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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo V- Os Sonhos e os Múltiplos"Eus"



  •  Shakespeare escreveu que somos feitos da mesma matéria de que são compostos os sonhos. Acredito que nada esteja mais próximo de “Em Busca do Tempo Perdido”, onde a vida assemelha-se a um sonho e ele, à vida; a leitura  de seu livro nos enleva, somos possuídos pela  sensação de caminharmos, lentamente, através das clareiras de uma floresta encantada. Um sonhar caminhando, dessas espécies de viagens das quais demoramos como que uma eternidade para nos livrar e conseguir despertar; quando retornamos ao mundo real, damo-nos conta de que o sonho ainda não terminou, pois nosso universo, tal qual um sonho, segue dentro de nós. Esse é um aspecto da minha leitura de sua obra.

            Caro André, acredito que o material de que são elaborados os sonhos rompem os limites entre o ser desperto e aquele que dorme, assim como entre o que seja corpóreo e o que seja simbólico. Alguém escreveu que os sonhos são símbolos que sobem os rios na contra-corrente e que conseguem subir os degraus do cais. Você fica parado no ancoradouro, até conversa com eles pois os sonhos sabem muitas coisas, só não sabem de onde eles mesmos vêm. “Em Busca do Tempo Perdido”, ao lado da memória involuntária de que é tecido, traz a marca indelével dos sonhos e dos pesadelos de seu Narrador, e, por que não, de seu criador. A imaginação de um escritor, assim como os sonhos, são urdidos sempre nos mesmos meandros da memória. E até mesmo a  própria memória dos sonhos, normalmente efêmera, pode se tornar durável caso eles se repitam com muita frequência.

            O fato de que o mundo do sono não seja o da vigília, não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário.   Os  estados do sonho e o da vigília são ambos verdadeiros, mantém suas próprias identidades, comunicam-se sem jamais se fundirem. Metaforicamente podemos pensar nossas vidas transcorrendo em um apartamento de dois quartos. O sono localiza-se no segundo quarto que possuímos, e onde, abandonando o primeiro, caminhamos para dormir. Ele tem seus criados, visitantes particulares que nos convidam para sair; a raça que o habita, tal qual o primeiro humano, é andrógena, pois um homem aparece, ao cabo de um instante, sob o aspecto de uma mulher e as coisas têm tendência a metamorfosearem-se em  pessoas, e os homens, como avatares, em  nossos amigos e inimigos.  Ele possui seus próprios apetrechos, como campainhas exclusivas e ali somos, algumas vezes, violentamente despertados por um toque, perfeitamente audível por nossos ouvidos quando, no entanto, ninguém nada tocou. Estamos sempre prontos para nos levantar, com a nossa quase imediata transmigração para o outro apartamento, o da véspera.

            O tempo que decorre para o adormecido é absolutamente diferente do tempo em que transcorre a vida do homem acordado. Ora seu curso é muito mais rápido, um quarto de hora parece um dia, ora muito mais longo e julga-se haver apenas dormido um ligeiro sono quando se dormiu um dia inteiro. É um momento especial do tempo, em que ele perde sua estrutura cartesiana. Então, desses sonos profundos, a gente desperta sem saber quem é, novo, pronto para tudo, esvaziado o cérebro desse passado que até então constituia a vida.

            E quem já não teve a sensação de que, das paredes escuras do quarto de dormir, pendem como quadros, depois que despertamos, as lembranças dos sonhos? Porém essas imagens são tão ensombrecidas que muitas vezes só as percebemos pela primeira vez mais tarde, quando o raio de uma ideia semelhante vem tocá-las por acaso.  Alguns sonhos que foram harmoniosamente claros enquanto dormimos, ao despertarmos se tornam irreconhecíveis e não os tendo reconhecido, só podemos nos apressar em devolvê-los à terra do esquecimento, como cadáveres que se decompõem com muita rapidez.

  • Talvez isto ocorra porque sonhamos não com pessoas mas com sombras, com máscaras vazias, porque as figuras nada têm por detrás, tão somente nosso inconsciente...

            Sonhamos com sombras, sim, mas muitas vezes, despertos também não lidamos com sombras? E o que dirá das diferentes máscaras que os outros e nós mesmos usamos estando acordados? Conseguimos discernir consistência por trás das mesmas?

            De todo modo, o sono nos leva para muito longe do mundo habitado pela recordação e pelo pensamento, através de um éter em que nos encontramos sós: sem ter ao menos esse companheiro em que a gente se vê a si mesmo, pois ele estaria fora do tempo e de suas medidas. Quando sentimos  prazeres nos sonhos, não os fazemos figurar na conta dos prazeres experimentados no curso da existência, e, portanto, são como uma fortuna perdida. A sensação é que o prazer aconteceu numa outra vida que não a nossa. Ou seja, também os prazeres são apenas máscaras vazias.

  • Existe um outro tipo de sonho, os desagradáveis e que nos afligem, aos quais chamamos de pesadelos. Marcel diz serem eles aqueles sonhos que os médicos estupidamente supõem  mais cansativos que as próprias insônias; para o Narrador, muito ao contrário, os pesadelos permitem ao pensador aliviar-se da tensão ao despertar. Foram os pesadelos que sugeriram a Vitor Hugo a metáfora dos “cavalos negros da noite”, talvez tomando dos ingleses por empréstimo, o seu intrigante “nightmare”, a égua noturna desenfreada, assustadora, reveladora de medos e aflições libertos pelo ato de dormir, mergulhados na inconsciência, que perdem os grilhões que nossa vigília lhes impõe.

            O pesadelo também pode ser libertador. Marcel quando sofre por não ser correspondido em seu amor por Gilberte, tem um pesadelo que o liberta do sofrer. Ele não ignorava que não se deve fazer caso da aparência das pessoas, nem crer-se nos nomes, pois podem nos induzir a erros se tentamos interpretá-los. Sonhara com um rapaz, um seu amigo de nome espanhol. No caso, o reconhecimento da criatura amada somente ele o poderia fazer pela intensidade da dor sentida, e ele reconheceu no amigo, a pessoa cuja falsidade o fazia penar, Gilberte.  Isso recordou-lhe o modo esquisito com que ela rira dele recentemente, quando a mãe a obrigara a não abandoná-lo. O mesmo riso que ocorrera no parque, na cena em que  haviam se enroscado na grama e ela perguntara, com o mesmo sarcasmo acafajestado se ele “não queria lutar mais um pouco”. O sarcasmo que o pesadelo lhe revelara em Gilberte ajudou-o a tranquilizar-se, pois tudo o que nos penetra no espírito por intermédio de um sonho, pouco a pouco se dissipa; e a coisa alguma é dado permanecer, durar, nem sequer à dor.           

  • Em muitos de meus sonhos  “sei” que estou sonhando e sonhando gostaria de  interrompê-lo e conseguir acordar. Quando  desperto recordo-me desses sonhos, e, interessante, tenho a clara consciência de sua sucessividade, ou seja, um fato sendo sequencial a outro. Se isso ocorre, então, talvez o Tempo esteja presente da forma como dele temos consciência, de tal forma que ele submeteria o sonho, restando-nos uma única dimensão do Tempo. Mas por outro lado, talvez todo o sonho seja um mecanismo interno e toda a sequência que imaginamos existir, nada mais seria que mera ilusão que acontece ao nível de nosso consciente. É bastante complexa essa questão.

            Sem dúvida, complexa e apaixonante e é devido ao seu extraordinário jogo com o Tempo que o sonho sempre me fascinou. Cheguei mesmo a imaginar, erroneamente, que os sonhos seriam uma das maneiras de recuperar o Tempo Perdido.

            Marcel, de todo modo, descreve o que denomina de “a magia do adormecer”: “Subitamente adormecia e caía nesse sono pesado em que se desvendam para nós o regresso à juventude, a retomada dos anos passados, sentimentos perdidos, a desencarnação, a transmigração das almas, a evocação dos mortos, as ilusões da loucura, a regressão aos reinos mais elementares da Natureza, enfim, todos esses mistérios que julgamos não conhecer e nos quais somos iniciados quase todas as noites.”

            Gostaria de reforçar esta “magia do adormecer” com o sonho de Swann quando ainda amava Odette, e ela fazia-o acreditar que não o queria: “Ela é sua amante, disse ao rapaz”. O desconhecido pôs-se a chorar. Swann tentou consolá-lo. “Afinal ela tem razão”, disse enxugando-lhe os olhos e tirando-lhe o gorro para que ficasse mais à vontade. “Eu a aconselhei dez vezes. Por que ficar triste? Era exatamente o homem que poderia compreendê-la”. Assim Swann falava a si próprio, pois o rapaz que a princípio não pudera identificar era também ele; como certos romancistas, Swann havia distribuído sua personalidade para duas personagens, aquele que elaborava o sonho e o outro que estava vendo à sua frente com um gorro na cabeça”.  De qualquer modo, se interrogarmos os sonhos, eles nos dizem muito. Acontece que muitas vezes não os entendemos ou esquecemos aquilo que nos é comunicado, pois ao modo dos antigos profetas, chegam-nos como parábulas. Entretanto, apesar de Swann entender perfeitamente o significado de seu sonho, quando desperto, nada pôde fazer e prosseguiu na patologia de seu caso de amor.

  • Sr. Proust, um filósofo disse que “nos processos dos  sonhos, o homem se exercita para a vida futura”. Pergunto-me, sem a certeza de Penélope, se isso é possível. Na “Odisseia”, disse a discreta Penélope ao forasteiro: “Há sonhos inescrutáveis e de linguagem obscura, e o que eles anunciam aos homens, não se realiza. Eis porque existem duas portas para os sonhos: uma feita de chifre, outra, de marfim. Os sonhos que chegam através do brunido do marfim nos enganam, trazendo-nos palavras sem finalidade; as que saem pelo polido chifre anunciam ao mortal coisas que realmente irão acontecer.” Entretanto, Homero não explica qual é o brunido do marfim e como distingui-lo do troar do chifre, pois como se poderia  prever algo que ainda não aconteceu, ou simplesmente, desprezar-se palavras que nos parecem, num primeiro momento, sem finalidade?

            Os sonhos nada podem prever porque o futuro ainda não foi vivido, está no devir. Em “O Espectador”, Addison, lá pelo século XVIII, observou que a alma humana quando sonha, desligada do corpo, é a um só tempo o teatro, os atores e a platéia. Isso não os transforma em um fenômeno literário mágico e completo? Agora,  se considerarmos que o sonhar fosse uma espécie de criação dramática, ele seria o mais antigo dos gêneros literários, inclusive anterior ao “homo sapiens”, pois os animais também sonham. Todos seríamos, cada um a seu modo, dramaturgos noturnos. Digam o que quiserem, podemos perfeitamente, em sonhos, ter a impressão de que o que neles se passa é real. Agora, André, o que posso assegura-lhe  é que enquanto a pessoa desviar o espírito de seus sonhos, ela não os conhecerá, e será o joguete de mil aparências, porque não compreendeu a verdadeira natureza do seu sonhar. Se um pouco de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer inteiramente nossos sonhos para não sofrer mais com eles.

  • De todos os modos, no disco giratório da existência, existe um momento em que Hypnos nos abandona e é chegado o momento de despertar.

            A ressurreição ao despertar - após esse benéfico acesso de alienação mental que é o sono - deve no fundo assemelhar-se ao que ocorre quando se reencontra um nome, um verso ou um refrão esquecidos. Sofremos por um instante o tédio de ter de voltar imediatamente a uma casa que está “destruída” e cuja imagem é apagada por várias outras, à medida em que o sono foi se afastando, até que chegamos àquela que coincide com a que havemos de ver de olhos abertos.

            Eu sei que existem aqueles homens que, cada noite, tombam como  uma massa no seu leito e não vivem até o momento de despertar  e levantar-se. E muitas vezes, uma hora de sono em excesso é como um ataque de paralisia depois do qual temos que recobrar o uso dos membros, reaprender a falar. Somente a vontade não o conseguiria, pois dormiu-se demais e não se é mais. O despertar apenas é sentido mecanicamente e sem consciência. É então que do alto do céu a deusa Mnemósine se debruça e nos oferta, sob a forma do hábito de “tomar o café”, a esperança da ressurreição. E, quem sabe, talvez a ressurreição da alma após a morte seja concebível apenas como um fenômeno de memória.

  • Sr. Proust, falando-se dos antigos, não posso deixar de citar os cimerianos, essa gente que Plínio reputava como “aqueles que jamais poderiam sonhar”. Eram seres que não se completavam pois não possuiam a capacidade estética, dramática, de sonhar. Mudando um pouco o enfoque de nossa conversa, é fato conhecido que  o senhor possui a mesma dificuldade em dormir que o seu personagem Marcel, e, coincidentemente,  em nossas entrevistas, sempre vejo um frasco de Veronal em sua cabeceira. A insônia é sua companheira ou sua inimiga? Ela auxilia-o ou dificulta o seu processo de criação?

            Sempre disse- e experimentei- que o mais poderoso dos hipnóticos é o próprio sono. Depois de ter dormido profundamente durante duas horas, ter combatido com tantos gigantes e travado tantas amizades, é muito mais difícil despertar do que depois de haver tomado vários gramas de Veronal. Mas saiba, André, que o sono, sendo divino é muito pouco estável; o mais leve choque torna-o volátil. Amigo dos hábitos, retêm-no estes cada noite, mais fixos que ele, no lugar que lhe é consagrado, mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, esvai-se como um fumozinho. O sono é assemelhado à mocidade e aos amores, por esse motivo, durante a noite se o perdemos não o achamos mais. Existem aqueles que têm dificuldade em adormecer, ou que adquirem esta dificuldade por sua neurastenia, sua ansiedade ou devido às intermitências do coração, o que também é o meu caso. Então essas pessoas procuram, antes de tudo, sair do nosso mundo quando tomam um hipnótico. Mas só o fazem depois de terem desesperadamente, durante horas com os olhos fechados, resolvido pensamentos semelhantes aos que teriam tido de olhos abertos. Elas retomam coragem se percebem que o minuto anterior esteve carregado de um raciocínio em  contradição com as leis da lógica e a evidência do presente; essa breve “ausência”significa que está aberta a porta pela qual talvez possam fugir logo à percepção do real e, tomando um Veronal,  conseguir um sono “mais ou menos” bom, mas que consiga neutralizar as forças centrífugas que induzem à insônia, mantendo em equilíbrio a imobilidade e o sono.

            Você viu um frasco de Veronal, mas este filho do químico Bayer não é a única flor neste jardim reservado, onde crescem como flores desconhecidas sonos tão diferentes uns dos outros, como o sono do estramônio, o sono do cânhamo-da-índia, os múltiplos extratos do éter, o sono da beladona, do ópio, da valeriana, flores que permanecem cerradas até o dia em que o desconhecido predestinado vier tocá-las, fazer com que se abram, e, durante longas horas vertam o aroma de seus sonhos particulares em uma criatura maravilhada e surpresa.

            Meu personagem Bergotte, um grande escritor, nos meses que precederam a sua morte sofria de insônias e o  pior é que  logo que adormecia era visitado por  pesadelos  por causa dos quais despertava e fazia por não re-adormecer. Durante longo tempo de sua vida gostaria de ter sonhado, ainda que fossem sonhos desagradáveis, porque graças a eles, graças às contradições que apresentam com a realidade  que temos no estado de vigília, dão-nos eles, mal acordamos, a sensação profunda de havermos dormido. Ao contrário do Narrador, ele se recusava a tomar remédios para dormir.

  • Aparentemente hipnóticos reduzem a capacidade de armazenamento da memória e talvez, Bergotte se recusasse a tomá-los por esse motivo.

            Sabe, existe uma divergência sobre o uso de hipnóticos e a redução da capacidade de memória. Considero os hipnóticos uma grande ajuda. Ora, o que esqueço não é determinado verso de Baudelaire, não é o conceito dos filósofos citados, é a própria realidade das coisas vulgares que me cercam e cuja percepção não faz de mim um louco:  se estou acordado e saio, após um sono artificial, posso discutir tão bem quanto em qualquer outro dia o sistema de Porfírio ou Plotino; mas a resposta a um convite para algum evento passa-me em branco, o esquecimento é quase inevitável. A elevada ideia permaneceu no seu lugar; o que o hipnótico pôs fora de uso foi o poder de agir nas pequenas coisas. Bergotte no final de sua vida cuidava apenas das pequenas coisas...

            Posso lhe afirmar que para um homem acostumado a só dormir com entorpecentes, uma hora inesperada de sono espontâneo poderá ajudá-lo a descobrir a intensidade matinal de uma paisagem igualmente misteriosa e fresca, pois voltando por um dia que seja ao sono natural, chegamos a obter uma variedade de sonhos mil vezes mais maravilhosa que a variedade de rosas e crisântemos de um bem cuidado jardim.

Sonho e embriaguês

  •  “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão”. Em “As Flores do Mal”, Baudelaire dedica estes versos aos que preferem os prazeres dos sentidos e são afeitos à melancolia. O senhor exemplifica, num restaurante de Rivebelle, as noites em que, sob os eflúvios do álcool, nosso Narrador consegue se encontrar encerrado no presente, onde o seu passado todo se eclipsa e, que, nesse movimento, deixa de projetar diante dele mesmo essa sombra, que é nosso próprio eu , que sempre inquere o futuro. Desta forma, colocando a finalidade de sua vida não mais na realização dos sonhos desse passado, mas na felicidade do minuto atual, Marcel nada via além desse momento.

            A embriaguês realiza durante algumas horas o idealismo subjetivo, o fenomenismo puro: tudo não é mais que aparência e só existe em função do nosso sublime eu.            Sentimo-nos tão bem, como instalados em um novo meio, onde as pressões que nos chegam de nossos eus desconhecidos mudam as dimensões desses sentimentos. Tanto o sonho quanto o amor já não nos pesam, porque se satisfazem exclusivamente da sensação que lhes proporciona o presente, pois com o que não seja atual, já não nos importamos. Infelizmente, o coeficiente que assim transforma os valores, apenas os realiza nesta hora de embriaguês. Mas as pessoas que não tinham mais importância e sobre as quais soprávamos como bolhas de sabão, retomarão amanhã sua densidade; será necessário entregar-se novamente a trabalhos que na essência, nada significam.

            Sob o eflúveo do álcool, a insignificância a que se reduziam as coisas mais graves, em contraste com a violência da exaltação sentida, tornava toda a empresa de conhecer novos amores fáceis, mas ao mesmo tempo, indiferente, pois somente importava para Marcel a sensação atual; todo o resto, parentes, trabalho, prazer, raparigas de Balbec, pesavam tanto quanto uma bolha de espuma durante uma ventania que não a deixa pousar. Certa vez, Marcel embriaga-se em companhia de Robert e de sua amante, num local que possuía espelhos a decorá-lo e eles estavam de tal forma dispostos que pareciam refletir uns trinta gabinetes ao longo de uma perspectiva infinita. Marcel procurando-se no espelho avista um homem horrível, desconhecido, ele mesmo a encarar-se. A alegria da embriaguês era, no entanto, mais forte que o nojo; por alegria ou bravata, nosso Narrador lhe sorri. Sentia-se de tal forma sob o império efêmero e poderoso do minuto em que as sensações são tão fortes, que a sua única tristeza era pensar que o eu horrendo que acabara de ver estava talvez em seu último dia, e que nunca mais encontraria aquele estranho na vida.

            Em momentos de embriaguês às vezes nos ocorre a vontade de representar a personagem invejada em determinado romance. No entanto, por melhor que o imitemos não usufruímos nenhum prazer. É que toda vez que queremos imitar alguma coisa que se passou, esquecemos que ela não foi originariamente produzida pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente e, por sua vez, real.

Os lugares e os nomes num mundo de sonhos

  • O Narrador-personagem dedica páginas e mais páginas à importância dos lugares, à sua história, aos significados dos nomes, do modo como eles podem povoar a imaginação e transportar-nos a um mundo de sonhos. Combray e Balbec prendem-se às personagens decisivas da história, são como locais de um sonho. Os vitrais da igreja de Combray, com seus elementos mouros, e as figuras medievais  contam a história de “Gilberto, o mau” e a odisseia de Geneviève de Brabante e Golo. A igreja gótico-românica de Balbec, com seu pórtico, revela a Virgem ladeada pelos Apóstolos. Em busca do significado e da magia das “Pedras de Veneza”,  Ruskin conduz  o Narrador até a cidade de Carpaccio e Veronesi. Sr. Proust, toda a sua obra é permeada pelos nomes, lugares , significados, mesclados pelo real, pelo sonho e pelo imaginário.

            Os personagens de meu livro, em determinado momento de suas vidas, sempre se relacionam a um determinado lugar; assim como eles são espelhos de uma realidade, mistura do real e do imaginário, também o são os lugares. Por exemplo, tudo o que se relacionasse à inatingível duquesa de Guermantes da infância do Narrador estava concentrado em torno de Combray. Quando ela o convida a jantar já se trata de uma “outra criatura”, ou melhor, de uma outra faceta de Oriane, aquela mais acessível, e estará ligado a determinados locais de Paris. E sempre haveria diversas duquesas separadas pelo éter incolor dos anos e dos lugares.

            Marcel Proust, desde menino e até mesmo a idade de homem já formado, viajou muito. Conheci lugares, igrejas, museus que foram de grande importância para mim. Guiado pelos preciosos livros de Ruskin, visitei numerosas catedrais, como Bourges, Amiens, Rouen e Chartres e, na companhia de mamãe, Veneza. Apreendi também que as viagens, apesar que o corpo tenha dela participar e suportar-lhe as consequências boas ou más, é um movimento do pensamento, unindo duas individualidades distintas da terra.

            Por outro lado, sempre tive uma forte relação de amor com as ruínas, e por isso sempre as visitei. Talvez as ruínas  nos permitam ainda mais que construções arquitetônicas preservadas, tratá-las na nossa imaginação, voltando  dar-lhes vida, as vidas de nosso espírito. Ruskin diz a esse respeito: “Deve-se fazer história com a arquitetura de uma época e depois conservá-la. As construções civis e domésticas são as mais importantes no significado histórico. Neste sentido, a casa do homem do povo deve ser preservada pois relata a evolução nacional, devendo ter o mesmo respeito que o das grandes construções consideradas como muitos importantes. A maior glória de um edifício não depende da sua pedra ou de seu ouro, mas sim, do fato de estar relacionado com a sensação profunda de sua expressão. E uma expressão não se reproduz, pois as ideias são inúmeras e diferentes os homens. A restauração é a destruição de um edifício, é mesmo como tentar ressuscitar os mortos. Portanto, é melhor manter uma ruína, preservá-la, do que restaurá-la."       

  • A realidade é às vezes, mais estranha que a ficção. Platão dizia que de todos os entes arquétipos sobrenaturais, o único manifesto na terra é a beleza. Já Walter Pater, que todas as artes aspiram à condição da música, pois nela conteúdo e forma se confundem. A partir de determinado momento , o autor decide realizar suas viagens “oníricas”, unindo conteúdo e forma, sempre que possível, dentro de seu próprio estúdio de trabalho.

            Com o decorrer dos anos e o avanço de minha doença, compreendi que, passada a alegria da partida, viajar é sujeitar-se a todas as decepções que a realidade inevitavelmente nos prepara, despoetizando os locais que tanto nos atraíam quando ainda não os conhecíamos realmente. Tornei-me, então, um “devorador” platônico de guias turísticos. Preferi sonhar a viajar, não para um, mas para cem lugares, permanecendo em meu quarto onde minhas recordações, as informações arquitetônicas, a história e, principalmente, minha imaginação, adquirem as asas de Mercúrio e, com toda a agilidade, despertam um número infinito de virtualidades fascinantes, das quais as decepções estão, a priori, descartadas.

            Voltando ao meu livro, Marcel se dá conta de que só a percepção grosseira e errada atribui tudo ao objeto, quando tudo está no espírito. Procuramos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa alma projetou sobre elas, e ficamos desapontados ao verificar que elas parecem desprovidas na natureza do encanto que deviam possuir em nosso pensamento, graças à vizinhança de certas ideias. Porque, sem dúvida, os nomes são desenhistas fantasiosos que nos dão, das pessoas e lugares, um esboço tão pouco semelhante que muitas vezes sentimos uma espécie de estupor, quando temos à nossa frente, em vez do mundo imaginado, o mundo visível, que não é aliás o mundo verdadeiro, pois os nossos sentidos não possuem muito mais que nossa imaginação o dom da semelhança, tanto assim que os desenhos aproximativos que se podem obter da realidade são pelo menos tão diferentes do mundo visto como este o era do mundo imaginado.

            Logo, não necessitamos viajar para vermos novas paisagens. A viagem por se tornar inútil, é substituída com vantagem pela fantasia sobre os lugares, e pela magia dos próprios nomes dos lugares. Esta magia torna-as muito mais ricas, mais vivas, ganham conteúdo histórico, pois ao invés da aparência das coisas adulteradas  pelos homens ou pelo tempo, uma substância criada pelo espírito, dentro da própria alma, já possui a dimensão de uma obra de arte. Por isso, a única verdadeira viagem, o único banho real de Juventa seria não partir em demanda de novas paisagens, mas de ter outros olhos, ver o universo com os olhos de outras pessoas, de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é; e, por isso, podemos fazer um voo de estrela em estrela, na companhia de um Estir, de um Vinteuil, e de os outros de sua espécie.

            Com relação aos nomes que se dão às coisas, aos lugares, aos nomes do mundo real, muito da expressão que possuiam já se esvaiu no turbilhão da vida, e os próprios nomes, de tanto simbolismo, graduamente perdem todo o seu colorido, como um pião prismático a girar muito depressa e que parece cinzento. Marcel recordara-se da Alameda das Acácias, onde postava-se aos domingos para encantar-se com a indumentária de Odette de Swann a caminhar. A Alameda das Acácias, um nome para um lugar mavioso... Ele retorna sobre seus passos e daquele passado luminoso reviu algumas velhas a caminhar, e que eram nada mais que as sombras terríveis daquilo que haviam sido, errando, buscando desesperadamente o que  há muito havia desaparecido.

            Nosso erro, muitas vezes, é admitir que as coisas se apresentem, de hábito, como são na realidade, os nomes tais como são escritos, as pessoas tais como a fotografia e a psicologia delas fornecem uma visão imóvel. Na verdade vemos, ouvimos e concebemos o mundo inteiramente às avessas. Esse erro perpétuo que é precisamente “a vida”, não atribui apenas mil formas para o universo visível e o audível, mas também para o universo social, o sentimental, o histórico, etc..

      E o mais triste é quando se sente aí o anúncio da época de nossas vidas em que os nomes e as palavras desaparecerão da zona clara do pensamento, em que será preciso renunciar para sempre a dizer para nós mesmos o nome daqueles a quem melhor conhecemos. Por outro lado, as palavras de uso cotidiano, que não mudam tanto de sentido durante séculos, funcionam diferentemente dos nomes. Estes fatos ocorrem em nossas vidas no intervalo de apenas alguns anos, pois nossa memória e nosso coração não são bastante grandes para poderem ser fiéis. Não temos espaço suficiente, no nosso pensamento, para nele guardar os mortos ao lado dos vivos; por sorte , sempre podemos imaginar e sonhar, realizando uma longa viagem em nós mesmos, uma viagem imaginária que nos conduza à nossa verdade, pois quando se trata de escrever somos escrupulosos, verificamos tudo de perto, rejeitamos tudo o que seja verdade.                         

Multiplicidade de nossos “eus” e seus sentires

  • Após conversarmos sobre nossos sonhos, um assunto que temos tangenciado e que poderíamos abordar mais profundamente são as diferentes facetas que nosso “eu” apresenta, a dissociação dos estados da alma, a independência dos elementos que compõem a vida interior, e, em decorrência disso, a multiplicação da personalidade.

            Meu caro, o homem é o ser que se dissipa e dissocia. Nada permanece estável e uniforme nem nem , nem no que toca. Tudo se move e decompõe incessantemente, isto significa que que toda realidade é precária, nada existe de definitivo para os sentidos. Portanto, o relativo para mim é o absoluto e quaisquer valores permanentes ou supremos, perderam seus sentidos, quer se trate de valores sociais quer psicológicos.

            O rosto humano é realmente como o do deus de uma teogonia oriental: todo um rácimo de rostos superpostos em planos diferentes e que não se veem ao mesmo tempo. Podemos nos entregar, à nossa escolha, a uma ou outra de duas forças: uma se ergue de nós mesmos, emana de nossas impressões profundas; a outra nos vem de fora. Acredito que trabalhamos a todo instante para dar uma forma à nossa vida, mas copiando, malgrado nosso, como um desenho, os traços da pessoa que somos e não daquela que nos agradaria ser. Isso de certa forma desenvolve em nosso íntimo uma certa certeza de nossa incapacidade de transformarmo-nos, como se perseguíssemos uma sombra sem jamais conseguir tocá-la. Aquilo que se chama experiência não passa da revelação, a nossos próprios olhos, de um traço de nosso caráter que reaparece naturalmente, e o faz com tanto mais força quanto o havíamos revelado a nós mesmos uma vez, de modo que o movimento espontâneo se encontra reforçado por todas as sugestões da lembrança.

            Marcel pondera que talvez nele, e em muitas outras pessoas, o segundo homem em que se tornara, o seu duplo, fosse simplesmente uma face do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si próprio, aquele Marcel ajuizado. A dúvida é em qual deles Marcel desejaria se transformar? Ou não seria o caso de transformação e como a Jano dos romanos, a deusa das duas faces, cada qual virada de lado oposto à outra,  apresentaria aquela que mais lhe agradaria a cada momento?  E Marcel complementa que, afinal de contas, para aqueles que não estão representando uma comédia, o tédio de viver sempre a mesma personagem é dissipado instaneamente, como se subíssemos ao palco, se utilizássemos a máscara de reserva, a outra face da Jano.

  • Um conceito muito explorado em seu livro é o fato de que as várias facetas de nossa personalidade, que não se contenta com a dupla face de Jano, quase nos permitem visualizar diversas criaturas em uma só pessoa. Essa multipliciadade transforma o homem em um ser sempre múltiplo, complexo e dificilmente acessível. Mas tanto a multiplicidade quanto a dissociabilidade do eu mantém como paradigma a permanência de um elo, que o senhor caracteriza como a matéria essencial de todo o ser, que permanece sendo a mesma e única até a morte, dando consistência àquelas diferentes facetas da personalidade.

            Considero essa dissociação, essa multiplicidade dos “eus “de um indivíduo, não apenas um fenômeno normal da personalidade como fundamental da vida dos seres humanos. Um texto muito ilustrativo desse conceito é quando Marcel analisa as diferentes Albertines e como em sua relação amorosa ele mesmo se transformava em diferentes personagens, pois cada uma dessas Albertines era diferente, como é diferente cada uma das aparições da bailarina, quando ao dançar se vão  transmutando as cores, a forma, o caráter, conforme os jogos inumeravelmente variados de um projetor luminoso. Talvez porque fossem tão diversas as criaturas  que Marcel contemplava em Albertine naquela época, é que mais tarde ele veio a tomar o hábito de tornar-se outra personagem, de acordo com a Albertine que ele imaginava: ciumento, voluptuoso, melancólico, furioso, recriados para uma mesma lembrança, mas pelo modo diferente como a apreciava. No entanto, tanto Marcel quanto sua amante seguiam, o tempo todo, sendo eles mesmos.

            Nossos leitores devem saber que descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real que subexiste sob o universo aparente,  causa-nos  tanta surpresa como visitar uma casa de boa aparência  e encontrá-la cheia de tesouros, cadáveres e ferramentas; e não é menor a surpresa quando, em vez da imagem que havíamos formado de nós mesmos, graças ao que dizem da gente,  certificamo-nos pelo que essas pessoas dizem quando estamos ausentes, da imagem inteiramente diversa que guardam de nós e da nossa vida.

            Na verdade, a imagem que possuímos das pessoas está em nós e não naquela que está em frente a nós, de carne e osso. Marcel possuía uma imagem de Gilberte que em nada se assemelhava à Gilberte real: “ Tive que reconhecer que, em verdade, a Gilberte que  trazia dentro de mim, esta nada se parecia  com a de verdade, ignorava todas as nostalgias que lhe atribuía e provavelmente não pensava em mim.“ Isso se deve à nossa noção de pessoa que, por viver sempre em nós, está embelezada com a auréola que apesar de tudo lhe emprestamos. Em muitos seres há diversas facetas que não se assemelham; conhece-se uma, depois a outra, mas no dia seguinte a ordem se inverteu, mas é e será sempre o mesmo ser, em sua essência.

  • Voltando ao Tempo que transforma nosso “eu”, o senhor utiliza como exemplo um livro que já lemos, uma música que ouvimos, que se associaram tão fielmente ao que éramos então, que só podem ser sentidos e repensados pela pessoa que éramos naquele tempo.

            Uso o exemplo do livro, pois se revejo algo em outro tempo, outra pessoa se erguerá dentro de mim para apreciá-la, para dela extrair um valor. A primeira edição de uma obra literária pareceria mais preciosa que as outras, mas por essa expressão eu entenderia a edição em que eu o li pela primeira vez;  ao revisá-la, a fim de poder reencontrar a primeira, eu que já não sou o que a viu e que devo ceder o lugar ao eu que  era então, para que ele chame o objeto que conheceu e que o eu de hoje absolutamente o ignora. Ao reler um livro lido na infância, recearia inserir nele as minhas impressões de hoje, até chegar a encobrir de todo as de outrora, receando muito vê-lo tornar-se apenas uma coisa do presente.

             Mas não nos afligimos de nos havernos tornado outro devido à passagem do tempo, mais do que nos afligiríamos, em certa época, por termos sido, alternativamente, indivíduos contraditórios. O malvado, o sensível, o delicado, o patife, o desinteressado, o ambicioso, como alternativamente o somos também todos os dias. E o motivo pelo qual não nos afligimos com isso é o mesmo: o “eu”eclipsado - momentaneamente no último caso, quando se trata do caráter, ou para sempre, no primeiro caso, quando se trata de paixões - não está preparado para lastimar o outro, o outro que é, naquele momento, ou daí em diante, todos nós.

            Alguns desejam apaixonadamente que haja uma outra vida, onde seriam iguais ao que idealizariam para si nesse mundo. Mas não é necessário esperar pela outra vida; nesta daqui mesmo, ao fim de alguns anos, tornamo-nos infiéis ao que fomos, ao que desejaríamos imortalmente permanecer. Ainda sem supor que a morte nos modifique mais do que essas mudanças que se dão no curso da vida, se nessa outra vida encontrássemos o eu que já fomos, desviar-nos-íamos de nós mesmos, como dessas pessoas com quem já não nos damos há tanto tempo. Sonha-se muito com o paraíso, ou antes, com inúmeros paraísos sucessivos, mas são todos, ainda antes que se morra, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria, por sua vez, perdido.

  • Como podemos relacionar nossas sucessivas “personnas” com a vontade e a atividade consciente de mudança?

            Vejo a vontade como uma serva perseverante e imutável de nossas personalidades sucessivas; ela oculta-se na sombra, mesmo que desdenhada, mas incansavelmente fiel, trabalhando sem cessar e sem preocupar-se com as variações de nosso eu, para que não lhe falte nada do que necessite. Tudo quanto tem de mutáveis a sensibilidade e a inteligência, tem-no ela firme; mas como é calada e não expõe seus motivos, quase parece que não existe, e as partes restantes do nosso eu obedecem às decisões da vontade sem dar por isso, ao passo que, por outro lado, percebem muito bem suas próprias incertezas.

  • O senhor diz que a felicidade é algo dificilmente realizável para o ser humano, pois a cada momento, no derradeiro momento de sermos felizes, ela nos escapa. Que a infelicidade, por outro lado, é natural, sendo a felicidade é anti-natura. Entrementes, o senhor, em todo seu livro, sempre busca ansiosamente pela felicidade.

            Mesmo que as circunstâncias estejam sob nosso controle, a própria Natureza transporta a luta de fora para dentro de nós mesmos, e pouco a pouco vai fazendo mudar o nosso coração até que ele deseje uma realidade diferente do que se queria possuir. Se foi tão rápida a peripécia que nosso coração não teve tempo de mudar, nem por isso perde a Natureza a esperança de vencer-nos, na verdade, de maneira sutil e eficaz. Então, no derradeiro momento, a posse da felicidade nos escapa, ou melhor, a essa mesma posse encarrega a Natureza com argúcia diabólica de destruir, pois vendo-se vencida nos campos dos fatos e da vida, ela cria agora uma impossibilidade final: a impossibilidade psicológica da felicidade.

            Na realidade é a nossa previsão, nossa esperança de acontecimentos felizes, que nos enche de uma alegria que atribuímos a outras causas, e que quando a esperança termina, nos deixa recair no desgosto, pois  já não temos tanta certeza de que se realizará aquilo que desejamos. É sempre essa crença invisível na esperança  que sustenta o edifício de nosso mundo sensitivo e sem a qual ele oscilaria. Da mesma forma dá-nos a possibilidade de suportar um desgosto que nos parece medíocre, sobretudo porque estamos convencidos de que irá se findar. Ou seja, a esperança da felicidade nunca nos abandona. E constitui esta busca incansável pelo frescor dos momento felizes, o que nos proporciona o desejo de viver,  que em nós renasce a cada vez que recuperamos a consciência da felicidade e da beleza.

            Acontece que às vezes baixamos sobre a vida um juízo pessimista e que supomos justo, pois julgamos ter levado em conta a felicidade e a beleza, quando as omitimos, substituindo-as por sínteses em que não existe um só átomo delas.

  • Senhor Proust, creio que a felicidade ocorre, acolhe-nos, mas é como um fim que se esgota por si mesmo. A maior parte das obras de arte nutrem-se de emoções e essas não são necessariamente as felizes. Na  Odisseia, Homero já dizia que os deuses deram desventuras aos homens para que eles pudessem cantá-las, ou seja, as mazelas criando a estética, a obra de arte. Talvez por isso mesmo, um artista possua certo deleite no sofrimento, parte essencial de sua criação estética. Diz-se que certa vez, em uma palestra, foi perguntado a Dostoievski o que era necessário para tornar-se um grande escritor. Ele não titubiou e respondeu: “sofrer, sofrer e ainda sofrer, meu filho”.

            Acredito que aquele que consegue criar uma obra de arte, extrai do sofrer certo deleite. Há momentos na vida em que uma espécie de beleza nasce justamente da multiplicidade de aborrecimentos que nos assaltam, entrecruzados, como o são os motivos wagnerianos. Não é somente a arte que dá encanto e mistério às coisas mais insignificantes; esse mesmo poder de relacioná-las intimamente conosco também é atribuído à dor, pois a dor é poderosa transformadora da realidade.

            Sofrer e descansar da dor. Escrevi que a resistência à dor, ao sofrer, custava-me cada vez menos esforço, porque, por muito apego que se tenha ao veneno que nos está fazendo mal, quando por uma necessidade se passa algum tempo sem ingeri-lo, não é possível deixar de apreciar o descanso, que antes era coisa desconhecida, quero dizer, viver a própria ausência de emoções e sofrimentos. É bem verdade que não realizamos as mudanças conforme o nosso desejo, mas aos poucos é o nosso próprio desejo é que muda. A situação que esperávamos mudar por ser-nos insuportável, torna-nos  indiferentes. Não podemos superar o obstáculo como o queríamos; de qualquer maneira, porém,  a vida nos fez contorná-lo e transpô-lo, e, então, se nos viramos para o passado longínquo, mal podemos avistá-lo,  de tal modo se tornou imperceptível e assim também a nossa dor.

            A ansiedade,  a infelicidade e a angústia coabitam nos mesmos meandros dos labirintos dos nossos cérebros. Não me lembro de quem seja essa metáfora, mas sem dúvida, relaciona-se também à dor da recusa e ao modo como reagimos mal a ela, sempre que nos é negado o que tanto desejáramos, muitas vezes um carinho ou uma atenção que nos trariam o doce aroma de um momento de felicidade. Diga-me, André, o que nós sabemos sobre esses tão decantados labirintos cerebrais?

            Creio que a ansiedade normalmente é criada pelo hábito. Muitas vezes achamos que nossa felicidade depende de determinada  pessoa: na realidade, depende exclusivamente do fim de nossa ansiedade. É que de fato essa  pessoa tem pouco a ver com quase todo o processo de emoções e  angústias que certos acasos nos fizeram sentir outrora a seu respeito e que o hábito ligou a sua pessoa. Ah, o Hábito! É uma arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente feliz por encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento. No entanto, estamos a modificar incansavelmente a morada ao redor de nós, e, à medida que o hábito nos dispensa de sentir, suprimimos os elementos nocivos de dor, de dimensão, e de odor que objetivavam o nosso mal-estar.

  • Já que o senhor falou do hábito e de sua antípoda, a mudança, recordo-me de um sábio imperador romano, Adriano, que, conforme se diz, predicava  que sua vida oscilava entre as delícias do caos e a paz da estabilidade. Encontrar o equilíbrio entre as forças do hábito, da verdade, do intelecto, enfim, apolíneas, e as das mudanças, do caos informe, das loucuras, as forças do tirso dionísico, seria,  talvez, uma das chaves da felicidade, do autêntico equilíbrio da psiquê.

           

            O Hábito, a estabilidade são essas mil raízes, esses inumeráveis fios que são as lembranças do serão da véspera, as esperanças da manhã do dia seguinte, é essa trama contínua de hábitos, dos quais não nos podemos libertar. Assim como há avarentos que economizam por generosidade, somos perdulários que gastamos por avareza. O necessário seria rompermos esses laços, os hábitos adquiridos, que têm muito mais importância que a pessoa, mas cujo efeito é criar em nós deveres momentâneos para com ela, deveres que fazem com que não ousemos deixá-la. Ocorre-me se não fosse a força do hábito, possivelmente a vida deveria parecer deliciosa aos seres que estivessem ameaçados de morrer a todo instante, isto é, todos os seres humanos. Na vida real, bem se sabe que sou uma criatura de hábitos rigorosos, embora sonhe com as loucuras e as mudanças. Nos primeiros dias que passo separado das pessoas  a quem mais quero fico muito triste; mas logo, sem deixar de lhes querer,  vou-me  acostumando e a vida se torna outra vez tranquila e grata e, então, eu resistiria a uma separação de meses, de anos. É em geral com o nosso ser reduzido ao mínimo que nós vivemos a maior parte de nosso tempo; a maioria de nossas faculdades permanecem adormecidas porque repousam no Hábito, que sabe o que cumpre fazer e não necessita delas.

            Marcel reflete esta minha dificuldade de romper com o tradicional, refugiando-se na criação, no sonho: “A tristeza  era como um aroma irrespirável que, desde o meu nascimento, exalava para mim todo o quarto novo, ou seja, todo o quarto: naquele que de ordinário ocupava eu não me achava presente, meu pensamento permanecia em outra parte, e, em seu lugar, enviava apenas o Hábito”. Em outro momento, o Narrador tenta o elixir dionísico, afastando o hábito: “Erguendo uma ponta do pesado véu do hábito, - hábito embrutecedor que, durante toda a nossa vida, sob sua etiqueta inalterada, substitui os mais perigosos e inebriantes venenos da vida por algo de anódino, não nos confere delícias”.

            Mas essa busca não constitui uma tarefa de fácil execução, e ele a situa na relação amorosa com Albertine, ele que tanto se habituara a tê-la junto a si, e de súbito, via um novo rosto do Hábito: “Até aqui, considerava-o um poder aniquilador que suprime a originalidade e até mesmo a consciência das percepções; agora, via-o como uma divindade temível, tão presa a nós, seu rosto insignificante tão incrustado em nosso coração, que, ao se afastar ou desviar de nós, esse deus que quase não distinguimos, nos impõe tormentos mais terríveis que quaisquer outros, mostrando-se tão cruel como a morte.”

  • Senhor Proust, a quebra do hábito geralmente conduz o Narrador a um estado de angústia, e, em decorrência, na busca por calmantes .

             A angústia cria seus próprios rebentos. A partir de uma certa idade, os nossos amores e nossas amantes são filhos da nossa angústia; nosso passado e as lesões físicas em que ele está inscrito determinam o nosso futuro. É verdade que às vezes somos defrontados com os venenos e contra-venenos, que no fundo, estão em nossos labirintos cerebrais.  A forma caótica com que se constrói o universo psicopatológico obriga que o ato desastrado, o ato que acima de tudo seria preciso evitar, seja justamente o ato calmante, o ato que, abrindo-nos outras perspectivas de esperança até que lhes saibamos o resultado,  desembarace-nos  momentaneamente da dor intolerável que a recusa faz nascer em nós.

            Alguns medicamentos, como a morfina, são astuciosos por natureza. Não é àqueles a quem dão o prazer do sono  ou o verdeiro bem-estar, que produtos como a morfina ou a cocaína são absolutamente indispensáveis; essas pessoas não os comprariam a preço de ouro, nem os trocariam por tudo quanto possuem. Outros doentes é que o fariam (aliás talvez os mesmos, há alguns anos de distância, transformados em outros seres), outros a quem a droga não faria dormir, a quem  ela não provocaria nenhuma volúpia, mas que, não a tomando, cairiam numa agitação que desejariam fazer parar a todo o custo, mesmo às custas do suicídio.

  • O mais poderoso antídoto contra a infelicidade, talvez seja o esquecimento. O senhor diz que é como se possuíssemos certos “eus” de reserva a substituir aquele que foi terrivelmente contaminado pelo sofrer.

            Existem  nossos “eus” de reserva, soldados disciplinados e prontos para seguir ao front de combate, acalentando-nos, socorrendo-nos e, de certo modo, preparando-nos para  nossas novas ilusões. Com o esquecimento, obtem-se uma supressão quase completa do sofrimento, uma possibilidade de bem-estar, e isso Marcel ficava devendo a um ser temível, tão benfazejo e que não era outro senão um dos seus “eus” de reserva, que o destino mantém de prontidão e que sem ouvir os nossos rogos, ao jeito de um médico esclarecido e por isso mesmo autoritário, substitui contra nossa vontade, através de uma intervenção oportuna, o nosso antigo eu, na verdade muito ferido. Esta substituição por outro de nós é realizada de tempos em tempos mas à qual só prestamos atenção se nosso antigo eu carregava uma grande dor, que nos surpreendemos de não encontrar mais, pois nos transformamos em uma outra criatura para a qual, o sofrimento da predecessora não passa de sofrimento de outrem, da qual poderá falar com piedade, pois não o sente mais.

            Em meu romance Marcel, após a separação de Albertine, relata o momento em que se deu conta de que o esquecimento cumprira o seu papel de contra-veneno, uma impressão do vazio, da supressão em si de toda uma porção de ideias, talvez sentida por um homem de quem rebenta uma artéria cerebral já gasta há muito tempo, e no qual toda uma parte da memória é abolida ou fica paralisada. Neste momento ele se conscientiza de que já não a amava mais.

  • Somos muitas vezes assaltados pela sensação da felicidade perdida, aquela que poderíamos ter sentido no passado, a que chega quando já não a podemos desfrutar, quando já não resta amor.

            Só há uma pessoa capaz de resolver essa questão, a da felicidade cuja falta tanto nos fez sofrer outrora:  nosso eu daquele tempo; mas esse já não existe, e bastaria, sem dúvida, que voltasse, para que a felicidade, idêntica ou não, se desvanecesse. Somos incapazes de ressuscitar a nós mesmo, de ressuscitar o eu de antigamente. A vida, segundo seu hábito, que consiste em trabalhos incessantes e infinitamente pequenos para mudar a face da terra, não dissera a Marcel no dia seguinte à morte de Albertine: “És outra pessoa”, mas através de mudanças demasiado imperceptíveis para que ele se desse conta, renovara quase tudo em sua psiquê, de modo que o seu pensamento já  estava habituado ao seu novo senhor.

             Com relação ainda às separações amorosas, possuímos um duplo medo das mesmas; não se trata somente desse medo de um  futuro em que já não nos seja dado ver e falar aos entes queridos, cujo convívio constitui hoje a nossa mais íntima alegria. Esse receio ainda aumenta quando pensamos que à dor de tal separação, virá juntar-se outra coisa que hoje nos parece mais terrível ainda: é que não a sentiremos como dor, e nos deixará indiferentes; pois então o nosso eu terá mudado e esqueceremos não só o encanto de nossos pais, de nossa amada, de nossos amigos, mas também o afeto que lhes tínhamos; e esse afeto que hoje constitui parte importantíssima de nosso coração, se desenraizará tão perfeitamente que poderemos folgar com uma vida que agora, só de a imaginar, nos horroriza; será pois uma verdadeira morte de nós mesmos, morte após a qual virá uma ressurreição, mas  já  de um ser diferente e que não pode inspirar afeto a essa partes de nossos “eus” antigos, condenados à morte.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

  • Entrelaçando as múltiplas facetas que apresentam seus personagens, a mentira constitui quase como um sistema de relacionamento entre elas. Talvez com excessão da avó e da mãe de Marcel, todos mentem, inclusive o Narrador. Mentem em suas relações sociais, nos relacionamentos afetivos, mentem muito, inclusive para si mesmos.

            A mentira é essencial à humanidade. Ela desempenha entre os homens um papel tão grande talvez como a busca do prazer e , além do mais, é comandada por essa busca. As pessoas mentem para proteger seu prazer ou sua honra. Na verdade, mentimos a vida inteira, e até, principalmente, às pessoas que nos amam. De fato são essas mesmas que nos fazem recear pelo nosso prazer e desejar sua estima. A mentira é uma deusa onipresente: expraia-se em relação às pessoas que conhecemos, expande-se sobre as relações que tivemos com elas, desdobra-se sobre o nosso motivo em determinada ação e que foi formulado por nós de modo inteiramento diverso; a mentira esfuma-se sobre o que somos, sobre o que amamos, sobre o que sentimos em relação à criatura que nos ama e que julga ter-nos modelado à sua semelhança somente porque nos beija o dia inteiro. No entanto, é essa formulação, a mentira, uma das poucas coisas do mundo que nos pode abrir perspectivas para o desconhecido, que pode acordar em nós sentidos adormecidos para a contemplação de universos que jamais teríamos conhecido apenas e tão somente no campo da verdade.

            De qualquer forma cumpre sempre levar em conta aquele a quem mais mentimos, porque é aquele por quem nos seria mais penoso ser desprezados- pois mentimos  para nós mesmos! Mais ainda que aos outros, somos o maior mentiroso de nós mesmos. E é de tanto mentir ao próximo e a si mesmo que a gente deixa em determinado momento de perceber até mesmo que mente.

            Talvez por isso se explique a profunda repulsa que nos inspiram, mais ainda que os seres inteiramente opostos a nós, os que se assemelham a  nós  para pior, nos quais se mostra o que temos de menos bom, os defeitos de que não nos curamos, lembrando desagradavelmente o que poderíamos ter parecido antes de nos tornarmos o que somos.

            E mesmo quando se tem a ousadia de proclamar uma verdade, fazemo-la muitas vezes acompanhar de uma boa proporção de algumas mentiras que a adulterem. E, saiba, meu caro, essa prática é mais disseminada do que se possa crer. Em verdade, lembramo-nos unicamente da verdade porque ela tem um nome, tem raízes antigas, já uma mentira, se ela é improvisada e a maior parte o é, esquece-se depressa.

  • Ademais da mentira, existe também uma enorme distância entre o que se diz e aquilo que realmente se pratica. Costuma-se dizer que a hipocrisia é uma homenagem que o mal faz para o bem, ou o vício à virtude.

            Talvez devêssemos imaginar a existência de dois mundos, um diante do outro, e que um deles é constituído pelas coisas que dizem as melhores pessoas, mesmo as que se pretendem as mais sinceras, e, por trás dele, o mundo composto pela sucessão do que essas mesmas pessoas fazem. Poderíamos chamá-las hipócritas se tiverem consciência de seus atos.

            Temos também o hábito de separar a “moralidade falada” de toda uma série de ações, o que ocorre diuturnamente em muitas funções, por vezes a de juiz, outras vezes a de estadista e este é um hábito tão antigo quanto hipócrita.

  •  Nas relações sentimentais que transcorrem em seu romance, a mentira leva ao ciúme e o ciúme incrementa o desejo de posse e este, por sua vez, potencializa a mentira e a hipocrisia, de tal modo que constituem, mentira e ciúme, as duas faces de uma mesma moeda.

            Toda relação amorosa experimentada pelo Narrador é eivada de mentira, ciúmes e tentativas de posse do ser amado. Já em “Um Amor de Swann”, toda a patologia ciúme- mentira- posse- desencanto é descrita com todo o critério de um patologista empunhando um microscópio. Marcel diz que se o ciúme nos ajuda a descobrir certo pendor para a mentira na mulher que amamos, ele centuplica esse pendor quando a mulher descobre que somos ciumentos. Ela mente ou por pena ou por medo, ou se furta instintivamente às nossas investigações, fugindo. Quando a posse se nutre do ciúme, a mentira tornar-se inexorável, mesmo quando já nada haja a esconder. 

  • Seus personagens possuem, sempre no amor-próprio, o seu calcanhar-de-aquiles. O sr. de Charlus que jamais admite ser contrariado, muito menos confrontado; tia Leonie e seu despotismo na manutenção de sua mórbida rotina; Brichot com seus conhecimentos filosóficos incontestáveis, Cottard com seu “domínio” quase que absoluto sobre as doenças e seus pacientes ... enfim, quase  todos demonstram amor-próprio exacerbado. O Narrador, o personagem central de toda a trama, entretanto, confessa desde o princípio, uma “ausência” de amor-próprio e uma baixa auto-estima. Eles são intrinsecamente egoístas, um estigma do qual nem mesmo Marcel escapa, pese a sua baixa autoestima. Em decorrência, quase todos os seus personagens estão prontos a atitudes mesquinhas e más.

            “Graças ao egocentrismo, qualquer ser humano vê o universo estendido aos seus pés e a si mesmo como rei.”  Este é um pensamento expresso por Marcel. Pois não se trata apenas das personagens de um romance. Os filósofos antigos contrapunham Narciso a Eros, o egocentrismo ao amor como salvação. Que também no amor que sentimos, tal qual Ecco que responde a um Narciso, é um reflexo do ser que amamos dentro de nós mesmos. O ser humano portanto é, na sua essência, egoísta. A tagarelice social da qual todos meus personagens participam é o contraponto do profundo isolamento daqueles que se precipitam no abismo dessa solidão e de seu egoísmo.

            Socialmente os egoístas têm sempre a última palavra; por exemplo, tendo colocado em primeiro lugar que determinada resolução é inabalável, quanto mais tocante é o sentimento para o qual lhes apelam com o fim de que renunciem a tal resolução, tanto mais condenáveis julgam, não a si próprios, mas aqueles que os põem diante da necessidade de resistir, àquela resolução injusta;  de modo que a própria dureza do seu autor pode chegar à mais extrema crueldade. São aqueles nos quais o espírito de vingança faz parte da vida e os abandona quase sempre à beira da morte.

      Mas falemos sobre Marcel. Ele confessa que  não tinha lá muita consciência disso mas que essa ausência de amor-próprio vinha acompanhada também da falta de rancor. A cólera e a maldade não lhe vinham ao espírito senão de maneira totalmente diversa, por crises furiosas. Ademais,  o sentimento de justiça lhe era desconhecido até a completa ausência de senso moral, pois “tornamo-nos morais quando somos infelizes”. E quando se tratava de julgar,  o sentido de justiça se distorcia e, “no fundo do meu coração eu era inteiramente julgado por aquele que me parecia o mais fraco e  infeliz”.

            Acontece que uma baixa autoestima nos faz temerosos de desagradar às pessoas. Agradá-las, buscar a arte de ser prestimoso, atencioso com todos, estar sempre grato, até mesmo por favores banais, este sempre foi um cuidado extremado de nosso Narrador. Certamente ignoramos a sensibilidade particular de cada criatura, mas de hábito não sabemos sequer que a ignoramos, pois essa sensibilidade nos outros nos é indiferente. Acredito, no entanto, que o perigo de desagradar provenha principalmente da dificuldade em avaliar as coisas que se notam e quais as que não são, mas poderão ser notadas.

            Com o decorrer dos anos, entretanto, o Narrador descobre que possuía no fundo de sua alma uma espécie de amor-próprio, mesmo que ele nada tivesse que ver com a vaidade e o orgulho. “E assim acontecia que eu, o homem menos bravo do mundo, vinha a conhecer essa coisa que, nos momentos de puro raciocínio, se me afigurava tão inconcebível e estranha a meu modo de ser. E no momento em que surge o perigo, ainda que seja mortal e que me ache num estágio de vida tranquilo e feliz, se estou com outra pessoa, não posso deixar de colocá-la a salvo e tomar para mim o lugar do perigo. Quando um número de experiências comprovou que sempre agi assim, descobri muito envergonhado que, ao contrário do que julgara e afirmara, eu era muito sensível à opinião alheia”.

  • Ao lado do egoísmo de seus personagens, em alguns predomina um forte componente invejoso, muitas vezes mesclado à ingratidão.Os Verdurins e os frequentadores dos salões de Odette Swann, que não possuem acesso aos salões dos Guermantes, fingindo desprezo, somente explicitam a inveja que sentem dos aristocratas; Legradin e Block são seres de enorme potência invejosa. Revendo a maior parte de  seus personagens, creio que somente a mãe e a  avó, o Narrador,Swann  e de Charlus não demonstram que a inveja seja um componente fundamental  da estrutura de suas psiquês.

            Eu acrescentaria a esse grupo Robert de Saint-Loup. Isto porque os mundanos, com poucas exceções, são seres egoístas e de enorme volúpia invejosa. Os personagens que você cita como exceções possuem méritos pessoais ou amor-próprio que lhes asseguram doses de felicidade necessária durante parcelas de suas vidas, servindo-lhes como antídoto contra certa dose de inveja. A inveja não se associa a classes sociais, a raças, à cultura. Ela é intrínseca a determinados espíritos, que infelizmente, perfazem a maioria dos homens.

            O Narrador, em determinado momento, correlaciona inveja com amor-próprio: “ Como muito pouca gente pode ter altas amizades e profunda cultura, acontece que, por benéfico milagre do amor-próprio, as pessoas que carecem de tais coisas se consideram as mais favorecidas, pois o prisma das escalas sociais faz supor a todos que a melhor posição é a que eles ocupam, de sorte que se consideram muito menos favorecidos, menos aquinhoados e mais dignos de compaixão os seres em situação superior, e a quem nomeiam e caluniam sem conhecer e julgam e desprezam sem os ter compreendido. E ainda nos casos em que a multiplicação dos poucos méritos pessoais que se tenha por amor-próprio não baste para assegurar a cada uma dose de felicidade superior à concedida aos demais, há uma coisa para preencher a diferença: a inveja”.        

            O ser humano quando não retribui um favor ou um benefício recebido ele se rebaixa. Na verdade, é inacreditável pensar que um ser humano possa não compreender que, permitindo-se sorrir de um semelhante que lhe estendeu lealmente a mão, está se degradando até um lamaçal de onde não será mais possível, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, ser reerguido.

            Quando se detesta alguém, não queremos parecer bons para  que não tenham pena de nós, desejamos parecer ao mesmo tempo cruéis e felizes para que a nossa felicidade seja verdadeiramente odiosa e ulcere a alma de nosso inimigo ocasional ou duradouro. Mas o que se deveria fazer era seguir o caminho inverso, mostrar sem soberba que temos bons sentimentos, em vez de os esconder tanto. O que seria fácil se soubéssemos não odiar nunca, amar sempre. Pois então seríamos tão felizes de só dizer as coisas que podem dar alegria aos outros, e, enternecendo-os, fazê-los nos amar.

            Falemos um pouco sobre a outra patologia da alma. Marcel já observara em Gilberte adolescente indícios de ingratidão, quando no aniversário da morte de seu avô nenhum tipo de tristeza demonstrara, muito pelo contrário, buscara a diversão mundana. Agora sigamos a narrativa de Marcel: “quanto à Srta. de Forcheville, eu não podia evitar pensar nela com mágoa. O quê? Filha de Swann, que tanto teria gostado de vê-la em casa dos Guermantes , justamente estes que haviam recusado a seu grande amigo o prazer de recebê-la, e depois a tinham procurado espontaneamente, pois o tempo havia passado, o tempo que para nós renova tudo, e insufla uma nova personalidade às pessoas que há muito tempo não víamos, até em nós mesmos que mudamos de pele e adquirimos novos gostos. Mas quando Swann apertando a filha nos braços e beijando-a dizia: É bom, queridinha, ter uma filha como tu; um dia, quando eu já não estiver mais aqui, se falarem ainda de teu pobre pai, será apenas contigo e por tua causa.”

            Swann, depositando assim na filha, para após a sua morte, uma tímida e ansiosa esperança de sobrevivência, enganava-se tanto quanto o velho banqueiro que, tendo feito um testamento para uma dançarina, a quem mantém e que ostenta uma aparência muito digna, diz consigo que para ela é apenas um grande amigo, mas que ela permanecerá fiel a sua memória...As ilusões do amor paterno não são menores que o outro; muitas filhas só consideram o pai como o velho que deixou uma fortuna.           

Misantropia e neurastenia

  • A misantropia, de acordo com a ciência, constitui um tipo de doença dos nervos. “Em Busca do Tempo Perdido” é entremeado de personagens que buscam propositadamente isolarem-se em certas fases de sua existência: alguns como Marcel,  Elstir, Bergotte e, de certa forma, Vinteuil, são personagens que se isolam para buscar a dualidade do diálogo ”do eu comigo mesmo”, o diálogo socrático “dois-em-um”, indispensável na criação artística ou no raciocínio filosófico; outros têm um comportamento misantrópico fruto de doenças nervosas ou “heranças comportamentais”. Por exemplo, a tia Leonie, após a morte de seu marido Octave,  enclausura-se em seu dormitório. Teremos também o surpreendente isolamento voluntário a que Gilberte se submete, após ser aceita e frequentar toda alta sociedade, que era tudo o que pretendia. Charlus, o símbolo do mundanismo aristocrático, enclausura-se após ser injustamente escorraçado por Morel, a quem tanto amara.

            Os neurastênicos oferecem-nos, sem qualquer mudança de curso de muitos anos, o espetáculo de hábitos esquisitos, dos quais  se acham em vias de se libertar mas que conservam sempre; presos na engrenagem de suas indisposições e manias, os esforços em que se debatem inutilmente para se livrar só fazem assegurar o funcionamento e acionar o gatilho de sua dieta estranha, irresistível e funesta. O exemplo de tia Leonie, após a morte de seu marido Octave, como misantropa, transforma todo o seu mundo nos dois quartos em que vivia isolada na própria casa. Uma vez no quarto, era preciso fechar todas as saídas, trancar os póstigos, cavar o seu próprio túmulo enquanto desfazia as cobertas, vestir o sudário da própria camisola de dormir, cada vez que saía de sua poltrona localizada de frente para a janela, para deitar-se em sua cama.

            Os neuropatas são talvez os que menos “se escutam”: ouvem em si mesmos tantas coisas que logo compreendem não ser motivo para alarmas, e então, acabam por não mais prestar atenção a nenhuma outra fala. Eis por que o egocentrismo dos “nervosos” cresce com a sua sensibilidade; não podem suportar, da parte dos outros, a exibição dos incômodos que cada vez mais os preocupam em si próprios. Os nervosos, irritados por qualquer coisa contra inimigos imaginários e inofensivos,  tornam-se  ao contrário inofensivos quando alguém toma a ofensiva contra eles, e é mais fácil acalmá-los jogando-lhes água fria à cara do que tentando demonstrar-lhes a insanidade de suas queixas.

            O senhor de Charlus é um homem cujas doenças nervosas somente fazem se agudizar com o passar do tempo. Marcel acrescenta que não se pode imaginar o quanto o sr. de Charlus poderia ser insuportável, esmiuçador, justamente ele que era tão fino, em todas as  ocasiões em que entravam em jogo os defeitos de seu próprio caráter. Poder-se-ia dizer que esses males são como uma doença intermitente do espírito. Quem não terá observado este fato em mulheres, e mesmo em homens, dotados de inteligência notável, mas afetados de nervosismo? Quantos aparentam que são felizes, calmos, satisfeitos com o ambiente, fazem admirar seus dons preciosos, e basta uma dor de cabeça, uma pequena picada no amor-próprio , e já é mais que o suficiente para alterar tudo. A luminosa inteligência, brusca, convulsiva e retraída, já não reflete senão um eu irritado, caprichoso, que faz todo o possível para desagradar. Aliás, tanto no padre, como no alienista, há sempre um Juiz de Instrução.

            Quando um neurótico é ainda por cima deprimido, ele muitas vezes  busca alívio no uso de drogas. A morfina já foi a rainha dentre elas, preferida  pelas mulheres, diga-se de passagem. Hoje prefere-se a cocaína, que até poucos anos atrás era comercializada como “Elixir Mariani”, um tônico para os nervos. No meu livro, alguns personagens neuróticos são viciados em drogas. Por exemplo, o professor da Sorbonne Brichot, viciado em morfina.

            Por outro lado, o isolamento de Gilberte possui uma essência diversa das anteriores, ligada a seu “guenos”paterno. Mesmo antes da morte de seu marido Robert, quando decide morar no interior, em Tansoville, ela já punha em prática as palavras de Swann: “a qualidade me importa pouco, mas eu temo a quantidade.” De tal modo que os mortos sobrevivem através dos vivos. Ela e o marido  possuiam os mais belos cavalos para montarem juntos, mas o faziam a sós; haviam adquirido o mais belo iate para viajarem - mas, quando muito, levavam dois convidados consigo. Quando em Paris, tinham todas as noites três ou quatro amigos para jantar, não mais. Por uma regressão imprevista, mas natural, cada um dos imensos salões das mães- Odette e sra. de Marsantes- fora substituido por um ninho silencioso onde se abrigava o casal com poucos amigos. Marcel comenta a esse respeito: “Gilberte pôs-se a ostentar desprezo por tudo o que sempre desejara, deixou de frequentar as pessoas. Talvez porque se desdenhe de bom grado um objetivo que não se pode atingir, ou que já se atingiu definitivamente. Ou teria sido o espírito de Swann a influenciá-la, juntamente com os gens da avareza de raiz judaica?”

            Difrentes são os motivos do isolamento voluntário a que se submete Elstir, quando, afinal, procura viver o próprio ato criativo. Elstir,  na falta de companhia suportável, vivia no isolamento, numa pequena casa distante do centro de Balbec. Seu comportamento de misantropo era visto como uma selvageria que a gente da sociedade chamava má educação; os poderes públicos denominavam de ausência de espírito cooperativo; seus vizinhos chamavam de loucura; finalmente, sua própria família, de egoísmo e orgulho.

            O que repetir-se-á com Marcel, que, em determinado momento, graças aos lampejos da memória involuntária, busca no isolamento do mundanismo a vivência da vida dedicada à criação de uma obra de arte. Assim como Elstir, deixou de frequentar as reuniões mundanas e até mesmo de rever os amigos. Ele possuia a coragem de dizer aos que viessem fazer-lhe uma visita ou um  convite, que, infelizmente, não estaria disponível, pois tinha um encontro urgente, fundamental, e esse encontro era consigo mesmo. As relações existentes entre o Marcel de verdade e seus “outros eus”, levam-no a sacrificar os deveres mais fáceis , e até os divertimentos, o que também parecerá aos amigos, uma forma de egoísmo. Não compreendiam que estar só para pensar, rememorar, dar asas aos instintos criativos, não significa um rompimento com o mundo, mas tão somente um intervalo para estar-se próximo da própria existência.

            E bem longe de se sentir infeliz por semelhante vida sem amigos, sem conversações, como ocorreu com os mais notáveis homens, Marcel percebia que as forças da exaltação despendidas na amizade são uma espécie de porta falsa, tendo em mira uma amizade particular que não levam a nada, e se desviam de uma verdade para a qual os amigos seriam incapazes de nos conduzir.

            Bergotte transforma-se em um mundano e constante frequentador do salão de Odette, mas esta abertura ao mundanismo social só ocorre após haver ultrapassado sua fase mais prolífica como escritor, quando, na velhice nada mais tinha a dizer, pois o velho escritor vivia da fama de seus escritos do passado. Quando perguntado por Marcel como chegara a escrever com tanto espírito, confessa-lhe que por anos e anos vivera recolhido em seu isolamento, a ler e gerar suas criações.

  • Senhor Proust, vemos que, socialmente, o uso de drogas muitas vezes está associado aos compartamentos psicopatológicos como as neurastenias e o senhor explora essa questão sob o prisma do Tempo.             

            Em relação à passagem do Tempo, as doenças nervosas tanto quanto o uso de drogas, alteram as medidas cronológicas, acelerando-as. Um exemplo que nos é dado pelo Narrador é a Srta. de Saint-Fiacre, portadora de traços esculturais, de uma beleza talhada no mais precioso mármore,  que pareciam assegurar-lhe uma juventude eterna. Mas Marcel não pode reconhecê-la ao se deparar, alguns anos após, com uma dama de feições tão desfeitas que não era possível recompor-lhe as linhas do rosto. É que há três anos ela  estava tomando cocaína e outras drogas. Seus olhos, profundamente orlados de negro, eram quase selvagens. A boca apresentava estranho esgar. Disseram-lhe que se levantara só para aquela vesperal, onde Marcel a encontrara, tendo estado de cama ou na espreguiçadeira durante meses.

            Assim o Tempo dispõe de trens expressos e especiais, que levam rapidamente a uma velhice prematura. Uma outra personagem, a sra. de Citri, que tinha de resto enorme necessidade de auto-destruição, depois de ter mais ou menos renunciado à sociedade, os prazeres que então buscou na bebida e na cocaína trouxeram um após outro o terrível papel dissolvente de sua personalidade. Parecia totalmente alienada, muito mais envelhecida e com enormes olheiras  rodeando seu olhar fixo de louca. 

  • Caminhemos até o Dr. Boulbon, especialista em doenças nervosas.  Deixando de lado o seu erro de diagnóstico e de terapêutica, ele que prescreve “palavras” à doente cardíaca e urêmica, diz aà enferma:  “Permita que a considerem nervosa. A senhora pertence a essa família magnífica e lastimável que é o sal da terra. Tudo o que sabemos de grandioso nos vem dos nervosos. Foram eles e não outros que fundaram as religiões e compuseram obras primas. O mundo jamais saberá tudo o que lhes deve , e , principalmente,  o que eles sofreram para lhe dar o que deram”.

            A sociedade, a ciência, a filosofia e, principalmente, a arte, devem muitíssimo àqueles que, por um motivo ou outro, destoam do que os reacionários denominam de normalidade. Uma “normalidade” que não existe, pois cada ser humano somente pode ser “normal” em relação a ele mesmo. Deve-se tanto aos neuropatas como aos homossexuais, assim como a todos aqueles que encerram desde o berço um conflito íntimo... Desfrutamos das mais finas músicas, dos belos quadros, mil delicadezas, mas não sabemos o quanto essas obras custaram aos que as inventaram em insônias, choros, risos espasmódicos, urticárias, asmas, epilepsias, numa angústia de morrer que, talvez seja pior que tudo isto. Posso dizer-lhe que sem doença nervosa não há um grande artista; mas, digo-lhe mais, não há um grande sábio.

            Mas não há de confundir esses conflitos íntimos com as manias em geral. Marcel afirma que, geralmente,  as ações brilhantes  só se praticam de maneira intempestiva. Mas as vidas insensatas, em que o próprio maníaco se priva de todos os prazeres e se inflige os maiores males, essas vidas são as que menos mudam. Bastaria um movimentozinho de energia, um dia apenas, para mudar tudo isto uma vez por todas. Mas justamente essas vidas  são habitualmente o apanágio de seres incapazes de energia e os vícios são outro aspecto dessas existências monótonas que a força de vontade bastaria para torná-las menos atrozes. O Dr. Boulbon declara-se um maníaco, que não consegue dormir sem levantar-se mais de vinte vezes para verificar se a porta da casa está fechada e confessa que passa as suas férias em um manicômio como forma de tratar-se dos “males adquiridos ao tratar seus pacientes”.

            Entretanto, tome nota, André, que aqueles que nunca foram até o extremo do desespero não podem compreender os outros. Só a dor, o sofrimento, tornam o espírito mais arguto, aumentando-lhe o poder de análise de si mesmo e dos outros espíritos.