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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo VII- Facetas do sexo



As cocotes e mulheres de bordel

            Nada melhor que iniciarmos nossa conversa com a citação de um drama teatral tão em evidência hoje em dia:  “As Mulheres de Mármore”, de Barrièrre e Thiboust. Os atores representam os gregos Górgias e Fídias. Fídias, o escultor, morrerá por amor não correspondido que devota a uma das mulheres de mármore, criadas por ele próprio com seu cinzéu. O efeito final do ato é dado pelas estátuas que se voltam sorridentes para Górgias que lhes oferecera dinheiro, dando as costas a Fídias, seu criador, que, ingenuamente, prometera-lhes a glória. Baudelaire descortinou, nos desenhos de Guys, o segredo do olhar emblemático da prostituta, tal qual as estátuas que sorriem para Górgias.“Ela fixa os olhos no horizonte, como a fera: olhos que têm a inquietude da fera, e às vezes, a espreita é tensa e brusca.”

            As  paixões dos principais personagens do romance, com excessão feita ao próprio Narrador, têm como alvo cocotes ou mulheres que se prostituem em “rende-vouz”. É o que acontece com o amor de Swann e Odette, Robert de Saint-Loup e Rachel.        

  • Determinado conde, famoso em seus dias de mundano, dizia a respeito das mulheres que vivem de seu corpo, que elas se parecem bastante com as cortinas de teatro, pois suas saias levantam-se toda noite, para não somente um ato, mas para até mesmo três ou mais.

            Se as mulheres das casas chamadas de tolerância, se as prostitutas mesmas- desde que saibamos que são prostitutas- atraem tão pouco os homens de espírito, não é porque sejam menos belas  do que as outras, mas sim, porque estão inteiramente à nossa disposição, pois elas se nos oferecem antecipadamente e não precisam ser conquistadas. Somos como Fídias, escultores, mas sonhamos sempre em obter de uma mulher uma reação diferente daquelas que piscaram indescentemente para Górgias. Que pelo menos não nos permitam ver.

            Poderemos, inclusive, nos apaixonarmos por uma operária, uma “middinette” (dessas que trazem suas marmitas para o meio-dia), mas conhecê-la numa casa de tolerância é vê-la esvaziada dessa vida desconhecida que a penetra e a que aspiramos possuir com ela. Já as  mulheres um pouco difíceis, ou que de tal se fazem a princípio, tal qual as cocotes que não as possuímos de imediato, e que nem sabemos logo se algum dia as possuiremos, são as únicas interessantes. Conhecê-las,  abordá-las, conquistá-las, é fazer variar de forma e de grandeza, de relevo, a imagem humana; é uma lição de relativismo na apreciação de um corpo, de uma mulher, que é lindo contemplar de novo quando ela retomou sua finura de silhueta no cenário da vida.

            Outro aspecto pelo qual as mulheres conhecidas em bordel não interessam é que elas permanecem sempre invariáveis. Por mais cansado que alguém esteja das mulheres, considerar a posse das mais diversas mulheres como sendo sempre a mesma e antecipadamente conhecida, somente se traduz em uma maior desilusão.

  • Muitas vezes espantamo-nos ao constatar a íntima união que unem o jogo e a prostituição. No bordel, assim como nos salões de jogos, os homens podem provar da mesma delícia, aquela que para os crentes é a mais pecaminosa : colocar o  seu destino no prazer.  A fortuna de cada bola rolada sobre o pano verde flerta com o jogador, assim como a quimera  da sexualidade total e disponível, que é representada pelos corpos femininos à sua disposição. Em Paris, no século passado, estas delícias da luxúria estavam disponíveis para o homem de posses no Palais-Royal, de onde  o coronel Chabert, de Balzac,  diz trazido para sua vida a própria  esposa, a ingrata futura condessa Ferrold. Nos andares superiores do Palais corriam os jogos e nos de baixo, a bebida, a música e a prostituição.

            “Em Busca do Tempo Perdido” também possui um “Royal” da província. Maineville é uma antiga parada do trem de Balbec, que graças a um “mercador do bem-estar”, diretor de inúmeros cassinos e que mandara construir um novo estabelecimento, renascera. Essa foi a primeira casa pública para gente elegante nas costas normandas da França, que não se instalara sem despertar os inúteis protestos das mães de família. É bem verdade que o luxo de mau gosto do estabelecimento apenas admitia concorrência com certos palácios, mas nesse local, paraíso destinado ao prazer, buscariam sua satisfação os jogadores, os homens em busca de prostitutas e os invertidos para divertirem-se com os rapazes.

  • Retornando às nossas “sereias impuras”, o amor que delas se consome é, sem dúvida, venal. Mas não o é a vergonha de seu cliente. Essa vergonha às vezes procura um esconderijo e encontra o mais genial de todos: o dinheiro. E o  amor das cocotes não constitui somente uma variável em que essa vergonha possa esconder-se; pois o mesmo dinheiro pode dissimular-se em presentes, jantares, relações, e, quem sabe, em até um casamento.

            Um dos aspectos tocantes do papel dessas mulheres desocupadas e estudiosas do caráter masculino, as cocotes, é o fato de consagrarem sua generosidade e o talento a um sonho disponível de beleza sentimental o que lhes custa pouco, enriquecendo com um engaste precioso e fino a vida frustrada e de mau acabamento dos homens.

            Enquanto uma grande cocote vive para seus amantes, isso é, no reino de sua própria casa, a mulher de bordel vive para os outros, vive para a casa de tolerância. O ponto culminante do dia de uma cocote não é aquele em que se veste para a sociedade, mas em que se despe para um homem. Tem de ser tão elegante em robe de chambre, em camisa de dormir, como em traje de passeio. Outras mulheres mostram suas joias, ela vive na intimidade de suas pérolas. Eu descrevo a Odette cocote dos tempos do clã dos Verdurin como uma refulgente amálgama de elementos desconhecidos e diabólicos, crivados de flores venenosas enlaçadas em pedras preciosas, como numa aparição de Gustave Moreau. 

            Mesmo quando emancipadas daquela vida, quer pela fortuna arrancada aos homens, quer por um casamento ditoso, uma  cocote dificilmente perderá o seu “espírito”. Odette, depois senhora de Swann, ao criticar as mulheres, fazia-o sempre com a alma de cocote que nela instalara-se e assinalava os defeitos que mais podiam prejudicá-las na opinião dos homens: tornozelos grossos, pele ruim, má escrita , mau cheiro, cabelos nas pernas e sobrancelhas postiças.

  • A prostituição não é um elemento antagônico ao amor, mas sim uma forma decadente que ele assume. O livro de von Gall, “Paris e seus Salões”, conta-nos que fazia parte do regulamento da hora do jantar, em determinadas pensões e restaurantes, desde que devidamente anunciadas, estivessem presentes algumas cocotes, cuja tarefa era parecerem ser moças de boa família, e que, de fato, não estavam dispostas a deixar cair a máscara de imediato, envolvendo-se antes num invólucro de decoro e sobriedade. Este é um teatro em que as cocotes são tão disponíveis quanto as prostitutas, apenas que suas saias, ao contrário do pano de cena do teatro, não se levantam três vezes numa noite, e por isso seu preço é muito, muito maior.

            As  cocotes que participavam desses jantares podiam até não conseguir bom desempenho com os talheres,  mas a destreza que apresentavam é de outro tipo no trato do amante,  devido a essa premonição das mulheres que amam tanto o corpo do homem que adivinham logo o que dará mais prazer a cada corpo, todavia tão diferente do seu. Quanto ao dinheiro, um homem deve saber que quando vai pagar a uma mulher e esta lhe diz: “não falemos de dinheiro”, essa frase deve ser interpretada, como se diz em música, como um “compasso de silêncio”, pois provavelmente ele sabe onde deverá deixá-lo para que ela o encontre após sua partida; e que, se mais tarde ela lhe declara: “Fizeste-me sofrer muito, muitas vezes me ocultaste a verdade, não aguento mais”, ele deve entender: “Um outro protetor me oferece mais”. Ou você cobre a aposta ou busca outro amor.

  • O Narrador dá um destino insólito a  alguns utensílios herdados de sua tia Leonie, dado que haviam pertencido a pessoa de tão estritos preceitos morais e por ele respeitados. Seu amigo Block levara-o a conhecer o seu primeiro bordel e ele se compadece das meninas, de tal forma que doa à casa um sofá antigo, que pertencera à sua tia.

            Essa passagem de meu livro é de vivo simbolismo, pois já na sua próxima visita, Marcel dar-se-á conta do uso que as meninas faziam do sofá e sofre como se tivesse “feito violar uma morta”. Então, nunca mais retornará a esse pardieiro; somente anos depois volta a recordar-se do sofá doado e uma reminiscência do inconsciente nele aflora: naquele sofá recebera as carícias de uma prima e os primeiros prazeres do amor. Após isso ele toma a decisão de vender a prataria antiga que também herdara da mesma tia e as transforma em orquídias e flores para a sra. Swann.

  • Na leitura de seu livro, detectei significativas passagens em que seus personagens são flagrados em  atitudes pedófilas. De qualquer forma vale a pena relembrar que, até a metade do século XIX, a prostituição infantil era perfeitamente aceita em Paris. Um Ministro do Império, sr. Beraud escreveu uma proposta de que toda “moça pública deva ser registrada, mesmo as menores de idade”. Dizendo que o não registro das prostitutas infantis redundaria em um “abandono bárbaro”, propõe , inclusive, casas especiais de tolerância para elas permanecerem. De modo muito “humano”sugere que os pais sejam comunicados ,” mas que tenham a segurança de que a vida desregrada de suas filhas permanecerá ignorada e que será  um segredo religiosamente guardado pela administração”.

Marcel, sentindo-se desolado com a fuga de Albertine, encontra diante de sua porta uma menina pobre a fitá-lo de olhos bem abertos e com um ar tão doce. Pergunta-lhe  se não queria entrar, “como o teria feito a um cão de olhar fiel”. Ele a embala em seus joelhos, mas ao sentir aumentar-lhe a angústia pela falta de Albertine, despede- a imediatamente e sem mais dizeres, com a fabulosa quantia de quinhentos francos. Como sabemos, na mitologia grega, assim como na Bíblia, a expressão “sobre os joelhos” possui uma clara conotação de relação sexual.

             No texto, o Narrador diz que  buscava na menina “o apoio de uma presença inocente”, uma fantasia que lhe permitiria suportar a ideia da possível demora do retorno de Albertine. Talvez, inconscientemente, buscasse algum consolo tão somente presencial ou melhor, “filial”,  sentindo-se  uma espécie de mãezinha da menina. É bem verdade que, em absoluto, esse não foi o entendimento dos pais da garota e nem do delegado de polícia que o intimou a depor. Na delegacia, os dignos pais da garota disseram a Marcel, devolvendo-lhe o dinheiro: “Não comemos desse pão”.

            O Narrador agiu  de forma inocente, mas,  ninguém acreditou aparentemente na sua história, nem mesmo você... Afinal, o delegado de polícia, que na frente dos pais da garota dera-lhe um tremendo sabão,  quando aqueles partiram, ele próprio, que gostava de meninas, segredou a Marcel: “Da outra vez, precisa ser mais hábil. Droga, não se faz uma abordagem tão súbita, que estraga o negócio. Além do mais o senhor pode encontrar em qualquer lugar meninas melhores que essa e bem mais baratas. O preço era loucamente exagerado.”

  • Um segundo caso ocorre entre a atriz Léa, sempre descrita como masculinizada,   e uma menina moça, de não mais de quinze anos, prima do judeu Block.

            Marcel cita de passagem esse caso ao falar sobre as irmãs de Block, ao mesmo tempo cheias de roupa e semi-nuas, com aspecto lânguido, atrevido, faustoso e sujo. E sobre a prima delas,  que não tinha ainda quinze anos e escandalizava todo o cassino com a ostentosa admiração pela srta. Léa, cujo talento de atriz era admirado pelo Block, pai, o “educador”. E ele mesmo não via nada a censurar à sobrinha, dado que como a garota  não tivesse nenhuma inclinação pelos homens então que se desse bem com quem a atraísse...

As Inversões sexuais

            Entendiam os antigos gregos que Zeus separou o andrógeno primitivo, um gigante redondo possuidor de duas faces, quatro braços e quatro pernas, em duas partes de igual dimensão e importância; assim ele produziu o andrós – masculino – e o guyné- feminino; aquele que era uno foi pela divindade transformado em duas metades complementares, tanto no “somma” quanto no “noos”, corpo e mente, criando o homem e a mulher. Individualizou-os de tal modo a fazer com que, tais quais ímãs de polaridades opostas, eles se atraíssem, que seus físicos e mentes somente se sentissem complementados na unicidade restabelecida. E Zeus, ainda não contente com tudo isto, encarregou a mais poderosa das forças do universo, Eros, de atraí-los. Por fim, chamou seu filho Apolo para a empreitada final, fazendo das feridas da separação, não cicatrizes, mas doces relevos e plenitudes, tornando belos e atraentes, um para o outro, os corpos separados.

  • Quando  ainda colegial, o senhor e um grupo de  colegas de liceu fundaram uma revista “Le Banquet”, que sobreviveu a mais de sete tiragens de quatrocentos exemplares. Justamente é  Aristófanes, segundo Platão, quem no “Banquete” expressa a sua  preocupação com a felicidade dos homens, e encaminha o diálogo até Eros, o tecelão de mitos, aquele que pelo toque possibilita aos homens a felicidade. Em seu discurso ele diz que se enganam aqueles  que pensam que existiria um só ser com metades a serem seccionadas, o tal andrógeno primitivo. Revela-nos a existência de mais dois gigantes, formados pelas fusões de andrós com andrós e guyné com guyné, que, da mesma forma que o andrógeno,  também tiveram corpo e alma separados pela divindade, pois seu gigantismo esférico ameaçava até mesmo os deuses.

            Não pairam dúvidas de que, do mesmo modo como ocorrera com o homem e a mulher, cindidos de um andrógeno original, os novos seres  igualmente passaram a ser sujeitos ao mesmo tipo e intensidade de atração, tão autêntica e natural quanto aquela dos derivados do andrógeno primevo. Os seres que o Narrador denomina em meu livro de “os invertidos” são, mitologicamente, frutos do seccionamento por Zeus dos dois gigantes homossexuais; e por obra de Eros, o masculino é atraído pelo masculino e o feminino pelo feminino, justamente as suas “caras-metade”, seus complementos naturais. Entre os heróis gregos ocorria, ao lado das inversões propriamente ditas, a mudança de sexo e o travestismo.  

  • A mudança de sexo chega a ser uma dádiva olímpica, concedida a poucos devido aos seus méritos. Tirésias, o vidente nascido homem, transforma-se em mulher, assim como Cneu, amada de Poseidon, foi por ele recompensada por sua devoção no amor e metamorfoseada pelo deus em um homem. O mais importante dos heróis gregos, Aquiles, vivia como moça na corte de Licomedes; chamado de “Pirra”- a loira. Aliás ele era o alvo erótico do pederasta Pátroco. Na realidade o barão de Charlus buscava pelo seu “Aquiles”. Todas as opções eróticas eram pelos heróis aproveitadas para gerarem momentos de felicidade. Senhor Proust, quanto mais adentramos na cultura clássica, constatamos a absoluta falta de preconceito na prática do amor, da paixão e do sexo.

 Hoje o homossexualismo é visto como uma doença, como uma deterioração do espírito. Até mesmo em nossa França, mais liberal, diversos autores sofreram e sofrem perseguição, são denegridos. Quando o senhor resolveu publicar o II Tomo de “Sodoma e Gomorra”, alguns amigos, preocupados em preservá-lo como autor, sugeriram certo abrandamento no comportamento do sr. de Charlus, como já o haviam aconselhado na supressão da descrição da cena de sexo da filha do músico Vinteuil com a amiga. Mas sua obra, um mar de altas ondas, enfurecido por terremotos subterrâneos, venceu todos os receios e, embora polêmico, já é um marco no tratamento franco do homossexualismo, o que constitui um ponto de partida para a ruptura dos preconceitos.

            Meu caro André, na maior lenda dos séculos, a Bíblia da Humanidade , consta que a partir da inocência dos primeiros dias e fruto da humildade da argila, a criação separou do Homem andrógino a Eva submissa e admirada. Ambos, ainda sós, frágeis, pois divididos, perante Deus todo poderoso que os criou, buscam no conhecimento e na união de corpos e mentes a própria salvação, quando da expulsão de um paraíso feito por Deus tão somente para seus anjos aduladores, perdão, admiradores.

            Deixando à parte os mitos e sonhos da criação, a bem da verdade confesso que tive certos receios antes de publicar “Sodoma e Gomorra”, onde denomino os homossexuais de invertidos. Mas o que seria dos poetas se eles se alienassem da verdade? Ela é a maior virtude que um artista possa ter. Fala-se hoje da coragem de Proust, mas seria ela comparável a de Balzac, quando há mais de meio século, cultivou Sodoma com a figura de Vautrin e Gomorra com Paquita Valdez, a “Moça dos Olhos de Ouro”? Em “Fio de Seda” teve a coragem de chamar os invertidos masculinos de “tias”. Que genial seria em minha obra poder charmar de “tias”os invertidos, quase sempre mais velhos, com grandes ancas, quase sempre mundanos que se pavoneiam magnificamente vestidos e ridicularizados. Mas lhe confesso que não me atrevi a tanto. Mesmo porque  jamais quis  provocar qualquer escândalo ou inimizades, e busquei tratar a homossexualidade com  toda a beleza plástica e seriedade que um tema, que tantos seres atrai, que possui tanto seguidores e adeptos, como inimigos ferozes e violentos, merece.

  • Passemos aos seus personagens. O sr. de Charlus, quando conhece o Narrador, busca aproximar-se dele  e cooptá-lo para uma espécie de maçonaria viciosa, que Charlus afirma possuir em toda a Europa um maior número de seguidores que a própria Maçonaria do Grande Oriente, contando entre seus membros com reis e príncipes.

            Essa conversa com sr. de Charlus, que eu chamaria de iniciática do ponto de vista do homossexualismo, principia no ponto em que Balzac parou na Comédia Humana. O sr. de Charlus expressa-se da forma elegante, própria de sua sofisticação, mas clara para ouvidos que o quisessem ouvir. Acontece que Marcel, naquele momento, não estava preparado para tornar-se um “maçon”. Diz-lhe o barão: “Senhor,  entre certos homens, existe uma franco-maçonaria de que não posso lhe falar, mas que neste momento conta em suas fileiras quatro soberanos da Europa. Ora, o companheiro de um deles é o próprio imperador da Alemanha, e, creia-me, seus cortesãos esperam curá-lo dessa quimera. Isto é uma coisa muito grave e pode, inclusive, nos levar à guerra. O senhor conhece a história daquele homem que julgava manter em uma garrafa a princesa da China. Era uma loucura. Curaram-no. Mas, desde que deixou de ser louco, tornou-se imbecil. Há males cuja cura não se deve procurar, porque eles nos protegem contra outros mais graves”.

            A partir do encontro com Charlus, Marcel desperta para o travestismo, encontrando-o presente até mesmo entre os Santos da Igreja. Santo Hilário, no canto do vitral da Igreja de Combray, se alguém observasse bem veria ali uma dama de vestido amarelo. Pois bem, é Santo Hilário, que também se chama em certas regiões São Illiers, São Helier, São Ylie. É a mesma Santa Eulalie, que, na Borgonha, virou Santo Elói e que, de santa que era, tornou-se um santo. Sábio Charlus, O Grande Oriente é, realmente, muito menor que essa franco-maçonaria dos invertidos, e isto Marcel o comprovará ao longo de sua vida.

            Mas retornemos à conversa quando de Charlus, tal qual Mefistofles, oferece o conhecimento em troca do “rapto da própria alma”: “Quem sabe o senhor não será o que poderia ter sido um homem eminente do passado se um gênio benfazejo lhe revelasse , em meio à humanidade que as ignorava, as leis da eletricidade e do vapor”. E conclui: “Quem sabe o senhor não é aquele em cujas mãos pode ficar essa herança moral de que lhe falo? O primeiro sacrifício que tem de me fazer- e hei de exigir tantos quanto forem os benefícios que lhe fizer- é o de não frequentar a sociedade. Tenha amantes se quiser e até posso encorajá-lo a tanto, seu travesso, que logo, logo, vai ter que fazer a barba. Mas a escolha dos amigos homens tem outra importância. Em cada dez pessoas, oito são canalhas, miseráveis capazes de lhe fazer danos de que o senhor jamais irá se recobrar”.

  • De certa forma, Charlus convidava Marcel a tornar-se o seu “prisioneiro”. Visto de uma forma inversa, a proposta feita por Charlus e não aceita, seria  idêntica à futura relação do Narrador com Albertine, a sua “prisioneira”.

            Sim, mas como Marcel a recusa, a reação de Charlus é de total furor. Charlus pertencia à raça desses seres menos contraditórios do que parecem, cujo ideal é viril justamente porque seu temperamento é feminino, e que na vida são semelhantes, em aparência apenas, aos demais homens; ali onde cada qual traz consigo, nesses olhos pelos quais vê todas as coisas do universo, uma silhueta gravada na pupila que não é para eles uma ninfa, mas um efebo.

            Os pederastas como Charlus proliferam devido à existência de uma sub-variedade de invertidos destinada a assegurar os prazeres do amor ao invertido que vai envelhecendo: os homens que são atraídos não por todos os homens, mas unicamente pelos homens muito mais velhos que eles. Por Charlus acreditar que o Narrador pertenceria a este espécime, toma-se de ódios ao ser repelido.

  • Além da tentativa de aliciamento por Charlus, pouco antes dele descobrir nas “ancas carnudas” os indícios da inversão sexual de Legrandin, este amigo da família do Narrador, convidara-o para um jantar também iniciatório da pederastia, ou melhor diríamos, próprio da efebia.

            O convite de Legrandin é repleto de avatares, em que a metáfora consiste em um buquê de flores que, nas palavras de um Legrandin, um viajante envia de uma terra de onde não há retorno. Ele se declara: “Faz-me respirar da tua adolescência as flores da primavera que atravessei há tantos anos. Vem com a primavera, a barba-de-capuchinho, a concha de ouro, vem com o dedo de moça de que é feito o buquê favorito da flora balzaquiana”.

  • Já que o senhor citou Balzac, Rubempré  segura nas mãos o dedo-de-moça, no momento em que praticaria o suicídio. É quando ele é abordado por Vautrin que lhe diz: “Você parece-me triste, pelo menos tem na mão o símbolo da tristeza, como o triste deus do hímen”. O senhor, em seu livro diz não se recordar qual o poeta, que respondendo sobre qual teria sido o acontecimento que mais o afligira em sua vida  teria dito: “A morte de Luciano de Rubempré”.

            Referia-me ao poeta irlandês Oscar Wilde. Justamente ele que, até às vésperas de sua desgraça, era acolhido em todos os salões da Europa, da América, em todos os teatros de Londres, mas que, como por um passe de mágica, viu-se expulso na manhã seguinte de todos os hotéis, sem poder encontrar um travesseiro onde repousasse a cabeça.

  • O homossexualismo na alta sociedade sempre foi “permitido”, desde que acobertado. O senhor cita o caso de duas irmãs aristocratas que mantinham uma relação de intimidade, cujos quartos propositadamente se comunicavam. Nos dias de hoje a hipocrisia, a Igreja e outros Cultos com seus dogmas sagrados, que aliados a uma necessidade social de repressão de todo comportamento diferente, fazem com que os invertidos se escondam, pois  quando descobertos  são vistos como anomalias humanas.

            É exatamente para fugir a isto que os invertidos buscam a justificativa da inversão até mesmo na História, achando prazer em recordar que Sócrates era um deles, sem pensar que não havia anormais quando a homossexualidade era a norma, nem anticristãos antes de Cristo; que só o opróbio faz o crime refratário a toda pregação, a todo exemplo, a todo castigo, em virtude de uma disposição inata até tal ponto específica que repugna os outros homens, mesmo que a inversão seja  acompanhada de altas qualidades morais. Torna-se este vício ainda mais abjeto que outros, como o roubo, a crueldade, a má-fé, já que esses sim são mais compreendidos e por isso mais desculpáveis que a inversão sexual pelo comum dos homens.

            Mas os segredos são bem guardados por essas criaturas, pois todos os que delas se aproximam são como surdos e cegos. O sr. de Charlus, por exemplo, tornava-se mais sereno quando recitava páginas de Platão e versos de Virgílio, pois não compreendia que hoje em dia amar um rapaz é tão escandaloso quanto  ter amores com uma dançarina, e depois querer fazer um bom casamento. Não queria ver que há mil e novecentos anos toda a homossexualidade de costume, tanto a dos rapazes de Platão quanto a dos pastores de Virgílio, desapareceu, tal como disse Bruyere:  “um cortesão devoto teria sido  um príncipe devoto;  o mesmo cortesão seria ateu se o  príncipe fosse  ateu”. Charlus no seu íntimo sabia que no passado não se sofria de um mal, pois a inversão não constituía um vício dado que se seguia a moda de um tempo.

            Quando dois homossessuais se encontram, serão eles amantes para os quais está quase que fechada toda a possibilidade de amor, que somente a esperança lhes dá forças para suportar tantos riscos e solidões. Muitas vezes acontece, no pior dos mundos, que um invertido se enamore precisamente de um homem que não teria nada de mulher, de um homem que não seria invertido e que não poderia amá-lo; de sorte que seu desejo seria eternamente insaciável; este invertido seria um Ixião lançado por Zeus ao Tártaro, rodeado de frutas e água sem jamais poder aplacar sua sede.

            No entanto, a homossexualidade que sobrevive a despeito dos obstáculos embora de uma maneira difamada, mas se ela é verdadeira, talvez seja a única que possa possibilitar para determinadas criaturas, um afinamento das qualidades morais.

A destruição de Sodoma, o primeiro gueto

  • Herdamos da tradição sionista o conceito do gueto como local onde eram confinados os diferentes. As cidades de Sodoma e de Gomorra foram nada mais que guetos onde eram agrupados os cananeus homossexuais, os malditos pela religião bíblica. Locais de concentração e extermínio  pelo fogo e pelo enxofre. Os judeus, justamente a raça escolhida por Deus, foram os próprios inventores espirituais dos guetos de extermínio.

            Veja, André, que, por um outro lado, a destruição de Sodoma e Gomorra constitui uma prova irrefutável de uma ação mal planejada de parte do Divino. Deus colocou dois anjos às portas de Sodoma para ver se seus habitantes- e assim o diz o Gênesis- tinham feito todas aquelas coisas cujo clamor se elevara até o Empíreo. Mas aqueles anjos da morte haviam sido, algo que a gente não pode deixar de se alegrar, muito mal escolhidos pelo senhor, o qual não deveria ter designado para a tarefa senão um sodomita, pois este saberia reconhecer seus semelhantes. Os anjos assexuados foram um desastre, eu até mesmo diria, um desastre total.

            Somente os sodomitas que se assumiam claramente, aliás, a minoria, permaneceu e foi destruída pelo fogo e pelo enxofre, tal qual em fornos exterminadores sagrados , de tal maneira que, de acordo com a  lei divina, nenhum vestígio deixassem sobre a terra. Deste genocídio restaram somente as cinzas. Mas a incúria dos anjos nos portões da cidade  deixou fugir todos os sodomitas envergonhados, mesmo aqueles que, quando viam um jovem, voltavam-lhe a cabeça, tal como o fez a mulher de Lot, sem que por isso, tão pouco, virassem estátuas de sal. Também não conseguiram impedir a fuga daqueles que, perante as flamejantes espadas empunhadas pelos lindos mancebos às portas das cidades, diziam serem até mesmo pais de dois filhos  e homens que mantinham duas mulheres, mas escondendo dos enviados divinos que as noites mais quentes, estas elas as passavam com pastores de rebanhos.

            De sorte que, os fugitivos dessa raça  tiveram numerosa posteridade, na qual um gesto se tornou habitual, parecido à gestuária das mulheres vadias, que enquanto fingem olhar calçados numa vitrine, voltam a cabeça para um estudante. Esses descendentes dos sodomitas tão numerosos como “os grãos do pó da terra”;  estabeleceram-se  em todos os  países, em todas as classes sociais, deles não escapou nenhuma profissão. Criaram mesmo uma tal facilidade para penetrar nos círculos mais fechados, que, quando algum sodomita não é admitido neles, os votos negativos são na maior parte de outros sodomitas, mas que têm o cuidado de incriminar a sodomia, como que tendo herdado aquela mentira dita aos anjos de espadas flamantes, que permitiu que seus antepassados fugissem do gueto maldito.

            Você acreditaria se eu lhe dissesse que já houve mesmo quem pensasse em refundar uma nova Sodoma? Mas foi necessário prevenir o erro funesto em que tal ato consistiria, tal como se alentou num movimento tipo sionista para refundar Israel, este de se criar um movimento sodomita e refundar Sodoma. Porque mal chegassem ao local, os sodomitas abandonariam a cidade para não parecer pertencentes a ela, tomariam mulher, sustentariam amantes em outras cidades e somente iriam à Sodoma em dias de extrema necessidade, quando esta cidade estivesse deserta, em épocas em que a fome faz o lobo sair do bosque. Isto aconteceria naqueles momentos em que os invertidos, em busca de um macho, contentam-se amiúde com um invertido tão afeminado quanto eles.

Os disfarces da homossexualidade

  • Dentro de sua obra algumas personagens, pese em tese possuirem um sexo definido, emitem vislumbres que indicam o travestismo. Iniciemos pela amada do Narrador, Albertine. Quando se torna “prisioneira” na casa de Marcel tem para isso o consentimento implícito da mãe do Narrador e de sua tia, o que, em nossa época soa como  uma irrealidade para uma senhorita, por mais liberal que a família o seja; por outro lado, em um passeio de carro nos arredores de Balbec, em companhia do Narrador, por um motivo banal, após haver bebido a sua garrafa de sidra, a voz da moça se torna outra, “rouca, atrevida, quase crapulosa”; dentro do trenzinho que percorria os baneários, ela acende um cigarro, o que seria um ato insólito no final do século; além disso,  falta sempre na personagem um toque de feminilidade, algo da sensualidade de Odette, que não encontra uma resposta adequada tão somente nas roupas de “griff” que Marcel busca ele mesmo copiar à duquesa de Guermantes. Analisando essa personagem são muitos os  indícios de indeterminação do sexo que podem ser encontrados.

Uma outra indeterminação do sexo  que parece-nos evidente é a srta. Vinteuil, descrita como uma mocinha tão rude, cujo rosto era coberto de sardas, “rosto varonil em que  se encontravam traços de uma pobre garota sensível”. Quando ela se dirigia  à saída da missa, “falava com a voz grossa, e, logo, uma irmã mais sensível enrubescia-se dentro dela mesma”.

            André, na verdade o fenômeno da inversão sexual, tão mal compreendido, tão inutilmente censurado, amplia ainda mais a possibilidade do amor. O escritor não deve ficar ofendido se um leitor confere a heroínas da estória uma fisionomia masculina, ou feminina. Só essa particularidade meio aberrante, permite ao invertido atribuir ao que lê toda a sua generalidade. É somente por meio deste caminho oblíquo e estreito que tanto Racine quanto Musset poderiam ter tido acesso às verdades do amor. O escritor, só por um hábito da linguagem insincera dos prefácios e das dedicatórias, escreve: “meu leitor”. Na realidade, todo leitor é o leitor de si mesmo e o reconhecimento em si mesmo do que o livro diz é a prova da realidade deste. Além disso, um livro pode ser até muito sábio, mas  parecer obscuro demais para um leitor ingênuo; algumas peculiaridades, como a inversão, talvez requeiram uma certa maneira de ler, talvez com o auxílio de uma ou outra lente.

            Por outro lado, é necessário que para ser lido e compreendido um escritor precisa ter em conta o seu público e sua época. O escritor que deseja,  antes de mais nada, ajudar o leitor a compreender a irrealidade do que denominamos realidade, deve primeiramente apresentar uma imagem dessa realidade que ele possa tomar como tal. Existe em meu livro uma passagem em que os instantes bons, alegres, inocentes na aparência,  vividos por Marcel e Albertine, poderiam ser sucedidos por algum tipo desastre insuspeitável, quem sabe nova chuva de enxofre e fogo, depois dos momentos mais risonhos, tal qual ocorreu nos distantes dias de Sodoma.

            Em sua introdução, você  falou sobre o hermafroditismo inicial das culturas clássicas; pois bem, hoje sabemos que encontramos vestígios desse fenômeno na forma de resquícios de órgãos sexuais femininos na anatomia do homem e de órgãos masculinos na da mulher. Imagine se a ciência, um dia encontrar hormônios que se assemelhem entre os dois sexos, ou mesmo, que um derive do outro! Seria a descoberta do século! Mas, enfim, todo amor, como já falamos a respeito, é fruto da imaginação, pois projetamos em outro os nossos sentimentos. Nesse sentido, tem pouca importância conhecer o autêntico caráter, se você quiser, o sexo do objeto do amor, ou seja, a determinação explícita do sexo de determinadas personagens.

            Meu caro, você já se deu conta de quanta infelicidade já acometeu a raça humana e ainda a acometerá por conta de sua dificuldade em aceitar o dissonante, o lado esquerdo, o princípio de Caim como natural? Você falou-me da srta. Vinteuil, pois bem, vou citar-lhe o seu pai, o pobre maestro que se transformará após a morte em um gênio, mas que em vida o máximo que alcançara fora ser professor de música das tias-avós do Narrador. Quando o maestro se dá conta de que a casa de Marcel era visitada por Swann, que por sua vez casara-se com uma cocote, seus preconceitos fazem-no não mais visitá-los, por pudor de se encontrar com Swann. Ele que possuía em casa a filha e sua amante, Lea. É,  André, assim são os homens, esses filhos de Prometeu.

  • Os homossexuais constituem parcela da sociedade que é marginalizada e que para “sobreviverem” devem cercar-se de disfarces. O seu livro fala-nos muito a respeito dos disfarces e das hipocrisias sociais de que os invertidos fazem-se cercar.

            Os invertidos pese estarem presentes em todos os estamentos sociais, no povo, no exército, na prisão, no trono, guardam uma intimidade enganadora com os homens de outra raça, agindo mesmo como provocação, jogando ao falar de um vício como se não fosse o deles mesmos. O vício, e veja que eu assim o denomino por comodidade de linguagem, o vício de cada um o acompanha tornando-se invisível para os homens enquanto estes ignoram a sua presença.  O próprio Ulisses não reconheceu no retorno a Ítaca a presença de Athenas a seu lado, pois assim como os deuses são perceptíveis somente para os outros deuses, o semelhante o é com a mesma rapidez, exclusivamente, pelo que se lhe assemelhe. Aqueles que se assemelham possuem uma identidade de gostos,  de necessidades, de hábitos, de perigos, de aprendizagens, de saber, de tráfico e de vocabulário, de tal maneira que os membros que não desejam se conhecer, terminam por se reconhecer graças a sinais naturais ou de convenção, involuntários ou deliberados.

            A verdade é que sobre essa raça pesa uma maldição que a obriga a viver em mentira e perjúrio, já que sabe que se tem por punível e inconveniente, sendo inconfessável o seu desejo, justamente aquilo que constitui para cada criatura desta raça, a máxima doçura de viver. Robert de Saint-Loup que não escapara à maldição do “guenos” Guermantes, e apesar de ostentar o mesmo ideal de virilidade que seu tio Charlus, é tão convencional e mentiroso como o outro, visto que a mentira para eles está no fato de não quererem se dar conta de que o desejo físico está na base dos sentimentos, aos quais atribuem outras origens. No entanto, sem dúvida, a guerra foi para Saint-Loup o próprio ideal que ele pensava perseguir, ideal servido em comum com as criaturas que ele prefiria, numa ordem de cavalaria puramente masculina, longe das mulheres, onde poderia expor a vida para salvar seu ordenança e morrer inspirando um amor fanático aos homens.

            Os homossexuais são aqueles filhos sem mãe, pois a ela estarão obrigados sempre a mentir; amigos sem amizade, apesar de todas as que inspira o seu encanto frequentemente reconhecido e das que amiúde o seu coração sentiria; mas nem sei se podem ser chamadas de amizades essas relações que não vegetam a não ser na mentira e de onde os faria repelir com asco o primeiro impulso de confiança e de sinceridade que se sentissem tentados a ter, a não ser que encontrem um espírito imparcial, simpatizante.

            Quando descobertos, entretanto, os invertidos são obrigados a ocultar suas vidas, a cuidar de seus olhares, a disfarçarem suas falas, a mudar  seu vocabulário, seus trejeitos, a buscarem certa contenção interior a seu vício, ou ao que inapropriadamente o chamam assim, de tal maneira que a eles mesmos não lhes pareça  o próprio comportamento um vício, uma deturpação da personalidade. E veja que os disfarces adotados pelos invertidos, enquanto não são descobertos ou quando eles deixam de se importar com o escândalo social que a descoberta acarretaria, estão sempre ligados a algum tipo de culpa, à vergonha em assumir-se, ao receio em ser diferente, à comodidade de sentir-se em meio ao rebanho dos iguais.

 

Culpa na homossexualidade

  • Existem aqueles invertido que a si próprios atribuem a culpa por sua homossexualidade. Aliam aos preconceitos sociais por sua inclinação sexual a culpa da inversão, como se cada ser humano optasse por qual tipo de andrógeno ele seria gerado;  como se da fruta apodrecida que lhes é oferecida pelos preconceituosos ou por sujeitos tão invertidos quanto eles, mas que se mantém na falsa clandestinidade, eles se fartassem.

     A culpa pesa sobre os homossexuais como a maldição no “guenos” de Laio, pai de Édipo. Robert, conta-nos o Narrador, dissera-lhe com tristeza bem antes da guerra: “Oh, não falemos de minha vida, sou um homem previamente condenado”. Aludira ele ao vício, que até então conseguira ocultar a todos, mas cuja gravidade conhecia, talvez exagerando-a como os adolecentes que fazem amor pela primeira vez, ou que, antes disso, culpam suas mãos, pois elas buscam o prazer solitário. Quem sabe se tal exagero proviesse tanto da ideia do pecado, com o qual não se está ainda familiarizado , quanto ao fato de que as sensações realmente novas possuem uma força terrível, que depois, com o tempo, irão sempre se atenuando.

            A culpa a é a mãe da clandestinidade, dos atos obscuros, das relações fugazes e doentias daqueles que se sentem perseguidos. Falando em atos obscuros e clandestinos vou dar-lhe um exemplo ilustrativo. Durante a guerra, os “black outs” e as fugas para os metrôs, quando a ameaça das bombas se fazia acompanhar das sirenes de alarme, a escuridão destas horas tinha um efeito irresistivelmente sedutor para certas pessoas, que se sentindo “libertas” para suprimir o primeiro estágio do prazer, entravam sem demora nos domínios de carícias no qual, de costume, só penetramos depois de certo tempo. Na escuridão, todo este velho jogo de galanterias estava abolido, e já as mãos, os lábios e os corpos podiam entrar em jogo em primeiro lugar.

            Existem também aqueles que, ao inverso da culpa, ou como reação a ela, o caráter excepcional de sua inclinação faz com que se julguem superiores às mulheres, desprezam-nas e fazem da homossexualidade um privilégio dos grandes gênios e das épocas gloriosas. Quando procuram fazer compartilhar o seu gosto, é menos com aqueles que lhes parecem estar predispostos, como o morfinômono à morfina, do que com os que lhes parecem dignos disso; assim, como por zelo de apóstolos, do mesmo modo como alguns pregam o sionismo, outros a não prestação do serviço militar e ainda muitos o vegetarianismo e a anarquia.

O invertido que busca prazer nas mulheres

  • Uma  atitude condenável por parte de todos os que assumiram o homossexualismo como sacerdócio, tal qual o sr. de Charlus, são os casos dos invertidos que realizam a sua busca por mulheres,  não o como um disfarce ao que realmente lhes dá felicidade, mas como uma segunda fonte de prazer.

            Você citou o sacerdócio próprio dos Charlus. Era apenas em relação aos homens que o sr. de Charlus podia sentir ciúmes em relação ao seu amante, Morel. As mulheres não lhe inspiravam nenhum. Às vezes é verdade, para os que fazem da inversão um sacerdócio, esse amor heterossexual os enoja. Consideram-no como uma depravação e não um perjúrio, pior, uma blasfêmia.O Narrador, por sua vez, diferentemente de Charlus, não traça em relação ao sexo perfis de moralidade. Referindo-se a um determinado invertido, ele nos diz que se era tão evidentemente uma mulher, que as mulheres que o olhavam com desejo estavam destinadas, a menos que tivessem um gosto particular, à mesma desilusão das que, nas comédias de Sheakespeare, são ludibriadas por uma rapariga disfarçada que se faz passar por um adolescente. O engano é idêntico, o próprio invertido sabe, advinha a desilusão que, tombado o disfarce, há que experimentar a mulher, e sente até que ponto é uma fantasia fantástica esse erro sobre o sexo.

            Existem ainda aqueles invertidos, que mesmo vivendo sob o signo de Saturno, as mulheres não são totalmente excluídas. Provavelmente  porque, nas relações que com elas mantêm, representam para a mulher que gosta das mulheres o papel de outra mulher, e a mulher lhes oferece ao mesmo tempo, aproximadamente, o que eles encontram nos homens. Ao final da história, o Narrador compreendeu o que Robert quisera dizer-lhe em casa da princesa de Guermantes: “É uma pena que a tua amiguinha de Balbec não tenha a fortuna exigida por minha mãe; acho que nós dois nos entenderíamos muito bem”. Quisera dizer que ela era de Gomorra e ele de Sodoma, ou talvez, se não o era ainda, que já gostava somente de mulheres a quem pudesse amar de certo modo, e com outras mulheres. Em resumo, era o mesmo fato que dera a ambos, a Robert e a Marcel, o desejo de desposar Albertine, saber que ela gostava de mulheres. Mas as causas do desejo, bem como os seus objetivos, eram opostos. Marcel diz que o seu era causado pelo desespero em que se via ao sabê-lo e para impedi-la; Robert pela satisfação para cultivá-lo e pela liberdade que lhe daria para que trouxesse amigas. Duas faces de uma mesma moeda para nosso leitor perspicaz.

  • Diversas são as formas que assume este demônio, Eros. No cortejo de Afrodite, Eros é discurso, olhares trocados e gestos. Inflama os corpos, os faz arder, extrai sorrisos, gentilezas, enganos, mentiras, escraviza.  Falemos um pouco dos invertidos que a tudo subvertem ao esposarem mulheres que serão os machos reais na relação com os mesmos e eles reproduzirão, ao revés, a relação dominador-dominado.

            O Narrador nos brinda com o caso do ilustre sr. Vauboubert, Ministro de Estado. Uma castidade forçada tornara ridículas suas inversões, transformado-as em sensações platônicas; como grande ambicioso que era, tinha sacrificado, desde o momento em que prestara concurso para uma carreira diplomática, todo e qualquer prazer. Tendo, no passado, sido motivo até mesmo do deboche infantil graças à inversão professada e por todos os adolescentes conhecida, buscara à continência absoluta a partir do dia em que havia adentrado ao Quai D’Orsay e desejado fazer uma grande carreira. Adquirira  o ar de um animal enjaulado, a lançar em todos os sentidos olhares que exprimiam medo, apetência e estupidez. Dizia-se no Ministério que era o marido quem usava saias e a mulher as calças. Ora, havia nesta frase mais verdade do que supunham. A sra. de Vauboubert era um homem. O adolescente que não gostava de mulheres e que queria curar-se achou, com alegria, esse subterfúgio de descobrir uma noiva que lhe representava um estivador.

             Este não fora o caso, mas o contrário também ocorre; se a mulher não tem de início os caracteres masculinos adquire-os pouco a pouco para agradar ao marido efeminado, mesmo inconscientemente, com  essa espécie de mimetismo que faz com que certas flores tomem a aparência dos insetos que quer atrair. Como uma certa compensação por não ser amada, de não ser homem, a relação trata de virilizá-la. À medida que ele é mais frívolo, mais efeminado, mais indiscreto, ela se torna como que a efígie sem encanto das virtudes que o marido deveria praticar. Uma imagem histórica que se tornou imortal é a da princesa Palatina, sempre em vestes de montaria, e tendo tomado ao marido mais do que a virilidade, esposando os defeitos dos homens que não amam as mulheres, denunciou em suas cartas de comadre as relações que tiveram entre si todos os grão-senhores da corte de Luís XIV.

            Charlus dizia a respeito da sodomia que existiriam apenas três inocentes em cada dez e que possuímos prazer em descobrir nas famílias dos outros as mesmas taras de que sofremos na nossa, para provar a nós próprios que isso nada tem de excepcional e nem desonroso.

            No  “guenos” dos Guermantes, com a justa exceção de Charlus, os que possuiam inversão sexual, adoravam fazer crer que amavam as mulheres ; exibiam-se com outras –sustentavam as amantes sem obter prazer algum- e desesperavam a própria esposa; seus primos, os Courvoisier, eram, entretanto, mais sábios, supondo que a inversão vinha do diabo, procuravam fazer suas mulheres as mais felizes possível, e sendo extremamente sovinas, pouco se exibiam com as pretensas amantes. Marcel, baseado na observação dos Courvoisier, conclui que os homossexuais seriam os melhores maridos do mundo se não representassem a comédia de amar as mulheres. Também o sr. de Charlus afirma que “no seu tempo”, deixando de lado os homens que detestavam as mulheres, e os que, gostando delas, não faziam outra coisa senão por interesse, os homossexuais eram bons pais de família e somente tinham amantes como disfarce. E confessa que “se tivesse uma filha casadoura seria no meio deles que ele procuraria um genro, para ter a certeza de que ela não seria infeliz”.

Invertidos na juventude e na maturidade

  • Um invertido não nasce se sabendo como tal, assim como não sabe ser um poeta em potencial, nem um esnobe ou um mau caráter antecipadamente. O senhor já disse que o homem  é a princípio um ser centrífugo, que se desconhece a si mesmo, tenta fugir, entrega-se à contemplação de seus sonhos e acredita que o impulso homossexual lhe vem do exterior e não da intimidade de sua alma.

Somente quando triunfa a revolução do pensamento em torno de seu “eu”, é que a inteligência do homem, saindo de si mesma,  mira-o  desde fora e diz: “eu sou homossexual”!  Esta consciência, entretanto,  não chega aos seus lábios, porque nesse ínterim já adquiriu a hipocrisia suficiente para utilizar uma linguagem muito mais enganosa em relação aos seus verdadeiros sentimentos do que as confidências que, a princípio, fazia imprudentemente quando ignorava seu sentido.

            Marcel referindo-se a esses jovens diz que eles muitas vezes optam por isolarem-se do convívio social. Como consideram seu vício mais excepcional do que na realidade ele o é, optam por viverem sozinhos, em isolamento, desde o dia em que o descobriram, após o terem levado muito tempo consigo sem conhecê-lo. E justamente os solitários são aqueles a quem é mais dolorosa a hipocrisia. Mal chegado o dia em que se descobriram incapazes de mentir a si mesmos e aos outros, vão viver no campo, fugindo de seus semelhantes, por uma espécie de  horror à monstruosidade de que se creem portadores; talvez também por medo à tentação, ou, quem sabe por vergonha do resto da humanidade.

            Por outro lado, existem os outros jovens invertidos que ao invés de se refugiarem, uma vez tendo-se dado conta de seu vício, interpretam com ideia fixa os grandes livros do passado e, se encontram em Montaigne ou Stendhal uma ou duas frases de amizade fervorosa, ficam persuadidos de que aqueles homens seriam seus irmãos. E se possuem um amigo jovem e inteligente  não tentam preservá-lo do contágio do vício, senão convertê-lo a uma doutrina concebida tão somente para espíritos livres.

            Outros ainda há que não gostam de mulheres e desejam curar-se, acham com alegria este subterfúgio de descobrir uma noiva que lhes representa um caçador africano. Afinal quem não observou como os casais mais dentro da normalidade acabam por assemelhar-se, algumas vezes por inverterem suas qualidades?

 

  • Assim como a homossexualidade assume na juventude, tanto a forma militante e comedida como a desavergonhada, no homem maduro também teremos aquele quase curado e na “aparência normalizado”, e aquele que, maduro e tornado cínico, que se resigna a comprar o que o amor sincero de um jovem já não lhe propicia. De qualquer forma, o mais provável, qualquer que seja o caminho que o homossexual siga, é que quem nasce gostando de homem, morrerá gostando de outro homem, pois pisou “na terra dos que não têm retorno”, no dizer de Legrandin.

            Falemos primeiramente daquele homossexual que, cremos, não somente conter-se mas “estar recuperado”. Acontece que a sua força sexual que poderia haver-se extinguido, simplesmente transferira-se para outro objeto de erotismo. Por outro lado, uma grande ambição política, uma vocação religiosa, quando autêntica, um trabalho artístico, podem separar, às vezes por até toda a vida , o espírito homossexual das imagens voluptuosas que empurram ao homossexualismo aberto e à busca pelos prazeres cotidianos. Este é o caso, por exemplo de Legrandin. É que dos dois vícios que por muito tempo o haviam disputado, o menos natural, o esnobismo, cedia lugar a um outro menos artificial, pois ao menos assinalava uma volta à natureza, ainda que deturpada, pois, sem a menor dúvida, tais vícios não são incompatíveis. Mas o arrefecimento da idade afastava Legrandin da acumulação de tantos prazeres e saídas ocasionais, e também lhe restituia outros de natureza platônica, sobretudo amizades, em demoradas conversações, deixando-lhe pouco tempo e ânimo para a vida na sociedade.

            Em outros indivíduos, a mudança operada por tardios escrúpulos religiosos, pela emoção experimentada ao estourarem certos escândalos, ou pelo temor de doenças inexistentes, nas quais os tinham feito acreditar, fizeram-nos afasterem-se dessas prática que lhes eram tão habituais.

            Para os outros ainda, não era só da mudança nas palavras, tão diferentes das que ele usava antigamente, mas também das que sobrevieram nas entonações, nos gestos, estes e aqueles singularmente semelhantes aos que o “enrustido” mais rispidamente antes condenava: os gritinhos que soltam, quase sempre involuntários, e quanto mais profundos mais involuntários. Aqueles que intencionalmente se interpelam chamando “minha querida”, como se essa denguice intencional à qual mostravam-se antes tão avessos, não passasse com efeito de uma genial e fiel imitação das maneiras com que, queiram ou não, acabam por adotar aqueles como Charlus, quando chegam a uma fase de seu mal. Para muitos deles, então, abrem-se as Portas do Inferno: num barco como aquele que conduz o sr. de Charlus ao hotel de prostituição masculina de Jupien ou no outro transporte do mesmo Caronte que guiara o príncipe de Guermantes ao Palácio de Mainville. São lugares de onde dificilmente sairão. Cérbero sempre presente, permite-lhes a entrada. Mas à saída, nem mesmo por ordem de Beatriz e sob a condução de Virgílio lhes será permitida a evasão, vigiada a porta pelos rufiões brutamontes, representantes audaciosos do cão de três cabeças.

  • Vamos à história do príncipe de Guermantes e Morel, perseguidos pelo sr. de Charlus no Palácio de Luxo de Mainville, cerca de Balbec, pois ela vale por um conto em seu livro.

            Acontece que estando o príncipe Gilbert, primo de Charlus, a passeio naquelas praias, encontrou o músico e, sem saber de quem se tratava, ofereceu-lhe cincoenta francos para passarem a noite no “Palais Royale” de Mainville; duplo prazer para Morel, tanto pelo dinheiro como pelos lindos seios morenos das moças pelas quais estaria cercado. Acontece que de algum modo, Charlus soube do que se passava, mas não quem seria o ilustre sedutor de “seu” Morel. Louco de ciúmes, chamou Jupien e prepararam uma “emboscada”. Jupien comprou a cafetina para que os escondessem de tal forma que pudessem pegar Morel e seu cavalheiro em flagrante. Após  consumirem  champanhe de má qualidade, mas cuja garrafa custava quarenta francos, Charlus e Jupien foram colocados em um local espelhado em que poderiam, sendo invisíveis, visualizar quem buscavam. Mas surpresa das surpresas: apenas viam uma sombra, que tal qual estátua, não conseguia levar aos lábios a própria taça de champanhe. Era Morel, mas ele estava só. Então Charlus compreendeu que a cafetina vendera não um, mas dois serviços, sendo que o segundo fora ao primo do sr. Charlus, o príncipe, que avisado da “emboscada” saíra por uma lateral e que na sala espelhada, de onde eles somente viam uma sombra, ele e Jupien eram perfeitamente visíveis aos olhos de um Morel paralisado pelo medo da reação de seu “protetor”.

  •  Avancemos agora até outro local, bem menos luxuoso, o antro parisiense dirigido por Jupien, onde ao contrário do Palácio de Mainville, as mulheres não eram admitidas, mas sim, as práticas sado-masoquistas e as drogas.

            Certas depravações, uma vez conhecidas, assustam porque sentimos que raiam à loucura, muito mais que por serem imorais. A irresponsabilidade agrava os erros e mesmos os crimes, digam o que disserem. Landru, assassino em série, admitindo que ele realmente matou as suas mulheres, se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode até vir a ser perdoado; mas não se, por um acaso, o tenha praticado por um sadismo irreversível.

            Marcel, por um acaso do destino, numa escura noite, durante a fase de bombardeios noturnos de Paris pelos alemães, descobre um local , um hotel, que, vencendo o terror e a falência reinantes, mantinha a atividade e certa riqueza. O Narrador decide entrar para descansar e tomar uma bebida, com “orgulho de justiceiro e volúpia de poeta”. Ao adentrar ao recinto, com surpresa depara-se com alguns operários, soldados e com um marinheiro, a lhe barrarem a entrada. Pretextando que necessitava descançar, consegue que lhe ofereçam  o quarto de número 43.

  • O quarto tem o número 7, fruto de 4+3. Um importante ritual de iniciação grego, a Efebia, ocorria quando um menino, vestido de mulher, transformava-se  em homem; este “ritus” ocorria aos 16 anos, representação da androgenia simbólica. Dezesseis anos, em que  o número 1, representativo do espirito, o masculino , e o 6, o corpo,  o feminino, formatando o número 7, considerado por muitas crenças como o número perfeito, iniciático e cosmogônico. Mas voltemos ao lupanar de Jupien. Ao fundo do corredor onde hospeda-se Marcel, estava o quarto 14-bis, duas vezes indicativo do ritual iniciático, agora o do sado-masoquismo.

            Marcel, instalado no 43, percebe queixas abafadas, partindo deste 14-bis. Ele desliza até a claraboia e de lá assiste ao quadro de um de Charlus acorrentado, tal qual Prometeu em seu rochedo, recebendo golpes de um chicote cheio de pregos, o corpo já  todo supliciado e ensanguentado, a exigir mais rigor do jovem que lhe batia com denodo. De súbito, a porta do quarto se abre e Marcel divisa Jupien a dar ordens. Os brutamontes que se revezavam no suplício, para espanto de Marcel, possuiam algo de Morel. Daí ele conclui que, para Charlus, talvez não passassem de vagos sucedâneos do violinista, pois as aberrações são como os amores em que a tara doentia cobriu tudo, a tudo contaminou, pois mesmo na mais louca o amor ainda se reconhece.

            A insistência do sr. Charlus em pedir que lhe atassem pés e mãos a anéis de solidez maior e por artifícios que infligissem maiores suplícios, revelavam no fundo o sonho de virilidade do barão, atestada agora por atos brutais, como símbolos de  castigos com insignia de justiça e torturas feudais, decorados por sua imaginação medieval.       

            O Narrador onipresente acompanha o Charlus já vestido, a interrogar os seus “algozes”, procurando aquilatar se Jupien lhe conseguira sádicos verdadeiros ou fingidos, canalhas de escol ou apenas escória em busca de trocados fáceis. E Marcel nos diz: “E até o ladrão e o assassino dos mais convictos não o teriam contentado, pois estes não falam de seus crimes; e, além disso, existe no sádico- por melhor que possa ser, e mais ainda quanto melhor for, uma sofreguidão pelo mal que os malvados, agindo com outros objetivos, não logram satisfazer. Nada há mais limitado que o prazer e o vício. Na verdade, pode-se afirmar  neste sentido, e mudando o significado da expressão, que giramos sempre no mesmo circulo vicioso”.

            Essa noite reservara outras revelações ao jovem caminhante, pois Marcel , quando se aproximara do pardieiro, antes mesmo de buscar conseguir o quarto para descansar, vira um vulto com uniforme de oficial afastar-se rapidamente da porta e esgueirar-se para a rua, logicamente por receio de ser visto. Como posteriormente saberá, apenas por uma questão de segundos não surpreendera seu amigo, Robert de Saint-Loup que de lá saía, havendo deixado no chão do quarto a sua Cruz de Honra Militar, ganha no campo de batalha contra os alemães e perdida nos embates sexuais com um prostituto.

            A confraria  que frequentava o reduto de Jupien ainda possuía outros ilustres senhores que tentavam se manter na clandestinidade, mesmo perante os outros aficionados da mesma prática. Dentre eles um deputado da maior distinção na Assembléia e o próprio príncipe de Foix, pai de um membro destacado de um grupo fiel de invertidos, do qual Robert fazia parte. Além de um tipo curioso de velhote endinheirado que exigia que lhe trouxessem um mutilado de guerra para satisfazê-lo, Marcel nos fala do padre que após satisfazer-se tentara sair sem pagar. Jupien o segue até a entrada do pardieiro e sacudindo a caixinha em que recolhia a contribuição de cada freguês, dizia-lhe: “Para as despesas do culto, senhor abade”!

            O antro de Jupien atraía não somente um, mas diversos vícios. Além do amor clandestino, do sadomasoquismo, lá também era um reduto de cocainômanos, viciados que permaneciam dias e dias trancados, a se destruírem nos quartos.

            Ao despedir-se de Jupien, ele diz a Marcel que não o julgasse mal e nem a casa lhe trazia tanto dinheiro como poderia parecer; que se dependesse apenas dos hóspedes honestos o hotel já teria fechado, pois aqui, é graças ao “vício que vive a virtude”. “Ademais, não posso lhe esconder que me agrada, é o gosto de minha vida. Ora, é proibido receber um salário por coisas que não se julga condenáveis”?

  • Creio que essa frase de Jupien é altamente significativa. Ele denomina o seu hotel de “O Templo do Impudor”. Não existe no campo do amor, do sexo, das paixões uma ética a conduzi-los, a demarcar o que seja certo ou errado.

            Meu caro, do ponto de vista moral, é absolutamente indiferente que alguém encontre o seu prazer com um homem ou com uma mulher. É muito natural e humano que se procure o amor onde ele possa ser encontrado. Por  esse motivo, tanto Charlus quanto Jupien tinham o hábito de separar a moralidade sexual de toda uma série de ações (o que de resto deve ocorrer em muitas funções, por vezes a de juiz, outras, a de estadista). E, por este mesmo motivo, Marcel replica a Jupien: “Enquanto não se transforma, esta casa é uma coisa bem diversa de um canto do prazer, pior que um hospício, portanto nela se expõe, reconstitui e se faz visível a loucura dos alienados que aí habitam. É um verdadeiro pandemônio.” Ele critica o pandemônio do sado-masoquismo e daqueles que destroem suas vidas com as drogas e não um certo  tipo de moralidade ausente da busca do sexo e do prazer.

O safismo e os uranianos

  •             Passando  por Sodoma, chegamos à Gomorra, cidade –irmã, habitada por aquelas frações dos “guynós”-“guynós” separadas por Zeus. Encontramos diversas heroínas perfiladas como num panteão erguido na própria  ilha do conhecimento, Lesbos. Ao olharmos para nosso lado direito, surpresa das surpresas, sentimo-nos superiores a Odisseu, pois Palas Athenas, nascida da cabeça de Zeus,  permite-nos  visualizar-lhe a sombra. Palas, que eterniza o encanto das curvas do corpo feminino da divindade com o poder e a força  da alma masculina. À sua direita, as bravas valquírias: Delfina,” um dossel com olhos ardentes”, aos pés da doce Hipólita, ainda a deleitar-se com suas “carícias potentes”. São tantas as surpresas que quase nos passam desapercebidas as Marquesa de San-Real e sua amada Paquita, a dos Olhos-de-Ouro, musas balzaquianas. Só então, mais ao fundo, vemos a delicada figura de Safo, “mãe dos jogos do Lácio e da helênica orgia”; ao nos avistar,  sorri e principia ao som de uma cítera  o recitativo de seus versos que nos proporcionam as mais finas delícias do sentir, palavras que nos acariciam, mesmo nos alcançando desde um mundo em que a mulher valia pouco mais que um escravo.  Safo, em sua coragem, nada esconde: sua arte é direta, cândida, a notação precisa e rigorosa dos efeitos do desejo! Seu lirismo conduz ao sacrifício, à volúpia, à ternura, ao sexo, de uma forma poética delicada, conduzida por sinais e símbolos. Deste modo, a poesia sáfica deixa a terra e situa-se no nosso mundo, o dos sonhos. Sentimos neste instante a natureza a deslumbrar-se com a presença das deliciosas amigas, envolvimento e movimentos de nossas almas. Safo se alegra e os sentimentos cravados no seu espírito se agitam como num vulcão, nessa autêntica venusiana, no melhor estilo de Baudelaire.

            Que bela “Viagem a Cítera”, meu caro André; pena não me haver convidado a acompanhá-lo. Provavelmente eu lá teria reconhecido madame Bovary, filha dileta de Flaubert, mulher desejável em seu belo corpo, mas pelo que tem de mais enérgico em seu comportamento e pelos seus sonhos mais profundos, damo-nos conta de estarmos frente a um homem habitando o corpo feminino, que lhe fora emprestado por Eros.

            Mas saiba, André, as mulheres que se originaram em Gomorra são o bastante numerosas para que, em qualquer multidão, umas  não passem desapercebidas  das outras. O entendimento entre elas é fácil, muito fácil. Na sala do cassino de Balbec, quando duas raparigas se desejavam, tudo se passava como que um fenômeno luminoso, uma espécie de rastilho florescente que ia de uma a outra. Um olhar de uma logo é imediatamente compreendido pela outra, que se aproxima como esfaimada. Digamos de passagem, que é com o auxílio de tais materializações, ainda que imponderáveis, desses signos astrais a inflamarem toda uma parte da atmosfera que, em cada cidade, em cada aldeia, tende a Gomorra dispersa a reunir seus membros separados, ao passo que idênticos esforços prosseguem em toda parte, ainda que em vista de uma reconstrução intermitente, por intermédio dos nostálgicos, hipócritas e alguns corajosos exilados de Sodoma.

            Mas se encontramos as doces e delicadas como Safo, também nos deparamos com as masculinizadas que se trajam como homens, justamente aquelas com a alma de Palas Athenas, a da armadura guerreira. Entretanto, poucas dentre as sáficas, dedicam-se como o sr. de Charlus, em seu vício, ao safismo como um sacerdócio. Veja que até mesmo Safo, após amar tantas mulheres das quais fora a mestra nas artes de Eros, de a elas haver dedicado imortais poemas, hinos sagradores, por não manter-se fiel ao sacerdócio do qual fora a grã-sacerdotiza, encontra no mar a morte, mais doce que a dor pela ausência do amado que lhe negara o carinho masculino, justamente quando ela, que tantas amantes tivera, acontecera de apaixonar-se por um homem. Saiba que a maioria das gomorrianas, tais como Safo, também deixam-se tocar pelo sexo oposto, como  Albertine o fizera, ao submeter-se a Marcel.

            O Narrador  comenta que “Albertine o fazia tanto devido à sua humanidade mais profunda, quanto ao fato de que não pertencia à humanidade comum, mas a uma raça estranha que com ela se mistura, nela se esconde e não se funde jamais”. Após sua morte, quando Marcel é consolado por Andrée, esta lhe confidencia que não era apenas com ela que Albertine gostava de sentir prazer. Conhecera na casa dos Verdurin um belo rapaz chamado Morel. E logo eles se entenderam. Ele conquistava as mulheres, e, depois entregava-as a Albertine. Com medo de perderem Morel, as moças cediam e todos participavam. Até teria existido o caso de levarem uma lavadeirinha até um bordel e lá ela foi possuída por quatro ou cinco moças, assim como por Albertine.       

            Por outro lado, é um fato incontroverso que os uranianos desenvolvem uma enorme atração pelas filhas de Safo. Depois da fuga de Albertine, Marcel pensando em seus amores por outras mulheres, dizia consigo mesmo que os teria compreendido e partilhado; então, seu vício tornava-se como que uma causa de amor. Essa claridade da pele e de olhares, sorriso enigmático e encantador, esse ar de franqueza amável que seduzia todo mundo, o Narrador se perguntava se tudo isso constituía o caráter morfológico das mulheres que amam mulheres. Caso o fosse, seria o que em Albertine exercia uma atração não racional sobre ele mesmo.

            No que tange à sensibilidade e delicadeza, os vícios aparentemente opostos de Charlus e de Albertine possuiam algo em comum. Talvez, pensava Marcel, o próprio vício de Albertine, causa dos seus futuros sofrimentos, tivesse produzido nela essas maneiras bondosas e francas, dando a ilusão de ser possível ter com ela a mesma camaradagem leal e sem restrições que temos com um homem, assim como um vício paralelo produzira no sr. de Charlus uma finura feminina de espírito e sensibilidade.

            As gomorrianas, assim como os uranianos, também precisam se submeter a todo tipo de disfarces e mentiras. Andrée, quando se assume partícipe do conclave, confessa ao Narrador: “Você não sabe o que é essa multidão de moças, o que elas ocultam umas às outras, como têm medo da opinião alheia. Vi algumas que eram de tremenda severidade para com os rapazes, simplesmente porque eles conheciam as suas amigas e elas temiam que certas coisas se espalhassem”.

Sadismo como estética melodramática

  • O voyeurismo do Narrador nos propicia um texto de enorme plasticidade, em que  o sadismo é tratado desde uma perspectiva estética;  degenerada sim, enquanto motivação sentimental, mas não necessariamente símbolo do mal em si.Trata-se da relação sexual entre a filha do então falecido compositor Vinteuil e sua amiga. Vinteuil amara, passando por cima de todos os seus preconceitos, à sua querida  filha, permitindo, inclusive, a presença de sua amiga na casa onde residiam. Escondia de si mesmo o que a todos era evidente. Como diz o Narrador: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem”. A cena se desenvolve, as cortinas se levantam: uma vez morto o compositor e pai. A relação sexual das duas moças ocorre no sofá da  casa paterna, ao lado do retrato do falecido e a fotografia recebe uma gusparada da parte da filha querida, induzida pela amiga. Assistimos à ação teatral, agora vamos à sua análise.

            Certamente, nos hábitos da senhorita Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver a sua realização perfeita, senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do boulevar,  sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que viveu só para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento na vida à estética do melodrama.

            Na realidade, fora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como as da srta. Venteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria em um ato de simbolismo tão rudimentar, tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminoso seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da mesma, o mal, ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo. Uma sádica como ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má já não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural. Aliás, não se distinguiria dela; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las.

            Ela devia sentir, dizia Marcel, no momento em que profanava com a amiga a fotografia do pai, que tudo aquilo era apenas doentio, e não a verdadeira e alegre maldade que aquela teria desejado. A ideia de ser aquilo uma simulação de maldade era a única coisa a estragar-lhe o prazer. E essa ideia que ocorreu-lhe mais tarde, minorou-lhe o sofrimento.

  • Caminhemos em seguida para o segundo ato do mesmo drama. Saberemos que foi  graças à amiga sádica que a Sinfonia de Vinteuil, que faria a fama póstuma do compositor, teria sido concluída. Portanto, por uma ironia do destino, aquela criatura desalmada que lhe arrebatara a filha e o precipitara de desgosto na morte, trar-lhe-ia a eternidade.

            Marcel nos diz que aquela revelação, a mais estranha que jamais ouvira, trouxera-lhe um tipo de alegria desconhecido; pois Vinteuil, segundo diziam, quando morrera só deixara a Sonata (aquela tanto emocionara Swann) e  tudo o que restara de seu trabalho ficara como inexistente, em anotações indecifráveis. Mas que acabaram sendo decifradas, à força de paciência, da inteligência e do respeito, pela única pessoa que convivera bastante com Vinteuil para conhecer-lhe bem a maneira de trabalhar, para lhe adivinhar as indicações de orquestra: a amiga da srta. Vinteuil. Em vida do grande músico, aprendera ela com a filha o culto artístico que esta devotava ao pai.  Por causa desse culto foi que, num momento como aquele em que procedemos contra as nossas inclinações  verdadeiras, as duas moças tinham podido achar um prazer demente nas profanações que foram narradas. A adoração do pai era a condição mesma do sacrilégio da filha. Sem dúvida deveriam elas ter-se privado da volúpia daquele sacrilégio, mas essa atitude não expressava por inteiro o íntimo das mesmas. As sádicas tipo srta. Venteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E quando permitem a si mesmas se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se por, e de fazer entrar o seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas, para um mundo desumano de prazer. Não era o mal que lhe dava a sensação do prazer, que lhe parecia agradável; era o prazer que lhe parecia maligno.

            E aliás aquelas profanações foram rareando até desaparecerem de vez, à medida que as relações carnais e mórbidas, o turvo e fumarento incêndio da paixão, cedera lugar à chama de uma amizade elevada e pura entre as duas moças.

            Mas veja, meu caro André, haveria sobre a temática da homossexualidade ainda muito o que discutirmos. Mas por motivos, alguns conhecidos e outros desconhecidos, provavelmente de ordem social, esse desejo de aprofundamento não pode ir ainda mais longe. O universo é verdadeiro para nós e diferente para cada um de nós. Se não fôssemos obrigados para a boa ordem da narrativa a limitar-nos a razões frívolas, quantas outras mais sérias não nos permitiriam mostrar a sobriedade mentirosa desde o princípio deste livro, em que de minha cama ouço o despertar do mundo, ora num dia de sol, ora num dia chuvoso. Sim, fui obrigado a desbastar a coisa e a mentir, mas não é só um universo, são milhões de universos que despertam todas as manhãs, quase tão numerosos quantas são as pupilas e inteligências humanas.