по этому сообщению гдз французский язык 7 8 класс синяя птица гдз решебник по русскому греков 10 11 онлайн узнать больше здесь гдз

 

Contos, Novelas e Crônicas

Crônicas e Ensaios- I

Por que ler Proust?



Todo leitor que se predisponha a ler Marcel Proust deve se preparar para um mergulho no desconhecido; antes mesmo de abrir a primeira página de A caminho de Swann, ele necessita ser alertado que penetrará num universo estranho, que algo de novo irá lhe acontecer. Por exemplo, precisa saber que Em busca do tempo perdido não significa a busca de um tempo que se perdeu, mas que acabou, embora permaneça vivo em determinadas reminiscências da memória afetiva. Ou, visto de outro modo, significa a busca de um “eu” morto, pois a personalidade de Proust é um eu que se dissipa, dissolve-se no tempo sem, no entanto, perder a sua  identidade. Esse leitor deverá, ainda, estar disposto em cada parágrafo a se tornar “um leitor de si mesmo”, num processo retrospectivo de reencontro, vivência e que ao mesmo tempo é esquecimento.

Marcel Proust é desses romancistas fundamentais, cujo livro não pode ser abordado de uma forma tradicional e que, após a leitura possa ser relegado a uma prateleira de estante. Em busca do tempo perdido é uma obra que requer mais de uma leitura e muito meditar. No dizer de Álvaro Lins, ela constitui “a realidade transportada, transformada e transfigurada numa visão estética”, na qual a vida do autor se refletiu.

Seja como for, quem quer que se tenha impregnado de Em busca do tempo perdido ficará para sempre assombrado com a polivalência artística de um autor cuja arte era precisamente a mediação entre a satisfação de uma pluralidade de dons e a exigência de sua transcendência. Trabalho de um gênio!

A obra de Proust, de modo particular, não pode ser bem compreendida com o desconhecimento de seu modo de viver. E esse, por sua vez, interessa-nos na medida em que seja a gênese do trabalho do artista, num trabalho semi-autobiográfico. Proust viveu em plena vida mundana e, posteriormente, fora dela, confinado, num drama inteiramente ligado à sua obra, que é a evocação de uma vida que nasceu justamente quando ele fugira da própria vida.

Mas quais foram os aspectos mais originais de Em busca do tempo perdido?

Uma das condições da genialidade é, dizia Tomas Mann, o fato que o homem de gênio é uma encruzilhada. De todos os lados poderemos chegar a ele, assim como, a partir dele, poderemos seguir em muitas direções. Somente o gênio pode desdenhar caminhos que já foram traçados e apenas ele, sem se aniquilar, pode receber e distribuir todos os caminhos.

Os talentos inferiores, por outro lado, são justamente aqueles desprovidos de genialidade, mas que se julgam encruzilhadas. Eles não são mais que sendas percorridas, já batidas, ressonâncias que não se assumem como ecos.

Marcel Proust, ensinou-nos Tristão de Athayde, possuiu a centelha da genialidade que não se define e não se esgota em uma frase e nem se extingue em uma única nova contribuição ao mundo das criações literárias. “Se foi um gênio da análise, sem dúvida, também o foi da síntese, um destilador de sentenças inumeráveis e profundas, que figuram ao lado das de Pascal ou La Bruyère”.

Ele foi um admirável criador de tipos e sua obra permite que um leitor atento fixe em sua mente figuras absolutamente inesquecíveis. Proust, um incomparável modelador de homens e suas psiquês! Mas ao mesmo tempo, foi também um paisagista perfeito, inimitável, porque nos traz a partir de seu mundo interior os aspectos mais sutis e efêmeros do mundo exterior, uma visão de artista que eterniza as coisas mais imperceptíveis aos nossos sentidos vulgares.

Um subjetivista, dizem alguns. Um impressionista, sem dúvida. Um Manet, um Monet do romance. Não há o que se duvidar. No entanto, se analisado de outro ponto de vista, Proust foi tão objetivo no seu realismo quanto Balzac e por vezes beirou o naturalismo de um Zolá, dado que suas personagens e suas paisagens respiram por si, têm uma realidade própria. Em toda a obra ocorre uma independência da vida que supera e em muito o reflexo de impressões, que são sempre passageiras. Proust é assim, busca abarcar a totalidade.

Ele dissocia as personalidades, e considera essa dissociação um fenômeno normal e mesmo um elemento fundamental da vida do espírito. O homem, para Proust, é por essência o ser que dissocia o que ele toca e que dissipa o que ele é. Nada permanece estável e uniforme no decorrer do tempo. Tudo no homem se move e se decompõe incessantemente, pois a cada dia nossa alma renasce e reparte. Mas a dissociação é apenas o princípio, pois permanece um elo que mantém a persona presa em seu dissociar-se, por exemplo, Marcel, o narrador, será sempre Marcel, assim como Albertine e Swann serão sempre os mesmos que se transformam e se transportam, dentro da enorme multiplicidade de seus eus, no decorrer do tempo.

As recordações, as ideias, as sensações, colhidas no correr da vida, vivem em nós, independentes, por si mesmas. A maior parte delas será consumida durante nosso viver, outras se deteriorarão pelo esquecimento. No entanto, pequenas parcelas abrigam-se em algum canto de nossa memória afetiva e de lá podem ser pescadas por fatos fortuitos, ocasionais, independentes de nossa vontade e nos trazerem o “tempo reencontrado”.

Proust viveu em um meio acanhado. Nunca trabalhou, jamais entrou em contato com a dura vida do dia a dia, tão pouco ombreou com os homens que lutam, que se empurram e que se matam para sobreviver. Homens que batalham pelo pão, ouro ou poder. Apenas duas vezes deixou Paris e a costa normanda, numa curta viagem em companhia de sua mãe, quando visitou Veneza e noutra, quando esteve na Catedral de Amiens, “para ver de perto as ruínas” tão faladas por Ruskin. Não conheceu outros povos, outras civilizações. Viveu ou recluso ou nos Salões da época.

As duas classes sociais que estudou a fundo, a aristocracia e os seus serviçais, pareciam excluir toda e qualquer possibilidade de que por meio delas ele pudesse atingir a universalidade. Proust procurou a essência da vida a partir dos nobres que frequentavam o “faubourg Saint Germain” e os criados que os serviam. Isto é, duas séries de seres humanos pouco interessantes para quem buscava o cerne da vida e do entendimento dos homens. Uma pelo excesso de artificialidade, decadência e de exclusão do mundo moderno em que viviam; outra pelo excesso de subserviência e falta de personalidade, pela vulgaridade e pela incultura. O lado burguês de seus estudos se circunscreveu aos familiares mais próximos e a alguns poucos amigos e amigas; quanto aos operários, ele somente os conhecia por ouvir falar.

Foi desse acanhado campo de observações diretas que Proust tirou todo um mundo de coisas profundas e novas. Todo um estudo do homem que o coloca, na universalidade, ao lado de um Freud.

Mas Proust não foi apenas um analista da alma. Ele viveu o fim de uma era e foi o historiador dessa agonia. O homem e o mundo que ele fixou foi o do ser saciado, exausto, num momento histórico em que as classes sociais se penetravam, os aristocratas se rebaixavam em conluios sórdidos por dinheiro, em que os mais abastados viviam de especulações financeiras e golpes nas bolsas de valores, mas onde ainda se encontrava certa serenidade, repouso no ato de viver. Um cronista da decadência que produziu a crônica impiedosa e fiel de uma sociedade moribunda que desaguou na carnificina da primeira Guerra Mundial.

Na sua “busca do tempo perdido”, quaisquer que sejam os temas da existência humana, neles Proust se engaja, sempre dentro de conceitos sensíveis e pessoais. Assim temos o Proust romancista, o moralista, o naturalista, o crítico de arte, o filósofo, o poeta, o memorialista, o caricaturista, o crítico social. Como poucos, Proust foi um subversivo na literatura e seu perigoso gênio cômico destrói uma a uma as máximas e preconceitos da sociedade em que vivia e que, em seu cerne, por ser humana e inserida no capitalismo monopolista, é a mesma em que hoje vivemos. Daí a absoluta atualidade da obra proustiana.

 

A escrita de Proust é, à primeira vista, triste e difícil. Pode mesmo chegar a ser irritante por parecer artificial, exagerada, obscura. Perde-se em frases intermináveis, em parágrafos onde a escrita inversa quase é uma constante. Nada acontece, tudo se arrasta. Tudo é relativo, os valores supremos e permanentes perdem todo o seu valor num pessimismo cortante de onde apenas a obra de arte consegue elevar-se. Faz com que, a cada momento da leitura o leitor sinta seu próprio vazio existencial. Mas não é um vazio que caminha para o niilismo, não. Um vazio que busca respostas, que procura sua própria essência.

Num mundo onde poucos leem, em que as notícias nos atropelam via internet, em que as pessoas estão quase sempre conectadas a redes sociais, poderia parecer que Proust estivesse condenado a não ser lido, exceto num restritíssimo círculo de “iniciados”.  Mas não é o que acontece, pois a cada geração, Proust é “redescoberto”.

Talvez o auxílio de algum Vergílio seja importante para conduzir o leitor iniciante pelos meandros de Em busca do tempo perdido; que tome o moderno Dante pela mão como de certa forma o fez o saudoso Otto Maria Carpeaux com um conhecido intelectual e bibliófilo que se queixara ao amigo de não conseguir ultrapassar a trigésima página de A caminho de Swann. Perguntou-lhe Carpeaux quantas vezes ele já o havia tentado. Três, respondeu-lhe. “É pouco. Mas aquele que ultrapassa as cincoenta primeiras páginas não mais consegue parar. Talvez um pouco de Álvaro Lins o ajude.”

O amigo seguiu o conselho e com seu Vergílio ao lado, logrou não somente ler Proust, mas tornar-se um “viciado”, um risco que tão bem salientou Walter Benjamin, pois quarenta anos antes o mesmo ocorrera com ele próprio. O tempo passou e nosso bibliófilo envelheceu e, já quase cego, em seu último leito, contratou um secretário-leitor para que realizasse a última viagem em busca de seu Tempo Reencontrado.

 

Entrevista com Marcel Proust



Apresentamos a primeira de uma série de entrevistas realizadas com Marcel Proust, em Paris, entre meados de 1914 à primavera de 1922. Elas foram conduzidas por André Jammes, um jovem jornalista, à época:

·         Sr. Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” é uma obra de vanguarda. Temos desde as mais entusiásticas opiniões até aquelas que, não conseguindo nem ao menos enquadrar o tipo de sua composição literária, chegam a duvidar da qualidade e mesmo da harmonia do seu conjunto. E ainda persiste a questão do estilo, por muitos considerado de difícil leitura.

                André, realmente o meu livro é bastante inovador e pagará certo preço por isso. O fato de que uns queiram que seja enquadrado no gênero de memórias, outros no de romance, não me parece fundamental de modo algum. O que faço questão de frisar é que se trata de uma composição, apesar de muito extensa, absolutamente rigorosa e perfeita, harmônica em todo o seu enredo. Por eu ser um grande admirador da arquitetura das catedrais góticas, inspirei minha composição em seus elementos, nos seus pilares, em seus arcos, nas suas rosáceas circulares, concêntricas, compostas por rendilhados perfeitos que permitem que a luz se distribua em todos os seus matizes, acentuando o realismo da representação pela combinação de variados tons da mesma cor.

Com relação ao estilo, ele é a própria dinâmica de minha criação, fruto da memória, da imaginação e do instinto. Talvez por isso mesmo possua frases e parágrafos tão extensos e, muitas vezes, uma composição invertida. Ora, esse é o meu modo de transmitir os sentimentos e as sensações presentes em minha alma e eu as transcrevo no ritmo em que me acolhem. E tenho certeza de que o leitor interessado saberá navegar muito bem por ele, e, conto com que, dele venha a se tornar um amigo.

·         Sr. Proust, muitos críticos entendem sua obra sob a estrita característica de uma produção literária psicológica. Conversemos sobre isso?

                A minha obra não se situa dentro da psicologia comum; ela busca a “psicologia do tempo”, talvez algo como a geometria espacial em oposição à estática. Creio que seria mais apropriado dizê-lo que se trata de uma espécie de “romance do inconsciente”. Veja que, novamente a classificação de uma obra de arte é de pouca monta em tudo isso; o que interessa desvelar, trazer à luz, são os nossos sentimentos, nossas paixões, ou seja, as paixões e sentimentos de todos os humanos.

·         Outros qualificam a sua obra como “não realista”, em oposição ao realismo de um Victor Hugo e de um Tolstói, por exemplo.

Não é aceitável, em absoluto, rotularem o meu romance de não realista. Para essas pessoas, uma literatura que seja realista deve contentar-se em “descrever as coisas”, fornecendo delas apenas um miserável sumário de linhas e superfícies; ora, justamente esse tipo de literatura é a que mais se afasta da realidade, aquela que mais a empobrece e consterna, pois corta bruscamente toda e qualquer comunicação do nosso eu presente com o passado, do qual as coisas conservam a essência. E também  com o futuro, onde elas nos incitam a saboreá-las de novo.

A minha criação está sempre ligado ao real. Já o mundo das possibilidades não está no meu imaginário, mas é um desdobramento invisível do real. Ora o que Proust não é, e isso precisa ficar claro, é um criador de fantasias à moda do romancista convencional. A matéria de meus livros é real por ser a expressão do espírito. Somos nós que damos forma e valor aos seres e às coisas, segundo nosso estado de espírito, segundo a impressão que se nos impregna da realidade exterior, pois o que chamamos de realidade é certa relação entre as recordações e as sensações que nos rodeiam simultaneamente. E como a arte recompõe exatamente a vida, ela flutuará em torno às verdades que atingimos em nós mesmos, em uma esfera de poesia, na doçura de um mistério que é apenas o vestígio da penumbra que atravessamos.

Você citou verdadeiros gênios, Hugo e Tolstói; e se o são foi porque tiveram o poder, deixando  de viver para si mesmos, de tornar sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se refletisse. O gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido. Isto é a realidade esteticamente representada sem estar presa a quaisquer credos estéticos que pudessem trazer o vício de formulações dogmáticas e estreitas.

·         Aproveitando essa sua referência, muitos intelectuais acreditam que seu romance seja escrito para poucos, na medida em que trata apenas das questões atinentes à elite; em suma, jamais sua obra poderia ser popular, destinada à grande massa. Portanto, ela seria elitizada.

Ora, vejamos então o que seria uma “arte popular”. Tanto quanto a ideia de uma “arte patriótica”, ainda que a popular não seja perigosa  por si mesma, esses conceitos me parecem ridículos. Caso se tratasse de tornar a arte acessível ao povo, sacrificando para isso os requintes formais, aqueles tidos como “bons para os ociosos”, tudo bem; mas eu lhe asseguro que frequentei bastante as pessoas da sociedade para saber que são elas os verdadeiros iletrados, e não os operários.

Já os tolos imaginam que as grandes dimensões dos fenômenos sociais são uma excelente oportunidade de penetrar mais avante na alma humana; quando, ao contrário, deveriam compreender que é descendo em profundidade dentro de uma individualidade, que teriam, talvez, a sorte de conhecer esses fenômenos. É por este motivo que, afinal, deixei de me preocupar com as diferentes teorias literárias e principalmente com aquelas que se ocupam em “fazer o artista descer de sua torre” e cuidar, não dos assuntos que eles denominam frívolos e sentimentais, mas descrever movimentos operários e deixar de tratar de “vadios” insignificantes.

·         Falemos agora um pouco sobre os seus personagens e suas ações. O senhor definiu a sua obra como semi-autobiográfica. E, exceto em “Um Amor de Swann”, todo o seu livro é narrado na primeira pessoa, pelo Narrador- personagem, que por coincidência chama-se Marcel. São dezenas de atores que desfilam aos olhos de Marcel no decorrer do Tempo. Existe uma chave que as identifique na vida real? Objetivamente, uma pergunta que sempre far-se-á é: Marcel é Proust?

Uma personagem se forma do conhecimento de muitos seres humanos, da mesma forma que um drama se constrói pela sensação de muitos fatos vividos ou observados. Criei meus personagens a partir de familiares, pessoas que conheci nos salões mundanos, amigos e das fotos que colecionei, dos conhecimentos adquiridos nos locais em que vivi. Entretanto, Marcel não é Proust, assim como Swann e Elstir, também não o são, apesar de todos eles  possuirem muito da pessoa que mais posou para minha tela: eu mesmo! Marcel Proust é uma criação da vida, da natureza. Todos os meus personagens constituem criações estéticas, artísticas, imaginárias, pois.

Mas ao falarmos de um trabalho semi- autobiográfico como o meu, muitas pessoas começam a buscar inutilmente pelas tais chaves que identifiquem na criação as pessoas de carne e osso. Acontece, que, na essência, o processo criativo é o mesmo da grande maioria dos romances, pois quando se escreve não há gestos dos personagens, um tique, uma inflexão, que não seja trazido à inspiração pela memória, não há um só nome de personagem inventado sob o qual  não se possa colocar sessenta nomes de pessoas da vida vida real, das quais uma pousou para as caretas, outra para o monóculo, outra para a cólera, outra para determinado movimento. Neste sentido, podemos até mesmo comparar um livro a um vasto cemitério, no qual, sobre a maior parte dos túmulos, não mais podemos ler os nomes apagados. Resumindo, para cada personagem existem dezenas de chaves e quando existem tantas chaves, na verdade, não existe nenhuma.

·          Chama a atenção do leitor que tanto as personagens principais quanto as secundárias, apresentam traços fisionômicos absolutamente definidos e inconfundíveis e até a linguagem que usam é a mais apropriada para seu meio cultural; os corpos assim definidos abarcam cadeias de estilos de vida, de pensamentos, afinidades, paixões, ódios, delicadezas, segredos, confissões e contradições. Suas personagens sempre escolhem determinados “nichos” para se juntar e conviver; e esses nichos em que vivem são labirintos para os quais não existem saídas.

Mas você já se deu conta de que todos estes fatores ocorrem na vida e em toda a parte? A arte apenas consegue ser uma reprodução estética da realidade humana, assim como de todos os corpos da natureza. Existem determinadas características físicas que são associadas a comportamentos psíquicos e por sua vez, o estado psicológico das pessoas manifesta-se nos seus corpos. E como a vida que minha obra propicia a seus personagens é sobretudo uma vida interior, o agonismo que elas desenvolvem é, preponderantemente, psicológico.

Por outro lado, por acaso a sociedade dos homens não se aglutina em nichos onde eles se unem para conviver, matarem o tempo na ociosidade e no falatório interminável das reuniões mundanas? Para fazerem seus negócios, para amarem e odiarem-se;  para se esnobarem e ridicularizarem-se uns aos outros? E estes locais, exceto para aqueles que se libertam, não constituem labirintos de difícil escapatória? O novelo de Ariadne somente é dado para os homens que realmente desejem se libertar, e estes Teseus modernos são aqueles que não pertencem aos grupos sociais, que conseguem viver a verdadeira vida na sua intimidade, aqueles que possuem vida íntima, e, quem sabe, intuição para a  criação de uma obra de arte.

·         Sr. Proust, conversemos a respeito da ambientação de seu romance. O primeiro ambiente é a transição de final do século XIX para o atual, um momento histórico em que os antigos valores tradicionais da burguesia, herdados das revoluções passadas, foram dissolvidos e uma nova burguesia, de outro estilo, arrivista, parasitária, consumista, que vive mais de rendas, do monopólio e do colonialismo se implanta.

                 Os anos finais do século passado são marcados pela dissolução de antigos valores e por sua substituição por novos, que os homens e a realidade criavam. A família do pequeno Marcel, centralizada nas figuras da mãe e avó, e algumas pessoas de seu entorno representam, de certa forma, o tradicionalismo burguês em vias de extinção. Existe uma certa largueza de espírito associada ao amor desinteressado pela cultura, a crença em determinados valores intelectuais, assim como a valorização e o respeito pelo trabalho. Ao mesmo tempo, nas mesmas pessoas, essa ética interagia com outra, esta sim, reacionária, paralizante, que os incapacitava de vivenciar a mobilidade social; uma ideia que Marcel denomina de “um tanto hindu de que os burgueses de então formavam a respeito da sociedade,  considerando-a composta de castas estanques”.

Os parentes do Narrador permanecerão firmes em suas crenças e não serão arrastados pela maré dos tempos. Já as suas relações mais próximas, como Charles Swann, que a princípio é um representante daqueles valores mais tradicionais, desenvolverá uma tentativa inútil de harmonizar os velhos valores da cultura e do trabalho, com uma vida mundana nos círculos aristocráticos. E essa inutilidade, atestada pela incapacidade dele próprio encontrar um sentido autêntico para a vida, redundará na paixão maníaca que alimentará por uma mulher vulgar, simbolizando a perda do autodomínio, tão importante naquela que fora sua ética tradicional. Enfim, os antigos valores espirituais de Swann se esfarelam quando ele, enfraquecendo as suas crenças intelectuais da juventude, permite que o ceticismo mundano penetre até mesmo em sua medula, sem que ele mesmo o perceba.

A nova burguesia parasitária, sendo altamente arrivista, é por força, mais aberta ao novo momento social, que enorme atração produzia junto à intelectualidade da época, atraindo-a aos seus salões. Ela representará a inutilidade radical, o parasitismo social em que o esnobismo e o individualismo são sobremodo grotescos e desprovidos de escrúpulos. Será essa a nova burguesia que dará o tom na sociedade do século XX e que se unirá à aristocracia decadente, claro que, sem o restante de charme, de discernimento, da tradição e cultura que a história permitia a alguns dos aristocratas.

·         Um segundo ambiente em que seus personagens agem é aquele propiciado pelas novas descobertas do espírito, as inovações tecnológicas e científicas, que impulsionam uma mudança profunda nos comportamentos. Também é  um momento de inovações nas artes, o surgimento  do modernismo triunfante, enfim, um dos períodos de transformações mais rápidas e profundas na história da humanidade.

Talvez em quase dois mil anos o homem não tenha avançado em suas descobertas, em suas inovações e em seu conhecimento da natureza como nestes não mais de trinta anos. Invenções como as estradas de ferro, as bicicletas, os automóveis e os pequenos aviões trazem a maravilha da velocidade, do deslocamento antes impensável das pessoas e, se a tudo isto juntarmos a eletricidade, o telégrafo e a telefonia, teremos toda uma revolução nas comunicações que se fazem acompanhar por uma maior liberdade nos comportamentos. Esse ambiente é refletido nos personagens do meu romance. Eu diria mais, que após o obscurantismo dos tempos da Restauração, temos o ressurgir do “renascimento” nos costumes e uma maior liberdade para as pessoas assumirem-se a si mesmas.

·         Finalmente, como o terceiro dos grandes cenários, o aguçamento do antissemitismo, dos nacionalismos, do militarismo que conduzem ao belicismo e, por fim, à própria guerra em que praticamente toda a Europa poderá se envolver.

Sem dúvida, esse é outro panorama essencial. O antissemitismo da época chegou à França com certo atraso, pois em países da Europa Central ele de há muito era um componente social importante. Aqui, foi agudizado pelo caso fabricado da pseudotraição de um judeu, no caso, o coronel Dreyfus pertencente ao Estado-Maior do Exército, que praticamente cindiu a sociedade; ao mesmo tempo o militarismo, sob o véu benigno do patriotismo, envenenou os franceses, preparando o clima para uma  carnificina, para a possibilidade de uma guerra mundial.

·         Sr. Proust, o tema Natureza invade seu romance, de tal forma e tão profundamente, que todo ele é envolto em paisagens e imagens metafóricas, a maior parte das vezes extraídas das flores, das plantas, das paisagens e, mesmo, dos animais; elas são tão abundantes que chegam à essencialidade de “Em Busca do Tempo Perdido.”

Pensar uma obra de arte significa integrar-se à natureza, estudá-la, analisar as transformações a que o homem submete a si próprio nesse processo analítico. Essa é uma das bases importantes de meu processo artístico. E a primeira apreensão da natureza é a sensação, ou melhor, a impressão que a visão, o tato, o paladar e a audição nos fornecem. Após esta apreensão da sensação, somos levados pela inteligência à imposição de seu domínio diante da percepção sentida, traduzindo-a, recolocando-a sobre nossos próprios padrões. Devemos perseguir o reencontro da natureza e não a materialização triste de seu fantasma, a natureza desvirtuada que é a idealizada pelo homem; para tanto, precisamos nos despojar daquelas modulações que os elementos do intelecto provocam para, então, mergulharmos no mundo das impressões primevas e ingênuas. Essa é a única forma de humanizarmos poeticamente a natureza, deixando-a como realmente ela o é quando captada pelos órgãos do sentido.

·          “Em Busca do Tempo Perdido” apresenta imagens que são, em sua imensa maioria, metáforas inspiradas na botânica e na zoologia. Mas as imagens que elas criam não têm como objetivo primeiro, essa é a minha opinião, embelezar os pensamentos ou realçá-los. Sinto que, por meio de suas metáforas tudo é dito, sob pena, entretanto, de nada ser comunicado.       

Os caminhos do artista passam de todos os modos pela natureza, pois a arte é o instrumento que nos permite traduzir e imortalizar aquelas impressões, que, ao passarem por nosso coração, buscam comparações, transformando-se em metáforas que unirão as coisas da natureza ao homem. E perceba André, voltamos à essência das coisas, que são descobertas ao se aproximarem duas sensações distintas, pois o essencial encontra-se sempre na diferença, nunca na similitude- entre homens, coisas, criaturas- mesmo porque a igualdade é sempre forçada e artificial. A essência é verdadeira quando os elementos diferenciadores são respeitados. Nos tempos de hoje, muitas vezes, o diferente não pode ser explicitado; como você mesmo o afirmou, o artista necessita metaforicamente expressar seus dizeres.

·         Nietzsche disse que o grau e natureza da sexualidade atingem as mais altas camadas do espírito. Para que haja arte, ele coloca como condição fisiológica preliminar a “embriaguês da exitação sexual”. “Em Busca do Tempo Perdido” é repleto de amor e de sexualidade e diversos personagens são sedentos de excitação, muitas vezes reprimidas, mas sempre presentes.

Retornamos à questão anterior. A verdade nem sempre pode ser vista de frente, assim como os próprios raios do sol, pois nos cegariam. Fazem-se necessários anteparos, metáforas, e eu lhe dou razão ao que você havia dito antes, de que uma boa parcela das metáforas que utilizo, têm funções específicas, muitas voltadas para o sexo, sem necessariamente constituirem ornamentos textuais. Vários vegetais são transformados em mulheres e vice-versa; o sexo em evidência nas flores humaniza-se; homens são metamorfoseados em flores e nos bezouros que as polinizam; plantas hermafroditas “tornam-se” pessoas que buscam em si mesmas o solitário prazer; o pólen que se despreende e se esvai com o vento, em onanismo. São flores e plantas a sofrerem um processo de humanização metamorfoseando-se em símbolos da inversão sexual. Meus personagens são vítimas de seus desejos e impulsos, vivem em um mundo impuro, mas não possuem um falso pudor pelo que fazem, pois tanto em sexo, quanto em tantas outras coisas na vida, não existe o certo e o errado. Apenas a prepotência e a onipotência humana ousam classificá-los como parcelas do bem ou do mal.

·         Sr. Proust, para finalizarmos esta parte introdutória ao nosso trabalho, proponho que o senhor nos permita antever, em breves palavras, o plano geral de sua obra.

                Em meu livro, o enredo é de uma importância mais ou menos secundária, pois o que realmente importa é a análise psicológica do inconsciente, as conexões estabelecidas entre os seres e as coisas, a luta de um escritor contra o Tempo, que tudo arrasta, transforma e destrói. Ao final de meu trabalho, ao possuir o Tempo Recuperado, o Narrador definir-se-á como o “tradutor”  e cada leitor, convidando-o a reecontrar o seu próprio tempo perdido.

Nota da Redação: André Jammes é um personagem, que dialogará com Proust sobre as temáticas mais relevantes encontradas em “Em Busca do Tempo Perdido”. Foram idealizadas um conjunto de entrevistas que, principiando em 1914, logo após o primeiro volume do livro de Proust ser impresso, estendem-se até meses antes da morte do grande escritor, em 1922. A presente entrevista é parcela do livro “Entendendo Proust”, de Carlos Russo Junior.

 

Personagens de Proust



Crítica a entrevista concedida por Mario Conti à Rádio Cultura, no Programa Manhã Cultura

A respeito da entrevista realizada com o Mario Conti, que gerou a apresentação da sonata para violino e piano de Fauré (que aliás é maravilhosa) , eu tomo a liberdade de sugerir-lhe que também seja apresentada aos ouvintes a sonata em ré menor de Saint-Saez, dado que provavelmente, este seja o referencial mais forte da sonata proustiana de Vinteuil, principalmente  em “seu último trecho, inquieto, atormendo, schumanesco, anterior à sonata de Franck.”

Existe, a propósito uma passagem, narrada por André Maurois, o principal biógrafo de Proust,  em que estando o grande mestre já impossiblilitado de deixar o leito, pediu que seu amigo Reynaldo Hahn tocasse ao piano Schubert, Mozart e um fragmento dos Mestres Cantores. Por volta das quatro da madrugada Proust reclamou que faltava a “frasezinha”. Quando um dos outros amigos presentes perguntou a Reynaldo do que se tratava, ele disse: “É uma passagem da sonata em ré menor de Saint- Saens, tingida pelo espírito de Marcel com  reminiscências franckianas, faureanas e até wagnerianas.”

 A sonata de Vinteuil é uma criação de Proust, realizada com a ajuda de Reynaldo, para a qual pousaram diferentes autores e diversas composições musicais. Existe carta trocada entre Proust e a sra. Bizet, onde esta referência de R. Hahn é rerforçada.

Ao mesmo tempo a afirmação de Conti que Vinteuil estaria associado à figura de Fauré é despida de qualquer base analítica. Novamente Proust sempre afirmou que para cada personagem do romance havia muitos modelos da vida real. Uma havia “pousado com o chapéu, outro com a gravata, outro com a fala, etc.”, de tal modo que a pessoa que mais pousara, que oferecera inúmeros figurinos, vistos como reflexos do real na imaginação e na memória do autor, fora ele mesmo, Marcel Proust. E o escritor faz questão de ressaltar que onde existem “cem chaves para identificar um personagem, na verdade não existe nenhuma”.

Voltando ao Vinteuil, e esta minha interpretação é acompanhada da de outros analistas, a pessoa que mais pousou para a personagem foi a mãe do escritor, SEM, ENTRETANTO, HAVER SIDO A ÚNICA. Tanto Vinteuil quanto a mãe e a avó de “Marcel”, eram pessoas da província, que ainda mantinham os valores burgueses da época das revoluções, valores estes decadentes e substituídos pela burguesia arrivista. Vinteuil, de certa forma, era íntimo da família do Narrador, pois era o professor de piano de suas tias-avós.

Alguns fatos: 1. ambos não toleravam a presença de Odette em sua companhia, mesmo após ela ter-se casado com Swann, dado seu passado de cocote; porém conviviam com seus filhos homossexuais- a filha de Vinteuil, que muitas vezes tinha a aparência e a voz de um menino, e o próprio Proust que viveu agarrado à mãe até sua morte em 1905. Proust sentia-se culpado de esconder de sua mãe o homossexualismo e a filha de Vinteuil somente expõe sua relação sexual com a “amiga”, após a morte do pai. Proust encara literariamente o tema da homossexualidade após o falecimento da mãe.

2. de certa forma  os filhos homossexuais conseguiram tornar seus pais imortalizados na obra de arte. A amiga da filha de Vinteuil ordenou toda as partituras de suas músicas e lhes deu o espírito que somente quem convivesse com o artista poderia fazê-lo- e não foi somente e nem principalmente a “sonata da frasezinha” que lhe permitiu a posteridade. A mãe de Marcel Proust alcançou a imortalidade através de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Também Robert Schumann, em seu estado psicótico, serviu de fonte inspiradora para o mestre. Existem muito mais “coincidências” nesta suscinta análise que tomo a liberdade de lhe enviar, mas “Em Busca do Tempo Perdido” requer ponderações mais sérias e profundas. Que o Mário Sérgio me perdoe.

 

A morte, do ponto de vista proustiano



A Morte, do ponto de vista proustiano, é extraída de uma série de entrevistas realizadas com Marcel Proust, em Paris, entre meados de 1914 à primavera de 1922. Elas foram conduzidas por André Jammes.

 

  • Senhor Proust, conversar sobre a morte é sempre um assunto difícil, pois ela é a nossa finitude. Shoppenhauer, de certa forma, invejava o animal que vive sem conhecer a morte e só tem a consciência de si como um ser sem fim. Mas se a natureza trouxe para o homem o conhecimento da morte, por outro lado criou também mecanismos psíquicos para que as pessoas não acreditem  em sua própria morte, julgando que sua individualidade irá, de alguma forma, perpetuar-se.

Realmente, crer na própria morte como um evento mais do que possível, absolutamente inapelável, apenas sem o seu Tempo definido, constituiria o pior dos pesadelos para a maioria da humanidade. Veja o exemplo do soldado da linha de frente da batalha. Ele está convencido que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Este é o amuleto que preserva os indivíduos- e às vezes, os povos- não do perigo, mas do medo do perigo.

Sempre dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando falamos isso afiguramos essa hora como  situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa significar que a morte- ou sua primeira posse parcial de nós, após a qual não nos larga mais – poderá ocorrer nessa mesma tarde, essa tarde em que o emprego de todas as horas já está previamente agendado. A gente se empenha para cumprir os nossos compromissos, o dia está inteiro para nós, gostaríamos que amanhã fizesse um bom tempo para visitarmos um amigo e não desconfiamos que a morte, que caminhava entre nós em outro plano, escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena.

Mas, fato interessante, mesmo este primeiro contato com a morte não costuma nos assustar, pois ela se reveste de uma aparência conhecida, familiar, cotidiana,  não tanto pelos sofrimentos que provoca, mas  pela estranha novidade de restrições que impõe à vida. Na verdade já estamos morrendo, não no momento próprio da morte, porém meses e até anos antes, desde que ela veio morar conosco. A própria vida é como se fosse uma amante que pressionamos, que suspeitamos que esteja a ponto de nos trair; embora sintamos que já não é a mesma, ainda acreditamos nela, pelo menos ficamos em dúvida até o dia em que ela enfim nos abandona de vez.

O nosso corpo como que enclausura o espírito numa fortaleza; mas em breve esta fortaleza é assediada por todos os lados e, por fim, é necessário que o espírito se renda.

  • Para Goethe, a morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade.Ela acontece como um castigo, um erro, uma irrealidade. Em sua narrativa, o senhor descreve ainda  que o sofrer chega a ser ainda maior quando nossos entes queridos permanecem ”insepultos”.

Meu caro André, a morte de milhões de desconhecidos apenas nos causa um arrepio, aliás,  menos desagradável do que o provocado por uma corrente de ar. Rapidamente as tragédias que não nos atingem são sucedidas por outras e jamais nos recordamos daquelas em que tantos morreram.

Já a morte próxima é a única real. Se o dia nos recorda a morte de um ente querido, então o sofrimento consiste em uma comparação mais viva com o passado, ilusoriamente tão feliz. Marcel recorda a avó morta: “ Mas jamais poderia apagar aquela contração de sua face e aquela dor de seu coração; pois como os mortos não existem a não ser em nós, é a nós mesmos que batemos sem trégua quando nos obstinamos em recordar os golpes que lhes assentamos. Por mais cruéis que fossem essas dores, eu ligava-me a elas com todas as minhas forças, pois bem sentia que eram o efeito da lembrança de minha avó, a prova de que essas lembranças que eu tinha estavam bem presentes em mim”.

Os nossos mortos continuam vivendo em nós. Nesse sentido  é que se pode dizer que a morte não é inútil, que o morto continua a atuar em nós. E nesse culto da dor por nossos mortos votamos uma idolatria ao que eles amaram.

No caso que você citou dos filhos insepultos, saber que nada mais se tem a esperar, não impede que se continue a esperá-los. Vive-se à espreita, à escuta: mães, cujos filhos embarcaram em perigosa expedição, imaginam a cada instante que chegarão miraculosamente salvos e em boa saúde. E esta espera ou as ajuda a atravessar os anos ao fim dos quais suportarão que os filhos não mais existam, ou então, matam-nas.

  • Enquanto para Bacon,  as pompas da morte aterrorizam mais do que a propria morte, Sócrates nos recomenda que não interroguemos o silêncio, porque ele é mudo e que é em nós mesmos que devemos buscar a libertação. Concluo com Aristóteles: “Os velhos, que vivem mais da memória que da esperança, são serenos”.

A solidão dos morimbundos, que denominamos eufemisticamente de recolhimento para a morte, ocorre com a imensa maioria das pessoas cuja enfermidade ou a idade provecta transforma-os em morimbundos, quando esses já renunciaram à vida. O escritor Bergotte em seus últimos dias, quando não mais saía de casa, e quando, apenas por educação recebia uns raros amigos, fazia-o todo envolto em xales, mantas, em tudo com que nos cobrimos no momento de nos expor a um grande frio ou de tomar um trem, embora o frio que sentisse viesse-lhe de dentro. Desculpava-se deles, dizendo, ao mesmo tempo em que apontava suas vestes: “Que se pode fazer, meu caro? Já disse Anaxágoras: a vida é uma viagem”. E Bergotte preparava-se para a última.

No reencontro que Marcel tem com a sociedade, quando todos os seus amigos e conhecidos haviam se transformado em velhos, observa que, para as pessoas da mesma idade e do mesmo ambiente, a morte havia perdido seu significado estranho pois ela se multiplicava, tornando-se mais  e mais incerta entre os idosos.

Agora, parafraseando Baudelaire, acredito que, na minha agonia, quando todos os meus outros “eus” estiverem mortos, se vier a brilhar um raio de sol quando eu estiver a dar os últimos suspiros, a “personagenzinha barométrica” sentir-se-á bem contente e dirá: “até que enfim um dia bonito”.

  • Aristóteles comenta que os segredos da maturidade são a aceitação de um repouso cósmico e de uma anulação positiva do ser. E que sempre se parte antes de se concluir uma tarefa, antes da última palavra, pois quem está tocado pelo anjo da morte crerá que ainda haveria algo a dizer. Para Fuerbach “a morte é o espelho em que se mira o nosso espírito: a morte é o reflexo, o eco de nosso ser” . O nosso duplo, aquele que tem o conhecimento da própria morte é o anjo, com o qual, no momento extremo, encontramo-nos face a face.        

Eu sempre preferi acreditar mais na alegoria do anjo da morte que na do anjo da guarda. Enfim, a cada momento de nossa vida sempre buscamos um apoio ou um consolo no imaginário que mais nos convenha.

Marcel detalha o trabalho de escultor que este anjo da morte começara a desenvolver na face de sua avó: “Suas feições, como nas sessões de modelagem, pareciam conformá-la a um certo modelo que nós não conhecíamos. Esse trabalho de estatuário chegava ao fim e, se o rosto de minha avó havia diminuído, ela igualmente endurecera. As veias que a atravessavam pareciam, não de mármore, mas de uma pedra mais rugosa.”

E, finalmente, quando o anjo completou o seu trabalho e junto com a vida se retirou, as desilusões da existência terminaram também de ser carregadas por aquela que havia sido a avó de Marcel. Ele comenta: “Um sorriso parecia pousado sobre os lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a, finalmente, sob uma aparência de mocinha”.

  • Dostoievsky nos ensina que o suicídio como negação do limite da espécie é o teste absoluto da liberdade humana. A família de Marcel havia impedido que a avó no extremo sofrer, mas ainda com forças para uma atitude lúcida, cometesse o suicídio.

Na narrativa de Marcel, ele se recorda de que em Balbec, num dia em que tinham salvo contra a sua vontade, uma viúva que estava para se atirar de uma ponte ao mar, a avó lhe dissera que não conhecia maldade maior do que arrancar uma desesperada à morte que ela desejara e fazê-la regressar a seu martírio. Ou seja, com a melhor das boas intenções lhe haviam afugentado aquele que para ela seria o seu anjo salvador. Mas como é a vida, ou melhor, o homem, pois em Paris, o Narrador e seus pais impedem à força que a avó agonizante e sofredora cometa o seu próprio suicídio, atirando-se da janela de seu quarto, enquanto ainda tinha as forças para tal, condenando-a a ainda maior sofrer. É difícil  aceitar, mas muitas vezes o pensamento do agonizante se volta para o lado real, doloroso, obscuro, visceral, para esse inverso da morte que é precisamente o lado que ela lhe mostra, que ela rudemente faz com que sinta e que se assemelha bem mais a um fardo que o esmaga, a uma dificuldade de respirar, a uma necessidade de beber, do que aquilo a que chamamos simplesmente de morte.

Neste momento, o gesto de liberdade permite que, de um golpe, superemos este limite, quando buscamos, voluntariamente, abreviar nossos sofrimentos.

  • Oscar Wilde, na prisão da Inglaterra vitoriana, condenado a trabalhos forçados por um caso de relação homossexual, nos deixa uma pérola, ou melhor, “lágrimas na pétala de uma rosa”: “A sociedade, tal como a constituímos, não terá mais lugar para mim, nem me oferecerá nenhum. Mas a Natureza, cujas chuvas tão doces caem tanto sobre os justos quanto sobre os injustos, terá nas rochas algum esconderijo onde possa me ocultar, e me oferecerá vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem que me perturbem. Ela fará resplandecer as estrelas na escuridão para que eu não tropece nas trevas; fará soprar o vento sobre o rastro de meus passos, para que ninguém me persiga na morte; lavar-me-á com suas abundantes águas, e curar-me-á com suas ervas amargas.”

                Após a morte, tudo acaba, mesmo a morte, dizia Sêneca, o epicurista. Já Montaigne resumiu a atitude epicurista em “A morte seria menos temível que nada, se houvesse algo menos que nada.” Feuerbach sintetiza o tema: “A morte é a morte da morte.” Nada, na vida real, funciona como dizem os filósofos e os literatos.

Em meu livro, Marcel não se conforma com a morte de Albertine. Ele gostaria de acreditar que a morte não faz mais do que riscar o que existe e que é capaz de deixar o resto intacto; mas “a morte da morte” para Marcel é muito complicada, pois significa a morte de cada uma das diferentes personalidades assumidas dentro dele  por Albertine, sua amante. Não a supressão de um sofrimento, mas um sofrimento desconhecido, o de saber que ela não mais voltaria. Para que a morte de Albertine pudesse suprimir os seus sofrimentos, seria necessário que o acidente a tivesse matado não em Turaine, mas dentro dele mesmo. E lá, ela nunca estivera mais viva. “Para me consolar, não era uma, mas inumeráveis Albertines que eu deveria esquecer. Quando chegasse a suportar o desgosto de ter perdido essa, era o caso de ter de recomeçar com outra, com cem outras.”

De qualquer forma, nossa afeição pelos outros não diminui porque estejam mortos, mas porque nós próprios morremos. Um novo “eu”, enquanto crescia à sombra do antigo, ouvia-o falar muitas vezes de Albertine; através dele, através dos relatos que recolhera, julgava conhecê-la, ela lhe era simpática, amava-a.

Quando raciocinamos sobre o que ocorrerá após a nossa morte, não será ainda a nossa pessoa viva que, por engano, projetamos nesse momento?

Com relação aos escritores de gênio, tenho como certo que é somente após a morte que eles se tornam célebres. O esplendor de seu nome detém-se ante a pedra de seu túmulo. Não deixa de haver uma compensação pois pelo menos o autor falecido se torna ilustre sem se cansar.

O caso do músico Vinteuil que morrera havia muitos anos, mas no meio daqueles instrumentos todos que ele animara e dera vida, fora-lhe dado prosseguir, por tempo ilimitado, uma parte ao menos de sua vida. De sua vida de homem apenas? Se a arte não fosse realmente senão um prolongamento da vida, valeria a pena sacrificar-lhe algo?  Não seria ela tão irreal quanto a própria vida?

A lembrança dolorosa só existe a que vem dos mortos; ora, esses se extinguem depressa, e já não sobra  ao redor de seus próprios túmulos, senão o encanto da natureza, o silêncio e o ar puro. “A morte da morte”, absorvida pela natureza de onde viemos. Mesmo porque o nosso amor pela vida é apenas uma velha ligação da qual não sabemos nos desvencilhar. Sua força está na permanência. Victor Hugo nos diz que... “Os mortos duram bem pouco... Ai de mim, tombam em pó no túmulo, menos depressa que em nosso coração!”

Creia-me,  André, que só a morte, ao romper todas as nossa ligações com a vida e as coisas, é única capaz de nos curar do desejo eterno e onipresente de imortalidade, portanto, oferece-nos a total liberdade.

  • Em 1919, o senhor anotou em um livro de Senancour, “Oberman”: “Senancour sou muito eu”. Se o senhor me permite,  gostaria de lhe recordar um pequeno texto de Senancour, que vai ao encontro dessse seus últimos pensamentos:

                               “No mesmo momento em que balbuciamos Eternidade, alimentamo-nos de ruínas, e esta mão que deseja indicar uma morada imortal, ergue-se para bendizer os que irão até a morte nas batalhas. Mortos escreveram nossas histórias, prepararam nossas grandezas, justificaram nosso orgulho na evolução, no progresso e é à própria Morte que  confiamos uma imponente duração.”

 

Marcel Proust faleceu em 19 de novembro de 1922. E a sua morte foi como que a reprodução do que ele mesmo escrevera a respeito do falecimento de um escritor-personagem de seu romance, Bergotte, anexado pouco tempo antes à prova tipográfica de “A Albertine Desaparecida”:

                “Claro que nem os dogmas religiosos, nem mesmo as experiências espíritas nos trazem a prova de que a alma continua. Não há prova alguma, em nossas condições de vida neste mundo, de que estejamos obrigados a fazer o bem ou a nos conduzir com delicadeza, nem de que o artista esteja  forçado a  recomeçar vinte vezes uma paisagem capaz de despertar admiração que pouco importará ao seu corpo comido pelos vermes... Daí ser bem plausível a ideia de que Bergotte não estava morto para sempre.”

“Enterraram-no, mas durante toda noite fúnebre, nas vitrines iluminadas, os seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas espalmadas e pareciam, para aquele que já não existia, o símbolo da sua ressurreição.”

 

Nota da Redação: André Jammes é um personagem, que dialogará com Proust sobre as temáticas mais relevantes encontradas em “Em Busca do Tempo Perdido”. Foram idealizadas um conjunto de entrevistas que, principiando em 1914, logo após o primeiro volume do livro de Proust ser impresso, estendem-se até meses antes da morte do grande escritor, em 1922. A presente entrevista é parcela do livro “Entendendo Proust”, de Carlos Russo Junior.

 

A revolta, em Os irmãos Karamazov



A Revolta é o décimo quinto capítulo do romance de Dostoiévski, que antecede e prepara o leitor para o próximo, “O Grande Inquisidor”. O longo colóquio entre os dois irmãos Karamazovi, Ivan, o livre pensador e Aliocha, o seminarista, foi considerado, por Sigmund Freud, como uma das maiores conquistas da literatura mundial. Nessa resenha nos manteremos apenas na primeira parte do diálogo, a da “Revolta”.

A revolta de Ivan vai ao encontro de um mundo que se desfaz em injustiças e violência.  Primeiramente ele avança contra o preceito cristão do “amais-vos uns aos outros”. “Jamais pude compreender como se possa amar o próximo. Não se pode amar o próximo, a não ser que ele esteja distante; para que se possa amar alguém é preciso que ele esteja oculto (ou na multidão, ou no coletivo), pois desde que ele se mostra, o laço se desfaz… O amor de Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra, pois nós não somos deuses… Pode-se, isso sim, amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias, aliás, eu nunca as acho feias. Já os adultos, esses comeram o fruto proibido, discerniram o bem do mal, tornaram-se semelhantes aos deuses. Mas as criancinhas não, são inocentes”.

Deve-se notar que Dostoiévski, em todo o seu romance, chama a todos os irmãos Karamasovi ora de crianças, ora de homens.

Prossegue Ivan dizendo que comparar a crueldade humana com a dos animais silvestres seria uma enorme injustiça para com esses, pois as feras jamais atingiriam os refinamentos do homem na maldade. “Se o diabo não existe e foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança.”

Ivan Karamazov conta ao irmão cinco pequenas “histórias” ilustrativas da maldade a que pode chegar o homem:

Episódio 1. A história trata de um adolescente de nome Richard, que, em Genebra, converteu-se ao cristianismo antes de morrer. Havia sido “dado”, aos seis anos de idade, por seus pais a uns pastores que o “educaram” para o trabalho, ou seja, para ser um escravo. Richard crescera como um pequeno selvagem, faminto, sem roupas, a pastorear no inverno, desde os sete anos de idade. A fome levava-o a comer até mesmo a lavagem que era dada aos porcos; quando a comia e era pego, batiam-lhe sem piedade.

Ao tornar-se jovem, ele passou a roubar e chegou mesmo ao assassinato. Na prisão, por ter  menos de dezesseis anos, cercou-o uma multidão de almas caridosas, pastores calvinistas  e senhoras da sociedade. Ensinaram-no a ler e a escrever, assim como todo o Evangelho. Catequizaram-no e, em decorrência da fé adquirida, ele confessou o seu crime ao Tribunal dizendo-se um monstro, mas que Deus o esclarecera de toda a sua maldade. Toda Genebra filantrópica e pia emocionou-se com o caso. “Deves morrer porque derramaste sangue; além do mais és ladrão, pois roubaste aos porcos, mesmo que não seja por tua culpa, já que ignoravas a Deus”. Julgado culpado, no dia da execução, Richard chorava e repetia que aquele era o dia mais lindo de sua vida, pois iria arrependido até Deus. Toda a sociedade genebrina segue a carreta que o conduz ao cadafalso. “Morre irmão, morre no Senhor”, gritavam. E, coberto de beijos, Richard sobe ao cadafalso e a sua cabeça rola com a graça divina.

Episódio 2. “Entre nós, torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato”.  O poeta Nekrassov relata como um mujique bate com seu chicote nos olhos de um cavalo que não consegue atravessar um lamaçal. “É um bom russo. Quem já não viu isso? Ele bate encarniçadamente, sem saber muito bem o que faz e os golpes chovem numa espécie de embriaguez. A besta sem defesa se debate desesperadamente enquanto seu dono açoita seus olhos doces, de onde rolam lágrimas… Mas por que as pessoas se chocariam com o caso? Não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Afinal, os tártaros nos legaram o chicote para quê?  Para isso.”

Episódio 3.  As pessoas também podem ser espancadas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o pai está feliz porque a vara tem espinhos. Há seres que se excitam a cada golpe, chegam, progressivamente, ao sadismo. Bate-se na criança um minuto, depois cinco, após dez…, sempre mais e mais forte. O caso torna-se escandaloso e chega ao Tribunal. Toma-se um advogado, mas “há muito tempo o povo russo chama ao advogado de uma consciência de aluguel”. Trata-se apenas de um caso em família, o rábula argumenta. E o júri absolve o marido e a mulher e o povo o aplaude.

Episódio 4. Existe um pendor especial, em muitos, para o prazer de açoitar crianças; essas mesmas pessoas em sociedade mostram-se amáveis e ternas, mas fazer as crianças sofrerem é sua forma de amá-las. A confiança angélica das criaturas sem defesa seduz os seres cruéis. Pois cada homem oculta em si um demônio: acesso de cólera, sadismo, paixões ignóbeis, doenças contraídas na devassidão. No caso, os pais eram instruídos, mas praticavam muitas sevícias numa pobre menina. Açoitavam-na e seu corpo vivia repleto de equimoses. Refinaram, então, sua crueldade: nas noites de inverno encerravam a menina na privada para que ela não perdesse tempo urinando na cama. Esfregavam os excrementos na pequena face e a mãe obrigava-a a comê-los. E essa mãe dormia tranquila, insensível aos gritos da pobre criança. E o pequeno ser, sem saber ao certo o que acontece, bate em seu pequeno peito, chamando o bom Deus em socorro! “Ora, toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança”.

Episódio 5. No começo do século XIX, na época da servidão, um antigo general, rico proprietário, vivia em uma fazenda com mais de duas mil almas de servos. Tratava a todos com desdém, e tinha uma centena de capatazes e  matilhas  de cães amestrados. Um dia, um pequeno servo de oito anos acertou uma pedra em um de seus cães favoritos. O general ordenou arrancar a criança dos braços da mãe e jogou-a numa masmorra. No dia seguinte, ele, em uniforme de gala, montado para ir à caça e cercado por seus parasitas, reúne todas as almas “ que lhe pertenciam”, para “dar um exemplo”.

Trazem a mãe e o menino. “O general ordena que, na manhã fria, tire-se toda a roupa do garoto, que por sua vez, tremia de medo, sem dizer palavra”. “Façam-no correr, ordena”. Nisso ele açula a matilha e os cães estraçalham a criança diante de sua mãe.

Ao terminar de contar esses casos, Ivan conclui: “Aliocha, limitei-me às crianças. Nada disse sobre as lágrimas humanas, de que a terra está encharcada. Não compreendo esse estado de coisas. Os homens são os únicos culpados: tinham-lhes dado o paraíso, cobiçaram a liberdade e arrebataram o fogo dos céus, sabendo que seriam infelizes. Não merecem, pois, compaixão.” No entendimento de Camus, Dostoiévski aqui confessa o seu niilismo.

“Compreendo (no modo Cristão de ver) como estremecerá o universo quando céu e terra se unirem num grito de alegria, quando tudo quanto vive ou viveu proclamar: Tens razão, senhor, tuas vias nos são reveladas! Quando, então, o carrasco, a mãe e o menino se beijarem. Mas eis a dificuldade, pois não posso admitir tal solução.Recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Enquanto não se redimirem as lágrimas de uma criança não se poderá falar em harmonia”.

Os carrascos e torturadores sofrerão no inferno, tu me o dizes, Aliocha. Mas de que serve o castigo se as crianças já tiveram seus infernos? Aliás, de que vale essa harmonia que comporta um inferno?”

“Querer o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. Mas se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo que ela não vale tal preço. E se o direito de perdoar não existe que vem a ser a harmonia? Pelo amor pela humanidade é que eu não quero essa harmonia. Prefiro conservar a minha indignação persistente mesmo se não tiver razão. Aliás, deram excessivo valor a essa harmonia, cujo preço nos é demasiado caro. Entrego meu bilhete na entrada. Como homem de bem tenho o dever de entregá-lo o mais rápido possível. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente, devolvo-lhe o meu bilhete”.

Aliocha, o seminarista, retruca que tudo aquilo não é nada mais que revolta, revolta contra Deus.

Ivan contra argumenta: “Pode-se viver revoltado? Ora, eu quero viver. Imaginas que os destinos da humanidade estejam em tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, seria necessário torturar um ser, um ser apenas, tu o consentirias?” Eu, jamais.

 

O grande inquisidor, ou podem os revoltados serem felizes?



Do ponto de vista do existencialismo, as obras de Dostoievski constituem como que uma profecia com meio século de anterioridade. Disse, ademais, Bernianiev, que o autor de “Os Irmãos Karamazov”, não poderia  ser entendido a não ser que o leitor estivesse preparado para imergir num vasto e estranho universo de conceitos, conceitos de um visionário, grande pensador e artista, um criador e intérprete de mitos.

Em carta dirigida a um amigo, Dostoievski segredou:” A ideia fundamental que tem me atormentado consciente ou inconscientemente por toda a minha vida é a existência ou a inexistência de Deus”. No entanto, ele afirmou continuamente que Cristo lhe era infinitamente mais importante que a razão ou a própria verdade, leia-se “Deus”. O Cristo dostoievskiano não é um santo, mas  humano, profundamente humano ! Dentre os inúmeros estudos e esboços que ele realizou, o único retrato completo do seu Cristo é  aquele que revive na Lenda do Grande Inquisidor, que também poderia possuir como sub-título: “os homens preferem a calma bruta da servidão. Aos revoltados restam as fogueiras.”

Logo após Ivan revelar a Aliocha os porquês de sua rebelião contra Deus, ele passa a relatar-lhe um conto do século XVI, ocorrido no auge da Inquisição Espanhola. A ação ocorre em Sevilha onde, sob o comando do Grande Inquisidor, acendiam-se fogueiras em glória a Deus e os hereges ardiam em “atos de fé”.

Cristo teria surgido dentre a multidão, reunida na praça frente à Catedral, docemente, quase sem se fazer notar. No entanto, todos O reconheceram de imediato. Ele caminha com um sorriso de compaixão infinita. Sobe os degraus da igreja no momento em que trazem o caixão de uma menina de sete anos. A mãe lança-se a seus pés e diz:”Se és Tu, ressuscita-a”. Ele a contempla e apenas diz “talita kumi”; incontinente, a morta levanta-se e sorri. No meio da turba há agitação e choro.

Naquele instante passa ao largo um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, rosto ressecado, olhos cavados, o Grande Inquisidor. Ao entender a atitude de Cristo, um brilho sinistro clareia seu olhar; ele aponta-O à guarda e ordena que O prendam. Tão grande é seu poder, tal o medo de uma multidão acostumada à submissão, que os esbirros prendem-nO sem nenhum trabalho. Como um só ser, toda a multidão, esquecendo a quem louvava, inclina-se agora para o Cardeal que a abençoa.

O Prisioneiro é levado para a masmorra do Santo Ofício. À noite, o Inquisidor vem só e com um facho de luz ilumina a Santa Face. “És tu, não és? Cala-te, aliás, o que poderias dizer? Não tens o direito a acrescentar uma palavra ao que disseste outrora. Por que nos vieste estorvar? Amanhã Te condenarei e serás queimado como o pior dos hereges e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés, trará a lenha em que ardirás. Tens por acaso o direito de revelar um só dos segredos do mundo de onde vens? Todas as revelações novas feririam a liberdade da fé, pois pareceriam miraculosas; ora, tu punhas há quinze séculos essa liberdade acima de tudo! Pois bem, viste os “homens livres”, diz com sarcasmo.

“Isso nos custou muito caro, mas levamos a cabo aquela obra em Teu nome; foram séculos de grande trabalho para instaurar a liberdade, mas está feito. Tu me olhas com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de Te indignares! Mas saiba que jamais os homens se sentiram tão livres como agora, pois sua liberdade eles a depositaram humildemente a nossos pés. Só agora (com a Inquisição) que se pode pensar na felicidade dos homens. Eles são naturalmente revoltados e, revoltados podem ser felizes?”

“Tu estavas advertido, conselhos não Te faltavam, mas não os levaste em conta, rejeitaste o único meio de proporcionar felicidade aos homens. Felizmente, ao partires, nos transmitiste Tua obra, concedendo-nos o direito de ligar e desligar e, decerto, não podes imaginar em retirá-lo agora. Por que vieste estouvar-nos?”

“O Espírito terrível e profundo da destruição e do nada falou-Te no deserto e as Escrituras relatam que Te “tentou”. É verdade? E nada se podia dizer de mais penetrante do que Te foi dito nas três perguntas… Decide pois Tu mesmo quem tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te do sentido da primeira pergunta? Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que lhes causa medo. Jamais houve nada de mais intolerável para o homem e para a sociedade! Vês as pedras do deserto árido? Muda-as em pães e atrás de Ti, correrá a humanidade como um rebanho dócil e reconhecido. Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que ela era incompatível com a obediência cobrada com pães. Replicaste que nem só de pão vive o homem, mas sabes que em nome desse pão terrestre o Espírito da terra se insurgirá contra Ti, lutará e Te vencerá. Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crime e, por conseguinte, não há pecados, só famintos.”

“Nutre-os e, então, exija que sejam virtuosos. Eles nos procurarão e dirão: “dai-nos de comer, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus, não o fizeram”. E nós os faremos crescer, utilizando falsamente o Teu nome. Depositarão sua liberdade a nossos pés dizendo: “reduzi-nos à escravidão mas alimentai-nos”. Compreenderão que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são irreconciliáveis, pois jamais saberão reparti-lo entre si. A sua impotência para a liberdade ocorre por serem fracos, depravados, nulos e revoltados. Milhares te seguirão pelo pão sagrado, mas e os milhões e bilhões que preferirão o pão da terra? As multidões sendo fracas e, embora depravadas e revoltosas, tornar-se-ão dóceis.”

“Acreditarão que somos deuses pondo-se sob nosso comando e reinaremos sobre eles, os quais terão medo de serem livres. Mas lhes diremos que somos Teus discípulos e reinamos em teu nome. E esta, a mentira, será a origem de nosso sofrimento.”

“Não há para o homem que fica livre,  preocupação mais constante e mais ardente que procurar um ser diante do qual se inclinar. Mas somente querem se inclinar perante uma força incontestável, que todos respeitem por consenso. Porque essa necessidade de procura de um culto no qual todos comunguem unidos pela mesma fé é o principal tormento da humanidade e para realizar esse sonho exterminar-se-iam em guerras.”

“Para dispor da liberdade dos homens é preciso dar-lhes paz de consciência. O pão Te garantiria o êxito; o homem se inclina perante quem lhe dá, mas se um outro se torna dono de sua consciência, largará ali mesmo o Teu Pai para segui-lo. Nisto Tu tinhas razão porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo pelo qual viver. Sem uma ideia nítida de sua finalidade, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá embora cercado por montes de pão. Esqueceste-Te de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem do mal? Não há nada de mais sedutor para o homem que o livre-arbítrio, mas também, nada de mais doloroso.

“Há três forças que podem subjulgar para sempre a consciência desse fraco revoltado: o milagre, o mistério e a autoridade. Tu rejeitaste os três…Mas o homem rejeita Deus, pois é sobretudo o milagre que ele procura e como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios milagres, inclinando-se perante o prodígio dos magos, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que sejam revoltados, hereges, ímpios confessos. É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, diante de questões cruciais e dolorosas, agarrar-se à livre decisão dos corações?”

“Tu não deceste da cruz… novamente rejeitaste o milagre, pois querias uma fé livre e não inspirada no maravilhoso. Tinhas necessidade de um amor livre e não de um escravo atemorizado.Fazias demasiada ideia dos homens, mas eles são escravos, se bem que rebeldes. O homem é mais fraco, covarde e vil do que pensavas. A grande estima que tinhas por ele fez mal à tua compaixão. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É a alegria infantil que lhes custará caro. Derrubarão templos e incendiarão a terra. Mas perceberão, por fim, que são crianças estúpidas, fracas, incapazes de se revoltarem por muito tempo”.

Corrigimos Tua obra baseados no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens se regozijaram por serem de novo levados como um rebanho e serem libertados do dom funesto que lhes causava tormentos. Não tínhamos razão? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo, tolerar mesmo o pecado de sua fraca natureza, mas com a nossa permissão?”

Por que vir agora entravar a nossa obra? Por que guardar silêncio com Teu terno olhar? Eu não Te amo. Cada um de nós sabe com quem fala. Não estamos Contigo, mas com Ele há muito tempo. Aceitamos Roma e o gláudio de César e declaramo-nos os únicos reis da Terra. Ainda não terminamos a nossa obra, pois estamos apenas começando e a Terra ainda terá que sofrer muito, mas atingiremos o nosso fim, seremos cézares e, então, pensaremos na felicidade universal.”

“Os homens, mesmo os revoltados, virão a nós e dirão: salvai-nos de nós mesmos. Recebendo de nós o pão, verão que os tomamos de seu próprio trabalho para distribuí-los, sem nenhum milagre.Compreenderão o valor da submissão definitiva e, enquanto não o compreenderem, serão infelizes. Nós os persuadiremos a não se orgulharem porque elevando-os, foste Tu que os tornaste orgulhosos. Serão tímidos e não nos perderão de vista; nossa cólera os fará tremer, mas ao nosso sinal passarão ao riso e à alegria das crianças. Seremos os seus benfeitores, que tomam a si a carga de seus pecados perante Deus. Submeter-nos-ão os segredos mais penosos de suas consciências. E todos serão felizes exceto uns cem mil, que somos nós, os depositários do segredo. Os felizes serão bilhões e haverá cem mil mártires encarregados do conhecimento maldido do bem e do mal. Felizes morrerão tranquilamente, mansamente em Teu nome e no outro mundo não encontrarão senão a Morte. Mas nós os ninaremos para a felicidade, com uma recompensa eterna no céu”.

“Amanhã, queimar-te-ei, pois ninguém mais que Tu mereceste a fogueira. Dixi”. O Inquisidor se cala, espera a resposta do Prisioneiro. Ele aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios. É toda a sua resposta. O velho estremece, seus lábios tremem, caminha até a porta e abre:  “Vai-Te e não voltes nunca mais!” O Prisioneiro sai.

Ao finalizar o conto, os irmãos iniciam uma breve discussão. Ivan pergunta a Aliocha se não seria crível que dentre tantos jesuítas e inquisidores poderia existir um único mártir, presa de um nobre sentimento e amante da humanidade. Aliocha contrapõe: “Mas teu Inquisidor não crê em Deus”. Ivan: “Advinhaste. Talvez aquele velho maldito, que ama tão obstinadamente a humanidade à sua maneira, exista ainda agora em vários exemplares e isso não por efeito do acaso, mas sob a forma de uma aliança, de uma liga secreta, organizada desde muito tempo para manter o mistério e roubá-lo aos desgraçados e fracos, para torná-los felizes.” Aliocha ainda insiste: “Quer dizer que tudo é permitido?” e Ivan retruca: “ Há em mim uma força que resiste a tudo isso! A força dos Karamazovi.” Aliocha levanta-se e beija o irmão nos lábios. Esse sorri: “é plágio!”

É inegável a precisão com que os regimes despóticos são descritos por Dostoievski, com quase meio século de antecipação- o controle do pensamento, o aniquilamento e os poderes das elites, o instrumento da tortura e da confissão, a total subordinação da liberdade privada ao interesse dos que manipulam o Estado! A visão do Grande Inquisidor aponta também para as recusas de liberdade, invasão das privacidades, as parvoíces hipócritas das democracias formais. Sinaliza a vulgaridade espantosa da cultura de massas, do consumismo desmedido, assim como para a fome e para as doenças que graçam entre os homens que buscam líderes e mágicos, que retirem de suas mentes as reações selvagens de busca por liberdade.

Pois, tal qual na essência da profecia dostoievskiana, os homens inclinam-se voluntariamente aos seus guardiões, exceto um pequeno número de rebeldes. “Mas podem os revoltados serem felizes?”

 

Recordação da casa dos mortos:tortura e genocídio em Dostoievski



Uma companhia toca insistentemente na madrugada primaveril de São Petersburgo; o ano é de 1849. O jovem Dostoiévski, em trajes de dormir, abre a porta de sua habitação espantado, tem medo. Espera-o uma mensagem de violência, de morte. Oficiais e cossacos entram, vasculham todo o simples quarto, levam consigos papéis que encontram e, acorrentado,  o escritor que recém experimentara o sucesso com o seu romance Gente Humilde.

Durante os próximos oito meses ele vegetará preso em uma solitária na Fortaleza de Pedro e Paulo, sem processo formal ou noção do destino que o espera. Seu crime? Ele não o sabia ao certo, somente presumia. É verdade que participara de um grupo intelectual denominado “Círculo Petrashevski”. O grupo de estudos era dedicado à discussão sobre as condições de vida na Rússia, centrada em obras da biblioteca pertencente ao próprio Petrashevski,que continha livros proibidos pela censura. Também é certo que  Dostoiévski participava há três meses de uma organização radical secreta, liderada por Nikolai Spechniev. Essa sua associação, por sorte, jamais chegaria a ser descoberta pelas autoridades da época, somente vindo a público após a Revolução Socialista.

Afinal, a principal acusação que foi assacada contra Dostoiévski foi haver lido em público uma carta aberta do escritor social- revolucionário Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, na qual o autor de “Almas Mortas” era criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras.

O espectro das revoluções de 1848 assustava a Europa. Nicolau I ( o mesmo Czar que seria imortalizado por Tolstói no conto Nicolas Palkine) mostrou-se temeroso de que qualquer organização clandestina poderia colocar em risco a autocracia, a exemplo do que ocorrera na França e Alemanha. Nada melhor que inventar uma conjuração contra o Império, denominando-a de “Conspiração Petrachevski”. Em 22 de dezembro, sem nem ao menos a pantomima de um julgamento, O Czar condena os acusados à pena de morte.

Ao amanhecer do dia seguinte, Dostoiévski e seus nove companheiros são retirados da cela e, no pátio de execuções, já amarrados a postes, têm os olhos vendados. Ouvem a leitura da sentença de condenação à morte e, em seguida, o rufar os tambores. O desespero de Dostoiévski e o desejo pela vida, congelam-se por um instante naquele cérebro colossal. O oficial que comanda o fuzilamento ordena o posicionamento, os recrutas apontam suas armas, mas a ordem de fogo não não é dada. A “maldade” do Czar montara a ópera bufa de uma farsa.

Os presos são desvendados e desamarrados. É lhes anunciada a graça, o perdão imperial; Nicolau I transformara a pena de morte em prisão com trabalhos forçados na Sibéria. A Dostoiévski couberam quatro longos anos de reclusão, que seriam seguidos por mais quatro de prestação de serviços ao exército, ainda na Sibéria.

A Bíblia é o único livro que lhe será permitido levar consigo no longo martírio que vivenciará na casa prisional siberiana, onde será  uma sombra entre as sombras, sem nome, apenas um número, esquecido dentre os “mortos sem sepultura”. Quando, chegando a Sibéria os soldados tiraram-lhe das pernas feridas as correntes que as prendiam, o condenado de vinte e oito anos perdera muito de sua saúde. Mas o que lhe permaneceria intocável e indestrutível era a alegria de viver, o desejo de escrever e de tudo anotar em sua prodigiosa memória para, um dia, servir-lhe, talvez catarticamente, de material de criação.

Em carta ao seu irmão, descrita em O Idiota, Dostoiévski comenta sobre o calvário vivido: “ Não me abati e nem senti desânimo. A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora de nós. Ao meu lado há pessoas, e permanecer sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem e cair no desânimo- eis em que consiste a vida, em que consiste seu objetivo.”

Na “Casa dos Mortos” ele terá como companheiros de jornada criminosos, ladrões, pobres homens do povo que um dia haviam se revoltado contra a fome, alguns aristocratas degradados e uns poucos presos políticos, aliás como ele próprio. Logo descobrirá que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que vivenciara do lado de fora. Ele relatará como os camponeses zombavam dos intelectuais, por sua falta de destreza física nos trabalhos forçados, pois ao fim e ao cabo, embora todos comungassem do mesmo pão amargo, carregando pedras, telhas, limpando neve, cortando madeira, cortando rochas, aos “nobres” cabiam os trabalhos não tão rigorosos.

“Estou no presídio e esta vai ser minha vida por anos, o lugar em que irei sentir tão inverossímeis, tão mórbidas impressões. E quem sabe, ao deixá-la sinta saudades – com uma mescla dessa maliciosa impressão que as vezes degenera na necessidade de remexermos propositalmente na ferida, pelo desejo de distrairmo-nos com nosso próprio sofrimento, reconhecendo que no exagero de toda infelicidade há também prazer”.

Suas “Recordações”  serão uma coletânea interminável de suplícios físicos e psíquicos que o poder, através de seus esbirros, aplica aos pobres condenados. Afinal, “os presídios e o sistema de trabalhos forçados não melhoram os delinquentes, aos quais apenas castigam”. Presídios nada mais são que depósitos de escravos a serem destruídos física ou espiritualmente; uma forma clara de sinalizar aos marginalizados do processo econômico e político o que os aguarda se transgredirem certas normas.

A mesma forma de exercer o poder que nos transporta ao mal que varreria o século XX chegando aos dias de hoje: a tortura generalizada contra os pobres marginalizados, a morte banal, os campos de concentração e extermínio, presídios e casas de detenção onde “o mal radical”, que no dizer de Immmanuel Kant, destrói e aniquila não somente suas vítimas diretas, mas também os meios com que poderiam tentar reagir a ele.

“Não é em vão que em toda a Rússia, o povo chama desgraça ao crime e desgraçado ao criminoso”, nos relata o sensível narrador.

Os torturadores

Como “quase todas as manifestações espontâneas da personalidade de um preso são consideradas como crime”, os motivos para a tortura e aniquilação física de um prisioneiro na Casa dos Mortos são banais. Como concluiria  Arendt, um século após, o mal radical, descrito por Kant  e a banalidade do mal têm o mesmo significado, pois dizem respeito ao mesmo fenômeno: os das massas tornadas supérfluas, quando os seres humanos na sua distinção, singulariedade e plurariedade se tornam supérfluos. E quem é mais supérfluo que um presidiário pobre e esquecido?

Dostoiévsk, em 1856, escreveu: “A natureza do verdugo encontra-se em germe em quase todo homem contemporâneo. Mas as qualidades brutais do homem não se desenvolvem por igual.” Hanna Arendt identificaria em todo ser humano, onde não se desenvolva a capacidade de pensar, um potencial para o genocídio.

O narrador identifica dentre os torturadores dois tipos de verdugos: os voluntários e os obrigados por força burocrática. “O verdugo voluntário é, sob todos os aspectos muito pior que o obrigado…”.

O verdugo que age por “dever de ofício”, embora o bater lhe cause algum nível de prazer, não sente nenhum ódio supérfluo contra a vítima. Ele se esmera na destreza do golpe, no conhecimento do ofício, “em seu desejo de destacar-se ante os seus camaradas que esporeiam o amor-próprio”. “Esse torturador “de ofício” esforça-se na função pois sabe muito bem que é um réprobo para a sociedade, que em todos os lados encontrará um terror supersticioso que o seguirá por toda a parte e que isto tem sobre ele a influência de fomentar o seu ardor, as suas inclinações bestiais”.

Quando Dostoiévski refere-se aos verdugos voluntários, ele força nas tintas e os compara a “tigres ávidos de beber sangue humano”.  São seres sádicos, psicopatas no melhor estilo do mundo do Marquês de Sade, que saem da literatura instalam-se no mundo real.

Independentemente do gênero de torturadores ao final, “quem exerceu esse poder, esse ilimitado domínio sobre o corpo e a alma de um semelhante seu, de uma criatura; quem conheceu o poder e a plena faculdade de infligir a suprema humilhação a outro ser, que traz em si a imagem de Deus- converte-se em um escravo de suas sensações.”

A tirania torna-se um costume que possui a faculdade de desenvolver-se e degenerar-se numa doença. “O melhor dos homens pode embrutecer-se e, embora por efeito do hábito, descer ao nível de uma fera enlouquecida”.

“Seja como for, o verdugo antes do castigo, encontra-se em excitação, sente a força que possui, reconhece-se poderoso; nesse minuto é um ator: o público admira-o e teme-o e é com prazer que ele grita para a pobre vítima antes de comandar o espancamento: “aguenta que queima”. Custa a acreditar a que ponto pode corromper-se a natureza humana!”

Sartre, ao referir-se ao processo de torturas a que o Exército Francês submeteria o povo argelino nos anos 50 do século XX, disse: “ A tortura não é desumana; ela é simplesmente um crime ignóbil, crapuloso, cometido por homens e que os demais homens podem e devem reprimir. O desumano não existe em nenhuma parte, exceto nos pesadelos que o medo engendra.”

Na rotina da  Casa dos Mortos o poder absoluto sobre o outro ser destrói o escravo e modifica o seu senhor: “O sangue e o poder embriagam, engendram o embrutecimento, a insensibilidade, de tal forma que a inteligência e o sentimento acabam por achar aquilo natural e, por fim, aprazíveis as manifestações de anormalidade. O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano; é lhe quase impossível regressar à dignidade humana, ao arrependimento, a uma nova vida.”

Dostoiévski, a seguir, detém-se na descrição do comandante do presídio, um Major do Exército: “A um homem como ele era absolutamente necessário oprimir sempre alguém, tirar algo qualquer de um outro, despojar um terceiro de seus direitos, em suma, alterar a ordem de qualquer maneira”. O castigo fez-se para a insolência- assim pensam esses indivíduos- Estes inflexíveis cumpridores da lei não compreendem que a sua aplicação estrita, sem discernimento, nem compreensão da sua alma, conduz diretamente à desordem.” E o comandante vivia com toda a sua família num anexo do Presídio, de tal forma se sentia um “fiel cumpridor das regras”, um “homem de bem”.

Um segundo personagem é escrutinado, o chefe de disciplina, um tenente. Dostoiévski incorpora ao tipo físico nauseabundo uma personalidade pervertida: “era um homem de uns trinta anos, de estatura mediana, gordo, com umas bochechas coradas, regurgitando de gordura, uma dentadura enorme e um sorriso ameaçador, inquietante. Gostava muito de castigos, de dar pauladas, excitava-se quando era designado como executor. O tenente era comparável a um gastrônomo refinado na sua maneira de ser carrasco. Gostava imensamente da arte de ser verdugo e amava-a como uma arte. Deleitava-se e como um patrício do Império Romano enfastiado pelos prazeres e inventava vários requintes, várias modalidades antinaturais, com o fim excitar-se um pouco e de fazer agradáveis cócegas na sua alma atafulhada de gordura”.

A visão do autor de Recordações da Casa dos Mortos sobre a tortura é perene, atual e de certa forma, sinaliza a transformação social radical pela qual passaria a Rússia meio século depois: “ A sociedade que contempla com indiferença esse espetáculo está minada pela base. Em resumo: o direito de impor castigos corporais, outorgados a uns sobre os outros, é uma das pragas da sociedade, um dos meios mais poderosos para aniquilar nela todo germe de civilidade e a base completa para a sua dissolução inevitável e infalível.”

A respeito dos torturados

Todos os condenados, por mais temerários  e duros que sejam, têm medo de tudo num presídio. “Quanto o preso está por sofrer um castigo, esse é um outro caso. Não há dúvida alguma  que os momentos que antecedem o castigo são terríveis para o presidiário…” Os réus quando eram castigados deviam, infalivelmente, gritar e perdir compaixão ao verdugo, sob pena de que aplicassem mais força às varas de suplício.

“Esforçava-me por imaginar o estado psíquico daqueles que se encaminhavam para o suplício. Disse já que, perante o castigo, raro era aquele que conservava o sangue frio. Quase sempre o condenado sentia um medo terrível, puramente físico, involuntário, e inevitável, que afetava todo o ser moral da criatura.”

O narrador descreve dezenas de desgraçados condenados a morrer sob a vergasta e a ação reservada ao médico do presídio, no processo da tortura: “O médico só mandou suspender a execução quando viu que se prolongassem o suplício, o sentenciado corria o risco de morte”. A continuidade da tortura far-se-ia após a recuperação física do sentenciado.“Quando por acaso a pessoa encontrava presos sentenciados à espera do retorno à tortura, jamais se esqueceria  dos rostos espantados, consumidos e pálidos, de seus olhares de delírio.”

Um delator

Quando Dostoiévski se debruça na análise de um delator, é enorme o desprezo que flui de sua pena: “Ele (o delator) não era mais que um pedaço de carne com dentes e estômago e com uma sede insaciável dos mais grosseiros e bestiais prazeres carnais. Era capaz de matar e assassinar a sangue frio conquanto aquilo lhe proporcionasse satisfação do mais repelente e caprichoso dos prazeres. Era um exemplo daquilo a que pode chegar um homem quando não é, interiormente, obstado por nenhuma norma, nenhuma lei. Como me repugnava aquele eterno sorrizo trocista daquele quasímodo moral, daquele monstro.”

Conclusão

Anos após o exílio forçado na Sibéria, Dostoiévski retornaria a Petersburgo e editaria seu romance semi auto-biográfico Recordações da Casa dos MortosComo os ex-forçados eram proibidos de escrever memórias e relatos, Dostoiévski disfarçou a obra como ficção, dizendo-a ser o diário de um homem preso por assassinar a esposa em crise de ciúmes. O romance causou tal impacto na Rússia, que até mesmo o próprio Czar Nicolau I mandou que se divulgasse que ele havia chorado ao lê-lo. O caminho de  Dostoiévski como escritor de prestígio acabava de abrir-se e o genocídio praticado na Sibéria, ganhava pela primeira vez, seu lugar na literatura.

 

Os demônios de Dostoievski



Talvez em nenhum dos seus cinco grandes romances,  Dostoievski  haja atingido a “totalidade do movimento dramático”, como o fez em “Os Demônios”, que, por isso mesmo é de uma extrema complexidade de entendimento. Talvez esse seja o motivo pelo qual até o próprio Czar Alexandre II pediu que o autor o esclarecesse sobre a que vinha o livro.

Ele estava distante da Rússia, em Dresden, quando o principiou. A inspiração básica para o mesmo foi o momento histórico e filosófico vivido pela juventude russa nos anos 60/ 70 do século XIX que, partindo do niilismo chegava ao assassinato político.

O livro “Os Demônios” foi considerado pela intelectualidade soviética e pelos políticos da revolução de modos totalmente distintos. De acordo com o intelectual, crítico literário e primeiro Comissário para a Educação, Lunatcharski, o romance juntava-se para compor a obra “do mais atraente escritor russo de todos os tempos”. O centenário do nascimento de Dostoievski foi comemorado com tributos oficiais em 1920. Antes, em 1918, Lênin e Lunatcharski haviam inaugurado o busto de Dostoievski ao lado do de Tolstoi, como símbolos maiores da literatura russa.

Enquanto Lênin considerava “Os Demônios” como um romance “repulsivo, porém colossal”, confessando havê-lo lido quatro vezes ( fonte: Krupskaia), a era Stalin iria bani-lo, juntamente com “Irmãos Karamazov” e “O Idiota”. Até a década de sessenta, eles eram considerados com leitura “perniciosa” e “não construtiva” para o proletariado russo. “Os Demônios”, visto como o cúmulo da heresia, somente em 1970, voltaria a ser impresso e circularia livremente.

“Os Demônios” foi, sem dúvida, a obra em que o realismo trágico de Dostoievski mais se aproximou de fatos históricos. O caso que propiciou o foco narrativo foi o assassinato do estudante Ivanov, por ordem do niilista Nechaiev a quem aquele não lhe reconhecia autoridade revolucionária. Nechaiev, de certa forma, era discípulo de Bakunin e com ele havia escrito o "Catecismo de um revolucionário", obra exemplar em maquiavelismo político, no dizer de Engels. Após o assassinato de Ivanov, Bakunin rompe com Nechaiev, e realiza sua autocrítica “de que todos os meios são justificáveis para atingir os fins revolucionários”.

Como curiosidade, na maior parte dos esboços que Dostoievski realizou, o personagem Piotr Verkhovenski que encarna o “principal demônio” é simplesmente denominado de Nechaiev.

Outros fatos da vida real que lhe serviram de pano de fundo ao autor foram tantos os incêndios nos bairros operários ocorridos durante a Comuna de Paris, quanto os de Petrogrado de 1868. Desse fato ele extrai a destruição pelo fogo do bairro operário que, no final do romance leva à morte de Liza.

Muitos buscam na interpretação da obra um alerta contra o socialismo. E ele realmente existe, do ponto de vista do ateísmo e do poder. Dostoieviski como um profeta visualiza muitos desvios que o socialismo real viria a apresentar até o seu esfacelamento. E um dos dogmas ocultos de Piotr Verkhovenski, o verdadeiro “demônio” de Dostoievski, por duas vezes confessado a Stavroguin é: “não sou socialista, sou um assassino”. Piotr vai além e descortina que num futuro, “essa canalha democrática (os grupos de ação que ele próprio buscava construir) com seus quintetos, é um mau sustentáculo: aí se precisa de uma vontade magnífica, vontade de ídolo, despótica, apoiada em algo que não seja ocasional...”

Os demônios são niilistas e esse desfazer-se com o mundo, termina com que eles a tudo neguem, até mesmo o amor, a amizade, a honra e a verdade. Negam Deus, falsificam o bem, pois somente o mal poderia conduzi-los ao poder político. Iludem as pessoas fazendo-as crer que falam em nome de uma enorme organização política, quando na verdade, falam exclusivamente por si próprios e daqueles que eles conseguem, por algum tempo, iludir.

Talvez possamos dizer que muito do mal que nubla “Os Demônios” seja fruto da dessacralização ou da perversão do amor. Homens e mulheres rendem-se ao Príncipe Harry (Stavroguin), mas ele nem honra e nem devolve a dedicação que têm. Essa falta de reciprocidade é enraizada em sua desumanidade essencial, que cria a desordem e o ódio. E o Príncipe, seguido por Verkhovenski, seu falso profeta, vai abandonando os apóstolos em um patético e sinistro vazio de espírito.

  • Pontos de maior relevo

As sessenta horas culminantes de Os Demônios iniciam-se na festa de Iulia Lembke, esposa do governador. A “quadrilha literária” que encerra a miserável festa é interrompida pelo fogo no quarteirão que margeia o rio, e que destrói todas as casas de madeira. A “quadrilha” é uma figura retórica do niilismo intelectual e de irreverência da alma na qual Dostoievski discernia a origem de futuros motins. O fogo para o autor é arauto da insurreição, ofensa à normalidade da vida, que buscaria arrasar as velhas cidades para imporem a fundação de uma “nova cidade”, uma Nova Jerusalém.

Num Apocalipse feroz, o governador Lembke enlouquecido corre para o fogo e grita à sua comitiva: “É tudo niilismo! É tudo incêndio! Se algo está pegando fogo é o niilismo!” Em seu pânico ainda grita: “O fogo não está nos telhados, mas na cabeça das pessoas.” Esta frase poderia ser o prólogo ao romance, pois as ações que Dostoievski descreve são gestos da alma quando ela se encontra em dissolução. Os demônios entram por essas gretas e por mero contágio as chamas se propagam dos cérebros aos telhados das casas.

Todos os quatro grandes romances do autor possuem em seu âmago um assassinato. Aqui ele é triplo, conduzindo-nos para a visão trágica. Quando as chamas se amainam Lebiadkin e sua irmã Maria, assim como sua velha criada estão mortos, esfaqueados. Tudo indica que o incêndio fora provocado para encobrir os crimes, crimes comuns, de gente humilde.

As chamas a arder na margem do rio nos encaminham como um farol para uma janela da casa de Stavroguin. É madrugada e Liza observa o brilho ao longe. Stavroguin está junto dela e seu vestido está um pouco amarrotado, alguns botões desabotoados, aquela noite está toda nesse detalhe. Mas ela havia sido desastrosa. Se Dostoievski não é explícito sobre a incompetência sexual de Stavroguin, o impacto da esterilidade da noite é fragrante. Liza, que viera quase publicamente se entregar a ele explode: “É esse Stavroguin, o vampiro Stavroguin, como te chamam?” Liza foi sangrada na vontade de viver, mas ela também penetrou no âmago de Stavroguin, pois sabe que algo pavoroso e ainda assim ridículo, um segredo lhe domina a mente. “Sempre achei que você me levaria a algum lugar em que viveria uma enorme aranha má, do tamanho de uma pessoa e que lá passaríamos toda a vida a olhá-la com medo”.

Entra Piotr Verkhovenski e Stavroguin diz a Liza: “Se você ouvir algo estou avisando que a culpa é minha”. Stavroguin inicia um processo de auto-destruição, que Piotr não pode permitir, pois se seu ídolo se destruir o que acontecerá? No entanto, ele deve partilhar a culpa, pois Stavroguin e Verkhovenski estarão emaranhados mais intimamente. “No fundo você não tem nada a temer. Em termos jurídicos é de todo inocente e de consciência também, porque você mesmo não queria, não é? Não queria? Mesmo você não tendo nenhuma culpa nessa história, nem em pensamento, não obstante... Em toda a situação se dá um excelente jeito: de repente você é viúvo e livre, e pode-se casar com essa bela moça, riquíssima, que, de mais a mais já está em suas mãos. Veja o que pode fazer uma coincidência de circunstâncias simples e grosseiras.”

A agonia na interrogação de Stavroguin move-se não pelo temor da chantagem: a ameaça está em seu poder de destruir o lhe que resta de lucidez. O homem- demônio Piotr, está tentando remodelar seu deus à sua própria imagem, que é simplesmente vil.

Stavroguin diz a Piotr que “nessa noite Liza adivinhou de algum modo que não a amo... o que ela sabia o tempo todo na realidade”. Piotr se delicia com o fracasso daquela noite que ele engendrara, trazendo Liza para Stavroguin. Seu sadismo se delicia na observação da moça. Mas ele subestimou o “cansaço” de seu deus. Stavroguin diz à moça: “Eu não os matei, fui contra, mas sabia que eles seriam mortos e não impedi os assassinos”. Piotr pensa pela primeira vez em destruir seu deus. Saca da arma, mas confessa sem coragem: “Eu sou um bufão, mas não quero que você, a minha melhor parte, se torne um.”

Stavroguin o descarta com essas palavras: “Vá para o diabo agora... para o inferno... para o inferno!”

Descartado, Verkhovenshi tenta se vingar em Liza, mas ela é salva de suas garras pelo antigo noivo, Mavriki, que a espera nos jardins da propriedade, e ela quer que ele a acompanhe à cena do assassinato. Quando eles chegam, a multidão formiga com a possível culpa de Stavroguin. Ela é identificada e a assassinam. O narrador comenta que “tudo aconteceu de modo absolutamente acidental... eles estavam bêbados e irresponsáveis.” Entretanto, a impressão que nos causa é que Lisa buscou uma morte num ritual de expiação; morre ao lado dos corpos assassinados pela desumanidade de Stavroguin.

Corre o boato de que Stavroguin abandonara a cidade e seguira para Petrogrado. Horas após, Verkhovenki encontra-se com a célula de cinco conspiradores. Ninguém dormiu por duas noites e Dostoievski sugere o embaçamento da razão. Ele os convence da necessidade de assassinarem Chatov, convencendo-os de que ele estaria por entregá-los às autoridades. Piotr, desde a partida de Stavroguin, perde sua luz própria, o pivô de sua lógica está enlouquecida.

Quando caminha com Liputin, ele repete a postura anterior de Stavroguin quando com ele caminhara. Ocupa toda a calçada fazendo com que quem o siga caminhe atas de si, suportando a lama a respingar. Liputin retruca em seu ódio: “Em lugar das muitas centenas de quinhentos em toda a Rússia, somos o único grupo, e não existe rede nenhuma”. Mas a tirania de Piotr já dominou seus súditos. Liputin, consciente, mas incapaz de reagir, recolhe-se ao seu andar.

As trinta e seis horas restantes são ocupadas pelo assassinato de Chatov, pelo suicídio de Kirillov, pelo nascimento do filho de Stavroguin com a antiga companheira de Chatov, também Maria, o acesso de loucura de Liamshin e a desintegração do pretenso grupo revolucionário. Essa parte de “Os Demônios” contém uma das maiores realizações estéticas de Dostoievski. O encontro entre Piotr e Kirillov, quando eles discutem o suicídio desse último, deixando uma carta em que este assume todos os crimes do grupo de Piotr Verkhovenski, terminando com a pavorosa morte do engenheiro. E o reencontro entre Maria que está para dar a luz e Chatov e o redespertar do amor deste por ela. O assassinato de Chatov no parque noturno e, finalmente, a despedida de Piotr que foge para o exterior (tal e qual Nechaiev) e sua despedida do mais patético dos assassinos, o jovem Erkel.

 

Se não há sentido na experiência, então o sentido da arte que contém a tragédia da desordem e do absurdo se aproximará ao máximo do realismo. Rejeitar coincidências e tons extremados seria ler na vida uma espécie de harmonia e respeito ao provável que ela não tem. Desse modo, Dostoievski destemidamente acumula o real sobre o fantástico. É bizarro o retorno de Maria para Chatov, grávida e para dar à luz ao filho de Stavroguin, às vésperas do assassinato de próprio Chatov; é totalmente implausível que nenhum dos cúmplices de Piotr, dois quais apenas o jovem Erkel ainda nele acreditava como percursor de uma “nova sociedade”, não o houvesse denunciado pelo assassinato planejado e executado. Que Kirillov, amigo de Chatov, não o houvesse prevenido. É quase impossível de crer que Virginski e sua esposa (aquela fizera o parto de Maria na casa de Chatov), não impedissem o assassinato, mesmo estando certos de que o assassinado jamais trairia o grupo, pois tudo era intriga de Piotr Verkhovenski para manter o grupo de assassinos sob seu controle. O próprio suicídio de Kirillov é absolutamente inacreditável quando ele se sente “iluminar” e descobre que o niilismo de Piotr havia levado ao assassinato de Chatov.

Dostoievski acreditava que esse “realismo profundo” deveria, em virtude de sua intensificação, retardar o significado autêntico de uma época histórica que ele concebia como a chegada do apocalipse. Por isso, ele, secamente, registra a cronologia do pandemônio: Chatov é assassinado às sete horas; Piotr chega à casa de Kirillov à uma da manhã e este se mata às duas e trinta; às cinco e cincoenta, Piotr, em companhia de Erkel, chega à estação ferroviária. Dez minutos depois, convidado, sem nem ao menos despedir-se de seu “companheiro” fiel, ele entra na primeira classe a jogar uiste. O trem engata e ganha velocidade. Piotr, o demônio, escapa, via Petrogrado para o exterior.

Em nenhum romance de Dostoievski poderemos separar o trágico do fantástico. O episódio da morte de Kirillov ilustra com perfeito detalhe como a fantasia gótica e a maquinaria do horror nos conduz ao efeito trágico. Piotr precisa assegurar-se que Kirillov realmente cumprirá o prometido de suicidar-se, assumindo todas as responsabilidades pelos crimes cometidos por Verkhovenski e seu grupo. Mas o engenheiro que se move entre os estados místicos e de desprezo rústico não se decide. Ambos, Mefistófeles e Fausto estão armados. Mas Kirillov, após dilacerar um dedo de Piotr se suicida em desespero abjeto, porque não consegue se matar numa afirmação de sua libertação.

 

Dostoievski considera o tormento de crianças e, particularmente, sua degradação sexual, como um símbolo do mal, uma ação simplesmente irreparável, um pecado imperdoável. A Confissão de Stavroguin é o tormento uma pobre menina aleijada até levá-la ao suicídio. Também é sugerido que ele tivesse participado de um grupo de prática do satanismo e orgias, no passado. E essas serão as cruzes que ele carregará durante sua vida niilista, até o suicídio.

Um entrelaçamento interessante com temas bíblicos ocorre quando Stepan Verkhovenski (o pai de Piotr) encontra ao final de sua vida a mulher-evangelho, quando decide assumir seu destino e deixar de ser um parasita ornamental da mãe de Stavroguin. Pede que essa nova Sofia leia determinada passagem de Lucas, onde os demônios são, por ordem de Cristo, incorporados aos porcos que se jogam de um despenhadeiro. “Somos nós, também o Petrusha, loucos e endemoniados... o melhor seria nos lançarmos do rochedo ao mar.”

“A charada fácil” de Maria Timoviena, a aleijada e pobre irmã massacrada pelo irmão bêbado, palhaço e poeta, que reproduz o pai Karamazov, é um dos nós mais complexos e mais significativos do romance. Stavroguin ao casar-se com ela sob segredo e, depois, dispondo-se em divulgar o casamento, está na verdade buscando uma catarse de sua afronta à pequena que ofendera até o martírio na sua juventude. Ela diz que tivera um filho de Stavroguin que jamais a tocara, entretanto. Que o filho morrera e ela o enterrara num sudário. Maria, na verdade reproduz Maria, mãe de Cristo. Stavroguin tem uma parte niilista, que a todos possui mas que não é possuído pelo mal. Pois há beleza em Stavroguin, há algo de Hamlet nele, “príncipe Harry”. Cada um possui sua própria imagem de Stavroguin, Verkhovenski sabe disso e lhe diz: “ Sem você eu não sou ninguém, eu preciso de você....Você é tão orgulhoso e tão belo quanto um deus”.

Seria para Dostoievski, Stavroguin, o Anticristo? São muitas as semelhanças com o verdadeiro Messias, o mentor do Demônio Verkhovenski?

 

Erasmo de Rotterdam em Stefan Zweig



 

Stefan Zweig ao escrever seu ensaio “Erasmo, grandeza e decadência de uma ideia”, em 1928, talvez pressentisse que já traçava, de certo modo, o seu perfil e o destino que iria cumprir.

Judeu austríaco, nascido burguês, Zweig, um intelectual pacifista e humanista, foi ensaísta, biógrafo, poeta, romancista e teatrólogo, tendo sido, antes da expansão nazi-fascista, o escritor mais lido em toda a Europa. Cultivava muitas amizades nos mais diferentes países: íntimo de Rilke e de Freud (a quem amparou no leito de morte londrino e fez o discurso de seu “requiem”), amigo de Joyce, dos dois  irmãos Mann, de Gorki, de Ravel, de Valèry, do grande maestroToscanini, de Strauss, de Romain Rolland e de tantos outros mais.

O escritor, um apaixonado pela humanidade, pelos livros e lugares, tinha por sonho um mundo de paz, em que a diversidade fosse respeitada. Aspirava a uma Europa unificada pela cultura e pelo passado histórico. Um lutador infatigável pela fraternidade universal, num mundo insanamente dividido.

Apesar de jamais haver-se filiado a partido político algum, foi um admirador da intrepidez dos soviets, do gênio decido e prático de um líder como Lênin, da grandeza com que o povo russo sorrindo, “num sorriso de criança”, encarava a enorme carga de construção de uma sociedade nova. Assim como Gide, foi tentado a aproximar-se do comunismo, mas ele era um burguês no qual os valores do individualismo estavam para sempre estabelecidos. Ademais, Zweig, assim como Erasmo, jamais teria a têmpera necessária aos homens de partido.

Visitou a União Soviética como um dos convidados de honra na comemoração dos cem anos de Tolstói, tendo sido o único palestrante oficial de língua alemã, em 1928. Encantou-se com operários recitando versos de Dante e de Maiakovski.

Zweig odiava o totalitarismo, o fanatismo, os preconceitos sociais e raciais em suas mais diversas vertentes; prezava mais que tudo a liberdade e a ética. Com a ascenção do nazismo na Alemanha, a anexação da Áustria por Hitler e seus sequazes, teve que abandonar sua pátria e tornou-se um peregrino do mundo. Seus livros foram proibidos pelos nazistas e queimados em praça pública; sua biblioteca apreendida e toda a sua enorme coleção de manuscritos históricos e valiosos foi confiscada. “Por três vezes derrubaram minha casa e existência, apartaram-me de tudo o que existira e passara…”

Teve um exílio tumultuado em Londres. Foi convidado a abandonar a Inglaterra quando ela declarou guerra aos países do “Eixo”. Dirigiu-se aos Estados Unidos, mas nele não fixou residência, dado que não se identificou com o “way of live” americano. Em 1941, decidiu com sua companheira Lotte exilar-se no país que já o acolhera como turista e que a partir de então seria sua última residência. Zweig já o transformara no motivo de um longo ensaio: “Brasil, o país do futuro!

Sua acolhida entre nós foi mais que fraterna. Estabeleceu laços de íntima amizade com intelectuais, como os irmãos Koogan, proprietários da Editora Guanabara; discursou na Academia Brasileira de Letras; prestou solidariedade aos judeus brasileiros e aos intelectuais que se opunham ao fascismo.

Ele e Lotte residiriam à Rua Gonçalves Dias, n.34, em Petrópolis. No entanto, descrentes da capacidade da humanidade desfazer-se do fanatismo e da intolerância, profundamente abalados pelos desaparecimentos em campos de extermínio de seus amigos e parentes, buscaram a morte por ingestão de barbitúrico. Tal qual Paolo e Francesca de Rimini, na visão de Dante, que Zweig tanto estimava, adentraram a eternidade enlaçados no leito mortuário no ano de 1942.

 

Quatro séculos antes, em meados de 1.500, também desiludido com a barbárie, com o fanatismo religioso, com a capacidade de destruição a que os homens são levados na luta fraticida entre as nações, outro europeísta, o humanista Erasmo de Rotterdam buscara também a paz e a morte no exílo.

“Erasmo que foi a maior e mais fulgurante glória de seu século, hoje não passa de um nome esquecido”, afirmou Zweig. Em determinado momento histórico ele se foi um ícone, uma referência no pensamento europeu, disputado tanto pelos “papistas” quanto pelos “protestantes”, tendo sua opinião sido requisitada por príncipes e reis. Era o tempo das grandes invenções e dos descobrimentos, da Renascença das letras e das artes, quando a sede do saber corria nas veias da elite intelectual.Um momento histórico propício àquele que inculcava a fé no progresso moral da espécie humana, uma aspiração a que se chegou denominar “erásmica”.

Dentre todos os escritores e criadores ocidentais, ele foi o primeiro europeu consciente, o primeiro pacifista combativo, o advogado mais eloquente de um ideal de união intelectual e internacional. Suas obras, escritas num latim humanístico, que pretendia universal, não abria brechas aos nacionalismos divisionistas, dormem hoje esquecidas nas bibliotecas, talvez com uma única exceção: o seu  “Elogio à Loucura”.

Um trabalho satírico e caricato, “pois ninguém toleraria seu próximo sem a lisonja, a mistificação, e a transigência recíprocas, e, finalmente, se a todas as coisas não se adicionasse o tempero da “stultitia”, da loucura”. É dona “Stultitia” quem anuncia com habilidade única e mordaz as críticas de Erasmo à Igreja Católica e pressagia o apostulado da futura Reforma.

O pensador prezou muitas coisas que hoje nós admiramos: a poesia, a filosofia, os livros, as obras de arte, os povos, a humanidade inteira sem distinções. Só abominou, realmente, o fanatismo e sua irmã siamesa, a intolerância, a seu ver, antíteses da razão. Condenou o fanatismo em todos os campos de seu florescimento espinhoso: no da religião, no das nacionalidades e no das raças, quer ele se ocultasse sob as vestes eclesiásticas ou na de príncipes e reis. O holandês, que não era apegado a nenhum país, considerava-se cidadão de todos eles, o primeiro cosmopolita a não reconhecer a primazia de qualquer nação ou raça perante as outras.

Erasmo desprezava aqueles que exigiam obediência de autômatos às suas próprias posições, aos que tachavam as opiniões contrárias como heréticas ou merecedoras de zombarias. Com todo o vigor de sua mente lúcida, combateu durante toda a vida os preconceitos e buscava harmonizar os contrastes no espírito da humanidade, “pois não encontrava nada de insuperável entre Jesus e Sócrates, entre a doutrina cristã e a sabedoria antiga, entre religiosidade e a ética”. A filosofia era aos seus olhos, uma forma de investigar o espírito tão puro e válido quanto a teologia; a Renascença com sua sensualidade exuberante e alegre não lhe parecia uma inimiga da Reforma, tal qual acreditavam os Calvinos e outros puritanos intransigentes.

A independência de seu pensamento era uma de suas convicções; nas atitudes daqueles que subindo ao púlpito ou à cátedra, inculcavam a própria certeza individual como sendo uma mensagem que Deus lhe comunicara ao ouvido, Erasmo encontrava apenas um ultrage à divina diversidade do mundo, diversidade que prezava porque somente ela tornava nosso universo “imenso”.

Erasmo julgava que o progresso humano seria possível como fruto do saber; acreditava que se poderiam estimular as aptidões dos indivíduos e da coletividade com a difusão da cultura, dos estudos, dos livros. Que a humanização era a solução para a plena harmonização da vida. “Toda a ideia possui o seu direito e a nenhuma cabe o de proclamar-se como única verdadeira”.

Ele foi o primeiro Reformador germânico; almejava reorganizar a Igreja Católica segundo as normas da razão. No princípio do século XVI, assistimos`a vitória das ideias desse pensador, esse triunfo da razão, que, no entanto, teria uma vida breve e efêmera.

Ao intelectual de ampla visão, iria se opor um homem de ação, o motor da cega violência das massas, o agostiniano Martim Lutero. De um só golpe, o rude punho de aço do doutor Martim reduziria a pó o que a fina mão de Erasmo traçara, com cautela e delicadeza. A tragédia pessoal de Erasmo consiste em que ele em breve sucumbiria a uma explosão de frenesi nacional-religioso das mais ferozes registradas em toda a história da humanidade. E durante séculos o mundo cristão vivenciaria a luta de morte entre católicos e protestantes, norte contra o sul, alemães contra romanos, a luta pelo poder das “chaves do evangelho”.

Erasmo foi o único dentre os guias de sua época a não tomar partido em meio a toda a luta que se deflagrava. Não se aproximou da Reforma luterana e nem da Igreja Católica, pois a ambas se sentia ligado, porque defendia a derradeira unidade espiritual de um mundo em ruínas. Nem ameaças e nem injúrias da Cúria Romana ou de Lutero e seus adeptos moveram o pensador independente a aderir a esse ou àquele partido: “nulli concedo”, até o final de sua vida ele a observou, esse verdadeiro “homo per se”, independente até as últimas consequências.

Mas a história é injusta com os vencidos; ela esquece o homem de moderação, o intermediário, o conciliador e adora os caracteres de fogo, os exaltados, os aventureiros audazes no pensamento e ação. No quadro gigantesco da Reforma, o apóstolo da tolerância ocupa um segundo plano; os outros todos, possessos do gênio e da crença, cumpririam dramaticamente seu destino.

Lutero reclamava liberdade de palavra e de crença. Ele também simbolizava um momento especial em que as raças germânicas e suas elites queriam integrar-se, impor o seu domínio na Europa Central. Ele, ainda, era o profeta de líderes mais “exaltados” que si próprio, como Thomás Munzer, que em nome do Evangelho se insurgiam contra a Igreja Romana, mas também contra o Império e traziam as massas camponesas ao combate.  As palavras que Lutero proferia contra a nobreza e os soberanos convertiam-se em armas de um movimento social que pregava um comunismo primitivo.

Chegada a hora da verdade, Lutero teria que optar. Entre o Imperador e os camponeses revoltados não vacilou em condenar estes à morte mais cruenta, abraçando a causa da autoridade contra o povo. “O asno precisa de pauladas; a plebe deve ser governada pela força”. “Eu, Martim Lutero aniquilei durante a rebelião a todos os camponeses, porque tinha a missão divina de aniquilá-los”.

Munzer, o líder da revolta camponesa alemã foi torturado até a morte por tenazes em brasas, numa tortura em que cada pedaço da carne lhe foi arrancada. Huss pereceu nas chamas, Savonarola na fogueira de Florença e Servet naquela que mandou acender Calvino, o intolerante. Cada um deles viveu sua hora trágica. João Knox, amarrado na enxovia, serviu de pasto aos porcos; Tomas More e João Fisher foram decapitados. Aos anabatistas arrancavam-se as línguas antes da morte. E atrás deles ardia a chama devoradora da loucura religiosa: os burgos devastados pelos camponeses, as cidades arrasadas em nome de Cristo, as povoações saqueadas pela guerra dos Trinta e dos Cem Anos, verdadeiras paisagens apocalípticas em homenagem à insensatez e à fome de poder dos intolerantes e dos gananciosos.

O tempo da tolerância e da negociação pacífica era findo. A perseguição aos livres-pensadores e aos dissidentes era decorrência da ditadura do partidarismo, em que cada lado supunha servir à causa cristã com suas armas, fogueiras e carrascos. À Reforma contrapunha-se a Contra-Reforma, irmãs siamesas na intolerância e na desumanidade.

A liberdade de pensamento, a paz, a tolerância, princípios básicos da doutrina humanística, não encontravam guarida em meio ao sangue derramado. As artes já não podiam florescer nesse solo ardente. Estaria afastada, talvez para sempre uma verdadeira comunidade internacional, onde as diferenças seriam respeitadas; o próprio latim, o idioma único e sublime de uma Europa unida, a língua predileta do sábio, jazia esquecida e morta. “ Morre, pois, tu também, Erasmo!”

 

Stefan Zweig cresceu em uma Viena tolerante, aberta à diversidade, à literatura, às artes. Assistiu da Suiça ao morticínio da Primeira Guerra Mundial. Dedicou sua vida, no período entre as duas guerras, à propaganda de seu ideário de tolerância, de amizade entre os povos. Estava exilado na Inglaterra, fugindo à perseguição que lhe fazia Hitler, quando ouviu de um jovem funcionário: “Os alemães invadiram a Polônia. É a guerra!” “Aquelas palavras caíram em meu coração como golpes de martelo… a tarefa mais íntima em que eu empregara toda a minha força de convicção durante quarenta anos, a união pacífica da Europa, estava liquidada”.

“Quando voltava para casa, o sol brilhava em toda a sua plenitude. Notei minha sombra caminhando diante de mim, assim como via por trás da guerra atual a sombra de outra guerra… Durante todo aquele tempo ela não me deixou, aquela sombra dia e noite perpassou meu pensamento… Mas cada sombra em última análise é filha da luz, e só quem viveu claro e escuro, guerra e paz, ascensão e derrocada, só esse realmente viveu!”

A sua carta de despedida diz: “Antes de abandonar a vida por vontade própria e em plena lucidez, sinto necessidade de cumprir um último dever: agradecer profundamente ao Brasil, este maravilhoso país que me proporcionou, assim como ao meu trabalho, um descanso tão amigável e tão hospitaleiro. Um dia após o outro apreendi a amá-lo mais e mais e em nenhuma outra parte eu teria preferido construir uma nova existência, agora que o mundo da minha língua materna desapareceu para mim e que a minha pátria espiritual, a Europa, destruiu a si própria [...] Saúdo todos os meus amigos. Que eles possam ver ainda a aurora após a longa noite! Eu sou por demais impaciente, parto antes deles.”

 

Nossos Intelectuais: na ditadura e na democracia



 

Graciliano Ramos afirmava com toda a sua coerência de comunista convicto, nos anos da ditadura Vargas, que: “Como a profissão literária ainda é uma remota possibilidade, os artistas em geral se livram da fome entrando para o funcionalismo público”. Também pudera: “Vidas Secas” teve uma primeira edição em 1938; a segunda de mil exemplares só saiu em 1947 e a terceira demorou mais cinco anos para ocorrer. Para sobreviver, ele escrevia pela manhã, era inspetor de ensino à tarde e, à noite, editor do “Correio da Manhã”.

Assim como Graciliano, a maioria de nossos escritores detestava a ditadura Vargas e o fascismo, mas recebiam dos cofres públicos por serviços prestados. O Ministério da Educação era comandado por Gustavo Capanema que tinha como chefe de gabinete ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, no mesmo período em que este escrevia o poema “A Rosa do Povo” (“este é tempo de partido, tempo de homens de partidos”). Drummond disse, posteriormente: “Existe uma diferença entre servir uma ditadura e servir sob uma ditadura”.

Capanema nomeou como inspetores federais para o ensino público: Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Marques Rabelo, Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa e Abgar Renault.

Para o Instituto Nacional do Livro, nomeou Augusto Meyer. Para a Biblioteca Nacional, Sérgio Buarque de Hollanda. O Serviço do Patrimônio Histórico Nacional, projeto elaborado sob consultoria de Mário de Andrade, recebeu como diretor Rodrigo Mello Franco.

O novo prédio no Rio, onde seria instalado o MEC, teve contratados para o detalhamento do projeto realizado pelo francês Le Courbisier, os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Os murais desse edifício, um clássico do modernismo, foram pintados magistralmente por Cândido Portinari.

O tristemente famoso Departamento de Imprensa e Política, o DIP, responsável pela censura aos meios de comunicação e às artes de modo geral, editava uma revista: “Travel in Brazil”. Contratada para dirigi-la: Cecília Meirelles.

O DIP, por outro lado, dispunha de verbas para “neutralizar” a “imprensa livre”. Pagava subsídios mensais a estes veículos publicitários, sob a forma de verba de propaganda. Os nove grandes jornais que recebiam noventa por cento dessa verba ofereciam empregos estáveis ou bicos para um grande leque de escritores e jornalistas, dentre eles: Antônio Callado, Otto Lara Rezende, Francisco de Assis Barbosa, Franklin de Oliveira, Moacyr Wernerck de Castro, Prudente de Morais, Otto Maria Carpeaux, Mário Pedrosa, Ruben Braga e Álvaro Lins.

Além disso, o DIP possuia seus meios próprios de comunicação. Enquanto uma redação de um bom jornal oferecia um salário médio mensal de oitocentos mil réis para um editor, o órgão governamental pagava por “apenas” cinco laudas escritas seus cem mil réis. Não fica difícil entender por que Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinicius de Moraes, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Murilo Mendes, Tristão de Athayde, Adalgisa Nery, dentre outros, escreviam para as publicações oficiais.

Na maioria dos casos, a natureza da colaboração não se confundiu com cumplicidade ideológica ou adesismo ao fascismo. Antônio Cândido separa de modo claro os intelectuais que “servem” daqueles que se “vendem”. Quase sempre os nossos escritores e intelectuais se integravam na máquina governamental na condição de “funcionários subalternos das superestruturas”, no dizer de Sartre. Eles não tinham o poder de definir políticas públicas e nem de formular premissas ideológicas.

O Corpo Diplomático do Estado Novo teve a servi-lo: João Cabral de Mello Neto, Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes e Ribeiro Couto.

O Imposto de Consumo (o pai de nosso ICMS) teve José Lins do Rego como inspetor nomeado.

A Agência Nacional com a sua “A Voz do Brasil” teve por redatores Lúcio Cardoso e Clarice Lispector.

Quando foi lançada pelo DIP a “Revista de Cultura Política” reunia diversos intelectuais, das mais diferentes tendências político-ideológicas, como Nelson Werneck Sodré, Marques Rabelo, Luís Câmara Cascudo, Herberto Salles, Guerreiro Ramos, Peregrino Junior, Prudente de Moraes, Giberto Freyre e Brito Broca. 

Ao contrário desses escritores e intelectuais, Azevedo Amaral, Cassiano Ricardo, Almir de Andrade, Menotti del Picchia e Francisco Campos, identificaram-se com o Estado Novo e com o fascismo, participando, aí sim, de sua sustentação doutrinária.

Após a derrocada do Estado Novo, com o Partido Comunista Brasileiro ganhando a legalidade, uma grande parte da intelectualidade nele ingressou. Citaremos os mais emblemáticos como:

Escritores e jornalistas: Graciliano Ramos, Jorge Amado, Aníbal Machado, Astrojildo Pereira, Álvaro Moreyra, Moacir W. de Castro, Caio Prado Junior, Dyonélio Machado, Jacob Gorender, Dalcídio Jurandir, Aparício Torelly, Pedro Motta Lima , Osvaldo Peralva.

Artistas Plásticos: Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Carlos Scliar, Djanira, Pancetti, Campofiorito, Giorgi, Abelardo Hora, Israel Pedrosa.

Dramaturgos e atores: Oduvaldo Vianna, Dias Gomes, Joracy Camargo, Mário Lago e Eugênia Moreira.

Maestros e músicos: Francisco Mignone, Guerra Peixe e Arnaldo Estrela

Arquitetos: Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. 

 

Alguns intelectuais, apesar de possuirem o socialismo como ideologia, não se ajustavam ao figurino partidário. Mário de Andrade foi um deles. Ele buscou compatibilizar inconformismo com sua desconfiança, acreditando que “o intelectual verdadeiro sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário pessimista, cético e cínico, em outras palavras, um fora da lei”.

Na visão de Carlos Nelson Coutinho não existe uma relação mecânica e direta entre cooptação e ausência de espírito crítico. “Se isso ocorria sob uma ditadura, sob a democracia de hoje, todo intelectual, mesmo cooptado pelo Estado, pode se tiver consciência e um posicionamento de esquerda, adotar posições políticas e estéticas de clara oposição ao “status quo” (2004). Ainda ressaltava que com o pós- modernismo, irmão siamês do neoliberalismo, ocorre uma despolitização geral da sociedade, e, consequentemente, da cultura: de questionadora de valores, metamorfoseia- se em mercadoria.

Referências: Lippi e outras, Estado Novo, ideologia e poder. Zahar 1982; Miceli, Intelectuais a la brasileira, C. das Letras, 2001; Rugai e outros,Intelectuais: sociedade e política, Cortez, 2003.

 

Reflexões sobre a morte



A atitude do ser humano perante a morte ao invés da morte em si, não seria o mistério primordial? Talvez seja preciso descortinar as paixões profundas perante a morte, considerar o mito da morte em toda a sua humanidade, para somente depois visualizar a morte nua, desumanizada, em sua simples realidade biológica; ela, que não possui essência alguma, pois que é simplesmente o nada, um nada que encerra uma tremenda realidade. Ou seja, no dizer de Morin, “a morte é a mais vazia das ideias vazias, com seu conteúdo impensável, inexplorável, e a ideia da mesma é traumática por excelência”.

La Rochefoucauld, ao refletir sobre a incapacidade de o ser humano encarar a morte, escreveu: “nem o sol nem a morte podem ser vistos de frente”. Encará-la pode tanto nos cegar sobre seus mistérios como também nos fazer olhar no poço de nossa existência, que é um poço sem fundo, onde apenas veremos a imagem de nosso eu refletida, tão só, tão terrivelmente só, como diria Mann.

Não existiu nenhum grupo, por mais arcaico que fosse que abandonasse os seus mortos, ou o fizesse sem os ritos preliminares. As pedras funerárias estão ali para proteger o morto contra os animais e assegurar-lhe alguma maneira de sobrevivência. O antropólogo Fraser insiste em um importante aspecto da universalidade da crença na imortalidade “como um prolongamento da vida por um período de tempo indefinido, não necessariamente eterno. A crença na imortalidade faria desta uma metáfora da vida”. Dialeticamente, a consciência da morte causa um trauma, que necessita da imortalidade como contraponto. Segundo Freud, “no fundo ninguém acredita em sua própria morte, ou o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria individualidade”.

No entanto, a dor pela morte só ocorre se o morto for próximo e tiver reconhecida sua individualidade, como ser único, insubstituível, daí a emoção-choque, o terror, a dor, o sentimento de ruptura, o trauma. Temos a consciência de um vazio, de um nada, que se abre onde havia plenitude individual. O traumatismo da morte é, então, um fato não menos fundamental que a consciência do fato da morte e na crença na imortalidade. Quanto mais o homem descobre a perda da individualidade por traz do cadáver, mais ele é afetado pela morte, mais descobre que ela é a perda irreparável da individualidade. Goethe afirmou que “a morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade. Esta aparece como um castigo, um erro, uma irrealidade.”

Caso o morto não seja alguém próximo, a dor simplesmente não existe; e se algo dela existir será uma espécie de solidariedade distante.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

A “quarentena do luto” é muito antiga e, segundo Morin, corresponderia ao tempo da decomposição, “quando o contágio pela morte estaria superado”. Para abreviar esse tempo do horror sentido pelos vivos, surgiram ideias para se apressar a decomposição e encurtar o ritual da dor. Muitas alternativas, não necessariamente excludentes, foram utilizadas no tempo: o canibalismo, o embalsamamento, a cremação, o afastamento do defunto do convívio próximo aos vivos, colocando-o em locais distantes, como covas, grutas e, finalmente, nas “casas de repouso”, os cemitérios.

Shopenhauer ensinou-nos que “o animal vive sem conhecer a morte; só tendo consciência de si como um ser sem fim”. A morte e a perda de individualidade afeta o animal quando a ordem da espécie foi alterada pela domesticação: ela o liberta da tirania vital e o individualiza; ao enterrarmos um animal, nós o humanizamos. Se no inconsciente humano se misturam a cegueira animal da morte e o desejo de imortalidade, a consciência humana da morte não supõe apenas a consciência daquilo que era inconsciente no animal, e sim, uma ruptura na relação indivíduo - espécie, um aprofundamento da individualidade em relação à espécie, uma decadência da espécie em relação à individualidade.

Não é somente o avanço de doença e a velhice que destroem o indivíduo, que fazem com que o medo da morte e a consciência da mesma se dissipem, mas, principalmente, quando se enfraquece no ser humano “o músculo da afirmação de si mesmo”.

O suicídio coroa um ato de afirmação da individualidade, quando o horror da morte se enfraquece e o indivíduo sente esta afirmação mais verídica que o próprio horror. Para Dostoievsky assim como para Proust, o suicídio como negação do limite da espécie é o teste absoluto da liberdade humana. A sociedade é vencida, negada, incapaz de expulsar a morte. Este é o maior feito do suicida. A vitória extrema e o desastre irremediável. É a individualidade livre de todos os laços. 

Spencer, em seu positivismo, dizia que “a possessão do indivíduo pelo Estado é o caráter do Estado social adaptado à guerra”. O título de herói foi banalizado nas guerras dos séculos XIX e XX, dado que se aplicava a todo combatente que morresse. O único conforto dado ao que iria morrer numa trincheira ou nos campos de combate era o posterior assassinato, a vingança, purgar a morte daquele que foi à luta no inimigo a abater. Esta atitude que podemos definir como mágica, sacrificial, é determinada por uma “regressão geral da consciência que determinava as guerras” de conquistas imperialistas, quando os serviços militares se tornaram obrigatórios. Tolstoi conceituava o recrutamento compulsório um crime de lesa-humanidade. Nesse paroxismo desaparece a consciência da morte e ela não apenas deixa de ser sentida traumaticamente, mas, até mesmo, de ser vista.

A. France incursionou, em tempos de Primeira Guerra Mundial, na mesma temática que Spencer. Mas para ele, “os exércitos são muito mais odiosos pela imbecilidade que os acompanha do que pelos assassinatos que provocam”. Os homens quando estão obcecados pela morte buscam o perigo; eles querem esquecer a morte com a morte.

Na antiga Atenas, enquanto a cidade vivia em função do cidadão, o indivíduo podia abdicar conscientemente de sua primazia em benefício da “polis”, pois esta representava todas as individualidades cívicas e nutria cada individualidade. A cidade que se apodera do cidadão lhe dá a glória eterna, o que significa exaltação individual e imortalidade social, e a busca da glória é a busca da felicidade. Fenômenos semelhantes ocorreram em outros momentos da História da humanidade, mas sem dúvida, um dos mais marcantes, aconteceu na luta contra o nazismo alemão, durante a chamada “Guerra Pátria”, travada pela antiga URSS. Com razão dizia Shopenhauer: “no espírito do que morre pela Pátria, seu próprio eu aparece em seus compatriotas, nos quais continua a viver, e nas vidas futuras pelas quais está agindo.”

Em seu desenvolvimento máximo o individualismo chega ao cosmopolitismo. Mas o cosmopolitismo, que na antiga ótica revolucionária era denominado internacionalismo, era o cosmopolitismo alargado à humanidade inteira, libertando-a de todos os preconceitos particulares. Outra vertente do cosmopolitismo é o isolamento da individualidade do mundo, o desprendimento de tudo, a solidão. Aí o individuo contesta uma sociedade que, estando à parte de sua vida, não pode fazê-lo esquecer a própria morte. Nada mais o prende a uma vida que ele mesmo sabe fadada à destruição. Assim, na deificação de si mesmo, nasce da angústia extrema da morte, novamente, a tentação do suicídio. Se “toda neurose é uma tentativa regressiva de reconciliação com o meio” (Freud), o suicídio como ruptura suprema, é a reconciliação desesperada com o mundo

O assassinato quer se perpetue por fúria, latrocínio, loucura, por decisão fria ou de Estado, astucioso como a chave do fascismo, revela uma realidade exclusivamente humana. O assassinato é a satisfação de um desejo de matar que nada foi capaz de deter. Esta é sua face negativa; a positiva é a volúpia, o desprezo, o sadismo, o ódio, que traduzem uma libertação anárquica, mas verdadeira, das pulsões da individualidade em detrimento dos interesses da espécie. Em última análise, quando “in extremis”, a afirmação absoluta da própria individualidade provoca a destruição das outras.

A tortura da morte é uma espécie de síntese horrível do desejo de negar e de humilhar o outro, em que o torturador encontra o gozo conjugado do assassinato e da escravidão. A confissão que se busca arrancar por meio da tortura é o “tu és um rei, eu, um lixo”. E é o seu próprio nada que o torturado é forçado a reconhecer, reconhecendo assim a “divindade” absoluta de seu torturador. Dentro do instrumental freudiano, na tortura o Id se rebela pela dor sofrida e tenta sufocar o Eu. O que segura a humanidade do torturado é o Superego com seus valores. Mas quando este desaba, desabam o Ego e o próprio Id. Ao tratar de coisificar o torturado, o torturador entra na armadilha que ele preparou e se desumaniza, acanalha-se. Transforma-se em uma monstruosidade, corrompida até as últimas fímbrias de seu ser.

Se na guerra o soldado não crê na possibilidade da própria morte, as experiências de incontáveis presos políticos durante os regimes ditatoriais é o seu oposto. O preso político sabia muitas vezes que era um morto virtual, sendo imunizado do terror pelo próprio horror, imunizado contra o horror do cadáver pela proximidade cotidiana dos cadáveres ou daqueles outros que iriam ser triturados, e mesmo, assassinados.

Isso se repete ainda nos dias de hoje, quando corpos dos moradores da periferia, mortos ou vivos, não são nada mais que “coisas”, sem registro de prisão, sem nome próprio. No Rio de Janeiro em suas favelas, em São Paulo nas suas periferias, a morte se banaliza e, portanto, na consciência coletiva ela se apaga. “A morte ela é sempre uma ideia civil” (Morin). Um militar não mata, não provoca assassinatos, no seu consciente ele só faz destruir o inimigo interno. O inimigo que o afronta em sua prepotência ou contra o qual é enviado, pela rede de comando, a aniquilar.

Como fruto brutal do avanço imperialista, surgiu a “morte tecnológica”, que é a morte acionada por controle remoto. Mesmo que o assassino sentado à frente de um computador se divirta ao apertar um botão de videogame, ou que ele esteja realmente convencido de que as armas tipo “drones” sejam “inteligentes” e que somente matarão os “inimigos da civilização”, ele permanece sendo um assassino covarde, que nem ao menos corre o risco do combate. O assassino é socialmente incógnito, assim como não identificáveis serão os resultados de seus botões apertados. A guerra tecnológica constitui um passo gigantesco na banalização absoluta do mal de que nos falava Arendt, ainda que inimaginável até pelos brutais genocidas nazistas nos campos de concentração.

Embora o risco de morte também possa ocorrer por amor, êxtase, vaidade, masoquismo, loucura ou por simples felicidade, existe ainda a variante da morte por amor ao próprio risco. Ela não deixa de ser uma forma de usufruir a vida. No entanto, corre-se também o risco da morte por valores. Não apenas os valores cívicos provedores do heroísmo oficial; desde os séculos XIX e XX, os valores revolucionários foram incutidos nos cidadãos. Na luta revolucionária o espectro da morte só ronda ao longe. O revolucionário buscará no instinto um formidável protetor contra a morte, permitindo que a espécie a fareje e não o indivíduo. E a espécie conhece a morte melhor que o indivíduo consciente. Aqueles que sobreviveram à luta de guerrilhas devem-no em parte ao seu instinto farejador. Corre-se o risco de morte para não se renegar as próprias ideias e a dignidade. O grito pode ser o do eu coletivo, ou o berro isolado de tantos revolucionários agonizantes. Na consciência do guerreiro-mártir, esta morte que se afasta, voltará, um dia, sob a forma da liberdade coletiva.

 O desenvolvimento histórico da sociedade está ligado de maneira mais estreita ao da individualidade. O progresso que a história humana exige é o desenvolvimento mútuo e recíproco da sociedade e do individuo. Segundo Benjamin: “não existe um só testemunho de cultura que também não o seja o da barbárie”.

Ninguém sabe qual será a face de sua própria morte. “A religião se especializa cada vez mais na canalização do traumatismo da morte e na manutenção do mito da imortalidade, dando-lhe forma e saúde. No entanto, se a consciência da imortalidade é plena, deveria restar apenas a consciência da morte como fato e o trauma deveria se esvair”(Morin).

Enquanto Marx ensinou-nos que “a religião é como o suspiro da criatura angustiada”, Freud definiu-a “como a neurose obsessiva da humanidade. Mas com um papel fundamental de refutação das verdades desesperadoras da morte”. O sereno equilíbrio do fiel se baseia no delírio patológico de sua religião. Não são os feiticeiros ou os sacerdotes que tornam a morte terrível; o que eles fazem é utilizarem-se do terror da morte. No entanto, se a religião é mórbida do ponto de vista social, ela pode operar curas importantes do ponto de vista individual. Afinal, quantos de nós somos capazes de olhar no poço sem fundo de nossa inexorável mortalidade?

 

"Ego sum qui sum"- uma ironia sobre a morte



 

Ego sum qui sum” (eu sou aquele que sou)


“Desculpai-me se meus discursos vos entediam. Os velhos, quando começam a tagarelar, são insuportáveis”, dizia o mestre Cagliostro, na palavra do conde de Saint- Germain. Ele sabia melhor que ninguém que, quando um homem vive muito, ele se dá conta de que, no fundo, o mundo é monótono, os homens não aprendem nada e recaem a cada geração nos mesmos erros e horrores; os acontecimentos não se repetem, mas se assemelham. 

Existe, entretanto, algo exclusivo, que por ser exclusivo da natureza humana, nos torna sempre diferentes, um atributo que não compartilhamos nem com os anjos e nem com os animais: a capacidade de ser cômico, de rir, travestindo-nos de “homo ridens”. Somos a única espécie vivente que sorri, brinca, joga, porque não sendo imortais, disso possuímos a mais plena ciência. Para Cagliostro, o cômico e o humorístico talvez sejam os modos pelos quais o homem tenta tornar aceitável a ideia insuportável da morte, arquitetando pelo riso a única vingança que lhe é possível contra o destino ou os deuses que o querem mortal.

Somos os únicos a sabermos que a morte trabalha conosco no mundo, ao nosso lado e que quando morremos, já que perdemos o mundo, perdemos também a morte. Se existimos é porque podemos e vamos morrer. A morte é sempre o nosso extremo e quem dispõe dela dispõe extremamente de si, ensina-nos Blanchot. Afinal, quando se morre, perde-se a possibilidade de morrer.

Campanile relata um cumprimento inesperado em sua obra: “Como vai?”, pergunta-lhe um amigo e, ao invés do conveniente “vai-se vivendo”, a resposta que ouve é: “vai-se morrendo”. Por se tratar de um autor cômico e funéreo, suas páginas buscam de modo obsessivo o problema da morte. Vale a pena revivê-lo e provarmos de sua ironia, pois embora se saiba com certeza que todos temos que morrer, mesmo assim, ficamos sempre surpresos com o fenômeno.

Quem vai ao funeral de um amigo ou de um parente tem, no fundo, a ideia de que está tratando de uma coisa que não lhe diz respeito pessoalmente. Ao visitarmos uma família atingida pelo luto, enquanto o finado ainda encontra-se no velório, vemos pessoas estupefatas, como se tivesse acontecido algum fato estranhíssimo. Todos se agitam, todos demonstram o quanto se está despreparado para a coisa. Sejam os parentes, sejam os amigos, ou simples conhecidos. Os visitantes pronunciam frases que, mesmo que escutadas com benevolência, é inevitável que sejam definidas como insensatas. Afinal, não podem ver uma só lágrima, que já ordenam: “Não chore! Prometa que não vai chorar…” Mas por quê?   Há algum mal em que alguém chore? Quanto aos parentes, estes repetem frases desprovidas de sentido comum: “Não deveria morrer”, “Quem poderia imaginar? Quando estava no melhor da existência…” e outras assertivas que somente seriam admissíveis caso o fenômeno da morte estivesse se apresentando pela primeira vez no mundo.

Surpresa pela morte? A surpresa seria lógica se, em vez da notícia de que o amigo morreu, tivessem recebido- como um raio em céu sereno- a notícia de que o amigo não morrerá jamais, por toda a eternidade. Somente nesse caso as frases pronunciadas nas ocasiões da morte seriam apropriadas: “Não poderia imaginar! Quem poderia pensar? Ainda não posso crer…”

Somente o morto entendeu a situação e ficou com a alma em paz. 

Enquanto havia vida, existia esperança. Por um fio de esperança o agora defunto se agitou, fez gestos descompostos, disse palavras insensatas. Mas agora, não mais. Está tranquilíssimo. E o único que, com desenvoltura, sabe fazer a sua parte nesta sala de velório! Está morto há poucas horas e já se mostra cheio da prática dessas coisas. Para quem o venha ver, está lá em seu caixão, cheio de flores, deitado como sobre um leito, vestido com boa roupa após o asseio de um banho; mal o vemos e já assumiu aquele aspecto impenetrável, aquela palidez inverossímil, aquela frieza característica.

Já os vivos se agitam como peixes fora d’água demonstrando que foram pegos de surpresa e revelando um despreparo deplorável. No morto, nenhuma surpresa. Dir-se-ia que não fez na vida outra coisa senão morrer.  Olhem para ele estendido em seu caixão.  Não se move há horas,  não se vira para ninguém, não faz comentários. Mas como, se há tão pouco tempo parecia que ele jamais poderia se afastar dessas pessoas e dessas coisas que o circundam, e, principalmente, desligar-se de todos os seus pertences?

Será possível que já tenha conseguido ficar com a alma em paz? Uma coisa é certa. O defunto não se ocupa nem de nada e nem de ninguém, aliás, nem de si mesmo. Que façam o que bem quiserem; vistam-no ou dispam-no, fechem-no nessa caixa, enterrem-no ou enviem-no a um crematório. Mostra-se completamente desinteressado. E se insistirem em deixá-lo ali, há de ficar. Querem rezar? Rezem. Querem chorar? Que chorem. Ele está ali parado e deixa que tudo aconteça. Tranquilíssimo. Mas onde terá aprendido fazer-se de tão morto e tão bem? E não é uma questão de cultura, ou de idade ou de outra coisa. Os pobres sabem fazê-lo tanto quanto os ricos, o ignorante assume o mesmo aspecto que o intelectual. Jovens ou velhos, eles permanecem na idêntica imobilidade, com a mesma ausência, tenham eles sido de esquerda, de direita ou de centro, isso já nada importa.

Porém que achado constitui a morte! O maior dos romancistas ou o teatrólogo mais engenhoso não saberia imaginar uma solução tão genial. Há situações que parecem ser irremediáveis, emaranhados inextrincáveis, embrulhos que nunca se consegue desfazer. Doenças que prolongam o sofrer por anos, todos padecem, esgotam-se as reservas familiares. Chega, então, a morte e resolve tudo, colocando as coisas nos seus lugares, removendo as situações ou as dissolvendo, permitindo o recomeçar do início, abrindo as portas para a vida. Ela tem um objetivo: restabelece a paz do ponto de vista do poder.

Muitas vezes, é bem verdade, faz mal ao coração de quem ama, mas resolve o que antes parecia impossível. Do modo mais impensado e simples. Se nem os melhores autores saberiam inventar algo como a morte, é preciso acrescentar que ela constitui um instrumento complicado, que só pode ser manejado por uma sapiência suprema. Em mãos humanas a morte é um desastre.

No entanto, sabemos que os jovens morrem e até mesmo crianças; talvez por terem a desventura de nascerem pequenos homens. Mas vamos lá, é apenas uma criança! A bem da verdade, caso quiséssemos ser rigorosos, haveria muita coisa a dizer. Mas olha só aquela criancinha: tão pequena e já morta! É admirável, naquela idade não se pode negar, um caso de surpreendente precocidade. Mas queremos saber como pode, uma criança tão pequena ser admitida na categoria dos mortos? A quem indagar e insistir que ser morto é uma coisa muito, mas muito séria, que é preciso comer muito arroz para se chegar lá. É preciso ter os cabelos brancos e ter superado muitas provas. Mas essa criança, ao contrário, apresentar-se-á a São Pedro e dirá: “Sabe, eu sou um morto. Quero entrar.” Um morto, nessa idade, mas vamos devagar, por favor!

Responderá  aquele que do Paraíso detém as chaves: “Essa criança já tinha idade para ser admitida entre os mortos? Tinha condições de entender a importância do passo que se preparava para dar? Tinha pressa? Peso? Estatura? Voz?”. Não, não tinha nenhum desses requisitos necessários, nenhum título, nenhum precedente. Era pequeníssima. Não sabia nem mesmo falar. Certamente não estava à altura da situação. A menos que se queira considerar título suficiente ter vindo ao mundo. Não sei que estatura é preciso ter para ser morto, mas assim, a olho, essa criança parecia pequena demais. Se começamos também com criancinhas onde iremos parar?

O fato é que tudo começa e acaba na horizontal. Na cama se começa por ser concebido e nascer; meia hora depois se volta à cama. Depois retornaremos a ela a cada dia, em intervalos regulares. Se estivermos cansados ou muito tristes vamos nos jogar na cama. Se estivermos doentes, idem. Eis que se apresenta até um médico consagrado, homem de ciência, que consumiu anos sobre livros, estudou os mistérios da natureza, seccionou corpos; ele nos examina, interroga-nos, pede mil exames e acaba por dizer que devemos ficar de cama!

Chegará o dia em que estaremos na cama pela última vez. Então, salvo exceções, seremos vestidos com nossa melhor roupa. Em breve receberemos os amigos e vizinhos em grande agitação; nossos familiares estrilarão, ficarão surpresos, chorarão, farão muitos gestos sem nexo e todos realizarão coisas inúteis; não haverá ninguém que não tenha um ar preocupado ou que não deseje parecer um leão na jaula.

Só nós estaremos tranquilíssimos. Estendidos num móvel totalmente novo e que jamais terá outro dono, rodeado pelo perfume e pelo delicado toque das flores, estaremos completamente alheios à confusão geral e definitivamente não partilharemos os sentimentos dos circunstantes. Não teremos pensamentos de nenhuma espécie, nem mesmo os menores; tudo para nós estará doravante resolvido. Se naquela primeira vez em que estivemos em uma cama choramos desesperadamente, agora, nesta, será a última vez que deitamos, teremos sob os lábios não decerto o melhor, mas com certeza, o mais fino, ambíguo e irônico dos sorrisos. O sorriso da morte!

Afinal e ao cabo, neste momento e para todo o sempre “ego sum qui sum”, e nada mais.

 

"O Fascismo Cotidiano", de Nelson Werneck Sodré



Dentro da imensa obra do historiador, crítico literário, intelectual e marxista Werneck Sodré, encontamos um conjunto de crônicas forjadas a partir de “pequenas impressões da vida cotidiana”. Trata-se de “O Fascismo Cotidiano”, escrito no princípio da decadência da Ditadura, em 1976. Reportar-nos-emos a uma única dentre o conjunto das crônicas, dada a sua extrema atualidade, na medida em que “o fascismo cotidiano” viceja, de forma e intensidade distintas que no passado, ainda hoje, em nossa sociedade.

Werneck Sodré principia com anotações por ele realizadas entre janeiro e abril de 1935, em Moscou. Palmiro Togliatti dava, naquele então, uma série de cursos sobre o fascismo para operários italianos, nascidos para a vida política sob o regime estabelecido em 1922. 

Inicialmente ele nos introduz à definição de fascismo estabelecida pelo Plenário da XII Internacional Comunista: “O fascismo é uma ditadura terrorista declarada conduzida pelos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”. Lembra também que Zetkin preocupara-se em demonstrar o espírito pequeno-burguês do fascismo, sobre o qual Togliatti avança: “que é peculiar ao imperialismo uma tendência para uma transformação reacionária de todas as instituições políticas pela burguesia.” E isso porque a “burguesia tem de encontrar formas para exercer forte controle sobre os trabalhadores; as antigas formas de governo (formalmente democráticas) tornam-se obstáculos para o desenvolvimento”. Daí a burguesia assumir sua faceta reacionária e recorrer ao fascismo seria um passo. Essa transformação reacionária das instituições e o combate ao proletariado- quando organizado em classe social- abriria o caminho à “ditadura fascista elaborada”.  

Togliatti mostra que tanto a instalação do fascismo quanto a sua derrocada estaria sempre ligada à capacidade de defesa das instituições democráticas pela classe operária e à sua capacidade de “travar a conquista das grandes massas pequeno-burguesas descontentes.” 

Posteriormente, Werneck Sodré apresenta-nos uma resenha do livro editado por Togliatti, todo ele baseado em Gramsci, de quem este fora o continuador no Partido Comunista Italiano. Começa por traçar a personalidade de Gramsci: “exigência de seriedade, o repúdio das formas superficiais e falsamente populares, a impossibilidade de se adaptar ao regime de leviandade, irresponsabilidade, falta de sinceridade e vileza política”. “Como homem era pagão, inimigo de qualquer hipocrisia, acusador impiedoso de toda impostura, de todos falsos sentimentalismos, de todas as fraquezas. Quando utilisava as armas do riso e da troça, fazia-o para evidenciar a vaidade e a duplicidade dos que pregam ao povo a moral no interesse das classes dominantes.” 

Seus estudos, realizados antes do cárcere, levaram Gramsci a uma conclusão surpreendente: “Até mesmo os delitos (crimes comuns), que a opinião pública considerava como manifestações de um fatal atraso de costumes (na Sardenha), tinham aumentado assombrosamente com o desenvolvimento da exploração capitalista na região. A forma é como ele (o desenvolvimento capitalista) estava organizado, não em proveito do povo” mas das grandes corporações. E capta o sentimento ideológico da coisa: “O que se pretende expulsar, fechando a porta, torna a entrar pela janela, porque mesmo na análise dos fatos políticos concretos…, ninguém poderá prescindir das considerações de ordem geral, deixar de ver que as posições e juízos históricos e de valor, cujo todo forma o que se chama ideologia, são as colunas sobre as quais a política, quando séria, se apoia”.  

É fácil para ele, assim, sentir a ameaça fascista que cresce: “Qual a primeira liberdade a ser aniquilada e aniquilada da forma mais brutal, não com a adoção ou a promulgação de leis ou decretos, mas com o exercício da violência pura e simples e com o aumento da criminologia? A liberdade de organização e do movimento econômico dos operários, dos camponeses, dos pobres; a liberdade de opinião e de expressão, não de todos os cidadãos em geral, mas das referidas categorias… nesse barbarismo já está contido- como germe- todo o fascismo”.  

Gramsci logo verifica no avanço do fascismo duas consequências: “A primeira é que, quando o fascismo organizou o seu poder, primeiramente substituiu ou expulsou o velho pessoal dirigente político (Mussolini fora líder trabalhista e membro destacado da socialdemocracia italiana). A segunda é que o governo fascista arrasta atrás de si, até o fim, um bando de ineptos, inconscientes, aventureiros e delinquentes”. No entanto, “os postos dirigentes, consolidado o regime, pertencem a representantes e mandatários diretos do setor dirigente econômico, tanto industrial como agrário, submetendo-se-lhe de maneira absoluta”.

Os grupos que se reuniram em torno do fascismo, como agora nos recorda Tagliatti na expressão de Werneck Sodré, “mostram uma mentalidade de capitalismo nascente (agressivo) que se define no absoluto desprezo pelas leis escritas, pelas leis morais, pela pessoa humana e pelas conquistas da civilização e de cultura realizada pelos trabalhadores”. 

Gramsci na prisão não perdeu a perspectiva histórica e nisso, nos ensina Werneck Sodré, estaria parte de sua grandeza. Gramsci superou “o tosco naturalismo metafísico dos positivistas” e a “superstição fatalista do banal determinismo econômico”… “só o proletariado garantiria a liberdade para uma evolução para o socialismo”. Um processo revolucionário não merece esse nome – dizia o dirigente- “se não ataca e transforma as bases da organização produtiva”. Uma classe- acrescentava- torna-se classe nacional “só quando resolve os problemas de toda a sociedade”, isto é, tornando-os seus. Fazer política, em última análise, “significa agir para transformar o mundo”. 

Togliatti, à luz de Gramsci, desenvolve também o tema do papel da disciplina partidária e da democracia: “A disciplina, portanto, não anula a personalidade e a liberdade; a questão da “personalidade e da liberdade” põe-se, não pela disciplina, mas pela origem do poder que ordena a disciplina. Se esta origem é democrática, se a autoridade é uma função técnica especializada e não um arbítrio ou uma imposição extrínseca e exterior, a disciplina é um elemento necessário de ordem democrática, de liberdade.” Surge daí a questão da democracia: “A transformação da classe dirigente, obtida com o destronamento das classes exploradoras, garante, por outro lado, que, em todas as situações, a essência do novo regime é a mais democrática que a de todos os precedentes”.

Togliatti diz ainda que “na vida de um partido existe sempre um momento de inércia; quando uma concepção sectária o domina, esse momento de inércia tem um valor máximo e o seu peso é tanto maior quanto menos o partido for habituado ao debate interno, à elaboração coletiva de suas políticas e de suas iniciativas, à participação do maior número possível dos seus militantes nessa elaboração. 

Conclui Werneck Sodré com Togliatti afirmando sobre Gramsci que: “a sua grandeza não reside numa pretença infalibilidade do pensamento e da ação; reside, sim, em ter instaurado em todos os campos o método da reflexão e do juízo crítico.” 

De tal forma que a grandeza do pensador marxista italiano insere-se na própria contramão do “pensamento único”, tão ao gosto da direita quanto de determinados setores da esquerda. Prima pela negativa clara à retórica que prega o fim das ideologias, cujo alvo dissimulado é enfraquecer a política como esfera de representação de anseios e visões éticas. Ao mesmo tempo, a dialética gramsciana antecipa a “era do fim das certezas”, nosso presente, onde o determinismo e as evoluções lineares se desintegraram. Ele já considerava a realidade como um universo cheio de incertezas e, portanto, de imensas possibilidades de criatividade, do conhecimento como caminho para a liberdade.

 

Rosa Branca: a resistência na Alemanha nazista



22 de fevereiro de 1943, há 71 anos: três estudantes universitários alemães foram condenados e executados em Munique, por liderarem um movimento de resistência contra Adolf Hitler. Mais dois estudantes e um professor de filosofia, da mesma Universidade da Baviera seriam decapitados nos meses seguintes. Em Hamburgo, oitos estudantes igualmente seriam presos, condenados e executados. Dezenas de universitários das duas cidades foram presos, muitos torturados,  alguns condenados a prisão perpétua e outros a trabalhos forçados.

Ouvintes alemães! Sob esta chamada, o escritor alemão exilado, Thomas Mann, transmitia em sua língua pátria, via BBC, discursos antinazistas. De sua exortação de 27 de julho de 1943, extraímos esse breve trecho:

“Os anos repletos do mais brutal terror, de martírios e execuções, não foram suficientes para quebrarem a sua resistência... Os estrangeiros, contra os quais os bens sagrados da civilização devem ser protegidos, são eles, os nazistas. Apenas uma parte pequena e corrupta da classe superior, uma corja de traidores para quem nada é mais sagrado que o dinheiro e as vantagens, trabalha com eles. Os povos se negam a isso, e quanto mais evidente se mostra a vitória dos Aliados, mais cresce a revolta do povo alemão contra o que lhe parece insuportável... Nesse verão o mundo se comoveu profundamente com os acontecimentos na Universidade de Munique, cujas notícias nos chegaram pelos jornais suíços e suecos, primeiro sem muita clareza e, logo, com mais detalhes. Sabemos agora de Hans Scholl, sobrevivente da derrota nazista de Stalingrado e de sua irmã, Sophie, de Christoph Probst, do professor Huber e de todos os outros... Sabemos de seu martírio, dos panfletos que eles distribuíram... Sim, foi aflitiva essa predisposição da juventude alemã para a revolução mentirosa, falsa, do nacional-socialismo. Agora os olhos da juventude se abriram e por isso ele põem a cabeça jovem sob o cepo do carrasco. Mas para a glória da Alemanha eles não se calam nem mesmo perante os juízes nazistas: “Logo vocês estarão aqui, onde nós estamos agora”.

“Corajosa e magnífica juventude! Vocês não terão morrido em vão, não serão esquecidos. Os nazistas erigiram monumentos para arruaceiros imundos e criminosos comuns. Mas a revolução alemã, a verdadeira, irá derrubá-los e eternizará, em seu lugar, o nome daqueles que, quando a noite ainda cobria a Europa e a Alemanha, anunciaram: Nasce uma nova fé na liberdade e na honra”.

O grupo Rosa Branca aglutinou-se justamente em Munique, o berço do próprio nazismo. Ele era composto principalmente por estudantes universitários, muitos dos quais não se haviam oposto ao nazismo desde o princípio. No entanto, durante a guerra, eles assumiram posturas plenamente conscientes do risco de vida que elas representavam. Tinham entre 12 e 15 anos quando o Partido Nacional-Socialista tomou o poder político, em 1933, e, posteriormente, alguns deles haviam pertencido à juventude do Partido, empolgados pelos propalados amor à Pátria e à terra, pelo companheirismo da “Comunidade do Povo”, pela propaganda que fazia de Hitler um salvador da pátria.

No entanto, rebelam-se com o início da guerra e iniciam, corajosamente, suas atividades antinazistas em 1942. Na verdade, o movimento surgiu menos de uma ideologia política e mais da indignação com a forma como os alemães aceitavam o nazismo e a guerra feita em seu nome.

A partir de junho deste ano, panfletos começaram a ser encontrados nas caixas de correio de intelectuais dos grandes centros na Baviera e na Áustria. Seus endereços eram escolhidos aleatoriamente, nas listas telefônicas.

Os primeiros já revelavam o alto nível cultural de seus redatores, e centravam suas referências em diversos valores religiosos, principalmente em citações do “Eclesiastes” e do “Apocalipse”. Foram quatro os panfletos nessa fase e a estratégia era redigir os textos em máquinas de escrever, copiá-los e enviá-los pelo correio a partir de cidades diferentes.

Os textos conclamavam à resistência passiva contra a guerra e denunciavam a opressão intelectual praticada pelo nazismo; desejavam abalar a confiança dos alemães no Führer, despertarem ao menos um mínimo de dúvidas sobre a veracidade da propaganda feita pelo regime e alimentar eventuais células de resistência no próprio povo alemão.

O grupo de Munique consegue expandir-se para Hamburgo. Os dois últimos folhetos, distribuídos em 1943, já tinham um estilo completamente diferente, reflexo da primeira grande derrota que chocou a população alemã. A morte de 300 mil alemães na batalha de Stalingrado, que representou uma reviravolta na Segunda Guerra Mundial! Denunciavam que os soviéticos haviam apresentado a Hitler um plano razoável de rendição e que este optara pelo sacrifício de seus soldados, enquanto o comandante em chefe, von Paulus, do Exército invasor e agora cercado, fugia do teatro da guerra para a Alemanha.

Também pela primeira vez, em linguagem direta, os panfletos apresentavam planos concretos para a Alemanha pós-guerra, dirigindo-se a todas as camadas da população, não apenas aos intelectuais.

Numa manhã, a Universidade de Munique e os prédios próximos a ela, surgiram totalmente pichados com a frase “Abaixo Hitler e viva a Liberdade”. Willi Graf, Alexander Schmorell e Hans Scholl, os três estudantes de medicina, haviam passado toda uma noite disseminando a frase tão temida pelos poderosos.

No dia 18 de fevereiro os irmãos Hans e Sophie Scholl, estudante de biologia, planejaram sua ação mais ousada: distribuir os panfletos contra Hitler na Universidade de Munique. Os dois deixaram pilhas de panfletos em volta da escadaria central. Sophie ainda tinha alguns nos braços e os atirou de cima de um balcão para que eles caíssem em cima dos estudantes.

Ela foi vista por um funcionário da universidade, que chamou a Gestapo, a temida polícia secreta do Estado. Hans Scholl ainda tinha o rascunho do próximo panfleto em seu bolso, que ele tentou engolir, quando foi pego pela Gestapo.

Os irmãos foram presos, julgados, considerados culpados e condenados à decapitação, junto com o amigo e colaborador Christoph Probst, também estudante de medicina, no dia 22 de fevereiro de 1943. Nos interrogatórios demonstraram enorme coragem, que ficou conhecida em toda a Alemanha ainda no decorrer da guerra.  A primeira pessoa a ser chamada para a execução foi Sophie. Caminhou resoluta para a lâmina do carrasco, recusou a venda e antes que o machado abaixasse, em todo o presídio ouviu-se o grito da moça de 22 anos: “Viva a Liberdade”. A vida de Sophie foi transporta para o cinema no filme de Marc Rothemund, “Uma mulher contra Hitler”, em 2005.

Seu irmão foi executado a seguir e suas últimas palavras de foram: "Longa vida à liberdade!".

Ainda seriam executados em Munique o estudante Willi Graf, e o conservador professor de filosofia Kurt Huber. Nem mesmo sob tortura revelaram as conexões com o grupo de Hamburgo.

Durante o segundo semestre de 1943, entretanto, a Gestapo descobriu em Hamburgo o grupo de resistência que divulgava os panfletos do movimento de Munique. Os oito universitários que foram condenados à morte são: Hans Konrad Leipelt Greta Rothe, Reinhold Meyer, Frederick Gaussenheimer, Käte Leipelt, Elisabeth Lange, Curt Ledien e Margarete Mrosek.

O conservador antinazista, professor de filosofia Kurt Huber, termina sua defesa perante o “Tribunal do Povo”, dizendo que "nasce uma fé na liberdade e na honra" e  cita um verso de Fichte:

“E deves agir como se

Só de ti e de tua ação dependesse

O destino das coisas alemãs,

E só tua fosse a responsabilidade.”

O último panfleto do grupo Rosa Branca, o mesmo cujo “stencil” Hans tentara engolir, foi levado para fora da Alemanha e interceptado pelos Aliados. No outono de 1943 milhões de cópias deste panfleto foram jogadas sobre a Alemanha pelas aeronaves das tropas libertadoras.

 

O Feminino, na óptica de Ernesto Sabato



Já passam de três décadas o nosso encontro. Papeamos durante toda a noite. Dom Ernesto era um homem aberto, como ele se dizia, um heterodoxo; sentia-se livre para dar o pitaco sobre todos os assuntos, desde arte à filosofia, passando, pela política e religiões. Corajoso, trazia a dialética de seu raciocínio como escudo para o combate às ortodoxias.

A temática de nosso encontro principiou por um texto que Dom Ernesto publicara há algum tempo, que entre outras temas, tecia críticas à Simone de Beauvoir, para quem “ninguém nasce mulher, torna-se”. Ele se opunha a essa negação das diferenças primordiais entre o feminino e o masculino. A ideia ingênua de que todos os seres humanos nasceriam iguais invadia a sua concepção no campo da sexualidade, pois essa ideia transformava homens e mulheres em opções culturais, e não físicas e psicológicas.

“ Há muitos anos  eu afirmei que sempre haverá um homem que, embora sua casa desmorone, estará preocupado com o universo. Haverá sempre também uma mulher que, embora o universo desmorone, estará preocupada com sua casa.”

A respeito da revolução feminista vitoriosa ele me disse: “Caro, em todos os campos, tanto no da política quanto no dos costumes, em tudo que for humano, as revoluções começam com maiúsculas, perduram com minúsculas e acabam entre aspas”. “ Já o inocente e simples fato de mostrar diferenças entre os dois sexos, põe muitas pessoas em guarda e vocês as ouve resmungar palavras como reacionário, bárbaro… Veja que o dito progressismo consiste hoje em manter como vivas ideias definitivamente envelhecidas, tal como a igualdade entre os sexos”.

Em seguida Dom Ernesto explanou  seu pensar a respeito dos arquétipos, bem em consonância com os princípios de Jung: “Estabelecer as diferenças entre homem e mulher não implica ignorar a bissexualidade de todos os seres humanos, aquilo que é  atávico e, portanto, profundo, o amálgama de atributos masculinos e femininos que existem em cada um de nós. Pelo contrário, para falar em bissexualidade temos primeiramente que falar de masculino e feminino, estabelecendo os caracteres arquetípicos do Homem e da Mulher, objetos que só existem em estado de pureza no universo platônico, mas que, de alguma forma regem as características dos homens e mulheres reais”.

Entendiam os antigos gregos que Zeus separou o andrógeno primitivo, um gigante  possuidor de duas faces, quatro braços e quatro pernas, em duas partes de igual dimensão e importância; ao cortá-lo ao meio, ele produziu o andrós- masculino , e o guyné- feminino; Portanto, aquele que era uno foi transformado em um duplo, criando  metades complementares, tanto no “somma” quanto no “noos”, no corpo e na mente, surgindo o homem e a mulher. Zeus fez mais, pois individualizou-os de tal modo a fazer com que, quais ímãs de polaridades opostas, cada metade se atraísse, e somente se sentisse complementada na unicidade restabelecida. Em “O Banquete”, o Aristófanes Platônico por estar preocupado com a felicidade dos homens, enfatiza que somente os amigos de Eros podem alcançá-la.

“Mas já viajamos em demasia; voltemos aos arquétipos. O masculino persegue as ideias puras e abstratas, esses entes misteriosos que não pertencem ao mundo dos vivos. Já o feminino demonstra não apenas uma incapacidade para a abstração, mas também indiferença e até repugnância. As mulheres se destacaram nas artes, nas letras, mas muito poucas na filosofia. O arquétipo feminino volta-se para a maternidade e por isso demonstra um interesse tão vivo em relação a tudo o que a cerca, desde que possa ver, sentir, tocar. Sua avidez de conhecimento se dirige às coisas em si e não às suas causas remotas. Por considerar o universo com olhos e alma de mãe, os homens para elas não constituem objeto do conhecimento, mas seres capazes de sofrer e gozar, e ela busca ligar-se a eles pelo amor.”

“Já o espírito do homem não é retilíneo, mas dialético e paradoxal. O homem costuma partir de premissas lógicas e realistas para chegar a verdadeiras loucuras, às fantasias, a seus Moinhos de Vento, tais como Parmênides, Colombo, Cervantes e Napoleão. Ao inverso,  a mulher é ilógica e irrealista, insensata, mas adere às suas pequenas insensatezes com fúria realista e conservadora. O homem vai da realidade à sem-razão centrifugamente; a mulher, da sem-razão à realidade, centripetamente.”

“Se o instinto feminino é ilógico, ele, entretanto, não falha nos problemas da vida concreta, pois que estes jamais são lógicos. O homem fracassa comicamente querendo aplicar a lógica à vida, não havendo indivíduo mais grotesco na vida cotidiana que o filósofo ou o cientista”. “A mulher confia no irracional, no mágico, e por isso dificilmente perde a fé, pois o mundo jamais pode revelar-se mais absurdo do que ela o intuiu pela primeira vez. Já racionalizar o universo e Deus é empresa tipicamente masculina, loucura própria de homens”.

“A mulher foi a inventora de quase todas as artes úteis, desde as primeiras ideias sobre a agricultura e a pecuária, a domesticação de animais, a descoberta das tintas, a cerâmica, conserva de alimentos, teares e seus tecidos. Enfim, a indústria é essencialmente feminina enquando se mantém em escala doméstica. Quando, graças ao impulso capitalista, a indústria transforma-se em uma empresa gigante e abstrata, então, dela o homem se apossa”.

“Já o comércio, que é baseado no intercâmbio e no movimento, conduz e produz à abstração do valor e, desde sempre conduziu à masculinização do mundo”. O mesmo pode-se dizer do capitalismo puro, sem adjetivos, que é o capital financeiro.

“Diz Jung que o amor- ou ódio às coisas é prerrogativa do arquétipo masculino enquanto o traço feminino se traduz pelo amor- ou ódio às pessoas. Mas a mulher ama os seres que a rodeiam, assim como também as coisas que as rodeiam, como roupas, jóias, etc.. Por isso em suas viagens elas desejam transportar consigo “todo o seu mundo”. Já o amor masculino é abstrato, julgando-se, muitas vezes, capaz de amar e morrer por toda a humanidade, desde que não seja tocado pelo mais próximo.

Ainda Jung nos diz que levamos em nosso inconsciente, mais ou menos reprimido, o sexo contrário.”Se essa teoria é certa, as criações vinculadas à inconsciência, como a poesia e a arte, seriam no homem expressão de feminilidade. O artista seria assim uma combinação da consciência e razão do homem com a inconsciência e a intuição da mulher. Se nessa combinação predomina a inconsciência, a arte é romântica. Caso a consciência predomine, clássica.”

“No homem o sexo é um apêndice, estando para fora, para o mundo. Na mulher, para dentro, para o mistério primordial. No homem o sêmem é ejaculado, sai para o universo; na mulher, entra, penetra. A projeção masculina significa separação, cisão, desvinculação do homem em relação à sua semente. Na mulher, ao contrário, implica fusão, união”.

Jung sustenta que apesar da mulher ser essencialmente erótica, para ela a relação sexual tem menos importância que a anímica. Enquanto o homem tende a confundir Eros com sexualidade e julga possuir a mulher quando se une sexualmente a ela, em nenhum momento ele a possue verdadeiramente, pois para ela só importa de fato a possessão anímica,  sentimental. Para o arquetipo feminino, Eros constitui uma relação entre almas, sendo o princípio supremo da mulher.

“ Na prostituição pode-se chegar ao sexo no seu estado puro, e, consequentemente, ao último estágio da coisificação, da desesperação. Peceba que, mesmo enfeitados, sonoros, asseados, até os melhores prostíbulos são sempre tristes”.

“Podemos também relacionar o masculino com o diurno e o feminino com o noturno. É claro que os dois princípios coexistem em cada ser humano, mas seriam masculinos o dia, a ordem, a consciência e a razão, a lógica e a definição, os ouvidos e os olhos, a origem do clássico e do essencial. Por isso mesmo o masculino é meio esquizóide ao não se contentar, em geral, com essa realidade e passar a construir outras para si”.

“A mulher, comumente, não necessita mais do que tem dentro de si: leva o mundo e a humanidade inteiras em seu próprio seio. Femininos são a noite e o caos, a inconsciência, o corpo, a brandura, a vida e o mistério, o gosto e o tato, a origem do barroco e do romântico, do existencial. Diz La Rochefoucauld que os defeitos nascem da exageração das virtudes; as virtudes da mulher são seu autruísmo pela espécie, sua capacidade de sacrifício pessoal pelos filhos e pelos homens sob seus cuidados. Também como um contraponto, devido ao fato de seu mundo ser concreto e pequeno, ele situa-se a um passo das mesquinharias e dos ciúmes viscerais”.

Conversamos muito mais do que me é dado recordar e transcrever. Tantos anos após, aproveito o dia internacional da mulher, para, de certa forma traduzindo Dom Ernesto, falar sobre o feminino tão forte nas mulheres e, definitivamente, importante nos homens.

 

O Imperador do Brasil, Wagner e as barricadas



O Imperador Dom Pedro II era um intelectual. A erudição do mesmo surpreendeu até mesmo Nietzsche quando ambos se conheceram. Victor Hugo disse-lhe a esse respeito: “Senhor, sois um grande cidadão, sois o neto de Marco Aurélio” (o filósofo estoico, imperador romano). Alexandre Herculano considerou Dom Pedro um “príncipe, o primeiro de sua era”, “graças à sua constante aplicação nas ciências e na cultura”. Pedro II manteve intensa correspondência com cientistas, filósofos, músicos e intelectuais. Era um homem de seu tempo. Muitos de seus correspondentes se tornaram amigos incluindo Richard Wagner, Pasteur, Louis Agassiz, Chevreul, Graham Bell, Longfellow, Arthur de Gobineau, Frédéric Mistral, Manzoni, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco.

O Imperador  considerava a educação como de importância capital, era ele mesmo um exemplo do valor do aprendizado. Comentou: “Se eu não fosse Imperador, gostaria de ser um professor. Eu não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as jovens mentes e preparar os homens de amanhã.” Não era apenas um discurso, pois em seu reinado criou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Música e Ópera Nacional e o Colégio Pedro II, que serviu como modelo para escolas em todo Brasil. A Escola Imperial de Belas Artes, estabelecida por seu pai, recebeu seu maior apoio e teve enorme expansão. Financiou a criação do Instituto Pasteur voltado ao desenvolvimento das ciências. Foi quando Charles Darwin comentou a respeito: “O Imperador faz tanto pela ciência, que todo sábio é obrigado a demonstrar a ele o mais completo respeito.” 

 

Do outro lado do Atlântico, vivia seu contemporâneo,Richard Wagner. Desde cedo o jovem Wagner revelou também uma variedade de talentos artísticos: a literatura e a música. Após estudar esta última, descobriu ainda uma nova vocação: o teatro. E todos os seus dotes artísticos seriam combinados para a revolução que ele faria na ópera e na própria música. No entanto, ao contrário do brasileiro, o alemão não possuia fortuna alguma e gostava de esbanjar todo o dinheiro que lhe caísse às mãos.

Após seus estudos, serviu como regente de orquestra em teatros de províncias sem grande sucesso. Vivendo em dívidas e apuros, sua primeira fuga da Alemanha, em 1836, foi motivada por seus credores, que o ameaçavam levá-lo à prisão. 

Mudou-se para a Letônia, onde se casou com a cantora Mina Planer. Mas foi breve sua estada em Riga, poi o compositor meteu-se outra vez em dívidas; o casal empreendeu nova fuga.

Paris, a capital do mundo artístico, foi a  próxima parada, em 1838. Wagner contava com a ajuda prometida por um judeu alemão, Meyer, um amigo músico a quem auxiliara no passado e que fizera fortuna no teatro parisiense. Este adotara o nome artístico de Meyerbeer, para distanciar-se de sua origem judaica. Wagner decepcionou-se com a ingratidão de quem até mesmo fingiu não reconhecê-lo em público e muitos encontram aí a origem do antissemitismo, que o acompanharia por toda a vida.

O tempo que viveu com Mina na França foi o da mais extrema pobreza. Afinal, ao contrário do que se passara em outros países, não teve como escapar da prisão por dívidas em 1840, quando ficou trancafiado por seis meses.

Em 1842 consegue voltar à Alemanha graças à estreia, com grande sucesso, de sua ópera “Rienzi”. Parecia que a sorte iria finalmente lhe sorrir; as apresentações de “Rienzi” garantiram-lhe fama e prestígio; ele foi nomeado Diretor da Ópera de Dresden. Segue-se uma fase de grande produtividade e inventividade artística: “O Navio Fantasma” e “Tannhaeuser” constituem seus novos sucessos nessa etapa luminosa.

Mas a promissora vida burguesa seria novamente interrompida. Todo o mundo europeu se agita ao final dos anos quarenta. Em 1848, surge com a força de um vendaval a varrer a velha ordem, “O Manifesto Comunista”, escrito por Marx e Engels. O povo parisiense ergue barricadas e sua luta leva à deposição de Luís Felipe, o último dos Bourbons, restaurador do monarquismo pós-bonapartista. Quase todas as monarquias absolutistas enfrentam a revolta popular na Europa, inclusive a arquirreacionária Alemanha.

Richard Wagner, imbuído de ideias libertárias, socialistas e anarquistas, une-se ao grupo que possuia Bakunin como líder e pega em armas, participando da Revolução de Dresden, em 1848 e 1849. Dirige sua orquestra com a destra enquanto com a esquerda “empunha um trabuco”. No dia primeiro de abril de 1849 rege, no Teatro de Dresden, a Nona Sinfonia de Beethoven e, no dia três junta-se à Guarda Comunal Revolucionária,  e publica o manifesto “A Revolução”.

Resiste às tropas monarquistas nas barricadas nas ruas e, depois, participa da luta que se extende casa a casa. A balança pende para o lado dos reacionários, mas Wagner não se entrega. Desejava partir em busca de reforços para a revolução, quando seu líder, Bakunin, abandona a luta. Finalmente, quando toda Dresden cai nas mãos dos monarquistas, o compositor é dos últimos a empreender a fuga em companhia de Mina, que também combatera ao seu lado.

Em Weimar é socorrido por Liszt, que o abriga. Em casa do grande húngaro conhece ainda menina, Cósima, sua filha e seu futuro amor. Mas ele não pode permanecer em território prussiano. Foge para Paris e, finalmente, chega a Zurique, onde se exila. Na sua ausência, Liszt fará representar “Lohengrin”, novo sucesso de crítica, que lhe proporciona ganhos financeiros, imediatamente gastos para pagar dívidas vencidas.  

Na Suíça, iniciará a composição de “O Anel dos Nibelungos”, produção que somente concluirá vinte e seis anos após. Neste período ele começa a abandonar as ideias anarquistas e socialistas e afeiçoar-se ao budismo e à filosofia de Shoppenhauer. Torna-se vegetariano e escreve e edita o livro “Arte e Revolução”.

Quem o socorrerá nesta fase de exílio será Otto Wesendonck, um rico industrial e mecenas das artes. Ora, Wagner irá se apaixonar pela esposa do anfitrião, Matilde, tornando-se amantes. Ela será a inspiração de sua próxima ópera, baseada na lenda de “Tristão e Isolda”.

Mina, a esposa enganada, promoverá um enorme escândalo e o casal terá que abandonar o luxo em que vivia na residência do marido traído. Em seguida, Wagner se divorcia da esposa e se junta aos velhos e conhecidos companheiros de jornada: a miséria e as dívidas. E aí entra, em sua história, Dom Pedro II, o Imperador do Brasil. 

 

Dom Pedro é um amante das artes progressitas, e, mesmo Wagner tendo por fama ser um revolucionário feroz, isto não o incomoda e em absoluto o impede de sonhar com a encenação e regência de uma ópera wagneriana no Brasil, que para ele significava a “música total”. Em 1857, envia o embaixador brasileiro de Leipzig até Zurique para que contate o músico e lhe faça uma oferta. Wagner envia partituras autografadas de diversas óperas suas como reconhecimento seu a Dom Pedro.

As cartas entre Pedro de Alcântara e Richard Wagner tornam-se uma constante. Ciente das dificuldades do grande gênio, o Imperador oferece-lhe suporte financeiro para a montagem da nova ópera “que seria diferente”, revolucionária até mesmo para os padrões wagnerianos, aquela que constituiria um prenúncio do atonalismo da moderna música do século XX: “Tristão e Isolda”.

Wagner chega a aceitar que a encenação primeira desta ópera ocorresse no Brasil, mas o Imperador nada lhe exige por escrito. Tão pouco Dom Pedro contava com a nova e rápida reviravolta que ocorreria na vida do músico. Com a ascensão ao poder de Napoleão III, na França, a sorte começaria a mudar. Em 1859 realiza, a convite do mesmo, a montagem de “Tannhaeuser”. Talvez por não incluir os “bailados” tão em voga, a peça não cai muito ao gosto dos parisienses, “viciados nas obras medíocres de Meyerbeer” e de Halévy.

Menos de um ano após, entretanto, ele é anistiado e retorna à Alemanha. No trono da Baviera está Ludwig II, sujeito meio louco e conforme alguns, homossexual, que se apaixona pelo compositor. O certo é que por toda a sua vida essa paixão somente crescerá e o rei jamais negará algo que Wagner lhe pedir.

Em 1861 estreia a ópera “Tristão e Isolda” com grande pompa e circunstância na cidade de Munique. Dom Pedro II, que lhe fornecera dinheiro nos piores momentos, quando a montagem da ópera era apenas o projeto de um pobre exilado, não teve a devida retribuição, pois Wagner jamais montaria qualquer uma de suas peças em nosso país.

Entretanto, no dia da estreia, lá estava o Imperador do Brasil para aplaudi-lo. No registro do hotel em que se hospedou, quase anonimamente, Pedro de Alcântara escreveu no quesito profissão: “Imperador do Brasil”. Ao final da apresentação, o consagrado Wagner recebeu um bilhete em seu camarim: “Parabéns por Tristão e Isolda! Insuperável!”, Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil. Retirou-se da mesma maneira discreta com que, no futuro, em Bayreuth, assistiria a todas as “vernissages” wagnerianas, a “ O Anel dos Nibelungos”, tendo contribuÍdo financeiramente para a edificação do fabuloso “teatro de Wagner”. 

 

Três anos após, em 1964, Wagner conhece o conde Bollow, milionário, amante da música e compositor, casado com a filha de Liszt. Wagner hospeda-os em sua casa e apaixona-se por Cósima. Não lhe importa que ela seja vinte anos mais jovem e esposa recém casada de um amigo. Eles se tornarão amantes e, quando ela engravida, o filho não será do marido, mas de Wagner. O casal Bollow se divorcia e a filha de Liszt torna-se protestante para contrair um novo casamento, com o amante. Liszt rompe com o Wagner, devido a sua permanente ingratidão.

De todo modo, o casal terá três filhos, a primeira dos quais se chamará Isolda, quem sabe por lembranças das noites passadas nos braços de Matilde, a esposa do industrial suíço.

Muito mais eventos ocorreriam na controvertida e agitada vida do grande autor neo-romântico alemão. Ele até mesmo será novamente banido da Baviera, em 1865, por imposição da Corte Imperial. O que, entretanto, jamais Wagner provará novamente, será a pobreza, pois, mesmo exilado, o rei Ludwig II manterá em dia sua polpuda pensão mensal. Mas isto é uma nova história, que, quem sabe, um dia ainda contarei.

 

A Batalha por Moscou



Baseada no livro do General Vassíli Riábov: “O Grande Feito do Povo Soviético e seu Exército”. (Editora Progresso, Moscou, 1983)

1. Introdução

Desde o início da Guerra, os nazistas tinham como estratégia a tomada de Moscou. O inimigo calculava que com a queda da capital política e econômica da U.R.S.S. seria quebrada a resistência do Exército Soviético e a guerra terminaria. Na operação denominada “Tufão”  o comando nazi esperava desbaratar as tropas soviéticas ainda nas vizinhanças da capital (entre Viazma e Briansk) e depois invadi-la e destruí-la. O “Grupo de Exércitos Central”(sic) recebeu reforços e as forças atacantes somavam: 74 divisões, dentre as quais 14 blindadas e 8 motorizadas, 1 milhão e 800 mil soldados e oficiais, 1.700 tanques de guerra, 1.390 aviões, artilharia de mais de 14.000 canhões e morteiros.

As tropas soviéticas na Frente do Oeste e incluindo suas reservas, contavam com 1 milhão e 250 mil homens, 990 tanques (em grande parte ligeiros), 677 aviões ( apenas 20% de novo tipo), 7.600 canhões e morteiros.

2. A Ofensiva Nazista

Em outubro de 1941 as tropas nazistas desencadearam a grande ofensiva, desferindo vigorosos golpes sobre as forças soviéticas que constituiam a primeira linha de defesa de Moscou, a mais de 200 km da capital. O Comando Soviético e o Partido Comunista tomaram medidas enérgicas de defesa, como a construção de fortificações nos seus arredores, nas quais trabalharam dia e noite 600 mil voluntários; divisões da Sibéria e do extremo oriente foram trazidas; a defesa antiaérea foi reforçada e 12 divisões de milicianos populares foram preparadas.

Na retaguarda das tropas fascistas desdobrou-se um intenso movimento guerrilheiro, decisivo no corte de linhas de abastecimento das mesmas.

Em Viazma as tropas soviéticas foram cercadas pelo inimigo muito mais forte, no entanto, apresentaram tal nível de resistência que 28 divisões do Exército de Hitler ficaram, inicialmente, imobilizadas. Em muitas frentes o cerco foi rompido e as forças soviéticas conseguiram se retirar e agruparam-se na linha de defesa de Mojaisk.

Ao norte de Moscou o inimigo teve que fazer frente à obstinada resistências das tropas soviéticas do setor de Kalinin.

Ao sul, Tula tornou-se um obstáculo intransponível. Todas as tentativas do exército blindado do alemão Guderian para tomá-la fracassaram. A luta chegou a ser realizada casa a casa, quando o Regimento Operário de Tula provocou, às custas de praticamente sua extinção, enormes baixas aos nazistas.

Ao preço de grandes perdas humanas e materiais, o inimigo conseguiu finalmente alcançar os acessos próximos de Moscou, praticamente a 80 km da frente de combate. O Comitê de Defesa do Estado decretou “estado de sítio”; todo o corpo diplomático foi evacuado, parte das instituições governamentais e fábricas voltadas ao esforço de guerra, transferidas para o leste. Entretanto, o comando político- militar soviético permaneceu em seus postos na capital.

Graças à resistência de Tula, de Viazma, da ação de solapamento guerrilheiro às linhas de suprimento nazistas, o ataque frontal a Moscou teve que aguardar duas semanas para sua preparação, o que permitiu um maior reforço em toda última linha de defesa da capital soviética.

3. A Defesa de Moscou

O moral do Povo e do Exército Soviético foi fortalecido na comemoração do vigésimo quarto ano da Grande Revolução. Moscou sitiada não deixou de comemorar o 7 de Novembro. Stalin, do palanque instalado no Mausoléu de Lênin disse: “Uma grande missão vos coube! Sede dignos dela, pois a guerra que fazemos é uma guerra justa, libertadora”.

Moscou seguia sitiada, mas inabalável. Aproximava-se o inverno, o que enfurecia Hitler e seus generais que haviam sonhado com um “Tufão”, uma guerra rápida. As tropas nazistas, apesar de suas perdas, ainda eram, em muito, superiores. Apenas e tão somente, na aviação o comando soviético conseguia manter certa superioridade numérica.

A nova ofensiva nazista começou em 15 de novembro de 1941. Dois potentes agrupamentos com 51 divisões, dentre elas, 20 blindadas e motorizadas, assestaram seus golpes ao norte sobre Kline e Solnetchnogorsk, ao sul sobre Tula e Kachira, tentando fechar o cerco a Moscou. Paralelamente, atacavam a oeste da capital, através de Istra e Naro- Fominsk.

Os combates duríssimos travados foram marcados por atitudes firmes e heroicas. A 8ª. Divisão do general Panfilov conseguiu fechar o acesso dos atacantes à estrada de Volokolamski; 28 combatentes desta mesma Divisão realizaram uma façanha imortal, lançando-se contra dezenas de tanques, num combate que durou quatro horas; nenhum deles sobreviveu, mas, ao final, 18 tanques ardiam e ao seu redor, dezenas de soldados alemães encontram sua sorte.

Soldados de infantaria, tanquistas, cavalaria, fuzileiros navais da esquadra do Pacífico, artilheiros, sapadores, combatentes de todas as armas defendiam com excepcional bravura Moscou impedindo todas as tentativas nazi de ruptura da linha de defesa final.

Entre todas as capitais europeias atacadas pelo ar pelos hitleristas, a melhor protegida, a que sofreu menos danos materiais e da população, foi Moscou. Ao todo, a aviação soviética e a defesa antiaérea abateram 1.300 aviões inimigos. Na história da Batalha de Moscou figuram os nomes de 24 pilotos de caça que, ao terem seus aparelhos praticamente inutilizados pelo fogo inimigo, conseguiram arremeter e provocar colisões com a destruição de aeronaves nazis.

Na retaguarda do inimigo, os guerrilheiros reforçavam os seus golpes. Seus nomes jamais foram esquecidos. Em uma das estações do metrô de Moscou, há alguns anos, pude reverenciar a escultura dedicada a Zoia Kosmodemiaskaia (teria o nome Zoia inspirado Prestes ao dar esse mesmo a uma de suas filhas, a responsável pela tradução para o português do diário da segunda mulher de Dostoievski?). Aos dezesseis anos, a moça despediu-se de sua mãe e de Moscou para juntar-se aos guerrilheiros. Conseguiu ultrapassar a linha de frente e seu grupo, no inverno russo, dedicou-se a incendiar as casas em que os nazistas se abrigavam. Foi presa por uma patrulha e resistiu heroicamente à tortura. Seus carrascos decidiram enforcá-la; enquanto o carrasco lhe colocava a corda no pescoço, ela gritou aos aldeões coagidos a assistir à execução: “Eu não tenho medo de morrer, camaradas. É uma felicidade poder morrer por meu povo!”

Os combates, entretanto, sem ruptura de fileiras, aproximaram-se até a distância de 25-30 km de Moscou. Mas a partir daí não conseguiram avançar um palmo. No auge da Batalha de Moscou as tropas soviéticas passaram à ofensiva nos acessos de Leningrado e na frente sul, libertando as cidades de Tikhvine e Rostov. Essas ações impediram a chegada de novos reforços.

4. A Contra-Ofensiva

Lenta mas implacavelmente, a correlação das forças mudava a favor das Forças Armadas Soviéticas. Em 5 de dezembro de 1941, contando com forças de retaguarda, teve início a primeira operação ofensiva estratégica das forças soviéticas na Segunda Guerra Mundial, numa frente de 500 km de batalha, indo de Kalinin a Ielets. Seu objetivo era desbaratar os agrupamentos de choque inimigos e colocar Moscou livre do perigo de invasão. Inopinado e demolidor, o primeiro golpe soviético estonteou o inimigo. Mas ao voltar a si, ele ofereceu encarniçada resistência às forças vermelhas, mas, às custas de grandes perdas, teve que recuar a toda pressa.

Os campos de batalha nas proximidades de Moscou ficaram cobertos de cadáveres de soldados e de oficiais fascistas, de material de guerra alemão destroçado e abandonado. No território libertado viam-se por toda parte traços das destruições e da ferocidade dos alemães e seus aliados. Por exemplo, em Kline devastaram a casa-museo de Tchaikovski, em Iasnaia Poliana pilharam o museo de Tolstói e profanaram o túmulo do escritor genial. Em Volokolamsk, as tropas libertadoras encontraram mais de cincoenta jovens da organização de resistência Komsomol barbaramente trucidados e enforcados pelos nazistas em fuga.

A contra-ofensiva coroou-se por uma brilhante e esmagadora vitória. A operação “Tufão” dos nazistas, em que eles tanto haviam apostado, fracassara. Seus agrupamentos de choque foram repelidos para mais de 200 km de Moscou, após perderem 38 divisões, dentre elas, 15 blindadas e motorizadas. A derrota abalou seriamente a máquina de guerra nazista, tida até ali, como imbatível.

Durante seu avanço as tropas soviéticas libertaram 11.000 localidades, incluindo 60 cidades. A inferioridade das tropas vermelhas fora superada pela superioridade política e moral, pela incorporação de todo um povo na luta Pátria.

No inverno de 1941/1942, com a ofensiva libertadora em Leningrado, as perdas humanas nazistas ultrapassaram os 850 mil mortos e “O Eixo”, pela primeira vez, desde 1939, perdeu a iniciativa estratégica. Num discurso pela rádio inglesa, disse Charles de Gaulle: “Não há um só francês honrado que não aclame a vitória da Rússia. Enquanto a força e o prestígio alemães oscilam, sobe ao zênite o sol da glória russa”.

O jornal Star de Washington, reproduzindo fala do Presidente Roosevelt, escreveu: “Os sucessos da Rússia revestem-se de grande importância não só para Moscou e o povo russo, como também para Washington, para o futuro dos Estados Unidos. A vitória renderá homenagem aos russos por terem suspendido a “guerra relâmpago”, pondo em fuga o inimigo”.

A guerra nazi-fascista ainda levaria o terror a muitos povos da Terra; cobraria muito sangue, mas o “crepúsculo dos deuses” já se delineava no horizonte. Moscou estava salva.

 

Leningrado rompe o cerco nazista



Operação Barbarossa: assim foi denominada a primeira fase do ataque alemão à União Soviética na Segunda Guerra, desencadeada em junho de 1941. E de início tudo correu de acordo com os planos dos líderes da maior e mais perfeita máquina militar até então montada no mundo. A ação das tropas nazistas foi arrasadora; a blitzkrieg funcionou perfeitamente na Rússia. Precedidos por uma intensa barragem de artilharia pesada e de um sistemático bombardeio aéreo de saturação que pulverizaria fortificações, entroncamentos ferroviários, bases aéreas e navais, centros de concentração de tropas, depósitos de material bélico e combustível, três poderosos exércitos alemães, antecedidos por grandes formações blindadas invadiam a União Soviética, com o apoio de forças finlandesas, húngaras e romenas.

Privado de comando competente, comunicações rápidas e perdendo a iniciativa da luta em todos os setores, o Exército Vermelho foi facilmente dividido em grandes grupos pelas vanguardas blindadas alemãs, que operavam como cunhas. Posteriormente, os grupos isolados eram cercados e submetidos a bombardeios de saturação.

Para os soviéticos, a invasão foi uma dupla e dolorosa surpresa. A primeira surpresa foi tática, pois os comandos soviéticos responsáveis pela defesa das fronteiras ocidentais estavam com as mãos amarradas, em vista das ordens expressas de Stalin de evitar qualquer medida que pudesse ser interpretada como "provocação" aos alemães. Assim, a despeito da surpresa, da desorganização inicial do Exército Vermelho, da perda de importantes bases, centros de comunicações e indústrias vitais, os russos revelavam-se dispostos a lutar, contrariando os prognósticos dos alemães.

As ordens de Hitler eram que todos os judeus e militantes comunistas que lhes caíssem nas mãos deveriam ser sumariamente liquidados, além de considerar toda a população como refém para execução como represália a qualquer ato de sabotagem ou guerrilha. Blumentritt, um dos generais responsáveis, observaria: "A conduta dos russos, mesmo nos primeiros choques, é completamente diferente dos poloneses e dos ocidentais quando são batidos. Mesmo quando estão cercados, os russos resistem e lutam, quase sempre até a morte…”

Os exércitos que invadiram o Norte da Rússia eram comandados por Van Leeb e tinham Leningrado, cuja frota marítima dominava o Báltico, como alvo principal. Foi o agrupamento armado, que mais blindados possuía e que mais rapidamente avançou (realizou cerca de 300 km em quatro dias!).

No global a operação nazista no curto período de 90 dias ocupou uma área em que vivia 40% da população soviética, de onde provinham 65% do carvão, 60% do ferro, do aço e do alumínio, 40% dos cereais e 90% do açúcar. Os agrupamentos nazistas da Frente Sul ameaçavam o Cáucaso, os do Norte estavam a ponto de tomar Leningrado e os do Centro continuavam rapidamente a caminhada na direção de Moscou. Enquanto isso, o número de soviéticos aprisionados nas grandes batalhas de envolvimento chegava a centenas de milhares, enquanto o de mortos — civis e militares — ultrapassava em três meses o primeiro milhão.

Restava aos soviéticos apegarem-se desesperadamente nos trunfos que lhes restavam: ao espírito da Revolução de 1917, ao sentimento patriota do povo, e, também, aos tanques T-34, que se revelariam os mais eficientes da Segunda Guerra Mundial. Possuíam ainda a unidade de comando especial, a Stavka, que funcionando sob a orientação direta de Stalin, desferia golpes certeiros e mortais no inimigo; unidades guerrilheiras que, rapidamente formadas, destruíam linhas de comunicação dos invasores. E, finalmente, um punhado de oficiais altamente capacitados e que se encarregariam de transformar o Exército Vermelho, que se retirava em todas as frentes, numa formidável máquina de guerra, à altura da alemã. Entre esses oficiais sobre os quais recairia o peso da missão de transformar a sucessão de derrotas na vitória final estava o gênio de Jukov.

 

Ao Norte, estava Leningrado quase totalmente sitiada. Hitler tinha planos especiais para a cidade que havia sido o berço da Revolução de Outubro. De início, estava disposto simplesmente a ocupá-la. Mas a obstinada resistência oferecida pelo Exército e pela Marinha em defesa da cidade o exasperaria a tal ponto que ele ordenou que as eventuais ofertas de rendição das forças que defendiam Leningrado fossem ignoradas. A cidade deveria ser inteiramente destruída, com tudo o que representava e todos os seus habitantes, civis e militares, exterminados sem contemplação. Depois de concluída tal missão, as forças do general Von Leeb deveriam convergir sobre Moscou, desfechando contra a capital soviética um ataque coordenado com as forças do Grupo de Exércitos Centro, comandados por Von Bock.

A queda de Leningrado era precisamente o que o comando soviético mais temia. Além de constituir um importantíssimo centro industrial, constituía um símbolo tão precioso para os soviéticos como Moscou, e sua perda teria um efeito psicológico catastrófico. Além disso, a rápida junção das forças de Von Leeb com as de Von Bock, antes que novas reservas soviéticas pudessem ser mobilizadas, tornaria a ofensiva alemã rumo a Moscou realmente irresistível.

O moral da população civil de Leningrado, onde Zhdanov atuava como principal comissário era excelente. Entretanto, o mesmo não sucedia em relação às forças de defesa. Eram frequentes os recuos, os abandonos não autorizados de posições, as deserções. A disciplina deteriorava-se rapidamente, ordens importantes deixavam de ser cumpridas e os alemães estavam a ponto de completar seu cerco. Foi para garantir a defesa da cidade ameaçada que Stalin chamou Jukov a Moscou, no dia 8 de setembro. Vinte e quatro horas depois, investido de poderes quase absolutos, Jukov voava para Leningrado. E no dia 9 de setembro, Jukov, com os oficiais de seu estado-maior, que selecionara cuidadosamente, chegava a Leningrado para defrontar-se com a mais difícil missão de sua carreira.

Dispensando protocolo e cerimonial de recepção, Jukov dirigiu-se diretamente da pista do aeroporto de Leningrado para o Smolny, de onde Lênin desfechara e comandara a Revolução de Outubro e que agora servia de sede ao quartel-general de Leningrado. Já no dia 13, Jukov foi informado pelo seu estado-maior de que os alemães se preparavam para lançar um ataque frontal e final contra a cidade.

Analisando suas linhas de defesa, Jukov  tomou um primeiro susto. Foi informado que os grupos de tanques encarregados da defesa de determinado setor vital não existiam mais — tinham sido substituídos por simulacros de madeira, construídos num teatro local. Era sobre esses falsos tanques que a artilharia alemã concentrava seu fogo naquele momento. O Marechal ordenou que providenciasse naquela mesma noite mais cem falsos tanques, para dispô-los em outros dois setores ameaçados. Bychevsky, seu assessor, respondeu que o teatro não tinha condições para produzi-los naquela noite. "Como se chama seu comissário, camarada coronel?” perguntou Jukov. "Coronel Mukha.", respondeu-lhe. "Pois diga a esse coronel Mukha que se até amanhã de manhã os tanques não estiverem nos pontos que escolhi, vocês dois serão submetidos a um conselho de guerra. Fui claro? Amanhã, eu mesmo farei a verificação".

Os falsos tanques foram providenciados a tempo e a determinação inabalável de Jukov logo se tornou conhecida de toda a guarnição. Quem não cumpria as suas ordens era imediatamente punido. Para pôr fim à indisciplina, Jukov mandou fuzilar sumariamente oficiais, comissários e soldados que tinham abandonado sem ordens expressas suas posições. Determinadas unidades em que se tinham registrado casos de insubordinação — tanto do Exército como da Marinha — foram dissolvidas e seus integrantes incorporados a outras. Em todos os níveis e todos os setores, a ordem era sempre a mesma, fossem quais fossem as condições — atacar, atacar, atacar!

Preparando-se para o pior, Jukov convocou Bychevsky e ordenou-lhe que minasse sistematicamente todos os principais setores do centro de Leningrado, a começar pelas pontes. Destacamentos especiais da polícia secreta foram encarregados de organizar a defesa interna, mobilizando não apenas prisioneiros políticos, mas a própria população civil de Leningrado não empenhada nas indústrias e serviços vitais, mais de 100 mil pessoas, na construção de fortificações internas. Se os alemães chegassem à cidade, teriam de lutar rua por rua e casa por casa para ocupá-la. Até mesmo crianças e mulheres foram mobilizadas para a defesa.

Havia uma grande falta de armas para equipar os batalhões organizados às pressas e Jukov ordenou que se recorresse às velhas armas dos museus militares. Canhões antitanque foram montados em velhos bondes, caminhões e ônibus; dezenas de milhares de coquetel Molotov e de granadas eram diariamente fabricadas pelas indústrias civis convertidas em pequenas oficinas improvisadas. Estacas com pontas de aço foram cravadas e ninhos de metralhadoras montados em todos os espaços abertos da cidade e nos seus arredores, para prevenir lançamentos de paraquedistas alemães.

Menos de uma semana após a chegada de Jukov, Leningrado havia perdido seu aspecto normal — todas as ruas e avenidas da grande cidade estavam bloqueadas por treliças de trilhos de aço, casamatas de concreto, embasamentos de artilharia e ninhos de metralhadora. Nas praças e sobre os edifícios mais altos estavam concentrados os canhões antitanque e antiaéreos. Todos os navios da Marinha ancorados estavam empenhados no bombardeio incessante das posições alemãs.

Nesse meio tempo, Jukov tudo inspecionava. Verificava pessoalmente o cumprimento estrito do racionamento de gêneros alimentícios, o estado das defesas internas, as posições avançadas do perímetro externo de defesa. Ante a opção inexorável- obedecer sem vacilar ou ser fuzilado, ninguém vacilava. E foi com esse espírito que se conteve os alemães nos subúrbios de Leningrado!

A noite de 17 de setembro de 1941 foi crucial para a defesa da cidade. As defesas externas, a despeito de todos os esforços, pareciam a ponto de ruir ante as maciças investidas alemãs e Jukov ordenou que se completassem os últimos preparativos para a destruição da cidade. O porto, os navios fundeados, os grandes armazéns, os entroncamentos ferroviários e todos os principais edifícios estavam minados e tudo deveria voar pelos ares a uma palavra de Jukov, no preciso momento em que os alemães penetrassem no perímetro interno de Leningrado!

Naquela mesma noite, lançando à luta todas as suas reservas, e entre essas reservas havia batalhões de civis, adolescentes, trabalhadores que tinham cumprido seu turno diário de doze horas nas fábricas, presos políticos, milicianos, marinheiros, intendentes e almoxarifes, escriturários e ferradores, Jukov e o heroísmo do povo soviético conseguiram conter os alemães.

Todos os esforços desenvolvidos pelo nazista Von Leeb, com ajuda da aviação, artilharia e infantaria motorizada para cortar a derradeira via de suprimento que ainda ligava Leningrado ao resto da URSS, as linhas estabelecidas através do lago Ladoga, falharam. Seus ataques encontravam sempre a obstinada resistência dos contra-ataques de Jukov, apoiados por uma arma até então desconhecida pelos alemães e que produzia terríveis efeitos sobre seus blindados e infantaria motorizada: os foguetes terra-terra do tipo Katyusha, lançados de baterias múltiplas montadas sobre caminhões.

E foram a vontade de ferro de Jukov e do povo de Leningrado, o comando dos comissários comunistas que acabaram prevalecendo sobre uma guarnição desmoralizada e carente de recursos, sobre a população civil faminta e privada de tudo, na cidade incessantemente submetida a duro bombardeio, levando-a a resistir com as forças do desespero ao inimigo mais forte, durante a noite crucial de 17 de setembro.

Na noite de 18, os ataques alemães começaram a perder o ímpeto e em determinados setores dos subúrbios, apoiados por barragens dos navios de guerra e concentrações de lançadores de foguetes, os defensores de Leningrado conseguiram recuperar algumas das posições perdidas nos dias e semanas anteriores.

Houve, entretanto, outro fator que foi decisivo para a sobrevivência de Leningrado. O Grupo de Exércitos Centro, que reiniciara sua ofensiva em direção a Moscou, começava a esbarrar em resistência cada vez mais intensa. As chuvas de outono tinham começado e os veículos paravam, uma vez que as estradas de terra do interior da URSS se tinham convertido em atoleiros. Os grupos guerrilheiros, nessa situação nunca lhes davam trégua. Ante tal emergência, o Estado-Maior alemão foi compelido a recorrer às forças blindadas de Von Leeb. Von Leeb, que acreditava ter a vitória à vista, foi compelido a acatar as ordens recebidas de Berlim, deslocando o grosso de suas forças blindadas e infantaria motorizada, no dia 18 de setembro para a frente central, rumo a Moscou.

Leningrado estava salva, embora seus defensores ainda não soubessem disso. Sabiam apenas que a pressão constante exercida pelos alemães começara a decrescer. Jukov, porém, acolhia com grande ceticismo essas “impressões”. Não pretendia deixar-se surpreender. As ordens de fazer voar a cidade, caso os alemães ultrapassassem o perímetro externo, continuavam em vigor. Todas as notícias sobre a redução da pressão inimiga eram cuidadosamente verificadas. A produção de armas e munições era intensificada, enquanto o racionamento se tornava mais rigoroso. Simultaneamente, novos contingentes de fuzileiros navais, de marinheiros que faziam parte de serviços administrativos, de operários e de adolescentes aceitos como voluntários — eram equipados e enviados aos vários setores de defesa.

Com o correr do tempo, contudo, tornou-se público que a pressão alemã tendia a perder sua intensidade. Prisioneiros alemães, capturados durante contra-ataques, revelaram que as forças atacantes tinham sofrido baixas pesadíssimas e, desistindo finalmente de tomar a cidade de assalto, estavam construindo posições permanentes para sitiá-la. Somente então, Jukov autorizou a desconexão dos cabos elétricos que ligavam milhares de cargas de explosivos, espalhadas pelo centro da cidade, ao seu QG.

Entretanto, os dias de sofrimento impostos a Leningrado ainda estavam muito longe de seu fim. Não havia possibilidade de ampliar a brecha do lago Ladoga no círculo de aço imposto pêlos alemães aos defensores. Leningrado continuaria a ser submetida, durante quase três anos, a ataques quase incessantes da aviação e da artilharia — e no terrível inverno de 1941, a fome e o frio cobrariam da população um preço ainda mais elevado do que as balas e granadas alemãs: milhares de pessoas morreriam diariamente de fome e de frio, casos de canibalismo seriam registrados; papel de parede, cascas de árvore e couro de velhos cintos e sapatos seriam usados como alimento; faltaria água não contaminada até mesmo para intervenções cirúrgicas de urgência!

Era, entretanto, de generais como Jukov que o comando soviético precisava desesperadamente naquele momento no setor central, onde a situação era mais que crítica. E foi a Jukov que Stalin apelou mais uma vez. "Transfira o seu comando em Leningrado ao chefe do Estado-Maio" — ordenou Stalin — "e venha imediatamente para Moscou."

Leningrado deveria arcar com sacrifícios indizíveis até o dia 27 de janeiro de 1944, quando o longo cerco alemão foi finalmente levantado. Em circunstâncias dificílimas, o Povo Soviético, Zukov e o Partido Comunista, contando com recursos precários, compelidos a improvisar, premidos pelo tempo e enfrentando uma atmosfera de derrotismo e quase pânico, lograram erguer o moral de Leningrado, impondo-lhe, a ferro e fogo, o “esprit de corps” que prevaleceria até a vitória final.

Em 1945, Leningrado recebeu o título de cidade heróica, junto de Stalingrado, Sebastopol e Odessa, pela resistência exemplar e tenacidade demonstrada por seus cidadãos.

 

A batalha de Stalingrado: o início do fim do nazismo



Hitler cometeu seu maior erro estratégico ao decidir invadir a União Soviética, em junho de 1941, dando início à "Operação Barbarossa". As tropas nazistas já haviam feito as principais conquistas na Frente Ocidental, incluindo a ocupação de Paris, o que deixava com que o Reino Unido enfrentasse a Alemanha praticamente sozinha. Hitler, ao invés de iniciar uma segunda "Batalha da Grã-Bretanha", que certamente submeteria a resistência já combalida dos britânicos, aproveitando-se de uma política deliberadamente oportunista de “indecisão dos Estados Unidos”, resolveu abrir a "Frente Oriental", esperando "esmagar a Rússia soviética numa rápida campanha antes do fim da guerra contra a Inglaterra".

Perante a ausência de uma segunda frente de combates na Europa (os Aliados, sob a liderança americana somente desembarcariam na Normandie em 1944, quando o destino da Alemanha nazista já estava traçado pelo avanço vitorioso dos soviéticos), os nazistas haviam concentrado no ataque à União Soviética, até maio de 1942, o impressionante contingente de 6,2 milhões de soldados e oficiais, cerca de 57.000 peças de artilharia e morteiros, 3.300 tanques pesados e ligeiros e 3.400 aviões de combate.

Tal contingente de tropas, jamais reportado anteriormente na História, possuía três principais alvos estratégicos: ao norte, a conquista e destruição de Leningrado; ao centro, o cerco e a tomada de Moscou e ao sul, o controle do Cáucaso, que passava pela  destruição de Stalingrado.

No verão de 1942, o primeiro ímpeto do ataque alemão já fora contido a um altíssimo custo pelo Exército e pelo Povo Soviético. Leningrado, apesar de cercada, não caíra e as tropas alemãs que chegado até as cercanias de Moscou em dezembro de 1941, haviam sido rechaçadas mais de 600 km para o ocidente e lá a frente central dos Exércitos do Eixo permanecia estacionada. Apesar disso, os nazistas mantinham a supremacia por terra e por ar e ainda a eles pertencia a ofensiva estratégica.

Diante do fracasso na batalha de Moscou, Hitler exonerou o comandante da Wehrmacht, marechal Heinrich Von Brauchistch, assumindo o comando central das operações. Foi quando, pessoalmente, decidiu pela ofensiva no Cáucaso, para a qual mobilizou praticamente todas as reservas nazistas, na primavera de 1942.

Stalingrado tinha, na época, 445 mil habitantes, com um importante parque industrial e comercial. Sua fábrica de tratores, símbolo da indústria soviética, havia produzido mais da metade dos 300 mil equipamentos então em operação no país. A fábrica Krasni Oktiabr produzia 776 mil toneladas de aço por ano e 584 mil toneladas de laminados. Também eram relevantes os Estaleiros e a Central Termoelétrica. A cidade era ainda um centro cultural importante com 125 escolas, vários centros de ensino superior, teatros, galerias de pintura e ginásios desportivos.

A posse da cidade tinha um significado estratégico enorme: o domínio do vale do rio Don, a porta de entrada do rio Volga e de toda a região sul da União Soviética. Por ser uma encruzilhada de vias de comunicações, unia a parte européia da URSS com a Ásia Central e a região dos Montes Urais. Entrelaçava também as regiões centrais do país com o Cáucaso, o escoadouro do petróleo de Baku. Na época, a cidade tinha também um forte apelo simbólico, por ter sido batizada com o nome do líder Stalin.

Na Batalha de Stalingrado, talvez o maior e mais sangrento confronto militar de toda a história da humanidade, todos os números que a envolvem são superlativos.  O acadêmico soviético A. Samsónov, autor de “A Batalha de Stalingrado”, conta que o Exército Vermelho derrotou nessa frente cinco exércitos: dois alemães (o 6º e o 4º de tanques); dois romenos (o 3º e o 4º) e um italiano (o 8º). As tropas lançadas pelo inimigo eram todas de elite, como por exemplo, o Sexto Exército era o mesmo que tomara a França em quatro semanas. Segundo seus cálculos, os soviéticos destruíram completamente 32 divisões e três brigadas; provocaram a perda de metade dos efetivos de outras 16 divisões; e teriam matado cerca de 800 mil homens. No total, as baixas dos alemães de seus aliados — entre mortos, feridos e capturados — teriam chegado a um milhão e meio de pessoas, ou seja, 25% das forças de que dispunham no início da invasão da União Soviética. Os nazistas perderam mais de 3.500 tanques e peças de assalto; três mil aviões de combate e de transporte; 12 mil peças de artilharia e morteiros; 75 mil viaturas, etc.

Em contrapartida, segundo informa o historiador inglês Antony Beevor, o Exército Vermelho sofreu durante essa campanha mais de milhão de baixas, sendo meio milhão de mortos.

A batalha principiou em 17 de junho de 1942 e se prolongou por seis meses, repletos de dramatismo, marcados por um heroísmo excepcional. No início das operações, mais de duzentos mil operários ergueram fortificações nos acessos à cidade. As tropas soviéticas não podiam arredar pé de suas posições sob pena do desmoronamento de toda a frente de batalha. A ordem emanada do comandante Timochenko era “nem um passo atrás”. Qualquer recuo sem autorização significava Corte Marcial.

O comando nazista, já nos primeiros dez dias de guerra, viu que havia subestimado o inimigo, dado que contava que somente o Sexto Exército tomasse Stalingrado e de passagem para o Cáucaso. Rapidamente teve de deslocar tropas que já combatiam no Cáucaso e da frente do Don.

Já em agosto combatia-se nos acessos à cidade e, em 23 de agosto, tropas fascistas de vanguarda conseguiram atingir o rio Volga ao norte de Stalingrado.  Destacamentos de marinheiros e operários à custa de muito sangue impediram o avanço e o movimento em pinça sobre a cidade. Ao mesmo tempo, o inimigo intensificava o ataque aéreo. No mesmo dia, o 23 de agosto, mais de 2.000 vôos tiveram lugar e a cidade foi bombardeada em todo o seu perímetro urbano.

A avião soviética, em menor número e com aparelhos menos sofisticados que os dos nazistas, realizou proezas. Muitas vezes, a artilharia antiaérea tinha que atacar os aviões e os tanques que avançavam a partir do vale do Don. Nos combates pelo povoado de Kotluban, distinguiu-se pela valentia um capitão de artilharia espanhol, voluntário, filho de Dolores Ibarruti, La Passionaria, morto em combate.

Hitler exigia uma rápida vitória. Deslocou novos contingentes para a batalha que já chegava às casas do perímetro urbano da cidade. Em setembro combatia-se dia e noite dentro da cidade. A história pelo controle de um prédio, cujo controle daria acesso ao rio Volga, conhecido como “casa de Pavlov”, defendido por soldados com fuzis e armas anti-tanques sob o comando de um sargento, nas palavras do marechal Tchuikov, “custou mais vidas aos nazistas que a tomada de Paris”. E o prédio destruído não foi tomado pelas tropas alemãs, que, por essa via não chegaram ao Volga.

Outro fato a ser assinalado é a defesa popular oferecida por operários e fuzileiros navais soviéticos na defesa das próprias margens do Volga. Já com pouca munição, os fuzileiros se utilizavam de garrafas com gasolina para enfrentar os tanques. Uma dessas garrafas incendiárias caiu por acidente sobre o fuzileiro Panikak. Transformado em um archote vivo, lançou-se do parapeito de uma ruína sobre a escotilha aberta de um tanque nazista.

Em meados de novembro começou a arrefecer a ofensiva alemã. Nos quatro meses de combate os nazistas já haviam perdido mais de 700 mil homens, entre mortos e feridos. Do lado soviético, novas forças de reserva eram incorporadas ao combate, sob a firme liderança do Partido e do Governo Soviéticos. Ao mesmo tempo, as guerrilhas em todas as áreas dominadas pelo inimigo cumpriam seu papel heróico e avassalador para as longas linhas de comunicação e abastecimento estabelecidas pelas tropas do Eixo. Eram mais de 2.000 destacamentos guerrilheiros que atacavam a retaguarda do inimigo diuturnamente.

Com isso preparava-se a grande virada histórica na batalha do Volga e de toda a Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez, na Guerra Pátria a iniciativa mudaria de mãos. O plano de ação denominado “Urano” previa ataques em profundidade nos flancos inimigos em direção à cidade de Kalatch, visando o cerco e aniquilamento do Sexto Exército e do Quarto de Blindados alemães. A contraofensiva histórica começou em 19 de novembro de 1942. Em quatro dias, 330 mil homens das tropas de Von Paulus estavam sob um cerco colossal.  Um destacamento nazista sob o comando do general Manstein foi enviado por Hitler para romper o cerco, mas ele foi dispersado pelo Exército do Povo Soviético.

O Fuhrer impede o rendimento das tropas sitiadas. O Comando Soviético dá, no dia 8 de janeiro, aos nazistas, um ultimato de rendição incondicional para evitar maior derramamento de sangue, o qual é rejeitado. O ditador nazista prefere que seus homens morram aniquilados a se renderem. Em 23 dias as tropas soviéticas aniquilaram totalmente o inimigo sitiado.

No dia 2 de fevereiro de 1943, os combates por Stalingrado haviam terminado. Mais de 90.000 alemães caíram prisioneiros, inclusive 24 generais, dentre eles, o general, recentemente promovido a marechal, Von Paulus.

 

O anúncio da capitulação chegou a Berlim três dias depois da comemoração do 10º aniversário da chegada de Adolf Hitler ao poder. Segundo o historiador William Shirer, autor de Ascensão e Queda do Terceiro Reich, o comunicado da derrota -- que, por ordem do ministro da propaganda, Joseph Goebbels, omitiu a rendição dos mais de 90 mil soldados- foi precedido de um rufar de tambores abafados, seguida do segundo movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven (uma ironia histórica). Hitler decretou quatro dias de luto nacional e mandou fechar todos os cinemas, teatros e casas de diversão durante esse período.

É fora de dúvida que o Führer subestimou a capacidade dos soviéticos de lhe opor resistência. Assim, quando o 6º Exército se rendeu, a derrocada do 3º Reich tornou-se uma questão de tempo, a ser consumada com a tomada de Berlim pelos exércitos do marechal Júkov, no dia 7 maio de 1945.

Três dias depois do final da batalha de Stalingrado, o presidente americano Franklin Roosevelt enviou uma mensagem de congratulações a Stalin "por sua brilhante vitória". Segundo Roosevelt, "os 162 dias da épica batalha pela cidade... serão lembrados como um dos mais dignos capítulos desta guerra dos povos que se uniram contra o nazismo e seus emuladores. Os comandantes e os soldados de seus exércitos e os homens e mulheres que os apoiaram nas fábricas e no campo cobriram de glória não apenas os braços de seu país, mas inspiraram e renovaram com o seu exemplo a determinação de todas as nações unidas de empenhar toda a sua energia para conseguir a derrota final e a rendição incondicional do inimigo comum".

A Batalha de Stalingrado contribuiu para ampliar o moral das forças aliadas e dos movimentos socialistas em várias partes do mundo. Também inspirou toda uma geração de artistas, entre os quais o poeta chileno Pablo Neruda, que compôs o célebre “Novo canto de amor a Stalingrado” .

No Brasil, Carlos Drummond de Andrade, em sua “Carta a Stalingrado” escreveu:

“Saber que resistes.

Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.

Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.

Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu à pena.

Saber que vigias, Stalingrado, sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.”

 

A Batalha de Berlim



 

Uma das páginas determinantes da História moderna, que deve ser lembrada sempre por todos aqueles que prezam a liberdade, é a ocupação de Berlim pelas tropas soviéticas, marco da completa e definitiva derrota da Alemanha nazista.

Em decorrência dos grandes sucessos alcançados pelas forças soviéticas no inverno e início da primavera de 1945, toda a linha de operações de guerra deslocara-se para o oeste, e já dentro do território alemão, margeava o rio Oder.

De todos os pontos de vista a situação do III Reich era desesperadora, mas seus líderes, tendo à frente Hitler, negavam-se depor as armas. Desejariam arrastar todo o povo alemão a uma catástrofe ainda maior? Talvez esperassem que o desenvolvimento de uma alternativa nuclear de última hora ainda mudasse o rumo da capitulação? Ou quiçás, toda a resistência oferecida aos soviéticos objetivava a esperança de alguma negociação em paralelo com americanos e ingleses, rompendo a unidade dos Aliados? Ou simplesmente preferissem que os anglo-americanos fossem os primeiros a ocuparem Berlim? São questões para as quais  dificilmente teremos uma resposta definitiva.

Em 2006 eu estive a trabalho em Moscou e a vida sempre nos prepara surpresas, algumas magníficas e absolutamente insuspeitáveis, outras nem tanto. Possuía uma guia e tradutora que falava fluentemente português. Nas horas extras do trabalho, apresentou-me seu marido, capitão reformado do Exército Vermelho o que me motivou a relatar-lhes meu passado de luta contra o fascimo e pelo socialismo. Percebi que se formara um clima de confiança que nada tinha a ver com o trabalho em si que nós desenvolvíamos, e para resumir, minha guia e seu marido permaneciam comunistas e me honraram com a apresentação de um parente próximo, um antigo coronel do Exército Vermelho, também fiel às bandeiras internacionalistas e que lutou na frente de batalha da Segunda Guerra, na denominada Guerra Pátria.

O encontro com o coronel ex-combatente foi definitivamente uma das melhores surpresas que tive em tantas viagens mundo afora. Entre copos de “kvas” e arenque em conserva, o Coronel Vassili Iguichov contou-me uma pequena parcela de sua participação na guerra, sempre com a ajuda de sua sobrinha, minha tradutora. Fora tanquista na resistência de Moscou em 1941 e, na Batalha de Berlim, era o comandante de um batalhão motorizado. Participou pessoalmento da rendição nazista, conforme ele, a “maior honraria de sua vida de soldado e de comunista”.

Em determinado momento, perguntei ao coronel Iguichov qual era sua opinião sobre o porquê da resistência de uma Berlim cercada e sem chance alguma de deter o avanço soviético. Por que não se rendera, evitando tantas mortes e destruições, sacrifícios inúteis do ponto de vista alemão naquele momento? Ele respondeu-me: “Foi simplesmente o medo. Medo de que aqueles grandes assassinos, os comandantes, os oficiais das SS e da Gestapo, tinham dos soviéticos. Conosco não havia perdão. Na minha divisão, quase todo oficial SS ou agente da Gestapo, que se rendia, era fuzilado. Aquela matilha de cães raivosos, genocidas, não merecia viver ou ser tratado como prisioneiro de guerra. Foram eles que fizeram de tudo para que a luta se arrastasse, para que os imperialistas chegassem antes de nós e se isso tivesse acontecido, teriam lhes oferecido os seus serviços de assassinos, mudando de patrão, como tantos que nos escaparam o fizeram.”

Visando retardar a ação dos soviéticos, os nazistas concentraram cerca de um milhão de homens, mais de 10.000 canhões, 1.500 tanques e ao redor de 3.500 aviões, para a defesa de Berlim. Entre o rio Oder e sua capital, eles construíram várias posições solidamente fortificadas, e os acessos à cidade transformaram-se em fortalezas de cimento armado. Os engenheiros do exército alemão também transformaram as margens do Oder, já saturado pela corrente da primavera, em um lodaçal, de forma a dificultar a movimentação de tanques e blindados.

Do ponto de vista soviético, romper a linha de defesa do rio Oder era uma tarefa complexa, mas de extraordinária importância geo-política e histórica. Para relizar a operação, que franquearia o acesso a Berlim, foram designadas as tropas de três Frentes: duas vindas da Bielo-Rússia, sendo a Primeira sob a liderança do marechal Zhukov e a Segunda sob o comando do marechal Rokossovski e ainda uma originária da Ucraniana, sob o comando do marechal Koniev. Dois corpos de Exército da Polônia livre também se incorporaram ao ataque.

 

Os soviéticos congregavam 2,5 milhões de combatentes, 42.000 canhões e morteiros, mais de 6.000 tanques e carros de assalto, em torno de 8.200 aviões. Para Zhukov, “a Pátria muniu-se de forças e recursos técnico-materiais que bastariam não para uma, mas para duas operações de igual envergadura”. O plano de ataque consistia em romper, simultaneamente em diversos pontos, a linha de defesa nazista, cercar o seu agrupamento de forças, dividi-lo e exterminá-lo por partes. Ao mesmo tempo, a ofensiva soviética e a resistência guerrilheira na luta pela libertação de Praga na Tchecoslováquia, de Budapeste, numa Hungria já parcialmente libertada e da Iuguslávia, impediam que o comando alemão deslocasse tropas frescas para defesa de Berlim.

O plano de guerra ainda definia que, após apossar-se de Berlim, as tropas soviéticas deveriam atingir o rio Elba, onde elas encontrariam as demais forças Aliadas.

“O ódio que sentíamos dos nazistas, o entusiasmo de libertarmos o mundo dos alemães invasores e de colocarmos as mãos em Hitler e em seu estado maior, imperava em toda a frente. Em minha coluna de tanques os soldados haviam pintado em vermelho: “Para Berlim!”“, contou-me o coronel Iguichov. “Quando havia tempo, nossos meninos ainda escreviam o mesmo endereço nos obuses, que em 16 de abril descarregariam um inferno de fogo sobre as fortificações inimigas”.

O 16 de abril foi o princípio da última e definitiva batalha em solo europeu da Segunda Grande Guerra. O ataque soviético enfrentou forte resistência, mas era impossível, desde o princípio, aos nazistas conterem tal avanço. No dia 20 de abril, aniversário do Führer alemão, as baterias do Primeiro Front Bielorusso começaram a fazer fogo sobre Berlim. Era um sinal claro para aqueles que ainda mantinham esperança de deter os russos, que a guerra estava perdida.

No sexto dia dos combates, em 21 de abril de 1945 nos subúrbios do nordeste de Berlim irromperam as tropas de vanguarda do marechal Zhukov, e, no dia seguinte, por sudoeste, as forças sob o comando do marechal Koniev. No dia 24 de abril as tropas se uniram e em uma tenaz de fogo, mais de 200.000 soldados inimigos foram aprisionados. Em 25, enquanto a vanguarda das forças do general Russakov contatava as primeiras forças americanas no rio Elba, as tropas sovéticas fechavam o cerco a Berlim Oeste.

Os combates tornaram-se encarniçados e sangrentos em seu maior nível. Em Berlim o terror se espalha quando os pelotões das SS nazistas vasculhavam as ruas e porões à procura de desertores, os quais eram sumariamente executados, centenas deles deixados enforcados em árvores para servirem de “exemplo” à população em desespero.

“Sabíamos que estávamos a um passo da vitória que tanta dor nos custara, afirmou-me o coronel Iguichov. Às vezes eu penso que não deveria ser fácil para alguém arriscar a vida quando a vitória definitiva era questão de dias. Mas tínhamos muito a conquistar, lutávamos por nós, pela Pátria, por nossos mortos e por toda a humanidade. Nem pensávamos na possibilidade de morrer e guerreávamos com a faca nos dentes, que é como luta um soldado de verdade”.

“Surpreendentemente, a noite de 26 para 27 foi de uma calma apavorante. Uma certa trégua, ou preparação para o combate final, não o sabíamos. Praticamente não se ouviram mais as explosões das bombas lançadas pelos ares ou dos obuses terrestres. Mas, de repente, os incêndios avermelhavam tudo; bombas não detonadas explodiam quando as chamas as atingiam, mas havia o silêncio das matracas das metralhadoras. Quando amanheceu, ouvimos, com enorme surpresa, um concerto de pássaros. Mas no momento seguinte recebemos ordem de avançar e os lança-foguetes recomeçaram a rugir, os canhões de meu batalhão a trabalhar”.

Em 27 de abril, os russos dirigem um assalto geral contra o centro de Berlim. Tomam a estação de Anhalt, atingem a Leipzigerstrasse e a Prinzalberststrasse, entram no QG da Gestapo, onde encontram centenas de cadáveres de presos políticos executados. A Chancelaria encontra-se a 300 metros apenas. Mas defensores nazistas surgem das ruínas e repelem o assalto; somente uma nova ofensiva retomaria o edifício da Gestapo e chegaria ao Reichstag.

A artilharia e os lança-foguetes reabrem fogo. Os caça-bombardeiros russos, que substituíram as esquadrilhas americanas, mergulham em enxames. Uma formidável detonação sacode a cidade inteira, quando um depósito de Panzerfäust explode em Potsdamerplatz, provocando enorme carnificina.

Uma tragédia mais horrível desenrola-se sob as calçadas. Os sapadores nazistas haviam executado a ordem de fazer explodir as comportas do Landwehr Kanal, com o objetivo de inundar os subterrâneos do metrô, que poderia ser utilizado pelos russos. Nas trevas, milhares de civis, que ali se refugiavam, tentam escapar da enchente. Centenas de não-combatentes, dos quais uma proporção imensa de crianças perece, seja por afogamento ou por asfixia, entre as estações de Leipzigerplatz e a Unter den Lenden. Mais um crime hediondo dos nazistas contra sua própria população.

No dia 30 de abril, as tropas de assalto sob o comando dos gloriosos generais Chatilov e do coronel Nogoda iniciaram o ataque ao Reichstag. Os destacamentos de elite nazista ofereceram feroz resistência, mas na noite desse mesmo dia, os sargentos Kantaria e Iegorov levantam sobre a cúpula do Reichstag a bandeira da Vitória, a bandeira da libertação Vermelha.

Em dois de maio, finalmente, o comando militar de Berlim comunicou pelo rádio que aceitava a capitulação incondicional exigida.

A tomada de Berlim custou mais de 300.000 mortos e feridos às forças soviéticas; os alemães sofreram mais de 450 mil mortos, feridos ou desaparecidos, incluindo civis.

O general Chatilov escreveu sobre a reação da população da cidade arrasada pelos combates, empobrecida pela aventura nazista, carente de comida e  até mesmo de água potável para beber: “Os berlinenses observavam nossa gente cada vez com mais atenção. Os seus olhares eram diferentes: uns submissos e com medo, outros bajuladores, ainda outros mal escondendo um ódio contido. No entanto, cada vez mais frequentemente, líamos uma surpresa sincera naqueles olhos. Formado sob a influência da propaganda nazista, o pequeno-burguês alemão não podia compreender o comportamento dos vencedores. Os russos não matavam, não pilhavam e não se vingavam pelos crimes do exército alemão em solo soviético, mas pelo contrário, alimentavam aqueles a quem deveriam considerar como inimigos mortais”.

“Muitas vezes tornava-se difícil manter a disciplina de jovens soldados que haviam perdido suas famílias e amigos massacrados pelas tropas alemãs. A nós, aos comunistas, cabia a obrigação do exemplo. Em meu batalhão, tenho orgulho de dizer, durante os três meses em que permanecemos na Berlim ocupada, não ocorreu nem um só caso de desrespeito ou de falta de prestação de auxílio à população civil da Alemanha vencida”, disse-me com o orgulho de um soldado comunista o meu mais novo amigo, o coronel Vassili Iguichov.

No dia 8 de maio de 1945, finalmente, A Alemanha nazista reconheceu-se vencida, e em Karlshorst, os representantes do comando alemão assinaram o ato de capitulação incondicional. Assumia a presidência, interinamente, o Marechal da União Soviética G. Zhukov.

O dia da Vitória tão esperado chegara afinal! O dia 9 de maio foi comemorado em todos os recantos de um mundo mais livre!

 

Nosso Existir



O homem está absolutamente só no universo.  Deus , se é que existiu um dia, abandonou sua própria obra a si mesma,  ou, quem sabe, de tão velho, já morreu.

Cada um de nós, em sua essência,  no seu âmago é, irremediavelmente,  solitário. Iremos morrer um dia e o ficará de nós será apenas e tão somente indeléveis pegadas nos caminhos tortuosos da consciência e da inconsciência daqueles que amamos um dia. Absolutamente nada mais.

O homem simplesmente existe. Nada para cada um de nós está determinado, tudo o que somos , tudo o que nos aconteceu ou acontecerá foi e será fruto de nossas decisões e ações.  Não somos como os animais, pois cada qual é absolutamente  “inocente” de seu destino.

A nossa vida, a existência de cada um de nós,  é um processo que encetamos. Dentre as inúmeras possibilidades que possuimos  e que se abrem a cada momento, escolhemos ou rejeitamos x, y ou z. Cada ser humano possui TODA A LIBERDADE PARA ESCOLHER, e destas escolhas resulta a essência do que somos, das relações que construimos, da identidade com que nos vemos.  Não nos esqueçamos de que NÃO ESCOLHER também é ESCOLHER.

É esta LIBERDADE que nos torna irremediavelmente responsáveis por TUDO O QUE FAZEMOS. Mesmo assim, esta liberdade é contingente. Muitos fatores externos interferem na realização da LIBERDADE. Devemos, entretanto, assumi-los a cada passo, até aí caminha a nossa responsabilidade perante a vida.

O viver só pode ser agradável se aquela LIBERDADE for assumida; se a responsabilidade por cada ato nosso for assumida a cada instante. Quando deixamos de exercer a liberdade para agirmos ,  renunciamos igualmente ao nosso papel de agente do destino e nos transformamos EM SEU OBJETO.

Sempre está em NOSSO PODER ALTERAR NOSSA EXISTÊNCIA, pois nossa liberdade só cessa com a morte. A busca da felicidade passa por assumirmos que absolutamente nada é regido por um “destino” alheio a nós.

Nós construimos cada degrau da escada de nossa existência. Enfim, para o bem ou para o mal somos os únicos responsáveis por nós mesmos.

Assim vejo o homem. É muito duro, áspero, não há concessões e nem ilusões. Mas viver a LIBERDADE, saber-se responsável por cada ato e nada esperar além de nossa própria ação. Nisto consiste a beleza de viver.

 

Monteiro Lobato: grande escritor e patriota



Dois dias após conceder à rádio Record a última entrevista de sua vida, na qual defendeu a campanha “O Petróleo é Nosso”, Monteiro Lobato faleceu aos 66 anos de idade. O seu corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre havia mais de dez mil pessoas. O Repórter Esso do dia 4 de julho de 1948, na voz de Heron Domingues, assim anunciou sua morte,… “e agora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande escritor e patriota Monteiro Lobato!” 

Monteiro Lobato, nascido em 1882, paulista de Taubaté, ao seu modo representou o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas aventuras que formataram o Brasil moderno. Advogado sem vocação foi promotor público na cidade de Areias. Depois, teve sua experiência como fazendeiro, quando suas ousadias inovadoras agro-pecuárias demonstraram-se desastrosas, mas “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Cavalheiro, porque os melhores “frutos da fazenda” foram Jeca Tatu (1919) e Urupês (1918).

No pequeno volume de Jeca Tatu havia algo de novo, “um instrumento claro de luta contra o atraso cultural de nosso país, contra a miséria e o conservantismo corrupto e corruptor”; Urupês, por sua vez, “era um brado de revolta que não se ouvia desde os Sertões de Euclides da Cunha”, no entender de Astrojildo Pereira. Os livros, que coincidiram com a greve geral de 1917, e com a onda de reivindicações operárias que se alastrou por todo o país até os anos 20, expressavam literariamente novos anseios populares. 

O êxito de seus primeiros livros impulsionou o homem empreendedor a investir com todas as suas forças no mercado editorial. Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominaram o mercado livreiro brasileiro. O voo, entretanto, fora alto demais. As grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética. Lobato, pouco tempo depois, enfrentou dignamente a falência de sua Editora, em cujos alicerces seriam plantados os da Companhia Editora Nacional.

Ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue sua carreira de escritor.

Em 1927 realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferro: é preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo

Nos anos 30 havia interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Fundou, então, a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas a Companhia Mato-grossense de Petróleo (em 1938), que visava realizar perfurações próximo à fronteira com a Bolívia, país que já encontrara seu ouro negro.

Em dois livros, Ferro (1931) e O Escândalo do Petróleo (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “ moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, o qual era acusado de "não perfurar e não deixar que se perfure" proibiu-o e mandou recolher todos os exemplares disponíveis. A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe movem os governantes, burocratas e sabotadores internos, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso e, até mesmo, por levá-lo ao Presídio Tiradentes, que como preso político, foi confinado por seis meses.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lobato conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, lutas que se aprofundariam logo após a sua morte e que redundaram na fundação de Companhia Siderúrgica Nacional e da Petrobrás.

Voltemos a Monteiro Lobato que como escritor foi o nosso astro maior em histórias infantis. Além de Narizinho Arrebitado que teve uma edição inicial de cincoenta mil exemplares em 1921, outras tão importantes ou mais foram: Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho (1933) e O Picapau Amarelo (1939). Os Trabalhos de Hércules concluem uma saga de trinta e nove histórias e quase um milhão de exemplares em circulação. Lobato criou personagens inesquecíveis, que passaram a ocupar um espaço importante junto ao folclore brasileiro, como: Emília, a boneca de pano com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identifica quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã. O folclore do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação literária no autor de Reinações de Narizinho. Lobato foi traduzido para diversas línguas como francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Digno de nota é que Lobato ainda sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil denunciará o livro História do Mundo Para Criança como “comunismo para crianças". 

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou Paranóia ou Mistificação, a famosa crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a vê-lo como reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos "ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de "colonialismos", "europeizações", da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone.

A obra literária de Lobato da década de 20 continha ainda preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação era um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Seu livro, O Presidente Negro (1926), descreve um conflito racial no futuro, após a eleição de um negro para a presidência dos EUA. Posteriormente, com sua aproximação ao comunismo, essa faceta “eugênica” se desfaria. 

Monteiro Lobato sempre se declarou, corajosamente, simpatizante da Revolução Soviética; diz o seu biógrafo que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio romântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político”. Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes.

Empolgou-se, então, com a luta da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e suas conquistas e vitórias nos campos das ciências, da educação. Literalmente disse que “ em todos os setores da vida humana, é o maior dos milagres modernos e essas vitórias não podem mais ser escondidas dos olhos de todos os países”.

Jamais escondeu sua admiração e estima por Luiz Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações. Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de calúnias direitistas e perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de Zé Brasil, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o Presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.” 

Publicidade, riqueza, proximidade com o poder “corrompem” o artista? Como bem colocou Ernest Hemingway, em seu estilo: “todas as putas encontram sua vocação”. Nada conspurcou nem a vida, nem a obra literária ou cívica de Monteiro Lobato.

Às portas da morte, escreve uma carta a Prestes que conclui: “Estou perto do fim e não quero ir-me sem falar de coração aberto com um dos homens mais decentes com quem me encontrei na vida e o mais corajoso de todos”.

Monteiro Lobato, um dos homens mais decentes e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, quiçá à maneira de Goethe que dizia:“se o talento é formado na imobilidade, o caráter o é na torrente do mundo”.

 

 

 

"O Petróleo é nosso", últimas palavras de Monteiro Lobato



No dia 2 de julho de 1948, Monteiro Lobato concedeu à rádio Record aquela que seria a última entrevista de sua vida, a qual encerrou com as palavras: “O Petróleo é Nosso”! Dois dias após, “O Repórter Esso”, na voz de Herón Domingues, anunciou a morte de um grande brasileiro, desses que surgem poucos a cada geração: “E agora uma notícia que entristece a todos: acaba de falecer o grande escritor e patriota Monteiro Lobato!”

Monteiro Lobato, nascido em Taubaté em 1882, falecia aos 66 anos de idade; o corpo foi velado na antiga Biblioteca Municipal de São Paulo e em seu cortejo fúnebre, que seguiu a pé até o Cemitério da Consolação, havia mais de dez mil pessoas a quais cantavam o Hino Nacional. Compreendiam que Monteiro Lobato representou a seu modo o ímpeto pioneiro, renovador, criador de tantas iniciativas fecundas e ousadas, aventuras pessoais ou coletivas, que formatariam o Brasil moderno.

Advogado sem vocação, seu primeiro emprego foi o de promotor público na cidade de Areias. Depois, teve sua experiência como fazendeiro, quando suas inovadovações agro-pecuárias demonstraram-se desastrosas; no entanto, “enquanto o fazendeiro se enterra, o escritor se levanta”, diz seu biógrafo Edgard Cavalheiro, porque os melhores “frutos da fazenda” foram os livretos Jeca Tatu (1919) e Urupês (1918).

Esses coincidiram com a greve geral de 1917/18, e com a onda de reivindicações operárias que se alastrou por todo o país até os anos 20, e expressavam literariamente os novos anseios populares. No pequeno volume de Jeca Tatu havia uma jóia rara se revelava no propósito do autor de que o conto infantil fosse “um instrumento claro de luta contra o atraso cultural de nosso país, contra a miséria e o conservantismo corrupto e corruptor”. Urupês, por seu lado, “era um brado de revolta que não se ouvia desde os Sertões de Euclides da Cunha”, no entender de Astrojildo Pereira.

Seguidor de Figueiredo Pimentel, o brilhante autor de "Contos da Carochinha", Monteiro Lobato ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra infanto-juvenil, constituindo aproximadamente a metade da sua produção literária.

O êxito dos primeiros contos impulsionou o homem empreendedor a investir com todas as suas forças no mercado editorial. Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro Lobato tornou-se editor, passando a produzir livros no Brasil. Dentro de pouco tempo as edições da Monteiro Lobato e Cia. dominavam o mercado livreiro brasileiro. O vôo, entretanto, fora alto demais. Sem nenhum apoio governamental, as grandes oficinas gráficas não suportaram a dificuldade de financiamento e a crise energética que se abatia sobre o Brasil. Lobato enfrentou dignamente a falência de sua Editora em cujos alicerces ele plantaria os da Companhia Editora Nacional.

É depois da primeira experiência com uma editora que ele deixa São Paulo e muda-se para o Rio de Janeiro, onde segue a carreira de escritor.

Em 1927, Lobato realiza um velho sonho: é nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Os quatro anos que passará na América do Norte constituirão uma descoberta e um deslumbramento para o caipira de Taubaté: vê o gigantesco progresso americano e o compara com a nossa lentidão colonial. Ao voltar, trará planos grandiosos de salvação econômica para o Brasil. O primeiro deles é a Campanha do Ferroé preciso “ferrar o Brasil”. A próxima, ainda mais ampla, será a Campanha do Petróleo.

Nos anos 30 havia interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo. Monteiro Lobato aliava a literatura e a prédica a atitudes concretas. Na contramão dos interesses dominantes, fundou a Companhia Petróleos do Brasil, e graças à grande facilidade com que foram subscritas suas ações, inaugurou várias empresas para fazer perfuração, sendo a maior de todas elas a Companhia Mato-grossense de Petróleo (em 1938), que visava realizar perfurações quase junto à fronteira com a Bolívia, cujo governo nacionalista já encontrara seu ouro negro.

Em dois livros, Ferro (1931) e O Escândalo do Petróleo (1936), o escritor documenta os lances dramáticos da duríssima batalha que teve que travar contra a “carneirada” e contra os “moinhos de vento”, movido unicamente pelo afã de prover o Brasil de uma indústria petrolífera independente. O último livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio Vargas, o qual era acusado de "não perfurar e não deixar que se perfure" proibiu O Escândalo do Petróleo e mandou recolher todos os exemplares disponíveis, naquilo que seria o primeiro lance da longa sequência de escândalos envolvendo o ouro negro brasileiro, que prosseguem até os dias de hoje.

A empolgação de Lobato fez com que ele percorresse todo o país em busca de apoios; a guerra que lhe moveram os governantes, os burocratas e sabotadores dos interesses pátrios, terminou por deixá-lo pobre, doente e desgostoso e, até mesmo, levá-lo ao Presídio Tiradentes, onde como preso político foi confinado por seis meses, naquela mesma cela do Pavilhão n.1, pela qual passariam tantos presos da ditadura militar de 1964.

O certo é que com admirável sentido de luta, Monteiro Lobato conseguiu sacudir o Brasil de alto a baixo, apontando ao povo brasileiro os caminhos de sua emancipação econômica, lutas que se aprofundariam após a sua morte e que redundaram na fundação da hoje A Petróleo Brasil S/A (Petrobras), empresa criada em 1953, na fase populista do então presidente Getúlio Vargas, impulsionada pela campanha popular iniciada em 1946, sob o slogan de “o petróleo é nosso”.

Mas voltemos a Monteiro Lobato escritor da maior parte das histórias infantis nacionais. Além de Narizinho Arrebitado, uma edição inicial de cincoenta mil exemplares no ano de 1921, outras tão importantes ou mais foram: Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho (1933) e O Pica-pau Amarelo (1939). Os Trabalhos de Hércules concluem uma saga de trinta e nove histórias e quase um milhão de exemplares em circulação.

Nesses trabalhos Lobato criou personagens inesquecíveis, que se incorporaram para sempre ao folclore brasileiro. Emília, a boneca de pano com sentimento e ideias independentes; Pedrinho, personagem com que o autor se identifica quando criança; Visconde de Sabugosa, a espiga de milho com consciência e atitudes de adulto; Cuca, a vilã. O folclore do Saci Pererê encontrou sua maior divulgação literária no autor de Reinações de Narizinho.

Lobato foi traduzido para diversas línguas como francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, japonês, árabe e iídiche.

Em 1926, Lobato concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas acabou derrotado. Era a segunda vez que isso acontecia. Na primeira vez, em 1921, iria concorrer à vaga de Pedro Lessa, mas desistiu antes da eleição, por não querer fazer as visitas de praxe aos acadêmicos para pedir seus votos. Desta vez, estava concorrendo à vaga do renomado jurista João Luís Alves. Na primeira, recebera um voto no terceiro escrutínio, e, na segunda, dois votos no quarto.

Digno de nota é que Lobato ainda sofreu crítica, censura e perseguição por parte da Igreja Católica. O influente padre Sales Brasil, na primeira fila do reacionarismo da guerra fria, denunciará o livro História do Mundo Para Criança como sendo o “comunismo para crianças".

Lobato também provocou outros tipos de polêmicas. Quando publicou Paranóia ou Mistificação, a famosa crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti (na Semana de Arte Moderna de 1922), muitos modernistas passaram a tachá-lo de reacionário, com a notável exceção de Mário de Andrade. Na realidade, a crítica de Lobato era direcionada aos "ismos europeus”: cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, que ele denominava de "colonialismos", "europeizações", da mesma raiz do “academicismo da geração anterior”. Lobato era a favor de uma arte autenticamente brasileira, autóctone.

É bem verdade que a obra literária de Lobato da década de vinte continha preconceitos raciais e eugênicos. Ele acreditava que a miscigenação fora um fator prejudicial na formação do povo brasileiro. Seu livro, O Presidente Negro (1926), descreve um conflito racial de um tempo futuro, após a eleição de um negro para a presidência dos EUA.

Posteriormente, com sua aproximação ao comunismo, essa faceta “eugênica” se desfaria. Monteiro Lobato sempre se declarou, corajosamente, simpatizante da Revolução Soviética; diz o seu biógrafo que “ele ansiava por um socialismo difuso, meio anárquico, meio romântico”. “Não possuía, entretanto, nenhum gosto pela especulação doutrinária e por isso, jamais foi homem de partido, militante político”. Seu contato maior com os comunistas ocorreria a partir de 1941, após o período de confinamento no Presídio Tiradentes, durante a ditadura de Vargas.

Empolgou-se com a luta antinazista da União Soviética na Segunda Guerra Mundial e suas conquistas e vitórias nos campos das ciências, da educação. Jamais escondeu sua admiração e estima por Luiz Carlos Prestes e o fazia de modo aberto, a quem lhe perguntasse. Em 1945, no famoso comício do Pacaembu enviou a Prestes uma das mais lindas e humanas saudações. Quando, em 1947, levanta-se uma nova onda de calúnias direitistas e perseguições políticas, de sua pena nascerá a história de Zé Brasil, panfleto que percorreu o país de norte a sul, acusando o Presidente Dutra de implantar no Brasil uma nova ditadura: o “Estado Novíssimo”.

Sua visão sobre a problemática social ele a resumiria, já sexagenário, da seguinte maneira: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

Monteiro Lobato foi um dos homens mais íntegros e corajosos que já viveram neste país, um intelectual “à moda antiga”, daqueles que passados quase um século a nossa pobreza ética e intelectual ainda se ressente.

Cristo, o dólar e Mary Baker: na origem das religiões neo-pentacostais



 

Os momentos mais misteriosos da história da humanidade são aqueles em que surgem as religiões. A ideia que brota quase sempre de um único cérebro transborda atingindo centenas, milhares e milhões. Esses instantes místicos pelas suas peculiaridades, decorrido o tempo, jazem sepultados no esquecimento, tornando quase sempre difícil precisar as circunstâncias em que os mesmos ocorreram. Por sorte esse não é o caso de um enorme conjunto de seitas religiosas, denominadas genericamente de religiões Neo-Pentecostais, que se desenvolveram nos Estados Unidos da América somente a partir da última década do século XIX e empolgam, no século XXI, parcelas crescentes da humanidade em quase todos os países.

Os Neo-Pentecostais abrangem hoje mais de dezenove mil denominações e congregam aproximadamente trezentos milhões de seguidores. Possuem mídia televisiva, assim como outros canais próprios de divulgação de massa. Influenciam a vida política das nações, compondo bancadas parlamentares cada vez mais influentes. Estima-se que movimentem mais de trinta bilhões de dólares anuais, boa parte dos quais com isenção de impostos e à margem de controles formais.

Essas diferentes crenças religiosas ditas evangélicas possuem alguns pilares comuns, como a “doutrina da prosperidade” e a da “confissão positiva” e empregam conceitos tais como “a pobreza e a doença derivam de maldições, fracassos, vidas em pecado ou falta de fé religiosa” e, em decorrência desse preceito, um “verdadeiro cristão” deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido financeiramente, possuir saúde física, emocional e espiritual.

Outro pilar comum é a permanente batalha espiritual entre os componentes da “Santíssima Trintade” e o Diabo, trazendo um renascer de conceitos medievais, tais como o confronto direto entre o homem e os demônios, as ditas maldições hereditárias, a posse dos crentes pelas forças “magnéticas” do mal.

Também desenvolveram formas sobrenaturais de encarar a fé religiosa, tendo por foco a busca de revelações diretamente feitas por Deus ou pelo Espírito Santo a seus “pastores”, “bispos” ou “apóstolos”; são relações de privilégios nas quais o rebanho é conclamado a inserir-se. Muitas vezes aqueles “pastores” ou “mediuns” operam “curas milagrosas” para doenças psíquicas ou físicas, chegando mesmo ao ponto de negação da materialidade dos males que afligem os homens.

O contraponto dessa filosofia que nega a realidade, que mistifica o conceito do divino, é o seu mais cru materialismo acentado numa estreitíssima aliança do espiritual com o dinheiro e os créditos bancários. Como dissemos no título desse trabalho, essas seitas autodenominadas evangélicas substituem o ensinamento de Cristo de “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, por um avatar que não lhe é exclusivo, mas que em nenhuma religião é tão explícito: uma moeda onde o lado “cara” tem a figura de Cristo, e o lado “coroa” a imagem do dinheiro, do dólar.

 

A seta da história aponta para a “Ciência de Cristo”, como a inspiradora de todas as religiões Neo-Pentacostais subsequentes.

Essa seita, fundada em 1886 por Mary Baker-Eddy, possui ainda hoje, um século após a morte de sua fundadora e “imperadora”, quase mil e novecentas igrejas, estando presente em setenta e seis países. A “bíblia” desse movimento, escrita por Mary Baker-Eddy, “Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras” foi best-seller por décadas. Em 1995, “Mother Mary” foi incluída no Hall da Fama de Hollywood e, em 2002, uma Biblioteca com seu nome e totalmente dedicada aos seus escritos foi aberta ao público.

A “Grande Basílica” da seita, inaugurada em 1906, com capacidade de recepção para vinte mil crentes, ainda é uma das mais belas construções de Boston. As últimas residências em que a fundadora viveu, foram transformadas em sítios históricos preservados na América do Norte.

O jornal publicado pela “Ciência de Cristo”, “O Monitor” ganhou, ao longo dos anos, sete prêmios Pulitzer, assumindo, inclusive, posições progressistas e respeitáveis em defesa dos direitos humanos, após a morte de sua fundadora.

De uma maneira geral pode-se dizer que essa crença, tendo sido a grande precursora das seitas Neo-Pentacostais, no decorrer dos anos perdeu sua belicosidade inicial e aproximou-se daquelas correntes evangélicas mais tradicionais, tornando-se menos autoritária e excludente.

 

Como o nosso objetivo não constitui um aprofundamento das bases metafísicas, mas sim, a análise da incrível capacidade de expansão religiosa de tantas seitas, bem como dos seus monumentais sucessos financeiros, voltaremos no tempo para estudar essa personalidade especial, Mary Baker, assim como suas inspirações, os sustentáculos por ela utilizados e as enormes inovações de sucesso que ela empreendeu no campo da crendice popular.

A “Ciência de Cristo” de Mary Baker-Eddy influenciará de modo direto, na primeira década do século XX, homens como E. W. Kenyor, o inspirador da “Teologia da Prosperidade” e K. Hagin o fundador da primeira “Assembleia de Deus”, que ele inaugura após um propalado batismo pelo “Espírito Santo”, em 1937.

Da mesma maneira, a “Ciência de Cristo” inspirará o Teleevangelismo, que desde a década dos anos oitenta frequenta diversos canais da televisão aberta, a bordo do qual embarcam prestigitadores como o “bispo” Edir Macedo. Se o citamos como paradigmático, é porque esse antigo pesquisador do IBGE na década de 1970, católico, teve sua “revelação” em 1976 e fundou, em 1977, a “Igreja Universal do Reino de Deus”. Dono de Rede Televisiva e inúmeros templos, sua fortuna pessoal, menos de quarenta anos após sua “conversão”, situa-se entre as dez maiores do Brasil.

 

Mary Baker nasce em uma família pobre, no ano de 1821. A menina, fisicamente frágil, tem dificuldade em acompanhar os estudos escolares e os abandonará prematuramente, antes da conclusão do primeiro grau. Transforma-se em uma adolescente indolente que prima por chamar a atenção de seus familiares sobre si, num ar incontido de presunção e superioridade. A cada vez que é contrariada pelos parentes, desenvolve “ataque dos nervos” os quais adotará por toda a vida, como seu método pessoal de tiranizar as pessoas. De todos os modos, a mocinha chegará à idade adulta sem jamais haver trabalhado, nem mesmo nos afazeres domésticos.

Para alívio de seus pais e irmãos, Mary casa-se aos vinte e dois anos com um jovem chamado Glover, que por ela se apaixona; viajam para o oeste e estabelecem seu lar. Aparentemente a vida sexual com o marido livrou-a dos ataques histéricos e pela primeira vez ela escreve aos familiares dizendo-se feliz. Mas, por um desses infortúnios da vida, após apenas um ano e meio de casada e estando grávida, morre-lhe o esposo, vítima de febre amarela. Ela regressa à casa dos pais e volta a sofrer de  ataques nervosos. Nascido seu filho, ela descobre que a maternidade é um “serviço” que tão pouco lhe atrai e  decide desfazer-se da criança: entrega o menino de três anos de idade para uma família que irá viver longe de sua terra. O enorme ego dessa mulher não reconhece nada além de si mesma.

Novamente repetem-se as cenas da adolescência em que ninguém se atreve a contradizê-la para evitar os conhecidos achaques. Ela seguirá levando uma vida parasitária até os cincoenta anos de idade, tendo sido sustentada primeiro pelo pai, depois pela irmã e finalmente pela caridade alheia.

Mas, ainda estamos longe dessa época. Por enquanto, ela descobre poder-se acalmar em um sofá de balanço, e aos trinta anos de idade esta genial atriz de um mundo patológico, representando a paródia de o eterno sofrer, permanecerá deitada quase todos os dias e noites.

Dois anos após a vida brinda-lhe um novo presente. Por ela apaixona-se o dentista Patterson, que a tomando nos braços a conduz do sofá até a igreja para casar-se. Mas breve, o novo esposo descobrirá nessa enferma monótona e incurável uma déspota voluntariosa, de uma personalidade que a tudo falseia. Quando a Guerra Civil americana é deflagrada, ele é dos primeiros a se alistar, sendo logo feito prisioneiro. Em decorrência, aos quarenta e um anos de idade, a inválida Mary Baker retorna à casa das irmãs para o tormento dessas, na cidade de New- Hampshire.

 

Enquanto tudo isso ocorre, na distante Portland, chega certo discípulo do alemão Messmer e ele traz para a América a novidade do hipnotismo, uma alternativa para a “cura” dos males do espírito, que na Europa, já entrara em moda numa das vertentes espiritualistas. Um relojoeiro de nome Quimby interessa-se pelo método e começa uma espécie de pesquisa em que anota todos os efeitos da hipnose sobre os “médiuns” e os enfermos. Na sua simplicidade, Quimby percebe que pode auxiliar pessoas doentes, mesmo dispensando o recurso do hipnotismo, e, também que pode se aposentar de seu trabalho monótono e viver de suas “curas”. O agora, “Dr. Quimby” desenvolve o seu próprio método, que ele denomina “Cura pela Mente”, atuando sugestivamente sobre os enfermos, destruindo-lhes a crença na enfermidade, como “Jesus Cristo fizera antes dele, dezoito séculos atrás”. De tal forma que a fama de suas curas pela mente ultrapassa os limites de sua cidade e ele passa a dar consultas até mesmo por cartas.

Mary Baker ouve falar dos resultados desses tratamentos e ela decide que quer se curar. Em 1862 consegue arrancar dinheiro dos familiares e de algumas pessoas que se conduiam por aquela mulher semiparalítica e inútil e viaja até Portland, submetendo-se de corpo e alma a Quimby.

Ela possuia uma predisposição para o “milagre” do Dr. Quimby; além disso, arranca de si mesma a “vontade de possuir saúde”, afinal, aquela era a sua última cartada para que um “prodígio”, fazendo-a “crescer acima de todos”, pudesse ocorrer. Se voltasse no mesmo estado de enferma para a sua cidade seria desprezada e, se curada, ela seria o próprio prodígio.

Ao final de uma semana de tratamento, a inválida encontra-se completamente curada; rejuvenesce e faz brotar em si mesma uma energia que a fará, em breve, subjulgar e fazer-se sentir por milhões de pessoas. Permanece mais algum tempo em companhia do seu doutor. Afinal, esquece a doença e interessa-se pelo método. Faz com que Quimby empreste-lhe todas suas anotações, as tais “Perguntas e Respostas” de suas pesquisas, que ela, à noite, copia. É a primeira vez na vida que ela demonstra uma verdadeira paixão por algo.

Ao retornar à casa da irmã, Mary Baker é, no seu próprio dizer, uma pessoa que “ressuscitou como Lázaro” e faz de Quimby “um continuador de Cristo”. Sobre esses fenômenos dá palestras, promove demonstrações, enfim, pratica um ensaio geral sobre o que fará apenas dez anos após.

 

Deixando Portland, Mary retorna à casa de sua irmã. Quase coincidentemente, o recém-liberto, o dentista Patterson vai ao seu encontro. Mas esse segundo marido já não conseguirá suportá-la. Uma coisa era aguentar a semi-inválida, histérica e com crises de nervos; outra, a mulher “sadia”, a que se julga uma profetiza, a mulher-apóstolo. Pede, então, o divórcio, paga-lhe uma indenização, e se vai.

Além do marido, outra pessoa também não a suportará mais: é sua a pobre irmã. Agora, Mary Baker, aos cincoenta anos, encontra-se totalmente só no mundo, sem dinheiro, sem profissão, sem nada. Deve partir de New-Hampshire onde nada e ninguém mais a amparará. Viaja com sua pequena maleta para a vizinha cidade de Lynn.

Ainda faltam anos para que ela se transforme na mulher mais bem sucedida de 1.900. Por enquanto, andará de casa em casa como uma parasita. Pessoas simples a acolhem como a uma peregrina, a uma profetiza que fala de curas maravilhosas. Mas nenhuma estada durará muito, pois Mary Baker não possui o mais tênue sentimento de gratidão para quem a ajude ou sustente. Sempre tentará subjulgar e usar a todos os que lhe dêem guarida. Seu caráter dominador, tirânico, suscita sempre conflitos e desavenças com as pessoas, inevitáveis consequências de uma presunção incontida.

Ela jamais realizará qualquer tipo de trabalho. Passa dias e noites a escrever um manuscrito de páginas amareladas, cuja base é as “Perguntas e Respostas” de Quimby. Supera muitas dificuldades, oriundas de  sua pouca escolaridade, mas é persistentemente neurótica no escrever, por isso revisa de dia o que escrevera à noite.

Tem consciência de que seu temperamento instável e irritadiço é incapaz de “curar pela mente”. Para tanto seriam necessários empatia, calma, ouvidos, domínio e a paciência de um Quimby. Logo, ela precisa de um mediador. Para tanto publica anúncios em jornais, buscando aquele que “deseje aprender a curar enfermos”. O seu primeiro discípulo aparecerá em 1870, um jovem operário de nome Kennedy. Ela, mediante um contrato escrito em que cada um ficará com metade dos proventos, treina-lo-á em sua “ciência”. Unem-se o Cristo e o dólar.

A dupla arrenda uma sobreloja, onde também residirá, ele praticando sua “medicina” (a árvore em frente ganha uma tabuleta: “Dr. Kennedy- Ciência de Cristo”) e ela escrevendo e a tudo controlando. O êxito é tão grande que em três meses alugam também a loja abaixo. O plágio de Quimby é absoluto. Kennedy como ele, senta-se tendo dentre os joelhos os do paciente, esfrega-lhe a fronte com os dedos umedecidos e canta uma ladainha que a mestra fizera-o decorar: “Que o homem é divino, que Deus não quer o mal e, portanto, a dor, o mal e a enfermidade não existem. Os males não são senão imaginações, um erro de que a gente deva se livrar”.

Em determinado momento Mary Baker decide que Kennedy já não lhe basta. Quer reunir mais apóstolos que levem ao mundo a não existência das doenças. A mestra de a “Ciência de Cristo” começa a formar seus “médicos” em cursos de seis semanas de duração. O êxito de Kennedy, que chega a faturar doze mil dólares por mês (em valores de mais de cento e quarenta anos atrás), atrai dezenas de operários e pequenos comerciantes para os cursos. Ela, a princípio cobra-lhes cem dólares e, posteriormente, trezentos pelo curso e por contrato, 10% de todos os ganhos futuros.

A gente humilde sente-se aliviada e a fama se espalha. Mary Baker sente o fumo do sucesso e desde esse primeiro momento tenta patentear “suas descobertas” e convertê-las em dólares. Na sua crença não existe a matéria, só espírito, no entanto, as notas bancárias são mais que reais para essa mulher.

Após dois anos de parceria Mary Baker deseja, afinal, livrar-se do pacífico Kennedy. Seria a sombra de seu sucesso a incomodar-lhe ou a sexualidade reprimida daquela cincoentona, que apenas aceitava cercar-se de discípulos muito mais jovens e do sexo masculino? Ela denuncia seu mais fiel servo por embuste e quando o encontra pessoalmente, encena uma crise de histerismo. Irá destruí-lo, pois o ódio mórbido que sempre dedica àqueles com quem rompe não lhe permite alternativas. Do dia para a noite ela suprime a prática de se tocar no paciente, na qual Kennedy fora treinado e a qual praticava. Era a primeira de muitas excomunhões que faria: de seus lábios convulsos brotaram todas as monstruosidades imaginárias. Atribui a Kennedy um tal de “influxo diabólico”, que é a própria  necromancia medieval renascida. Com esse processo a sua “Ciência de Cristo” criará mais um pilar de sustentação: “o magnetismo animal malicioso”.

O “infiel Kennedy” é substituido por uma dúzia de discípulos conduzidos à mão de ferro e com ganhos muito inferiores aos 50% do primeiro parceiro. Mary Baker auto promove-se em a enviada de Deus para guiar seu rebanho na Terra. Todos os domingos ela reunirá seus discípulos para a prédica dominical, acompanhada por música coral e piano. Ela ascende de professora a sacerdotiza, transformando sua terapêutica em sacerdócio.

Nega, desde sempre, todo o seu passado e apaga qualquer referência que um dia fizera a Quimby, “a quem jamais conhecera”. Sendo necessário criar uma “Legenda Áurea” sobre si mesma, toda a infância da sacerdotiza é agora recontada, incluindo entrevistas com anjos e Joana D’Arc. Ela própria define como sendo em 1866 o momento de “sua graça” (após a morte de Quimby, naturalmente), quando o Senhor apareceu-lhe diretamente e inspirou-lhe a “Ciência de Cristo” e as leis divinas da vida.

Mary Baker e sua metafísica entram para o reino do absurdo e nesse movimento lança as pedras fundamentais de todas as futuras seitas Neo- Pentecostais dos séculos XX e XXI.

Ela tornará a casar-se e seu terceiro marido será um dos discípulos, agora apóstolos, Gilbert Eddy, em 1887. Mentem suas idades perante o juiz de paz, declarando-se ambos com quarenta anos de idade.

Mas seu período de grandes progressos em Lynn caminha para um final. Apesar de enriquecida, Mary Baker-Eddy sabe que todas as religiões em seus estágios embrionários não podem se permitir cismas, que possuem a possibilidade de destruir todo seu edifício. Talvez ela soubesse que, na longínqua Europa, Severt fora mandado à fogueira por Calvino por simples divergência teológica. Enfim, contra todos aqueles que buscam caminhos independentes do seu, ela, além da excomunhão, move-lhes processos na justiça dos homens. Chegará mesmo ao ponto de processar um ex-apóstolo por bruxaria, isso quase no século XX. O juiz encarregado do caso sorri na face daquela mulher magra e grisalha, colérica e que mal se contém de ódio, aquela que se diz “enviada pelo Espírito Santo”. O juiz declara-se incapaz de julgamentos cabalísticos e encerra um de suas dezenas de processos.

Isto foi demais para um grupo de oito apóstolos que rompem publicamente com a sacerdotiza, “contra seus frequentes acessos de ódio, seu amor incalculável pelo dinheiro e sua hipocrisia”. A impresa começa a indagar sobre as origens de tal sacerdócio e o prestígio de Mary Baker-Eddy ameaça desmoronar na pequena Lynn.

Ela toma uma das grandes decisões de sua vida. Buscará nova cidade, grande o bastante para seus projetos. Com todo o dinheiro acumulado irá mudar-se para Boston, carregando consigo apenas seu marido Gilbert.

 

Gilbert Eddy era cardíaco e após a viagem seu estado piora. Mary Baker-Eddy não crê nos pricípios curadores de sua “Ciência de Cristo” para o marido. Então, contrata um bom médico que prescreve digitálico e cardiotônicos. Mas Gilbert não resistirá. A viúva, novamente só, declarará que a morte do marido ocorrera devido ao “arsênico metafísico”, um veneno mental emitido pelos demônios excomungados por sua fé. A partir desse momento, aos sessenta e um anos, ela romperá todos os laços e viverá somente para sua obra, para o poder e para o dinheiro.

Ela sabe perfeitamente que pouca importância é dada àqueles que se apresentam com simplicidade e humildade. Em Boston, ela adquire uma residência de três andares, na Avenida Colombo, a via mais elegante da cidade. Decora cada ambiente com esmero, quadros e tapetes. Seus alunos serão pessoas “refinadas” e não mais os pobres de Lynn. Sua nova escola é nomeada de: “Universidade Metafísica de Massachussets”. Do dia para a noite a “professora” metamorfoseia-se em catedrática. Sua “escola pseudocientífica” vira uma Universidade, com uma autorização de funcionamento comprada dos agentes do Estado de Massachussets.

Todo domingo Mary Baker-Eddy sobe ao púlpito e o público que superlota a sua Universidade-Igreja retém a respiração perante sua ardente oratória. Desde então sua figura somente será vista em momentos especiais, criando ao redor de si uma auréola de mistério e encantamento.

Para evitar os tropeços do passado ela erguerá anteparos que a distanciem de quem foi e de quem é: serão secretários, atendentes, advogados. Ela também conhece muito bem a América de 1890 e sabe que aquele que deseje conquistá-la deverá primeiro ganhar a consciência das massas, com o ensurdecedor ribombar da propaganda. Sabe também, como saberão todos os futuros líderes das seitas Neo-Pentecostais, que qualquer produto deve buscar atender seus consumidores, identificar suas necessidades e criar novas. Assim, Mary Baker-Eddy usará e abusará da publicidade.

Cria o primeiro serviço de atendimento telefônico-religioso; em seguida, funda o “Jornal da Ciência de Cristo”, que, com asas de mercúrio, chegará a todos os recantos de norte-américa, trazendo a boa nova das curas de Boston, um novo método de medicina universal.

Desde Nova York, Filadélfia e New Jersey chegam enfermos, muitos dos quais se tornarão apóstolos da nova doutrina. E cada novo “doutor” trabalhará para aumentar as assinaturas do jornal. E, desde então, novos alunos sempre acorrerão a Boston.

A engrenagem funciona a todo vapor. Basta que em uma cidade surja um primeiro adepto para que se forme o primeiro grupo de crentes, que se tornarão propagandistas e consumidores de jornais e livros. Deste modo, entre 1890 e 1900 teremos trinta e três Academias para doutorado na “Ciência de Cristo”, distribuídas por quase todo o território americano. A bíblia “Ciência e Saúde” alcança a espantosa cifra de trezentos mil exemplares vendidos.

Todo o dinheiro das doações recolhidas pela Universidade e percentagem das Academias pelo país afora irá para a conta bancária de “Mother Mary”; dezenas de milhões de dólares que serão aplicados na construção de Templos e em esplêndidas mansões de retiro.

A cobiça de Mary Baker-Eddy não encontra limites e por isso a “Ciência de Cristo” será organizada dentro das melhores bases comerciais e contará com profissionais em áreas-chave. Logo surgirão souvenirs, imagens, fotos autografadas da fundadora, mais e mais livros, folhetos, até mesmo utensílios domésticos.

O Jornal oficial publicará em uma coluna especial as prendas de maior valor doadas pelos crentes da alta sociedade, tanto em dinheiro quanto em espécimes, como pedras preciosas, ouro, estolas, etc..

O prestígio de Mary Baker-Eddy aumenta dia a dia. A cada aparição sua, um público de dez, quinze mil pessoas aglomera-se para ouvi-la falar.

Em Chicago ela organizará sua primeira “Festa do Espírito”, em 1888, consagrando-se de vez. Mary assume-se com “A Profetiza” e decide construir o “Templo da Profetiza de Cristo”. Ele terá em seu frontespício: “Em homenagem à Reverenda Mary Baker-Eddy, descobridora e fundadora da “Ciência de Cristo”. É santificação!

Ao abrirem-se as janelas do século XX, a igreja de Mary Baker-Eddy estará entre as quarenta maiores empresas norte-americanas, e uma das dez mais lucrativas.

 

É chegada a hora do profissionalismo. Mary Baker contrata a maior empresa de publicidade da América para direcionar e tornar homogêneo todo o esforço mercadológico da “Ciência de Cristo”. Ao mesmo tempo, esse gênio do marketing, rompe com toda a sua estrutura original para poder crescer ainda mais sob o controle de seu pulso de aço. Define uma organização absolutamente piramidal de poder e de lucros. Cria um “Board of Directors”, do qual será a Presidente, e todas as centenas de igrejas implantadas terão de manter uma obediência irrestrita à “Santa Madre Igreja”. Instruções específicas garantem percentagens de repartição dos lucros, métodos de contabilização dos resultados e impedem qualquer tipo de heresia doutrinária.

Aliado ao profissionalismo, de seu púlpito “Mother Mary” acena aos possíveis dissidentes sempre com o raio da excomunhão e com os demônios.

Decorrente dessa decisão de profissionalização organizacional, ela trata de retirar-se da cena pública. Um lance de gênio, pois as dores da velhice desmentiriam toda a sua cartilha sobre a imaterialidade da idade e das enfermidades.

 

Assim como o juiz de Lynn desnudara-lhe a hipocrisia e a paranoia pecuniária, agora surgiria a voz do jornalista, humorista e intelectual, Mark Twain, desmascando-a: Como Mary Baker dizia que o livro “Ciência e Saúde” lhe havia sido ditado por Deus, por que cobrava direitos autorais sobre algo que só à divindade seria devido?

Mark Twain jamais a abandonaria em suas críticas enquanto ela vivesse. Ele denuncia na imprensa como sendo uma patranha a religião que somente se ocupe em acumular dinheiro para si mesma e para seus próprios membros, sem jamais preocupar-se em praticar a caridade ou em possuir um mínimo de autruísmo.

As respostas de Mary Baker-Eddy, a quaisquer questionamentos, sempre foram de um total cinismo, quando não de cólera. Por exemplo, diz que “Deus ordenara-lhe a cobrança para cada graça requerida, pois o cordeiro, para obter a graça, teria que sacrificar-se antes, pagando”. Ainda hoje ouvimos essa mesma frase reverberar nos templos Neo-Pentecostais.

Quando advogados descobriram que ela tivera na mocidade um filho, abandonado desde a infância, apressaram-se em procurá-lo em todos os cantos do país. Glover agora é um senhor, um semi-analfabeto. Mary Baker será processada por haver, há mais de cincoenta anos, abandonado um filho e será levada pelo mesmo perante os tribunais. Ela teme apenas o escândalo e tudo fará para abafá-lo. s Glover mal consegue vê-la, nem mesmo ganha um abraço daquela velha insensível. Ele se contenta com uma pequena indenização obtida por acordo e volta para seu oeste.

Apenas e tão somente a vida será capaz de desmistificar aquela grande charlatã: ela envelhece, perde seus dentes, os membros se entorpecem, surge a dificuldade de fala e já não escuta o que lhe dizem; os cabelos escasseiam e as rugas se aprofundam. Não é a sua religião que afirmava que a doença e a velhice não existiam?

 

As proporções de seus negócios são colossais. Quando a fundadora completa seus oitenta anos, a sua igreja contava com mais de cem mil discípulos praticantes; os seus templos de pedra e mármore se disseminavam pela América; de toda a Europa surgiam mais e mais adesões e a fortuna pessoal da “Mother” era estimada em mais de dez milhões de dólares, aos valores da época.

O maior templo foi construído graças às coletas que alcançaram a incrível cifra de um milhão e meio de dólares. Foi edificado na área mais valorizada de Nova York, defronte ao Central Park. Um enorme e maravilhoso espaço para cinco mil fiéis e hotelaria para vinte e cinco “doutores”.

Aos oitenta e dois anos, Mary Baker-Eddy encara um novo desafio, lançado pelo Templo de Nova York: erguer uma Basílica, muito maior que o templo novaiorquino, para a congregação de todas as suas Igrejas. Essa Basílica, que constitui ainda hoje um dos mais belos edifícios de Boston, foi construida com doações que chegaram a dois milhões de dólares, com acomodações para vinte mil crentes. Foi inaugurada em 1906 ao som do hino: “Pastor, indica-me o caminho”. Hino modificado, mas sempre repetido pelas novas seitas nos últimos cem anos.

Mary Baker-Eddy morre no auge de sua fama, dona de imenso poder sobre sua religião, aos oitenta e nove anos de idade, no ano de 1910.

Ao lado da continuidade da seita a “Ciência de Cristo”, a senda por Mary Baker-Eddy aberta é disputada nos dias de hoje, por quase dezenove mil seitas, algumas de grande sucesso, utilizando as mesmas bases metafísicas que ela introduziu há mais de um século e que podem ser resumidas na união maquiavélica e perniciosa da religiosidade com o dólar, na exploração da crendice popular.

 

Contos
Novelas
Crônicas e Ensaios- I
Crônicas e Ensaios- II
Crônicas e Ensaios- III
Voltar ao topo