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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo VI- Insatisfações do Amor



Os personagens proustianos são arrastados por um torvelinho de paixões,  veladas ou declaradas; paixões em que o amor se manifesta nas suas diferentes formas, muitas vezes apenas platônica, outras, requer os prazeres do sexo; o ciúme e a posse, as dores da perda, da mentira e do conhecimento, cujas dores só amenizam no esquecimento.

            Inspirando-nos nos gregos, quando falamos do prazer e da dor, do sofrimento e do amor, estamos buscando a nossa libertação, caminhando na seara do “deus máscara”: Dionísio. Aquele que é  diferente de todos os outros deuses de todos os tempos e de todas as crenças, a quem as orações, promessas e sacrifícios jamais propiciaram satisfação; o deus que exige do homem o total arrebatamento, somente se satisfazendo quando logra apossar-se do ser humano como um todo. E nessa posse estarão delícias impensáveis a nos esperar, mesmo que caminhem com as dores e os sofrimentos, lado a lado; delícias das quais emanam o êxtase e a ultrapassagem de todas nossas as medidas. Dionísio arrasta aqueles que consentem em sua  incorporação à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como também à loucura e à destruição. Quando por ele possuídos, assumimos integralmente nossos  instintos, que afloram como natureza viva, numa supremacia capaz de levar o homem às maiores insanidades.

            Mas aquele antigo e sábio povo soube erguer no mesmo patamar de importância de Dionísio uma figura de monumental sobriedade: Apolo! O apolíneo será sempre “o sonho se opondo à embriaguês”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol seu gerador, um  mundo que é onírico mas que pode ser real. Nietzsche nos disse sobre o poder moderador de Apolo: “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente Dionísio as armas destruidoras, mediante uma reconciliação do consciente e do inconsciente, concluída no seu devido tempo”. E o local desta reconciliação não está na filosofia, mas no coração dos homens.

            Podemos até sentir , dentro deste espírito, o carro que conduz Dionísio coberto por flores e grinaldas, puxado pela pantera e pelo tigre, incentivando o homem ao exercício da liberdade, permitindo-lhe  que “viva” e liberte seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”; mas, olhando ao lado, não nos surpreende no andejar alado, um outro carro, o do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao ritmo ditado por uma cítera, dedilhada pelo portador da harmonia, da beleza dos sonhos, da verdade, do poder do “logos”, portador da coroa de louros premonitória doada pelo amor de Dafne, natureza incorporada. E é o fruto desta união, do conflito e da harmonização entre o consciente e o inconsciente, entre a natureza e o ser humano, que nasceu o melhor da arte grega, quiçá o melhor da arte de todos os tempos.

            E este século XX, que já se mostra tão insensato e também libertário, ainda que sopesado por um positivismo opressivo, descobre toda a grandiosidade do irracional e as formas de simbolizá-lo; século que prenuncia a brutalidade das trevas e das guerras, mas libertador nas descobertas que desafiam a capacidade criadora do homem; este novo século já surge com a velhice de toda humanidade e em seu alvorecer produz um dos mais belos frutos literários de toda a história: “Em Busca do Tempo Perdido”.

  • Senhor Proust, perguntas diretas ao escritor: como ocorre o nascimento de uma paixão para Proust? Como se direciona o nosso amor? Por que amamos  fulana e não  beltrana?

            Perguntas diretas sim, mas com a complexidade do próprio ser humano. Nada é mais diferente do amor que a ideia que naturalmente formamos dele. Procurei tratar com especial denodo alguns fenômenos como o encontro amoroso, a escolha, os efeitos da permanência ou da ausência quando se ama alguém, o sofrimento que o amor nos traz e, por fim, o esquecimento que desemboca na total indiferença por quem já se amou.

            Para o amor nascer precisa-se acreditar que um ser participa de uma vida ignorada por nós, na qual o amor nos faria penetrar,  isso é tudo quanto ele exige para, nascendo, nos prender. E, ademais, é necessário que, fruto de uma força centrípeta, um homem esteja voltado para si mesmo, que deseje um cantinho ao lado da lareira e um leito compartilhado, um Adão friorento à procura de uma Eva sedentária naquele mundo de diferentes. Quando queremos nos lembrar de que modo principiamos a amar já estamos amando aquela pessoa; dos devaneios de antes nós dizíamos: é o prelúdio de um amor, mas eles avançam tão depressa e de surpresa, de tal modo que mal são notados por nós.        Então, nós imaginamos que o amor possua por objeto um ente que pode estar a nossos pés, encerrado em um corpo. Ai de nós, ele é a extensão desse ente a todos os pontos do espaço e do tempo que essa pessoa já ocupou e ainda ocupará.

            De todas as formas de produção do amor, de todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos mais efetivos é esse turbilhão agitado, o acaso, que por vezes passa por nós. Então, o ser com quem nos divertimos neste instante – e a sorte está lançada- há de ficar sendo a pessoa amada. Nem há necessidade de que até aquele momento ela nos tenha agradado mais que as outras. O amor necessita apenas que o nosso gosto por alguém se torne exclusivo. E semelhante condição se realiza quando- no momento em que ela nos faz falta- a busca de prazeres que sua convivência nos trazia, é de repente substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma pessoa.

            São as asas cintilantes da liberdade que as mulheres fazem zumbir nos passeios, nos bailes, nos teatros, que dão a beleza ao mundo. Foram elas que deram à Albertine a essência de sua beleza. Foi por vê-la primeiro como um pássaro misterioso, depois como uma grande atriz da praia, desejada, possuída talvez, que Marcel a achara tão maravilhosa. E eis que de repente, temos a mulher cujo rosto permanece diante de nós mais constantemente do que a própria luz, pois mesmo de olhos fechados não deixamos um só instante de adorar seus belos olhos, seu lindo nariz, de usar de todos os meios para revê-los.

            Mas essa mulher única, bem sabemos, que outra a encarnaria para nós se tivéssemos estado em outros lugares, que não onde a conhecemos. Com isto não quero dizer que o fato de amarmos determinada pessoa seja exclusivamente obra do acaso. Existe um conjunto de circunstâncias que nos conduzem à paixão por determinada pessoa. É verdade que se aquelas circunstâncias  se  modificassem, esse amor poderia até dirigir-se a um outro ser.

  • Senhor Proust, em seu livro, os amantes possuem dificuldade em chegar ao êxtase, ao gozo de sua relação erótica, pois quase sempre o ato é interrompido. Como  exemplo, cito a passagem vivenciada por Marcel, no Hotel de Balbec, quando maior era a sua paixão, ativada que fora pela própria  Albertine.  Todo o êxtase foi dissolvido pela voz a dizer-lhe que se não parasse de tentar possuí-la ela tocaria a campainha de serviço do hotel. E é o que faz em seguida, rompendo com toda a magia do momento. Justamente ela que o convidara a estar a sós no quarto, e deitara-se cama!

            Acontece, meu caro, que jamais conhecemos as paixões dos outros e o que chegamos a saber sobre as nossas não é por meio deles que  vamos aprender. Aquele episódio tem a importância de uma iniciação. Por isso, ardente de paixão, Marcel ainda era muito jovem para saber que Albertine, tendo nele despertado o Eros adormecido, poderia tudo encerrar ao simples toque de uma campainha, dado que o filho de Vênus não a tocara com a flecha do amor. O momento de uma paixão pode ser simplesmente isto: um momento, sem que o ato sexual se consuma!

            Já quando amamos, cremos sempre amar a uma mulher em especial. Especial, eu disse, jamais única, pois ela é inumerável, mesmo porque possui tantas faces diversas.  Apenas depois entendemos que essa mulher não fez mais que suscitar-nos, por uma espécie de apelo mágico, mil elementos de ternura existentes em nós em estado fragmentário e que ela ajuntou, uniu, eliminando lacunas entre eles; fomos nós que, dando-lhe seus traços, fornecemos toda matéria representada pela pessoa amada. Daí decorre que, mesmo que sejamos um dentre mil para ela, e talvez o último de todos, para nós ela é a única e toda a nossa vida se inclina em sua direção. Nosso amor-próprio sempre deseja mostrar que possuimos gratuitamente as marcas visíveis da predileção daquela a quem amamos e esse sentimento é simplesmente um derivado do amor, a necessidade de figurar para si mesmo e para os outros como sendo amado por quem tanto se ama.

  • Diversos  episódios do  livro sugerem que seus personagens sempre se apaixonam por pessoas que lhes são espiritualmente diferentes. Em outras circunstâncias poderia não ocorrer nenhuma aproximação.  Marcel e Swann, por exemplo,  apaixonam-se por mulheres que lhes são intelectualmente diferentes, mas belas. Baudelaire disse que a estupidez é frequentemente um ornamento da beleza.

            Não é obra do acaso se os homens intelectuais e sensíveis se dão sempre a mulheres insensíveis e inferiores, apegando-se a elas de tal maneira, que a prova de que não são amados não os cura absolutamente do hábito de sacrificar tudo para conservar junto a eles uma tal mulher. Diria que eles sentem uma necessidade de sofrer, pois uma criatura muito intelectual e sensível terá geralmente pouca força de vontade, sendo joguete do hábito e do medo de sofrer- e nessas condições jamais repudiará a mulher que ama. Essas criaturas- os intelectuais e sensíveis- são pouco inclinadas à mentira e  costumam viver mais no mundo dos possíveis que no das contingências; sentem-se traídas sem saber como. Desse modo, a mulher medíocre, que nos espantamos de ver preferida por eles, enriquece-lhes o universo bem mais do que o teria feito uma mulher inteligente.

            Não desconfiamos inicialmente das mulheres que não são do “nosso tipo”; elas  deixam que as amemos e depois terminamos por amá-las cem vezes mais que às outras, sem nem sequer  possuir o contentamento do desejo saciado. Já uma mulher do “nosso tipo” raramente é perigosa, pois, ou nos repele, ou nos satisfaz e nos deixa logo, sem se instalar na nossa vida; e o perigo e desgostos estão não na mulher em si mesma, mas na sua presença diária, na curiosidade pelo que ela faz em todos os momentos; não está na mulher, mas no hábito que a sua presença cria.

            Os  que  julgam sempre os maus casamentos e evitam  ligações, como se fossem livres para escolher a quem amar, não percebem o milagre delicioso que o amor projeta e que envolve tão inteira e unicamente a pessoa por quem estamos enamorados. Muitas vezes este será o único ato belo a ser cumprido no decurso da existência. Existem aqueles cujo coração, não estando diretamente em causa, imaginam que somos livres para escolher a quem iremos amar. Eles não percebem o milagre delicioso que só o amor projeta e que envolve tão inteira e unicamente a pessoa de quem estamos enamorados, que a “tolice” que um homem faz desposando uma cozinheira ou a amante de seu melhor amigo é, ou pode ser, o melhor ato poético do decurso de sua existência.

            Posso até lhe afirmar que para descobrirmos que estamos apaixonados, talvez até mesmo para que o fiquemos, é preciso que o dia da separação chegue. E, de uma maneira geral, os esforços de terceiros e mesmo do destino para nos separar não fazem mais que nos prender a elas. E quantas vezes, quando uma relação amorosa termina, não pensamos igual Swann quando deixou de amar Odette?  “E dizer que desperdicei anos de minha vida, que desejei morrer, que vivi o meu maior amor por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu tipo”?

  • No mundo proustiano o amor que sentimos por uma pessoa é quase que uma obra exclusiva nossa. O acaso nos faz encontrar uma pessoa que espelhará esse afeto e cuja personalidade se moldará ao nosso amor; mas esse processo ocorre exclusivamente em nosso próprio espírito. Na impossibilidade de o amor ser compartilhado, comportamo-nos como Narciso e amamos a ninfa Ecco, fruto de nosso próprio ego.

            Em “Um Amor de Swann”, quando Marcel amava Gilberte, ele ainda acreditava que o Amor existisse fora de nós; que em se permitindo que os obstáculos interpostos fossem afastados, ele nos ofertaria suas venturas. Quando muito jovens pensamos assim, raríssimas pessoas compreendem o caráter puramente subjetivo desse fenômeno em que consiste o amor. O amor é uma espécie de criação de um indivíduo suplementar, um dos nossos múltipos “eus”. Por isso, poucos são os que podem achar naturais as proporções enormes que acaba assumindo para nós uma criatura que não é a mesma que eles veem.

            É esse o terrível engano do amor, que nos faz brincar com uma mulher não do mundo exterior, mas com uma boneca no interior do nosso cérebro, a única, aliás, que poderemos ter sempre à nossa disposição, a única que possuiremos, que o arbítrio da lembrança, quase tão absoluto como o da imaginação, pode também ter feito diferente da mulher real; criação fictícia à qual, pouco a pouco, para nosso sofrimento, forçaremos a mulher real a se assemelhar. Essa boneca não é Ecco a correr pelas montanhas, mas uma imagem interna, à qual tentaremos, como um escultor, modelar a criatura de carne e osso.

            No meu universo sempre o desconhecido forma o fundo do meu amor. Veja, André, que o importante nesta vida não é aquilo em que se põe o amor, mas sentir o amor, e essas demarcações tão estreitas que traçamos ao redor do mesmo provém única e exclusivamente de nossa grande ignorância da vida. Aliás, a maior das tolices é considerar censurável ou ridículo o que sentimos, mesmo porque cada um sente as emoções de seu próprio modo.

            Quando se ama, tamanho é o amor, que ele não cabe em nós: irradia para a pessoa amada, onde topa com uma superfície que lhe corta a passagem e o faz voltar para o ponto de partida; e essa ternura que nos devolve o choque, ternura que é a nossa, é o que denominamos de o sentimento do outro. Tinha entrevisto outrora que ao nos enamorarmos de uma mulher, projetaríamos nela um estado de nossa alma; que, por conseguinte, o importante não é o valor da mulher, mas a profundeza do estado, e que as emoções que uma rapariga medíocre nos proporciona podem fazer com que nos subam à consciência as partes mais íntimas de nós mesmos, mais pessoais , mais remotas, mais essenciais, o que não faria o mesmo prazer que nos dá a conversação de um homem superior ou mesmo a contemplação admirativa de suas obras. De resto, em todos estes acontecimentos que na vida e em suas contrastantes situações se relacionam com o amor, o melhor é não tentar compreendê-lo,  visto que, no que possuem de inexorável e de inesperado, parecem antes regidos por leis mágicas que racionais. O amor originário do sexo, que possui a marca de Eros, não se compartilha.

            É devido a isso que os amores de todas as demais pessoas nos são incompreensíveis. Nossos amores são pedaços de nossa própria alma, mais duráveis que outros “eus” que morrem sucessivamente em nós, e que por egoísmo desejaríamos retê-los, e assim o fazendo, reter aquela parcela que contenha o nosso amor. Marcel, falando sobre o seu amor por Albertine  dizia que a  imagem que ele buscava não era mais aquela que possuia uma vida desconhecida, era uma Albertine  tão sua conhecida quanto possível (e é por isso que aquele amor não podia ser durável sem se tornar infeliz, pois não contentava a necessidade de mistério), deixara de ser uma Albertine que não refletia um mundo longínquo, que não desejava  senão estar com ele, tornando-se inteiramente uma criatura sua semelhante. A maioria das vezes o amor não tem por objeto um corpo, exceto se nele se funda uma emoção, o medo de o perder, a incerteza de o encontrar.   

            Em uma das primeiras conversações entre o barão de Charlus e o Narrador, a respeito de um escrito de Madame de Sévigné, ele disse que o essencial é o permanecer ao lado de quem se ama. “Estar com os entes queridos, falar-lhes ou não, dá no mesmo”. E complementa “esta vida está tão mal arranjada que muito raramente gozamos essa felicidade; Madame de Sévigné é muito menos digna de compaixão que os outros, pois passou a maior parte de sua vida com a pessoa amada.” Ao que lhe contra-argumenta Marcel: “Mas não era amor, tratava-se da filha”. O sábio de Charlus lhe responde: “O importante nesta vida não é aquilo em que se põe o amor, mas sentir o amor. As demarcações tão estreitas que traçamos ao redor do amor são fruto de nossa grande ignorância pela vida”.

  • Passemos à questão do ciúme. O ciúme, decorrente da posse ou do desejo da posse, com as torturas e aflições que enseja em seus personagens, funciona como uma ideia fixa, conduz o amante a procurar mentiras e traições em quaisquer atitudes, torna o amor um sofrer poucas vezes apaziguado. Quem ama dificilmente escapa de um dos círculos do Inferno de Dante que ele próprio traça,  com um destino ainda pior do que aquele imposto pelo Empíreo a Paolo e Francesca de Rimini, amor impuro que os condena ao sofrimento eterno, porém os amantes o sofrem juntos, abraçados  em uma fusão de almas.  Seus personagens, entretanto, são confinados em mundos solitários, onde as paixões sempre se transformam em tormentos, em um inferno em que só se é capaz de amar o que não se possui ou o que se teme perder; qualquer atitude ou um “pensamento” presumido desperta nos apaixonados o ciúme, que é o veneno a corroer o amor e a alma de quem ama. A paz, então, somente pode ser alcançada no esquecimento e no sonho, ou na fuga para novos amores em que  os ciclos serão recriados. Iniciemos tão difícil temática pelo binômio ciúme-mentira na relação doentia do amor de Swann por Odette.

            André, a patologia amorosa é bastante complexa; o amor entre Swann e Odette, assim como aquele entre o Narrador e Albertine constituem aspectos de um “pathos” que se chama paixão. Mas jamais se esqueça de que ao se fecharem as cortinas do teatro que é a obra de arte, o que nos restará é o amor como uma ilusão que enriquece a vida como nada mais o faria. Mesmo quando nos enganamos sobre o homem ou a mulher com quem nos relacionamos, existirá um produto da relação, muitas vezes impapável mas profundo: encontraremos abaixo da cinza do amor desfalecido a brasa do enriquecimento do espírito. E não perca de vista que as sensações obscuras são as mais interessantes para o poeta, com a condição de que as torne mais claras. Se ele, como eu, prefere caminhar pela noite, que seja ao menos como Lúcifer, o Anjo das Trevas, enchendo-a de luz.

            Falemos um pouco deste demônio que não pode ser exorcizado e que volta sempre para reencarnar em nova forma: o ciúme!  Swann, ao final de sua vida, confidencia a Marcel que  quando se é um pouco ciumento isto não chega a ser de todo desagradável. Mas isso é só no início do mal, ou quando a cura está quase completa. No intervalo vive-se o maior dos suplícios. Quando Charles Swann achava que Odette era desejada por todos os homens onde eles estivessem e que ela mesma os desejaria, em todo homem que via ele enxergava um possível amante para Odette. E assim o ciúme de Swann alterava-lhe o caráter e transformava-o por completo. E no entanto, esta Odette de quem lhe vinha todo este mal, não lhe era menos cara; muito pelo contrário, era mais preciosa, como se à medida que o sofrimento aumentasse, também subisse o valor do calmante, que só esta mulher possuía.

            Ora, quando Odette se convence de que Swann a ama, de que ele é também ciumento e possessivo, ela compreende que ele estava em suas mãos. Desenvolve para melhor envolvê-lo essas novas formas de ser:  indiferente, distraída, irritável, e que certamente o faziam sofrer. Porém, ele não tinha conhecimento dessa estratégia e  como Odette se tornava progressivamente fria com ele, só comparando o que ela era hoje com o que fora no começo é que Swann poderia sondar a profundidade da mudança ocorrida.

            Quanto ao segundo termo do binômio, a mentira, Swann reconhecia nas palavras de Odette, quando lhe interrogava por que e com quem saíra, um desses fragmentos de um fato correto que os mentirosos em aperto se consolam em fazer entrar na narração de fatos falsos que eles inventam, julgando que assim têm alguma vantagem e furtam sua semelhança à verdade. Claro que se Odette acabava de fazer algo que não desejava revelar, escondia-o no fundo de si mesma. Tanto Odette quanto Albertine quando confrontadas com evidências derivavam a gracejar com seus amantes. Pois o que falamos o mais das vezes em tom de gracejo é, geralmente, o que incomoda. Mas não queremos mostrá-lo, com talvez a esperança inconfessada de uma vantagem suplementar: de que justamente a pessoa com quem conversamos, ouvindo-nos gracejar sobre aquilo, pense que não seria verdade.

            Swann - na medida em que Odette deixava de ser para ele uma criatura ausente, desejada, imaginária; quando o sentimento que nutria por ela já não fosse aquela mesma turvação misteriosa que lhe causava determinada frase da sonata de Vinteuil, mas apenas afeição e reconhecimento; e, finalmente, quando se estabelecessem entre eles relações normais que pusessem fim à sua loucura e a sua tristeza - então, pressentia que os atos da vida de Odette lhe pareceriam pouco interessantes em si mesmo, como já diversas vezes o suspeitara. Considerando seu mal com tanta sagacidade, como se o tivesse inoculado a si próprio para estudá-lo, dizia consigo que quando estivesse curado seria indiferente ao que Odette pudesse fazer. Mas no íntimo tinha medo, como à morte, dessa cura que de fato seria a morte de tudo o que ele era neste momento. Swann talvez não o soubesse, mas ninguém consegue a cura para um sofrimento sem antes experimentá-lo integralmente.

             Swann, moribundo, confessa a Marcel: “A lembrança desses sentimentos nos diz que estamos sós em nós mesmos, e é em nós que cumpre entrar para contemplá-los. Enfim, o que quero dizer é que muito amei a vida e as artes. Pois bem!  Agora estou por demais cansado para viver com os outros, com esses antigos sentimentos tão pessoais, tão meus, que eu tive; parece-me que acumulá-los é a mania de todos os colecionadores, pois eles são muitos e preciosos. Abro para mim mesmo o meu coração como uma espécime de vitrine, e olho um por um esses amores que os outros não terão conhecido. E dessa coleção, à qual me sinto agora ainda mais apegado que às outras, digo para mim mesmo que será uma pena deixar tudo isto.”

  • O ciúme de Swann tinha como alvo  os possíveis amantes do sexo masculino de Odette, cujo perfil traçado é claramente feminino.  Por outro lado,  quando observamos a relação amorosa entre o  Narrador e  Albertine, toda a enxurrada de ciúme sentido por Marcel concentra-se nas possíveis relações homoafetivas da jovem. Marcel somente se apaixona quando a crê uma vesuviana “a la Baudelaire”.

            Dizer que Marcel só se apaixona por Albertine quando presume a sua bissexualidade não é de todo correto; ele já a tinha como seu amor antes que ela lhe dizesse, ingenuamente, ser amiga de pessoas que ele sabia praticantes do safismo. Mas é verdade que o amor se aprofunda com o ciúme e a curiosidade pelo desconhecido. Entretanto, veja bem que o Narrador confessa que nada sabia de concreto a respeito de  Albertine. Tudo eram suposições, tentativas de penetrar na psiquê da amante. Nas conversas  ele detectava determinadas contradições, certos retoques que lhe pareciam tão decisivos quanto um flagrante delito, e  julgava que tivesse pego Albertine como uma criança a mentir ou a ocultar algo; talvez essa mentira somente existisse na cabeça do interrogador. Por outro lado, nos tempos em que Marcel e Albertine eram tão somente  bons camaradas, Albertine dizia-lhe: ”Acho estúpido deixar ver que se ama, eu faço o contrário:  assim que uma pessoa me agrada, finjo não prestar atenção a ela. Assim ninguém descobre nada.” A partir da descoberta do interesse mais profundo de Marcel ela passaria a esconder-lhe tudo, pois uma coisa que ela jamais faria seria confessar-lhe algo, pois no fundo Albertine sempre o  sentira ciumento e um juiz.

            Marcel descobrirá que, uma vez pressentido, o ciúme passa a ser considerado por aquela que é objeto dele como uma desconfiança que a autoriza enganar. Aliás, é para poder saber alguma coisa somos nós mesmos que tomamos a iniciativa de mentir, iludir. Acontece que choramos quando a pessoa que amamos não tem mais conosco aqueles ímpetos de simpatia, aquelas iniciativas amorosas do início, mas sofremos mais ainda ao pensar que, não os tendo mais conosco, talvez os tenha com os outros. O ciúme pertence a essa família de dúvidas doentias que cedem mais à energia de uma afirmação do que à sua verossimelhança. É muito próprio do amor tornarmo-nos ao mesmo tempo mais desconfiados e mais crédulos, fazer-nos suspeitar mais depressa do que o faria de uma outra pessoa daquela a quem amamos, e mais rapidamente acreditar em suas negações.

            O ciúme nascia por imagens, em virtude do sofrimento, e nunca segundo uma probabilidade. De qualquer forma, o círculo que o ciúme cria para o ciumento é invencível. Marcel,  como todo ciumento, teme que todas as precauções que pudesse tomar em relação à amante se tornariam inúteis se lhe desse tempo e facilidades para ser enganado tanto quanto ela quisesse; e se, afinal, ela se rendesse, ele já não poderia esquecer o tempo em que ela teria estado sozinha, o que poderia haver ocorrido no seu passado.

  • Portanto, o ciúme para seus personagens é como uma enfermidade em que nada é perdoado. Se o nosso fígado é intoxicado pelo álcool, basta que lhe propiciemos algum sossego e ele refaz seus hepatócitos e com isso volta a nos prestar seus excelentes e vitais serviços. Mas  o ciúme  busca até mesmo no passado da criatura amada seu “pecado Original”. Em seu livro os verdadeiros dramas dispensam o veneno e os punhais, dado que os duelos ocorrem dentro do coração das personagens e nem na morte da pessoa amada encontram o bálsamo adequado para estancar o seu sofrer.

            O ciúme nos envolve em suas trevas e é também um desses suplícios em que a tarefa está incessantemente a recomeçar, como as das Danaides, como as de Ixion. Após a notícia da morte de Albertine, o Narrador sofre novo acesso de ciúme. Não é preciso sermos dois, basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela já esteja morta. Por isso não se deve temer no amor, como na vida habitual, tão somente o futuro, mas também o passado. O que, com efeito, torna doloroso tais amores, é que lhes preexiste uma espécie de pecado original da mulher, um pecado que nos faz amá-las, de modo que, se o esquecemos, temos menos necessidades dela, mas para recomeçar a amar é preciso recomeçar a sofrer.

  • Se o que alimenta o amor é a busca  de algo inacessível ou que não se conheça, então não existe lugar para que, numa relação, se confie no parceiro; na qual ocorram possibilidades de troca e de crescimento emotivo mútuo. As personagens proustianas, enquanto amam sempre mentem como forma de manter o parceiro-aranha prisioneiro em suas próprias teias do ciúme, pois o amor é antes de mais nada uma prisão. A busca de uma verdade, da qual sempre se desconfiará  é obsessiva, mas é a única chama capaz de manter viva o que se poderia chamar de paixão. Em determinado momento de “Albertine Fugitiva”, o senhor utiliza a expressão “a fé experimental”, referindo-se a um instrumento a serviço de se obter, ou melhor, “intuir” a verdade na relação amorosa.

            A “fé experimental” advém do fato de que a inteligência não constitui o instrumento mais sutil, mais poderoso, mais apropriado para se obter a verdade; mas através dela devemos começar, pois a mesma é preferível a qualquer intuitivismo do inconsciente, o que nos levaria a uma fé alicerçada somente em pressentimentos. A vida aos poucos, caso a caso, permite-nos assinalar que o mais importante para o nosso coração não nos é ensinado pelo raciocínio, mas por outras forças. Aquilo que  denomino “fé experimental” é decorrente da abdicação do raciocínio, que, mesmo sendo superior àquelas forças, as intuitivas, aceita tornar-se sua colaboradora e serva. Talvez ele seja decorrência de que, por natureza, o mundo dos possíveis sempre me foi mais aberto que o da contingência real, e isto ajuda a conhecer a alma, mas a gente se deixa enganar pelos indivíduos.  

  • Em muitos ciumentos, o ciúme não causa somente dor; existe neste sentir uma dose de certa sofreguidão, um bocado de prazer. Já dizia Goethe que todo ser humano leva consigo um segredo, que se conhecido, torná-lo-ia odioso aos outros. Em mais de um episódio, Marcel demonstra o prazer associado ao ciúme, um sexualismo que se satisfaz no observar o que lhe seria oculto.

            O ciúme é dessas doenças intermitentes, cuja causa é caprichosa, imperativa, sempre idêntica no mesmo doente, às vezes totalmente diferente em outro. Um determinado sujeito pode consentir ser enganado, contanto que sua amante lhe diga. Já um outro, desde que lhe esconda. Sei também de ciumentos que só o são das mulheres com quem o amante tem relações longe deles, mas permitem que ela se entregue a outro homem que não eles se for com a sua autorização, junto deles e, se não à vista, pelo menos sob o mesmo teto. Esse é frequentemente o caso de homens idosos apaixonados por mulheres mais moças. Sentem a dificuldade de agradar, às vezes a impotência de contentá-las e, para não serem enganados preferem admitir em casa, num quarto vizinho, alguém que julguem incapaz de dar a ela maus conselhos, mas tão somente o prazer.

            Com outros, é justamente o contrário; não deixando a amante sair desacompanhada, um minuto que seja, numa cidade que conhecem, permitem-lhe partir por um mês para um país que não conhecem, onde não podem imaginar o que fará. Marcel tinha com Albertine essas duas espécies de escapismos tranquilizadores. Não teria ciúmes se ela desfrutasse prazeres junto a ele, incentivados por ele, mantidos sob sua vigilância, poupando-lhe assim, o receio da mentira. Ou se ela viajasse. De qualquer modo, a dúvida seria suprimida pelo conhecimento ou pela ignorância.

  • Falando-se de voyeurismo, o Narrador iniciou o seu aprendizado sexual sobre o homossexualismo ainda adolescente. Assistiu, escondido atrás de uma janela, a uma relação entre duas amigas, na casa do compositor Vinteuil. Quando jovem, em um bordel, consegue escutar a relação entre outras duas mulheres. Ouve, também,  através de uma parede, a relação do sr. de Charlus com Jupien. Neste teatro, que não se restringe a esses três atos, está claro que o aprendizado e o prazer do voyeur estender-se-ia à sua relação com Albertine, pois Marcel, após a morte de sua amante, paga para ouvir os sons de uma relação entre duas lavadeiras, novamente tendo por anteparo de uma cortina de bordel. Ao fim, nosso herói descobre que para ele as únicas mulheres que o atraíam seriam aquelas que interessariam a Albertine, ou que a recordavam.

            André, você já se deu conta de quantos prazeres, de que doce vida nos privamos devido a essa indomável teimosia de negarmos nossos próprios  prazeres, de não possuirmos a coragem de simplesmente gozá-los? Muitas vezes  sublimamos o prazer sensual pela ideia de penetrar na vida sexual, impedindo-nos de reconhecer o prazer real, de sentir seu verdadeiro gosto, de restringi-lo a seus limites. Ora, despojar da vida os prazeres, sublimá-los, é reduzi-los a si mesmos, ou seja, a um nada.

            Sem mesmo nos determos em relações de natureza tão especial quanto temos visto, não vemos todos os dias que o adultério, quando se funda em amor verdadeiro, não abala o sentimento da família, os deveres de parentesco, e, ao contrário, os revifica? O adultério introduz o espírito na letra que muitas vezes o casamento teria deixado morta. Afinal, cada um tem a sua própria maneira de ser traído, como tem sua própria maneira de gripar-se. A literatura, a obra de arte, espelha esses nossos receios de assumirmos nossa real identidade por um lado, e, por outro,  assume a responsabilidade de libertar-nos de nossos medos e preconceitos ao denunciar o sofrimento por não  assumirmos o mundo e nós mesmos, como realmente o somos.

  • Jacopone da Todi, no século XIII, escreveu o” Cântico do Amor Superardente”. Cito um pequeno trecho:

“O coração tenho todo partido- ardendo por amor,/Ardendo e queimando, sem encontrar refúgio/ não podendo fugir pois atado está/ consumindo-se como cera ao fogo/ alcança-se mais viver, sofre destemperado;  clama por fugir um pouco/ mas na fornalha se engasta./ Ai de mim, aonde sou levado por tão forte sofrer?/ Viver assim é morrer- tão forte o forte- tão forte o queimar".                                             

O amor que necessita possuir o corpo e o espírito do ser amado é como o fogo que abrasa, que corrói, que ata o possuidor e o possuído num “pathos”, que é mais Tânatus que Eros. No entanto, Marcel ama apenas o que não chega a possuir totalmente, pois quando obtém a  posse ou a submissão do objeto da paixão, a mesma lhe causará a  extinção de seu amor. Falemos sobre a necessidade  da posse?

                                                               

              A ante-sala da posse é a luta contra os concorrentes à mesma pessoa. Se soubéssemos analisar melhor nossos amores, haveríamos de ver que muitas vezes as mulheres só nos atraem por causa da concorrência com outros homens a quem temos que disputá-las, embora soframos mil mortes exatamente por ter de fazê-lo; suprimida a concorrência, desaparece o encanto da mulher. Quando o amor de Marcel começa a dissolver-se, só o desejo que Albertine excitava nos outros fazia-o  recomeçar a sofrer e  querer disputá-la; isso elevava-a aos seus olhos em um alto patamar. “Ela era capaz de me causar sofrimento, mas de nenhum modo, alegria. Só pelo sofrimento subsistia o apego”.

           O prazer de ter Albertine morando em sua casa era muito menos um prazer positivo do que o de tê-la retirado do mundo, onde cada um poderia gozá-la por seu turno, a menina em flor que se pelo menos não lhe dava grande alegria, não a dava tão pouco aos outros. “A ambição, a glória ter-me-iam deixado indiferente. E, no entanto, para mim, amar carnalmente significava  triunfar sobre numerosos concorrentes. Nunca será demais repetir, o amor era mais que tudo um alívio”.

             Albertine “prisioneira” no apartamento de Marcel, compreendeu com estupor, achar-se num mundo estranho, de costumes desconhecidos, regido por leis da vida que não se podia pensar em infringir, mas às quais não tentou resistir e esperou pacientemente todas as manhãs que, por exemplo, Marcel tocasse a campainha para ousar fazer rumor nas manhãs ensolaradas. Mas com o passar do tempo, a docilidade de Albertine começou a diminuir, embora ele preferisse que ela permanecesse tão dócil como fora no passado. Mas na medida em que diminuía a docilidade de Albertine, Marcel permitia-lhe passeios, sempre acompanhada, ou melhor, vigiada, quer pelo seu motorista, quer por Andrée, mantendo sempre a intenção permanente de flagrá-la na mentira de uma traição real ou presumida ou numa contradição. Nesses momentos, Marcel se dá conta do “peso” que representava, para si mesmo, ser o carcereiro de sua prisioneira, aquela presença perpétua, insaciável de movimento e de vida, que lhe perturbava o sono com seus movimentos, fazia-o sofrer um resfriado perpétuo pelas portas deixadas abertas, o que já era um emblema da revolta da “prisioneira” ao estranho ambiente fechado que lhe era imposto, e o forçava a achar pretextos que justificassem não acompanhá-la. O possessivo sempre precisa acreditar que a “cativa” lhe escapa ao domínio, o que inevitavelmente, entretanto, termina por acontecer.

            Por mais tranquilos que nos julguemos quando amamos, o amor está sempre em equilíbrio instável  dentro de nosso coração. Basta um nada para colocá-lo em situação de felicidade, ficamos radiantes, cobrimos de carinho não aquela a que amamos, mas aqueles que nos fizeram valer aos olhos dela, e basta uma palavra para que toda a felicidade preparada a que nos atirávamos se desmorone, para que o sol se esconda, para que vire a rosa dos ventos e se desencadeie a tempestade interior, a que um dia,  já não seremos capazes de resistir.    

            Na continuidade da história, os passeios de Albertine ao invés de se multiplicarem, praticamente desaparecem e o domínio físico de Marcel sobre a amante torna-se total. E a complexidade aumenta. Ele se dá conta de que nada adiantava tê-la à mercê de seus carinhos, pois sentia como se estivesse a manusear uma pedra que encerrasse a salina dos oceanos imemoriais, ou o raio de luz de uma estrela. Sentia que tocava apenas o invólucro fechado de um ser que pelo interior se comunicava ao infinito, “pois se o corpo de Albertine estava em poder do meu, o seu pensamento escapava ao domínio de meu pensamento”. O Narrador via que Albertine não era para ele nem mesmo a maravilhosa cativa com que pensara enriquecer a sua morada, embora escondendo-a totalmente do mundo. Ela era para ele uma grande deusa do Tempo, instando-o de maneira insistente, cruel e desilusória a explorar o passado.

            Assim, apenas o sono de Albertine realizava em certa medida a possibilidade do seu amor. Quando ela dormia ele não precisava mais falar, sabia que não era mais olhado por ela, não tinha mais necessidade de viver na superficialidade. “Tendo-a sob o meu olhar, tinha o sentimento de a possuir por inteiro, o que não se dava quando ela estava acordada. Seu sono punha ao pé de mim algo tão calmo, tão delicioso quanto, na baía de Balbec, luzindo mansa como um lago, aquelas noites de plenilúnio em que os galhos mal se movem, em que estirados na areia, escutaríamos sem fim o quebrar do refluxo”.

  • Em determinado momento Marcel confessa que não sabia ser ele ou ela “o prisioneiro”. Numa relação em que a sua essência é composta pelo conflito da  posse que sufoca toda a liberdade e a espontaniedade, não existem criaturas libertas para o amor, apenas aprisionadas, asfixiadas, prisioneira e carcereiro.

            Como carcereiro, Marcel sabia que  os deveres e os encargos de um senhor fazem parte do domínio, e o definem; constituem uma provação tanto quanto seus direitos. Por ser mais senhor de Albertine do que julgara, também era mais escravo que sua posse. Para Marcel, Albertine era um tesouro que ele possuía em casa, em troca do qual ele alienara a própria liberdade, a solidão e o pensamento. Por outro lado, ele sabia que Albertine somente se submetia na medida em que desejava casar-se. Marcel até considerava que esta possibilidade não lhe estragaria a vida, mas  fá-lo-ia assumir o encargo, por demais pesado, de se consagrar a outra pessoa, forçando-o a viver ausente de si mesmo, devido à sua presença contínua e privando-o das alegrias da solidão para sempre.

            Confinada, reduzida aos caprichos de seu “senhor”e carcereiro, Albertine refugia-se no silêncio. Mas até mesmo os silêncios da amada exaltavam-lhe o ciúmes e a ansiedade. Tem-se dito que o silêncio é uma força; num sentido inteiramente diverso é de fato uma força terrível à disposição dos que são amados. Ele aumenta a ansiedade de quem está esperando. Nada convida tanto a se aproximar de uma criatura como aquilo que dela nos separa, e qual a barreira mais intransponível que o silêncio? Também se diz que o silêncio é um suplício, capaz de tornar louco quem a ele seja coagido nas prisões. Mas que suplício- maior que guardar silêncio- o de suportá-lo vindo de quem se ama! Dessa forma o silêncio o enlouquecia. Além disso, mais cruel até que as prisões tradicionais, semelhante silêncio é a própria prisão.

            Ora, sempre desejamos ser compreendidos porque queremos ser amados, e desejamos ser amados porque amamos; a alegria de ter possuído um pouco da inteligência e do coração de Albertine não provinha, para o Narrador, de seu valor intrínseco, mas de que essa posse era um grau a mais na posse total dela, posse que fora seu objetivo e quimera desde o momento em que a tinha visto.

  • Uma relação que extrai do sofrimento mútuo seu gozo, seu deleite, é uma relação fechada e essencialmente masoquista; somente a ruptura poderá trazer sossego à alma. Mas a calmaria para um amante como Marcel somente se manteria até a eclosão de um novo amor ou, então, como fruto de uma reclusão voluntária que o afastasse de um novo ciclo amoroso.

            Marcel sabia dessa escolha: ou cessar de sofrer ou cessar de amar. Dado que no início é o amor formado pelo desejo, mais tarde, somente se mantém pela ansiedade dolorosa que ele propicia. Ora, o amor na ansiedade dolorosa, como no desejo feliz, é a exigência de um todo. Só nasce , só subsiste, se resta uma parte por conquistar, pois não amamos senão o que não possuímos inteiramente.

            Logo, sossego e paz não podem coexistir com o amor, pois o que se obtém é sempre um ponto de partida para desejar ainda mais. O que nos dá felicidade é a presença no coração de certa instabilidade, que perpetuamente procuramos equilibrar e  que quase não nos apercebemos senão quando é deslocada. Na realidade, há no amor um sofrimento permanente, que a alegria neutraliza, torna virtual e adia. E a esse respeito pode-se afirmar quanto ao amor, e acrescentemos ademais do amor carnal, o amor à vida, o amor à glória,  visto que parece haver pessoas que conhecem somente esses dois últimos sentimentos, que não deveríamos agir como aqueles que contra o barulho, em vez de implorar que ele cesse, tapam os próprios ouvidos para não  o ouvir.

            Sentimos que se a vida não ocasiona mudança em nossos amores, nós mesmos nos encarregamos de ocasioná-las ou de simulá-las e de falar em separação, de tal modo que todos os amores e todas as relações evoluem para o adeus. Marcel somente experimentava a necessidade de conservar sua amante porque a saberia livre para outras criaturas, às quais não podia impedir que ela se juntasse. “Mas se ela renunciasse para sempre a todos por minha causa, talvez eu tivesse resolvido não deixá-la nunca , pois se o ciúme torna cruel a separação, a gratidão torna-a impossível”. É claro que esse raciocínio do Narrador era uma armadilha, ele a deixaria de qualquer modo, único caminho de exaurir seu sofrer, pois é humano procurar a dor e em seguida livrar-se dela. E depois, por múltipla que seja a criatura que amamos, pode em todo caso apresentar-nos duas personalidades essenciais, conforme nos apareça como nossa ou com os seus desejos voltados para outrem. A primeira dessas personalidades possui o poder particular que nos impede de crer na realidade da segunda, o segredo específico para apaziguar os sofrimentos que esta última causou. A criatura amada é sucessivamente o mal e o remédio que corta e agrava o mal.

            Depois de certa idade, por amor-próprio e por sagacidade, o que mais cobiçamos é o que fingimos desdenhar. Não  se precisa de sinceridade e nem mesmo habilidade na mentira para  ser amado, mesmo porque chamo aqui de amor aquilo que não passa de  uma tortura recíproca. Voltando a Swann quando se julgava incompreendido por Odette, ele agia como morfinômanos ou cocainômanos, que normalmente são convencidos de que foram detidos por um acontecimento exterior, justo no momento em que iriam se livrar de seu hábito inveterado. Ser duro e caviloso com quem amamos é tão natural! Quando amamos, o próximo nos é indiferente e a indiferença não nos induz à maldade.      

  • Os personagens proustianos só amam o que lhes é diferente; para  Senancour, amamos o que nos é complementar. A submissão completa de um ser a outro ser torna-os semelhantes entre si, mesmo à custa da destruição da personalidade de um ou dos dois parceiros. Daí, a perda de interesse naquele que se nos assemelhará tanto conosco “ao olharmos no espelho”.

            Quando Albertine praticamente se rende à servidão que lhe é imposta, por pouco tempo Marcel sente-se feliz e que as belezas do mundo lhe foram restituídas. Inofensiva, privada do aguilhão do ciúme que fere o coração, ele se permitia admirá-la, afagá-la com o olhar, pois prendendo Albertine ele se sentia restituindo ao universo todas aquelas asas da tentação. Por seu lado, Albertine a seu modo, tirava proveitos de sua prisão, que Marcel transforma a custas de uma fortuna, em uma gaiola dourada. A amante que, a princípio contentava-se com vestidos e robes de moda, agora desejava móveis, prata, um iate e, até mesmo um Rolls Royce. Iniciara bonitas coleções de antiguidades de prata, que instalava em uma vitrine, e que Marcel não podia olhar sem ternura e sem temor, pois a arte com que as dispunha era feita de paciência, engenho, de nostalgia, de necessidade de esquecer, como aquela a que se entregam os cativos.

            E era curioso como, após o tempo da reclusão, quando “as belezas restituídas do mundo se desfazem”, o destino que transforma os seres pudem modificá-los em sua essência, fazendo da moça de Balbec uma enfadonha e dócil cativa. Porque, sobretudo, Marcel lhe cortara as asas e ela que cessara de ser uma Vitória, transformara-se numa pesada escrava de que o Narrador gostaria de ver livre. Fora-se pouco a pouco a beleza, deixando-a convertida numa desbotada prisioneira, reduzida ao seu eu sem brilho, e a única forma de Marcel conseguir restituir-lhe as cores era através de relâmpagos em que a recordava em seu passado. Albertine adquirira tal força de passividade, tamanha faculdade de esquecer e de se submeter, que aquelas relações haviam sido cortadas com efeito e a fobia que o atormentava havia sido curada. Marcel pôde separar Albertine de suas cúmplices e, com isso, exorcizar as suas alucinações; mas ele sabia que o seu gosto pelo prazer era crônico e só esperava, talvez, uma oportunidade para se satisfazer. O Narrador afinal conclui que o seu sofrimento não podia ter um fim senão com Albertine  ou com ele mesmo.

            Mas a força do Hábito é muito mais poderosa e acovardizante do que podemos imaginar. Mumificada pelo hábito, a vida penosa do Narrador era suportável, preservada pela certeza de que o dia seguinte, ainda que fosse cruel, conteria a presença da criatura afeiçoada. Com a separação, eis que ele a destruía agora, insensatamente. Inicialmente chegara a simular um rompimento, com seguro retorno, mas esquecendo-se de que muitas vezes,  ao simularmos um adeus, evocamos por antecipação uma hora em que há de vir fatalmente mais tarde a separação.

            É quando, decididamente, somos forçados a nos privar da força do hábito e dando ao dia presente uma força excepcional, destacamo-lo dos dias contíguos e ele flutua sem raízes como num dia de partida: a nossa imaginação não sendo mais paralisada pelo hábito, desperta, acrescentamos de repente ao nosso amor cotidiano devaneios sentimentais que o engrandecem enormemente,  tornam-nos indispensável uma presença com a qual não temos certeza de contar. Mas desse jogo nos tornamos vítimas, recomeçamos a sofrer porque fizemos algo de novo, de inusitado, que acontece assemelhar-se assim àqueles tratamentos que devem curar mais tarde a doença de que sofremos, mas cujos primeiros efeitos são os de agravá-la. Essa é a sintomatologia da perda de estabilidade, quando uma espécie de “caos” pede abrigo em nossa morada.

            O que exprimimos é o contrário de nosso desejo (que é viver sempre com quem amamos, preservando o hábito, a estabilidade), mas é também aquela impossibilidade de vivermos os dois juntos, impossibilidade que causa o nosso sofrimento cotidiano, aliás preferido por nós ao da separação, mas que terminará por nos separar. Recomeçam as mesmas tristezas, acentua-se a mesma dificuldade de viver um no outro; o que resta, a separação afinal, prova não ser algo tão difícil; começou-se por falar nela, efetuamo-la depois sob uma forma amigável. Mas isso são apenas pródomos que não reconhecemos. Breve à separação momentânea e sorridente sucederá a separação definitiva e atroz que preparáramos sem o saber.

            E o nosso mais justo e cruel castigo diante do completo esquecimento, pacífico e frio como o dos cemitérios, pelo qual somos desligados daqueles que não mais amamos, é que vislumbramos esse mesmo esquecimento como inevitável àqueles que ainda amamos. Somos seres anfíbios; o nosso “eu” é  partido em dois, como uma dessas criaturas que vivem mergulhadas no passado e na realidade atual.

  • Numa separação, se houve realmente amor, pelo menos de uma das partes, não constitui uma atitude simples, de poucas consequências. Creio que, normalmente, mesmo as separações mais civilizadas imbutem toques de clarins, seguidos por cargas de cavalaria, avanços e recuos, sempre sob os campos minados do ressentimento.

            Os preparativos para a guerra, que o mais falso dos adágios preconiza para fazer triunfar a vontade da paz, criam, ao contrário, em cada um dos dois adversários, a princípio, a crença de que o outro quer o rompimento e, ocorrido este, esta outra crença em ambos de que foi o outro que a provocou. Por isso é muito raro que a gente se separe bem, pois se estivéssemos bem, não nos separaríamos. Na separação, mesmo um homem que não tivesse a princípio senão motivos de pouca importância para zangar-se, exalta-se com os efeitos da própria voz e se deixa arrebatar por uma fúria engendrada não pelas razões da queixa, mas pela própria cólera em via de crescimento. Mas o tempo se encarregará de clarear a tempestade e, então, reconquistamos a serenidade do sorriso.

  • A cura das separações, quando não acontece um recomeço, está no esquecimento. O tempo nos transforma,  modifica-nos ao ponto de nem mesmo reconhecer, num futuro,  quem chegamos  a amar loucamente no passado. Isso ocorreu entre  Marcel e Gilberte.

            É raro que as criaturas que desempenharam um papel importante em nossas vidas saiam dela, de repente, de modo definitivo. Voltam a pousar nela por instantes (a ponto de alguns ingênuos até acreditarem  num recomeço do amor) antes de deixá-la para sempre.  “Vivei completamente com uma mulher e não vereis mais coisa alguma do que vos fez amá-la; certamente se os dois elementos se desunem, o ciúme pode, até mesmo, juntá-los de novo”.

            Não quer dizer aliás que um amor verdadeiro, se temos algum, não possa subsistir em semelhante estado de separação. Mas sentimos tão bem, como num novo meio, que impressões desconhecidas mudaram as dimensões desse sentimento, que não podemos considerá-lo como dantes. Esse mesmo amor, é verdade que o reencontramos, mas deslocado, não mais pesando sobre nós, satisfeito da sensação que lhe concede o presente e que nos basta, pois com o que não seja atual não nos importamos.

            A luta pela morte de um amor que nos faz sofrer só reconhece um inimigo que poderá derrotá-lo. E Marcel diz que à vista deste inimigo, o esquecimento, seu amor pôs-se a tremer, como um leão que, na jaula onde o trancaram, avista de súbito o piton que irá devorá-lo. Por não existir a possibilidade de novas descobertas, tudo o que seja mediato, o conduz a um passado.

            Antes de se atingir a indiferença inicial é preciso atravessar em sentido contrário todos os sentimentos pelos quais se passou antes de se chegar ao grande amor; porém essas etapas, esses momentos do passado não são imóveis; conservam a força terrível, a ignorância feliz da esperança, que então se lançava no encalço de um tempo convertido hoje em passado, mas que uma alucinação nos faz tomar retrospectivamente pelo futuro. É verdade que imediatamente cessa essa ilusão mas por um segundo nos sentimos transportados: tal é a crueldade da lembrança!

            Um dos efeitos do esquecimento era precisamente o de fornecer ao Narrador a imagem sumária daquela que amara, embelezada de todo o amor que ele sentira, um dia, por outras. Sob essa forma particular,o esquecimento, que no entanto, trabalhava para habituá-lo à separação, fazia ao mostrar-lhe a amante mais doce, mais bonita, desejar ainda mais a sua volta. É a contradição em que a dialética do esquecimento se bate, até encontrar a sua síntese na mudança do eu.

            Não há que se equivocar, André, ninguém consegue a cura  de um sofrimento sem antes experimentá-lo totalmente. Era preciso que Marcel convivesse com a ideia da morte de Albertine, com a ideia de suas faltas, para que essas ideias se lhe  tornassem habituais, ou seja, para que ele pudesse esquecer essas ideias e, por fim, a própria falecida.

            Enfim, meu caro, as mulheres que já não amamos, e reencontramos depois de muitos anos, existe, entre elas e nós, justamente uma espécie de morte, como se elas já não fossem desse mundo, visto que o fato de que nosso amor não existe mais e transforma em mortas aquelas que elas eram então, ou aquele que nós éramos. Pois há no mundo, onde tudo se gasta e tudo perece, algo que tomba em ruínas, que se destrói ainda mais completamente, deixando menos vestígios até do que a beleza: é a mágoa.

  • As mulheres em seu romance são, de certa forma, compostas mais de água que de fogo, terra ou ar. Oriane de Guermantes é uma duquesa de fenomenal beleza, concebida junto ao rio Vivonne; a srta. Vinteuil e a amiga, abrigam-se na casa do pai junto ao pântano de Montjouvain para fazer amor; Albertine e as “moças em flor” são criaturas do mar e  sobrevém sempre alguma tempestade em seus passeios;  Albertine, a quem estava prometido um iate, a chamar-se Swan- O Cisne-; a srta. Stermaria e o lago do Bois de Boulogne onde Marcel esperava amá-la;  Andrée que se casa com um recordista em corridas de iate. Faltaria Odette, mas recordo-me que ela foi seduzida pela sra. Verdurin, às margens de um lago. Seria devido o fato de a água ser, dentre os elementos primordiais, aquele que mais simboliza a metamorfose, a transformação, o perpétuo renovar e o refazer-se em formas e em cores? Ou porque a água não é apropriável, escorrendo pelos dedos quando tentamos aprisioná-la? Ou quem sabe, talvez devido à sua mutabilidade, o dinamismo do assumir novas formas?                                                                    

Muito perspicaz, meu caro André. Faltou você dizer que o quadro pintado por Elstir tendo Odette como Miss Sacripant não era um óleo sobre tela ou madeira, mas sim, uma aquarela. Odette, diz o Narrador, não pode ser aprisionada pois “ela é como uma água indeterminada que corre de acordo com a inclinação que lhe é oferecida”. As mulheres, ou em quem possua num corpo de homem a cabeça de uma mulher, terão como elemento primordial a água, e este constitui o motivo de serem muito volúveis e quando pensamos tê-las à mão sobra-nos apenas o perfume diáfano de suas presenças.

            De qualquer forma Marcel acreditava que  aquele que quiser entreter em si o desejo de continuar a viver e a crença em qualquer coisa mais deliciosa do que as coisas habituais, deve passear,  pois as ruas e as avenidas estão cheias de Deusas. Mas o problema é que as Deusas não se deixam abordar, elas caminham, escorrem, mesmo que por um átmo de segundos lhe insinue um olhar.

  •  “Tal como a sombra, o amor corre de quem o segue: foge se o perseguis; se fugis, vos persegue.” Novamente, Sheakespeare: “O amor não vê com os olhos, vê com a mente; por isso é alado, cego e tão potente”. Talvez por isso mesmo não o possamos escolher, e  a cada caso de amor que morre, ao olharmos para as “deusas que não podemos tocar”, já buscamos um novo amor, que, no fundo será quase a reprodução daquele que morreu.

            Construímos a nossa própria vida para uma pessoa determinada e quando, afinal, essa pessoa ou não vem, ou depois morre para nós, passamos a viver prisioneiros na moradia que só a ela é destinada. Por isso existe certa semelhança, embora vá se modificando, entre as mulheres que sucessivamente amamos, semelhança que provém da imobilidade de nosso temperamento, pois este é que as escolhe, eliminando todas as que não seriam ao mesmo tempo opostas e complementares, isto é, próprias para satisfazerem os nossos sentidos e fazer sofrer o nosso coração. Elas não são mais que um produto do nosso temperamento, uma imagem, uma projeção invertida, um “negativo”de nossa sensibilidade. Conhecemos o caráter dos que nos são indiferentes; mas como poderíamos acompanhar o de uma criatura que se confunde com a nossa vida? Em breve não mais a separaríamos de nós.

             De modo que um romancista poderia, no curso da vida de seu herói, pintar quase iguais os seus amores sucessivos, e dar com isso a impressão não de imitar-se a si mesmo, de criar, pois há menos força numa inovação artificial que numa repetição natural, mas destinada a sugerir uma verdade nova. Depois de casar com Odette,  Swann amou outra mulher, uma mulher que não lhe dava motivos de ciúme e, no entanto, provocava-lhe ciúmes, porque ele já não era capaz de renovar o seu modo de amar e aquele que usara para com Odette é que lhe servia ainda para a outra. Seus “eus” não permitiam ao amante envelhecido conhecer sua amante de hoje senão através do fantasma antigo e coletivo “da mulher que lhe dava ciúmes”, no qual havia arbitrariamente encarnado seu novo amor.

            Quando amamos temos consciência de que o nosso amor não traz o nome do ente querido, de que poderá ter nascido no passado, para outra mulher e não para aquela mulher. Talvez esta seja a  plataforma: por mais que se esqueça um amor, ele pode determinar a forma do amor seguinte. Já no próprio seio do amor precedente existiam hábitos diários, de cuja origem nem sequer nos lembrávamos, e esses hábitos, no entanto, sobrevivem à mulher, e até à lembrança da mulher. Tornam-se a forma, senão de todos os nossos amores, ao menos de alguns de nossos amores que se alternam entre eles.

  • Estamos dentro de uma plataforma psíquica circular:  ciúme, ansiedade dolorosa, desconfiança, mentira, posse, aprisionamento, perda do amor, esquecimento e busca de novo amor que também engrendrará nosso ciúme. Dentro deste círculo vicioso Marcel chama o amor de “a tortura recíproca”, do qual nos salvamos apenas pelo esquecimento. Mas como um diretor de cena que comanda seus personagens no teatro que é a própria vida, ele também nos diz que tão somente o amor e os ciúmes, com suas dores,  abrem-nos as portas da inteligência. Se a felicidade é saudável para o corpo, é a dor e a doença que permitem ao espírito alçar-se sobre si próprio?

            Meu caro André, devemos muito mais aos que nos fazem sofrer do que aqueles que nos fazem felizes. Nosso potencial de humanidade e capacidade artística somente atingem seu máximo de evolução debaixo do sofrer de uma paixão.

            Consigo ver claramente meu horizonte, e nele as coisas que ocupam o meu pensamento, mas me empenho em descrever as que estão além deste. É preciso  ter coragem para conhecer-se tal como se é e não como dever-se-ia ser.  Por isso mesmo eu lhe digo que amo mais a verdade que a própria felicidade e jamais acredito nesta sem a verdade.