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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo VIII- O Tempo e a Memória



Após percorrermos as temáticas destacadas de “Em Busca do Tempo Perdido”, adentramos no que poderíamos denominar de o coração do processo criativo. Trataremos do Tempo, das transformações que seu decorrer provoca nos corpos e nas mentes das pessoas, assim como em todas os corpos que sejam frutos do homem ou da natureza. Falaremos do Espírito que reage  às destruições que o Tempo, que busca esconderijos nos templos do Inconsciente e lá deposita, como reminiscências vivas, parcelas do tempo vivido. De como estas lembranças podem ser recuperadas, o que nos permite uma vitória parcial tomada ao Tempo, um “Tempo Recuperado”. Adentraremos no processo de reviver no presente sensações que trazem impressões vividas no passado, onde encontramos  o fio condutor de sua “psicologia do tempo” e da “psicologia do espírito”. Trataremos também daquilo que sua arte tanto busca, a essência das coisa partindo das diferenças e de seus elementos comuns, apresentando aos nossos leitores muitos dos resultados obtidos pela arguta sonda psicológica plasmada no romance.

  • Senhor Proust, chegamos a  questões centrais de sua obra: o Tempo, a Memória e o processo de criação. Pela temática proposta estaremos, dentro da literatura, filosofando e de certa forma tangenciando algumas doutrinas filosóficas sobre as quais se ergue o seu romance.

            André, prefiro começar a falar sobre sua última frase. Você sabia que sempre rechacei a palavra “doutrina filosófica”? E o fiz não somente porque me soe pedante, mas principalmente por acreditar que uma literatura que desenvolve teorias  é como um objeto que ofertamos e que traz colada uma etiqueta com o preço. O vocabulário filosófico por ser muito abstrato, de certa forma separa o pensamento do mundo. Portanto, eu lhe peço para não nos determos em teorias. Em meu livro, sempre me senti à vontade para expor as minhas ideias de uma forma simbólica, por meio  de objetos concretos - nos quais incluo os homens. Sem dúvida,  devo muito de meu pensar aos filósofos clássicos e a outros contemporâneos; eles me influenciaram em tantos temas, muitos dos quais, inclusive, já tratamos, quer seja na concepção das impressões e das sensações recebidas, nos sinais, nos sonhos, na minha conceituação da memória, do tempo e do “eu”. Mas eu trato de “filosofar” dentro de uma reflexão na obra de arte, no processo mesmo de escrever.

            A minha arte é, antes de tudo, a busca pela interpretação dos sinais. Procuro interpretar as sensações como simbologias de leis e ideias, tentando formulá-las, isto é, tirar da sombra o que apenas se percebera, para convertê-las num componente espiritual. O livro interior desses sinais, como o sabor do biscoito, ruído do garfo, etc., que minha atenção explorou como uma sonda, sua própria leitura constitui um ato de criação e descoberta. Não por serem pura e simplesmente atos de descoberta, mas sim,  da aplicação da inteligência à análise de todas as ilusões dos sentidos e dos raciocínios. Da mesma forma como o papel de minha arte também está voltado à derrubada de obstáculos, aqueles chamados preconceitos, que se interpõem entre o espírito e o real.

  • Estamos falando da lógica dos sentidos, onde não existem coisas e nem espíritos alheios aos corpos; mas esta mesma  lógica não exclui as ilusões do sentidos, a intervenção do sentimento e do raciocínio, como o senhor mesmo diz. Falava Nietzsche que “nenhum artista tolera o real”, mas ao mesmo tempo, dele não pode prescindir, sob  pena de criar tão somente uma arte meramente formal, desligada do mundo, da realidade.

            Você falou nas ilusões e na lógica dos sentidos e isto implica, por sua vez, admitir a existência de uma realidade não ilusória, aquela que nos provoca as ilusões, a realidade que não obstante necessária, não é, de modo algum, completamente previsível, como pensam aqueles que são denominados “naturalistas”.

            Digo que o fundamental está no espírito e não no objeto, desde que jamais a gente  esqueça que o objeto encontra-se ali. Portanto, mais além de nossas impressões, das sombras que vemos e sentimos,  existe o mundo que “deve” ser compreendido. Assumo a sua existência, mas veja que eu disse também “deve”, pois para mim, Proust, esse mundo exterior não é passível  de compreensão, na justa medida em que o mundo dos possíveis sempre me foi mais aberto que o das contingências reais. O campo infinito dos possíveis estende-se, mas, de qualquer modo, os acontecimentos ocorridos são os únicos conhecidos.

            É claro para mim que o mundo está submetido a determinadas leis, sem as quais nenhuma ciência seria possível e que existe certo vínculo entre a inteligência humana e o universo. Nós compreendemos que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; que toda realidade, é talvez, tão dissemelhante da que julgamos perceber diretamente e que compomos com a ajuda de ideias que não se mostram, mas que estão ativas dentro de nós mesmos; assim como as árvores, o sol e o céu não seriam tais como os vemos se fossem conhecidos por seres que tivessem olhos constituídos de forma diferente dos nossos.

            Portanto, a percepção significa interpretar as sombras que nos chegam dos homens e dos corpos e tratar de reconstruir, com a inteligência, os objetos invisíveis que lhes deram origem. Este processo, a compreensão de uma impressão ou um sentimento, requer que os observemos tal como o apreendamos e, depois, que nos coloquemos a analisá-los , ou seja, decompô-los em seus elementos conhecidos que permitam que sejam encaixados em leis mais gerais.

            Da mesma forma, temos o mundo interior dos homens, esse sim é susceptível de entendimento; o problema é que ele nos escorre sem cessar pelos dedos, como a fluidez da água, porque o íntimo de cada pessoa muda  com o decorrer do Tempo. Entretanto, mesmo nessa permanente mudança, sempre  algo permanece dos indivíduos e das coisas, e é essa a base inicial por meio da qual chegaremos à essência, à unidade de um universo próprio do escritor.

  • Por falarmos na essência das pessoas, frequentemente seus personagens mudam de aspecto, de idade, de físico, de comportamento e, até mesmo, de sexo. Como é possível que eles não percam partes da sua essência?

            As essências não precisam necessariamente serem distintas da própria aparência, pois pertencendo ao domínio do não-corpóreo, ao domínio dos sentidos e das sensações, elas se encontram no mesmo caminho da percepção dos sinais, de sua organização e distribuição. A essência é uma ideia que habita o nosso mundo e, diferentemente do que Platão acreditava, só o nosso mundo. Para mim não existem Verdades últimas a serem descobertas, presumidas; apenas essências que são os corpos a traduzir e a própria tradução dos mesmos, e normalmente, não são as mais aparente as que nos são as mais essenciais.

             Por outro lado, todas essas mudanças que acontecem no decorrer do Tempo não ocorrem em uma realidade , mas principalmente no pensamento transposto para a linguagem escrita, pois somente ela é suficientemente maleável para provocar as metamorfoses do real, para transfigurá-lo, para fazê-lo aparecer na obra de arte tal como um fim em si mesmo.

  • Sugiro que voltemos a falar um pouco mais sobre as suas criações artísticas incluindo o processo criativo de “Em Busca do Temo Perdido”, aprofundando o que realizamos nas nossas primeiras palavras.

            Creio que sou autor de uma única matéria, sendo que tudo o que escrevi antes foram tão somente ensaios; portanto, não me credencio com criações artísticas, unicamente com o meu romance. Ele conta uma história da maneira como foi percebida, transportada, onde a impressão gerada no artista é o que importa, assim como a imaginação que a trabalhou, realizou-a de uma forma deliberada e coerente. Uma arte  feita sobre as impressões, não modificadas, a priori, pela inteligência.

            O verdadeiro gênio, e mesmo o grande talento, provém menos de elementos intelectuais e de afinamentos sociais superiores, que da faculdade de os transformar, de os transportar. Deste modo, os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subtamente de viver para si mesmos, de tornar  sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se reflete, por mais medíocre que aliás pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido.

            A partir deste reflexo, obtém-se a revelação, impossível pelos meios diretos e conscientes, da diferença qualitativa que existe na maneira como surge o mundo, a diferença que, se não houvesse a arte, ficaria sendo o segredo eterno de cada um. Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que enxerga outra pessoa desse universo que não é igual ao nosso, e cujas paisagens permaneceriam tão ignoradas de nós como por exemplo, as da Lua. Em vez de ver um só mundo, o nosso, nós o multiplicamos e dispomos de tantos mundos quanto forem os artistas originais, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam pelo Infinito. Muitos séculos após se haverem extinto os núcleos de onde provieram os Rembrandt ou os Vermeer, eles ainda nos enviam seus raios especiais.

  • Em seu livro, o Narrador fala muito de “eternidade”, que seria uma prolongação do Tempo; pelo que consigo depreender, a arte para o senhor constituiria uma forma de salvação aberta exclusivamente a quem possuisse a capacidade de criar, ou seja, a Marcel, o Narrador e não a Swann.

            André, ser poeta, músico ou pintor constitui uma espécie de sacerdócio; no entanto, entre eles e as pessoas sensíveis que se deixam enlevar, extasiar pela obra de arte, não existe conflito algum, pois ambos os grupos se complementam. No momento da criação , assim como no exato momento em que observamos uma obra de arte, em que permitimos que a impressão nos sensibilize, nos transporte de  um mundo a outro muito mais rico e que é o próprio nosso interior, permitindo-nos uma espécie de uma leitura de nós mesmos, acredito que neste momento, nos conduzimos fora do Tempo, mesmo sem sermos imortais. Quando o violino dialoga com o piano na composição de um Vinteuil, o espírito de Swann e de Marcel sorviam o nectar da ambrosia de suas próprias emoções passadas, num êxtase atemporal, dentro de uma fração de extra-tempo, vivenciando, ambos, um instante da imortalidade.

            Bergson diz que nós possuímos todas as nossas lembranças, porém não a faculdade de recordá-las, mas, afinal, eu me pergunto, o que é uma lembrança da qual não nos recordamos? Uma vez que não conheço toda uma parte das lembranças que estão atrás de mim, uma vez que me são invisíveis, que não tenho a faculdade de chamá-las para mim, quem me diz que nessa massa de mim desconhecida, não as haja que remontem muito além da própria vida humana? Um mesmo esquecimento apaga tudo. Mas ,então, o que significa aquela imortalidade da alma que o filósofo norueguês afirmava  como sendo uma realidade? O ser que serei após a minha morte não tem mais razões para lembrar-se do homem que sou desde o meu nascimento, como este não se recorda do que fui antes de nascer.

            De qualquer forma, já que estamos nisso, deixemos claro de que a única forma de eternidade na qual acredito é a da obra de arte e, veja,  não porque ela seja imperecível, embora seja certo  que os poetas sobrevivam aos políticos, às instituições, assim como a música se subtrai ao tempo e até mesmo as ruínas possuem sua própria voz. A arte também é perecível, mas eternal dentro do Tempo humano. Assim como o Júpiter de Fídias não chegou até nós e nem mesmo o nome de seu amante escrito no anel de ouro do deus e também como aceitamos a ideia de que já não existiremos daqui a dez anos, sabemos que dificilmente nossos livros existirão daqui a cem. A duração eterna não é permitida às obras mais que aos homens.

            Para concluirmos, o papel principal do artista consiste em metamorfosear a realidade e, graças à sua capacidade imaginativa-criadora, criar um novo universo, que é o mundo recriado da arte, que, entretanto, na medida em que supera o criador, passa a existir como um novo mundo criado e recriado, não mais para o indivíduo, mas para a humanidade. Como Elstir, como Chardin, só pela renúncia àquilo que se ama pode-se adquirir a capacidade de refazê-lo.

  • Em 1919, o senhor anotou em um livro de Senancour, “Oberman”:  “Senancour sou muito eu”. Se o senhor me permite,  gostaria de lhe recordar um pequeno texto de Senancour, que vai ao encontro dessse seus últimos pensamentos:

                        “No mesmo momento em que balbuciamos Eternidade, alimentamo-nos de ruínas, e esta mão que deseja indicar uma morada imortal, ergue-se para bendizer os que irão até a morte nas batalhas. Nos campos fecundados pelos mortos, levantam-se os                          palácios construídos pelos mortos e nossos monumentos erguidos pelos mortos. Mortos escreveram nossas histórias, prepararam nossas grandezas, justificaram nosso orgulho na evolução, no progresso e é à própria Morte que  confiamos uma imponente duração. Os mundos são apenas ruínas e a vida, destruição. A Natureza se mantém no limiar do nada; e, como a água que se ergue em vapores invisíveis para cair               depois em torrentes, o movimento dos seres, perpetuamente repetido, assemelha-se a um perpétuo desmoronamento.”

 As musas e os poetas

  • Hesíodo, o  poeta que conta as verdades também canta as fantasias e as próprias mentiras, todas sopradas que eram  pelas Musas, filhas de Mnemósine. Ele nos diz que a deusa grega da Memória é tão velha quanto a Terra, de quem é filha.  A Memória está no princípio de tudo, irmã de Cronos. E assim como o Tempo, ela  possui a mesma infinitude deste, sem ser infinita, pois tem um princípio; ela  por sua antiguidade remonta à criação dos deuses num tempo que é humano.

 Apenas muito tempo depois surgiu o novo senhor do Olimpo, Zeus. E Mnemósine foi noves vezes por Zeus amada e pariu as nove as Musas, cantoras divinas. O poeta não é apenas aquele que interpreta o sopro das Musas, faz as poesias e as transmite, mas o privilegiado indivíduo  que no nome delas legisla na transmissão da verdade e, porque não, da mentira. Ele, o poeta, um “elaborador da memória”, um portador da verdade e, como ninguém mais, um fingidor.

  Caro André, já que você principiou com os gregos, gostaria de trazer a mitologia um pouquinho mais para o nosso lado ocidental. Existe uma antiga crença céltica, que acho muito razoável, que diz que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, quer seja em um animal, num vegetal, ou mesmo em alguma coisa inanimada. De fato, permanecem perdidas para nós até o dia em que acontece de passarmos perto da árvore, do animal ou entrarmos em posse do local que é sua prisão. Então, as almas queridas palpitam, chamam-nos, e tão logo as tenhamos reconhecido, dá-se a maravilha da quebra do encantamento. Libertadas por nós, as almas vencem a morte e retornam ao nosso convívio e permanecem conosco.  Nosso cérebro é tal qual esses seres e materiais onde se escondem nossas recordações. É, entretanto, trabalho perdido procurar os fatos submersos em nosso inconsciente e evocá-los, porque todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis. O passado está escondido fora do “noous”, do nosso conhecimento e de seu alcance; mas está em algum objeto material, na sensação que este objeto material nos propiciaria, que estamos longe de suspeitar até mesmo qual seja. Tal objeto, tal corpo, depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que não o reencontremos jamais.

            O mundo não é criado de uma vez por todas para cada um de nós; ele vai, no decorrer da vida, acrescentando coisas, “serezinhos” de quem nem suspeitávamos. Quando quase nada subsiste de um passado antigo, depois da morte de nossos amigos, depois da destruição das coisas, aqueles “serezinhos” permanecem sozinhos, incrustados em nossa memória inconsciente, muito frágeis porém mais vivazes, imateriais, mas persistentes, mais fiéis que as outras sensações percebidas. Pois o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como aquelas almas célticas, chamando-nos, ouvindo, esperando sobre as ruínas de tudo o mais, suportando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, no imenso edifício das recordações.

            Quando Marcel, já penetrando na velhice, após um longo afastamento social, caminha para o palácio dos Guermantes, quase cai em virtude da desigualdade do pavimento ao atravessar uma rua; ao mesmo tempo ouve o soar da buzina do bonde a passar. Naquele instante uma onda de felicidade o invade dado que o desnível das lajotas  lhe traz sensações que vivenciara em Veneza, a dos pisos descontínuos; já o ruído da campainha no portão da casa de Balbec, que soava todas as vezes que o sr. Swann ia visitá-los, como por magia lhe é transportado numa fração atemporal pela buzina do bonde que quase o atropelara segundos atrás, ao perder o equilíbrio.

            Na sequência, novos impactos e ondas de felicidade o aguardavam. Na biblioteca do palácio de Guermantes ouve o ruído de um prato tocado por uma colher; depois, o toque em seus lábios de um guardanapo engomado que lhe oferecem para secar os lábios após servir-se de um biscoito molhado no chá. O ruído do prato com o talher transporta-o à lembrança das sensações recolhidas na juventude, quando um empregado utilizava um martelo para consertar uma das roda do trenzinho que fazia o trajeto para Balbec. O toque no guaradanapo engomado lhe vivifica a impressão sentida quando, ao tentar enxugar-se no Grande Hotel de Balbec com uma toalha, dera-se conta de que ela não absorvia a água. O biscoito molhado no chá, a sensação de delícia, acolhimento e segurança propiciada pelo prazer das “madelaines” molhadas na infusão de tílias da tia Leonie. Tantas eram as sensações que o acaso havia lhe presenteado, recuperado-as do seu inconsciente.

            E estas sensações produziram no Narrador uma corrente de bem-estar, trazendo-lhe a sensação vivenciada no passado, fazendo-a permear o presente a ponto de torná-lo hesitante, sem saber em qual dos dois momentos se encontrava; na verdade, a criatura que então saboreava essa impressão, saboreava-a no que ela tinha de comum entre um dia antigo e o atual, no que a sensação possuia de extratemporal. Extratemporal por serem impressões que só apareciam quando, por uma dessas identidades entre o hoje e o tempo transcorrido, encontravam o único ambiente em que conseguiriam viver: o desfrute da essência das coisas, e isto, dentro de uma efêmera fração de tempo. E, como se por ironia do acaso, todo este conjunto de fenômenos atemporais ocorreram justamente no retorno de Marcel à sociedade e não durante a prolongada solidão para tratamento de saúde. Mas este conjunto de fenômenos revividos por acaso, possuia o poder de fazê-lo reencontrar os dias antigos, o tempo perdido, ante o qual os esforços da memória consciente e da inteligência já haviam fracassado. No presente, o abalo efetivo de seus sentidos pelo ruído, etc., acrescentara aos devaneios da imaginação aquilo de que são habitualmente destituídos: a ideia da existência! E graças a tal subterfúgio, permitiram-lhe obter, isolar e imobilizar, na duração de um relâmpago, o que jamais ele obtivera antes: uma fração de tempo em estado puro.

            Mas veja que nessas ressurreições, o local distante engendrado em torno da sensação comum, sempre se agarrava ao local de hoje. E o local de hoje sempre era o vencedor, mesmo que não lhe parecesse o mais belo. E Marcel não mais se detinha na extrema diferença existente entre a verdadeira impressão que tivera de determinada coisa e a impressão artificial que fornecemos a nós mesmos quando tentamos no-la representar voluntariamente. Agora ele percebia o porquê de tantas vezes, no decorrer da vida a realidade o decepcionara, pois no momento em que era percebida, a imaginação, único órgão que possuia para gozar a beleza, não podia aplicar-se a ela, em virtude de que só se pode imaginar aquilo em que se esteja ausente. Então, o Narrador percebia que o ser que renascera nele mesmo, com tal frêmito de felicidade, só pode nutrir-se da essência das coisas, pois apenas nela encontraria subsistência e delícias.        

            Portanto, é graças tão somente ao próprio esquecimento que podemos, de tempos em tempos, reencontrar o ser que fomos, colocarmo-nos perante as coisas como o estava aquele ser, sofrer de novo porque não mais somos nós, mas ele, um outro, porque ele amava o que agora nos é indiferente.

  • Temos, então, uma segmentação da memória, ou seja, uma memória em que procuramos fatos do passado através da ação intencional de busca, que podemos denominá-la ”memória inteligente”e aquela que ocupa um espaço muito maior no nosso cérebro, mas que não pode ser acionada voluntariamente, a “memória sensível ou inconsciente”. Se o primeiro compartimento é mais facilmente corrompido pelo Tempo, o segundo, apesar de encerrar sensações que “se encobrem, protegem,” também sofre a mesma ação destruidora.

            A maior parte de nossa memória está fora do alcance de nosso consciente; fora de nós, entretanto, em nós; para melhor dizer, oculta de nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado. Em toda parte, tudo aquilo que fora tocado apenas pela nossa afetividade e constituia a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas  ainda ressurge no presente e sabe nos fazer chorar, esta permanece no nosso inconsciente. 

            Marcel, em uma de suas reflexões a respeito da memória intelectiva, ou se quisermos, voluntária, diz que compreendia melhor a contradição que existe em procurar a realidade nos quadros da memória consciente, aos quais sempre faltaria o encanto que lhes advém da própria memória. Perambular através da memória inteligente é como  folhear um álbum de fotos. A recordação de uma certa imagem não é mais que a saudade de um certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas, infelizmente, são fugitivos como os anos. Os locais fixos, contemporâneos  de anos diferentes, vale mais encontrá-los em nós mesmos, em nossas recordações. Não há necessidade de viajar para revê-los, é preciso descer ao fundo de nossa alma para encontrá-los.

            Já o Tempo é como o cupim na madeira; começa por realizar perfurações e deixa todas as nossas recordações como um rendilhado de conteúdo semi- destruído. A memória, sempre presente aos nossos olhos,  trazendo-nos os diversos acontecimentos de nossa vida, é antes um abismo em que, por um momento, por uma similitude de impressões e sensações, permite-nos sacar ressuscitadas reminiscências extintas; mas há mil pequeninos fatos que não caíram nessa virtualidade da memória, e que escaparão para sempre à nossa verificação. Isso faz com que as imagens escolhidas pela recordação sejam tão arbitrárias, tão estreitas, tão inacessíveis, como as que formaram a imaginação.  

  • Senhor Proust, meu entendimento é  que a sensação do passado, trazida ao presente desde o subconsciente, parece ter como principal função espiritualizar a sensação vivida no presente, aí sim, integrando-a à consciência onde trabalhada é gravada através da escrita.

            Sem dúvida, pois ao contrário da memória inteligente, aquela que se abriga em nosso inconsciente, retornando como fruto do acaso, de uma maneira sempre fugaz, possui uma única maneira de ser perenizada: consiste em retrabalhar as sensações, reconstruir na imaginação as imagens e impressões de um tempo recuperado, e escrevê-las. É inevitavel que o intelecto, o pensamento, tem que estar a serviço das sensações no processo de criação artística, e, mesmo, as tais verdades que a inteligência despreende diretamente da realidade não são de todo desprezíveis, apesar de que envolvam matéria menos pura, ainda que eivadas de espírito, que não podem de modo algum ser desprezadas no processo de criação artística, sopradas que nos são aos ouvidos pelas “musas que cantam”.

            Quando se decide pelo recolhimento, Marcel vai remexer no livro interior dos sinais desconhecidos, no inconsciente, e como um mergulhador realiza suas sondagens, onde ninguém poderia ajudá-lo assim como nenhuma regra, pois essa leitura constituía um ato criador para o qual coisa alguma pode contribuir conosco. Apenas seria necessária uma condição à obra, tal qual Marcel a concebera: o aprofundamento das impressões que antes tornava-se imperioso recriar pela memória. Essa reciclagem, via memória das impressões, que a seguir era necessário ser aprofundada e esclarecida e transformada em equivalentes da inteligência.

            Movido pelo instinto, o escritor, que muito antes de imaginar sê-lo um dia, esquecia-se de reparar em coisas que os outros notavam, o que o fazia ser tachado de distraído por aqueles e por si mesmo, acusando-se de não saber ouvir nem ver; durante esse período, ordenava a seus olhos e ouvidos que retivessem para sempre o que aos outros pareciam ninharias infantis, o tom com que fora dita certa frase, a expressão, e o dar de ombros de determinada pessoa em certo momento. Quando ele decide se dedicar a escrever, o escritor se exercita todo o tempo em só  abastecer sua memória do que é essencial das observações passadas.

  • De um modo geral somos tentados a imaginar a memória como um arquivo, um álbum de fotografias, que principiando na nossa mais tenra infância, mantém em constante ampliação suas pastas, num movimento contínuo, diário que inclui até o dia de hoje, o sonho de que ainda nos recordamos nesta manhã.

            André, a nossa memória não  nos apresenta habitualmente as recordações na ordem cronológica com que foram registradas, mas como um reflexo em que está alterada a ordem das partes. A partir de certa idade, as nossas lembranças ficam de tal modo entrecruzadas umas às outras, que aquilo em que pensamos, o livro que lemos, quase não tem importância nenhuma. Colocamos  muito de nós mesmos em toda parte, onde tudo é fecundo e perigoso, e onde também podemos fazer preciosas descobertas. É escusado que mudemos de ambiente, de gênero de vida, pois nossa memória, retendo o fio de nossa personalidade, sempre igual, prende a ela, em épocas sucessivas, a lembrança dos meios em que vivemos, de que, ainda passados quarenta anos nos recordaremos. Ainda diria, que pouco a pouco, os dias antigos recobrem aqueles que os precederam, e eles mesmos são sepultados sob os que se seguem. No entanto, basta que esse dia antigo, atravessando a transparência das épocas seguintes, remonte à superfície e se estenda sobre nós, cobrindo-nos inteiramente para que durante um momento os nomes recuperem os seus antigos significados, as criaturas o seu antigo rosto, nós, a nossa alma dessa época, e sintamos como um sofrimento vago,porém suportável e de pouca duração, os problemas de há muito tornados insolúveis, que tanto nos angustiavam então.

           

  • Eu gostaria de ressaltar duas afirmativas suas relacionadas à memória e às imagens que ela é capaz de nos trazer. Uma delas que:“ os verdadeiros paraísos são os que já perdemos”. A outra, que de certa forma complementa a primeira, “ sempre devemos vivenciar a beleza, pois será vista uma única vez na vida”. Isto não significa certo niilismo em relação à vida  presentificada, ao ar que pode penetrar pela persiana fechada se a abrirmos e purificar todo o ambiente, todo o nosso ser?

            Ora, André, aceito plenamente que você possa conceituar como pessimista o meu  vivenciamento da realidade, inclusive que o “niilismo”seja uma enfermidade de nossos tempos, principalmente para aqueles que, no século das ideologias, rejeitam os ideologismos. Mas saiba que  busco ardentemente a felicidade, mas que somente a encontro nos recônditos da memória, e ela me ocorre na forma de sensações e impressões vivenciadas nos meus anos de infância e juventude, quando realmente, tanto eu quanto o Narrador sentía-mo-nos amados, amparados, protegidos, em um mundo previsível e gentil, que desmoronou com o passar do Tempo. Minha família, nossos costumes, honorabilidade, valores, tudo. De certo modo, revolto-me contra este desmoronar provocado pelo tempo e neste processo, sou afirmativo, meu “niilismo”desaparece na construção de uma obra de arte e na busca e reencontro do Tempo Perdido.

            Existe um agonismo que inclui o passado e as sensações felizes que a memória inconsciente me propicia. E eu busquei sempre um consolo da vida na arte, por ela possuir uma realidade mais profunda em que a minha personalidade verdadeira encontrasse expressões que lhe dessem as ações da própria vida. As recordações nos fazem respirar um ar sempre renovado, precisamente porque é o ar fresco que respiramos outrora. Este ar torna dispensável a abertura das persianas, para mim, Marcel Proust. A memória, introduzindo o passado no presente sem modificá-lo, tal qual fora quando presente, suprime exatamente essa enorme dimensão do tempo conforme a vida se realiza e dela sorvo com toda a sofreguidão meus momentos de felicidade.

  • Em determinado momento de seu livro, quando o senhor trata das “intermitências do coração”, ocorre a ligação da afetividade vivida com as perturbações da memória. Enquanto Descartes busca as provas da existência no pensamento humano, o senhor descobre-as nessa ressurreição de sensações extraordinárias, não vindas do pensamento, mas do inconsciente. Então o passado relembrado atua como um” continuador”, evita a dispersão do “eu”na sucessão de momentos provocada pelo tempo.

            Acontece que a ordem dos fatos nem sempre coincide com a ordem de nossos sentimentos, pois a realidade interior e a exterior não possuem a mesma cronologia.  Deste modo, o momento e a intensidade de como determinado ato que nos sensibiliza é independente de sua intensidade e do momento em que ele ocorreu. Por exemplo, Marcel assite com frieza à morte da avó a quem tanto amava, de modo a descrevê-la como um fotógrafo que fosse chamado a eternizar a velha morrendo. Meses depois, quando retorna a Balbec, onde estivera com sua avó, o ato de desabotoar sua bota lhe traz a infinita dor da morte de quem tanto amara. Somente aí aflora então toda a sua sensibilidade,  junto a cenários de infinita recordação e paixão, recalcados que estavam no fundo de seu coração. Portanto, como não existe um tempo único, tão pouco existe um esquecimento contínuo. O passado sempre retorna sob as intermitências do coração.

  • Senhor Proust, gostaria de recordar-lhe uma passagem de “Fausto", quando um estímulo auditivo propicia-lhe o retorno de um passado de felicidade momentânea, num processo extremamente similar ao vivenciado por Marcel, o que, naquele momento, impede que Fausto, sem encontrar motivos para seguir vivendo, se suicide:

“Enquanto Fausto permanece sentado noite adentro, a caverna de seu íntimo cresce e é inundada pela  escuridão e pelo abismo do absoluto vazio de sua existência, até que ele resolve se suicidar”. Apanha um frasco de veneno. Justamente neste ponto Goethe o resgata e o inunda de luz e afirmação. O quarto inteiro treme, os sinos ribombam lá fora, é Dia de Páscoa, o sol se ergue e um coro angelical ressoa: “Cristo se ergueu do útero da decadência! Libertem-se as cadeias”. Fausto ri do conteúdo cristão, mas o que o choca é outra coisa: “No entanto eu conheço tão bem esses sons desde a minha infância, que ainda agora eles me chamam de volta à vida”. Os sinos repõem Fausto em contato com a sua infância! As comportas da memória involuntária haviam criado o momento eternal em que ondas de esquecidos sentimentos o atropelam- amor, como o desejo, ternura, unidade- ele se sente verdadeiramente engolfado pela atmosfera infantil que a vida adulta sepultara no seu inconsciente. Como um náufrago que se ergue para ser salvo, Fausto teve inadvertidamente aberta toda uma dimensão perdida de seu próprio ser e entra          em contato com fortes e poderosas energias capazes de revigorá-lo. E ele se surpreende , tal qual na infância, chorando novamente. Nesse momento ele está pronto para iniciar uma nova vida com e para o mundo que o aguarda.

            Sem dúvida, o grande Goethe tinha a habilidade e a percepção de decifrar aquilo que chamo de o “livro interior dos signos desconhecidos”. Ele, como todos aqueles que possuem gênio, sabia que o instinto dita o dever, que a todo o instante o artista deve ouvir o seu instinto, o que faz com que a arte seja o que existe de mais real, a mais austera escola da vida e o verdadeiro Juízo Final. E o grande mestre compreendia isto melhor que qualquer seu contemporâneo.

            Logicamente nem ele e nem eu fomos os únicos ou os primeiros escritores a vivererem esses extraordinários momentos “recuperados “ do passado, de reencontro do “tempo perdido”. Assim como você citou Goethe, em meu livro eu falo de Georg Sand e de seu “François le Champi” e de como o Narrador chega às lágrimas ao identificar o quanto a sua impressão de leitor se harmonizava com a experimentada pelo filho do morto que, no velório do próprio pai, se indigna ao ouvir o som da música de um regimento a marchar, sem respeitar seu luto. Até que a memória involuntária do filho lhe acode, e o toque da fanfarra soa como uma homenagem póstuma ao pai, que tantos serviços prestara à Pátria.

            Outros aspectos análogos podemos encontrar nas “Memórias de Além-Túmulo”, quando o personagem de Chateubriand, sente um perfume de heliotrópio, matizado de aurora, de cultura e de humanidade, que o subtrai de todas as catástrofes vividas e o conduz à herdade paterna, aos campos em que o tordo assobiava. Poderia ainda falar de Baudelaire, quando o próprio poeta, com mais requinte e preguiça, busca voluntariamente no odor de uma mulher as analogias inspiradoras que lhe evocarão “o azul do céu imenso e redondo” e “um porto apinhado de mastros e flâmulas”.

            Tal qual você descreveu com Fausto, Swann, ao escutar pela primeira vez uma sonata em que o piano e um violino travavam sua conversação sonora, através da repetição de uma frase melodiosa de tal profundidade espiritual, permitiu  que se apaguesse de sua consciência a sua preocupação com os interesses momentâneos e materiais, pois a pequena frase tinha deixado-a vazia e em branco; e ele estava livre para aí inscrever o nome de Odette, ou seja,  o seu amor por aquela mulher. O prazer que lhe dava a música e que em breve iria criar nele uma verdadeira necessidade, de fato se parecia com o prazer que ele teria em experimentar perfumes, em entrar em contato com um mundo para o qual não somos feitos, que nos parece informe porque nossos olhos não o distinguem, e  sem significado porque escapa à nossa inteligência, e que só conseguimos alcançar através de um único sentido. Grande descanso, misterioso renovar para Swann, para ele cujos olhos, embora delicados amantes da pintura, cujo espírito, apesar de fino observador de costumes, levavam para sempre a marca indelével da aridez de sua vida de então,  sente-se transformado em uma criatura estranha à humanidade, cega, desprovida de faculdades lógicas, quase um fantástico licorne, uma criatura de sonhos, só interagindo com o mundo pelos ouvidos. Começava a perceber tudo aquilo que aí havia de doloroso, talvez mesmo de secretamente desassossegado no fundo da doçura dessa frase melódica, mas não podia sofrer por isso. Que importava que Odette dissesse que o amor era frágil, o seu era forte!

O Tempo

  • Falemos sobre o Tempo, ou melhor seria dizer, os “Tempos”? “Em Busca do Tempo Perdido” principia com a frase do Narrador: “Durante muito tempo, deitava-me cedo.” E ainda no princípio do livro: “Um homem que dorme tem em volta de si, em ciclo, o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos.” Toda a sua obra parece conter verdades cuja simplicidade somente pode se sentir nas essências das coisas legítimas: circulariedade do tempo, um livro tem início ao final do último parágrafo; circulariedade das horas, pois basta olhar para o mostrador de um relógio para dar-se conta do mesmo; circulariedade do sono, pois traz ao ponto de partida aquele que dormiu; circulariedade do tempo criado pelos hábitos do dia a dia, das férias, etc., e, finalmente, até mesmo a circulariedade do espaço, pois  quem parte de Paris pelo oeste pode retornar vindo do leste. Conversemos sobre o Tempo e o seu romance.

            Busquei criar uma aventura espiritual em que o tempo de seta sempre a apontar o futuro, transforma-se em um guia que prospera circularmente, onde a própria gênese se repete e, como num mito, a vida e a natureza se recriam. Isso constitui uma busca e ao mesmo tempo uma ascese: uma forma de vivenciar o processo criativo, através da obra arte.

            Da mesma forma que não é o desejo de ficar célebre, mas o hábito do trabalho  que nos permite produzir uma obra; não é o entusiasmo do momento atual, mas as sábias reflexões do passado que nos auxiliam a preservar o futuro.

  • Existem algumas passagens em seu livro  que de alguma forma tentam transportar-nos  do presente, que já se transformou em passado, para um futuro.

            Caro André, não se trata de nos transportarmos metafisicamente para um momento futuro, mas, algumas vezes, o futuro habita em nós sem que o saibamos, e as nossas palavras, que muitos julgam mentir, delineiam na verdade uma realidade próxima. Existe o instante em que Marcel pronuncia a palavra morte, referindo-se à Albertine “fugitiva” como se ela  fosse morrer. Parece que os acontecimentos são mais vastos  do que apenas o momento em que ocorrem e não podem caber neles por inteiro. Decerto, transbordam para o futuro pela memória que deles guardamos, mas pedem também um lugar ao tempo que os precede. Talvez o futuro que ainda só existe em nosso pensamento, pareça-nos, então, modificável pela intervenção “in extremis”de nossa vontade. Veja que os momentos do passado não são imóveis, conservam em nossa memória o movimento que os arrastava para o futuro- um futuro que se tornou também passado, arrastando-nos igualmente a nós mesmos.

            Nós imaginamos o futuro como um reflexo do presente projetado num espaço vazio, quando ele é frequentemente o resultado muito próximo das causas que o mais das vezes nos escapam. É claro que ninguém está situado fora das contingências do tempo, mas, sim, submetido às suas leis, tais como aquelas personagens de romance que, exatamente por isso,  inspiravam-me  tamanha melancolia. Sabemos teoricamente que a terra gira, mas na verdade não o notamos; o chão que pisamos parece que não se move, e a gente vive tranquilo. O mesmo acontece com o tempo na vida, como dizia Galileu “e tudo se move”.

É verdade que a principal contingência com que nos deparamos seja aquela do Tempo inflexível. É o eterno devir ao qual todos os seres estão condenados. São as imagens que trazemos do passado e nos assaltam num presente e que, imediatamente, já começam a se transformar num passado, e o futuro, sem que o percebamos, já é presencial. Exatamente por isto criamos o nosso tempo interior que busca resistir à passagem inexorável daquele e conseguimos, até mesmo, por instantes a “supressão” do Tempo, o seu ilusório caminhar mais lento ou mais apressado.

            Marcel diz que: “Há dias acidentados e penosos que a gente leva um tempo infinito a transpor, e dias em declive, que se deixam descer a toda velocidade, cantando. Elástico é o tempo de que dispomos cada dia; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiramos o encurtam e o hábito, o enche”. Essa sensação subjetiva do Tempo, de certa forma, leva a que gravemos em nossa memória os sentimentos que o dilatam e as dificuldades que transpusemos; por outro lado, as delícias que sorvemos, essas por passarem tão rapidamente, possuem registros mais compactos, num tempo vivido mais “ligeiro”. Quando desaparece uma crença, sobrevive-lhe um apego fetichista às coisas antigas que ela mimara, como se fosse nelas e não em nós que residisse o divino e como se nossa incredulidade atual tivesse uma causa contingente, ou a morte desses nossos deuses interiores. A velocidade em que o tempo escoa é diferente de pessoa a pessoa, por um único motivo, ou seja, o Tempo humano não é contínuo.

  • O homem atento adquire uma obsessão pela passagem inexorável do tempo. Para Marcel,  o indivíduo submergido no tempo se desagrega; chega mesmo um dia em que nada sobra daquele homem que antigamente amou e foi capaz até mesmo de fazer uma revolução. Entretanto, o próprio Marcel experimenta uma antinomia: sentir a angústia de que tudo passa, mas que algo subsiste da essência mesma do homem. E dessa essência , como matéria-prima, o tempo opera transformando-a, assim como age sobre a sociedade e as relações humanas.   

            Creio que sob a sua ação desagregadora, o Tempo também cria novas realidades, operando com todo o seu potencial transformador. Marcel nos diz que não há humilhação por pior que seja, a que não devamos facilmente nos resignar, sabendo que ao cabo de alguns anos nossas culpas serão apenas uma invisível poeira sobre a qual vicejará a paz risonha e florida da natureza.

            Ele nos fala do salão da nova princesa de Guermantes, a velha sra. Verdurin, que era iluminado, aquecido e florejante, talvez como um cemitério tranquilo. O tempo não só desfizera antigas criaturas, mas tornara possíveis, criara associações novas, pois na sociedade os antigos não se apercebem da curva do tempo, que faz com que os mundanos de hoje vissem as pessoas do ponto de vista da chegada, como antes fora no passado, quando, na verdade, elas estão de saída.

             O tempo também cura as dores e as disputas porque não se é mais a mesma pessoa, nem a que um dia ofendeu, nem a que foi ofendida são mais as mesmas. Esquecemos as safadezas que um sujeito nos fez, seus defeitos, a última vez que nos separamos sem lhe apertar a mão e, em compensação, lembramo-nos de um encontro mais antigo, de quando nos dávamos bem. Mistura de perdão, esquecimento e indiferença, tudo também é efeito do Tempo. O Tempo também possui uma  ação suave , balsâmica, diversifica as lembranças, de modo que o poeta, que esqueceu quase tudo dos fatos, retém no entanto uma impressão fugidia de suas dores.

            Marcel nos relata que após vinte anos de ausência do convívio social encontrou, em lugar de presumíveis rancores, os perdões involuntários, inconsistentes, e, em compensação, até mesmo alguns ódios cuja razão não podia explicar, porque por nosso turno também esquecemos a má impressão que um dia causamos.

             Nós não vemos o nosso próprio aspecto, nossa própria idade, mas cada um, como um espelho, exibe a dos outros, pois em primeiro lugar acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns a enfrentam com indiferença, não porque sejam mais corajosos que os outros, mas por terem menos imaginação. Assim, o Tempo muda o aspecto das coisas nesse mundo, o centro dos impérios, o cadastro das fortunas e a carta dos privilégios, tudo o que parecia definitivo é perpetuamente remanejado, e os olhos de um homem vivido podem contemplar a mais completa mudança, justo onde esta lhe parecia mais impossível.

            Da mesma maneira vai mudando o nosso coração durante a vida e esta é a pior das dores. Marcel descobre ao final que toda a beleza da duquesa de Guermantes e, mesmo, de certas páginas de Bergotte, somente tinham encanto quando vistos à distância e se desvaneciam quando se encontravam a seu lado, pois tudo residia apenas na memória e na imaginação, frutos de um passado profundo de sua vida em que sonhara mais e alimentava maior crença nos homens. Na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagorosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo os seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação de mudança.

  • Nós somos formados de Tempo”, essa é uma das essências da psicologia do tempo de Proust. Significa que a cada momento adicional de nossas vidas nós incorporamos mais tempo e que quando ele nos abandona, morremos.

     Reduzindo-se tudo o mais a duas frases, é disso que se trata. O Narrador nos convoca a perceber que ocupamos um lugar sempre acrescido no Tempo, somos seres que nos tornamos, com o passar do tempo, nas diferentes fases de nossas vidas,  detentores de Tempo, pois o Tempo incorporado é inseparável do Tempo decorrido. É por assim conterem as horas do passado que as pessoas podem causar tanto mal a quem as ama, pois abarcam muitas lembranças de alegrias e desejos para elas já estejam extintos, mas cruéis para quem contempla e prolonga na ordem do tempo o corpo amado, o qual, no auge do ciúme, chegou mesmo a desejar a destruição.

            Ocorre no mesmo momento da morte,  a retirada do Tempo do corpo, e as lembranças- tão pálidas e indiferentes- apagam-se daqueles que já não existem, e em breve, igualmente se apagarão daqueles a quem torturam ainda, mas no qual acabarão por findar quando o desejo de um corpo vivo não mais as mantiver.

  • E toda a monumental obra chega ao final- ou eu melhor diria, a seu princípio- como a sua frase:

 “Pelo menos, se me fosse concedido tempo suficiente para terminar a minha obra, não deixaria eu , primeiro, de nela descrever os homens , o que os faria se assemelharem a criaturas monstruosas, como se ocupassem um lugar tão considerável, ao lado daquele tão restrito que lhes é reservado no espaço, um lugar, ao contrário, prolongado sem medida -  visto que atingem simultaneamente, como gigantes mergulhados nos anos, épocas tão distantes vividas por eles, entre as quais tantos dias vieram se colocar  -  no Tempo.”