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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo III- Ambientação e Crítica Social



Breves palavras sobre o ambiente histórico em que o escritor viveu

            Proust nasceu em 1871, numa pequena localidade próxima a Paris, Alteuil, na casa de seu tio-avô, o solteirão Louis Weil , pois a capital, que vivenciava os momentos da Comuna revoltosa dos trabalhadores amotinados, estava sob o cerco das tropas do império prussiano.

            A Revolução de 1789, seguida pelo Terror, gerara Napoleão que fizera-se coroar Imperador. Ele comandara a guerra de conquista que iniciou-se na Europa, estendeu-se à África e, por fim, à Rússia. Com sua derrota, a partir de 1815, uma onda de restauração conservadora varreu o continente; na França, os Bourbons reinstalaram-se no poder, onde se mantiveram absolutos até 1830, onde foram obrigados a realizar concessões à burguesia que ansiava o poder político, já que o econômico o tinha. Os anos 30 a 50 foram igualmente permeados por revoltas e movimentos revolucionários; em 1851, um sobrinho de Napoleão fez-se coroar Napoleão III.

A França viveu anos de fausto, na medida em que o avanço do colonialismo e do capitalismo monopolista produzia abastança para as elites e empolgava a classe média em formação. Mas surgiram as guerras pela posse das colônias conquistadas, a principal delas, em 1870, entre os franceses e aliados e os impérios da Europa Central.

            Na economia, as crises do capitalismo deram a tônica das décadas finais do século XIX. Mas um novo ciclo de expansão e desenvolvimento ocorreria na transição para o século XX, que coincide com grandes superações e descobertas científicas e inovações tecnológicas, que propiciaram mudanças revolucionárias nos mais diferentes aspectos da vida humana.

             Dentro de sua obra, muitas dessas descobertas se encontram presentes e estabelecem panos-de-fundo para os ambientes em que seus personagens se relacionam. As estradas de ferro, que caminham de Paris às províncias, tornam viáveis os balneários da costa normanda; a invenção da bicicleta e a nova cultura do esporte e do físico, incitam a uma maior liberdade e também uma nova forma de ocupação do tempo ocioso; o processo de liberação das mulheres que organizam o seu primeiro Congresso Feminista na França; um novo meio de transporte especialíssimo, o automóvel, que reduzindo todos os tempos de locomoção abriu horizontes impensáveis ao prazer e ao conhecimento dos lugares;  a maravilha que nos permitiu ultrapassar Dédalus em sua façanha, e que muitas vezes transforma-se,de acordo com suas palavras, em “esquifes voadores”, os aeroplanos. A iluminação elétrica que tornou possível escrever à noite e frequentar os teatros sem risco de tantos incêndios, a telefonia que criou as “deusas da escuta” e a fotografia, mais um instrumento a serviço da memória.

            Já na política e nas relações sociais, o sentimento geral de “fin-de- siècle”não acompanhava a euforia das descobertas. Vivenciava-se como que uma crise permanente, em que tudo parecia transitório, os valores de um passado recente já não eram mais válidos e novos valores eram contestados. Talvez poucos tenham resumido o sentimento geral melhor que Anatole France: “Por que somos tristes? Sabemos demais, lutamos demais, perdemos a fé, a esperança, a caridade; o que, de certo modo, nos leva de volta à revolução”.

            Nestas épocas de transição e crise os homens sentem a falta do ar e têm pressa de alcançar uma saída. A ansiedade é permanente e este clima terá seu reflexo tanto na filosofia quanto nas artes. Ressurge com vigor a busca pela vida direta com a natureza, nua, crua e irracional. A razão, o equilíbrio, a lógica formal cedem passo para um certo irracionalismo;  o instinto e a intuição conduzem ao aprofundamento da psicologia humana, à busca do inconsciente e do “eu profundo”. Nas artes, muitos buscam o rompimento com o realismo formal, procurando na espontaniedade, na leveza de traços e no efeito, uma arte que expressasse a impressão da realidade, o simbolismo, o subjetivismo do artista.

            E, finalmente, dentro do ambiente em que os conflitos se arrastam, surgem lado a lado a intolerância racial, a luta por novas conquistas coloniais; o patriotismo seguido pelo seu filhote bastardo, o militarismo; as divisões da sociedade em ideologias que cada vez mais determinam atitudes. Até que se desemboca na grande hecatombe que causará mais de dez milhões de mortos, a Primeira Guerra Mundial. Dentro deste panorama geral nasceu “Em Busca do Tempo Perdido”.

 

A  personalidade social : mundanismo e esnobismo

  • O senhor descreve diferentes “nichos” da alta sociedade, e as formas de “ocupação social” em que os burgueses e os aristocratas empregam sua energia, naqueles locais usualmente denominados de “Salões de Recepção”. Lá teremos encontros gastronômicos, festas, bailes, apresentações litero-musicais e recepções ou seja, o mundanismo. E o mundano vive socialmente prisioneiro de um perpétuo receber e ser recebido, ornamentado pelo falatório vazio que preenche o tempo de espíritos superficiais, em que  o esnobismo no falar, no vestir, no relacionar-se, configura antes de mais nada o consumismo puro e desenfreado. O personagem- Narrador chegou a denominar o mundanismo de “o reino do nada”. No entanto, por muito tempo em sua juventude, o próprio personagem-Narrador de seu livro semi-autobiográfico fez parte deste reino.

            Sim, falando diretamente, Marcel Proust foi parte deste mundo. Em minha mocidade esforcei-me por conhecê-lo na intimidade e foi a partir dele que, pedra a pedra, esculpi os personagens de meu livro; cada situação vivida foi por mim “fotografada” e depois, ampliada para a criação de minha obra de arte. Ainda hoje em dia, recluso para escrever o meu livro, vez por outra, dou uma escapadela até alguma recepção. Saio em busca de um detalhe que me falte, alguma característica não muito bem explorada em determinado personagem. Na verdade, eu menos ouço que observo. Busco, sim, as impressões de que necessito para continuar escrevendo.

  • Antes da divulgação de “A Caminho de Swann”, o meio intelectual tinha, injustamente, o próprio Marcel Proust na conta de um dândi. No entanto, o senhor estaria  muito mais próximo a um  ““flâneur” baudeleriano ”, aquele que caminhava pelos boulevares a ver, observar, a poetar.

            Quando  frequentava os salões mundanos  possuia, sim, a elegância no trajar; o dinheiro provinha de minha família e não de meu trabalho direto, fatores  que quiçá pudessem me caracterizar como um dândi; mas, veja que todas estas facilidades nunca me conduziram à  afetação, defeito este que jamais ostentei; tão pouco fui possuído pelo  esnobismo, pois nunca me importou muito me fazer ostentar, mas sim, sempre fui impelido a ser gentil com todos, sem diferenciar classes sociais. Desde que consideremos a multidão das ruas transportada para o ambiente da alta sociedade de, digamos, dez mil pessoas, ou seja, a elite social parisiense, creio que é possível caracterizar-me como ““flâneur”” dos Salões da elite francesa. Jamais negarei que, na juventude amava os salões mundanos e tal qual Marcel, buscava frequentar os mais insígnes, por decorrência, os mais esnobes. Por  isso que, ao retratá-los , fi-lo com a profundidade de alguém que os conhecera por dentro.

            O meu desejo de ver, de buscar a essência das coisas e de conhecer,  sempre constituiu o objeto primeiro da participação no mundanismo. Digo isto pois, já que falamos de Baudelaire, ele claramente destingue o ““flâneur”” do basbaque, que é aquele que se permite inebriar pelos esnobes “até o esquecimento da própria individualidade”. A fascinação de penetrar no que me era desconhecido foi o meu fio condutor, a ânsia de saber, meu guia.

            Chega de Proust e falemos sobre meus personagens. Swann é um mundano que possui características diferentes das de Marcel. É um diletante, um homem culto e de extrema sensibilidade artística;  pese por muito tempo haver se comportado como um “flâneur”, ele gradualmente vai deixando de sê-lo quando incorpora em sua personalidade social a arrogância dos aristocratas que frequentava. Depois de algum tempo, pouca coisa poder-se-ia diferenciar no comportamento de um Swann mundano e no de sua maior amiga, a duquesa Oriane de Guermantes pois ele pertencia a esse tipo de homens inteligentes que vivem na ociosidade e que buscam um alívio e quem sabe, uma desculpa, na ideia de que essa ociosidade oferece a sua inteligência objetos tão dignos de interesse como os que lhes proporcionariam a arte e os estudos e que a vida contém situações mais interessantes, mais romanescas que todos os romances. Ele era, sem dúvida, um dândi, um esnobe.

            Na opinião de Marcel, é natural que não mais reconheçamos a imagem do que fomos num período de nossa vida, principalmente caso ele se nos afigure, nos dias de hoje, desagradável. Mas não há que renegá-la, porque é um testemunho que temos vivido de acordo com as leis da vida e do espírito e que, dos elementos comuns da vida – quer seja daquela vivida nos  ateliês, nos grupinhos artísticos ou nos salões-, tiramos alguma coisa de superior a tudo isto.

  • Falemos mais a respeito da vida nos salões mundanos. O senhor estabelece em seu romance três tipos básicos de Salões. Um que reuniria a “crèma de la crèma” da aristocracia antiga, mas ao qual  o acesso de determinadas pessoas  fora de sua origem fidalga,  por “méritos do espírito”, no dizer de Oriane de Guermantes, seria permitido. Isto sucede primeiro com Swann, e, posteriormente, com Marcel. Um segundo tipo seria aquele, também aristocrático,  mas mais aberto, pois dentro da própria aristocracia existe uma escala hieráldica, em que  a presença dos frequentadores do primeiro nível é quase implorada por aqueles que somente possam frequentar o segundo. O exemplo seria o salão da Sra. de Saint- Euvert. Finalmente, um terceiro tipo, o burguês, representado pelo salão dos Verdurins , e, posteriormente, pelo de Odette de Swann, que serão justamente aqueles que, ao final de seu romance mais se expandirão e se transformarão.

            Na sua essência, todos os salões da alta roda praticavam o mesmo tipo de mundanismo, em que os burgueses imitavam os aristocratas, mesmo que procurassem dar a impressão de que destes buscavam se distanciar, quer pela liberdade, quer pela liberalidade concedida aos seus membros. Na realidade eles ansiavam pela sua absorção nos salões aristocratas, que é exatamente como veremos mais adiante. Os salões burgueses eram extremamente competitivos entre si, com medo de perder para outros os seus frequentadores mais ilustres. Procuravam construir uma aparência de que não buscavam pela nobreza e tinham a pretensão de que o regime sob o qual faziam viver os fiéis, a tirania, fosse chamado liberdade. Marcel diz textualmente: “a princípio não compreendi o adjetivo “clerical” aplicado aos Verdurins”.  Apenas entenderá após  Robert dizer-lhe: “Não me dirás que não é uma pequena seita; para os deles, tudo mel; para os que não são deles, todo desprezo é pouco.”.

            Os salões dos Verdurins e de Odette para se tornarem atrativos e frequentados por certa aristocracia, buscavam artistas como o escritor Bergotte, o  pintor  Elstir e  músicos como Dechamps e Morel, mesmo que durante as apresentações musicais  alguns de seus patronos dormissem.

            Muito bem, quanto aos salões aristocráticos, todos os convivas eram rigorosamente selecionados  pela sua capacidade de “ornamentarem” o mesmo, função que, aliás, esperava-se inclusive dos próprios donos do salão. Ao sentar-se à mesa, cada um encontrava ao lado do prato um cravo com o caule envolto em estanho. Todos os do sexo masculinos , enfiavam-nos nas abotoadeiras. Já as mulheres ornamentavam-se com violetas, como a demonstrar que pertenciam ao mesmo “espécime biológico”. Entre “espécimes iguais” fingia-se ignorar que o corpo da dona de uma casa era manuseado por quem quisesse, contanto que seu salão permanecesse intacto.

            O Narrador relata a decepção que o acomete no salão dos duques de Guermantes, quando os nomes sonhados e que eram os que cada comensal ostentava, em nada correspondiam aos seus ideais pois: “Cada um dos convivas, enfarpelando-se do nome misterioso sob o qual eu o conhecera e sonhara à distância, era dono de um corpo e de uma inteligência semelhantes ou inferiores a de todas as pessoas que eu conhecia, dando-me a impressão da insípida vulgaridade que pode conferir a entrada do porto dinamarquês  de Elsinor a um leitor apaixonado de Hamlet.”

  • Existe em seu romance uma  crítica ácida ao “modismo”vazio dos salões mundanos, na forma de um papagaísmo sem consistência sobre a arte, que reunia tanto os esnobes quanto os que eram considerados “apreciadores refinados” da criação artística.

            Essas observações percorrem muitas páginas de meu livro. A sra. Cottard e o duque de Guermantes, em nome da boa “arte tradicional”, a qual tão pouco conheciam, mas repetindo frases dogmáticas ouvidas de acadêmicos estéreis,  atacavam os impressionistas e todos os que buscavam inovar nas artes. Ao mesmo tempo, pessoas com a sra. Cambremer- Legrandin desprezavam os clássicos por amor aos impressionistas e a Debussy, apenas por querer aparentar estar na última moda, esquecendo-se que o próprio Debussy confessara sua dívida eterna a um Chopin.

            Perceba André, que dado às próprias características dos mundanos, as suas manifestações são muito inferiores aos movimentos artísticos, às crises políticas, à  evolução, às ideias sociais de justiça, de religiosidade. Entretanto elas contêm um reflexo remoto, quebrado, indeciso, turvo e mutável dos fatos que ocorrem ao seu redor. Isto faz com que os salões não possam ser pintados numa mobilidade estática, pois eles são arrastados num movimento quase histórico; o gosto pela novidade leva os mundanos ávidos a informarem-se sobre a evolução intelectual, científica, a lerem determinadas páginas dos jornais e a suas mulheres buscarem sempre o que lhes sirva nas curiosidades mais novas. E sobre isto eles conversam, conversam e nunca se fartam. E este frêmito da tagarelice social que ocupa todos os espaços, toma de assalto todos os encontros, sem outro motivo, no fundo, a  não ser a conversa por si mesma. Essa tagarelice  torna-se comum a todos aqueles que, não proporcionando à sua inteligência outra realização que não a palestra,  continuam insatisfeitos mesmo depois de horas passadas na companhia de outra pessoa.

            O interessante é que a tagarelice e o mutismo caminhem juntos nos salões aristocráticos. No salão da duquesa de Guermantes, ao qual normalmente eram convidados homens da elite  e artistas em evidência, entre um prato e outro faziam-se gracejos espirituosos ou contavam-se finas historietas da sociedade. Entretanto, um  poeta,  por exemplo,  comia sempre sem que o duque ou a duquesa parecessem lembrar que ele era um artista.  Quando o jantar acabava e as pessoas se despediam, nenhuma  palavra tinha sido dita sobre  a poesia, que,  no entanto,  todos apreciavam, mas da qual ninguém falava, pois essa reserva era de “bom gosto” e o que deveria brilhar era o salão, o poeta convidado era somente o seu adorno, desde que emudecesse sobre a sua própria obra.

  • Os mundanos descritos no seu mundo não possuem vínculos com o modo de produção. Os aristocratas são senhores feudais sem feudo e os burgueses não possuem compromissos com a produção industrial ou com serviços, dado que quando exercem alguma função ela é exclusivamente especulativa, ou, então, nadam na burocracia do Estado. Desse modo, o que resta é o consumismo e o desenfreado esnobismo social.

             O consumismo para manter-se precisa fazer com que as coisas pareçam novas, ainda que sejam antigas, e mesmo se são novas, é preciso, na arte como na medicina, assim como no mudanismo, a invenção de nomes novos. Aliás, sempre são novos em certas coisas. E cada um é capaz de consumir o que a sua sensibilidade pessoal lhe permita.

            Marcel tece um comentário que é pertinente ao ponto que você levanta. Trata-se de um castelo alugado pelos Verdurin, para veranear, perto de Balbec. Aos inquilinos bastava para justificar o elevado preço do aluguel unicamente a possibilidade de viver agradavelmente, passear, comer bem, conversar, receber amigos  a quem proporcionavam divertidas partidas de bilhar, boas refeições, alegres chás. Não se interessavam pelos reflexos do sol nas paisagens, pelos objetos antigos entre os quais transitavam, nem pelas histórias que possuiriam para contar, enfim nada do que não pudesse ou ser consumido ou exibido.

Na sociedade polida quase não se encontram romancistas, poetas, todas essas criaturas divinas que falam o que não se deve dizer.        Nessa sociedade estão os homens práticos, eles que carecem de reflexão, pois a cultura desinteressada lhes parece cômico passatempo de ociosos. Os mundanos, sempre seres “práticos” são criaturas de ações minúsculas, microscópicas. Essas criaturas, as de alguma ação, possuem sempre o espírito estafado pela atenção do que vai acontecer na próxima meia hora; elas confiam  bem poucas coisas à memória, pois como mundanos são distraídos e esquecidos. Como só pensam em viver o momento, esquecem depressa o que não pensam com profundidade, o que foi dito pela imitação, pelas paixões que os cercam. Enfim, os mundanos se lembram de poucas coisas.   

  • Conversemos um pouco mais  a respeito do esnobismo, que constitui uma das críticas mais mordazes que o senhor faz à elite social .

            A atitude do esnobe não é outra coisa que a contemplação da vida coerente, organizada e militante, do ponto de vista daquilo que você denominou “o consumidor puro”. O esnobismo social é altamente contagioso. Afeta até mesmo homens inteligentes e cultos com Swann. Não pense, entretanto, que o esnobismo atinja apenas as camadas da alta sociedade. Ele, como uma praga, medra por todas as classes sociais.

            Acho que poderíamos aproveitar duas passagens de meu livro como ilustradora deste esnobismo. Falando sobre um dos amigos das moças de Balbec, Marcel refere-se ao filho de um rico industrial: ” impressionou-me ver até que ponto, naquele jovem e nos outros, o conhecimento de tudo o que era indumentária, modo de vestir, charutos, bebidas, cavalos - conhecimentos que ele possuía em seus mínimos detalhes, com uma infalibilidade orgulhosa que atingia a silenciosa modéstia do sábio - se desenvolvera isoladamente, sem vir acompanhado da mínima cultura intelectual. Não tinha a menor hesitação quanto ao uso do pijama ou do “smoking”, mas não tinha conhecimento das regras mais elementares do francês. Pertencia ao grupo dos que nunca poderiam estar sem fazer nada , embora jamais fizessem coisa alguma.”

            A outra referência podemos encontrar em viagem no famoso trenzinho de Balbec que conduzia o clã  de burgueses esnobes ao encontro dos Verdurins. Justamente desta feita, o trem estava superlotado, o que obrigara um granjeiro a entrar no compartimento da primeira classe com um bilhete que não era devido. O dr. Cottard, achando que o trabalhador não poderia viajar no mesmo vagão que eles, chamou um empregado da estrada de ferro e obrigou-o que pusesse para fora do trem o tal granjeiro.

            Esses dois exemplos são formas claras de expressão do esnobismo; mas ele assume formas muito mais complexas, como um jogo que tenha suas regras, indeléveis mas claras e que não devem ser transgredidas por aqueles que pretendem frequentar a sociedade. E quanto mais alta hieraldicamente situa-se o aristocrata, mais o esnobismo se sofistica. As pessoas necessitam descobrir o caráter fictício da amabilidade aristocrática,  aquilo que chamam ser “bem-educados”. Acreditar real a amabilidade já é sinal de um certa má educação. Pois um esnobe representa, para aqueles que considera seus iguais e tão somente para eles, a comédia da polidez, da bondade, da honestidade e largueza de alma, simplicidade e inteligência. Mas todos os partícipes dessa roda sabem tratar-se perfeitamente de uma representação teatral.

            Muitas vezes o esnobismo, de tão forte, torna-se um santo remédio, pois permite até mesmo a cura de certas inclinações pessoais pela avareza e pelo adultério; o esnobismo se afiguraria tal qual alguns estados patológicos  singulares que parecem imunizar o enfermo contra outras doenças. Em meu romance, duas personagens incorporam uma mistura de humildade e de orgulho, de curiosidades de espírito adquiridas e de autoridade inata. São os senhores de Charlus e Saint-Loup, que percorrendo caminhos diferentes e sustentando posições opostas, tinham se tornado, com uma geração de intervalo, intelectuais interessados em toda ideia nova. De modo que uma pessoa um tanto medíocre podia considerá-los , de acordo com sua disposição, fascinantes ou ridículos.

  • Deixemos por ora os Salões mundanos propriamente ditos e vamos ao teatro. Afinal, quer pelo gosto musical, pela ópera, ou por representações teatrais, quer para exibir-se pessoalmente e fazer-se notar ou, simplesmente, passar o tempo, frequentá-lo era uma rotina quase que obrigatória para a burguesia e para a aristocracia. ”Em Busca do tempo Perdido” nos leva a apresentações de obras Racine, recitativos, óperas wagnerianas e de Debussy, dentre tantas outras. A sua descrição  do teatro como um enorme aquário e dos frequentadores como seres marinhos é deliciosa.

            Trata-se de uma apresentação de Fedra, interpretada pela personagem Berma. A descrição começa por “um corredor úmido e gretado, que parecia conduzir a grutas marinhas, ao reino mitológico das ninfas das águas”. Marcel busca o seu lugar na platéia, já que as primeiras filas estavam ocupadas por esnobes que queriam fazer-se notar pelos nobres ou por pessoas da mais alta sociedade, que se escondiam em seus camarotes, frisas e balcões. Eram deidades que se mantinham no escuro de suas grutas e permaneciam invisíveis para melhor observarem os outros presentes. “Uma Assembleia dos Deuses ocupados em contemplar o espetáculo dos homens, debaixo de um toldo rubro, numa clareira luminosa, entre dois pilares do céu”. Contudo, à medida que o espetáculo prosseguia, suas formas, vagamente humanas se destacavam debilmente, uma após outra e como que se erguendo para a luz do dia, deixavam emergir os seus corpos semi-nus, seus leques de pluma desfraldados, suas cabeleiras de púrpura entretecidas de pérolas. As ostras das margens, as formas dos monstros da orquestra se pintavam nesses olhos segundo as leis da ótica e de acordo com o ângulo de incidência. “Mas das alturas, as radiosas filhas do mar se voltavam a todo instante, sorrindo para os tritões barbudos pendurados nas anfractuosidades do abismo dos balcões, ou para algum semideus aquático que ostentava por crânio uma pedra polida, sobre a qual a onda colara uma alga lisa, tendo por olhar um cristal de rocha. As ninfas e deusas debruçavam-se sobre eles e lhes ofertavam bombons”.

            Deixando de lado nosso “aquário”, os esnobes, quando no teatro, viviam exclusivamente para seus iguais agrupados em um balcão, numa friza ou num camarote. Lá compareciam para notarem e se fazerem notados, importando-lhes muito mais o evento em si do que o que nele se representava. Por isso davam-se ao luxo de adentrarem ao teatro depois da abertura das cortinas e partiam antes que o espetáculo houvesse iniciado.  

  • Retornando aos palcos da vida, os seus personagens perdem gradualmente a capacidade de saberem o que são, pois escolhem parecer o que seus grupos sociais gostariam que fossem. Vestem suas máscaras,  mas se esquecem de que ao final de todo ato as cortinas se fecham e que aquilo que eram somente máscaras terminam por incorporar-se ao que será  sua personalidade social.

            Corre-se o risco de incorporar a máscara social como sendo a própria personalidade, mas a um preço muito alto, despersonalizando-se. Não apenas uma, mas várias máscaras se sobreprorão à primeira.

            Mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para todas as pessoas, pois nossa personalidade pessoal é uma criação do pensamento alheio. Até o ato simples a que chamamos “ver uma pessoa a quem conhecemos”  é em parte uma ação intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Assim, só depois de haver reconhecido, não sem hesitações, os erros de óptica do princípio, é que se pode chegar ao conhecimento exato da criatura, se é que esse reconhecimento seja  possível. Mas não o é, pois enquanto se retifica a visão que temos, ele próprio, que não é um objeto inerte, muda por sua conta; pensamos apanhá-lo, ele se desloca; e julgando vê-lo enfim claramente, apenas as imagens antigas que havíamos tomado é que conseguimos aclarar, mas essa imagens já não o representam mais.          

  • Sr. Proust, ao longo de nossas vidas vamos criando amizades, relações que quando verdadeiras, Montaigne dizia ”que damos ao amigo mais do que dele exigimos; que minha satisfação é proporcional a que ele assim alcança”. O conceito de amizade expresso por Marcel é muito influenciado pelo mundanismo, de tal modo que a sua visão sobre as relações interpessoais são eivadas de pessimismo, com a grande excessão das relações entre Marcel e sua mãe e avó. É como se as pessoas não se tocassem de verdade.

            Desde que dois homens se encontram no mundo, começa a comédia dos artifícios. Marcel desenvolve suas amizades exclusivamente dentro dos salões, no ambiente mundano que frequenta. Uma excessão é a sua relação com Robert de Saint-Loup, mas a qual também irá degenerar. Ele nos diz que nas amizades que criamos no decorrer da vida, não menos admirável que a semelhança das virtudes é a variedade dos defeitos. Todo mundo tem os seus, e para continuar querendo uma pessoa não temos outro remédio senão passá-las por alto e desdenhá-los em favor de outras qualidades. Cada um dos nossos amigos tem seus defeitos e para continuar a estimá-lo, manter uma amizade, cumpre que nos esforcemos por nos consolar desses defeitos. Pensando em seu talento, em sua bondade, ou em seu afeto, ou prescindir deles, empregando para isso nossa boa vontade.

            Por infelicidade, nossa complacente obstinação em não ver o defeito do amigo, entretanto, sempre se vê superada pela obstinação dele em mostrá-lo, ou por cegueira própria ou porque julgue que os cegos somos nós. As pessoas, à medida que vamos conhecendo-as, são como um metal mergulhado numa mistura que o altere, e as vemos  perderem pouco a pouco as suas qualidades e às vezes, também, seus defeitos.

            E é afinal um modo como qualquer outro de resolver o problema da existência, esse de aproximar suficientemente as coisas e pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para descobrirmos que não têm mistério e nem beleza; é uma das higienes que se pode escolher, higiene talvez não muito recomendável; mas dá-nos certa calma para passar a vida e também para nos resignarmos à morte, uma vez que nos faz não lamentar coisa alguma, persuadindo-nos de que alcançamos o melhor, e de que o melhor não é lá grande coisa.

  • Já que adentramos a analisar o significado e extensão da amizade, em seu livro o senhor se refere  ao conflito surgido entre dois amigos íntimos, Wagner e Nietzsche,  que conduziu a uma ruptura ruidosa entre os mesmos. O Narrador reputa ao filósofo a responsabilidade pela ruptura,  pois critica o erro de Nietzsche em recusar-se às amizades que não estivessem ligadas à estima intelectual. Talvez Marcel busque sempre manter “amizades” e se percauta de tentar desenvolver amizades mais profundas, que comunguem o mesmo ideal filosófico de vida.

            Acontece que ao contrário do filósofo alemão, Marcel não leva as amizades tão a sério. Além do mais, os difamadores da amizade podem, sem ilusões e não sem remorsos, serem os melhores amigos do mundo. Marcel também afirma a respeito da amizade que “ não há beberagem tão funesta que não possa, em determinados momentos, tornar-se tão preciosa e reconfortante, dando-nos a excitação necessária, o calor que não conseguiríamos encontrar em nós mesmos”.

            Nossos pensamentos, assim como o de nossas personagens, são contraditórios em determinados momentos da vida. Basta que se escorra um certo período de tempo e já vemos reaparecer relações de amizades renovadas entre as mesmas pessoas de outrora, depois de longos anos de interrupção, e renovadas com prazer. Ao fim de dez anos, os motivos que um tinha para amar, o outro para suportar um depotismo, deixam de existir e só resta a conveniência. Nietzsche era “puro”demais para aceitar qualquer amizade por conveniência, mesmo que esta amizade fosse com um gênio que ele admirava, um certo gênio chamado Wagner.

Os “guenos” e a ética da formalidade

  • Em toda a sua obra o senhor muito falou das feições, vozes e mesmo sobre o modo de encarar a vida, que de certa forma “herdamos” de nossos pais; vamos aproveitar para conversar sobre os “guenos”,ou seja, as famílias, suas heranças, defeitos e maldições, o que talvez nos conduza aos braços  dos antigos gregos, formuladores do termo que os cientistas de hoje tanto empregam: a genética .

            Sinceramente creio, tal qual os “guenos” gregos, que as famílias trazem em si cargas de características, defeitos  e talvez, maldições herdadas na forma de arquétipos que permanecem por gerações e gerações. A doença que acomete Swann- “a prisão de ventre dos profetas”-  era a mesma que arrebatara a vida de sua mãe judia e ela a acometera, exatamente na idade em que ele estava. Nossa existência é, devido à hereditariedade, tão cheia de cifras cabalísticas, de maus-olhados, como se na verdade existissem feiticeiras, como se elas tivessem a capacidade de prever que “os bosques ao redor de Macbeth se moveriam”.

            Os pais dão alguma coisa mais aos filhos do que estes aspectos que constituem as feições e as vozes: dão determinada maneira de falar, frases consagradas que, tão inconscientemente como entonação e quase tão profundas, indicam um modo de encarar a vida. A  partir de certa idade, e mesmo que se efetuem em nós diferentes evoluções, quanto mais nos tornamos nós mesmos, mais se acentuam em nós os traços de família. Até mesmo os médicos afirmam que a genética familiar se evidencia após os trinta anos de idade.

            Assim como há uma certa duração da vida para a humanidade em geral, também existe uma para as famílias em particular; isto é, dentro das famílias para os membros que se parecem entre si. Nisto me distancio do conceito grego de “guenos”. Para mim, os destinos se assemelham para aqueles que, advindo de um mesmo “guenos”, se pareçam uns com os outros.  

            Marcel capta o valor dos “guenos” quando ele diz que “quando passamos de uma certa idade, a alma da criança que fomos e a alma dos mortos de quem saímos vêm jogar-nos às mãos as suas riquezas, assim como os seus maus fados, pretendendo cooperar nos novos sentimentos que experimentamos e nos quais, apagando-lhes a antiga efígie os refundimos em uma criação original”. Assim o crê Marcel quando diz que: “ todo o meu passado, desde os meus mais remotos anos, e para além deles o passado de meus parentes, misturavam ao meu amor impuro por Albertine, a suavidade de uma ternura, a um mesmo tempo maternal  e filial”. Incorporamos, ao longo da existência todos os nossos parentes chegados de tão longe.

             Cada um de nós continua em si a vida dos seus, o homem ponderado e escarninho, que não existia em mim a princípio, se tinha juntado ao sensível e era natural que eu fosse por minha vez como meus pais haviam sido. Depois que morreram, eles permaneciam em mim, como os meus adorados Penates protetores, dentro do meu coração.

  • Mas as famílias também se dividem e quantas vezes seus  próprios membros odeiam-se ainda mais que ao inimigo de fora do seu ““guenos””?

            Eu creio que habitualmente detestamos o que nos é semelhante e são os nosssos próprios defeitos que, vistos de fora,  exasperam-nos. Talvez seja exatamente a excessiva semelhança que, apesar da afeição , faça reinar a divisão no seio das famílias. André, pense que a humanidade é muito velha. A hereditariedade, os cruzamentos, deram uma força imutável a maus hábitos, a reflexos viciosos; por exemplo, quantos netos de ladrões que hoje são milionários generosos, mas que não podem resistir à tentação de nos roubar cincoenta francos que sejam, existem por aí? E se lhes permitimos adentrar à política...

  • Em determinado momento de sua obra, o jovem Marcel tece um comentário a respeito do objeto de seu amor platônico por Oriane de Guermantes. Ele diz que sempre se espantava que mulheres melancólicas, puras, veneradas como  santas ideais de vitrais, tivessem florescido no mesmo tronco genealógico dos irmãos brutais, depravados e vis. Refere-se, logicamente, ao marido de Oriane, que, aliás era seu primo, que era tão mal marido, tão brutal, tão insensível e de extrema arrogância. O interessante é que essa contradição irá desaparecer nos livros que finalizam o ciclo.  

            No desenvolvimento do conhecer, Marcel adulto encontrará em Oriane  a mesma frieza e maldade que, quando jovem, enxergava tão somente no  marido dela. O halo de pureza e santidade é destroçado pelo conhecimento e pela inteligência quando se desvencilha do ente imaginário que possuíamos dentro de nós. Oriane de carne e osso, que sempre tivera amantes fortúitos enquanto seu marido as tivera abertamente; a maldade de ambos ao receber a filha de Swann, de quem eram muito amigos, somente após sua morte. A primazia dos compromissos mundanos sobre a morte de amigos e parentes, enfim, todos têm rompido o seu halo de pureza, pois afinal pertencem ao mesmo “guenos” e se assemelham.

  • Sr. Proust, a perda do “halo de pureza” é uma questão muito importante no evoluir de seus escritos. Em seus primeiros livros o senhor foi muito mais condescente com as pessoas do que nos últimos volumes editados; eu diria que, com o tempo, suas relações se transformam, a visão do Narrador em relação à maioria dos outros personagens se modifica, torna-se mais dura, mais crítica, mais excludente...

            Todas as personalidades são multifacetárias e sofrem transformações no seu viver. Chego a utilizar a expressão que os mundos são tantos quanto o número de olhos que a cada dia se abrem para eles. É verdade que eu mesmo, no princípio de meu trabalho esforçava-me por discernir, por estimar nas pessoas as qualidades que as criaturas humanas revelam quando examinadas com uma prevenção favorável e não com o enfado dos exigentes. Aliás, temos esta propenção quando jovens.

            A visão do Narrador torna-se, sim, mais crítica, mais excludente, mas  existe uma porta de salvação para os que se despem do esnobismo e procuram relações verdadeiras para a sua realização espiritual, mesmo que isto lhes custe o “status” social, o que afinal não lhes importa. A experiência da senhorita de Saint-Loup é o símbolo da redenção, da libertação, do agir e sentir-se livre das apeias sociais. Ela despreza as conveniências, pois devido a  sua origem e sua herança, poderia aspirar casar-se com os melhores príncipes da Europa. Ocorre uma ruptura com o “guenos”, ou com a prática do mesmo, pois ela casa-se com um obscuro escritor, desprezando todo o esnobismo social por um sentimento, que creia-me, eu dele provei apenas a parte mais amarga, mas que se chama amor.

  • Na corte de Luís XIV, as ocupações mais insignificantes do dia-a-dia, como despertar, comer e repousar, assumiam nos nobres uma singulariedade tirânica. A alta sociedade, descrita em seu romance, chega a um grau idêntico de impudor plenamente consciente, que leva o desprezo pelos escrúpulos tão longe quanto o respeito estrito à etiqueta, ao formalismo puro nas relações.

            O duque de Guermantes, representante da mais fina flor da elite, é um homem comovente de amabilidade e revoltante de dureza, escravo das menores obrigações, mas indiferente aos mais sagrados pactos. Ele transporta os escrúpulos de consciência do domínio das afeições e da moralidade, para as questões exclusivas de pura forma.            A sua esposa, a duquesa, é portadora dos mesmos princípios morais, igual frieza e insensibilidade. Quando o grande amigo Swann se declara quase um morimbundo, ela sentiu-se colocada pela primeira vez na vida entre deveres tão diversos como subir ao carro para ir jantar fora, trocar os sapatos pretos pelos vermelhos ou manifestar piedade pelo amigo que iria morrer. Oriane não via nada no código das conveniências que indicasse a jurisprudência a seguir, e, não sabendo a que dar primazia, julgou fazer cara de não acreditar que a morte fosse iminente, de modo a priorizar a troca de seus sapatos negros por vermelhos e dirigir-se imediatamente ao jantar para o qual estava na hora. “Mas sobretudo não desejo que se atrase”, disse-lhe o morimbundo Swann, pois ele sabia que para os outros, seus próprios compromissos mundanos têm prioridade sobre a morte de um amigo, e que ele se punha no lugar deles, graças à sua idêntica polidez.

            De uma maneira geral, os mortos da elite somente mereciam homenagens desde que não interferissem com o dia-a-dia do mundanismo. Marcel nos conta que a sra. de Marsantes tinha um vestido de seda com grandes palmas, sobre as quais se destacavam algumas flores de pano, que eram negras. Se em uma recepção lhe perguntassem o motivo, ela, demonstrando certo constrangimento pelo tipo de assunto, dizia baixinho que “há três semanas havia perdido um primo”, apontando discretamente as flores negras. A cerimônia de um velório, quando do caso da visita do duque de Guermantes à família do Narrador, cuja avó estava morta, é demonstrativo também de como um mundano se comporta perante a dor dos familiares enlutados. Ele cerca-se de pompas e circunstâncias perante a mãe de Marcel, que se sentia condoía pela perda irreparável, não porque o duque fosse mal educado, mas por ser desta raça de homens incapazes de se colocar no lugar dos outros, desses homens semelhantes nisso à maioria dos médicos e coveiros que, depois de assumir uma atitude muito solene e dizer: “São momentos muito penosos”! Então abraçam-nos, recomendando-nos repouso.

            Um enterro de um membro de determinado “guenos” é considerado também como uma reunião mundana mais ou menos restrita, em que, com uma jovialidade por um instante recalcada, procuram com o olhar a pessoa a quem possam falar sobre ninharias, pedir que as apresentem a outras e, por fim, oferecer um lugar no carro para levá-las de volta da cerimônia fúnebre.

  • Na verdade, o moral assim chamdo aristocrático e que também se estende à burguesia descrita pelo senhor é estéril de valores que se originem em afeições verdadeiras. As pessoas em seu egoísmo nem ao menos prestam homenagens aos mortos. Se dependesse dos Verdurin ou dos Guermantes, jamais Aquiles entregaria a Príamo o corpo do filho Heitor para as homenagens fúnebres.

            Creio que o corpo de Heitor permaneceria à disposição dos corvos e dos chacais às portas de Tróia, pois  a ociosidade desenvolve os instintos cruéis , quer sejam os da nobreza antiga ou da napoleônica e o da burguesia parasitária. Não nos esqueçamos que Luís XIV, algumas horas após a morte de seu irmão, uma das pessoas que lhe eram mais queridas, cantou árias de óperas, espantando-se com  quem mal conseguia dissimular sua dor e ordenando que os cortesãos que voltassem a seus jogos e que a alegria recomeçasse.

            Sobre o salão burguês da Sra. Verdurin, que passara anos deleitando-se com o violinista Dechambre, que magistralmente tocara a Sonata de Vinteuil para Swann, assim que ele adoece e morre, seu nome deixa até mesmo de ser citado. Era como que se jamais tivesse existido. Quando um dos mais ilustres membros da confraria, a princesa Sherbatoff morre, a sra. Verdurin declara que não sentia nenhum pesar pelo evento, desfilando com toda dureza os defeitos daquela que era considerada sua “maior amiga”, pois isso era menos humilhante do que assumir a frivolidade da chefe do clã em presença da morte.

            De tal forma que a sra. Verdurin e o esposo haviam adquirido na ociosidade instintos cruéis a que não bastavam as grandes circunstâncias, como vimos, das mortes. A assiduidade ao salão dos Verdurins às quartas-feiras suscitava em seus donos, além disso, um desejo de malquistar, de desunir. O sr. Verdurin esforçava-se por apanhar alguém em falta, por estender as teias onde pudesse passar a aranha, sua companheira, alguma mosca inocente. Na falta de motivos, inventava-os. Tratavam de incompatibilizar os vivos e torná-los infelizes  no seu dia a dia. Trabalharam para separar Odette e Swann  apenas por malvadez, pois ele a amava,  assim como  separaram Brichot de sua jovem amante, a lavadeira, que tornava feliz a  velhice de um homem  quase cego e reduzia-lhe o uso da morfina.

            Essa sociedade leva o desprezo pelos escrúpulos tão longe quanto o respeito pela etiqueta. Como diria o barão de Charlus: “Falar de Mecenas interessa-me particularmente porque é o primeiro apóstolo notável desse Deus chinês que conta hoje em França com mais seguidores que Bhrama, que o próprio Cristo: o todo-poderoso Deus do que-me-importa?”.

  • O “Deus do que-me –importa”, ou seja o culto extremo do egoísmo, o descompromisso com todo o restante da humanidade, não constitui uma exclusividade dos aristocratas e da burguesia ascentente da virada do século. Ele é muito mais poderoso, onipotente e onipresente do que se pode supor.

     É uma verdade, André, mas o nosso julgamento sobre o comportamento e a índole dos homens não nos permite guardar ressentimentos e nem julgá-los exclusivamente por suas maldades, pois não conhecemos o que de bom que possam haver realizado. Marcel narra um caso extremo, o dos Verdurin, que apenas admitiam Saniette em seu círculo por ser ele a encarnação do bobo da corte; mas que, ao final de sua vida terminaram por salvá-lo da pobreza absoluta, com uma pensão mensal. E esta atitude havia partido do sr. Verdurin, que Marcel considerava o pior dos homens; pois até ele tinha algumas virtudes de que não se poderia suspeitar, que coabitavam com a mais feroz perseguição na manutenção do domínio que possuía no pequeno clã. É claro que a matéria ruim de que ele era feito voltaria a se manifestar, mas a alma humana é bem mais rica, tem muitas outras vertentes até mesmo neste homem que havia sido capaz de um gesto sem interesse e sem ostentação, o que não quer dizer que isto o tornara uma pessoa sensível, nem simpática, nem escrupulosa, nem verídico, nem mesmo sempre bom.

            Ou seja, dentro da enorme complexidade do ser humano, a piedade pela desgraça talvez não seja muito adequada, pois com a paixão recriamos toda uma dor, pela qual o infeliz obrigado a lutar contra ela, nem pensa em enternecer-se. Do mesmo modo a malvadez não tem provavelmente na alma do mau esta pura e voluptosa crueldade que tanto mal nos faz só de imaginar. O ódio o inspira, a cólera lhe dá um ardor e uma atividade que nada têm de muito alegre; seria necessário sadismo para dele extrair prazer e o malvado julga que é malvado aquele a quem faz sofrer.

  • Somos o único país em que coexistem  dois tipos de aristocracias: a antiga, cujas árvores genealógicas remontam ao tempo e a moderna, ou seja, os burgueses tornados nobres pelos Napoleões. Elas se comunicam, mas constituem “ guenos” que não se mesclam.

            Os aristocratas oriundos da nobreza antiga, julgam-se de fato pertencente a uma outra raça, mais inteligente e segundo seu sentido de mundo, superiores culturalmente, apesar de que a inteligência e a cultura, como geralmente não as possuem, excitam-lhes a inveja; Marcel possuia méritos que ignorava e que eles  consideravam  importantes. Nos Guermantes o desdém ou o espanto coexistiam sempre com a admiração e a inveja. É claro que os aristocratas não possuiam sempre os mesmos valores. Seus parentes, não só reservavam à inteligência o mesmo valor que os Guermantes, como dela não tinham a mesma ideia.

            A aristocracia antiga tem uma construção pesada, aberta em raras janelas, deixando entrar pouca luz, mostrando a mesma falta de ousadia, mas igualmente a mesma força maciça e cega da arquitetura romana; ela pensa encerrar em si toda a história, então a rodeia de muralhas o que a torna carrancuda. Uma construção românica, sem dúvida sufocante, e com poucos respiradores.

            Quando o Narrador visita o regimento em que servia Robert de Saint-Loup, ocorre o simbolismo do encontro entre os dois gêneros de aristocratas. Um Guermantes, Robert, à mesa do capitão de seu regimento, um príncipe da nobreza imperial, o Príncipe de Borodino. Pode ele, então, facilmente discernir, até nas maneiras e na elegância de cada um, a diferença existente entre as duas aristocracias. A nobreza originária do Império Napoleônico é mais leve, com os mesmos maneirismos da burguesia, caldeirão no qual Napoleão sempre buscara os “novos aristocratas”. É claro que os antigos não se mesclavam com os novos, consideravam-nos muitos degraus abaixo na escala social. Por outro lado, a nobreza advinda dos Napoleões se consideravam a eles superiores, dada que haviam obtido seus títulos pelo mérito de seus pais ou avós.

A absorção da burguesia

  • Normalmente pensamos que a aristocracia, uma vez perdidas as suas propriedades feudais, terminaria sendo  absorvida pela burguesia ascendente, no modo de produção capitalista. Entretanto, em seu livro, o que o senhor descreve é uma absorção ao revés. A burguesia perdulária seria absorvida pela aristocracia decadente, comprando seus títulos de nobreza ou produzindo a união de seus membros endinheirados com nobres depauperados, emboletando-se com seus títulos em  castelos comprados e redecorados.

            Economica e socialmente o processo que ocorre é o da absorção de uma aristocracia decadente pela burguesia. Porém, o processo descrito em meu livro ocorre no plano psicológico, na alma e na “personalidade social”. No “A Caminho de Swann” Marcel indica, metaforicamente, os dois caminhos que levavam, por um lado à Mésèglise, onde localizava-se a casa de Swann, e ao outro lado, até o Castelo de Guermantes. Eles sempre pareceram opostos, sendo que aquele que levava à burguesia em transição, o de Mésèglise, era facilmente percorrível e o outro, o aristocrata, dada a distância e às dificuldades do caminho, jamais fora alcançado nos passeios realizados pela família de Marcel. Muitos anos passados, quando a absorção da burguesia pela aristocracia já havia se concretizado, Gilberte diz ao Narrador: “Se quiser, poderemos sair uma tarde dessas e ir então a Guermantes, seguindo por Mésèglise, é o caminho mais bonito”. Essa frase transtornou todas as ideias da infância do Narrador e o fez ver que os dois lados não eram em absoluto irreconciliáveis, e muito mais próximos do que ele supunha. Fê-lo ver também o motivo pelo qual jamais seus familiares haviam alcançado Guermantes a partir da casa de tia Leonie; era indispensável, mais fácil e “bonito” o percurso de Mésèglise, o da burguesia parasitária, do que o caminho da mais tradicional até Guermantes. 

            Veja que mesmo os títulos falsos, quando surgem, que é o caso do “conde Le Grandin de Méséglise”, o rico burguês Legrandin, a aristocracia sabe muito bem como assumi-los, desde que existam interesses em jogo. Deste modo, auto-consignando-se um título não contestado, o engenheiro foi para parte de sua geração e para toda a geração seguinte, o verdadeiro conde de Mésèglise. A aristocracia também absorve, como uma exceção, alguns plebeus. É o caso da sobrinha do alfaiate Jupien, que por obra e graça de Charlus, recebera um título de nobreza de sua família. Casara-se com mais um “caso homossexual”do barão, um marquês falido, sobrinho do milionário Legrandin. No entanto, logo após as núpcias, a moça contrai uma febre letal e morre. Marcel relata : “Tudo com efeito  está em selar uma grande aliança. Dando-se, então, a morte de uma pequena plebéia, mas que recebera o título de Mari-Antoniette de Oloron, marquesa de Oloron, “dama do mais alto nascimento”, todas as famílias principescas da Europa se envolveram em luto”. 

            Durante a guerra, as sra. Verdurin, agora viúva, e a sra.Bontemps, tia de Albertine e esposa de um simples chefe de gabinete ministerial, agora Ministro, são elevadas à categoria social de “as rainhas de Paris”, desbancando de sua “pole posicion”a própria duquesa de Guermantes. E, finalmente, a viúva sra. Verdurin é transformada na princesa de Guermantes, esposada pelo príncipe de Guermantes, também arruinado pela guerra. E frise-se que no período do pós-guerra, em todos os grandes hotéis, podiam ser vistas judias americanas de camisolas, apertando nos seios envelhecidos o colar de pérolas que lhes permitiria se casarem com um duque arruinado. O hotel Ritz, neste sentido, assemelhava-se à bolsa de valores.

            Finalmente, o nascimento da senhorita de Saint-Loup, filha de Gilberte Swann e Robert de Saint- Loup torna emblemática a confluência entre os Caminhos de Guermantes e de Mésèglise, a fusão das elites sociais. Ela é o símbolo da confluência e junção das altas classes sociais, o encontro definitivo dos “Caminhos de Swann e de Guermantes.”

  • Existem ironias fascinantes em sua obra. Em determinado passeio pelos Champs-Elisées, Marcel dirige-se a um banheiro público. A  zeladora, tida pela governanta do Narrador como gente “muito boa”, uma velha dama de faces gessadas e peruca loira, tinha uma  filha que  desposara ”um rapaz de boa família”; com isso, o conceito da senhora crescera aos olhos de Françoise.  A  governanta assegurava a Marcel ser ela marquesa e que pertencia à família de Saint-Ferréol, nome sugestivo de um famoso laxante da época.

            “Marquesa de Saint- Ferréol”, e afinal, por que não? Se Legrandin inventara um título de marquês vindo do nada, se as americanas compravam títulos de nobreza exibindo suas pérolas verdadeiras em peitos mortos e murchos, e se a marquesa de Oloron era a costureirinha sobrinha de Jupien, a zeladora do único local em que poderíamos fazer necessidades urgentes no parque, justamente a senhora que os mantinha primorosamente asseados pese a velhice de sua construção, conscenciosamente vigiado para que nada de anormal ocorresse, não mereceria ela própria um título de filha de algo, de fidalga? Ela era uma nobre, e qual título seria mais propício que “Saint- Ferréol”?

  • Um outro aristocrata “popular”, ao contrário da “marquesa”, era o  ricaço chamado, em tom de chacota, no Grande Hotel de Balbec, de “Sua Majestade”, pois ele se proclamara rei de uma ilhota da Oceania habitada por um punhado de selvagens. Ele que exibia sua linda e jovem amante pela praia.

            Eles eram majestades de opereta, mas que alugavam a suíte mais cara do hotel e distribuiam moedas aos garotos pobres que, sempre ao vê-los passar, gritavam à la inglesa: “Viva a Rainha”. Os burgueses não os cumprimentavam, mas deliciavam-se nas formas da “rainha”, como os garotos com seus francos. Faziam parte do mesmo time dos “Le Grandin”, apenas não possuiam a avareza como vício.

Os humildes

  • O senhor possui uma visão peculiar dos operários, prestadores de serviço, pequenos comerciantes e dos serviçais que trabalham diretamente para a aristocracia e para a burguesia. O senhor em nenhum momento hesitou em reconhecer a poesia dos ignorantes, a ignorância de tantos poetas, assim como a falta de elegância em tantos elegantes.

            Veja André, para mim as classes de espírito nada têm a ver com as classes sociais. Toda condição social tem seu interesse e pode ser tão curioso para um artista mostrar os modos de uma rainha quanto os de uma costureira. No entanto, o porquê da alta sociedade ter sido sempre um dos ambientes mais favoráveis à formação de um romancista é que, por viverem no ócio, entre eles as paixões têm mais intensidade. Já dizia La Bruyère : “ Triste coisa, amar sem ser muito rico”.

            Marcel expressa certa preferência pelos operários, e depois pelos grão-senhores; veja, isto ocorre não por alguma tendência especial, mas por saber que se pode exigir dos grão-senhores mais polidez para com os operários do que da parte dos burgueses, assim como é verdade que os grão-senhores não desdenham os operários como aqueles o fazem; por sua vez, os operários são de bom grado atenciosos para com qualquer pessoa e agem muitas vezes como as mulheres bonitas que  se sentem felizes em dar um sorriso, pois sabem que o mesmo  será acolhido com alegria.

  • É verdade que a convivência do senhor foi muito mais intensa com os serviçais das altas classes que em sua obra estão representados por diversas figuras, das quais a mais importante é Françoise. Ela absorve características do francês do campo, pouco influenciado pela metrópole; seus afetos familiares são irrestritos; sua forma de falar no “pataquá” através do qual se expressa junto aos que considera seus semelhantes. Como toda personagem, Françoise não poderia fugir da “multiplicidade de seus eus”, incorporando inclusive alguns aspectos de submissão e revolta contida, como herança dos tempos do feudalismo.

            O perfil que traço para  Françoise realmente tem a ver com o camponês, com o que existe de profundo no interior da França. Por exemplo, ela para a filha e para os seus sobrinhos teria dado a vida sem uma queixa; mas, entretanto, era de uma dureza singular para com todos os outros seres. A tia de Marcel a conservava porque conhecendo a sua crueldade, apreciava o seu serviço. A apararente doçura, a compulsão e as virtudes de Francoise, entretanto, também escondiam “tragédias da copa”, do mesmo modo como a história descobre que os reinados de reis e rainhas, que são representados de mãos postas nos vitrais das igrejas, tiveram as vidas marcadas por fatos sangrentos.

            Fora do círculo dos parentes, os seres humanos tanto mais lhe causavam compaixão com seus infortúnios quanto mais afastados dela estavam. Para com as pessoas próximas ela não possuia nenhum tipo de compaixão ou solidariedade. Aliás, nisso, assemelhando-se a tantos “humanistas” que são capazes de adorar a humanidade no geral, mas incapazes de solidarizar-se com o ser humano sofredor que esteja ao seu lado.

            Era  sua política, em relação aos outros criados, jamais deixar um só deles criar raízes na casa em que trabalhava. Recorria mesmo aos meios mais infames se necessário. Um exemplo deste tipo de comportamento é a tortura a que ela submete a ajudante de cozinha, na qual Swann identificava a expressão facial da “Caridade” de Giotto. Esta ajudante, estando grávida, teve seu parto cercado de grande sofrimento, pois Françoise se negara a permitir a assistência de uma parteira. Após o nascimento, o ódio pela mesma pessoa se aguça, dada a incapacidade de trabalho da parturiente. Como não pode espancá-la, Françoise descarrega sua raiva em um frango que tem que matar, o que o faz do modo mais brutal e insensível, chamando-o de ”bicho imundo”.  

            Nas relações com seus patrões, ela reproduzia sim , como muitas pessoas que chegaram a viver sob o feudalismo, aspectos de submissão travestidos de “amor ao senhor”, assim como a incorporação de certos valores arcaicos. Para  Françoise, a riqueza era uma condição necessária da virtude, cuja falta faria a virtude ser destituída de mérito e de encanto. Ou seja, a riqueza dos senhores era o principal critério, acima de qualquer propalada virtude. Francoise, enquanto cuidava de tia Leonie, a quem considerava sua real patroa, vivia sob o medo de suas cóleras, sob suas palavras amargas e suspeitas. Toda  essa agressão tinha desenvolvido nela um sentimento que as pessoas tomavam por ódio, mas que, na verdade, era veneração e amor pelo superior. Quando da morte da patroa, daquela patroa de decisões impossíveis de prever, de astúcias difíceis de contornar, de coração bondoso mas não tão fácil de enternecer, desnuda-se o papel que exercera a sua rainha, sua misteriosa e todo-poderosa monarca, e Françoise é quem mais sofre.

            Mas a sua submissão também contém determinados limites, por exemplo, quando diz: “ Meu tempo não é assim tão caro, dizia Francoise- quem fez o tempo não o vendeu para nós.” Pois em Françoise o culto da nobreza é misturado e acomodado a um certo espírito de revolta contra ela, hereditariamente bebido nas glebas de França, e que fora tão intenso como no seio do próprio povo.

            Segundo o seu “código” de honra, desejar a morte de um inimigo, matá-lo mesmo, não é proibido, mas é horrível não cumprir pequenos deveres, não retribuir uma gentileza, partir como uma grosseirona sem dizer adeus a uma governanta de hotel. Trata-se ainda aqui de uma absorção da moral e do formalismo de seus senhores ancestrais, facilmente comparáveis, em outra escala, ao dos Guermantes.    

            O que precisamos ter em conta, quando analisamos as pessoas mais primitivas, é que elas possuem sentidos mais penetrantes que os nossos e percebem, de imediato, toda a verdade que procuramos esconder. E também,  a seu modo, pode-se dizer que sejam mais francas. Referindo-se aos serviçais do Grande Hotel de Balbec, o Narrador diz que eles se sub-dividiam em dois tipos: de um lado aqueles que faziam diferenças entre os hóspedes, mais sensíveis às gorgetas razoáveis dadas por um velho nobre; de outro lado, aqueles para quem nobreza, inteligência, celebridade, educação, eram inexistentes, recoberto tudo por uma cifra. Para esses não existe mais que uma hierarquia: o dinheiro que se tem, ou antes, o que se dá.

  • O senhor em determinado momento, refletindo determinada realidade social, em que  as coisas do espírito são reservadas aos que podem viver parcela de suas vidas no ócio, ou aqueles que se contentem com o nada possuir e forrem seus sapatos com jornais,” a la  Baudelaire”, diz que as verdades que Françoise, por trabalhar toda uma vida, seria capaz de compreender, eram aquelas que o coração pode alcançar diretamente, pois para ela, o mundo das ideias não existia.

            Eu me pergunto se não há entre os nossos irmãos humildes, os camponeses, criaturas que são seres humanos superiores, num mundo dos simples de espírito, que foram condenados por um destino injusto a jamais poderem ter acesso ao mundo das ideias; foram privados de luz, e no entanto, são naturalmente mais aparentados com as naturezas de escol do que a maioria das pessoas instruídas. Françoise possuia claridade no olhar, o traçado delicado do nariz e dos lábios, todos esses testemunhos que muitas pessoas cultas não possuiam. Apenas para encerrarmos este tópico, quando um Elstir pintava um quadro mitológico ele tomava como modelos de Vênus ou de Ceres raparigas do povo que exercem as profissões mais humildes, acrescentando-lhes, ou melhor, restituindo-lhes, os diversos atributos de beleza dos quais estavam despojadas por suas ocupações.

Os seres”políticos”

  • Sr. Proust, dentre os argumentos de seu romance, encontra-se a “política”, não a prática  partidária, dado que o senhor jamais buscou nenhum tipo de engajamento formal, mas a análise de um  tipo especial: o político. Nós, os  franceses, após tantas revoluções, golpes e contra-golpes, iniciados na Monarquia dos Bourbons, seguida pela Revolução Francesa, a Primeira  República e o Terror;  Napoleão proclamando seu Império; sua queda e a Restauração Monárquica, com o retorno Bourbons;  a derrubada destes, e a instalação da Segunda República, que novamente é substituída num golpe de Estado e pelo  retorno do Império, desta vez com Napoleão III. Finalmente, após a  Comuna de Paris ele é derrubado e instaura-se a Terceira República coincidente com a Guerra Franco-Prussiana de 1870. Nós,  franceses, que vivemos tudo isto em apenas e tão somente um século, podemos dizer que respiramos política. A sua obra, que será para sempre a memória da transição dos séculos XIX para o XX, não poderia alheiar-se à mesma e, logicamente, a seu agente principal, “o político”.

            Você tem razão ao afirmar que a política penetra nos poros da pele de todo francês, em particular dos parisienses. Enquanto alguns países descobrem agora o espírito republicano, nós já tivemos não uma, mas três repúblicas, fomos governados ora pelos republicanos, ora pelos conservadores, ora pelos radicais e até mesmo pelos socialistas. Seguramente, não tenho gênio e nem inclinação para partidarismos e busco possuir amizades em todos os lados da batalha política, que ora possui o Sr. X de um lado e o Y de outro, no momento seguinte, vice-e-versa. Quando trago para o meu livro uma personagem “política” eu o faço como “modelo” de um ser humano, é bem verdade, que se trata de um modelo assaz especial.

            André, você chegou até a Terceira República, que substituiu o Segundo Império, mas ela também sofreu  golpes, contra-golpes e conseguiu estabilizar-se somente após quase três décadas, por volta de 1899, porque semelhante aos caleidoscópios que giram, de tempos em tempos a sociedade coloca sucessivamente, de modo diverso, elementos que se supunham imutáveis e compõem uma nova figura. Estas novas disposições são provocadas pelo que um filósofo denomina “mudanças de critério”. Vou citar-lhe um exemplo: há menos de trinta anos, na minha infância, toda a sociedade conservadora pertencia à alta roda, e numa reunião de bom tom nem ao menos poder-se-ia receber um republicano, o que diria um radical ou, então, um socialista? Seria totalmente inimaginável. Vivíamos o princípio da decadência do “fin-de-siècle”.

            Marcel comenta a esse respeito: ” Isto não impede que, de cada vez que a sociedade se ache momentaneamente imóvel, aqueles que nela vivam imaginem que jamais se efetuará mudança alguma, da mesma forma que, tendo visto começar o telefone, ainda assim muita gente não crê no aeroplano”.

  • Ou seja, como um organismo humano, o social está sempre em mutação, mesmo que a velocidade com que isto ocorra nos dê muitas vezes a sensação da estática...

            Nos seres políticos esta “estática”, é muitíssimo mais dinâmica que, por exemplo, nas tendências literárias, pois eles mudam rápida e frequentemente de modo de ação e de grupamento de ideias. Para eles é sempre necessário “ler na entrelinha do que dizem”. Como exemplo, jamais eles chegam a ser exonerados dos altos postos- talvez porque deveriam ter que responder pelos seus erros- eles sempre pedem suas “demissões”.

            E este dinamismo varre conservadores, radicais ou republicanos; é preciso ter visto antes o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que tenha se instalado no poder. É preciso tê-lo visto no tempo de sua desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante e amoroso a saudação altiva de um jornalista anônimo, participar de toda e qualquer atividade que lhe desse visibilidade e emitir os sinais de energia que o creditassem como  empreendedor.

            Ao contrário do que acontece no mundo artístico, repetir o que todo mundo pensa não é em política sinal de inferioridade, mas de superioridade. O político de sucesso diz sempre o que o povo espera que ele diga, nada mais. E jamais responde a qualquer interrupção, isto porque possue neste instante, a habilidade de tornar-se surdo. Logo, o hábito da política faz com que a calma que todo homem público precisa incorporar se desenvolva como hábito mesmo de conversação. Sabendo que conservará o domínio da mesma sempre, deixa o interlocutor agitar-se, esforçar-se, penar à vontade. E disso, o político muitas vezes extrai o que irá dizer, que será exatamente o que se queria ouvir do mesmo.

            Os semi-espíritos, porque assim os denomino, são mais ativos que os espíritos superiores, pois têm a necessidade de se complementarem pela ação; agindo assim atraem para si a multidão e criam em volta não somente as reputações exaltadas e os desprezos injustos, mas as guerras civis e as guerras externas, que com um pouco de auto-crítica poderiam ser evitadas. Na humanidade a regra – que comporta exceções naturalmente- é que os duros são débeis rechaçados e que os fortes, sem se preocupar com os que os queiram ou não, são os únicos que têm essa doçura que o vulgo toma por fraqueza.

            A diplomacia assim como a política são ramos de negócio. Na linguagem diplomática, assim como na política, quando uma pessoa é chamada a conversar sempre o será para algum oferecimento, para uma transação comercial.

            Temos tido muitas revoluções desde 1789. A nossa experiência nos revela que as revoluções terminam sempre em tiranias, que os Partidos se dissolvem, que as divergências são esquecidas e que os adversários de hoje serão os aliados amanhã. O adversário político, que, apesar de raciocínios e provas, considerava como traidor o sectário da doutrina oposta, chega a compartilhar das detestadas convicções quando já não interessam àquele que antes tentava inutilmente difundi-las. Esta costuma  ser “a fortaleza” das convicções políticas.

            Da mesma forma com que o instinto de imitação e a falta de coragem governam as sociedades, eles comandam as multidões. E  se todo mundo ri de uma pessoa de que veem motejar, dez anos mais tarde, talvez esses mesmos estejam prontos para venerá-la. É da natureza humana;  e do mesmo modo como o povo ama, idolatra e aclama os reis, escorraça-os depois.

  • O senhor acredita que um regime político, seja ele autoritário ou democrático,  possa  influenciar na produção literária?

            O regime político sob o qual se vive influencia, sim, na atividade dos escritores. Muitas vezes quando vivenciamos um clima de liberdade política ou de anarquia literária, os escritores reduzem o seu poder de concentração. Já quando nos achamos de pés e mãos atados pela tirania de um monarca ou de uma poética, pela severidade das regras da prosódia ou de uma religião do Estado, apreendemos a fazer com que tudo o que não possa se expressar diretamente caiba numa frase  e o que não poderíamos dizer sem nos incriminarmos, até mesmo em menos que numa frase, um silêncio, o dizemos por meio de metáforas.

  • Sr. Proust, em seu romance existe um político de primeira grandeza que se dedica à diplomacia, sr. Norpois. Colega de Conselho do pai do Narrador, é um constante comensal à mesa de seus pais. A mãe do Narrador sonha com que ele indique seu marido para determinada posição. Já  o pai do Narrador, que planejara para Marcel a carreira diplomática é convencido pelo sr. Norpois de que mais conviria a Marcel o caminho literário, mesmo que ele nada houvesse escrito que denotasse tal propensão.

            O sr. Norpois é um exemplar do político profissional. Ele estará sempre aberto a aproveitar todas as ocasiões em que poderá desfrutar de prestígio ou empanturrar-se de comida sem assumir suas custas. Mas nunca se espere nenhum favor de um político, pois ele jamais fará algo por amizade, já que para ele, não existem amigos, apenas correligionários e “contatos”. Os políticos somente entendem o jogo de trocas, apesar de nas aparências colocarem o coração em suas palavras: “meu amigo, meu camarada, meu companheiro de lutas”.

            Um favor pelo qual  ele não possa esperar algo em troca, ou pelo qual já tenha recebido adiantado, nunca espere que ele o faça. O sr. Norpois jamais incentivará os votos necessários para o pai do Narrador e, por ser embaixador, sugere que Marcel siga a carreira literária, por medo de que se lhe peça como favor ajudá-lo na carreira diplomática. Mais adiante, a mãe de Marcel, então, solicita a Norpois a fineza de referenciar um escrito do filho para uma publicação, mas ele o descartará por  Marcel “ser uma lástima literária”.

  • O senhor cita um outro tipo de recurso dos seres políticos, que denomina de “sistema de fins múltiplos” e, novamente, o sr. de Norpois os encarna. Vamos desenvolvê-lo?

            O sr. Norpois aceitava algumas vezes servir de mediador entre dois amigos brigados, e como isso nada lhe custasse, consideravam-no o mais prestativo dos homens. Mas não bastava parecer que prestava um serviço a quem lhe solicitava, pois apresentava ao outro querelante as gestões que fazia junto a ele, não como um pedido do primeiro, mas no próprio interesse do segundo, o que convencia um interlocutor previamente sugestionado de que tinha diante de si o mais “obsequioso dos homens”. Desta maneira, o político representando as duas cenas, fazendo o que em liguagem de teatro se denomina contraparte, jamais deixava sua influência correr o mínimo risco, e os serviços que prestava não constituiam uma alienação, mas uma frutificação de parte de seu crédito. E, cada serviço prestado, tanto mais aumentava a sua reputação de amigo prestativo, e ainda de amigo prestativo eficiente, que não dá estocadas em sombras, cujos passos dão sempre resultado, neste tipo de duplicidade no obséquio, que nada lhe custa, apenas angariando créditos em ambos os lados litigantes.

            “As paixões políticas são como as outras paixões humanas, elas não duram”. Marcel traça essas considerações. As novas gerações chegam e já não compreendem as políticas que antes eram as praticadas. A própria geração que passou por elas muda, sendo muitas vezes presa de outras paixões políticas que, não sendo exatamente decalcadas das precedentes, lhes fazem reabilitar uma parte dos excluídos, por haver mudado a causa do exclusivismo. Na realidade, sempre descobrimos posteriormente que os nossos adversários tinham algum motivo em pertencer ao partido em que estavam e que isto não depende do que pode ter havido de justo ou injusto na proposta política desse ou daquele partido. Os termos dreyfusistas e anti-dreyfusistas, a partir que a revisão do caso se impusera, careciam de sentido, assim como, talvez dentro de alguns séculos ou menos, palavras como “boches”, simbolizando o alemão, “sans-culotte”, o revolucionário republicano, “chouan” os revoltosos contra a revolução francesa de 1789,  talvez desapareçam ou tenham simplesmente o valor de uma curiosidade.

  • Em seu romance, o personagem sr. de Charlus, refere-se à faculdade que têm os homens de acreditar, em cada nova circunstância de que se trata de “outra coisa”, capacidade que lhes permite adotarem erros políticos, artísticos, ou outros, sem se aperceberem que, na verdade, são os mesmos erros que foram tomados como verdades há dez anos.

            André, os homens da política se procuram num regime novo a continuação do antigo, fazem-no sob uma forma diferente, que permita às pessoas serem enganadas e acreditarem que não era a mesma sociedade de antes da crise. Um  chefe político, por exemplo, é obrigado a admitir ser horrível a mentira, pese que isso obrigue o mais das vezes a mentir ainda mais que os outros, sem retirar, entretanto, a sua máscara de respeitabilidade, sem depor a “personna” augusta da sinceridade.

            O personagem Narrador, diz em certo momento que com o passar do tempo,”tais pessoas que até haviam esquecido seus rancores e ódios, para estarem certas de que ali encontravam a quem já não dirigiam a palavra, teriam de consultar um registro; entretanto, este exibiria a impressão de que se fomos insultados já não sabemos mais por quem. Formavam as aparências contrastantes da vida política, em que  se viam em um mesmo ministério pessoas que se tinham acusado mutuamente de assassinato ou traição, confraternizando-se”.

  • A sra. Bontemps é esposa do Diretor de um Ministério e é uma das assíduas frequentadoras do salão mundano de Odette e de Charles de Swann. Ela também representa o comportamento dos políticos em sua faceta feminina. O exigente Swann, em determinado momento, passa a achá-la uma pessoa agradável, ao contrário do que sempre sentira.

            Acontece, meu caro André, que toda decadência aceita tem como resultado tornar as pessoas menos exigentes no tocante àqueles espíritos com que se resignaram a conviver, menos exigentes tanto quanto ao espírito como quanto ao resto. Muito se falava antigamente a respeito da moralidade deste Diretor dos Correios- sr. Bontemps, chamado de “panamista”- e de sua mulher, mas Swann, após apaixonar-se e casar-se com Odette, já não era o mesmo, seus conceitos tinham-se tornado mais “flexíveis”.

            O próprio Narrador, após a “fuga”de Albertine, que é sobrinha do Diretor de Correios Bontemps, encarrega Robert de Saint-Loup de convencer sua tia em fazê-la retornar e o mecanismo que lhe ocorre é o suborno. Robert oferece uma fortuna à esposa do político, o que subvencionaria nas próximas eleições. Mas, infelizmente, Albertine não retorna e o dinheiro não pode ser aceito.

  • Quando o senhor se refere ao “panamista” Ministro Bontemps, estamos falando de golpes e do costume milenar de muitos políticos de confundirem o que seja público com aquilo que é o seu, o “ privado”.

            Trata-se do grande golpe que os políticos praticaram na construção do Canal do Panamá. Bontemps fora dos que enriquecera. Mas além deste senhor, Marcel fala também a respeito de um antigo presidente do Conselho de Ministros, que antes fora objeto de processos criminais, tendo sido execrado pela alta sociedade e pelo povo. Porém, graças à renovação dos indivíduos e das alterações das paixões políticas, ninguém mais se lembrava dele. Na ocasião de seus tormentos, nada o consolava de ser chamado de “tubarão” pela turba de punhos cerrados quando entrava no “tintureiro da polícia”. Mas com o passar dos anos, resignamo-nos a toda humilhação, sabendo que o tempo tornará nossas culpas invisíveis; isto fizera com que aquele político retornasse à ativa e participasse de um novo gabinete, nomeado pela integridade de seu talento.

            A reação das pessoas mais simples à ação de rapina dos cofres públicos realizada por grande parte dos políticos é refletida no modo de pensar de um mordomo. Uma postura de conformidade do homem humilde, simples, do povo, como se da função pública o roubo fosse  o esperável. Marcel diz que “o mordomo estava longe de censurá-lo, não que ele fosse perfeitamente honesto, mas, julgando venais todos os políticos, o crime de concussão lhe parecia menos grave que o mais leve delito de roubo”. Diga-me, meu amigo, em que época da história da humanidade, deixou de haver um homem público, tido como santo por seus amigos, e que se descobriu ter feito falsificações, roubado o Estado e até mesmo traído a sua Pátria?

  • Podemos concluir que a prática da política muda os homens, é verdade? Até mesmo a aparência, após  anos de prática política, seria como uma segunda roupagem adquirida por esses seres humanos “especiais”, os denominados políticos.

            Sim, a prática da política  lhes transfigura a aparência, assim como se incumbe de fomentar ódios e rancores.        No final do romance, ao descrever um amigo pessoal, Marcel destaca a mudança de personalidade e de aparência, daquele que fora seu companheiro durante dez anos, uma pessoa sensível,  que há muito tempo não encontrava e que se transformara em um político influente. No passado, aquele ser que na juventude tivera olhos azuis, sempre risonhos, perpetuamente em movimento, em busca de algo desinteressado, sem dúvida a verdade perseguida em constante incerteza, com seu jeito folgazão, era respeitado e respeitador de todos os amigos. Agora, no presente, um político “capaz, despótico, os olhos azuis que, aliás, como não haviam encontrado o que procuravam, tinham se imobilizado, o que lhe conferia um olhar agudo, como se saísse debaixo de um sobrecenho franzido. Assim, a expressão de alegria, de abandono e de inocência se transformara num acento de astúcia e dissimulação”. Decididamente, ele se transforama, era outra pessoa.

  • Ou seja, tudo na política é exacerbado, ódios, desafetos, as posições extremadas. Mas tonto é aquele cidadão que acredita que um político mantenha-se firme naquelas posições que com tanta ênfase defende, pois,  no decorrer do tempo,  os interesses mudam e os interesses aproximam inimigos e cria os próximos.

            Exatamente foi esta a impressão que a vida, ou melhor, a recordação da vida me trouxe, a partir da análise da essência de meus modelos de “políticos”, pois assim como na sociedade, no mundo político, as vítimas são tão covardes que não se pode querer mal por muito tempo ao carrasco.

A bolsa de valores

  • Senhor Proust, as altas classes sociais pelas quais Marcel transita não se identificam economicamente com nenhum modo de produção, vivendo mais da especulação financeira e de fortunas acumuladas ou herdadas. Deste  modo, gostaria que enfocássemos praticamente o único tema econômico  ligado à obtenção de dinheiro que possui espaço em sua obra, as Bolsas de Valores.

            André, meu pai entendia que eu morreria na miséria. Sei não, mas eu acho que será assim. Você pode não me crer, mas ainda dois meses atrás perdi uma fortuna de quase 800 mil francos na  bolsa de valores. De algum modo, o jogo com as ações me atrai; eu, todas as manhãs, ou melhor, assim que desperto, acompanho pelos jornais o vai-e-vem das apostas, e, inclusive, possuo amigos em algumas corporações que me aconselham quando vender e quando comprar.

            As sociedades anônimas são como entes impessoais cuja vitalidade depende da cotação de suas ações na Bolsa, o que na verdade nada mais é que um grande jogo em que uns ganham e outros perdem, em que oportunidades se transformam em desgraças e o burguês, que aí aplica seu capital, tem que possuir o ânimo, a volúpia e a vertigem de um jogador, para, na maior partes das vezes ao acaso, ganhar ou perder.

            O Narrador, Marcel, seguindo determinados conselhos de Norpois e ansioso por aumentar o seu patrimônio para manter o luxo de Albertine, aposta a herança que recebera da avó nos títulos de sociedades inglesas e se dá conta, ao receber em Veneza a carta de seu corretor na Bolsa, que sua fortuna fora reduzida: que pagando comissões e resgatando o que lhe restara, agora possuia apenas um quinto de sua fortuna inicial.

  • Sr. Proust,  já que estamos falando neste assunto e abrindo certo parêntesis em nosso trabalho,  qual a sua opinião sobre as ações da Companhia do Canal de Suez? Dizem que estão com um baixo valor e que graças ao controle dos ingleses irão  subir brevemente; o sr. não crê que seria um bom investimento para minhas poucas economias?

            (Para meu completo espanto, minha pergunta causou uma estranha crise de riso, levando às lágrimas os olhos amendoados de meu interlocutor)

            Desculpe-me por este riso meu caro, mas meu pai, o Dr. Adrien Proust, se não me engano por volta de  1892,  perdeu quase um ano dos ganhos de seu trabalho como médico  por aplicar suas economias na companhia de um outro canal marítimo, o do Panamá. A quebra daquela empresa foi um dos maiores escândalos do final do século, pois ao falir, levou consigo as economias de milhares de franceses. Posso  dizer-lhe que o escândalo foi tão grande que quase ocasionou uma “débâcle”na República. Mais de cem deputados, senadores, ministros e ex-ministros estavam envolvidos com as trapaças e desonestidades da empresa. Nosso ex-Primeiro-Ministro, o sr. Barthou, chegou ao ponto de aconselhar  seus eleitores na eleição seguinte: “Olhem e vejam de que lado estão os maiores ladrões”- e isto foi dito por ele na defesa dos republicanos! Em meu romance, o Diretor dos Correios e futuro Ministro, sr. Bontemps, é denominado de “panamista” no próprio gabinete, graças às fraudes da qual participara e que eram públicas!

            Pois bem, a falência desta empresa arrastou consigo a boa fama de pessoas como Ferdinand de Lesseps- o construtor do Canal de Suez (em meu livro eu destinei ao marquês de Saint-Loup, o pai do  jovem Robert, a presidência da Companhia do Canal de Suez) assim como o bom nome de Gustave Eiffel, o grande responsável por nossa monumental torre. Veja por que, meu amigo, não posso sugerir-lhe aplicar seu suado dinheirinho em ações de nenhuma companhia de canais marítimos. Tenho alergia a elas. Em todo caso, se quiser uma indicação sem maior compromisso de minha parte, aplique seus fundos em ações de empresas que explorem petróleo; sei que rendem menos, mas na instabilidade política em que vivemos, em que até mesmo em uma guerra de enormes proporções podemos logo estarmos metidos, o petróleo sempre estará em alta.

Os jornais

  • Sr. Proust, o senhor afirmou-me que acompanha os jornais; entretanto, muitas pessoas o têm como pouco interessado pelo que acontece mundo afora. Em que medida isto é uma verdade?

            Veja , André, como  já disse, a primeira atividade quando desperto, é ler os jornais do dia antes mesmo de ter o meu primeiro café. Agora se inicio a leitura por uma parte ou outra do mesmo, é uma outra questão. Veja, se possuo alguma censura em relação aos jornais é devido o fato de nos obrigarem a prestar atenção todos os dias em insignificâncias, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros nos quais há coisas realmente essenciais.

            No fundo, nós lemos os jornais da mesma forma como amamos, com uma venda nos olhos, e, por muitas vezes, por tempo demasiado. Não procuramos compreender os fatos, pois eles são propositadamente colocados uns ao lado dos outros, sem nenhuma conecção. E os reclames, invenção do século passado, quantas vezes não são confundidos com algum editorial e o leitor os toma por verdade? Ouvimos, então, as palavras do editor-chefe como se fossem as palavras de uma amante. Somos vencidos e ficamos satisfeitos, pois não nos consideramos senão vencedores, todas as vezes que lemos alguma notícia que venha ao encontro de nossos interesses. Mas o espantoso para mim é que o leitor, que só julga os homens e os fatos da política e da guerra por meio  dos jornais, esteja sempre convencido de que julga por si mesmo todos aqueles movimentos.

            Por outro lado, os jornalistas quando se intrometem a falar de literatura ignoram de que escola literária provêm as “elegância” que tanto utilizam,  e fazem o papel tão somente de imitadores de estetas diversos, às vezes sem mesmo apreenderem o verdadeiro sentido, mas para seguirem um determinado modismo.         

  • Sr. Proust, parece-me que se fosse intenção da imprensa fazer com que o leitor incorporasse a própria experiência às informações que esta lhe fornece, ela não alcançaria seu objetivo. Acontece que o seu objetivo é exatamente o oposto e ela o atinge. Sendo reducionista por excelência, a imprensa isola os acontecimentos do âmbito em que eles possam afetar a experiência do leitor. A  necessária concisão, novidade, e a falta de conexão entre uma informação e outra são como que pilares do jornalismo, e contribuem para aquele resultado primeiro, do mesmo modo que a paginação e próprio estilo linguístico. Em conclusão é próprio do periodismo tolher a imaginação dos leitores.

            Meu caro André, é bastante claro que a imprensa não busque nenhuma ampliação da experiência do leitor, aliás, um papel que não lhe pertenceria, mas, sim à literatura. Eu teria alguns reparos a este conceito de que o estilo jornalístico tolhe a imaginação dos leitores, pois não acredito que se possa absolutilizá-lo. Muitos escritores utilizam-se de notícias de jornal para exatamente aguçarem o seu sentido criativo. Cito dois que me veem à mente: de Poe e Dostoievsky. É claro que se trata de leitores especiais, mas não são assim tão raros no mundo.

O caso Dreyfus e o anti-semitismo

  • Marcel Proust engajou-se na defesa da revisão do caso Dreyfus. Hoje, passados alguns anos, a grande divisão em nossa sociedade ocorre entre os anti-militaristas, também chamados de pacifistas e os nacionalistas, igualmente identificados com o militarismo. Seria esta divisão herdeira daquela ocorrida entre os dreyefusitas  e os anti-dreyfrusistas, de tão recente passado? 

            Acredito que o militarismo de hoje e o anti-dreyfusismo se interpenetram. Acompanhando o desenvolvimento deste “affair”, como diria Odette, chegaremos, muitas vezes com os mesmos atores, às  vezes em papéis invertidos, às verdades e às contra-verdades que entre si opõem hoje os componentes da Liga da Pátria Francesa- que urgem por soluções militares em todos os conflitos- e os intelectuais e os trabalhadores dos Direitos do Homem, divisão esta que se propaga de fato, desde o alto até as profundezas do povo.

            Dreyfus era um capitão agregado ao Alto Comando do Exército. Em 1894 ele foi preso acusado de espionagem para os alemães. Como mais tarde se comprovou, o  fulcro da questão consistia em Dreyfus ser judeu, não em haver sido agente dos “boches”, mas sua acusação tinha como pano-de-fundo o antissemitismo, já denunciado pelo “Le Figaro” em 1891; encobria também toda uma concorrência por cargos e dinheiro na sociedade e nas Forças Armadas. O capitão fora escolhido como o “bode espiatório de Abraão”.

  • Sr. Proust, a questão judaica é diferente na França quando comparada aos países da Europa Central. Lá o antissemitismo é muito mais aguçado, sendo que os  “progrooms” realizados contra os judeus e seus negócios ocorrem há quase um século, o que não ocorreu, pelo menos por enquanto na França. 

            Sem dúvida, os judeus franceses foram muito melhor absorvidos pela sociedade, como parte integrantes da nação, o que constitui uma realidade bastante diferente da vivida na Alemanha. Em meu livro, o príncipe de Faffenheim, embaixador do Imperador Guilherme e governador germânico do Reno, é o exemplar mais intransigente do antissemita radical, e, nos dizeres da sra. de Marsantes, um “antissemita em pessoa”, que dos rendimentos obtidos nas florestas e dos povoados onde se erguia o seu velho castelo, empregava-os para possuir cinco automóveis Charron, um palacete em Paris e outro em Londres, um camarote todas as segundas-feiras no Opera e outro às terças nos Franceses.

            O caso Dreyfus representou a  oportunidade política de ascensão do antissemitismo na França. De toda forma, passado o impacto dos primeiros anos, já por volta de 1897 e 1898, parcela importante da sociedade, incluindo intelectuais e dentre eles, Emile Zolá com o seu “J’Accuse” e oficiais do Exército como o corajoso coronel Picquart, solidarizaram-se com o capitão e exigiram que o caso fosse reaberto e a punição revista. Éramos então chamados “revisionistas”. Não coincidentemente, quase toda a aristocracia e a alta burguesia manifestava-se a favor do Alto Comando do Exército e pela punição do acusado, que, aliás, fora julgado em tempo recorde, condenado e degredado na Ilha do Diabo.

            Em determinado trecho de minha obra, o personagem sr. de Charlus reflete sobre este momento de grande polarização na sociedade: “Eu me sentia chocado de ver pessoas de minha família manifestarem todo o seu apreço por antigos anticlericais da Comuna, que seu jornal apresentava como anti-dreyfusistas, e cobrir de desonra um general bem nascido e católico, porém revisionista.”

            Num outro momento, Swann, que era semita por parte de mãe, explica ao Narrador o motivo do anti-dreyfusismo em praticamente toda a aristocracia decadente: “primeiro porque toda essa gente é antissemita...mas enfim, o que quer o senhor, todos eles pertencem a uma outra raça, pois não se tem impunemente mil anos de feudalismo no sangue. Naturamente eles acreditam que isto não pesa nada em suas opiniões.”

            A respeito do antissemitismo na burguesia, eu o exemplifico com Odette, mulher de Swann; ela temia que as origens de seu marido se voltassem contra seu Salão e apesar de ter afirmado crer na inocência de Dreyfus ao Narrador, roga que nunca mais se falasse na mesma em sua presença.  Quando Swann não estava presente (pois, após ter manifesta a “doença dos profetas”, mantinha-se  na defesa da revisão do caso), ia mais longe e fazia profissão de fé do mais ardente nacionalismo; aliás nisso só fazia seguir a Sra. Verdurin, em cuja casa se excitara e atingira uma verdadeira exasperação, sob a forma de um antissemitismo burguês exasperado e militante.           

            Somente para ilustrar uma das manifestações do antissemitismo, meu trabalho reporta uma exposição do Duque de Guermantes, a respeito da perda da eleição à Presidência do Joquey Clube: “Se um francês rouba, assassina, eu não me julgo obrigado, por ele ser francês como eu, a considerá-lo inocente. Os judeus, porém, nunca reconhecerão como traidor um de seus concidadãos, embora saibam muito bem que o é, e pouco se preocupam com as repercussões, donde se deveria expulsar todos os judeus do país.”

            A  esposa do duque, no entanto, dizia que para ela a questão antissemita não tinha nenhuma importância pela razão de que não possuia relações com judeus, mas achava intolerável que senhoras como as Durand ou Dubois ostentassem em suas sombrinhas o escrito: “Morte aos judeus”. E seu cunhado dizia que os jornais noticiavam ter Dreyfus cometido um crime contra a Pátria, mas que o crime era inexistente, pois o oficial teria cometido um crime contra a Pátria se houvesse traído a Judéia, porque ele nada teria a ver com a França.

  • Sr. Proust, em contra- partida às altas classes, o movimento pela revisão do caso Dreyfus, que admitia os judeus franceses como essencialmente franceses, com os mesmos direitos de todo cidadão livre, funda em Paris a Liga dos Direitos Humanos, defendendo os princípios de 1789, sendo a civilização e progresso seu lema. Como bandeira de luta encabeça a defesa de Zolá, que estava sendo processado por conta de seu veemente manifesto anti-militarista, o famoso J´Accuse.

            Sem dúvida a pressão social aumenta, começando pelos intelectuais,  sindicatos e por círculos militares cada vez mais extensos, fazendo com que os representantes da aristocracia decadente e da burguesia perdulária tornem-se minoritários. Ao final de 1898, sob grande pressão, o major Henry, forjador confesso das provas contra Dreyfus, suicida-se, comprovando-se que a farsa da espionagem era nada mais que isto, uma farsa antissemita. Nesta época de grande agitação, o Presidente da República, o respeitável sr. Fauré, faleceu de repente, quando estava pronto a decretar o indulto ao capitão Dreyfus. Em seu lugar assumiu o poder o sr. Lobet, antigo político que pese a ter estado envolvido com a quebra da Companhia do Panamá, era conhecido por suas posições a favor da revisão da punição a Dreyfus, e o indulto presidencial, finalmente, ocorre um ano após sua posse.

            O certo é que com o perdão presidencial a Dreyfus teve início a reversão de um processo em que os dreyfusistas passaram ao primeiro plano na política. “Em Busca do Tempo Perdido” reflete o que se viveu naquele momento, pois, de repente, na política sobravam apenas os dreyfusistas, visto que tiveram que adotar esse rótulo todos aqueles que desejavam participar do governo.

  • Ainda uma última questão a respeito dos semitas reportados em seu livro: Swann, como o senhor, era semita por parte de mãe, e é descrito como um diletante não isento de certo pedantismo, partícipe assíduo de todo mundanismo social, que sempre optou por parecer a ser;  Block, outro judeu,  é um esnobe e pedante, plagiador e covarde, pois foge ao recrutamento durante a guerra; seu tio,  um invertido muito rico,  vivia a perverter atendentes de hotel; Raquel era uma prostituta, interesseira e má. O senhor em nenhum momento  enobrece seus personagens semitas.

            Meus personagens, os modelos judeus, são compostos por seres humanos imaginados, tomados a diversos modelos recordados, tais como os outros modelos, os não judeus. Como todos, são humanos. Swann é um diletante, não é um criador, mas é capaz de enlevar-se com a música de Vinteuil e assim atingir sua verdade e sua essência; veja bem que ele somente defende a causa “judaica”,pois nada o liga ao “ethos” de sua raça, quando já se encontra às portas da morte. Block é um erudito, ademais de esnobe e covarde, mas extremamente dedicado ao pai e à família e isso o humaniza; Raquel é uma prostituta, vende-se por qualquer “luise”, mas com seu amor ao teatro e às letras contribui para humanizar um aristocrata, seu amante Saint- Loup. Todo ser humano é complexo e a alma humana é como um poço do qual não enxergamos o fundo, apenas ouvimos o marulhar da água.

            Finalmente, meu amigo, não enobreço grupo raciais pois somente seremos nós mesmos quando deixamos de pertencer a todo e qualquer grupo. Devo, entretanto, reconhecer que os judeus constituem um raça forte de enorme energia vital e resistência à morte. Acometidos cada qual de doenças particulares como a raça já o é pela perseguição, debatem-se eles indefinidamente em agonias terríveis que podem prolongar-se além de todo limite verossímel, quando nada mais se vê que uma barba de profeta dominada por um nariz incomensurável, que se dilata para aspirar os haustos antes da preces rituais.

A guerra e a paz

  • Sr. Proust, em 1914,  na Europa, vivemos um momento de grande tensão entre as nações, que, provavelmente nos levará à guerra. Também em “Em Busca do Tempo Perdido”, as soluções , ou melhor, as limitações diplomáticas são analisadas, os conflitos entre os que desejam e os que não desejam a guerra também o são. Após o movimento pela “revisão do caso Dreyfus” o senhor também se engajou no movimento pela paz.

            Meu caro André, os homens, sem mesmo que o percebam, são como que arrastados pela imensa revolução da Terra, da Terra sobre a qual são bastante loucos para continuarem suas próprias revoluções, suas guerras vãs, como aquela que ensanguentará a França. Creio que sempre aqueles que em todos os confrontos buscam alternativas de força como solução nacional têm um prazer insólito em intitularem-se patriotas. É uma forma de acusar de impatriotas e traidores todos aqueles que buscam alternativas no diálogo, na defesa dos direitos do homem, e que insistem em alternativas que permitam aos povos sentirem que as soluções encontradas devam ser  justas para ambas as partes, e que existe sempre uma alternativa política e humanista à beligerância.

            Falando de minha obra, o sr. de Charlus, um aristocrata decadente, é também um indivíduo excepcional, dentro de suas diversas facetas. Por um lado, dotado de raras qualidades morais, sendo acessível à piedade, generoso, capaz de afeto e devotamento; pelos mais diferentes motivos, ele era desprovido daquele tipo de  patriotismo. Talvez por ser extremamente requintado;  já os tolos, os grandes patriotas, estes constituem maioria em todos os países. É claro que se o barão de Charlus vivesse na Alemanha, os tolos de lá, defendendo com tolice e paixão uma causa injusta, o teriam irritado; mas vivendo na França, os tolos franceses, defendendo da mesma forma uma causa justa para eles, não o irritavam menos.

            Os civis sempre imaginam que a guerra é como uma gigantesca luta de boxe, à qual podem assistir de longe, graças aos jornais. Mas estão redondamente enganados. A beligerância é como uma doença que quando parece debelada num ponto, reaparece em outro. Nesse sentido, perder o caminho não é nada; o pior é não mais conseguir encontrá-lo.

            O povo é de índole pacifista; se é guerreiro, o é instintivamente por ódio, por rancor, e não pelos motivos que movem os estadistas. Os historiadores, se não erraram em desistir de explicar os atos dos povos pela vontade dos reis, devem substituí-la pela psicologia do indivíduo, do indivíduo medíocre. A lógica da paixão, mesmo estando a serviço do mais justo direito, jamais é irrefutável para aquele que não esteja apaixonado. O sr. de Charlus, com sabedoria, perdoava com finura cada raciocínio falso dos patriotas, mas sentia-se exasperado pelo otimismo triunfante de pessoas que não conheciam como ele a Alemanha e sua força. Na verdade, a satisfação causada a um imbecil pelo seu direito e pela certeza de seu êxito é extremamnente irritante. Assim o eram aqueles que adotavam a guerra.

            Agora, falando-se em diplomacia e diplomatas, o sr. Norpois jamais desejara se comprometer com posições claras e definitivas, o que aliás é próprio da diplomacia. Em determinado momento ele diz: “Certamente é necessário dar um basta às manobras anti-militaristas, mas também não devemos passar por alto as agitações provocadas pelos elementos de direita que, em vez de servirem à ideia patriótica, sonham em servir-se dela. A França graças a Deus não é uma república sul-americana e não se faz sentir a necessidade de um general de pronunciamiento.”    

  • A guerra que tanto tememos, parece-nos agora uma realidade quase que inevitável, e, talvez a qualquer hora podemos ter que enfrentar o Império Austro-Húngaro e o Alemão.

            A guerra é uma realidade monstruosa que se reproduz por si mesma, uma vez iniciada. Ela não escapa às leis de nosso velho Hegel, pois está em perpétuo devir. Aqueles que viveram a guerra de 1870, por exemplo, dizem que a ideia da guerra acabara por lhes parecer natural, não porque não pensassem muito nela, mas porque pensavam nela sempre. E para compreender o quanto a guerra é um fato estranho e considerável era necessário que, arrancados à sua obcessão permanente, esquecessem por um instante que a guerra imperava e voltassem a sentir-se como eram em tempos de paz, até que, de repente, nesse branco momentâneo, se destacasse, afinal distinta, a realidade monstruosa que desde há muito eles tinham deixado de ver, por não verem outra coisa senão ela, a carnificina humana.

            Em algum momento, o personagem Robert de Saint-Loup, como militar, compreendia a extensão dos desastres que  uma guerra hoje traria para todos os lados beligerantes, comparativamente às travadas no passado: “Basta pensares no que seria uma guerra hoje. Seria mais catastrófica do que o Dilúvio e o Crepúsculo dos Deuses. Apenas que duraria menos tempo”.

(OBS.: Esses  depoimentos foram dados pelos sr. Proust em 1914, três meses antes do assassinato na Sérvia do arqui-duque Ferdinando e o princípio das belicosidades da Primeira Guerra Mundial. Já aqueles  a seguir, foram-me fornecido durante a guerra, em 1916.)

            Meu caro André, se a princípio essa mortandade já se anunciava catastrófica, mas de curta duração, hoje, infelizmente, dela não se pode prever um fim, tão somente mais e mais mortes e destruição. Até o momento em que o socialista Jean Jaurés foi covardemente assassinado pelos militaristas franceses, em julho de 1914, eu ainda julgava possível que ela pudesse ser evitada ou abreviada...Entretanto, o que vemos hoje é em cada regimento de retaguarda um oficial francês a preparar os franceses para a carnificina, quer dizer, para a guerra! Estranha e triste época!

            Na verdade que a cada  manhã a guerra é novamente declarada. Portanto, aquele que pretende prossegui-la é tão culpado quanto o que a principiou, talvez até mais, pois o primeiro não lhe previa todos os horrores. O sr. de Charlus, a respeito do conflito diz: “Deus sabe que ninguém protestou com mais energia que eu quando se conferiu um lugar exagerado aos nacionalistas e aos militares na sociedade, quando todo amador das artes era acusado de se ocupar de assuntos funestos à Pátria, considerando-se deletéria toda civilização que não fosse belicosa. Um legítimo homem de sociedade pouco valia comparado a um general. Ora, nossos nacionalistas são os mais germanófobos dos homens, os mais radicais. De fato eles incitam a continuação da guerra, com o subterfúgio de apenas “exterminar uma raça belicosa” e dizem que o fazem “pelo amor à paz”. Pois não é que uma civilização guerreira, a qual admiravam há quinze anos, agora lhes causa horror? Por seu lado, a Alemanha emprega as mesmas expressões que a França, que “luta pela existência”, pelo seu “espaço vital”, que é obrigada a se “bater contra um inimigo implacável e cruel” até obtermos uma paz que nos garanta o futuro a salvo de qualquer agressão, pois quem não está conosco, está contra nós ”.

            No lado oposto ao sr. de Charlus, o sr. Bontemps, o “panamista”, era do time patriótico que não queria nem ouvir falar de paz sem que a Alemanha fosse reduzida à mesma fragmentação que na Idade Média, sem que se declarasse a degradação da casa dos Hohenzollern, e Guilherme II levasse doze tiros. Isto constituia para este político o seu melhor “brevê de civismo”. Acontece que por esta época, quando o sr. Bontemps externava esse patriotismo excelso,  já se sabia que a França não poderia ser vencida e que os alemães passavam fome e que, mais cedo ou tarde, teriam que se render sem impor condições. Pessoas com o sr. Bontemps quando falavam do “aniquilamento” da Alemanha, era daquelas pessoas que o sr. de Charlus tão bem conhecia pelos seus defeitos e canalhices.

  • Entre nós franceses existiu e ainda persiste nestes anos de guerra, uma tendência a julgar a Alemanha e os alemães como um povo destituído de humanidade, tal o nível de perversidade, por exemplo, aplicada pelos invasores à Bélgica.

            Meu caro, o fato é que semelhante perversidade não é absolutamente intrínseca à Alemanha. As atrocidades na Bélgica são reais, mas não nos podemos enganar diante de um mesmo fenômeno, que sempre se faz acompanhar por teorias como a da impossibilidade da raça judia em se naturalizar, do ódio perpétuo da raça alemã contra a latina ou da reabilitação momentânea da raça amarela.           

            Mas falemos um pouco sobre os generais, aqueles, que ao contrário dos políticos, comandam as batalhas e já não percebem, depois de muito tempo, o que pode haver de moral ou imoral na vida que levam, porque essa é a do seu meio. Assim, quando estudávamos certos períodos da História Antiga, espantava-nos saber que criaturas individualmente boas participavam sem escrúpulos de assassinatos em massa, de sacrifícios humanos, que, provavelmente, pareceriam-lhes coisas naturais. Sem dúvidas a nossa época, para quem ler a sua história dentro de dois mil anos, dará a impressão de haver mergulhado certas consciências sensíveis e puras num meio vital que surgirá sendo monstruosamente pernicioso.

  • Dizem que a guerra é uma ciência, que seus movimentos são científicos, previsíveis, muitos deles definidos por um alemão chamado Clausevitz. Seu personagem Saint-Loup reporta a Marcel diversos enfoques sobre o positivismo da “ciência chamada guerra”.

            A guerra é, antes de tudo, humana, vivida como um amor ou um ódio e até poderia ser narrada como um romance. Por conseguinte, se este ou aquele vai repetindo que a estratégia é uma ciência, isto em nada o ajuda a compreender a guerra, pois esta não se resume à estratégia. Caso a guerra seja considerada como um tipo qualquer de ciência será catalogada como aquela que destrói homens, seus sonhos e suas realizações, frutos de seus sonhos de um mundo mais “humano”. Marcel relata uma carta recebida de Gilberte, que regressara a Tansoville, palco da guerra, com risco de vida, mas na defesa de suas propriedades, impedindo sua devastação. Ela relata a destruição dos ambientes que haviam sido tão importantes como partes dos reinos “mágicos” e protegidos da infância do Narrador. Méséglise estava destruída, ao custo de mais de seiscentos mil homens, a ponte sobre o Vivonne, detonada; posteriormente, Charlus irá contar-lhe a destruição da igreja de Combray, cujos vitrais tanto lhe haviam inspirado na construção de imagens de tempos gloriosos. Os próprios franceses a haviam implodido para que não se prestasse como ponto de observação para os alemães.

  • O senhor tocou num outro ponto importante que é destruição, em todas as guerras de obras de arte, de produções seculares do gênio humano que jamais serão recuperdas.

            A destruição do patrimônio artístico e histórico da humanidade é uma constante em todas as guerras, em todos os tempos. Quantas cidades inteiras já desapareceram e quantas, como Méséglise ainda desparecerão? Entretanto, o mais grave é o vandalismo entre os próprios homens. Coloco na boca de Charlus a questão do vandalismo praticado com as estátuas destruídas. E ele mesmo questiona o vandalismo ainda mais cruel, que é a destruição de tantos rapazes maravilhosos, que eram estátuas policromadas incomparáveis, pois o Belo, ainda que seja numa matéria viva, ainda é o Belo. Ainda Charlus, a respeito da estátua de São Firmino, na Catedral de Amiens, com seu braço erguido e hoje talvez quebrado, num gesto quase militar dizia: “Que sejamos partidos, se a honra assim o exige. Mas não sacrifiqueis os homens às pedras, cuja beleza provém justamente de ter, em certo instante, fixado verdades humanas”.

  • Todo o aparato militar tem sido revolucionado como nunca.Talvez, exatamente por isso,  essa guerra seja a mais mortífera e destruidora de toda a História moderna. Além dos zepelins, o papel dos pequenos aviões e seus aviadores, essas “estrelas novas”a dominarem por toda a noite os céus. O sr. de Charlus denominava-os heróis, “apesar de derramarem suas bombas sobre civis, pois arriscavam-se o tempo todo a serem metralhados pela bateria anti-aérea”.

            A realidade original de um perigo só é percebida nessa coisa nova, irredutível ao que já sabíamos, chamada impressão. Ou seja,  acho que essa é a problemática de toda novidade, que esconde o potencial, no caso, da destruição que comporta. O contra-ponto à fala do sr. Charlus é dada pela ponderação de Marcel quando ele se pergunta se tratava mesmo de aviadores ou antes de Valquírias, guerreiras aladas, mensageiras da destruição, que subiam aos céus. Ora, é que a música das sirenes, que acompanhavam cada ataque é uma Cavalgada Wagneriana. Uma cavalgada para o inferno. E o melhor exército será aquele que mais olhos tiver nos céus a voar.

            Sobre a paz, que um dia chegará, em um de próximos volumes de meu romance, a ser editado quando toda a bestialidade acabar, Marcel relatará uma carta recebida do front e escrita pelo oficial Saint-Loup, pouco tempo antes de tombar, heroicamente, morto. Robert combatera exemplarmente os alemães, mas jamais homem algum tivera menos que ele ódio a um povo, muito menos ao germanismo e na última visita que fizera ao Narrador, chegara à casa deste cantando uma das lieds de Schumann. Em sua carta dizia : “Ora, sabemos que alcançaremos a vitória, e queremo-la para ditar uma paz justa, não digo unicamente justa para nós, mas verdadeiramente justa, justa para os franceses, justa para os alemães”.

            Eu asseguro-lhe, meu querido, que se a paz, quando chegar, não for uma paz justa, mas se o que se estabelecer for o “justo”apenas para o lado vencedor, mas vexatório e injusto para o vencido, uma nova e ainda mais mortífera guerra nos aguardará num futuro próximo. O sr. de Charlus diz que nossos políticos não conhecem a força da Alemanha, a virtude da raça prussiana. A paz já inaugurará o tempo para um novo desastre!

  • Seu livro deixa claro que a guerra não afeta as pessoas de modo idêntico, muito ao contrário. As multidões de desempregados, desocupados, desiludidos, que haviam sido incorporados ao exército e que, muitas vezes, nem mesmo retornavam das trincheiras foram sempre os mais afetados. Seus corpos lá permaneciam; outros voltavam e a multidão, que antes era formada por pessoas sem emprego, agora disputava espaço com os mutilados. Ao mesmo tempo, nas altas rodas, o desastre que era a guerra apenas suscitava atitudes hipócritas, esnobes e pedantes.

            Comecemos pelos mais destroçados pela máquina humana da morte, os que não morreram mas voltavam mutilados,  milhares deles, essa era uma realidade que nos estorvava a cada instante, que só eram “lembrados” pelos burgueses e aristocratas nos chás beneficentes: “a caridade nas altas esferas era destinada aos mutilados de guerra. Proliferavam os chás  em que se “obrigava” as damas de altos turbantes a permanecerem às mesas de bridge, comentando as notícias do front, enquanto esperavam-nas seus carros, onde um militar conversava com um lacaio.”  Ou seja, como desvirtuada de sua grandeza humana, a caridade aos multilados foi transformada em esnobismo social.

            À hora do jantar, os restaurantes estavam sempre cheios; e se passeando pela rua Marcel via um pobre soldado de licença, livre por seis dias do risco da morte, e prestes a voltar às trincheiras, deter os seus olhos por um instante nas vidraças iluminadas, ele o sentia sofrendo como os pescadores que em Balbec observavam-no a comer com sua avó no Grande Hotel. O soldado, porém, sofria mais, pois ele sabia que sua miséria era ainda pior que a dos pobres, mesmo porque ela abrangia todas as misérias, sendo até mesmo mais tocante e mais nobre por ser resignada. Sacudia a cabeça, pronto para retornar à guerra, murmurando ao ver aqueles que, por possuirem um emprego civil e “padrinhos” escapavam do recrutamento e acotuvelavam-se para obterem lugares às mesas do jantar: “Nem se diria que existe guerra por aqui”, era tudo o resmungavam e seguiam com o estômago vazio e a boca com um travo amargo.

  • O senhor explora de um modo satírico e cortante os negócios humanos, os afazeres e o esnobismo das elites mundanas durante a guerra. Podemos reproduzi-los resumidamente?

            Os negócios não sofreram interrupção durante a guerra, apenas mudaram de patamar e de estilo. As damas nobres e ricas  pelo senso das conveniências e medo dos impostos  trocavam suas mousselines por roupas mais modestas, ao passo que os homens da bolsa de valores não cessavam de adquirir diamantes, não para suas esposas ou amantes, mas como refúgio em uma riqueza palpável. Então quando as pessoas de posses correm para suas adegas, não fazem para trazerem alguma garrafa antiga de Mouton-Rothschild ou de Saint- Émilion, mas para esconder o que eles possuem de mais precioso, da mesma maneira como os padres de Herculano, surpeendidos pela morte no momento em que transportavam os seus vasos sagrados. Muitas vezes aqueles que tinham posses terminavam suas vidas soterradas pelas explosões, pois é sempre o apego ao objeto que conduz à morte o seu possuidor.

            Mas os Verdurins seguiam com seus jantares das quartas-feiras mesmo com os alemães a uma hora de Paris. A eles associara-se a esposa do Ministro Bontemps de tal modo que nas altas rodas dava-se a mesma banalização do conflito, o que ocorrera em 1870, reproduzindo-se em 1916.  A diferença é que as damas do Primeiro Diretório possuiam uma rainha que era jovem e bela e chamava-se madame Tallien. Já as do Segundo tinham duas cetáceas velhas e feias, as sras. Verdurin e Bontemps.

            A  Verdurin ainda sofria de suas enxaquecas por não mais ter croissants, pois com a guerra estava muito difícil de consegui-los. Mas o dr. Cottard conseguira uma receita e a aviara em determinado restaurante; então ela saboreou o primeiro croissant na manhã em que os jornais noticiavam o naufrágio da nau Lusitânia. Mergulhando o biscoito no café com leite e dando piparotes no jornal para mantê-lo bem aberto sem o auxílio da outra mão, que segurava o croissant, dizia: “Que horror! É a mais terrível das tragédias!”. Mas a morte de todos aqueles afogados só deveria lhe surgir reduzida a um bilionésimo, pois, enquanto fazia de boca cheia essas reflexões desoladas, sua fisionomia estampava, provavelmente devido ao sabor do biscoito, um ar de suave satisfação.

            Por outro lado, o Louvre estava fechado e quando se lia na manchete de um jornal: “Uma exposição sensacional”, podia-se ter certeza de que se tratava não de uma exposição de quadros, mas de vestidos. Deste modo, nos tempos de guerra é que voltava a elegância, que na falta das artes, buscava se desculpar no prazer. Assim procediam em 1916 os costureiros, com orgulhosa consciência de artistas e confessavam que, procurar o novo, afastar-se da banalidade, afirmar uma personalidade significava  preparar a vitória, libertar uma geração pós-guerra, e que isso era uma nova forma do belo e se empenhavam com toda a alma. A palavra de ordem em seus salões alegres e luminosos era apagar as “pesadas tristezas da ocasião”, embora mantendo a discrição imposta pelas circunstâncias.          

            Era assim, pensando nos nossos combatentes no fundo das trincheiras, que sonham com o conforto de suas queridas ausentes, diziam “não cessaremos de caprichar na criação de vestidos, sobretudo à moda inglesa, em que  impera a loucura pelo vestido-tonel, com beleza e simplicidade”.  Assim falavam essa novidade da modernidade, os estilistas da alta moda, banalizadores da carnificina. E quando a possibilidade de vitória é visualizada, agora então toda a moda passa a ser influenciada pela guerra; surgem as  túnicas egípcias retas, escuras e ao gosto militar, altos turbantes cilíndricos, sapatos atados por correias, lembrando coturnos, ou longas polainas como a dos combatentes, anéis e braceletes feitos de obuses.

            Estamos no reino da Grande Meretriz, daquela a quem todo mundano segue seus ditames, a sua Alteza Imperial, Sua Majestade, mais conhecida como a Moda. De fato, a moda é constituída pelo capricho de uma série de pessoas, dentre os quais os Guermantes, que anteriormente à guerra eram os mais representativos. São superados, entretanto, pela alta burguesia com seus costureiros, desfiles e exposições, tornando o modismo, por assim dizer, mais “democrático”, pois republicano.

  • Quando o senhor expressou o olhar do soldado faminto nos boulevares parisienses , fez-me recordar “Os Olhos dos Pobres de Baudelaire”, quando um casal apaixonado encontra-se num café elegante de um boulevar, onde ninfas e deusas arranjavam pilhas de frutas e guloseimas, e, através da parede de vidros são vistos por uma família de famintos em andrajos, que sem agressão, sem ressentimento, olham o casal, num olhar de triste resignação, tal qual o do soldado. Mas o mancebo sente-se tocado e quando olha para a sua querida lê em seu olhar: “Essas pessoas de olhos esbugalhados são insuportáveis! você não poderia pedir ao gerente que os afastassem daqui?” Igualmente aos pobres de Baudelaire, os simples soldados eram mal vistos quando olhavam, sem poderem provar as delícias servidas pelos restaurantes da cidade quase sitiada, àqueles privilegiados que além de se evadirem do combate ainda possuiam dinheiro para se divertir!

            Foi de Baudelaire a inspiração tanto desta quanto da cena semelhante que ocorre no Grande Hotel de Balbec, que citei acima, antes mesmo de toda a desgraça da guerra, mas que agora você me fez recordar. A iluminação do salão principal de refeições do hotel parecia um grande e maravilhoso aquário.  Diante de sua parede de vidro a população operária de Balbec, invisível na sombra, comprimia-se contra o vidro para olhar a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária para os pobres como a de peixes e moluscos num aquário. Uma grande questão social se abria naquele então:  o vidro protegeria para sempre os privilegiados ou aquela pobre gente que olhava avidamente dentro da noite não viria colhê-los em seu próprio aquário e devorá-los? E essa questão continua tão em aberto hoje quanto o foi no passado, meu caro André.

  • Os aquários dos privilegiados proliferaram até mais rapidamente durante a guerra, pois a Senhora Matança, além de sê-lo em si mesma uma monstruosidade, é ainda uma matriz prenhe a criar rebentos pavorosos. Agora me vem à memória a imagem mítica da Quimera, a criatura gerada por Tifon, o monstro maior. Quimera,  parte mulher, outra fera, com o bafo de fogo a conspurcar e desvirtuar tudo o que encontra de humano, é um desses filhos malditos da Guerra. Destrói a alma daqueles aos quais ao corpo não logra alcançar. Para nossa infelicidade, já não vivemos nos tempos míticos, por isso não possuímos um herói, um Belerofonte, que possa destruir a Quimera aniquilando-a com seu próprio veneno; somente  nós mesmos, a humanidade podemos encontrar os remédios que não somente nos afaste da guerra, da besta-mãe, mas também descobrir antídotos para as monstruosidades da filha quimera, que  perverte os espíritos mais insensíveis e soberbos da sociedade. Sr. Proust, o senhor acredita na possibilidade de existência de uma sociedade mais democrática e mais igualitária?

            Certamente. Poderia parecer que numa sociedade que fosse mais igualitária, a polidez desapareceria, não por efeito da educação, mas sim, pela ausência da deferência devida  por uns ao prestígio das classes superiores, que, aliás, para ser eficaz deve ser imaginário. Para outros, a amabilidade num mundo baseado na igualdade cairia a zero, como tudo aquilo que se escora num padrão financeiro. Entretanto, veja que o desaparecimento da polidez numa sociedade nova também não é seguro, mesmo porque temos a tendência de crer que as concessões atuais e o estado do momento vivido sejam os únicos possíveis. Excelentes espíritos acreditaram que uma república não poderia ter diplomacia e alianças, que o campesinato não suportaria a separação da Igreja e do Estado. Afinal, a polidez em uma sociedade igualitária não seria um milagre superior ao que foi o uso militar do aeroplano ou o sucesso das estradas de ferro. Além disso, se ela desaparecesse, nada prova que isto seria uma desgraça para o homem.

            Uma sociedade que fosse verdadeiramente democrática não mais seria secretamente hierarquizada. Acho também que os antigos, aqueles dos tempos clássicos, não amavam menos intensamente o grupamento humano a que se devotavam porque este não excedia os limites da cidade, nem os homens de hoje amam menos a sua Pátria do que aqueles que amarão os Estados Unidos de Toda a Terra.

As inovações e as agressões à natureza

  • Sr. Proust, desde as duas últimas décadas do século passado o mundo é revolucionado pela ciência e as inovações  tecnológicas acontecem em tempos cada vez mais curtos. Em sua obra algumas dessas invenções têm enorme importância, como as raparigas em flor que desfilam com suas bicicletas em Balbec, os românticos passeios de Marcel com Albertine em um automóvel alugado, os treinamentos de Albertine com um aeroplano, os planos de aquisição de Marcel de um carro e de um iate- o Cisne- para disfrutá-los com Albertine, a iluminação elétrica nas casas , nos teatros, nos cafés, nos restaurantes e boulevares. Enfim, vivemos momentos insuspeitados até um passado recente e nem imaginamos até onde a inventividade e a ciência ainda poderão nos levar. O sr. vê algum limite a tanto desenvolvimento?

            André,  todos esses frutos da modernidade têm sido incríveis e eles criam costumes outros, libertam as pessoas, deixam o mundo ao alcance das mãos. Na listagem que você enumerou,  esqueceu-se de incluir um dos mais importantes, a fotografia e as câmaras cinematográficas, que permitem fixar a qualquer momento um acontecimento. Sabe, adoro as fotografias, e as coleciono em quantidades; muitas características físicas e mesmo  algumas  psicológicas de meus personagens surgem do estudos de fotos antigas que possuo. As fotografias, de um modo único, podem se apoderar de coisas transitórias que têm o direito a algum lugar na memória, como se fossem um objeto de percepção. Como diz Marcel, a foto ganha um pouco da dignidade que lhe falta- em relação à pintura- “quando deixa de ser reprodução da realidade e nos mostra coisas que não existem mais”.

            O telefone, não sei se você sabe, no início de sua invenção, era um teatrofone. Que privilégio escutar à distância um concerto ou uma ópera estando em seu lugar de conforto, sem precisar incomodar-se indo a um teatro! Em 1911 eu assisti pelo teatrofone a árias de “Pelleas e Melisandre”, na orquestração do próprio  Debussy. Se hoje  existem mais de cem mil aparelhos telefônicos espalhados por Paris, há apenas dez anos  esse número não passava de dez ou vinte mil.

             Tento, em minha narrativa, de certa forma, transmitir a sensação do maravilhoso, do mágico, que a princípio, um telefonema simbolizava. Denomino de “as Virgens Vigilantes” as telefonistas, cuja voz podemos ouvir sem jamais conhecer-lhes o rosto, e que são anjos da guarda nas trevas vertiginosas cujas portas vigiam com ciúmes. São as Todo-Poderosas por fazerem surgir  ao nosso lado a voz dos ausentes; as Danaides do invisível que sem cessar esvaziam, voltam a encher e transmitem as urnas de sons; as irônicas Fúrias, que no momento em que murmuramos uma confidência a uma amiga nos dizem: “Estou ouvindo!” Enfim, as servas sempre irritadas do Mistério, as desconfiadas sacerdotizas do Invisível, as Senhoritas do Telefone!

            Agora, as bicicletas. Na minha juventude, a sua utilização inaugurou não somente uma era de mais liberdade, da  busca da velocidade, mas também de culto ao físico; as raparigas em flor que você citou  são personagens que ecoam todas estas conquistas, inclusive um início de ruptura com um preconceito social machista.

            O invento maravilhoso do automóvel, um quadricículo movido a gasolina que tornou a locomoção elegante, cômoda e ainda mais rápida. Hoje as pessoas viajam constantemente, as estradas recebem pavimentação ou as ferrovias cortam os caminhos com seus trilhos de aço, conectando até mesmos países diferentes. Sei que somos todos obrigados, para suportar a realidade,  alimentar algumas pequenas  loucuras, mas é o preço a pagar pelo progresso, por tanta novidade.

  • O senhor já se referiu ao mundo como uma criação perpetuamente recomeçada. Ela ocorre, necessariamente, todos os dias, e, a uma velocidade cada vez mais alucinante, diria eu. O progresso, dizia certo filósofo, seria como o “anjo da história” que não avança dialeticamente para o futuro, pois tem seu rosto voltado para o passado. Onde aparece para nós uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que continua a amontoar destroços e os arroja a seus pés. O anjo gostaria de se deter, despertar os mortos e reunir o que foi despedaçado...Mas está soprando uma tempestade no Paraíso e isto impele-o à frente, enquanto um monte de ruínas cresce às suas costas em direção aos céus. O que esse alemão denomina progresso é essa tempestade.

            O sr. de Charlus nos diz que tudo o que nos parece imperecível tende à destruição; uma situação mundana, como qualquer outra coisa, não é criada de uma vez para todas, mas exatamente como o poderio de um império, e reconstrói-se a cada instante por uma espécie de recriação contínua, o que explica as aparentes anomalias da história política de meio século. A criação do mundo não teve lugar no começo; ela ocorre todos os dias.

            E, finalmente, até onde poderemos caminhar no progresso, nessa tempestade que sopra do Paraíso e que tanto estimula o nosso heroico Fausto? Até onde poderão os negócios humanos explorar recursos desta natureza já um tanto cansada? Em meu livro, Marcel pondera: “As pessoas em geral se entregam a seus prazeres sem jamais pensar que, cessando as influências estiolantes e moderadoras, a proliferação dos infusórios atingiria o seu máximo, ou seja, terminariam tendo destruído todo o oxigênio, todas as substâncias de que vivemos; e que não haveria mais humanidade, nem animais, nem terra; ou sem calcular que uma irremediável e muito verossímel catástofre poderá ser determinada no éter pela atividade frenética e incessante que se oculta sob a aparente imutabilidade do sol: ocupam-se de seus negócios , sem pensar nesses dois mundos, um pequeno demais, outro demasiado grande para que se apercebam das ameaças do cosmos que pairam sobre nós.”

            Mas paremos por aqui pois não temos qualquer necessidade de falarmos mais dos políticos, dos mundanos ou de guerras. A literatura é o nosso campo e é um campo muito fecundo. Renan diria que sofremos de morbo-literarismo, o que é um absurdo. A má literatura tolhe, mas a verdadeira nos permite conhecer a parte desconhecida da alma, pois nunca se deve ter medo de ir cada vez mais longe, pois a verdade está sempre mais além.