras advindas da velha tradição de suplício na Roma Imperial, erguidas em praça pública. Na parte superior essas colunas tinham pontas recurvadas de ferro, onde se penduravam os condenados à forca. De uso múltiplo, no pelourinho também eram amarrados os condenados ao açoite. O espetáculo era anunciado publicamente pelo rufar dos tambores e era grande a multidão que assistia ao látego do carrasco abrir estrias de sangue no dorso nu do negro; a malta aplaudia e se excitava com as sevícias.

Havia um instrumento de tortura de uso absolutamente corriqueiro, muitas vezes utilizado nas próprias residências ou oficinas de ofício: a palmatória. Aos escravos, muitas vezes, arrebentavam-lhes mãos e pés, provocando violentas equimoses. Bem nos recorda Ramos que, já no século XX, a palmatória era utilizada em escolas rurais do Brasil e seu uso ganhara o epíteto de “aplicação de bolos”. E esse instrumento de sevícias caminhou incólume desde a escravidão até os dias de hoje, sobretudo em postos policiais, haja vista ser instrumento banal, confundível, que não deixa as marcas típicas de tortura.

Em engenhos do nordeste e do sul, a crueldade dos senhores-de-engenho e feitores atingia extremos incríveis, como a prática das “novenas” e “trezenas” para matar: o corpo do escravo era cortado por navalhas, recebia a aplicação de salmoura e “o negro” era deixado a morrer de “morte natural”.

Marcas com ferro em brasa eram uma forma de tortura e ao mesmo tempo uma maneira de marcar o “gado humano”. Mutilações, estupros de negras escravas, castração, amputação de seios, fratura de dentes a marteladas… É longa, muito longa a série do sadismo requintado aplicado contra os escravos.

Reporta-nos ainda Arthur de Azevedo que havia processos “verdadeiramente chineses como o da aplicação de urtigas, insetos e o da “roda d’água””. Os senhores do sul manietavam os escravos nus a traves de teto e untavam os corpos com mel ou sal para que os insetos viessem aferroá-los. Outras vezes eles eram untados com leite e deixados amarrados ao solo para pasto de ratos. Já no suplício da “roda d’água” eram empregadas máquinas que dilaceravam os membros do escravo.

O “tronco” é um velho instrumento utilizado em muitos países para os condenados de todas as raças. Consistia de um grande pedaço de madeira regular, aberto em duas metades, com buracos maiores para a cabeça e menores para os pés e as mãos. Normalmente um “tronco” tinha espaço para a submissão de até três pessoas. Após a abolição da escravatura, escreve Azevedo, seu uso permaneceu como forma de tortura na detenção de suspeitos por roubo de cavalos ou por outros delitos. Uma variedade do tronco de madeira era o vira-mundo, feito de ferro. Tinha a mesma finalidade daquele, prender a cabeça, as mãos e os pés do escravo.

O “cepo” consistia de um grosso pedaço de madeira que o escravo carregava à cabeça e que era preso por uma longa corrente a uma argola abraçando-lhe o tornozelo.

Falemos um pouco mais dos instrumentos formados por correntes e argolas. São de variadas espécies. Azevedo principia com o lilambo (instrumento que prendia o pescoço do escravo numa argola de ferro, de onde saía uma haste que se dirigia em forma de gancho para cima, onde se costumava colocar um chocalho); este instrumento era destinado ao negro fugido e recapturado. Já a gonilha ou gargantilha servia para atrelar os escravos uns aos outros. Já as algemas, machos e peias eram confeccionados de diferentes tamanhos, uns para escravos fortes, outros para mulheres ou meninotes. Muitas vezes ligava-se um peso à peia, presa ao calcanhar, para dificultar o caminhar ou o fugir.

Os “anjinhos” eram instrumentos de suplício, como os “vis-à-pression” das colônias francesas ou inglesas. Eles prendiam os dedos polegares das vítimas em dois anéis semicirculares que se comprimiam lentamente através de uma chave, levando ao esmagamento dos dedos. Esse tormento normalmente era empregado para a obtenção de confissões.

A “máscara” era utilizada pelo escravo que furtava cana ou rapadura. Feita de uma folha-de-flandres, ela tomava todo o rosto e fechava-se atrás por um cadeado. Apenas alguns orifícios permitiam a respiração e o escravo com máscara não podia comer nem beber sem permissão e permanecia nesse suplício por dias inteiros.

Uma espécie “pau-de-arara” também teve sua utilização nos castigos. Uma cana de madeira ou de ferro era afixada na parte traseira dos joelhos, com as mãos e os pés mantidos manietados. O supliciado poderia ser açoitado, sofrer palmatórias ou até mesmo ser empalado, estando no chão imobilizado ou colocado sobre um suporte de cavaletes.

A fantasia de muitos senhores de escravos provavelmente engendrou outros instrumentos de suplício que escaparam a essa descrição feita por Arthur Azevedo. Muitos se perderam, outros foram escondidos ou se deterioraram. Alguns, entretanto, com pequenas modificações, serviram e servem ainda em muitos postos policiais e presídios no nosso Brasil de ontem e hoje.

 

A vivandeira da Coluna Prestes

Tia Maria tinha uma vida aureolada de mistério. Negra, velha, seca e de olhos brilhantes, seu nome circulava de boca a boca entre os soldados da Velha República, que perseguiam a Coluna do Cavaleiro da Esperança. Contavam que ela era a feiticeira da Coluna, que nas vésperas das batalhas, enquanto a flauta do mulato Favorino substituía os tabaques, ela nua, diante das metralhadoras revolucionárias, invocava os deuses negros da macumba, seu Oxóssi, o deus da guerra; seu Xangô, o do raio e do trovão;  seus Ogun e Oxolufá.

A lenda corria de boca em boca dentre os “meganhas” e Tia Maria era um nome odiado como pertencente a uma inimiga terrível, que manejava forças infernais. No combate de Piancó, ela caiu prisioneira. Como os outros combatentes aprisionados, foi torturada. Como eles, teve ordem de cavar sua própria cova, onde seria deixado seu corpo após o fuzilamento. Mas, assim como seus companheiros, ela se negou a fazê-lo.

Tia Maria, negra, velha e seca foi espancada. A cada golpe o torturador era xingado e recebia sua cusparada. Foi, então, cortada a faca, devagar, numa morte lenta, um suplício incrível. Em nenhum momento, entretanto, sua voz enfraqueceu. Enquanto a esquartejavam ela clamava por seus deuses, para que perseguissem os inimigos de sua Pátria. Morreu com uma última injúria na boca, a sua boca sem dentes de negra velha. Esta era Tia Maria, orgulho de um Brasil feito para ser livre e multirracial!

 

A "cultura" da tortura e da repressão no Brasil-parteII



Neste segundo episódio trataremos das revoltas e da repressão ao negro escravo, assim como do surgimento da figura do capitão-do-mato e das milícias paramilitares, invenções cariocas. Nosso heroi, escondido na história, será o resistente João Grande, o clavoniteiro fantasma de Euclides da Cunha.

Edison Carneiro esquematiza a reação do negro contra a escravidão em três formatos básicos: na revolta organizada tendo como objetivo a tomada do Poder Político, na insurreição armada propriamente dita e na fuga para o mato e auto resistência, de que resultou a formação dos quilombos.

Foi no século XIX que a resistência negra atingiu seu auge. Carneiro identifica como revolta organizada os Levantes de Negros Malêses na Bahia, que ocorreram diversas vezes entre os anos de 1807 e 1835. Os negros ditos malêses eram muçulmanos, que chegaram ao Brasil no final do século XVIII, oriundos da região sudanesa da África. Eles possuíam um nível cultural superior ao dos brancos senhores de escravos da época: eram bilíngues, alfabetizados em árabe, tinham conhecimentos de matemática e de plantas medicinais. Lutavam pela condição de homens livres e visavam à destruição do Estado e ao banimento do cristianismo. A última dessas revoltas foi a grande Jehad de 1835, exatamente um século antes no movimento insurrecional de 1935. Infelizmente, a revolta foi precipitada por delação e deflagrada antes do momento planejado.

Os revoltosos sofreram, então, pesadas baixas nas ruas de Salvador. Eram inferiores em número e em organização bélica, no entanto, suas colunas conseguiram tomar dois quartéis de polícia, somente sendo desbaratados pela ação da artilharia e pelas tropas do Exército.

Como exemplo de insurreição armada, Carneiro sita a Revolta da Balaiada comandada pelo negro Manuel Balaio, que aconteceu no Maranhão, em 1839. Sem planos e nem diretivas, a insurreição começou como um movimento espontâneo de “caçada ao branco opressor” e de depredação de propriedades senhoriais, de pilhagem de vilas e de aldeias. Acontece que o movimento de revolta alastrou-se, incorporando mais e mais negros, a ponto de colocar em cheque o poder político do Estado. Explorada politicamente por “brancos liberais”, a insurreição tentou tomar a vila de Caxias e realizou o cerco à capital do Estado. O Império enviou uma força tarefa do Exército sob o comando do futuro Duque de Caxias. Calcula-se que aproximadamente 8.000 negros foram aniquilados na ação repressora.

A reação mais geral à escravatura foi, sem dúvida, o quilombo. Era a forma mais simples de revoltar-se e fugir à escravatura.

Palmares, em Alagoas, foi um dentre os centenas de quilombos que se espalharam pelo Brasil; sua particularidade é que possuiu, no auge, mais de vinte mil negros fugidos, e sobreviveu por sessenta e cinco anos, entre 1630 e 1695. Dezenas de expedições punitivas foram realizadas para destruí-lo. Os negros que se defendiam com azagaias, pedras, cassetetes e alguns arcabuzes, lutavam contra tropas munidas de artilharia, cavalaria e utilizando o armamento pessoal mais moderno da época. Por seu lado, o conhecimento da mata e a tática da guerra de guerrilha foram utilizados com grande sucesso pelos bravos negros organizados.

Outros quilombos também tiveram relevância nos séculos XVIII e XIX. Enquanto os balaios passavam à ofensiva, ao lado dos revoltados maranhenses estava o Quilombo do Cosme, mas eles não uniram suas forças.

Ao mesmo tempo em que as revoltas malêses se disseminavam, Caxias também liquidava o quilombo de Manuel Congo, em Pati de Alferes, e o capitão-mor Fernão Carrilho, antes de ser chamado para combater Palmares, tinha destroçado mocambos negros na capitania de Sergipe.

Os quilombos do Cumbe, na Paraíba; de Carlota, no Mato Grosso; de São Tomé, no Maranhão e especialmente, os aquilombados do Rio das Mortes em Minas Gerais tiveram uma repressão implacável. O bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado esmagou com uma crueldade inominável o Quilombo de Minas em 1751, levando para o Governador da Província três mil e novecentos pares de orelhas de homens, mulheres e crianças, todos mortos e trucidados a foice.

Por fim temos os “caifazes” de Luís Gama e de Antônio Bento que serviam de auxiliares e mesmo organizadores do movimento geral de fuga dos escravos das fazendas paulistas, buscando refúgio nos quilombos do Jabaquara e da Serra de Cubatão.

 

O capitão-do-mato e a milícia civil armada, uma invenção carioca.

Uma crônica de Vivaldo Coaracy, inserida no livro “Rio de Janeiro no século XVII”, nos diz que em meados do século, as fugas de negros do cativeiro e a formação de quilombos nas Serra dos Órgãos, da qual desciam para assaltar propriedades rurais e aliciar outros escravos, levou a Câmara do Rio à instituição de prêmios pecuniários para a prisão de negros fugidos, fixando taxas a serem pagas pelos proprietários dos mesmos. Com isso, uma nova profissão surgiu na província, e tornaram-se numerosos os caçadores de escravos, denominados de capitães-do-mato.

O mais famoso por sua audácia e eficiência foi Manuel João da Silva, que trouxe acorrentadas mais de trezentas cabeças. No entanto, os proprietários dos escravos, uma vez recuperada a presa, regateavam o pagamento das taxas.

Coube novamente ao Poder Público intervir. A Câmara decidiu organizar uma milícia civil armada, a primeira do Estado do Rio, que teria direito a dois terços do valor do escravo capturado, além de todas as “crias” que apanhasse no mocambo. Aos escravos que tivessem cometido crimes contra seus donos, a milícia tinha ordem de executá-los e o Poder Público garantiria a recompensa financeira. Como vemos a prática dos dias de hoje vem de muito longe na nossa História.

Depois de Manuel, quem assumiu o comando da milícia foi o capitão-do-mato Atanásio Pereira, cuja residência e estado maior miliciano foi construída na fazenda dos Jesuítas, nos contrafortes da Serra dos Órgãos.

 

O clavinoteiro fantasma

Em “Os Sertões”, Euclides da Cunha, ao descrever o cerco a Canudos, especificamente do combate na Serra do Cambaio, fala da figura heroica de João Grande, o organizador e líder dos clavinoteiros fantasmas, que comandava os precariamente armados resistentes, contra tropas muito superiores do Exército Brasileiro.

Enquanto as tropas tentavam subir os contrafortes da serra, os sertanejos surgiam e desapareciam, agitavam-se, pareciam ser em muito maior número do que realmente eram. Além disso, eles iludiam de modo engenhoso a carência de espingardas e o lento processo de carregamento das poucas que possuíam. Todos usavam máscaras e se dispunham em grupos de três ou quatro rodeando um único atirador, passando sucessivamente as armas carregadas pelos companheiros invisíveis ao fundo da trincheira. De sorte que, se alguma bala fazia baquear o clavinoteiro, substituíam-no imediatamente e em meio ao fumo, o mesmo busto mascarado seguia apontando sua arma para os soldados e atirando.

Se a movimentação permanente dos “jagunços” dificultava sobremaneira a pontaria dos soldados, quando eles surgiam na própria retaguarda da tropa a subir a encosta do Cambaio, deixava-os desnorteados. Os sertanejos evitavam, por inferioridade, a peleja franca. E dentre eles, erguia-se a figura daquele negro gigante, de enorme força e agilidade empunhando um clavinote curto, o líder João Grande. Ele, o único que não se mascarava, desencadeava as manobras, as figurações e as correrias de seus combatentes, subindo, descendo, atacando, fugindo. Quando alguns deles caiam varados pelas balas os soldados os exterminavam a coice de armas e comemoravam.

Mas a desigualdade de forças era enorme e as tropas foram gradualmente subindo o morro. Quando já perdera quase toda sua gente, João Grande avançou diretamente contra a artilharia. Nesse avanço uma bala sua matou o oficial comandante federal, Wenceslau Leal. Foi quando um rojão o destroçou e aos companheiros mais próximos. Estava conquistada, após mais de três horas de combate a Serra do Cambaio, que abria o acesso a Canudos. Quando a tropa fez a contagem dos sertanejos mortos não encontrou mais de vinte e dois, vinte e dois homens que resistiram a uma tropa de cento e oitenta, entre oficiais e praças.

A cabeça de João Grande foi decepada e erguida como um troféu na caminhada. João Grande, herói esquecido do povo brasileiro.

 

A "cultura" da tortura e da repressão no Brasil-parte III



A tortura como formatação da repressão e do abuso contra seres humanos foi praticada de forma contumaz e, até mesmo corriqueira, em todos os períodos de nossa História. No Brasil Colonial e durante o Império, os alvos preferencias eram os índios e os negros escravos; já na República, quer em seus períodos ditatoriais ou nos democráticos, com grau maior ou menor de abrangência, aos índios e aos negros juntaram-se os mulatos, os cafuzos, os mestiços e brancos, desde que pobres ou marginalizados. A tortura e a barbárie como modo de submissão, de castigo, de investigação ou de simples satisfação sádica, percorrem todos os nossos cinco séculos “civilizatórios”, até os dias de hoje.

Hoje nos deteremos nas deformações corporais produzidas nos negros escravos, causadas por excesso de trabalho, por doenças infecciosas e contaminantes, pelas condições de absoluta falta de higiene e penúria alimentar em que eles eram mantidos na senzala. E, sem dúvida, as marcas deixadas pelo açoite, pelos ferros em brasa, por mutilações e tantas outras formas de tortura aplicadas no homem, na mulher ou nos meninos escravos.

Essas informações chegaram até nós graças aos anúncios  em jornais do tempo do Império, inseridos e pagos pelos próprios proprietários de “negros fugidos”, com o objetivo de facilitar a identificação e a captura dos mesmos pelos capitães-do-mato, mediante recompensa.

Gylberto Freire descreve os numerosos anúncios em que negros “procurados” são descritos como “rendidos” ou “quebrados”, no sentido de haverem sido, de uma forma ou outra, castrados. Também de pretos com “veias estouradas ou calombos no corpo”, escravos com andar “cambaio ou banzeiro”.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Vários negros fugidos são descritos como portadores de máscaras de Flandres na face, ligadas por cadeado na parte traseira. Adicionam os senhores de escravos que se tratava de pessoas com voracidade por frutas, mesmos verdes. Nos Anais Brasileiros de Medicina, o médico Gama Lobo, identificou um determinado tipo de oftalmia em escravos com esses sintomas, que ganhou a denominação científica de “ophtalmia brasiliensis”, provocada por sério grau de avitaminose.

Outros anúncios, então, procuram negros cegos de um olho por “vazamento”, “caolhos”, e ainda vários escravos “com carnes sobre os olhos”. São comuns “negros fugidos” descritos como possuidores de um braço maior que o outro, com falta de dedos nas mãos ou nos pés.

Numerosas descrições apresentam pessoas que apresentavam nas coxas ou nas costas letras, sinais ou carimbos de propriedade, como hoje o gado é tangido. Quando não marcas de surras e castigos, um corpo deformado por torturas. Uns com “os quartos arriados” em virtude de tremendas surras, outros com cicatrizes provocadas por relhos aplicados nas costas ou nas nádegas; ainda outros com cicatrizes nos dedos provocadas pelos “anjinhos” e marcas na cabeça pelo uso de torniquetes com pregos, as “coroas de Cristo”. Também são comuns as cicatrizes provocadas pelo “tronco”, pelas correntes com que os atavam nos pescoços, nos pés, nos tornozelos; queimaduras na face e na barriga.

Também não são poucos os casos anunciados de negros com marcas provocadas por tentativas de suicídio: talhos feitos à faca na garganta, no peito, nos pulsos.

É grande o número de negros caçados que apresentam deformações de pernas e cabeça que podem ser atribuídas ao hábito das mães escravas trazerem os molequinhos de mama “escanchados” às costas durante horas e horas de trabalho. Já parte das deformações anunciadas como a de negrinhos com “pernas cambaias”, “pernas tortas para dentro”, braços e pernas “muito finos” e arqueados, “peitos estreitos”, podem, sem dúvida, serem debitadas ao raquitismo e à fome.

Faltam ressaltar as deformações, descritas nos anúncios de “busca-se”, as deformações de corpo por especialização profissional ou precocidade no trabalho. Vários negrinhos de dez a doze anos já apresentam a “croa” na cabeça, feita à força pelo peso de carretos brutos como tabuleiros, tijolos, areia, etc. Há caso de negros com os dedos dos pés “torrados ou comidos”, por serem amassadores de cal. Outros com dedos e mãos amputados pela ação das moendas dos engenhos. Quase todos com pés e mãos desproporcionais, deformados pelo trabalho pesado já na infância.

Façamos um parêntese para trechos do mesmo autor, extraídos de “Casa Grande e Senzala”:

“Passa por um defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo e a luxúria exacerbada”. Mas o que se tem apurado dentre os povos africanos, diz o autor, é, sim, uma maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. Os africanos são mais sofisticados dado que para excitarem-se necessitam de certas circunstâncias especiais, como danças, afrodisíacos, cultos fálicos e orgias. Já os europeus excitam-se por qualquer motivo.

“Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime, pois em primeiro lugar, a própria ganância favorece a depravação, criando nos proprietários de escravos o desejo de produzir o maior número possível de crias. Joaquim Nabuco colheu de um manifesto escravocrata de fazendeiros do interior de São Paulo, as seguintes palavras:” a parte mais produtiva da propriedade escrava é o seu ventre gerador “”.

Ainda Joaquim Nabuco, alicerçado em documentos, também comprovou a tese de que “o negro se sifilizou no Brasil” e a contaminação em massa ocorreu nas senzalas. A “raça considerada inferior” adquiriu da “superior”, dos brancos senhores de escravos, as doenças venéreas. “Negras tantas vezes virgens, ainda molecas de doze a treze anos, eram entregues a rapazes brancos já podres da sífilis contraída nas cidades”. Por muito tempo dominou no Brasil colonial a crença que para sifilítico não havia melhor depurativo que uma negrinha virgem.

Nem mesmo as amas de leite negras estavam livres do contágio sifilítico proporcionado por crianças brancas contaminadas. “De tal forma que a sífilis fez sempre o que quis no Brasil colonial”, graças ao escravagismo. “O sangue envenenado arrebentava em feridas; coçavam-se então as “perebas ou cabidelas”, tomavam-se garrafadas, chupava-se caju. Em princípios do século XVIII, o Brasil é citado em livros estrangeiros como o país da sífilis por excelência. Nem mesmo mosteiros estavam a salvo das devastações provocadas pelo mal gálico.”.

Fechando nosso parêntese, Freyre faz referências específicas nos anúncios, a respeito de sequelas de doenças sexualmente transmissíveis descritas em muitos negros fujões: “não são raros os casos de doentes de “boubas” e úlceras na pele, assim como feridas descritas como “que nunca saram”, nos braços e pernas”, assim como de negros descritos como “enlouquecidos”, uma possível fase neurológica da sífilis.

 

Um baiano, Luiz Gama, herói da abolição da escravatura em São Paulo, nas palavras de Afonso Schmidt.

Luiz Gama nasceu em Salvador, filho um fidalgote português e de Luísa Maheu, africana liberta da nação Nagô, em 1830. Sua mãe, da qual Gama sempre se orgulhava, teve toda a vida envolvida em insurreições de escravos, como a Revolta dos Maleses, em 1835. Em 1837, acusada de participação na Sabinada, ela foi deportada para o Rio de Janeiro e desapareceu.

“Quando Gama ficou crescidinho, o pai tentou vendê-lo ilegalmente como escravo a um comboieiro, dos que andavam pelo Norte, comprando carne humana”. Mas o menino era muito esperto e fugiu. Seu pai, então, levou-o a visitar um navio que estava no porto e enquanto o moleque percorria os porões e conveses, “o português aproveitou e fugiu, apertando no bolso o dinheiro da transação.”.

O navio pertencia a um comboieiro que tinha partes com a polícia e Gama foi transportado como escravo pelo navio até a cidade de Santos, e de lá até a Praça de Campinas, onde foi anunciado no mercado humano um lote de carnes, do qual ele fazia parte, com as palavras de sempre: “rapaziada moça e sadia, de virar e romper”.

A mercadoria ficou exposta, conta-nos Schmidt, na porta da igreja Matriz, num domingo à hora da missa. Os fazendeiros foram chegando, com botas enlameadas, chapéu do Chile e chicote na mão e passavam em revista a “negrada”: faziam avançar os que pareciam melhores, examinavam os dentes como aos cavalos e depois iam discutir com o comboieiro o preço da peça.

“Quando o melhor da leva havia sido comprado, o mercador de negros fez o leilão do refugo. Mas Luiz Gama nem assim foi vendido”. Quando um pretenso arrematador, Francisco Egídio, soube tratar-se de um baiano, persignou-se e disse: “Da Bahia só quero coco e pimenta, terra de negro revoltado, Deus que me livre”! Luiz Gama, então, foi trazido para São Paulo e exposto durante uma manhã inteira na Rua da Imperatriz. Aí o acaso acudiu-o. Um fazendeiro liberal vindo de Minas que procurava não um escravo, mas uma companhia para seu filho, matriculado na Faculdade de Direito, comprou-o.

O sinhozinho gostou de Luiz Gama, alfabetizou-o e dentro em breve eram os dois a estudar Direito. Apesar de não ser admitido na Academia, começou a participar das rodas estudantis, onde brilhou e conquistou grandes amizades. Fizeram-se seus amigos os Conselheiros Carrão e Crispiniano, José Bonifácio, José Maria de Andrade, jurisconsultos que muitas vezes ouviam sua opinião em questões de Direito.

Um dia, Conselheiro Furtado deu-lhe o emprego de amanuense na Polícia. Trabalhou no fórum com Lins de Vasconcelos e Américo de Campos. Foi quando ganhou demandas de centenas de contos de réis, mas nunca guardou um tostão para si, pois empregava todo o dinheiro que lhe pagavam na propaganda abolicionista, quando não comprava diretamente a alforria de negros escravos.

De Luís Gama, disse Raul Pompéia: “... não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; outros mostrando as mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que lhes dera um bárbaro senhor... E Luís Gama os recebia a todos com a sua aspereza afável e atraente e toda essa clientela miserável saía satisfeita, levando este uma consolação, aquele uma promessa, outro a liberdade, alguns um conselho fortificante. E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro... E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom... Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de clientes mais abastados.”.

O filho do mineiro Francisco Egídio, aquele que se negara a arrematá-lo no leilão, agora marquês, tornou-se seu amigo inseparável e orgulhava-se da coragem e da dedicação de Luiz Gama. Esteve com o amigo presente, ao lado de Américo de Campos e de outros republicanos, na fundação da loja maçônica “América”, em cujo salão azul e enfeitado com estrelinhas de prata, nasceria de verdade, a campanha abolicionista da Província de São Paulo.

Na década de 1860, Luiz Gama deixou o funcionalismo público e tornou-se jornalista e poeta de renome, ligado aos círculos do Partido Liberal. Fundou, em 1869, o jornal Radical Paulistano, juntamente com Rui Barbosa. Participou da criação do Club Radical e, mais tarde, da criação do Partido Republicano Paulista (1873), ao qual se manteve ligado até à sua morte, em 1882. Por volta de 1880, foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.

Em determinado momento de sua vida abolicionista Luiz Gama foi acusado de açoitar um escravo fugido. Levado como réu aos tribunais, Gama dispensou defensor e, desconhecendo a acusação forjada da qual era acusado declarou que “os senhores de escravos deveriam TODOS responder por pelo menos um crime: o de roubo! Roubo da liberdade de seu semelhante.” E nesse momento lançou a frase que daria um novo aspecto jurídico à campanha abolicionista: “ Para o coração não há códigos: e, se a piedade humana, a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos concretos, em verdade vos digo aqui, que afrontando a lei, que todo escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.

O réu foi absolvido por unanimidade. Os circunstantes aclamaram-no e o conduziram em triunfo pelas ruas da capital. À passagem da multidão, negras velhas ajoelhavam-se nas ruas e estendiam os braços para Luiz Gama aos gritos de: liberdade, liberdade!

NEUSINHA BRAVÍSSIMA

Ruth Landes: "A cidade das mulheres" e deuses afro-brasileiros



Ruth Landes foi uma antropóloga norte-americana que, em princípios de 1938, obteve um contrato de pesquisa para estudar as relações raciais no Brasil. Esteve no Rio de Janeiro, depois na Bahia onde conheceu o intelectual Édson Carneiro, que a introduziu nos cultos afro-brasileiros. Também compartiu seus pensares com Jorge Amado e outros artistas de esquerda. Em 1940, durante seu trabalho de campo, foi expulsa do Brasil pelo Estado Novo, pois pairavam sobre ela suspeitas de filiação ao “comunismo internacional”.

Somente após a Guerra, em 1947, Landes publicou os resultados de sua pesquisa no livro intitulado “A Cidade das Mulheres”. Contradizendo os padrões da antropologia de sua época, recusou-se a produzir um retrato etnográfico do candomblé e da cultura afro-brasileira como homogêneos integrados e estáticos; descreveu os conflitos internos, diálogos e contestações do significado do candomblé em um contexto de mudança e fluidez, situando historicamente a riqueza da cultura afro-brasileira.

Nesse sentido, Landes antecipou um estilo de antropologia reflexiva, dialógica e experimental, em que a alteridade é pensada enquanto construção, e assim como a subjetividade, desempenha um papel central, que iria encontrar sua mais larga expressão em Edgar Morin, muitos anos depois.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Com uma percepção fina e sensível, ela foi capaz de apontar algumas singularidades do candomblé baiano como, por exemplo, a tendência ao aumento gradual do poder feminino sobre o masculino, assim como o aumento do número de mães-de-santo, as “yalorixás”, em relação a pais- de- santos nos candomblés mais tradicionais. Ainda na primeira metade do século XX, teve a coragem de identificar a influência do "homossexualismo passivo" nos candomblés de caboclo.

Ela considera o candomblé "uma força criadora” e, especialmente, os lugares das mães-de-santo e de suas “sacerdotisas” na sociedade baiana a impressionaram. É a partir dessas mulheres que ela passa a refletir sobre a condição feminina, fazendo uma leitura sensível do poder que detinham. “Dá às pessoas coragem e confiança e faz com que se concentrem na solução dos problemas desta vida, e não na paz do outro mundo. Não sei onde estariam os negros sem o candomblé!"

Em “A cidade das mulheres” o que está em jogo é muito mais a narrativa de um "lugar de encontro" do que um retrato que se pretenda "objetivo" de uma "realidade social". Sua proposta foi viver o trabalho de campo como uma experiência que alterasse sua própria vida. Aos poucos, vamos compartilhando com essa antropóloga incomum suas descobertas. Uma verdadeira metamorfose vai se processando durante uma viagem narrada em detalhes. O encontro com Mãe Menininha no Terreiro do Gantois, ao qual é conduzida por Carneiro e Amado, é um dos ápices de sua experiência, em que ela descobre uma mulher independente, admirada, dona de si.

Ruth Landes, em seu livro, também explora a diferença do modo de pensar entre americanos e brasileiros. Por exemplo, relatando uma discussão acalorada com Édson Carneiro, em que este afirma que os norte-americanos importavam-se apenas com o "vil metal", desprezando a cultura, Landes retruca: "os norte-americanos pensam em termos de raça. Um preto é inferior a um branco por causa da sua raça. Não se imagina que um negro tenha cultura alguma, a não ser a que lhe vem do branco".

Termina seu livro tecendo um elogio às mulheres baianas do candomblé e comparando-as com as norte-americanas: "Penso que elas ajudam a engrandecer o Brasil. Acreditarão os americanos que haja um país em que as mulheres gostam realmente dos homens, sentem-se seguras e à vontade com eles e não os temem?"

Por seu ineditismo e vanguardismo somente em 1967, portanto, vinte anos após sua edição em inglês e graças ao empenho de Édson Carneiro, o livro foi traduzido e lançado pela Editora Civilização Brasileira. 

OS DEUSES AFRO-BRASILEIROS

Em publicação para o “American Folk- Lore” de 1940, Ruth Lande resumiu para o leitor norte-americano a teogonia dos deuses afro-brasileiros que, abaixo, resenhamos.

O pai de toda a criação e de todos os deuses é o ocioso Olorum, a respeito do qual pouco se pensa. Ocasionalmente é relacionado com o Deus sionista-cristão. Oxalá, seu filho, ocupa a primazia das divindades, sendo correlacionado a Jesus Cristo. Outras divindades são identificadas com vários santos católicos, assim como Exu com o Satanás.

Oxalá é geralmente idealizado como um ser tão velho que deve procurar o calor do sol. O seu lar é o interior de uma colina na África ocidental. “Quando desce nos seus médiuns, curva-se sobre um pesado cajado, suas pernas tremem de frio e ele resmunga rabugentamente.” As vestes são muito ricas, em branco e prata, símbolo de seu “anima”.

Oxalá tem duas esposas. A mais velha é Nanan, mãe dos três deuses Molu, Loko e Oxunmarê. Identifica-se com Santa Ana, mãe da Virgem Maria. Seu lar é no fundo de um rio angolano e as algas são seus cabelos. O sentimento que desperta nos povos negros, expresso em homenagens que lhe são realizadas, é de temor. Suas cores são o branco e o azul-claro, simbolizando a senectude e as águas onde vive.

A esposa mais jovem e mais amada de Oxalá é Yemanjá, simbolizando na cultura ocidental a Virgem Maria, mas com ancas largas, seios exuberantes e sexualmente potente. Como vive nas águas, perto de Oxalá, suas cores também são o branco e o azul-claro. É muito querida entre as mulheres e as canções e danças de seu ritual são suaves e agradáveis.

Oxalá tem um filho muito amado, um rei deificado com o nome de Xangô, grande guerreiro, namorador e herói de lendas escandalosas. Costuma-se compará-lo a São Jerônimo. Muitas vezes é considerado o “rei” de toda África. Depois de sua morte manifestou-se como o relâmpago e reina nos céus, encarregado dos raios. Seu símbolo é um machado, sua cor é o vermelho vivo. Por ser um deus muito popular, “desce” em muitos “cavalos”. Foi magistralmente orquestrado por Villa Lobos em “Xangô, a morte de um rei yorubá”.

Xangô é casado com Yansan, que alguns dizem ser também sua irmã. Ela é a parte feminina de Xangô, uma guerreira que adora uma “peleja”, uma mulher de muitos amantes. De acordo com a história, antes de unir-se ao esposo, Yansan fora seduzida por seu padrasto, o deus caçador Oxóssi, desleal com sua mãe adotiva, a deusa Oxun. Depois de sua morte e deificação, tornou-se a senhora dos ventos e tempestades, tal qual Santa Bárbara da Inglaterra. Alguns etnólogos com Édson Carneiro e Artur Ramos, afirmam que Xangô e Yansan são uma única figura, portadora da bissexualidade.

Oxun, a mãe adotiva de Yansan, é uma das deusas africanas favoritas. Ela é a mimada de Oxalá, nascida com uma colher de prata na boca, portadora de grande encanto e nobreza de caráter. Traz consigo a eterna juventude e é associada a uma das Virgens Maria. Yansan, ingrata, sempre deixa seus filhos com a mãe, que deles cuida. Oxun é tão homenageada quanto Xangô, como símbolos perfeitos de seus respectivos sexos.

Oxóssi é um príncipe caçador, completamente ligado à vida na selva. Os seus emblemas são o verde dos matos e o bronze com tonalidades em azul e vermelho, usa roupas de couro e uma aljava. Seus gritos aproximam-se a latidos.

Ogun é um deus solteirão, de caráter enérgico que controla os desastres, a guerra, o mal. Sua cor é o azul-escuro. Quando vivia em África, antes de sua imortalidade, era ferreiro de nobre casta. Os Exus são seus criados. Muitas vezes é invocado junto com os auxiliares para fazer o mal. Associam-no ao guerreiro Santo Antônio.

Omolu é um personagem antipático, mas que exerce horrível fascinação sobre homens e mulheres. É o deus das pestes. Os seus “cavalos” o representam como um velho horroroso, contorcido. Se corretamente solicitado provê a cura de enfermidades, ilustrando a ambivalência de todos os deuses afros- brasileiros. É identificado com São Roque e São Lázaro.

Omolu e Ogun são cultuados no mesmo dia, às segundas-feiras e se lhes oferece pipoca em sacrifício. Ambos residem e controlam as estradas e encruzilhadas, caminhos do mal. Omolu, sendo um deus do sol do meio-dia, tem as cores vermelho branco ou preto. Sua vestimenta inclui uma máscara de palha, da cabeça ao peito. Ogun usa um capacete de fibras de palmeiras. Também se diz que Omolu seja casado com Obá, filha mais velha de Yansan, também guerreira, usando as cores marrom e vermelho.

Omolu e seus irmãos, Loku e Oxunmarê, são importantes na teologia, mas dificilmente baixam nos terreiros. Loko, com funções de cura é relacionado a São Francisco de Assis, tendo como cor a branca. Oxunmarê, também relacionado a curas, é correlacionado a São Bartolomeu, tendo o formato de arco-íris ou de cobra.

Yansan tem duas irmãs mais velhas, Obá e Ewa, que são como suas cópias um pouco desbotadas.

Esses deuses são a espinha dorsal deum culto fetichista. Alguns são mais complicados que outros, em conceitos e em rituais. Eles também são representados em vários períodos de sua vida, quando cada aspecto assumido é a corporificação de um traço isolado de seu caráter. De todos os deuses, somente Oxóssi e Nanan são sempre os mesmos e possuem apenas um aspecto.

Essa norte-americana, Ruth Landes, precursora da moderna antropologia, assim termina o ensaio na justa tentativa de expor resumidamente ao seu povo os deuses afro-brasileiros.

 

Democracia ou barbárie



Após um longo período de relativa “dormência social”, começam a ressurgir sinais inequívocos da retomada do espaço público pela cidadania. As manifestações que tomaram o país de assalto em junho refluíram, mas não se esgotaram; elas hoje se reproduzem em menores proporções e em determinados centros urbanos.

Os poderes públicos ao dizerem que as aceitavam “naturalmente”, como “sendo parte da democracia”, fizeram jogo de cena enquanto tomavam pé da real situação e, acuados, após realizarem algumas concessões, infiltraram seus provocadores e informantes em meios às manifestações espontâneas, com o objetivo de tumultuá-las e provocar o caos. No momento seguinte, passaram a reagir com a costumeira truculência policial com que se oprime e massacra os “pobres e ofendidos”, com o objetivo de que as pessoas, temerosas da violência, abandonassem o espaço que principiavam a reconquistar na “polis”.

O movimento espontâneo da cidadania foi apartidário, teve foco difuso e sem lideranças claras, como seria absolutamente inevitável que assim o fosse graças à perda de referenciais partidários e de organizações desgastadas da sociedade civil; no entanto, ele jamais deixou de ser um movimento político, carregando todas as letras da verdadeira ação cidadã. E é esse despertar da cidadania que nos obriga a pensar o momento que se  coloca. A esse esforço direciona-se a modesta contribuição desse Espaço Cultural.

Marx afirmava que para a burguesia e seus aliados e para o imperialismo em seu conjunto, era imprescindível potencializar o caráter fetichista da sociedade e ocultar o mais possível sua natureza exploradora, injusta e desumana. No mesmo sentido, Brecht brindou-nos com uma frase inesquecível: “o capitalismo é um cavalheiro que tem vergonha de ser chamado pelo próprio nome”. E esse “cavalheiro” assume, a cada momento, uma de suas múltiplas máscaras, nas diferentes “personnas” desse teatro brechtiano que é a própria vida.

Spinoza, o autor da “Ética”, no século XVII, traçava o caminho entre a cidadania e o “vulgo” (a massa): o ensino. Indivíduos amedrontados podem ser transformados em cidadãos livres exclusivamente através do processo educativo e participativo. “ Uma cidade onde a paz é o efeito da inércia dos sujeitos conduzidos como rebanho, e, formados apenas para a servidão, merece o nome de isolamento, nunca o de Cidade”. (Tratado Político) “O ideal democrático deve sempre estar unido ao ideal educacional”.

O racionalismo do filósofo holandês o conduz à conclusão de que “o homem conduzido pela razão é mais livre no Estado, onde ele vive segundo um decreto comum, que na solidão, na qual ele obedece somente a si mesmo”. (Ética) A tirania enclausura o indivíduo no corpo e no intelecto, arrancando-o do convívio social. A democracia, o oposto da tirania, é o regime que respeita os entes humanos como singulares, mas coaduna tal cuidado com a força e os direitos coletivos. “Ninguém transfere seu direito natural a ninguém, mas à maioria da sociedade, da qual ele é parte.”

Spinoza ainda tinha particular desprezo por esses senhores “cheios de fausto, com sábia desrazão e imoralidade elegante.” Esses são os integrantes mais perigosos do “vulgo”, pois ao privarem a massa da verdade, dela retiram o poder de julgar. Quando a multidão desencadeia sua violência e passa a assumir o espaço público, esses tacanhos de alma, ricos e poderosos, tremem com toda a razão e reagem com violência decuplicada.

É um erro, diz Spinoza, a insolência que marca todos os homens ao assumirem algum Poder. Mesmos aqueles que recebem apenas parcelas do poder e temporariamente, tornam-se insolentes. O despotismo dos ricos é adornado por uma “tolice refinada” e pela “elegante imoralidade”.

O guarda civil torna-se insolente se tem alguma oportunidade de poder, tanto quanto o empresário que enriqueceu sob as asas do Estado ou graças à sua “esperteza”. Dizia Spinoza que se trata apenas de uma questão de “adereços”. O policial que hoje em dia tem os cassetetes, os sprays de pimenta, balas de borracha; os milionários que desfilam em carros blindados ou em helicópteros, que bancam campanhas políticas em troca de negócios onde trapaceiam seus concorrentes e os cofres públicos, são ambos portadores de igual insolência, mesma arrogância, apenas apresentam diferentes “adereços”.

Deixemos Spinoza e vamos ao encontro do pensador Norberto Bobbio, contemporâneo do século XX. Nele encontramos definições daquilo que seriam as tarefas de um intelectual de esquerda, “agitar ideias, levantar problemas, elaborar programas e teorias em geral”. Ao mesmo tempo, as ações de persuadir ou dissuadir, encorajar ou desencorajar, expressar juízos, induzir as pessoas às quais se dirige a adquirirem opinião uma sobre as outras. Contrapor-se de forma rigorosa à retórica sinuosa do fim das ideologias, cujo objetivo dissimulado é enfraquecer a política como esfera de representação de anseios e visões éticas. “A esquerda deve empenhar energias nas batalhas culturais e nas lutas pela universalização dos direitos da cidadania”. Desta forma, aprofundar a democracia passa por revigorar o pluralismo, uma contraproposta ao cenário atual do consumismo e da transformação das desigualdades em anomalia social “normal”.

O filósofo Francisco de Oliveira nos alerta que “o caminho do progresso, o caminho da modernidade havia sido lograr sínteses que ampliavam o espaço da liberdade”. No entanto, a égide do neoliberalismo sob a qual vivemos, formata uma nova síntese e esta deixa de ser positiva, tornando-se negativa, na medida em que restringe os espaços da liberdade. Essa síntese negativa caminha no sentido da negação total da liberdade dos indivíduos; por outro lado amplia absurdamente a liberdade do capital.

“A indústria cultural transforma o conhecimento em informação, provocando a perda da radicalidade do conhecimento: tudo é transformado em informação”. Como decorrência, o espaço da informação cresce enormemente e encurta-se novamente e, com radicalidade, o espaço público. “Quem perde com a redução do espaço público é a polis; e a política perde, pois a polis é lugar de interlocução”. “Em sociedades tão desiguais como a nossa, a privatização da vida é uma das piores marcas que reforça a desigualdade”. “No fundo, é a eles (aos dominados) que se endereça a privatização da vida, pois é o alvo preferencial dessa privatização e do encolhimento do espaço público”.

Carlos Nelson Coutinho, pensando o momento contemporâneo, recorda o dístico de Gramsci: “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade.” E diznão se trata de pessimismo irracional, mas daquele que se alimenta da razão crítica; quanto ao otimismo da vontade, que é uma indicação para que mantenhamos unidas a teoria e a prática, ele se apóia em que quase tudo o que Marx presumiu a respeito do capitalismo se confirmou: o capitalismo globalizado de hoje não eliminou, mais até mesmo agudizou as suas contradições. Precisamos recomeçar de novo, com a modéstia de quem perdeu uma batalha, tanto no sentido político quanto no cultural, mas com a convicção de que o resultado da guerra não está definido”.

Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes criaram importantes categorias dos processos elitistas e antipopulares que caracterizaram as transformações sociais no Brasil. Eles demonstraram que o Brasil conservou traços coloniais e não conseguiu, efetivamente, se configurar como nação. O nosso déficit de cidadania é por demais conhecido. Com a política neoliberal das últimas décadas, o país perdeu instrumentos de fixação de uma política nacional, autônoma e soberana. De certa forma regrediu à situação colonial denunciada por Caio Prado e Florestan.

Para Coutinho, era absolutamente necessário que ocorresse uma democratização cultural no país, mas para isso seria preciso que se desenvolvesse, simultaneamente, uma democratização real da sociedade brasileira. Uma democratização dos meios de comunicação e da mídia, fazendo com que os meios de comunicação fossem controlados pela sociedade e não por pequenos oligopólios privados. “Mas seria uma utopia pensar que isso possa vir a acontecer persistindo o modelo elitista, em que as massas não participam da política e nem tenham peso determinante na criação e consumo de uma cultura de alto nível”. As políticas culturais devem ser criadas a partir da sociedade civil e não do poder político da ocasião.

“O pós-modernismo tem tudo a ver com o neoliberalismo: ambos se voltam para a despolitização geral da sociedade e, consequentemente, da cultura. A terceira via é uma revelação dos verdadeiros limites do neoliberalismo”. Oliveira ainda nos diz que “na Europa, os partidos da antiga esquerda assemelham-se cada vez mais ao Partido Democrata americano, um aglomerado de lobbies que se formam ao redor de figuras da mídia. O mesmo processo ocorre no Brasil”. Coutinho assinalou, em 2006, a transformação pela qual passava o Partido dos Trabalhadores que estava “a converter-se em um partido de governo, diluindo-se numa frente absolutamente amorfa”, um partido que abandonava sua vocação originária de organismo de luta de transformação social.

“Desde que eu comecei a pensar a política, já se vão mais de quarenta anos, nunca a conjuntura foi tão desfavorável à esquerda quanto nesse último período.” E conclui: “Há esperança de superarmos mais essa barbárie, para isso é preciso que lutemos contra ela... A vitória contra a barbárie não constitui uma fatalidade histórica, ao contrário, é a barbárie que nos espera, ou que já nos atinge se cruzarmos passivamente os braços. A alternativa com que nos defrontamos continua a ser o dilema formulado há um século por Rosa de Luxemburgo: socialismo ou barbárie. Cabe reinventar o socialismo, que, adequado ao século XXI, nos livrará da barbárie”.

É vital para o neoliberalismo sufocar a quebra do isolamento entre as pessoas, evitar que as ruas ocupadas operem a transformação das massas, do “vulgo” que se deixa enganar pelo consumismo barato, e se transforma em cidadão. É nas ruas, no espaço público; é nas escolas, na educação, onde se produzirão as políticas capazes de reverter a situação do avanço das tendências fascistas, antidemocráticas e antinacionais que emergem contra o país e a sociedade civil.

Finalizamos esta reflexão com mais um pensamento de Coutinho: “acho que devemos continuar lutando por construir partidos capazes de desempenhar funções de agregadores de vontades coletivas”, como construtores da real democracia social.

 

Lincoln e a abolição da escravatura



Lincoln, o filme americano de trama que se propõe histórico- bibliográfico lançado em 2012, dirigido por Steven Spielberg foi baseado no livro “Team of Rivals: The Political Genius” de Doris Goodwin. Ele abrange exclusivamente os quatro últimos meses de vida de Lincoln.  Foi aclamado pela crítica, sendo indicado para sete Globos de Ouro, em 2012. Na 85ª edição dos Academy Awards, o filme ganhou dois prêmios (melhor direção de arte e melhor ator).

Finalmente, e o que mais interessa para Hollywood, o filme foi um enorme sucesso comercial, tendo arrecadado mais de 300 milhões dólares em bilheteria.

Num filme que se propõe biográfico, o crítico deve estar atento ao que ele contenha de realidade dentro da ficção. O verdadeiro Lincoln não está ali. Mas ele poderá ser encontrado dentro de seus próprios escritos e nas memórias de W. Herndon, seu antigo sócio no escritório de advocacia, onde Lincoln representava os interesses das grandes ferrovias e dos civis que poderiam pagar pelos seus serviços. Conforme ele, “Lincoln tinha um motorzinho incansável: a ambição”. “É verdade que nenhum grande homem é modesto, mas ele possuía entranhada uma forte arrogância intelectual e presunção inconsciente de sua superioridade”.

Abraham Lincoln lia pouco, mas de forma objetiva. “A política era seu Paraíso, a metafísica, seu Inferno”. Ele leu e releu mais de uma vez Shakespeare e estudou todos os comentários legais de Blackstone sobre as peças do teatrólogo inglês.  Por outro lado, ele não suportava nem romances, nem biografias.

Vemos no filme um Lincoln crente em Deus, quando na verdade, o futuro Presidente não somente rejeitou o cristianismo como escreveu um opúsculo intitulado “Infidelidade”, onde tentava mostrar que a Bíblia era falsa e Jesus era filho de um homem como outro qualquer. Seu amigo e chefe na advocacia, Hill, conseguiu tomar-lhe o manuscrito e o destruiu, de acordo com Gore Vidal. Mais tarde, durante o mandato Presidencial, Lincoln foi pressionado a incluir Deus em seus discursos. “No fundo, Lincoln era um fatalista, um materialista da escola de Demócrito e Lucrécio”.

Segundo Herndon, por volta de 1835, ainda solteiro, Lincoln contraiu sífilis. Seu amigo suspeitava que ele houvesse contaminado sua esposa Mary Todd com a doença. E isso poderia explicar a morte prematura dos três filhos do casal. Enquanto Lincoln ainda vivia, Mary Todd apresentou sinais de loucura e, após sua morte, a autópsia revelou uma deterioração no tecido cerebral, compatível com paresia. Se Lincoln possuía a consciência de que, inadvertidamente, passara sífilis para a mulher e que contaminara seus três filhos, seus ataques de melancolia profundos tornam-se compreensíveis e insuportavelmente trágicos.

A Guerra Mexicano-Americana foi o primeiro grande conflito impulsionado pela ideia de “Destino Manifesto”, a crença de que os Estados Unidos tinham um direito dado por Deus: o destino de expandir as fronteiras do país de "costa a costa. Como resultado, os Estados Unidos ampliaram o seu território em cerca de um quarto, enquanto México perdeu aproximadamente metade do seu. Lincoln como membro do Congresso em 1846, opusera-se a guerra com o México. Fez da tribuna um lindo discurso que o atormentaria treze anos mais tarde:” Qualquer povo, em qualquer lugar, que tenha vontade e poder, tem o direito de se sublevar e de derrubar o governo vigente e de formar um novo governo de acordo com seus desejos. “Qualquer porção desse povo que tenha condições pode fazer sua revolução no território que habita e apropriar-se dele.”

Quando o Sul resolveu seguir o conselho do Congressista Lincoln, o Presidente disse que não poderia que seu pensamento havia evoluído que esquecessem o que o Congressista havia pronunciado.

Ao contrário do que pensa a maior parte das pessoas e o filme leva isso até as últimas consequências, na História real, a questão central da Guerra Civil americana jamais foi a abolição da escravatura. O fulcro da questão era a Secessão ou a preservação ou não da União, que, sem dúvida favorecia, no pacto federativo, os Estados do Norte. Disse Lincoln: “Se a escravatura não está errada, então nada mais está errado... mas se puder salvar a União sem libertar nenhum escravo, farei isso. Se puder salvar a União libertando alguns e não tocando em outros, farei isso”.

Na realidade, no terceiro ano de sua administração, Lincoln libertou todos os escravos nos Estados que haviam se rebelado contra a União, mas manteve a escravatura nos Estados fronteiriços que haviam permanecido leais a ela. O mundo não entendeu bem, mas Lincoln sabia o que fazia. Primeiro a União, depois os escravos.

No começo de sua administração, Lincoln adquiriu por preço de banana terras pantanosas na América Central para lá enviar os negros libertos. A uma delegação de negros ele declarou: “Vocês e nós somos de raças diferentes. Separa-nos uma diferença maior que a existente entre quaisquer outras raças... A raça de vocês passa por grandes sofrimentos enquanto a nossa raça sofre devido à presença de vocês.” Mas os negros não estavam dispostos a deixar um país que eles haviam ajudado a construir e já conheciam as mortes por paludismo, febre amarela e outras doenças que haviam acometido os negros pioneiros nos pântanos da América Central. A tentativa de convencimento de Lincoln falhou e ele já não tinha forças para obrigá-los a partir.

Como “animal político” Lincoln era extraordinário e o filme trata de representá-lo como um comprador de votos, um articulador de conveniências. Ele possuía o senso do quando esperar e de quando e onde agir. Tinha o dom de formular idéias cuja hora chegara, aparentemente, naquele exato momento. Quando a guerra estava chegando ao fim ele disse: “Nenhum lado esperava que essa guerra tivesse a magnitude e a duração que ela atingiu. Nenhum previa que a causa do conflito pudesse cessar ao mesmo tempo, ou antes, que o próprio conflito cessasse. Ambos os lados queriam um triunfo mais fácil e um resultado menos radical e surpreendente... Era impossível que Deus atendesse às preces dos dois lados- e nenhuma delas foi inteiramente atendida”.

Como ele estivesse prevendo os próximos meses para si mesmo: “Tenho o pressentimento de que não vou sobreviver à rebelião. Quando ela chegar ao fim o meu trabalho estará concluído”. Os Estados Unidos da América permaneceria uno, indivisível. O trabalho estava concluído quando uma bala do revólver de certo Booth, terminou com o Presidente Lincoln.

 

A Marselhesa e seu autor: explendor e queda



A história do Hino Nacional Francês e de seu autor (da música e da letra) constitui um instante especial no teatro da vida. Uma aventura feita de glória e de esquecimento, de luta e de poder, de despotismo e de ideais, de sofrimento e conquistas. Ela foi transportada para as telas do cinema pelo gênio de Jean Renoir. Nós iremos contá-la em três atos.

Primeiro ato: Ano de 1792.

A França revolucionária era ameaçada pela coalizão do absolutismo monárquico, e os exércitos austro- húngaros estavam a alguns quilômetros das fronteiras alsacianas. Enquanto isso, a Assembleia Nacional hesitava entre a guerra e a paz. Os Girondinos, em minoria, eram a favor da guerra por crerem que ela lhes devolveria o poder político, e a esquerda, os Jacobinos, pela paz. Ao final dessa luta política, o vacilante rei Luiz XVI assinaria a declaração de guerra.

A última grande cidade francesa a fazer fronteira com o rio Reno é Strasbourg. No dia 25 de abril de 1792, o prefeito Dietriech, um aristocrata progressista que esposara a causa da liberdade, recebia das mãos do emissário da Assembleia a declaração de guerra que, em breve, atravessaria o Reno e seria entregue às tropas inimigas acantonadas. A seu chamado, todo povo acorreu á praça principal e a guarnição, ansiosa pela guerra, desfilou seus regimentos.

As bandas tocavam o primeiro canto de guerra da Revolução, o “Ça Ira”, que em breve as massas o poriam de lado. Nas ruas, nos cafés, nos jornais, ouviam-se e liam-se proclamações de luta como: “Aux armes cytoyens!”, “L’étandart de la guerre est deployé”, “Marchons, enfants de la liberté!”

Ao final da tarde, Dietriech reuniu os oficiais para a despedida do Exército do Reno que deveria partir contra as tropas reacionárias agrupadas do outro lado do rio. Entre os discursos e brindes, ele voltou-se para o capitão Rouget de Lisle, que escrevera há algum tempo uma bela “Ode á Liberdade”, quando da promulgação da constituição francesa, e pediu-lhe que compusesse uma nova marcha para as tropas que se dirigiam à batalha. Perante o entusiasmo geral, Rouget aceitou.

A madrugada do dia 26 de abril foi febril em Strasbourg. Febril para o povo e para os combatentes que se preparavam para a luta, mas particularmente para Rouget, que em estado de grande empolgação, sem repousar, sentia ecoar em si as vozes animadas do povo a clamar pela liberdade, a dos camponeses que tremiam ao pensar que suas terras poderiam ser invadidas pelo inimigo, das mães que temiam por seus filhos. Escreveu, então, as duas primeiras linhas que não passavam de ecos do que seus ouvidos captara:

“Allons,  enfants de la patrie,

Le jour de gloire est arrivé!”

Gostou do princípio! Pegou o violino e musicou-a. Encontrou inspirado um ritmo próprio para a marcha. Escreveu mais versos que, à medida que brotavam aumentavam a excitação de seu sentir. No de dizer de Zweig, “Cada vez melhor se adaptava a melodia ao compasso martelante, jubiloso, o palpitar do coração de um povo que desperta, pois nessa noite única, fora concedido ao Capitão Rouget ingressar na confraria da imortalidade.” Antes do amanhecer, ao encerrar a quinta estrofe, completara o canto que duraria para sempre.

Rouget não pegou no sono, pois sinos da Catedral chamavam, ao raiar o dia, à concentração cívica. Ao encontrar na multidão o capitão, o prefeito cobrou-lhe a composição da marcha e tomando-o pelo braço, levou-o à casa para aquele que seria o primeiro ensaio. O próprio Dietrich, com sua voz de tenor puxou pelo solo. Logo mais à noite, a “Marcha de Guerra do Exército do Reno”, dedicada ao general- comandante Luckner teve um público maior que a aprovou delirante. A esposa do prefeito que havia tirado cópias das partituras emocionou-se ao escrever a seu irmão dizendo-lhe que se tratava de um “Gluck melhorado”!

No entanto, a “Marselhesa” não possuía um espírito que a identificasse com uma música de câmera, para o canto de um solista. Sua identidade com uma reunião de burgueses era pequena, seus genes eram impregnados daqueles que somente carregam os companheiros em luta. Sua musicalidade era destinada a ser entoada por milhares de gargantas, num grito de vida ou de morte, pois o seu DNA tinha cromossomas com características próprias das massas, das multidões! Sua verdadeira orquestração deveria ser dada pelo retinir das armas, pela fanfarra dos clarins anunciando a luta, pelo ressoar da marcha dos regimentos libertários! Naquele momento, entretanto, nem mesmo o seu autor, Rouget de Lisle, suspeitou disso! Escreveu cópias, imprimiu-as e as enviou a diversos corpos do Exército Francês.

Meses se passaram e a enorme maioria das partituras ou se perdeu ou foi esquecida em algumas gavetas.

Segundo Ato:

Muito longe da Alsácia, num porto da costa mediterrânea, o Clube dos Amigos da Constituição oferecia, no dia 25 de junho, um banquete aos mais de quinhentos cidadãos voluntários, que marchariam para Paris, em defesa da liberdade e da Pátria. Um desses jovens era Mireur, um estudante de medicina. De repente ele subiu à mesa onde os copos e garrafas balançaram e com o punho direito erguido e entoou uma canção que jamais ninguém ouvira. Seu primeiro verso era: “Allons, enfants de la Patrie”.

Foi como que um raio que vindo dos deuses eletrizasse a todos ao mesmo tempo. Os sentimentos de uns exaltam os dos outros, os voluntários que partiam para vencer ou morrer encontraram naquela marcha os motivos que seus corações entrelaçados queriam expressar. Mireur teve que cantar uma segunda e, já sem voz, uma terceira vez. Ao final, todos cantavam com o punho erguido: “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons!”

No dia seguinte a marcha era entoada por mil, depois dez mil, depois por dezenas de milhares de bocas. Em todo o trajeto que os marselheses percorreram a canção ganhava o coro dos camponeses e, quando em 30 de junho, o batalhão chegou a Paris a “Marcha do Reno” ganhou o seu nome definitivo: “A Marselhesa”, a música trazida pelos bravos de Marseille.

Em menos de dois meses o seu curso como o hino da França libertária tornou-se irresistível: cantavam-na nas ruas, nos teatros, nos clubes e até nas igrejas. O governo deu ordem para que fossem impressos cem mil exemplares e distribuídos em todos os quartéis do Exército, e ao avanço das tropas francesas tremiam os inimigos pelos sons de vozes até mesmo mais altas e agressivas que o rugido dos canhões. Um hino que lançava os franceses ao combate apavorava os monarquistas e varria da França os invasores.

No entanto, em nenhuma das cópias das letras era citado o nome de seu inventor e único compositor, o capitão Rouget. Vivia ele isolado numa guarnição fronteiriça, um desconhecido de todo o povo que idolatrava sua canção de luta e de libertação. E a fama da música revolucionária não se estenderia ao seu criador, porque, pessoalmente, ele não era um revolucionário, tão somente um patriota e libertário, que odiava todo tipo de despotismo. Ele que mais do que ninguém incentivara as massas à revolução!

Quando a Convenção em 1793 com seus novos déspotas mandou à guilhotina seu amigo, o prefeito Dietrich, o padrinho da Marselhesa e o general Luckner ao qual ela fora pela primeira vez dedicada, Rouget expressou seu desgosto publicamente e à Comissão de Salvação Pública. Isto bastou para que fosse detido como contra-revolucionário e acusado de traição. Somente lhe salvou o pescoço os acontecimentos do Nove de Termidor, em 1794, com a queda de Robespierre e de Saint-Just.

Terceiro ato:

Libertado, Rouget viu-se privado da patente do exército, do uniforme e da pensão. Nem mesmo suas composições musicais eram aceitas para ao menos serem analisadas. É bem verdade que Carnot e, depois Napoleão lhe acenaram com alguma ajuda. Mas aquele homem tão sofrido, mas de forte opinião, nada aceitaria das autoridades que um dia o haviam espezinhado. Ele escrevia atacando os representantes do poder, principalmente Bonaparte. Detestava os déspotas.

Sem amigos, vigiado pela polícia, perseguido pelos credores, até mesmo cumpriu prisão por não pagamento de promissórias.

Recolheu-se por fim a um canto de província e de lá primeiro ouviu “A Marselhesa” ressoar à frente dos exércitos vitoriosos na Europa; depois soube que Napoleão, em 1805, coroado Imperador, havia banido a marcha “por ser demais revolucionária”. E que com a sua queda, em 1815, os Bourbons da Restauração a haviam absolutamente proibido, sob pena de trabalhos forçados para quem a entoasse.

Já ancião, surpreendeu-se quando na Revolução de 1830, sua música e letra ressurgiram nas barricadas de Paris e o monarca burguês-constitucionalista, Luiz Felipe, lhe concedeu pequena pensão vitalícia. Provavelmente no o soube que em Paris, Berlioz, orquestrava, com toda a sua genialidade, “A Marselhesa” a mil vozes.

Se por um lado, ao falecer em 1836, aos 76 anos de idade, ninguém mais se lembrava de seu nome, também foi poupado a Rouget de Lisle saber que “A Marselhesa” voltaria a ser proibido por Napoleão III, em 1852, tendo somente retornado como hino libertário com as barricadas da Comuna de Paris, em 1871.

Cena Final

Muitos anos transcorreriam até que na Primeira Grande Guerra, quando “A Marselhesa”, de longa data transformada em Hino Nacional, foi vitoriosamente cantada em todas as frentes de batalha. Ao mesmo tempo, o governo francês decretou que os restos mortais do capitão Rouget fossem exumados e transferidos para Los Invalides. Por ironia da história ou arte dos homens, seus restos descansam lado a lado daqueles que um dia pertenceram a Napoleão Bonaparte, a quem tanto desprezara em vida.

 

Os franceses sob o domínio nazista (p.1)



Ao contrário do que se possa pensar, para a maioria dos burgueses parisienses, a ocupação nazista que durou quatro anos (1940 /1944) não foi tão má quanto poderia parecer, afirma Gerassi, o biógrafo mais importante de Sartre.

O metrô funcionava bem, os teatros faziam sucesso, os bares e os restaurantes viviam cheios. É bem verdade que o café não era mais o mesmo, que a bebida tinha uma qualidade discutível, que a suástica drapejava sobre as Tulherias, sobre a Câmara dos Deputados e sobre o Palácio de Luxemburgo. Também é verdade que a tropa alemã descia diariamente os Champs-Élysées, sempre ao meio-dia e meia, marchando a passo de ganso; que a Torre Eiffel amanhecera, num dia de verão de 1940, adornada com um V gigantesco, acompanhado por um cartaz que dizia: “Deutschland siegt auf Allen Fronten”, ou “A Alemanha vence em todas as frentes”.

Ainda assim, os burgueses comiam muito bem, graças tanto às ligações mantidas ente a cidade e o campo, quanto ao mercado negro, tolerado e mancomunado com a autoridade de ocupação.

Em Paris, a “Festa Continuou”, diz Riding, em referência ao círculo intelectual e artístico daquela cidade então considerada, até pelos ocupantes nazistas, a capital cultural do mundo. A rigor, não houve nada no mundo do entretenimento e das artes de Paris que tenha sofrido durante a ocupação; a festa simplesmente seguira adiante. Os cinemas, por exemplo, viviam cheios, pese o banimento das películas norte-americanas e do jazz, porque, de acordo com um jornal colaboracionista, tinham um sabor “negro-judeu”.

E os comportamentos individuais? Num país onde os intelectuais e artistas eram reverenciados como “entes superiores", e no qual a população era educada para reverenciar suas teorias e atitudes, o mundo cultural teve maiores responsabilidades pelo colaboracionismo com o nazismo, graças a essa influência.

Alguns cantores como Maurice Chevalier e Édith Piaf  realizaram tournées musicais nos campos de prisioneiros de guerra franceses, com cachês pagos pelos nazistas, fornecendo propaganda do “bom tratamento” dado a eles pelos carcereiros. Escritores como Céline colaboraram ativamente na França e na Itália fascista. As atrizes Danielle Darrieux e Viviane Romance esqueciam as barbáries praticadas pelos nazistas enquanto, enquanto realizavam turismo através da pátria do nacional- socialismo hitlerista.

Coco Chanel vivia em sua suíte no Ritz com um alto oficial alemão. Le Corbusier, canonizado em vida como modernista por arquitetos do mundo inteiro no pós-guerra, inclusive no Brasil, grudou nas autoridades de ocupação em busca de verbas para seus projetos; afirmou, tentando agradar ao governo de ocupação, que “a sede dos judeus por dinheiro havia corrompido o país”.

O esperto André Gide disse: "Prefiro não escrever nada hoje, que possa me deixar arrependido amanhã", o autor que ganharia o Nobel em 1947. Outros artistas adotaram atitudes semelhantes, calaram-se e procuraram pouco aparecer. Picasso optou por permanecer em Paris durante a ocupação, vendendo discretamente seus quadros, e recusou-se, por covardia, a assinar uma petição pela liberdade de um amigo, o poeta Max Jacob, preso pela Gestapo – documento que até mesmo colaboracionistas assinaram. Jacob morreu no infame campo de concentração de Drancy.

O editor Bernard Grasset, o primeiro a editar Proust em 1913, chegou quase a implorar a Joseph Goebbels o direito de publicar na França a “obra magistral” do sumo sacerdote da propaganda nazista.

Sacha Guitry, ator e cineasta de renome no pós-guerra, tornou-se íntimo do embaixador do III Reich, Otto Abetz; Tino Rossi, um dos melhores tenores de sua época, interpretou na Ópera de Paris para a alta oficialidade das tropas de ocupação.

Os escritores Drieu de La Rochelle e Robert Brasillack viajaram a Nuremberg para aplaudirem Goebbels. Os artistas plásticos DerainVlaminck e Maillot cruzaram o Reno para receberem medalhas por seus trabalhos, outorgadas pelos invasores da França.

A censura era feroz. Em 1941, nada menos que duas mil obras e mais de oitocentos e cincoenta escritores haviam sido banidos e todos os editores, com exceção de Emile-Paul, o aprovaram. O Presidente da Associação dos Editores Franceses, René Philippon disse “que essas disposições (listas de proibições), não criam grande problema para a atividade editorial, pelo contrário, possibilitam o desenvolvimento do pensamento autenticamente francês... e estimulam a união dos povos.”

Gallimard, o editor de Sartre, nomeou Drieu de La Rochele editor da prestigiada revista Nouvelle Revue Française, a qual editou traduções de escritores nazistas. É verdade que se livrou de editar Les Décombres, um lixo literário de exaltação aos “heróis do nazismo”, escrito por Lucien Rabanet, que terminou publicada por Denoel.

 

É bem verdade que muitos intelectuais e artistas recusaram-se a trabalhar na França ocupada. Foi o caso do indignado Jean Renoir, diretor de obras-primas como “A Regra do Jogo”, que preferiu se refugiar nos Estados Unidos a filmar na França, no que foi seguido pelos seus colegas René ClairMax Ophalus e Duvivier, assim como pelos atores Michele MorganAumont e Dalio.

Uns poucos, bem poucos, como o ator Jean Gabin e o escritor Albert Camus, incorporaram-se aos maquis, e colaboraram na resistência armada. Do mesmo modo que Jean Guehenno e Jean Bruller passaram a escrever na clandestinidade fundando as clandestinas Editions de Minuit. Disse o filósofo Politzer, amigo de Sartre, em 1941: “Hoje, na França, literatura legal significa literatura de traição.”

No entanto, a grande maioria dos artistas e dos intelectuais, como o fez quase toda a burguesia francesa, simplesmente continuou sua vida normal, tentando ganhar o pão de cada dia, como se os alemães não existissem, e assim o fizeram escritores como Simenon, Paulhan e Aragon.

A divisão clássica sobre a conduta dos franceses durante os anos da ocupação, entre heroísmo e covardia, que permanece em vigor até hoje em romances e filmes, a começar pelo inevitável “Casablanca” é pura ficção. De um lado estariam os cidadãos decentes e patriotas, que optaram pela Resistência e vão combater o invasor na clandestinidade; no outro ficariam os colaboradores ou traidores, que continuam levando sua vida de sempre, convivendo em paz com o ocupante e ajudando-o a governar. Riding, entretanto, assim como Gerassi, recusam-se a aceitar essa divisão. Seus livros revisitam a vida real da gente real na Paris ocupada – e aí entramos numa zona de sombra onde é inútil procurar respostas em preto e branco.

Depois da guerra, Sartre tentaria explicar: “Durante quatro anos, nosso futuro nos foi roubado”. “Todos os nossos atos eram provisórios, seu significado limitado ao dia em que eram cometidos”. É verdade que havia uma Resistência, mas ela “afetava muito pouco a História, tinha mais um valor simbólico; é por isso que tantos resistentes entravam em desespero: sempre os símbolos! Uma rebelião simbólica numa cidade simbólica- só que as torturas eram reais”. E ainda: “O que era terrível não era sofrer e morrer, mas sofrer e morrer em vão... durante esse período, pouca gente se comportou na França com coragem e precisamos compreender que a Resistência ativa estava limitada a uma minoria que se oferecia deliberadamente e sem esperanças ao martírio, o que basta para resgatar nossas fraquezas.”

NUNCA BASTOU!

Fontes:

1. Gerassi, John. Talking with Sartre: Conversatios and debates.

2. Gerassi John. Sartre a consciência odiada de seu tempo.

3. Riding, Alain. Em Paris a Festa Continuou. Companhia das Letras, 2012.

4. Sartre, J.P. O que é um colaborador?

 

Os franceses sob o domínio nazista (p.2)



Em 1939, quando a URSS invadiu a Finlândia, anexando dez por cento do território que lhe era fronteiriço, a apenas dezessete quilômetros de distância de Leningrado, os deputados burgueses da França sentiram-se autorizados a cassarem seus colegas comunistas legitimamente eleitos, o que para muitos desses significou o encarceramento.

Em março de 1940, tropas alemãs atravessaram a Dinamarca e derrotaram as unidades anglo-franco-norueguesas que defendiam a Noruega. Maio de 1940, as divisões Panzers alemãs invadiram a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo. No dia 4 de junho, foi a vez do drama de Dunquerque. Em seis de julho, as tropas francesas evaporaram. Em 14 de julho, como prometera um ano antes Hitler, as tropas alemãs entraram em Paris sem encontrar qualquer resistência.

O velho Marechal Pétain, investido no posto de Comandante Supremo da França derrotada e desmoralizada, negociou um armistício com os nazistas. Um governo francês estabeleceu-se em Vichy, e uma fronteira foi erguida entre a parcela da França ocupada militarmente, que, logicamente, incluía Paris e um “novo Estado provisório”. No dia 9 de julho, a Assembleia Nacional Francesa, transportada para Vichy, decidiu por 468 votos contra 80, dar poderes a Pétain para promulgar uma nova constituição. Entre aqueles que optaram por um Estado Fascista havia nada menos que 88 deputados do Partido Socialista Francês (somente 29 tiveram a hombridade de se oporem). Edouard Herriot, que seria saudado como um dos grandes patriotas franceses depois da libertação, condecorado pessoalmente pelo General de Gaulle, e eleito Presidente da Assembleia Nacional, sequer teve a coragem de votar “não”. Absteve-se!

A palavra colaboracionismo deriva do francês “collaborationniste”; foi introduzida pelo próprio Marechal Pétain no linguajar político. Em discurso radiofônico pronunciado em outubro de 1940, exortou os franceses a colaborarem com o invasor nazista. Desde então, a palavra significou uma forma de traição dos cidadãos de um país ocupado por inimigos. A atitude oposta ao colaboracionismo — a luta contra o opressor — passou a ser representada historicamente pelos movimentos de resistência.

“A colaboração com o nazismo foi um fator de desagregação, e é sempre uma decisão individual e, nunca, uma posição de classe social... Seria uma injustiça dizer que “a burguesia é uma classe de colaboracionistas”, mas é possível e necessário julgar essa classe pelo fato de praticamente todos os colaboracionistas terem vindo de suas fileiras.” (Sartre). O escritor católico François Mauriac, Nobel de Literatura de 1952, escreveu em 1943 que "apenas a classe operária ficara fiel à pátria".

As delações aconteciam todo o tempo na França ocupada. Simone de Beauvoir conta alguns casos por ela vivenciados pessoalmente, como, por exemplo, o de Bella, “a tcheca que vivia com o pintor Jausion, que foi presa pela Gestapo, denunciada pelo futuro sogro” e jogada para morrer num campo de concentração. Fernando Gerassi, que lutara na Espanha Republicana e residia na França, foi denunciado pelo famoso pintor russo, Nicolas de Stael ( hoje seus quadros alcançam somas superiores a um milhão de dólares); Stael vivia em Montparnasse e agia como provocador à soldo da polícia. Em depressão, suicidou-se em 1955.

André Gide, o Editor da Gallimard, escreveu em seu diário, desiludido: “A colaboração com a Alemanha me pareceria aceitável, até mesmo desejável, se eu tivesse a certeza de que seria honesta. Chego a imaginar que estaríamos melhor como súditos da Alemanha, com todas as suas dolorosas humilhações, que a disciplina de Vichy nos quer impor.”

Estando Blum, prisioneiro dos nazistas, o Partido Socialista tinha um líder na pessoa Daniel Mayer. Em sua bela residência de Marselha, assim como na da escritora Colette Audry, em Grenoble, o nome “resistence” era proibido de ser pronunciado.

A polícia francesa, a Milícia de Vichy, como era chamada, comandada pelo francês Joseph Darnand, ao qual foi dada a insígnia de SS, fez muito mais pela Gestapo do que a Gestapo esperava dela e com muito mais zelo que qualquer alemão.

Em 1952, Sartre reconheceria que “os comunistas estavam travando a luta justa e os anticomunistas eram a mesma canalha que traíra a França em 1938 e em 1940”. Foi quando ele escreveu “somos meio abortos, meias-porções, meio animais. Só o que podemos fazer é trabalhar para que os que vierem depois de nós não se pareçam conosco”.

Antes mesmo que determinados fatos fossem conhecidos, já era aparente, sem dúvida, que a maioria dos policiais, dos funcionários públicos franceses, havia zelosa e alegremente perseguido judeus, promovido infiltrações nos grupos de resistência, feito fortunas graças a subornos e gratificações oferecidas por agentes de Hitler.

Em 1974, Louis Malle provocou escândalo na França com o filme Lacombe Lucien, ou “como alguém se transforma num colaborador”.

Como conta Gilles Perrault em Lire, n. 141, publicada em 1987: “No final de 1943, para cada agente da Abwehr ou da Gestapo estacionado em Paris havia entre quarenta e cincoenta agentes franceses. Foram eles que assestaram os golpes mais duros na Resistência... Nenhuma profissão, nenhum corpo do Estado foi poupado”.

“Depois da Libertação, a Comissão encarregada de investigar a Colaboração ao Invasor Nazista descobriu que a podridão chegava tão alto e estava tão disseminada que recebeu ordens para fechar todos os casos, com base no argumento, no mínimo discutível, de que o moral da nação, já bastante abalado, não resistiria ao choque de revelações tão abrangentes...” O digno Comissário Clos, o chefe das investigações, exclamou: “Mas trata-se de um câncer generalizado!”. O governo era exercido pelo General de Gaule, o Primeiro Ministro. De quem partira a ordem para o sumiço dos arquivos que jamais foram revelados?

 

Somente para contradizer parcialmente Jules Romains, para quem “os homens são como as abelhas, pois seu produto vale mais do que eles”, muitos intelectuais foram mortos, por se negarem a colaborar e a participar na resistência armada ou política contra o inimigo invasor e o nazifascismo . Do grupo mais próximo da “Academia”, podemos citar o filósofo Georges Politzer, que foi preso e torturado até a morte pela Gestapo; o também filósofo Jean Cavaillés, líder dos maquis, preso, torturado e carregado para o fuzilamento; Yvone Picard e Antoine Bourla ambos alunos do Lycée Pasteur, mortos num campo de concentração; Alfredo Peron, preso pela polícia francesa, morreu sob tortura nas mãos da Gestapo.

O célebre comboio de 24 de janeiro de 1943 levou para Auschwitz resistentes franceses (judeus, não-judeus e comunistas na sua maioria) entre os quais viúvas de fuzilados como Maï Politzer, esposa de Georges Politzer, Hélène Solomon, filha do grande sábio Paul Langevin e mulher do escritor Jacques Solomon.

Para heróis como eles, como Jean Moullin, assim como milhares de outros, talvez possamos parafrasear o filósofo que disse que “o segredo de cada ser humano não é o Complexo de Édipo ou de Electra, ou, mesmo, de inferioridade, mas o limite de sua liberdade, sua capacidade de resistir à dor e à morte”.

Para cada alemão morto pela resistência, o Exército invasor executava cincoenta civis. Ao final da guerra calculou-se que sessenta mil franceses foram deportados para campos de concentração dos quais jamais retornaram. Além desses, mais de trinta mil homens, mulheres e até mesmo crianças foram fuzilados, ou morreram na forca, ou sob tortura.

 

Sartre, que havia sido mobilizado em 1940, ficou detido em um campo de prisioneiros até 1941. Quando saiu, conseguiu retornar às atividades no Liceu e, com Merleau- PontySimone e alguns outros amigos e alunos, formou um pequeno grupo de “resistência intelectual” e o batizaram de “Socialismo e Liberdade”, com o objetivo de lutarem pela liberdade e prepararem a sociedade do futuro, necessariamente livre e socialista. O grupo escreveu e distribuiu dezenas de panfletos e até mesmo elaborou uma “constituição” para quando os nazistas fossem derrotados. Seu local de encontros e trabalho predileto era o Café de Flore. O grupo esvaziou-se em fins de 1942 por não conseguir agrupar outros intelectuais a suas ideias e pelo medo disseminado.

Lettres Françaises, revista fundada em 1942/ 1943 pelo comunista Claude ( Morgan) Lecomte, foi o órgão de imprensa dos escritores resistentes ao nazismo. A revista literária obteve enorme repercussão e foi aberta a todos, com edição de vinte mil exemplares mensais antes da Libertação e duzentos mil seis meses após, enquanto Lecomte esteve à sua testa. Ele convidou Sartre a contribuir em 1943. Em um de seus artigos para a Revista, escreveu Sartre: “Para aqueles que transportaram mensagens, cujos conteúdos ignoravam, bem como todos os que partiram para o combate, o mesmo destino: prisão, deportação, morte. Em nenhum Exército nunca existiu tamanha igualdade de riscos tanto para o soldado quanto para o generalíssimo”.

“Comitê Nacional dos Escritores”, associado à Lettres Françaises, também patrocinado pelos comunistas, transformou-se num instrumento importante de resistência da França ocupada, cumprindo com o que fora predito pelo filósofo Georges Politzer, antes de sua morte: “Hoje, na França, literatura legal significa literatura de traição.”

A revista Combat, porta-voz da Resistência, foi fundada em 1942 e dirigida por Camus. Nela, Sartre, Beauvoir e Camus atuaram em conjunto. A gráfica da revista somente caiu quando um membro do grupo, sob tortura, a abriu antes de ser assassinado, menos de um mês antes da libertação de Paris, em 1944. Mas o “Maquis” foi informado e Camus conseguiu com que todos fossem evacuados.

 

Em agosto de 1944 a França estava livre dos invasores nazistas. Depois de algum tempo, a maioria dos franceses começou a esquecer aqueles tempos malditos. Os “salauds” (bastardos) se apressaram em ocupar de volta os seus lugares, seus assentos na burocracia e a emitir as mesmas ordens que davam cinco anos antes. Vieram, então, as guerras coloniais da Indochina (1945) e da Argélia (1954), em que o Exército Francês tornou-se ele o invasor, seus corpos de elite disseminaram o terror e a tortura.

Novas traições aos ideais de humanidade que as mentes lúcidas jamais perdoariam. Sartre foi uma dessas consciências. Importante nos dias de hoje é revisitarmos a sua definição de fascismo: “os fascistas modernos são todos aqueles que usam o seu poder, ou que assim o usariam se o tivessem, para silenciar a dissensão, o contraditório, em favor de seu lucro ou de sua glória pessoal”. Por esse motivo ele, a “consciência odiada de seu século”, enxergava fascistas em todos os Partidos e instituições políticas; em todos os países, como nos EUA, na União Soviética, na China, e, sem dúvida, na França.

 

Bakunin e o anarquismo



Bakunin foi uma das mais importantes personagens revolucionárias do século XIX. Cada minuto de vida dedicou-a em pró da liberdade e da luta pelo socialismo. Na juventude participou da esquerda hegeliana e, posteriormente, recebeu forte influência do anarquismo de Proudhon. Membro da Primeira Internacional, Bakunin foi, depois de Karl Marx, uma dos mais influentes personagens do movimento internacional de trabalhadores no século XIX. Esteve presente pessoalmente em cada evento revoltoso, em toda escaramuça por uma nova ordem social em praticamente todos os países da Europa, exceção feita aos dezesseis anos de prisão política, quatro dos quais acorrentado pelos tornozelos, pulsos e pescoço, numa masmorra czarista.

Mikhail Alexandrovich Bakunin nasceu no dia 18 de maio de 1814, em uma família rica e de linhagem nobre. Seu pai, que se identificava com o liberalismo europeu e com a Revolução Francesa, ofereceu aos filhos uma educação inicial baseada nesses ideais. No entanto, depois do levante “decembrista” e da repressão que se abateu sobre a parcela liberal da aristocracia, Alexander Bakunin, por medo, tornou-se um leal czarista e mandou Mikhail para São Petersburgo, para que seguisse carreira militar.

A displicência do jovem, entretanto, influenciado pela idéias libertárias da infância, faria com fosse desligado rapidamente do Exército. Aos 21 anos, contrapondo-se ao projeto de vida paterno, mudou-se para Moscou com o objetivo de estudar filosofia. Bakunin engajou-se no estudo sistemático de filosofia idealista. Primeiro foi Kant, depois progrediu para Schelling, Fichte, e Hegel. Tornou-se altamente influenciado pelo pensamento hegeliano e realizou a primeira tradução de parte da obra do grande filósofo idealista para o idioma russo. Durante esse período ele conheceu os socialistas Herzen e Ogarev, com todos travou amizade para toda a vida.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Bakunin partiu para novos estudos acadêmicos em Berlim em 1840. Tomou parte de um coletivo de estudantes denominados de "a esquerda hegeliana" e terminou por unir-se ao movimento socialista. Em seu ensaio de 1842, “A reação na Alemanha”, ele argumentava a favor da ação revolucionária da negação, resumida na frase “a paixão pela destruição é uma paixão criativa”.

Depois de três semestres em Berlim, Bakunin tinha abandonado a Universidade, devotando mais e mais do seu tempo à promoção da revolução. Devido à sua relação com o movimento revolucionário polaco, foi obrigado a mudar-se para Bruxelas, onde se encontrou com membros da Associação Internacional de Trabalhadores, da qual participavam Marx e Engels.

Em 1844, Bakunin foi a Paris, nessa época considerada a “Meca” das idéias socialistas e estabeleceu contato tanto com Marx e como com o anarquista Pierre-Joseph Proudhon. Este último lhe impressionou prontamente e com ele Bakunin estabeleceu fortes laços pessoais e ideológicos.

Tendo se tornado um dos referenciais da luta internacional dos trabalhadores, em dezembro de 1844, o imperador Nicolau lançou um decreto retirando todos os privilégios de Bakunin, destituindo-o de seu título de nobre bem como de quaisquer direitos civis, confiscando suas posses na Rússia, e condenando-o à prisão na Sibéria para o resto da vida, caso as autoridades russas alguma vez conseguissem pegá-lo. Do dia para noite, um “barin” rico, porém revolucionário, fora transformado em um pobre imigrado e com ordem prisão e de degredo.

Bakunin  respondeu ao decreto com uma longa carta “La Réforme”, denunciando o imperador como um déspota e fazendo um chamado à democratização da Rússia. Conclamou  por uma aliança entre a população russa e a polonesa em prol do "colapso definitivo do despotismo na Rússia". Em consequência deste chamado foi expulso da França e fugiu para Bruxelas. Uma vez em Bruxelas, Bakunin restabeleceu contato com poloneses revolucionários e voltou a se encontrar com Karl Marx. Em um encontro organizado por Lelewel em fevereiro de 1848, ele realizou um discurso profético sobre o grande futuro reservado aos eslavos, cujo destino era rejuvenescer a Europa Ocidental.

Uma vez em Berlim foi impedido pela polícia de chegar a Posen, onde estava acontecendo uma insurreição popular. À época, essa cidade fazia parte dos territórios poloneses tomados pela Prússia nas divisões da Polônia. Frente ao impedimento, partiu Praga onde participou do Primeiro Congresso Paneslávico. O Congresso foi seguido por uma insurreição malfadada, da qual também tomou parte.

Retornando a Breslau, ficou sabendo que Marx havia alegado publicamente que ele era um agente do imperialismo russo, graças a uma denúncia leviana de George Sand. Face à acusação, Bakunin exigiu que ela apresentasse provas. Marx se retrataria publicamente depois que a própria George Sand se confessou equivocada a respeito (aliás, não foram poucas as vezes em que essa senhora ainda se equivocaria sobre revolucionários).

No outono de 1848, Bakunin publicou seu “Apelo aos Eslavos”, no qual propunha que os revolucionários eslavos se unissem com os revolucionários húngaros, italianos e alemães para derrubar as três maiores autocracias da Europa, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro, e o Reino da Prússia. Até esse ano, Bakunin se auto-proclamava comunista e escrevia artigos sobre o mesmo no periódico Schweitzerische Republikaner.

Ele teve um papel de destaque no Levante de Maio de Dresden, em 1849, ajudando a organizar a defesa das barricadas contra as tropas prussianas, lado a lado com Richard Wagner e com o poeta Wilhelm Heine.

Bakunin seria feito prisioneiro pelos saxões em Chemnitz e trancafiado por treze meses antes de ser condenado à morte pelo governo da Saxônia; uma vez que os governos da Rússia e Áustria também estavam atrás do mesmo, sua sentença foi comutada para prisão perpétua. Em junho de 1850, ele foi enviado para as autoridades austríacas. Onze meses depois recebeu uma sentença de morte compulsória, que também seria comutada em prisão perpétua. Finalmente, em maio de 1851, Bakunin foi entregue às autoridades russas.

Na Rússia, foi trancafiado na terrível prisão da Fortaleza de Pedro e Paulo. No início de sua sentença, um emissário do Imperador visitou Bakunin e comunicou-lhe que o Imperador requisitava uma confissão por escrito, esperando que a confissão pudesse beneficiar Bakunin espiritual e fisicamente. Uma vez que todos seus atos eram conhecidos, ele não possuía segredos a serem revelados, decidiu escrever em “Confissões” ao Imperador: “O senhor quer a minha confissão; mas precisa saber que um criminoso penitente não é obrigado a implicar ou revelar as ações de outrem. Guardo apenas a honra e a consciência de que jamais traí quem quer que tenha confiado em mim, e é por esse motivo que não lhe entregarei nenhum nome.”

A “Confissão” seria publicada muito posteriormente, após ser descoberta em meio aos arquivos imperiais. Este documento provou ser controverso e por diversas vezes foi analisado no contexto da literatura mundial (vide “O Homem Revoltado” de Camus, p.ex.).

Depois de três anos em uma pequena cela da Fortaleza, ele passaria outros quatro, de uma maneira ainda mais degradante. Foi trancafiado acorrentado nas masmorras subterrâneas do castelo de Shlisselburg. Foi acometido de escorbuto, com a perda de todos os dentes. Mais tarde, Bakunin diria que ele encontrou algum alento ao rememorar mentalmente a lenda de Prometeu acorrentado. Seu contínuo aprisionamento nessas condições fez com que ele implorasse ao irmão que lhe trouxesse veneno para que desse um fim ao seu sofrimento. Esse, entretanto, negou-lhe o cianureto e com isso ganhou a humanidade.

Após a morte de Nicolau I, o novo imperador Alexandre II exigiu que o nome de Bakunin ficasse fora da lista de anistia. No entanto, em fevereiro de 1857, sua mãe fez um apelo que resultou na deportação do libertário ao exílio na cidade de Tomsk, na Sibéria Ocidental. Após um ano de sua chegada em Tomsk, Bakunin casou-se. Em agosto de 1858, recebeu uma importante visita que iria propiciar-lhe mais uma conspiração e, finalmente, a fuga para a liberdade: seu primo em segundo grau, o conde Nikolay Muravyov, governador-geral da Sibéria Ocidental.

Muravyov era liberal e Bakunin, enquanto parente, tornou-se seu primo favorito. Na primavera de 1859, Muravyov ajudou Bakunin com um emprego na Agência de Desenvolvimento de Amur o que permitiu que ele e sua companheira se mudassem para Irkutsk, a capital da Sibéria Oriental. Esta mudança possibilitou que Bakunin fizesse parte do círculo de discussões políticas centrado no quartel general da colônia de Muravyov. Neste ambiente emergiu a proposta para a criação de um “Estados Unidos da Sibéria”, independente da Rússia, seguindo o exemplo dos Estados Unidos.

O primo Muravyov, no entanto, seria forçado a se aposentar do cargo de governador-geral, em parte por sua conduta liberal, em parte pelo temor de que ele pudesse levar a Sibéria a um movimento de independência, sob a influência do indomável Bakunin.

Em junho de 1861, Bakunin deixou Irkutsk para supostamente tratar de negócios da companhia. No entanto, no porto de Olga, Bakunin conseguiu convencer o capitão americano da nau SS Vickery a levá-lo a bordo. Passou despercebido pela Marinha russa e fugiu.

Em agosto, chegou ao Japão. Lá, por um acaso, encontrou o poeta Wilhelm Heine, um dos camaradas de armas de Dresden. Deixou o Japão na sua companhia. Chegou a São Francisco e, via Panamá, alcançou Nova York, tudo isso em menos de um mês.

Tinha volúpia de reintegrar-se ao movimento revolucionário. Foi imediatamente a Londres para ver Herzen. No princípio da noite irrompeu na sala de jantar onde a família comia sopa. Seu cumprimento tornou-se famoso: "O que! Você esta sentado aí comendo ostras! Bem! Conte-me sobre as novidades. O que está acontecendo, e onde?!"Bakunin tornou a mergulhar no movimento revolucionário.

Em 1860, enquanto ainda estava exilado em Irkutsk, Bakunin e seus associados políticos tinham se impressionado com Giuseppe Garibaldi e sua expedição à Sicília em nome de Vitor Emanuel II. Ele escreveu para Garibaldi em 1862: “Se você pudesse ver como eu vi o entusiasmo apaixonado de toda a cidade de Irkutsk, a capital da Sibéria Ocidental, frente às notícias de sua marcha triunfal através das terras do louco rei de Nápoles, você teria dito como eu disse que já não existem distâncias ou fronteiras.”

Bakunin deixou Londres em fins de 1863 chegando à Itália onde, pela primeira vez, se declarou anarquista e expôs suas ideias enquanto tal. Lá ele concebeu o plano de forjar uma organização secreta de revolucionários para levar à frente o trabalho de propaganda e preparar o proletariado e o lupemproletariado para a ação direta. Recrutou italianos, franceses, escandinavos, e eslavos para uma Irmandade Internacional, a também chamada de Aliança dos Socialistas Revolucionários.

Em Julho de 1866 Bakunin escrevia para Herzen e Ogarev sobre os bons resultados de seus esforços em relação aos últimos dois anos. Sua sociedade secreta possuía então membros na Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Rússia e Polônia.

Durante o período de 1867 e 1868, respondendo ao chamado de Emile Acollas, Bakunin envolveu-se na Liga de Paz e Liberdade para a qual ele escreveu o longo ensaio “Federalismo, Socialismo, e Anti-Teísmo”. Nesse escrito ele defendia o socialismo federalista, baseado no trabalho de Proudhon. Apoiava a liberdade de associação e o direito de secessão para cada unidade da federação, mas enfatizava que essa liberdade deveria ocorrer conjuntamente com o socialismo já que: “Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão.”

Bakunin desempenhou um importante papel na Conferência de Genebra em setembro de 1867, e juntou-se ao Comitê Central. Participaram desta conferência em torno de 6.000 pessoas. Quando Bakunin se ergueu para falar, escutou: “Bakunin!” era Garibaldi, que se levantou, avançou uns poucos passos e o abraçou. Este encontro solene de dois velhos e experientes guerreiros da revolução produziu uma impressão estonteante… todos se levantaram e houve um prolongado e entusiasmado bater de palmas.

Entre os anos de 1869 e 1870, esteve envolvido com o revolucionário russo Sergey Nechayev (personagem que inspiraria Dostoievski em “Os Demônios”, na figura de Verkhovenski, tema de um próximo ensaio que estaremos divulgando), em um número significativo de projetos clandestinos. Em conjunto os dois teriam escrito os livretos "Palavras à juventude – princípios da revolução" e "Catecismo de um revolucionário", obras que são exemplares em seu maquiavelismo. De certa forma, coisa de que Bakunin iria se arrepender posteriormente, eles ousaram dissociar a revolução da amizade e do amor. “O revolucionário é um condenado, sem interesses nem sentimentos pessoais, nem sequer um nome que seja seu.” Tem apenas uma idéia, a revolução e já rompeu com todas as leis e o código moral do mundo instruído. “Tem que ser frio disposto a matar e a morrer, preparar-se para resistir à tortura, só poder sentir amizade por aqueles que servem a seus propósitos.”

No entanto, um pouco mais tarde, após Nechayev coordenar à morte um estudante russo que não reconhecia nele a autoridade revolucionária, Bakunin rompe com o mesmo, “devido aos seus métodos sem honra”, como o próprio Bakunin posteriormente definiria. Desde então, autocriticamente, passa a criticar a ideia de Nechayev “de que todos os meios são justificáveis para atingir os fins revolucionários”.

No Congresso de Berna de 1868 ele e outros libertários se encontravam em minoria. Romperam com a Liga estabelecendo outra organização, a Aliança Internacional de Democracia Socialista que adotara o programa socialista revolucionário.

Bakunin participou da seção de Genebra da Primeira Internacional, na qual ele permaneceu muito ativo até sua expulsão por Karl Marx e seus seguidores, o que se daria no Congresso de Haia, em 1872. As discordâncias entre Bakunin e Marx ilustram a crescente divergência entre as seções "antiautoritárias" da Internacional que advogavam a ação e organização dos trabalhadores de forma a abolir o estado e o capitalismo, e as seções socialdemocratas, que sob a batuta de Marx defendiam a conquista do poder político pela classe operária.

Ainda que Bakunin aceitasse a análise de classe marxista e suas teorias econômicas relacionadas ao capitalismo, reconhecendo em Marx a sua genialidade, ele o considerava um arrogante, e dizia que “seus métodos poderiam comprometer a revolução social”. Criticava de forma efusiva o que chamava de "socialismo autoritário" e o conceito de “ditadura do proletariado”. “Se você pegar o mais ardente revolucionário, e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele seria pior que o próprio Czar”.

As palavras de Bakunin soam um tanto proféticas com relação aos acontecimentos do século XX: “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiadaEsta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário a partir do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

As seções expulsas da Primeira Internacional criaram seu próprio Congresso Internacional em Saint Imier. Agregando grupos libertários de vários países e importantes pensadores anarquistas - entre estes os irmãos Reclus, Kropotkin, Enrico Malatesta - esta organização internacional seria responsável por um novo fôlego na tradição anti autoritária, mutualista e de caráter descentralizado do anarquismo nas próximas décadas.

Em 1870 Bakunin atuou como articulador de um levante na cidade francesa de Lyon, chamando a população a se rebelar em resposta ao colapso do governo francês durante a Guerra Franco-Prussiana, procurando transformar um conflito imperialista em revolução social. Este levante, que efetivamente fracassou, mostrou-se um importante precedente da Comuna de Paris, com a qual compartilhou princípios e modelos. Em suas “Cartas para um Francês Sobre a Presente Crise”, ele defendeu uma aliança revolucionária entre a classe trabalhadora e o campesinato. “Precisamos difundir nossos princípios, não com palavras, mas com ações, esta é a mais popular, mais potente e mais irresistível forma de propaganda.”

Ele foi um forte incentivador da Comuna de Paris de 1871, que compreendeu como uma "rebelião contra o Estado e os privilégios de classe". Bakunin elogiou os homens e mulheres que posteriormente ficaram conhecidos como “communards” por rejeitarem não só o estado, mas também uma "ditadura revolucionária".

Bakunin retirou-se para a cidade suíça de Lugano em 1873. Mesmo doente, com alguns estudantes e intelectuais funda uma editora na qual parte de seus livros são publicados sob o título de “Estadismo e Anarquia”. Bakunin ainda participaria no ano seguinte, 1874, de uma tentativa de revolta na cidade italiana de Bologna. Esta, ao fracassar, fez com que o velho revolucionário retornasse à Lugano, onde passou seus últimos anos. Em 1876, com a saúde muito deteriorada, Bakunin é levado por um amigo para um hospital em Berna. Lá encontrou seu fim, em 1 de Julho de 1876.

Seu corpo foi enterrado no cemitério de Bremgarten. Seu túmulo é mantido graças às doações de um suíço anônimo, sendo visitado por anarquistas vindos de todo o mundo. Segundo o diretor, não é incomum que em algumas noites grupos de jovens entrem no cemitério e se reúnam para beber junto ao túmulo de Bakunin, de longe o mais visitado daquele cemitério.

 

Em sua perspectiva política, Bakunin rejeitou todos os sistemas de governo, fossem quais fossem os seus formatos. Questionou qualquer governabilidade baseada na escolha divina, bem como toda forma de autoridade externa, que fizesse prevalecer sobre as demais vontades a vontade de um soberano, ou de elites cuja ascensão pudesse ser favorecida pela implementação de um sufrágio universal. “A liberdade do homem consiste tão somente nisso: de que ele obedeça às leis da natureza às quais ele por si próprio reconhece enquanto tais, e não porque elas foram impostas externamente sobre ele por vontade exterior, humana ou divina, coletiva ou individual.”

De forma similar Bakunin rejeitou a noção de quaisquer posições ou classes privilegiadas, desde que esta é a peculiaridade do privilégio. “O homem privilegiado, seja ele privilegiado politicamente ou economicamente, é um homem depravado em intelecto e coração.”

Por "liberdade", Bakunin não se referia a um ideal abstrato, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica dos outros. Liberdade consiste no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material." Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade," não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou individual." Ele também desenvolveu uma crítica ao marxismo, prevendo que se os marxistas tivessem êxito em ocupar o poder, eles iriam criar uma ditadura de partido "em tudo mais perigosa porque ela se apresentaria como uma falsa expressão da vontade do povo."

A forma de socialismo que concebia era conhecida como "anarquismo coletivista", condição na qual os trabalhadores poderiam administrar diretamente os meios de produção através de suas próprias associações produtivas. Assim haveria "modos igualitários de subsistência, fomento, educação e oportunidade para cada criança, menino ou menina, até a maturidade, e recursos e infraestrutura análoga na idade adulta para dar forma ao seu próprio bem estar através do próprio trabalho."

Por federalismo, Bakunin entendia a organização da sociedade "da base até o topo, de acordo com os princípios de livre associação e federação." A sociedade poderia ser organizada "com base na liberdade absoluta dos indivíduos, das associações produtivas, e das comunas," com "todos os indivíduos, todas as associações, todas as comunas, todas as regiões, todas as nações" tendo "o direito absoluto da auto-determinação, de se associar ou não, aliar-se com quem quer que desejassem."

"A ideia de Deus implica na abdicação da razão humana e da justiça; esta é a mais decisiva negação da liberdade humana, e necessariamente termina na escravidão da humanidade, na teoria e na prática." Bakunin invertia o famoso aforismo de Voltaire de que se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo, afirmando que "se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo." Refutava a ideia religiosa do livre-arbítrio e defendia uma explicação material dos fenômenos naturais. A "missão da ciência é, por observação das relações gerais, compreender os fatos verídicos e estabelecer as leis gerais inerentes ao desenvolvimento de um fenômeno no mundo físico e social."

Os argumentos de Bakunin se contrapunham aos ideais defendidos por um número considerável de marxistas, para os quais nem todas as revoluções precisariam necessariamente ser violentas.  Do mesmo modo ele rejeitava o conceito marxista de "ditadura do proletariado", que mantém o poder concentrado no Estado até a futura transição ao comunismo. Bakunin insistia que qualquer "elite iluminada" só deveria exercer influência discreta, jamais se impondo na forma de uma ditadura a outrem e nunca se aproveitando de quaisquer direitos oficiais, em termos de benefício ou significância.

Defendia que o Estado deveria ser imediatamente abolido após a revolução porque todas as formas de governo, eventualmente, levariam à opressão. “Nenhuma ditadura pode ter qualquer outro objetivo para além de sua auto-perpetuação; ela pode apenas levar à escravidão o povo que tolerá-la; a liberdade só pode ser criada através da liberdade, isto é, por uma rebelião universal de parte das pessoas e organização livre das multidões de trabalhadores de baixo para cima.”

Apesar da oposição veemente à proposta marxista de revolução, ele considerava as análises econômicas apresentadas por Marx extremamente importantes, tanto que foi ele próprio, o primeiro tradutor do “O Capital” para o idioma russo.

De seu exílio em Londres, Marx observava os movimentos do inquieto russo. Nas suas cartas, o teórico alemão descrevia Bakunin como um “intrigante” ou “esse maldito moscovita”. No entanto, quando escreveu sobre a insurreição de Dresden de 1848 afirmou que "no refugiado russo Michael Bakunin, eles (os rebeldes de Dresden) encontraram um líder capaz e de cabeça fresca." Marx também escreveria em uma de suas cartas para Engels sobre o encontro que tivera com Bakunin em 1864, depois da fuga da Sibéria. “No geral ele é um dos poucos, penso eu, que não retrocedeu após estes 16 anos de prisão, pelo contrário, avançou ainda mais."

Os métodos defendidos por Bakunin em seu programa revolucionário estavam em consonância com seus ideais, princípios e com sua própria vida. Os trabalhadores do campo e da cidade iriam se organizar em uma base federalista, "criando não só as ideias, mas também os fatos do futuro”. Os sindicatos e organizações operárias poderiam "tomar em sua posse todas as ferramentas de produção bem como prédios e recursos." Os camponeses "ocupariam a terra e colocariam para fora aqueles senhores de terra que vivem do esforço de outros."

Diversos acontecimentos políticos do século XX tiveram grande influência das ideias de Bakunin. A insurreição anarquista de 1918, no Rio de Janeiro, é um dos exemplos. Comandada por Domingos Passos, negro, carpinteiro e operário, que ficou conhecido como “Bakunin brasileiro”, o apelido conferido a Domingos se deveu tanto à sua audácia e determinação em enfrentar o patronato, como pelos seus discursos marcados em igual medida pela agressividade e coerência.

A vida e a obra de Bakunin formataram a base do anarco- sindicalismo, de enorme importância nas conquistas dos trabalhadores até a primeira metade do século XX. Ainda influenciarão diversos movimentos nas últimas décadas do século e princípios do XXI, como os grupos ambientalistas e aqueles que utilizam a tática de ação direta das “massas”. Movimentos cooperativistas, de ocupação e de reforma urbana, grupos e locais de trabalho de auto-gestão, também carregam em si o germe da ideologia anarquista e o pensamento célebre de Bakunin.

Para além de seu legado político e filosófico propriamente dito, Bakunin tornou-se ele próprio um símbolo do antiautoritarismo no mundo das ideias. Uma figura lendária que inspirou inúmeros personagens literários ficcionais e lutadores sociais por mais de cem anos, Bakunin segue sendo uma referência presente entre os anarquistas contemporâneos, dentre estes, Noam Chomsky.

 

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