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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo IV- A Vida e a Morte



  • Sr. Proust, o Narrador na maturidade tem a  memória involuntária  despertada pelo biscoito molhado no chá, que lhe é servido na biblioteca do palácio de Guermantes; afluem à memória sensações e afetos do seu passado; Combray contendo a imagem de familiares queridos, sempre a protegerem o seu universo, num panorama em que realidade, sonho e magia se conectam num tempo rememorado. Assim principia ou, talvez, finalize a sua narrativa, conectando não somente presente e passado presentificado, mas questões tão essenciais como a vida, o amadurecer e o caminho inexorável para a morte.

            Combray concentra o princípio de uma vida rememorada e imaginada, assim como a sua própria consecução. Ela é um ponto de partida que, se quisermos, pode ter a imensidão de um país, de um continente ou do próprio mundo. Todos os homens, André, queiramos ou não, vivemos do passado num presente, possuimos cada um nossa Combray no fundo de nossa memória, e temos a infância com tantos e tantos sentimentos sepultados sob cinzas, mas sobre as quais ainda pode soprar um ar revificador no presente. Marcel amou com toda a ternura o mundo mágico de seus primeiros anos, tanto que conservou, por muito tempo, por sentir-se fraco e asmático, a esperança de jamais abandonar aquele tão protegido recanto familiar. Confessa que seus pais e avós apercebiam-se disso, tanto que diz: “Eles me amavam o bastante para não consentir que algum sofrimento me fosse poupado, pois desejavam que eu aprendesse a dominá-lo a fim de diminuir a minha sensibilidade nervosa e fortalecer a minha vontade”. Eles conheciam a alma sensível e “nervosa”, tão parecida com a de sua mãe.

  • Diversos elementos contriburão decisivamente para o desenvolvimento cultural de Marcel, assim como servirão de estímulo para que ele se volte, quando adulto, às questões do espírito e possa, graças a sua enorme sensibilidade e predestinação, realizar uma obra de arte.

            Sim, o ambiente era muito propício. Tanto a avó materna quanto a mãe do Narrador eram pessoas cultas e leitoras infatigáveis dos clássicos. Adornavam e enriqueciam suas conversações com citações de Racine, Montaigne e da Madame de Sévigné. A mãe possuia cadernos de anotações que jamais mostrava a ninguém, possivelmente por modéstia extrema ou excesso de decoro, onde anotava com sua caligrafia fina e inclinada as frases que mais lhe interessavam nos livros. Existiam dezenas destes cadernos “secretos”. Aliás foi dela que apreendi, ou melhor, Marcel aprendeu essa prática de colecionar “cadernos”. 

             Quando menino Marcel era sempre presenteado, o que constituía uma forma de demonstração de amor e carinho, mas estes regalos jamais eram comuns, pelo menos aqueles que lhe eram ofertados pela mãe e pela avó: “Minha avó, na realidade, nunca se resignava a comprar nada do qual não se tirasse um proveito intelectual e sobretudo o que nos proporcionam o belo, ensinando-nos a buscar o nosso prazer em outro ponto que não nas satisfações do bem-estar e da vaidade. Quando não eram livros e se tinha que dar-me um presente dito ‘útil’, procurava os antigos, tendo o seu longo uso apagado todo o caráter de utilidade que pudessem um dia terem tido”. Presenteava-o com aqueles velhos objetos que exercem sobre o espírito uma influência benéfica, dando-lhe a nostalgia de impossíveis viagens no tempo.

            Quando, entretanto, rompida a magia da infância por força da natureza, Marcel foi obrigado a conviver e lutar com os homens, acreditou poder apaziguá-los à força da doçura, da cordialidade, prestando-lhes favores, tentando reproduzir a infância vivida em Combray, pois, como disse Molière, cada um apanha o seu ouro onde ele está. Com o correr do tempo e da vida, entretanto, após conhecer as vicissitudes do que é viver e o poder demolidor das paixões, Marcel foi vendo derreter sua doçura, tornando-se mais duro, possessivo e, muitas vezes, cruel.

  • Sempre que  releio seu livro defronto-me com a dificuldade que  coloquei na introdução aos “Personagens”: não consigo estabelecer com algum nível de precisão a idade dos mesmos, e , muito menos, a de Marcel e Gilberte quando iniciam seus “folguedos”; são ainda cianças ou já adolescentes próximos a se transformarem em adultos? As moças que o Narrador encontrará em Balbec parecem-me a um só tempo, ingênuas e levianas, inexperientes e vividas.

            Caro, André, afinal, o que é a adolescência? quando termina? quando se transforma em juventude? Essas fases da vida são sempre repletas de ambiguidades e disfarces. Quando é mesmo que nos metamorfoseamos em adultos? Como o Narrador, nas suas narrativas revividas pode situar o momento dessas mudanças, assim como as dele próprio?

            De toda forma, Marcel, apesar de julgar a adolescência de de algum modo ridícula, sabia que ela era uma idade nada ingrata e sim muito fecunda, pois é quando não se consulta a inteligência, sente-se e reage-se conforme os sentidos; os mínimos atributos dos humanos parecem que fazem parte indizível de sua personalidade. A tranquilidade é desconhecida, pois estamos sempre cercados de deuses e monstros. E quase todos os gestos que então fazemos, desejaríamos tê-los suprimido depois. Quando, ao contrário, o que se deveria lamentar era não mais termos aquela espontaneidade que o Tempo nos inspirava. Com o tempo, a vida é vista de modo mais prático, em conformidade com o resto da sociedade; de qualquer forma a adolescência é a única época em que se aprende alguma coisa.

            É tão curta essa radiosa manhã, em que também o sexo é descoberto, que a gente acaba por não gostar senão das rapariguinhas muito jovens, aquelas cujas carnes se acham ainda em elaboração. Parece que cada uma é sucessivamente a estatueta de alegria, da seriedade juvenil, da graça, do espanto, modelada por uma expressão franca, inteira, mas fugaz. Verdade é que esses atributos serão também indispensáveis na mulher feita, e que uma mulher que não nos agrade, assume tediosamente uma aparência muito uniforme.

            Nesta fase gloriosa da vida, Marcel sentia a sensualidade se espalhando por todos os recantos de sua imaginação, o que fazia com que seu desejo não tivesse limites. A verdade é que durante muito tempo ainda permaneceria nesta idade em que não abstraímos o gozo da posse de diferentes mulheres que no-lo ofertam. Nós mal pensamos nele como um prazer a obter, pois não pensamos em nós e sim em sair de nós.           

  • Senhor Proust, tal qual o Narrador, sua infância e juventude também foram cercadas pelos desvelos de sua mãe. Se o senhor concordar em conversarmos um pouco sobre o Marcel Proust,  gostaria que, passados mais de trinta anos, comentássemos dois questionários - o que era de certa forma um hábito entre as pessoas educadas e amigas daquela época –aos quais o senhor respondeu. Reproduzo algumas perguntas e respostas dadas, primeiramente aquele dos treze anos.

            a. Seu ideal de felicidade terrena: ” Viver ao lado de quem amo e gozar os encantos da natureza, assim como alguns livros e partituras e não morar muito distante de um teatro francês”.

            b.Que heróis de novela prefere?”Os heróis românticos e poéticos, aqueles que representam mais um ideal que um modelo”.

            c. Qual seu personagem histórico favorito? “Um termo médio entre Sócrates, Péricles, Mahomé, Musset, Plínio o Jovem e Augustin Thierry.

            d. Suas heroínas favoritas na vida real.“Qualquer mulher genial que leve a existência de uma mulher comum”

            e. Suas heroínas de ficção? “Aquelas que são mais que mulheres, mas sem abdicar de sua feminilidade; tudo quanto é puro, terno, poético e belo em todos os sentidos”.

            f. Pintor, músico favoritos. “Meissonier, Mozart”

            g. Ocupação favorita. “Ler, sonhar e os versos”.

            h. Qual o seu pesadelo? “As pessoas que não sabem o que seja o bem, as pessoas que ignoram a doçura de um afeto”.

            Você esqueceu-se de incluir a primeira pergunta deste questionário, sobre o que seria para mim o máximo da infelicidade. Respondi que seria estar separado de minha mãe. Ainda hoje  eu lhe daria a mesma resposta; a minha maior infelicidade  foi a perda de minha mãe em 1905. Os filhos sempre manifestam tendência a depreciar ou a exaltar seus pais, e para um bom filho o seu pai será sempre o melhor dos pais, a mãe a melhor dentre todas, fora de todas as razões objetivas que tenha para admirá-los.

  • Quando Proust se torna um jovem, algumas das mesmas perguntas, no questionário realizado pela mesma pessoa,  recebem outras respostas. Vamos a algumas  delas?

            a.  A qualidade que mais admira em um homem? “Que possua encantos femininos”.

            b. Em uma mulher?“Virtudes masculinas e franca camaradagem”.

            c. Em que país desejaria viver? “Naquele em que certas coisas que eu gostaria se transformassem em realidade como por encanto...e onde as ternuras fossem sempre compartidas”.

            d. Como gostaria de ser? “Como as pessoas que admiro gostariam que eu fosse.”

            e. O que mais detesta? “O que existe de mal em mim”.

            f. Sua cor preferida? “A beleza não está nas cores, mas na sua harmonia”.        

            f. Seus autores favoritos. “Em prosa, Anatole France e Pierre Loti, em poesia, Baudelaire e Alfred Vigny”.

            g. Heróis e heroínas de ficção: “Hamlet, Fedra e Berenice.”

            g. Compositores favoritos: “Beethoven, Wagner, Shumann”.

            h. Pintores favoritos:“Da Vinci e Rembrandt”

            Novamente você se esqueceu de uma pergunta: Qual seria o meu estado de espírito naquele momento?  Eu lhe responderia que seria de aborrecimento por haver tido que pensar em mim quando dei tantas respostas.

            Antes de voltarmos a Marcel, posso lhe assegurar que jamais superei  esta urgência em estar rodeado de ternura e gentilezas, viver em um mundo menos áspero, menos competitivo, menos hipócrita e mais moral. Dentre as qualidade que mais admiro nos homens estão a delicadeza intelectual, a vontade de servir, a cordialidade, virtudes que se creem femininas. E nas mulheres, a determinação, a gana de lutar pelo que crê, que se dediquem à amizade com os homens, virtudes tidas como masculinas. É dentro deste prisma que minhas respostas ao questionário devem ser entendidas.

Maturidade e velhice

  • La Rochefoucauld dizia que nem o sol e nem a morte podem ser vistos de frente. Tão grande é a dificuldade do ser humano em aceitar que a morte seja parte da vida, quanto a de que a maturidade constitua já  o topo de uma escada, após a qual principia a inevitável decadência até inevitável final.

            Falemos primeiro do tal topo da escada, pois ao atingirmos a maturidade o Tempo desenvolve todo o seu poder de conduzir nossos corpos e nossos espíritos à decadência; acontece que demoramos para perceber isso e essa é a razão pela qual aceitamos  a decadência sem mesmo a notarmos, pois ela se instala sorrateira e lentamente. Quando, finalmente, a maturidade é conscientemente aceita,  tem como resultado tornar a maioria das pessoas menos exigentes no tocante àqueles com quem se resignam a conviver, menos exigentes quanto ao espírito como quanto ao resto. E tal negligência produz, entre outros resultados, o efeito de agravamento desta tendência, tão comum quando em certa idade, de considerar agradáveis as palavras que lisonjeiam o nosso modo de pensar e as nossas inclinações, animando-nos a segui-las; essa é a idade em que um grande artista prefere, ao convívio de espíritos originais, o de seus discípulos, que só têm em comum com ele a letra de sua doutrina, mas que o escutam e o incensam.

            Marcel sofre com um dos tributos à decadência, ou seja, o desaparecimento dos seres queridos, a destruição dos lugares onde sua infância, juventude e mocidade decorreram tão felizes. “A parede da escada, onde vi subir o reflexo de sua vela, há muito já não existe. Em mim, tantas coisas foram destruídas, coisas que eu julgava que fossem durar sempre, e se construíram novas, dando origem a penas e alegrias novas que eu não teria podido prever naquele então e que se tornaram difíceis de compreender”.

            É quando começamos a compreender o que é a velhice que, de todas as realidades, é talvez aquela de que guardamos na vida uma noção meramente abstrata, observando os calendários, datando nossas cartas, vendo os amigos se casarem, os filhos de nossos amigos, sem compreender por medo ou por preguiça exatamente o que significa tudo isto. Marcel compreendia, então, o que significava a morte, o amor, as alegrias do espírito, a utilidade da dor, a vocação, pois se os nomes haviam perdido a sua individualidade e as palavras não desvendavam todo o seu sentido, é pelo fato de que a beleza das imagens está situada por detrás das coisas, a das idéias, na frente. De modo que a primeira deixa de nos maravilhar quando atingimos essas, mas só compreendemos a segunda quando a ultrapassamos.

            Quando uma doença, um duelo, um cavalo arrebatado, nos fazem ver a morte de perto, somos sacudidos por sentimentos que poderíamos ter gozado imensamente a vida. E, uma vez que o perigo passa, o que descobrimos é a mesma vida morna onde nada disso existia para nós. Somente tarde demais aprendemos a “amar o que nunca será visto duas vezes”.

            Marcel tinha em seu tio Adolphe o protótipo do homem solteirão, já com idade mais ou menos avançada, extremamente rico, que absolutamente não aceitava a sua velhice. Para isso fazia-se rodear de artistas e cocotes, de preferência as mais belas de Paris. Marcel enxergava aquela vida como uma alternativa mundana recheada ao mesmo tempo de vacuidade e de felicidades momentâneas. Enfim, os homens se tornam velhos quando no dia de Ano-Novo deixam de desejar Boas-Festas, não por falta de educação, mas porque não acreditam mais no Ano-Novo.

  • Sem alterarmos o rumo de nossa conversação, ocorreu-me agora uma observação de Anatole France em que ele se refere a Marcel Proust como “o autor que sendo jovem é velho da velhice do mundo”.

             Um grande escritor só é ele mesmo quando deixa falar suas vozes interiores, que tão somente na solidão e no recolhimento se fazem ouvir. E isto requer tempo;  quem me dera me fosse dada uma parcela maior desta velhice do mundo para escrever minha obra. Enfim, essas minhas vozes interiores buscam ser as vozes do Tempo, meu escrever é sobre a psicologia do tempo, não de um tempo infinito, mas o tempo do homem, aí sim,  realmente,  tão velho quanto ele próprio o é, e, nesse sentido, tem razão Anatole France.

            Marcel, ao reencontrar-se nos curtos e ocasionais instantes de  atemporariedade a que  sua memória involuntária o conduzira, dizia que mesmo que a morte o ferisse naquele momento, isso lhe seria indiferente, ou antes impossível, pois a vida não estava fora, mas lhe pertencia, pois estava em si mesmo. E conclui: “ Ademais como seria isto possível, como poderia o mundo durar mais do que eu, já que eu não estava perdido nele, ele é que estava contido em mim, em mim que ele estava muito longe de encher, em mim, sentindo lugar para acumular tantos outros tesouros, eu lançava para um canto, desdenhosamente, céu, mar e rochedos”. Sim, isso talvez seja, realmente, possuir a velhice do mundo, que o sabe?

  • Voltemos a falar sobre as “metamorfoses” da velhice. O que restou, afinal, de toda aquela agitação, de toda aquela energia? Daquele moço cheio de vida, que buscava frequentar em Paris os salões da duquesa de Guermantes e em Balbec,  o castelo alugado pelos Verdurins?

            Nós jamais somos os mesmos no dia seguinte ao que passou; Marcel, quando finalmente inicia o seu trabalho em busca do tempo a ser reencontrado, já recluso, sente os efeitos da decadência de seu corpo, mesmo quando, excepcionalmente, voltava ao convívio social. Ele constatava que a partir de certo grau de enfraquecimento causado seja pela idade, ou pela doença, todo o prazer tomado à custa do sono, fora dos hábitos, toda desregramento tornava-se um fastio. O conversador até continua a falar por polidez, por excitação, mas sabe que já é passada a hora em que poderia adormecer, e sabe as censuras que dirigirá a si mesmo no decurso da insônia e da fadiga que se vão seguir. Aliás até mesmo o prazer momentâneo já se acabou, pois o corpo e o espírito estão muito desprovidos de suas forças para que possam acolher agradavelmente o que parece uma diversão ao nosso interlocutor. O aniquilamento da juventude, a destruição de uma pessoa cheia de força e agilidade já é um primeiro passo rumo ao nada.

            Do mesmo modo, nas relações amorosas com o passar do tempo, sob a crisálida de dores e carinhos, por algum tempo tornam-se invisíveis ao amante as piores  metamorfoses da criatura amada, o quanto o rosto amado teve tempo de envelhecer e mudar. Marcel se dá conta de que, após dez, doze anos, a moça que revia naquele momento tão balofa, que certamente envelhecera, da mesma forma como tinham envelhecido as mocinhas que ele amara,  seria por essa “nova mulher”, que ele deveria renunciar à deslumbrante jovem que consistia a recordação daquela de ontem? Para que tornar a vê-la, reconhecê-la?  Novamente o sonho se desvanece ao encontro com a realidade decadente. Por que perder a visão deliciosa de quem um dia fomos amantes, em troca daquela mulher envelhecida, gorda, de carne e osso que nos chega de um passado de formosura e gozos?

            Recordando esses encontros, refletimos que se quiséssemos reencontrar essas moças a quem no passado amamos com o mesmo prazer, seria preciso voltar também no tempo perdido. Pode-se às vezes encontrar de novo uma criatura, mas não abolir o tempo. Até o  dia imprevisto, e triste como uma noite, em que já não se procura essa jovem, nem a qualquer outra, e que só o fato de encontrá-la poderia chegar a assustar-nos. Pois já não nos sentimos com suficientes atrativos para agradar, nem com forças para amarmos. Não que a gente esteja impotente, e quanto a amar , amar-se-ia como nunca. Mas sente-se que é uma empresa demasiado grande para o pouco de forças que nos restam.

            A velhice nos torna primeiro incapazes de empreender, mas não de desejar. Só num terceiro período é que aqueles que vivem até uma idade muito avançada renunciam ao desejo, assim como já haviam tido de abandonar a ação. Limitam-se a sair de casa, a comer, a ler os jornais e única e exclusivamente a sobreviverem a si mesmos.

  • Em “O Tempo Recuperado”, após aguardar na biblioteca do Palácio de Guermantes que o término de um concerto ocorresse, Marcel penetra no salão de recepções. Ele que estivera tanto tempo afastado da sociedade, teve a impressão de adentrar nos bastidores de um teatro ou num baile a fantasia.

No teatro real busca-se  exagerar a dificuldade em reconhecer a pessoa fantasiada, mas é exatamente o contrário acontece no teatro da vida;  Marcel deveria dissimular ao máximo, sentia que nada possuía de lisongeiro em não reconhecer as pessoas, pois nenhuma transformação fora intencional. E a mesma dificuldade que o Narrador apresentava, os outros também as tinham em relação a ele. O fato é que todos tinham levado tanto tempo para vestir a fantasia que esta em geral passava desapercebida daqueles com quem conviviam. Muitas vezes  lhes concediam uma dilação, mediante a qual podiam continuar a ser eles mesmos até bem mais tarde. Mas então, o disfarce prorrogado se fazia com mais pressa; de qualquer modo, era inevitável.  Como Marcel tinha estado  por tantos anos ausente, era como se as fantasias fossem recém incorporadas a cada personalidade.

            Deixemo-lo descrever: “Mais que a um simples baile de máscaras, o que eu encontrara estava mais próximo de um teatro de fantoches, onde para se identificarem as pessoas conhecidas, fazia-se necessário decifrar, a um só tempo, vários planos situados por detrás delas e que lhes conferiam profundidade, obrigando a um trabalho mental, pois devia-se ver esses velhos fantoches tanto com os olhos como com a memória; um teatro de fantoches banhado pelas cores imateriais dos anos, exteriorizando o Tempo, o Tempo que de hábito é invisível, que para deixar de sê-lo, procura corpos e, onde quer que os encontre, deles se apodera a fim de mostrar, acima deles , a sua lanterna mágica.”

            É por meio de permanentes mudanças que percebemos que tais criaturas, observadas a intervalos demasiado grandes, são tão diversas; e verificamos ter seguido a mesma lei dessas criaturas que se transformaram de tal maneira que já não se assemelham ao que foram outrora sem ter deixado de sê-lo, aliás, justamente por não terem deixado de sê-lo. Outras pessoas são, entretanto, identificáveis imediatamente, porém como retratos ruins delas mesmas, reunidos numa exposição em que o artista irregular e mal intencionado endurece as feições de uns, retira o frescor da tez ou a leveza do talhe da outra, entristecendo o seu olhar. Comparando essas imagens às que estavam sob os olhos da memória, gostava-se sempre menos daquelas que eram mostradas por último.

            Havia ainda outras que, mesmo envoltos em rugas e cabelos brancos, seus rostos rosados mantinham a jovialidade dos dezoito anos. O talhe era esbelto, a aparência do rosto, jovem. Mas quando deles nos aproximávamos distinguiam-se várias manchas em suas peles que repugnavam e as linhas de expressão não resistiam ao aumento causado pelas lentes. Outros ainda, não eram velhos , e sim rapazes de dezoito anos, apenas que, extremamente murchos.

            As mulheres eram casos especiais. As feições em que se gravara, se não a mocidade, ao menos a beleza, tendo esta desaparecido, procuravam, com o que lhes sobrara, construir um novo rosto e em torno dessas novas feições faziam florescer uma mocidade nova. Só as mulheres muito bonitas ou muito feias é que não podiam acomodar-se a tais transformações. As primeiras, esculpidas como um mármore de linhas definidas do qual nada mais se pode mudar, pulverizavam-se como estátuas. As outras, que possuiam certas deformidades no rosto, tinham mesmo certas vantagens sobre as belas. Eram as únicas a serem reconhecidas de pronto, e por sempre terem sido feias ou aparentado determinados defeitos que as diferenciavam dos demais humanos, mantinham-nos e até mesmo pioravam com o tempo: essas nem pareciam ter envelhecido. É que a velhice é algo humano; elas eram monstros e não pareciam mudar mais do que as baleias.

            Assim, há mulheres que durante a sua vida, tal qual num conto de fadas, são condenadas a parecer primeiro como uma mocinha de corpo escultural, depois feito uma espessa matrona, que se transforma, a seguir, numa velha trêmula, esquálida e encurvada.

            Certos homens, ainda, coxeavam, e logo se via não se tratar de nenhum acidente, pois como se diz, já possuiam um pé na sepultura. As mulheres, meio paralíticas, pareciam não conseguir retirar totalmente o vestido que ficara preso à laje do túmulo, e, incapazes de se aprumarem, inclinadas como estavam, descreviam uma curva que era a sua posição atual entre a vida e a morte, antes da última queda. Marcel conclui que  o ser humano pode sofrer metamorfoses como as de certos insetos, exatamente como o reverso da borboleta que liberta-se da crisálida para voar.

            Na ilusão que engana a todos, quando ouvindo falar de um velho célebre, fiamo-nos previamente em sua bondade, sua justiça, sua doçura de alma, mas o Narrador relembrava que quarenta anos antes, muitos daqueles senhores haviam sido rapazes terríveis, cuja vaidade, velhacaria, soberba e astúcia, nada permitia supor que não as conservariam.

Entretanto, em completo contraste com esses, Marcel teve a surpresa de conversar com homens e mulheres outrora insuportáveis, e que haviam perdido quase todos os seus defeitos, talvez porque a vida, frustando ou realizando os seus desejos, lhes extinguisse a pretensão ou a amargura; quiças o conhecimento lentamente adquirido de valores outros que aqueles em que acredita uma juventude frívola, permitiram-lhes suavizar o caráter, demonstrar suas qualidades. Nesse baile de máscaras, a velhice fizera como que desabrochar novos valores, as feições envelhecidas produziam sensações mais doces,de tal forma que as maldades dos jovens se agudizaram ou se desfizeram naqueles seres velhos.

Envelhecendo, pareciam ganhar nova personalidade, como as árvores que o outono, variando-lhe as cores, parece mudar-lhes a essência. Neles, a velhice manifestara-se de fato, mas como algo moral. Era como o que se denominava outrora um “panorama”, mas um panorama dos anos, a visão não de um momento, mas de uma pessoa situada na perspectiva deformante do Tempo.

Os médicos e a medicina

  • Com a velhice aumenta o poder dos médicos e sua ciência inspira a todos os homens um certo temor. Talvez por isso, os médicos têm estado entre os personagens prediletos dos autores tragicômicos. O senhor, filho e irmão de mestres de medicina, descreve os médicos e sua ciência ora com ar respeitoso, ora severo, ora satírico. Um de seus personagens, o Dr. Cottard é ao mesmo tempo um grande imbecil e um bom médico, sempre para a elite que possa pagar seus honorários exorbitantes.

            Marcel, refere-se à medicina como um compêndio de erros sucessivos e contraditórios dos médicos; recorrendo-se aos melhores dentre eles corre-se o risco de solicitar uma verdade que será reconhecida como falsa anos após, pois a medicina na falta de curar, ocupa-se em trocar o sentido dos verbos e dos pronomes. É claro que a medicina possui grande poder pois iguala-se à natureza, obrigando-nos a ficar de cama e a continuar, sob pena de morte, o uso de um medicamento. A partir de então, uma doença artificialmente enxertada, a doença promovida pelo próprio medicamento, torna-se tão verdadeira quanto à primeira, com uma única diferença: as doenças naturais se curam, mas isto não acontece com as que são criadas pela medicina. Marcel acrescenta ainda: “Já os erros médicos são inúmeros. Pecam por otimismo quanto ao regime e por pessimismo quanto ao desenlace. Os médicos(existem exceções) ficam em geral mais descontentes e mais irritados com a negação de seu veredicto do que satisfeitos com sua execução”.

            De modo que acreditar na medicina seria a maior loucura, caso não acreditar nela não fosse uma loucura ainda maior, pois desse amontoado de erros se desprenderam, ao longo dos anos, algumas verdades.

            Você falou no dr. Cottard. Toda grande obra deve conter um componente grotesco. Cottard é um deles. Nesse homem tão insignificante, tão vulgar, havia, naqueles breves instantes em que deliberava, em que os perigos de um tratamento ou outro lutavam dentro de si até que se decidisse por um deles, uma espécie de grandeza própria de um general que, vulgar no resto de sua vida, é um grande estrategista e, num momento delicado, depois de ter refletido um instante, conclui por aquilo que é o militarmente mais sábio naquele campo de batalhas, que é o corpo humano. Na complexidade de que somos feitos, o Narrador debita a ele a propagação de uma nova e perigosa inovação da medicina, “as desintoxicações já que elas modificarão os rótulos de todos os produtos farmacêuticos, daqueles que são intitulados de atóxicos e, até mesmo, desintoxicantes. Constitui a propaganda da moda a necessidade de desintoxicar o paciente, assim como o uso de produtos que sejam antes de tudo antisseptizados”.

            Um personagem médico que ronda o grotesco é o Dr. Dieulafoy, um verificador da morte e fiel  chefe do protocolo fúnebre que atende à avó do Narrador em seu leito mortuário; aquele que, acima de todos atesta o que a todos é óbvio: o óbito de quem morreu ou está para morrer. Um papel tão original quanto o de um bufão ou de um padre. Conclui Marcel: “Fazia falta que inventassem um Serviço Público de Verificação do Óbito, mas o que seria feito dos tão circunspectos doutores Dieulafoys, que pareciam encenarem aos presentes uma peça teatral de Molière?”      

  • Em diversos momentos o senhor cita um modismo espiritualista de seu tempo, em que eram comuns sessões em que mesas flutuavam, conversas que provinham do além eram escutadas em determinadas correntes, hipnoses que faziam pessoas retroagirem a “encarnações passadas”. O dr. Cottard, pese todo o seu propalado cientificismo, também deixava-se influenciar por este momento.

            Cottard dizia ter assistido a verdadeiros desenvolvimentos da personalidade, citando o caso de um de seus doente, que ele se oferece amavelmente para levar à casa de Marcel, e a quem bastava que lhe tocasse as têmporas para despertá-lo para uma segunda vida, da qual não se lembraria nada da anterior, tanto que, muito honesto numa, fora várias vezes preso na outra por causa de seus roubos, pois era simplesmente um verdadeiro velhaco.

  • Os médicos, pelo senhor descritos, são profissionais por demais atentos ao prestígio profissional, às honrarias e ao dinheiro, não sei se nesta ordem  precisa.

            Acredito que na essência eles em nada se diferenciam de outros homens como os diplomatas, políticos ou os comerciantes. Falo dos médicos que se tornam famosos e para esses, a ordem dos fatores principia com o dinheiro. Cottard apenas se interessava por quem pudesse pagar pelos seus honorários altíssimos; um outro médico de grande notoriedade, amigo da família do Narrador, a quem ele recorre numa emergência, após muita insistência, atende o paciente de afogadilho pois teria uma reunião com o Ministro do Comércio; finalmente cito o Dr. Dieulafoy, que quando se retira deixando a sra. Amedée agonizante, pega simplesmente o envelope que lhe entregam, sem mesmo ter dado a impressão de enxergá-lo, tal qual um prestigitador hábil seria capaz de fazê-lo desaparecer no bolso. Na verdade, existem dois tipos de homens que muito se aproximam no uso da palavra “eu” em todas as frases, além do gosto pelo dinheiro: os banqueiros e os médicos.

  • O senhor realiza uma breve citação a um ramo da medicina que tanto sucesso fez no passado, antes das descobertas da Química, dado que as plantas eram das poucas terapias disponíveis, além das sempre insuperáveis sangrias, quase de uso universal.

            Sim, falo de um médico naturalista, originário do país do mundo onde esses recursos são mais abundantes, do Brasil. Esse médico brasileiro propunha tratamentos medicinais baseados em inalações de essências vegetais. Logicamente, a medicina tradicional representada pelo Dr. Cottard, via nessa conduta terapêutica uma aberração.

            Existe uma tendência tão forte em muitos médicos de enxegarem apenas um aspecto da enfermidade, de não entenderem que por trás de uma doença existe antes que tudo um ser humano, na verdade um enfermo e que não existem métodos de tratamento que sejam iguais para todos os enfermos. Um exemplo é relatado pelo sr. de Charlus ao Narrador. Um de seus primos tinha uma doença no estômago e por este motivo não conseguia digerir coisa alguma; os mais sábios especialistas do estômago haviam cuidado dele sem resultado. O barão terminou por levá-lo a certo médico que deduziu que o primo possuía uma doença de origem nervosa e o tratou. O parente sentiu-se tão bem que passou a se alimentar feliz . Mas, algo que o médico não se dera conta é que o homem também sofria de insuficiência dos rins. O que o estômago deste enfermo neurótico lhe permitiria viver até a velhice, por forçá-lo a uma dieta muito leve, o rim perdido matou-o aos quarenta anos.

            O cirurgião possui um semblante em que não se lê qualquer comiseração pelo paciente que passará pelas agruras de seu bisturi, mas é exatamente esta fisionomia aparentemente “apática” que encobriria a verdadeira bondade, a real solidariedade humana. Marcel diz: “Quando mais tarde tive oportunidade de encontrar encarnações verdadeiramente santas da caridade ativa, elas geralmente mostravam a fisionomia alegre, positiva, indiferente e brusca do cirurgião apressado, este rosto em que não se lê nenhuma comiseração, nenhuma ternura pelo sofrimento alheio, nenhum receio em feri-lo, e que é o rosto sem doçura, a fisionomia antipática e sublime da verdadeira bondade.”

            É na enfermidade que percebemos que não vivemos sós, mas acorrentados a uma criatura de outro reino, cujos abismos nos separam, que não nos conhece e pelo qual nos é impossível fazer-nos compreender: nosso corpo. Qualquer assaltante que encontrássemos no caminho, talvez pudéssemos sensibilizá-lo em nossso interesse pessoal, senão pela nossa desgraça. Mas rogar piedade ao nosso corpo é discursar perante um polvo, para quem nossas palavras não podem ter mais sentido que o rumor das águas, e com o qual nos aterrorizaríamos de ser condenados a conviver, pois a doença é o mais escutado dos médicos: à bondade , à sapiência não fazemos mais que prometer. Ao sofrimento, obedecemos.

  • Existe em seu romance uma áspera crítica a um outro modismo da medicina dos dias de hoje. O Dr. Boulbon é um médico que é chamado pela família do Narrador, quando todo o regime proposto por Cottard não obtem resultados positivos no tratamento da avó gravemente enferma. Este médico, que no leito de morte, Charcot glorificara como aquele que seria o grande homem da neurologia e da psiquiatria.

Construí uma sátira, porque quando o Dr. Boulbon diagnostica a enfermidade da avó de Marcel como psíquica, simplesmente está seguindo certo modismo científico da época, que busca na alma a origem dos males físicos que nos acometem; ele lhe ordena sim, abandonar a cama, prescrevendo-lhe como único medicamento “palavras”; a morte da mesma, acelerada pela síncope durante a caminhada prescrita, significou tão somente um pequeno avanço nos ponteiros do seu relógio.

  • Constitui um dado importante a ser assinalado que a fisiologia, a patologia, a cirurgia e a propedêutica, sempre lhe ofereceram importantes elementos de criação literária. Além dos utilizados, por exemplo, na descrição da enfermidade da avó do Narrador, temos  a erotomania e esclerose cerebral do sr. de Charlus, a doença e a morte do escritor Bergotte, a importância das lupas para a redução da cegueira progressiva do professor Brichot, a morte de Berma, a atriz, que praticamente falece em cena “escarrando um pouco de sangue “à la Molière”. Finalmente, toda a tristeza e pânico na gravidez da ajudante de cozinha de tia Leonie. São inúmeras as metáforas utilizadas tomando-se por base os seus conhecimentos sobre as enfermidades e o corpo humano.

            Sem dúvida, preciso confessar que “Em Busca do Tempo Perdido” deve mais que“um galo a Esculápio”. O que procuro, sempre que possível, é não realizar um melodrama com as enfermidades, nem mesmo com as minhas, digo, as do Narrador. Se os sintomas são amplificados, eles cumprem um papel teatral, mas as doenças são verdadeiras, assim como a relação dos personagens em relação a elas.

A morte

  • Conversar sobre a morte é sempre um assunto difícil, pois ela é a nossa finitude. Para Shoppenhauer, o animal vive sem conhecer a morte; só tem a consciência de si como um ser sem fim. Somente o homem conhece a morte, mas no fundo ninguém acredita em sua própria morte, ou seja, cada um está persuadido de que sua própria individualidade irá, de alguma forma, perpetuar-se.

            Realmente, crer na própria morte como um evento mais do que possível, absolutamente inapelável, apenas sem o seu Tempo definido, constituiria o pior dos pesadelos para a maioria da humanidade. Veja o exemplo do soldado da linha de frente da batalha. Ele está convencido que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Este é o amuleto que preserva os indivíduos- e às vezes os povos- não do perigo, mas do medo do perigo, motivo pelo qual o desafiam em certos casos, sem que sejam necessariamente bravos.

            Sempre dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando falamos isso afiguramos essa hora como  situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa significar que a morte- ou sua primeira posse parcial de nós, após a qual não nos larga mais – poderá ocorrer nessa mesma tarde, tão pouco incerta, essa tarde em que o emprego de todas as horas está previamente agendado. A gente se empenha para cumprir os nossos compromissos, o dia está inteiro para nós, gostaríamos que amanhã fizesse um bom tempo para visitarmos uma amiga e não desconfiamos que a morte que caminhava entre nós em outro plano escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena e, que, quem sabe, talvez entre em cena dentro de alguns minutos.

            Mas, fato interessante, mesmo este primeiro contato com a morte não costuma nos assustar, pois ela se reveste de uma aparência conhecida, familiar, cotidiana. Porém, esse é um terrível conhecimento, menos pelos sofrimentos que provoca do que pela estranha novidade das restrições que impõe à vida. Vamos morrendo neste caso, não no momento próprio da morte, porém meses e até anos antes, desde que ela horrendamente veio morar conosco. O doente trava conhecimento com o estranho que ele ouve ir e vir pelo cérebro. A amante que pressionamos, que suspeitamos que esteja a ponto de nos trair, é a própria vida e, embora sintamos que já não é a mesma, ainda acreditamos nela, pelo menos ficamos em dúvida até o dia em que ela enfim nos abandona. Pois o nosso corpo como que enclausura o espírito numa fortaleza; mas em breve esta fortaleza é assediada por todos os lados e, por fim, é necessário que o espírito se renda.

            Acontece que o pensamento dos agonizantes se volta para o lado real, doloroso, obscuro, visceral, para esse avesso da morte que é precisamente o lado que ela lhes mostra, que ela rudemente faz com que sintam e que se assemelha bem mais a um fardo que os esmaga, a uma dificuldade de respirar, a uma necessidade de beber, do que aquilo a que chamamos morte, propriamente dita.

  • Para Goethe, a morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade. Aparece como um castigo, um erro, uma irrealidade. Em sua narrativa, o senhor descreve o sofrimento ainda maior dos entes queridos que estejam ”insepultos”.

            A morte de milhões de desconhecidos apenas nos causa um arrepio, aliás,  menos desagradável do que o provocado por uma corrente de ar. Rapidamente as tragédias que não nos atingem são sucedidas por outras e jamais nos recordamos daquelas em que tantos morreram.

            A morte próxima é a única real. Quando se é infeliz, dolorosos são todos os dias de festa ou de aniversário. Se o dia nos recorda a morte de um ente querido, então o sofrimento consiste em uma comparação mais viva com o passado, ilusoriamente tão feliz. Marcel recorda a avó morta: “ Mas jamais poderia apagar aquela contração de sua face e aquela dor de seu coração; pois como os mortos não existem a não ser em nós, é a nós mesmos que batemos sem trégua quando nos obstinamos em recordar os golpes que lhes assentamos. Por mais cruéis que fossem essas dores, eu ligava-me a elas com todas as minhas forças, pois bem sentia que eram o efeito da lembrança de minha avó, a prova de que essas lembranças que eu tinha estavam bem presentes em mim”.

            No caso dos filhos que estejam desaparecidos, saber que nada mais se tem a esperar, não impede que se continue a esperá-los. Vive-se à espreita, à escuta: mães, cujos filhos embarcaram em perigosa expedição, imaginam a cada instante que chegarão miraculosamente salvos e em boa saúde. E esta espera, segundo a força da lembrança ou a resistência dos órgãos, ou as ajuda a atravessar os anos ao fim dos quais suportarão que os filhos não mais existam, ou então, matam-nas.

            De certa forma, os mortos continuam vivendo em nós. Marcel observa pela primeira vez que “aquele olhar fixo e sem lágrimas que tinha a minha mãe desde a morte de minha avó, estava detido naquela incrível contradição da lembrança e do nada. No entanto, logo que a vi entrar com seu manto de crepe, apercebi-me que não era mais a minha mãe que eu tinha diante de meus olhos, mas a minha avó”, como que se por um fenômeno de metempsicose ou do mesmo modo que nas famílias reais, o morto apoderara-se do vivo que tornara-se o seu sucessor semelhante, o continuador da sua vida interrompida. Nesse sentido  é que se pode dizer que a morte não é inútil, que o morto continua a atuar em nós.  Enfim, nesse culto da dor por nossos mortos, votamos uma idolatria ao que eles amaram.

  • A solidão dos morimbundos, que denominamos eufemisticamente de recolhimento para a morte, é um dos temas tratados por Bacon, pois para ele, as pompas da morte aterrorizam mais do que a propria morte; já  Sócrates nos recomenda que não interroguemos o silêncio, porque ele é mudo; não esperemos nada dos deuses fazendo-lhes preces, não pretendamos suborná-los com oferendas, e, que, finalmente é em nós mesmos que devemos buscar a libertação. Apenas para finalizar, concluo com Aristóteles: “Os velhos, que vivem mais da memória que da esperança, são serenos”.

            Marcel dá a esse recolhimento um aspecto todo especial e confortante, quando, afastando Bacon e abraçando Sócrates diz: “Essa ideia da morte se instalou definitivamente em mim, como um amor. Não que amasse a morte, eu detestava-a. Mas depois de ter pensado nela como uma mulher a quem ainda não se ama, agora a sua noção aderia à mais profunda camada do meu cérebro, de forma tão completa que não podia me ocupar de uma coisa  sem que esta atravessasse primeiro a ideia da morte, e até, se não me ocupava com coisa alguma, permanecendo em total repouso, a ideia da morte me acompanhava, tão incessante quanto a ideia de meu próprio eu, eu a sentia como parte de minha vida ainda não vivenciada.”

            Ocorre com a imensa maioria das pessoas cuja enfermidade ou a idade provecta transforma-os em morimbundos, que renunciam à vida. Marcel fala-nos novamente de sua avó: “O que para ela começara era essa grande renúncia da velhice que se prepara para a morte, que se envolve na crisálida, e que é possível observar, no fim das vidas que se prolongam até bem tarde, mesmo entre os antigos amantes que mais se amaram, entre os amigos unidos pelos laços mais espirituais e, que, a partir de certa ocasião, deixam de fazer a viagem ou de dar o passeio necessário para se verem, cessam de escrever e sabem que não mais se comunicarão neste mundo. Creio que esta reclusão definitiva deveria ter-se tornado mais fácil para ela : é que a mesma lhe era imposta pela diminuição que ela podia constatar, a cada dia, de suas forças, e, que, fazendo de cada ação, de cada movimento, um cansaço, senão um sofrimento, dava-lhe à inação, ao isolamento, ao silêncio, a doçura reparadora e abençoada do repouso”.

            Bergotte, em seus últimos dias, quando não mais saía de casa, e quando, apenas por educação recebia uns raros amigos, fazia-o todo envolto em xales, mantas, em tudo com que nos cobrimos no momento de nos expor a um grande frio ou de tomar um trem, embora o frio que sentisse viesse-lhe de dentro. Desculpava-se deles, dizendo, ao mesmo tempo em que apontava suas vestes: “Que se pode pode fazer, meu caro? Já disse Anaxágoras: a vida é uma viagem”. E Bergotte preparava-se para a última.

            No reencontro que Marcel tem com a sociedade, quando todos os seus amigos e conhecidos haviam se transformado em velhos, observa que, para as pessoas da mesma idade e do mesmo ambiente, a morte havia perdido seu significado estranho pois ela se multiplicava, tornando-se mais  e mais incerta entre os idosos. Porém, quanto aos simples mundanos macróbios, ninguém sabia bem se estavam vivos ou mortos e a dificuldade que todos tinham em distinguir, nos mais idosos da sociedade, as doenças, a ausência, o retiro para o campo, e a morte, confirmava, tanto quanto a indiferença dos vacilantes, a insignificância dos defuntos.“Na idade deles a gente não sai de casa”. Assim diziam os velhos sobre os doentes ou outros ainda mais idosos na sociedade. Era como se, antes do cemitério, houvesse toda uma cidade fechada, repleta exclusivamente de velhos, com lâmpadas sempre acesas na bruma. A morte de outro velho era uma forma pela qual elas ainda tomavam agradavelmente consciência da própria vida.

            Agora, parafraseando Baudelaire, acredito que, na minha agonia, quando todos os meus outros “eus”estiverem mortos, se vier a brilhar um raio de sol quando eu estiver a dar os últimos suspiros, a “personagenzinha barométrica” sentir-se-á bem contente e dirá: “até que enfim um dia bonito”.

  • Aristóteles comenta que os segredos da maturidade são a aceitação de um repouso cósmico e de uma anulação positiva do ser. E que sempre se parte antes de se concluir uma tarefa, antes da última palavra, pois quem está tocado pelo anjo da morte crerá que ainda haveria algo a dizer.

                        Um poeta escreveu: “Sempre ali onde eu quis dormir/ Sempre ali onde eu quis morrer/ Junto de mim veio sentar/ Um infeliz de roupa negra/ Igual a mim, como um irmão./Quando interrogado, respondeu-me: Quando fores, irei também/ Até o fim de tua vida/ Quando irei guardar a tua tumba”.

                        Para Fuerbach “A morte é o espelho em que se mira o nosso espírito:     a morte é o reflexo, o eco de nosso ser. Contemplei a límpida fonte, e o                                 que nela encontrei foi a visão fria e serena da morte”. O nosso duplo, aquele que tem o conhecimento da própria morte é o anjo, com o qual, no momento extremo, encontramo-nos face a face.       

            Eu sempre preferi acreditar mais na alegoria do anjo da morte que na do anjo da guarda. Enfim, a cada momento de nossa vida sempre buscamos um apoio ou um consolo no imaginário que mais nos convenha. A avó de Marcel, quando desenvolveu sua síncope na caminhada pelos seus Campos Elíseos, parecera mergulhada nesse mundo desconhecido em cujo seio já recebera os golpes de que ostentava os sinais, mesmo para Marcel que há pouco a vira. Seu chapéu, seu rosto e seu casaco desarrumados pela mão do anjo invisível com quem havia lutado. Com o seu anjo da morte, que não mais a deixaria!          

            Marcel detalha, a seguir, o trabalho de escultor que este mesmo anjo começara a desenvolver na face de sua avó: “Suas feições, como nas sessões de modelagem, pareciam aplicar-se, a conformá-la a um certo modelo que nós não conhecíamos. Esse trabalho de estatuário chegava ao fim e, se o rosto de minha avó havia diminuído, ela igualmente endurecera. As veias que a atravessavam pareciam, não de mármore, mas de uma pedra mais rugosa. Sempre inclinada para diante pela dificuldade de respirar, ao mesmo tempo que dobrada sobre si mesma pelo cansaço, sua fisionomia abatida, apequenada, atrozmente expressiva, parecia numa primitiva escultura quase histórica, a figura rude, violácea, ruiva, desesperada de alguma selvagem guardiã de túmulo. Mas a obra ainda não estava inteiramente acabada. A seguir era preciso quebrá-la e, depois, descê-la a esse túmulo, aguardado tão penosamente e com tão dura contração”.

            Quando o anjo da morte, terminando seu trabalho escultórico, finalmente deita-se ao lado da avó do Narrador, aquele olhar tão querido altera-se completamente; torna-se inquieto, queixoso, desvairado, o olhar impertinente de uma velha que está variando. E quando Marcel inclina-se sobre ela a fim de beijar aquela testa que tanto cansara de beijar, ela o encarou com um ar atônito, receoso, escandalizado: não o havia reconhecido! Curvada em semicírculo sobre a cama, um ser diverso, não mais a sua avó, uma espécie de animal que se tivesse disfarçado com seus cabelos e deitado em seus lençóis, arquejava e se lamuriava, sacudindo as cobertas com suas convulsões.

            E, finalmente, quando o anjo completou o seu trabalho e junto com a vida se retirou, as desilusões da existência terminaram também de ser carregadas por aquela que havia sido a avó de Marcel. Ele comenta: “Um sorriso parecia pousado sobre os lábios de minha avó. Sobre aquele leito fúnebre, a morte, como o escultor da Idade Média, deitara-a, finalmente, sob uma aparência de mocinha”.

  • Dostoievsky nos ensina que o suicídio como negação do limite da espécie é o teste absoluto da liberdade humana. A família de Marcel havia impedido que a avó no extremo sofrer, mas ainda com forças para uma atitude lúcida, cometesse o suicídio.

            Na narrativa de Marcel, ele se recorda de que em Balbec, num dia em que tinham salvo contra a sua vontade, uma viúva que estava para se atirar de uma ponte ao mar, a avó lhe dissera que não conhecia maldade maior do que arrancar uma desesperada à morte que ela desejara e fazê-la regressar a seu martírio. Ou seja, com a melhor das boas intenções lhe haviam afugentado aquele que para ela seria o seu anjo salvador. Mas como é a vida, ou melhor, o homem, pois em Paris, o Narrador e seus pais impedem à força que a avó agonizante e sofredora cometa o seu próprio suicídio, atirando-se da janela de seu quarto, enquanto ainda tinha as forças para tal, condenando-a a ainda maior sofrer. É difícil  aceitar, mas muitas vezes o pensamento do agonizante se volta para o lado real, doloroso, obscuro, visceral, para esse inverso da morte que é precisamente o lado que ela lhe mostra, que ela rudemente faz com que sinta e que se assemelha bem mais a um fardo que o esmaga, a uma dificuldade de respirar, a uma necessidade de beber, do que aquilo a que chamamos simplesmente de morte. Neste momento, o gesto de liberdade permite que, de um golpe, superemos este limite. Por outro lado, meu caro, a verdade é que nos resignamos mesmo de boa vontade a abreviar o martírio dos enfermos, apenas e tão somente quando isto nos beneficia.

  • Oscar Wilde, na prisão da Inglaterra vitoriana, condenado por seu caso de relações homossexuais, terminando o seu “De profundis” nos deixa uma pérola, ou melhor, “lágrimas na pétala de uma rosa,” onde tece a apologia da dor do que seria a sua morte, que no fundo, será a de todos os seres que não se conformam com pertencerem à multidão: “A sociedade, tal como a constituímos, não terá mais lugar para mim, nem me oferecerá nenhum. Mas a Natureza, cujas chuvas tão doces caem tanto sobre os justos quanto sobre os injustos, terá nas rochas algum esconderijo onde possa me ocultar, e me oferecerá vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem que me perturbem. Ela fará resplandecer as estrelas na escuridão para que eu não tropece nas trevas; fará soprar o vento sobre o rastro de meus passos, para que ninguém me persiga na morte; lavar-me-á com suas abundantes águas, e curar-me-á com suas ervas amargas.”

            Após a morte, tudo acaba, mesmo a morte, dizia Sêneca, o epicurista. Já Montaigne resumiu a atitude epicurista em “A morte seria menos temível que nada, se houvesse algo menos que nada.” Feuerbach sintetiza o tema: “A morte é a morte da morte.”

            Marcel não se conforma com a morte de Albertine. Ele gostaria de acreditar que a morte não faz mais do que riscar o que existe e que é capaz de deixar o resto intacto, que ela arrebataria a dor  ao coração daquele para quem a existência do outro não é mais que uma fonte de mágoas e não poria nada em seu lugar. Se Albertine ainda vivesse ele teria um pretexto para correr junto a ela; morta, Marcel teria recuperado, como dizia Swann, “a liberdade de viver.”

            Mas “a morte da morte” para Marcel é muito complicada, pois significa a morte de cada uma das diferentes personalidades assumidas dentro dele  por Albertine. Não a supressão de um sofrimento, mas um sofrimento desconhecido, o de saber que ela não mais voltaria. Para que a morte de Albertine pudesse suprimir os seus sofrimentos, seria necessário que o choque a tivesse matado não em Turaine, mas dentro dele mesmo. E ela nunca estivera mais viva. “Para entrar em nós uma criatura foi obrigada a assumir a forma, submeter-se ao quadro do Tempo; só nos aparecendo em minutos sucessivos, ela nunca pode nos entregar, de sua pessoa, senão um só aspecto de cada vez, fornecer de si mesma apenas uma única fotografia. Para me consolar, não era uma, mas inumeráveis Albertines que eu deveria esquecer. Quando chegasse a suportar o desgosto de ter perdido essa, era o caso de ter de recomeçar com outra, com cem outras.”

            De qualquer forma, nossa afeição pelos outros não diminui porque estejam mortos, mas porque nós próprios morremos. Albertine, depois de algum tempo, não tinha coisa alguma a censurar a seu amigo. Quem usurpara o nome deste era apenas um herdeiro. Como só podemos ser fiéis àquilo de que nos lembramos, a gente só se lembra aquilo que conheceu. Um novo “eu”, enquanto crescia à sombra do antigo, ouvia-o falar muitas vezes de Albertine; através dele, através dos relatos que recolhera, julgava conhecê-la, ela lhe era simpática, amava-a; mas não passava de uma ternura de segunda mão.

            Quando raciocinamos sobre o que ocorrerá após a nossa morte, não será ainda a nossa pessoa viva que, por engano, projetamos nesse momento? Porque no fundo, a morte age do mesmo modo que a ausência. “O monstro a cuja aparição o meu amor estremecera - o esquecimento - de fato, como eu imaginava, acabara por devorá-lo.” O avô de Marcel que tanto amava a sua mulher, algum tempo após a sua morte, confessava a Swann : “É engraçado, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não consigo pensar nela muito de cada vez”.

            Se olharmos a morte pelo prisma da sociedade, ela é para os outros uma simplificação da existência, anula os escrúpulos de gratidão, e, mesmo, a obrigação de se fazer visitas aos enfermos e abre as portas para as heranças entre os parentes. No meu livro, as irmãs da avó de Marcel ignoram a agonia da irmã, absortas que estavam em Combray com aulas de piano sobre Beethoven. Elas sabiam que o futuro as espreitaria numa visita à agonizante e, quem sabe, poderiam trazer do velório aquela companhia que somente as abandonaria no próprio túmulo.

            Com relação aos escritores de gênio, tenho como certo que é somente após a sua morte que ele se torna célebre. O esplendor de seu nome detém-se ante a pedra de seu túmulo. Não deixa de haver uma compensação pois pelo menos o autor falecido se torna ilustre sem se cansar. Bergotte, mesmo estando recolhido no leito, ao ler no jornal que a “Vista de Delft” de Vermeer, quadro que ele apreciava muitíssimo e julgava conhecer em todos os seus pormenores, inclusive certo panozinho de muro amarelo muito bem pintado, que para ele era como uma preciosa obra de arte chinesa; enrolou-se em seu casaco, comeu umas batatas e foi à exposição. Ao chegar ao Vermeer, lágrimas corriam-lhe dos olhos quando disse: “Assim que eu deveria ter escrito. Meus livros são muito secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, tornar minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro”. Neste momento, sentiu-lhe fugir o chão e deixou-se cair em um pequeno sofá. Pensou: “Só podem ser as batatas; estavam mal cozidas”. Logo teve novo ataque e rolou ao chão. Estava morto. Morto para sempre? Quem o poderá dizer?

            O caso do músico Vinteuil que morrera havia muitos anos, mas no meio daqueles instrumentos todos que ele animara e dera vida, fora-lhe dado prosseguir, por tempo ilimitado, uma parte ao menos de sua vida. De sua vida de homem apenas? Se a arte não fosse realmente senão um prolongamento da vida, valeria a pena sacrificar-lhe algo?  Não seria ela tão irreal quanto a própria vida?

            Está escrito na abóboda da Catedral de São Marcos , em Veneza, que “tudo pode voltar”, o mesmo dístico que é proclamado, bebendo nas urnas de jaspe e mármore do capitéis bizantinos, os pássaros que para os orientais significam ao mesmo tempo a morte e a ressurreição. Afinal, tudo o que fora no seu explendor a Veneza monumental havia perecido, mas tudo renascia no explendor da paisagem, no pulular da vida e até mesmo pelo surto parcelar e sobrevivente dos tecidos das dogalesas, produzidos agora pelo modista da moda, Fortuny.   

            A lembrança dolorosa só existe a que vem dos mortos; ora, esses se extinguem depressa, e já não sobra  ao redor de seus próprios túmulos, senão o encanto da natureza, o silêncio e o ar puro. “A morte da morte”, absorvida pela natureza de onde viemos. Mesmo porque o nosso amor pela vida é apenas uma velha ligação da qual não sabemos nos desvencilhar. Sua força está na permanência. Victor Hugo nos diz que... “Os mortos duram bem pouco... Ai de mim, tombam em pó no túmulo, menos depressa que em nosso coração!”

            Creia-me,  André, que só a morte, ao romper todas as nossa ligações com a vida e as coisas, é única capaz de nos curar do desejo eterno e onipresente de imortalidade, portanto, oferecer-nos a total liberdade, que é a própria morte.