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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo II- Personagens Proustianas



Uma breve reflexão

            Senhor Proust, muitos leitores se decepcionam num primeiro contato com seu livro porque estão acostumados a buscarem na leitura tradicional a lógica de cada personagem. Acontece que suas personagens não possuem uma lógica formal, exterior. Elas são figuras de ficção que preservam uma lógica, sim, mas é interna, como um fio condutor de sua psiquê, dentro da “multiplicidade de seus eus”. É preciso deixar-se envolver neste universo psicológico para deleitar-se com os atores de seu romance.

            Outro aspecto vale a pena ser ressaltado. Seus personagens possuem tal qual o afresco de Giotto, seus “Vícios e Virtudes”, mas o leitor jamais poderá cair na tentação de considerar que qualquer um deles seja representativo de determinados vícios ou de certas virtudes, muito menos, individualmente, do mal ou do bem. É por isso que teremos personagens ciumentas, mas que não encarnam o ciúme; assim como outras que serão homossexuais, sem serem protótipos do homossexualismo; outras ainda, más, mas com atitudes de solidariedade humana. Talvez por esse motivo, eles poderão parecem estranhos, pois nos acostumamos aos romances mais tradicionais, onde o cada ator é um protótipo de uma virtude ou um vício.

            Sabemos que não existem separações arbitrárias que distigam infância da adolescência e, mesmo, esta, da juventude. No caso específico de seus atores, tal tarefa torna-se ainda mais complexa,  pois o senhor descreve cada um deles à exaustão, mas jamais chega a defini-los, a  determinar com clareza suas faixas etárias. O menino Marcel não é bem uma criança; ele, adolescente, já é admitido em círculos somente destinados a adultos; tem  onipresença garantida em todos os círculos sociais; suas paixões, quando ocorrem, fazem-no num tempo que é mais psicológico que biológico.

            Finalmente, na minuciosa explicação das características físicas de seus atores, determinados  sinais corporais  agrupam-se e a eles correspondem determinados tipos de comportamento; no decorrer do tempo, como tudo se altera, se deteriora, as “máscaras” que cada personagem social “vestirá”  importará em modificações tanto  fisionômicas como  comportamentais e psicológicas. Como o próprio Montaigne dizia: “Nada é mais verossímel que a conformidade do corpo ao espírito e às relações entre eles.”

            Após esta introdução, dedicada aos novos leitores, creio que já podemos realizar as devidas apresentações. Comecemos pelo núcleo familiar do Narrador.

O Narrador e seus familiares

  • A vida rememorada inicia-se com a frase “durante muito tempo, deitava-me cedo”, o que indica um tempo passado e indefinido. Contrariamente ao que se poderia presumir, esse hábito não ocorria em Paris, onde residia Marcel com os pais, mas na casa onde sua família passava as férias, no vilarejo de “Combray”. Para este cenário, estarão reservados os episódios de uma primeira infância do Narrador.

            Como num prelúdio temos a ansiedade, fruto do apego do Narrador à mãe, reflexo de sua necessidade vital pelo carinho e atenção, que serão uma constante por toda a sua vida; mas com o levantar das cortinas de um primeiro ato, a memória afetiva do Narrador o transporta à antiga casa cinza de sua tia Leonie, no vilarejo de Combray, com seus quartos e sala, lindo jardim com todas as flores de verão, os portões por onde se ia até a praça e daí, aos aos dois caminhos: um que conduzia a Tansoville, onde estão as flores dos jardins de Swann e o outro para os lados de Guermantes, onde o rio Vivonne, no seu eterno correr, abriga, tal qual nos quadros de Monet, suas lindas ninféias.

             Tia Leonie, a proprietária da casa, é a típica representante da burguesia provinciana, alheia a tudo o que não correspondesse ao seu restrito mundinho. Exatamente por isso, possuía uma absoluta necessidade de manter sob controle não somente os hábitos domésticos da família, como o de todos os habitantes do vilarejo. Desde que seu marido morrera, ela optara por auto isolar-se fisicamente da sociedade; essa auto-exclusão principiara saindo de casa apenas para ir à igreja e vice-versa; passado algum tempo, optou por não mais sair e depois, todo o seu espaço caseiro reduziu-se a apenas dois aposentos, de onde, entretanto, mantinha um ponto privilegiado de observação da vizinhança, a ampla janela de seu quarto, sua abertura para o mundo. Somente duas coisas lhe interessavam manter a mão: remédios para a saúde precária e os missais para a alma, que lhe garantiriam a eternidade. Conhecia perfeitamente os horários de cada obrigação e dizia que dormia muito pouco, o que talvez até fosse verdade. Ao mesmo tempo em que se recolhia, foi deixando de receber visitas, e as notícias do mundo lhe chegavam através de Françoise e Eulalie, atual e antiga serviçais.

  • De certa forma, esse comportamento prenunciará, num tempo ainda muito distante, o isolamento a que se imporá o próprio Narrador, quando  decide  dedicar-se a escrever o seu livro. Marcel desvencilha-se primeiro dos compromissos sociais, depois evita receber os amigos; como a tia, deixará de ocupar até mesmo a totalidade do apartamento onde residia, restringindo-se aos seus quartos, onde se isolará com sua enfermidade, fotos, livros e recordações, e, porque não, com a insônia. Podemos ver que, desde o princípio, as partes conectam o passado ao futuro no caminhar de nossas personagens. Mas, por favor, sigamos com os demais familiares.

            Em Combray, o pequeno Marcel estará sempre circundado pelos cuidados da avó e da mãe, atento aos conceitos e a certas imposições de seu avô e de seu pai. Ainda teremos a presença de mais duas tias-avós e de um tio, Alphonse. As irmãs da avó de Marcel eram pessoas de extrema correção, preocupadas com a preservação dos valores e tradições provincianas francesas, onde ainda não havia penetrado o mundanismo da aristocracia e da nova burguesia. Acreditavam no trabalho, na honra e na honorabilidade dos compromissos. Em determinado momento da narrativa, elas criticam o esnobismo de seu vizinho, Swann.  Acreditavam piamente em que todas as pessoas honestas devem ser cumprimentadas, mesmo porque “não existe nenhuma importância no fato de ser um duque ou um cocheiro, desde que possuíssem inteligência e bom coração”.

            Com relação à mãe do Narrador e à avó, elas são feitas de uma mesma matéria, encarnam os mesmos preceitos e idênticos preconceitos. Quando, no futuro, a avó de Marcel vir a falecer, a mãe sofrerá aos olhos do filho um processo de envelhecimento acelerado, que, como uma metamorfose, terminará por levá-la a assumir não somente as manias, mas até mesmo as próprias feições da avó morta. Mas ainda é cedo para falarmos nisso e nosso pequeno Narrador será motivado à literatura e sonhará em um dia tornar-se escritor, graças à influência de ambas, elas mesmas grandes leitoras, especialmente das memórias das madames de Sèvigné e de Lafaiete.

  • Sr. Proust, talvez eu fosse um pouco à frente e diria que da matéria-prima de que eram compostas a mãe e a avó do Narrador, ele próprio também o seria. Quando Marcel diz que o amor presente em sua avó era absorvido por ele num desejo de conservação e acréscimo da sua própria vida; quando diz que os seus próprios pensamentos tinham na avó o seu prolongamento, porque passavam de seu espírito para o dela sem mudar de meio e mesmo de pessoa, temos descrita uma espécie de simbiose psíquica. Desta simbiose, resulta que a importância do gênero masculino não haver sido tão marcante na formação do jovem.

            Pode-se mesmo dizer que o papel desenvolvido pelo pai e pelo avô de Marcel seja secundário em toda a trama. Ela teve uma maior influência na infância passada em Combray, quando eles conduziam o pequeno grupo familiar, em passeios pelos caminhos que levavam a caminho da propriedade de Swann, mas que, por um motivo ou outro, jamais chegavam até o Castelo de Guermantes. Quando o Narrador torna-se jóvem, seu pai decide-se pelo direcionamento da carreira do filho para a carreira diplomática.  Mas terminará, com até certa facilidade, por abrir mão desta vontade, contentando-se com a esperança em um filho escritor.

            Outro familiar interessante é o tio Alphonse. Ele foge aos padrões morais severos do restante da família, e será na casa parisiense desse velho rico e considerado “libertino”, onde o jovem Marcel conhecerá a dama de vestido cor-de-rosa, Odette, uma cocote que o frequentava, como tantas outras.

            Em meu romance  também dedico páginas e mais páginas às pessoas que prestam serviço à família de Marcel. Sobretudo a Françoise, uma pessoa do povo, camponesa na sua origem.  Após a morte de tia Leonie, a quem servia com fidelidade canina, ela tornar-se-á empregada da família do Narrador, jamais dele se desligando, quer nas estações de veraneio no balneário de Balbec, cidade da costa normanda, quer nos passeios nos Champs Elisées. Após a morte da avó, quando a mãe de Marcel afasta-se da convivência com o Narrador, Françoise permanece como guardiã e empregada, algoz e amiga. Mesmo quando Marcel transforma uma namorada, Albertine, em sua prisioneira, lá estará Françoise a servi-lo e a odiar a intrusa. De qualquer modo, será ela a pessoa que realizará a ponte entre Combray, Balbec e Paris, estando presente em todas as fases da vida relembrada.

  • Creio que não devemos nos alongar na narrativa do núcleo familiar, posto que, praticamente, em quase todas as temáticas futuras, estaremos sempre retornando a ele. Sugiro que nos aproximemos daquele formado por Swann, Odette de Crecy, que depois se transformou em Odette de Swann e, finalmente, marquesa de Forcheville. E a filha do casal, Gilberte de Swann.

Odette, Charles Swann e Gilberte

  • Tempos após a visita à casa de tio Alphonse, Marcel irá reencontrar a “dama cor-de- rosa” na figura da mãe de Gilberte, esposa de Swann, vizinho da casa de tia Leonie, em Combray. Ao revê-la, ele realiza uma interessantíssima descrição fisionômica em que os olhos negros, transformam-se na sua memória em azuis, contrastantes com seus cabelos loiros, numa alusão à multifacetária personalidade de Odette.

            Odette fora vendida, quando menina, por sua própria mãe, a um senhor inglês, e residira em Nice, cidade portuária. Deste pedófilo ela somente herdara o anglicismo que usava à miúde, crendo-se, com isto,“chique”. Ainda jovem, após deixar o inglês que a pervertera, desposa um homem muito mais velho de sobrenome Crecy, da pequena nobreza da costa normanda, a quem explorara e deixara na mais triste miséria. Ele seria apenas o primeiro de toda uma longa série, pois todos os homens com quem ela se relacionará serão sempre usados e traídos.  A “dama cor-de-rosa”, que o Narrador reconhece, expressa o profundo do interior feminino, a cor irradiante de toda feminilidade, e que Odette possuía e utilizava no seu grau máximo.

             Posteriormente, estando em Balbec, ao visitar o estúdio do pintor Elstir, Marcel voltará a se encontrar com aqueles olhos negros que o marcaram como o ferro rubro, pois Odette, provável amante de Elstir, pousara para ele anos atrás. Quando Marcel observa detidamente a pintura, que, aliás, pede inutilmente que Elstir lhe presenteie, ele se dá conta de que traços de ambiguidade surgiam como um elemento estético. E então, sobre essa personagem, a atriz que desempenhara o papel de Miss Sacripanta, o Narrador identifica certa indeterminação sexual, quando o mesmo rosto que à primeira vista parecia ser o de uma rapariga um pouco virilizada, visto por outro ângulo, a ideia sugerida era a de um jovem efeminado e sonhador. De qualquer forma, o quadro de Elstir, embora retratasse Odette, simbolizava uma atriz em seu momento teatral.

            Odette de Crecy, após largar seu marido, irá se ligar ao clã Verdurin, do qual será uma das “Graças”. Aprenderá com a Sra. Verdurin a arte de construção de um Salão burguês assim como todos os maneirismos da condução mundana. E será, por seu intermédio, que Swann, frequentador da mais fina nata aristocrática, tomará contato com o Salão dos Verdurin, e por ele será infuenciado.

  • Swann, apresentado a Odette por seu amigo de Charlus, nela não encontra nada que a fizesse por ele desejável. Mas ela fará de tudo para preencher-lhe a vida, conquistá-lo. E ele terminará  por se apaixonar, não pela Odette de carne e osso, mas pela imagem que forma dela a partir de um quadro de Boticelli.

             Odette encarnará para ele a filha de Jétero, surgindo da espuma da água fluída como uma “Vênus”, tendo a orquídia como símbolo.  A orquídia, do gênero botânico “orchis”, que em sua origem grega significa testículos.  A haste que surge dos seus grãos e os tubérculos que irão embeleza-lhe os seios. A Odette de incontáveis amantes. A princípio, quem corre atrás daquele que possuía um patrimônio considerável, que era pródigo em presentes, relacionava-se com a melhor sociedade, seria Odette. É depois de muita insistência que Swann começa a admiti-la em sua vida.

            Isso ocorrerá quando Odette convida Swann para subir em sua “vitória”, tendo nas mãos um buquê de orquídias e no colo decotado mais catléias. Swann fala de suas flores, toca-as e limpa com a sua mão o “pólen” que se espalhara pelos seios. Foi quando, afinal, Swann, que criara em seu cérebro uma Odette mais difícil do que realmente ela era, decide levá-la para a cama. E sempre que fariam amor, eles se referiam a “fazer catléia”.

            Mas se Odette, após conquistá-lo, muito fez com que Swuann sofresse foi porque descobriu ser esse o modo de prendê-lo e escravizá-lo. Talvez os olhos negros denunciassem já a princípio uma volúpia amorosa, que mesmo sendo intensa é planejada; se Marcel os enxerga com os olhos de sua alma como azuis é graças, sem dúvida, à multiplicidade do caráter da mulher, que sempre se comportará delicadamente para com ele, como a princípio o fizera com Swann.

  • Existe um momento narrativo que elucida precisamente essa multiplicidade da personalidade de Odette. No princípio de sua relação com Charles, ela lhe segredava ser ele “o meu amor, o perfume de nossa amizade; ah, você nunca será como todo o mundo!”;  quando Odette olhava a cabeça um tanto calva de Swann dizia: “Ele não tem uma beleza harmoniosa, se quiserem, mas é chique: o topete, o monóculo, o sorriso! Se eu pudesse saber o que existe nessa cabeça...” No entanto, à medida em que Swann se deixou escravizar por seu amor e pelo ciúme, a opinão de Odette sobre ele muda radicalmente.

            Esse exemplo é muito pertinente, porque depois da fase de coqueteria, a todas as palavras de Charles ela respondia de modo irritado, às vezes com alguma indulgência. “Ah, nunca hás de ser como todo o mundo!”. Contemplando aquela cabeça que pouco havia envelhecido, comentava: “Ele positivamente não é feio, se quiserem, mas é ridículo; esse monóculo, esse topete, esse sorriso”.

            No entanto, o ciúme, o sofrimento e o tempo fizeram com que Swann, finalmente deixasse de amá-la. Mas Odette conseguirá engravidar e passará a atormentá-lo com chantagens, utilizando-se da filha para tal até conseguir desposá-lo, o que na realidade, desde o princípio de sua relação, constituía o seu objetivo. E somente se casando com Swann ela se libertaria dos Verdurin e organizaria o seu próprio Salão, o qual com o tempo, rivalisaria com o da “antiga patroa”.

            Odette de Swann, com extrema habilidade e muita coqueteria fundou e conduziu o seu Salão. E para os seus “tea party” procurou um artista que o decorasse. O mais importante deles foi o escritor Bergotte. As pessoas que o frequentavam ficavam convencidas, em pouco tempo, de que ela, íntima de Bergotte, havia até mesmo colaborado nas suas obras e julgavam-na mil vezes mais inteligente que muitas das mulheres mais notáveis do faubourg Saint- Germain, o aristocrático. De repente, tornara-se uma honra deixar-se atrair por uma dona de casa de “alta intelectualidade” e junto a quem os convivas esperavam encontrar os dramaturgos e os romancistas em voga.

  • Entretanto, pese toda a ascessão social, Odette de Swann, ex-Crecy, não escapava à memória sempre atenta e à lingua afiada do senhor de Charlus. Afinal, fora ele quem a apresentara a Swann e a ele ela jamais conseguiria possuir “olhos azuis”.

            Um dos comentários interessantes feitos por Charlus para o Narrador foi: ”Eu estava com uns companheiros de clube e tínhamos voltado para casa com uma mulher e, embora o meu corpo só pedisse um bom sono, afirmaram as más línguas que eu dormira com a Odette. Ela aproveitou-se disso para andar me procurando e eu tratei de me descartar da amolação apresentando-a a Swann. Ela não sabia uma palavra de ortografia e era eu quem escrevia as cartas dela, e depois fui eu o encarregado de passear com ela”. Ainda confidencializa: “Ela sempre me obrigava a arranjar farras tremendas em comum com cinco e seis pessoas”.

  • Independentemente dos comentários de Charlus, houve apenas dois círculos de relacionamento que não se abriram à faceirice de Odette de Swann. Um deles o da própria família do Narrador; o outro, enquanto Swann ainda esteve vivo, o da mais alta aristocracia dos Guermantes.

            Com relação à família do Narrador, a mãe de Marcel ainda não abrira mão de certos valores tradicionais, em função dos quais jamais permitiria que Swann a apresentasse à Odette, ou se fizesse por ela acompanhar em suas visitas. Depois da morte de Swann ela diz ao filho que “Odette achou um jeito de casar com o primeiro (Swann), depois com o terceiro (Forcheville), e de puxar da beira da tumba o segundo (Charlus) para que servisse de testemunha à filha que teve com o primeiro ou com outro qualquer, pois como reconhecê-los nessa quantidade? Ela mesma nem sabe mais nada a respeito. Digo o terceiro, mas o mais correto seria o tricentésimo.”

            Em relação aos Guermantes, círculo no qual durante toda a vida Swann tentara introduzi-la assim como à filha Gilberte, ele somente será franqueado às duas mulheres após a morte de Charles de Swann. Os motivos?  Primeiro à posição social dintinguida pelo dinheiro recebido como herança, que, então, falará mais alto que as origens sociais. O outro motivo era o próprio esnobismo de Oriane de Guermantes, considerada por Swann sua melhor amiga e vice-versa e que perdera o sentido de existir, pois já que Swann estava morto, como esnobar a um amigo?           

  • Odette, ficando viúva de Swann, torna-se uma mulher riquíssima e, além do luxo a desfrutar, seu objetivo de vida é ser absorvida pela aristocracia. Seu antigo amante, o arruinado marquês de Forcheville irá desposá-la. Por outro lado, um tio de Swann deixara uma enorme fortuna à Gilberte, tornando-a a mais rica herdeira da França; como decorrência, ambas se tornaram excelentes partidos e, logo a seguir, viraram marquesas.

            A Odete, o título e as relações aristocráticas custaram-lhe muito dinheiro. Forcheville se encarregou de dilapidar quase toda a sua fortuna. Com o passar do tempo, a idade de Odette de Forcheville, assim como o gosto que ela sempre possuíra de viver sustentada, encarregam-se de propiciar a deserção dos admiradores. Desejava todos os dias ter um novo colar, mas sua fortuna já era pequena e Forcheville devorava quase tudo. Restava-lhe a filha, mas qual ascendente israelita governaria Gilberte nisso? – a filha era terrivelmente avara.

            Mas seu faro de caçadora de escol terminaria por encontrar um protetor. E ele seria, nada mais nada menos, o seu próprio genro, Robert de Saint-Loup, dado que desposara Gilberte. Ela encarregou-se de suavizar as relações entre Robert e Gilberte, para que ele, seu genro, desfrutasse mais confortavelmente o sexo com um violinista, o seu amante querido. Deste modo, uma jóia sempre lhe seria ofertada. Assim, Odette entrara no período da castidade final, por volta dos 50 anos, e nunca fora tão elegante.

            O tempo passa. Quando Marcel retorna de um novo tratamento de saúde, após quinze anos de ausência, a aparência de Odette era uma excessão em todo o grupo de seus conhecidos; se não a reconhecera de imediato é porque não envelhecera. Marcel a rencontra bela e, além disso, tornara-se infinitamente simpática, o que não era no passado, pois as marcas que o tempo nos traz não ocorrem igualmente e na mesma velocidade para todas as pessoas.

            Por uma dessas ironias da vida, apesar da beleza, Odette era agora traída pelo universo inteiro; e tornara-se tão débil que, trocando-se os papéis, já não ousava defender-se contra os homens. Ela, de repente, voltou a reencarnar a “dama cor- de-rosa” aos olhos do Narrador, quando para sua enorme surpresa lhe faz uma confissão: “No fim passei uma vida muito solitária, enclausurada, pois só tive grandes amores por homens incrivelmente ciumentos. Não falo de Forcheville, pois na realidade era um sujeito medíocre e eu nunca pude amar de fato senão homens inteligentes. No caso de Swann eu me privava de tudo por amá-lo loucamente. Pobre Charles, ele era tão inteligente, tão sedutor, exatamente o tipo de quem eu gostava.” Estaria sendo sincera?  Se sim, ela teria passado a amar Swann justamente quando ele descobrira que Odette “nem era seu tipo”, não a amava mais e possuía uma amante. Contraditório? E o que não o é na vida e no amor, meu caro André?

  • Conversemos sobre Charles de Swann. Com sua fronte alta, os cabelos ruivos e ondulados que lhe emprestavam alguma doçura, a vivacidade dos olhos verdes, ou por vezes, azuis, tinha um gosto refinado pelos prazeres da vida. Ao sair, ele sempre escolhia uma flor para guarnecer-lhe a botoeira, adequada a cada ocasião, aliás, um costume do jovem Proust. Swann pensava na admiração das pessoas com a moda, para a qual ele era a palavra suprema. Neste homem ainda se aliava uma personalidade muito sensível à arte. Mas essa sensibilidade, entretanto, não lhe conferiu uma atitude criativa, e ele não se tornou um artista.

            Sua personalidade sensível, voltada para a arte e para os valores do espírito, experimenta uma profunda transformação, quando permite que se lhe enfraqueçam as crenças intelectuais que trazia de família, o que acontece quando passa a ser absorvido pelos valores da aristocracia mundana.

            Essa absorção é, no entanto, gradual e não ocorre sem algum sofrimento. Ele começa por pensar que os objetos de nossos gostos não têm em si um valor absoluto, mas que tudo é uma questão de época, de classe, consistindo em modas, e que as mais vulgares valem tanto quanto as que passam por serem as mais distintas. Ele e a princesa de Guermantes terminam por possuir uma analogia bem grande no modo de se expressar e até na maneira de pronunciar as palavras. Apesar de que, quanto às coisas importantes, Swann e a princesa não concordassem sobre quase nada, ele buscava não explicitar essas divergências; é o que acontece, por exemplo, no caso Dreyfus, em que Swann, que no íntimo era contra a punição imposta ao oficial judeu, negou-se a apoiá-lo publicamente, por receio de romper com os conceitos antissemitas da aristocracia.

  • Voltemos ao caso de amor de Swann com Odette. Ele a conhece por meio de Charlus, finge para ele mesmo nada saber de seu passado de coquete e de mulher “mantida”, não se importa com o seu semi-analfabetismo, tão contrastante com o seu próprio nível cultural, e, finalmente, como ele confessará posteriormente, “nem seu tipo físico ela fazia”. Entretanto ao compará-la à Séfora de Boticelli começa a se interessar e termina por se apaixonar por uma imagem que o pintor renascentista lhe trazia à mente, ou seja, apaixona-se por uma ilusão estética.  

            Charles Swann sabia de tudo o que você disse, mas ele nem ao menos tentava fazer com que Odette reduzisse sua vulgaridade, mudasse seu conceito do chique, que era nela um símbolo do mau gosto; por estar atravessando um período de mudança de valores, e pensando que o seu conhecimento não era o mais verdadeiro, que poderia ser tão imbecil quanto o dela, pois desprovido de importância, não sentia nenhum interesse em instruir a amante. Sabia também, perfeitamente, que se ela era esperta, não era inteligente. O que Swann procura fazer era com que ela se sentisse agradavelmente em sua companhia, sem contrariar as suas ideias vulgares e o seu mau gosto; podemos até dizer que passara a apreciar tudo o que vinha dela, encantando-o.

            Sem dúvida, se lhe tivessem dito no começo: “é pela tua fortuna que ela te ama”, ele não o teria acreditado, embora não ficasse muito aborrecido pelo fato de imaginar que estivesse Odette presa a ele por algo tão forte como por esnobismo ou pelo dinheiro. E não teria sofrido ao descobrir, no amor de Odette, este estado mais duradouro que o carinho ou as qualidades que ela pudesse achar nele: o interesse financeiro, dado que o tamanho de sua fortuna jamais permitiria que chegasse o momento em que ela pudesse ser tentada a deixá-lo.

            Mas existiu um segundo fator que muito influenciou Swann e tornou-o um apaixonado. Swann sentia a vida vazia e necessitava preenchê-la de alguma forma. A sonata do desconhecido Vinteuil, ao ser apresentada num sarau, produzira-lhe volúpias especiais que nunca imaginara antes ter sentido. Era uma determinada frase ou a harmonia, que a repetir-se-lhe abria a alma mais largamente. Por baixo da linha melódica do violino, tênue, resistente, densa e dominadora, “eleva-se como um marulho líquido, a massa da parte do piano, que o luar encanta e bemoliza”. A Sonata faz com que seu amor por Odette se amplie, atuando como um fermento em sua busca de um objetivo ideal, de tal forma que ele transformará aquela música no hino nacional de seu amor.

            Houve mesmo um momento em que ele percebera que para muitos homens Odette parecia uma mulher encantadora e desejável. Então até mesmo o encanto de seu corpo lhe despertou a necessidade dolorosa de admirá-lo inteiramente nas partes mais íntimas de seu coração. E quando chegou a viver o desprezo que Odette passara a devotar-lhe, encarava-a longamente para tentar descobrir nela o charme que lhe conhecera e não o encontrava mais. Saber que sob esta nova crisálida,  era ainda a mesma Odette que vivia, era suficiente para que Swann continuasse com o mesmo ardor no sentido de captá-la. Olhava as fotos de dois anos antes e lembrava-se de como ela fora deliciosa. E isso o consolava um pouco de seguir sofrendo tanto por ela. Assim como as orquídias haviam sido as flores do desejo, o crisântemo, que no princípio da relação Odette lhe atirara, transforma-se no símbolo do amor doloroso. As catléias se foram, mas o crisântemo murcho Charles o guarda na sua escrivaninha. “Que ela frequentasse cafetinas, se entregasse a orgias com mulheres, levasse a vida crapulosa das criaturas abjetas”. O que lhe importava? Com esta flor, sua “prisioneira”, Swann preenche o vazio de seu amor traído.

            Swann viveu permanentemente preso ao ciúme, enquanto Odette saía com quem lhe desse na teia, e sempre a mentir-lhe mesmo correndo o risco de poder ser quase sempre desmentida por uma ou outra evidência. Mas o tempo começou o seu trabalho curativo e justamente quando Swann conseguiu desprender-se de Odette, e nisso a própria Sonata, que tanto o prendera, transformara-se em um elixir desintoxicante libertando-o de sua paixão mórbida, Odette engravida e ao dar-lhe uma filha, ao mesmo tempo lhe propicia um novo motivo para preencher o vazio de sua existência. Casou-se. Mas uma pergunta permanece sem resposta: por que ele só se casou depois que deixou de amá-la, quando já estava morto aquele ser que ele tinha dentro de si e que tanto desejara?  É...  às vezes, o autor de aspectos de nossa vida é alguém muito inferior a cada um de nós, é a criatura mais medíocre, mas foi aquela que o acaso nos colocou no caminho, determinando dessa maneira a vida que temos levado, excluindo mesmo as criaturas que, quem pode saber, em seu lugar poderíamos ter tido.

            Após o casamento, Odette e Charles tornam-se bons pais para Gilberte, constituindo uma típica família burguesa rica; Swann com uma amante e Odette com os seus. Entretanto, nenhum deles possuía o ciúme a atormentá-los e Swann pode, em família, viver um período de tranquilidade. É neste momento da vida harmoniosa do casal que Marcel, encantado com Odette e “apaixonado” por Gilberte, passa a frequentá-los.

            O momento do declínio de Swann coincide com o da ascenssão de Odette. Ele sofria da “constipação dos profetas”, herdada de seus ancestrais judeus; sua face se abate, seu rosto é coberto de “pontinhos azul de Prússia”, augúrios de que em breve ele já não pertenceria ao mundo dos vivos. Seu nariz de Polichinelo, por muito tempo absorvido em um rosto agradável, parecia agora enorme, tumefato, avermelhado, antes de tudo o nariz de um velho hebreu. Aliás, talvez que nele, a raça, naqueles derradeiros dias, fizesse transparecer mais o tipo físico que a caracteriza; de alguma forma o obrigava a uma solidariedade moral para com os outros judeus, solidariedade que Swann parecia haver se esquecido durante toda a vida.

            Quando Swann torna-se morimbundo diziam dele na sociedade: “ele é um idiota, um casmurro, ninguém se preocupa com ele, só a mulher é que conta, pois é encantadora”.  Swann ao contrário, era uma personalidade artística e intelectual notável; e, embora nada tivesse “produzido”, “que mesmo jamais se livrara do remorso de ter limitado sua vida às relações mundanas e às conversas”, teve, contudo, a sorte de durar um pouco mais. E aquele Charles Swann, conhecido por Marcel já tão perto do túmulo, nosso Narrador fará dele um herói de um romance e com isso, talvez, Swann sobreviva, numa outra dimensão, que é a da obra-de-arte.

  • Sr. Proust, o primeiro amor de Marcel foi Gilberte de Swann. Tudo começa com a misteriosa menina a brincar pelos jardins de Swann, em Combray. Marcel cresce e será em Paris, nos Champs- Elisées, que ele voltará a encontrar a moça, na adolescência.

             O encontro de Marcel com a ruiva, jogadora de peteca, permite que ele estabeleça a possibilidade de aproximação com Odette, por quem ficara “caído” desde a visita à casa de tio Alphonse, assim como do Sr. Swann, que era considerado quase como um herói por ele. Marcel, que nesta época buscava ser introduzido na alta roda social, sabia que Charles Swann seria um ótimo trampolim. Ele, que para seu desgosto, desde o “casamento desigual” com Odette, não mais fora recebido na casa de seus familiares. A ligação teria que ser via Gilberte, por quem Marcel termina por julgar-se apaixonado.

            Enquanto o Narrador sentia ferver em seu peito um encanto juvenil pela ruiva, a transposição da necessidade de carinho e absorção, o interesse que Gilberte deixava transparecer por Marcel era simplesmente de amizade, na interpretação do Narrador; isto, entretanto, não impedia que se divertissem juntos e que se tornassem muito íntimos.

  • Existe uma cena descrita em seu livro em que o jovem Marcel sente o gozo sexual pela primeira vez, durante uma de suas bricadeiras com Gilberte. Ela força-o a continuar a brincadeira, pois para ela “ainda não havia terminado”, enquanto ele já se encontrava satisfeito. O que chama a minha atenção é que, ao retornar à sua casa, Marcel tem a sensação de certo frescor, cheirando a fuligem, a mesma que sentira na casa de seu tio Adolphe. Eu traduzo que, inconscientemente, o gozo que o Narrador experimentara com Gilberte, refletia o seu desejo juvenil pela mãe da garota.

            O Narrador possuía um duplo sentimento de paixão. Acreditava sinceramente estar amando Gilberte, mas, enquanto se divertia, nos diversos folguedos junto às jovens que a cercavam, em seu íntimo era a Sra. Swann que ele sempre gostaria de rever, e esperava que ela por ele passasse nas alamedas e boulevares; entretanto, emocionava-se como se tratasse de ver Gilberte, cujos pais, impregnados do encanto com tudo o que a rodeava, excitavam no Narrador o seu amor.  Na verdade, Marcel projeta o seu interesse por Odette, inconscientemente, na filha.

  • Primeiramente Gilberte é descrita como ruiva. Tempos depois, Marcel se dá conta de que certos detalhes fisionômicos da amiga, tal como produzidos por um clarão azul, tornavam-na loira. E conclui que se ela não tivesse olhos tão negros- o que chocava tanto quem a via pela primeira vez-talvez ele não tivesse se apaixonado.

            Havia pelo menos duas Gilbertes. As duas naturezas, a do pai e a da mãe, não se limitavam a misturar-se nela; na verdade, disputavam-na, e faria supor que uma terceira Gilberte sofria nesse tempo por ser presa das outras duas. Ora, Gilberte era alternativamente uma e outra, e, em cada ocasião, apenas uma, e, portanto, incapaz quando era má, de sofrer por isso, pois a melhor Gilberte não podia então verificar o quanto a primeira era decaída, pelo fato de estar momentaneamente ausente. Assim, a menos nobre das duas estava livre para desfrutar os prazeres pouco nobres. Quando, então, a outra falava com o coração do pai, tinha vistas largas, sentíamos a sua vontade de construir um empreendimento benéfico, mas no momento em que se iria chegar a um acordo, o coração da mãe já retomara o seu lugar e era ele quem respondia.

            A Gilberte de “cabeleira ruiva” era dotada de uma doçura artificial e quando posta à prova, já adolescente, revelava traços de profunda ingratidão e falta de consideração pelos que tanto a amavam, como os seus pais.  Posteriormente, ao se integrar ao mundanismo social, esses traços revelar-se-ão em toda sua plenitude.

  • Marcel consegue tornar-se presença constante em todas as recepções que Gilberte oferece a seus amigos. Posteriormente, ele logra transforma-se numa pessoa da intimidade do casal Swann, opinando até mesmo a respeito do vestuário que Odette usaria em seus passeios em família.

            O ciúme, que já transparece no jovem Narrador, ditará a necessidade de estar sempre presente a cada passo de Gilberte; isto forçará, que no decorrer do tempo, que ela deixe de sentir prazer na sua companhia. Após muito querer Gilberte, Marcel ao vê-la caminhar animadamente, com os braços dados com outro rapaz, que, na verdade descobrirá, mais tarde, tratar-se da artista Léa, vesuviana travestida de homem, iniciará o processo de distanciamento e de esquecimento. Mas esta separação, não afasta o Narrador da convivência com os Swann, pois Marcel gastará fortunas enviando, diariamente, buquês de orquídias a Odette, ao ponto de ouvi-la dizer que seus pais deveriam colocar um “curador” para cuidar de seus gastos.

Existem dois momentos que, como arcos botantes de uma catedral, unirão o presente ao futuro, o interno ao externo. O primeiro é que Gilberte tenha sido a primeira pessoa a falar ao Narrador a respeito de uma menina, colega de escola, sobrinha de uma frequentadora do salão de sua mãe, chamada Albertine. Já o segundo, trata-se de um bilhete que Marcel recebe assinado por Gilberte, dona de uma caligrafia rebuscada, em que o “G” e o “i” se fecham e o corte do “t” é solto. O Narrador tem dificuldade em identificar a assinatura e lê um “A”. Quando em Veneza, num longínquo futuro, recebe uma carta de Gilberte anunciando o seu iminente casamento, a carta será interpretada por Marcel como vinda de Albertine, que já estava morta.

            Swann tinha um amor extremado por Gilberte, no que ele se julgava mais que recompensado pelos carinhos da filha. Quando em determinado momento, a conversação transcorre a respeito da filha de Vinteuil, Gilberte faz questão de dizer que jamais admitiria conhecê-la, pois soubera que ela fizera muito mal ao próprio pai, “Pois como se pode esquecer quem se amou desde sempre?”. Ora, ela mesma reproduzirá, sob outro formato, o desprezo da filha de Ventuil pelo pai, após a morte de Swann.

  • Quando Swann morrre, Gilberte é transformada em herdeira riquíssima. Suas juras de amor pelo pai defunto não resistem por muito tempo à ânsia de ascensão social. Após a mãe casar-se com o antigo amante e fidalgo arruinado Forcheville, Gilberte também atinge, rapidamente, a posição em que sempre desejara estar: dentro da aristocracia.

            Consigne-se que existe algo que o Narrador jamais perdoará na amiga, ou seja, a ingratidão desta para com pai que tanto a amava e nela depositava as esperanças de “sua continuidade”. Após a morte de Swann, Gilberte envergonha-se de sua origem judaica e tenta, primeiramente, dar ao próprio sobrenome a corruptela germânica: Swan, com apenas um “n”. Percebe que a emenda iria sair-lhe pior do que o soneto na sociedade parisiense; depois, ao transformar-se em Forcheville, nem mesmo permitiu que o nome do falecido fosse pronunciado em sua presença. Ela pertenceu durante esses anos à variedade mais difundida dos avestruzes humanos, os que ocultam a cabeça na esperança, não de não serem vistos, o que julgam pouco verossímel, mas de não enchergarem a quem os vê.

            Gilberte tornar-se-á uma Guermantes graças ao casamento com Robert de Saint- Loup. Tempos após, a amizade entre Marcel e Gilberte é refeita, e permanece durante o casamento dela com Saint-Loup, e mesmo após a morte deste em combate na guerra. Nela, ora predominava o caráter do pai, ora o da mãe, “atravessamos uma e depois outra”; mas no dia seguinte, a ordem das disposições está invertida. Gilberte era como aqueles países com os quais não se faz alianças, pois mudam com muita frequência.

  • Gilberte e o Narrador retomam seus longos passeios pelos arredores de Combray; em dado momento, Gilberte confessa o quanto a havia amado no passado. Para sua enorme surpresa ele descobre que o sentimento fora mútuo, que Gilberte também o amara e que queria ter tido relações sexuais com ele. Tanto sofrimento, ansiedade e amargura que poderia haver sido poupada caso ele fosse mais perspicaz.         

             É quando Marcel dá-se conta de que não reconhecia os sinais do amor; talvez todo o sentimento de impotência que de certa forma “herdara” de Swann, aquela certeza da impossibilidade de ser amado por quem escolhera, não passava de uma fuga às relações mais carnais, que poderiam se materializar fora de sua imaginação. E  que o abismo intransponível, que acreditara existir entre ele e certo gênero de meninas de cabelos dourados, era tão somente imaginário, o que somente ao final de sua vida, descobrira.

  • Senhor Proust, ainda voltaremos a falar de Gilberte, como esposa e viúva de Robert de Saint-Loup e mãe da senhorita de Saint-Loup. Vamos aos Verdurin e seu Salão.

Os Verdurin e seus convivas

  • Os Verdurin, marido e mulher, constituem a personificação mais clara da burguesia rentista e parasitária, despida de quaisquer valores tradicionais, a qual organiza sua vida em torno do seu Salão de recepções. A avó do Narrador descreve o Sr. Verdurin como um homem insignificante, beberrão, mas fabulosamente rico. Já o rosto estreito e proeminente da senhora Verdurin simboliza um coração empedermido.

            Os Verdurin não tinham preocupação alguma com o que quisesse dizer moral ou ética. O que lhes importava era a manutenção de seu círculo de confrades, em que o marido e a mulher reinavam da forma mais despótica possível. Somente mantinham suas relações enquanto tinham interesse na distração ou na distinção que determinado frequentador lhes oferecesse. Quando um de seu círculo social se enfermava ou falecia, ele deixava, imediatamente, de ser citado e jamais seu nome seria pronunciado na presença da Sra. Verdurin, a “patroa”.

            Era nesse sentido que a Sra. Verdurin dizia a todos que frequentavam seu salão que ela, como a imperatriz romana, era o único general a quem sua legião deveria obedecer. Marcel relata que os Verdurin não ficavam escandalizados se uma mulher tivesse um ou mais amantes, mas só o permitiriam que ela os tivesse na casa deles, amasse-os por meio deles, e nunca os preferissem a eles.

  • O senhor realizou um pastiche extremamente criativo do Diário de Edmond de Goncourt e nele inseriu a figura de Verdurin como um intelectual, como a dizer que aquele homem duro e cruel, também possuia uma faceta da personalidade que lhe possibilitaria, quando de sua morte, ser até mesmo chorado por alguém.

            Verdurin, já milionário, fora crítico de arte e autor de um livro sobre o pintor Whistler, isto em conformidade com o “Diário” lido por Marcel. Pois quando ele faleceu, a única pessoa na Terra que chorou sua morte foi o pintor Elstir, porque a medida que também envelhecia, ligava sua arte supersticiosamente à sociedade cujos modelos lhe fornecera. E o pintor, juntamente com a morte, via desaparecerem os olhos e o cérebro que tinham tido de sua pintura a visão mais justa, e onde essa pintura, em estado de lembrança querida, de alguma forma residia. Os novos amantes da pintura, que então surgiam, não haviam tido como Swann e Verdurin, as lições de gosto de Whistler e de Monet. 

  • Falemos da Sra. Verdurin. Um aspecto interessante nesta figura é a impossibilidade de definição de sua idade, o que ocorre, em certa medida, com todos os seus personagens, mas que, neste caso é muito mais marcante. Para evitar novos “deslocamentos de mandíbula”, o que ocorrera devido a suas vulgares gargalhadas junto aos començais, ela apenas dava risinhos e fechava completamente os olhos de pássaro, que uma catarata começava a cegar. No mesmo jantar em que esse fato é relatado, Forcheville, comenta que ela “não deveria ter sido feia”, mas que “começava a virar uma pipa”. Acontece que esses eventos ocorreram antes mesmo do nascimento do Narrador e como prova de sua inderterminação etária, ela estará presente e firme até o último encontro com o mesmo, no palácio dos Guermantes, pelo menos quarenta anos após.

            A Sra. Verdurin realmente possui o tempo do “Tempo Relembrado”; aliás, ela poderia, dentro de seu caráter, ser considerada atemporal. Voce esqueceu-se de dizer que antes do Narrador existir, ela possuira relações sociais com o pai de seu avô, do qual se recordava por sua avareza hebréia. Portanto, ela teria a idade de gerações...

  • Deixando ao largo esta “amplitude” etária, ela não adquirira os conhecimentos e menos ainda  a sensibilidade que o marido possuia sobre a pintura e a arte; em determinado momento da narrativa, tem suas “têmporas transformadas em duas esferas incandescentes”, provavelmente sob a ação de inúmeras nevralgias que a música de Bach, de Wagner e de Debussy, lhe provocavam. A sátira, assim como a vulgaridade, é evidente neste relato. O seu propalado “bom gosto” musical é apenas um adorno e uma mentira de esnobe.

            Sem dúvida, Marcel chega a flagrá-la diversas vezes com a cabeça debruçada e olhos fechados durante as exibições geniais de Morel ao violino, como solista na Sonata e no Septeto de Venteuil. Concentração, torpor, ou, o mais provável, o sono.

A senhora Verdurin, como a maioria dos burgueses excluídos dos Salões aristocráticos, a eles se referiam como compostos por pessoas maçantes e insuportáveis. É claro que esse julgamento nada mais era que despeito e que nenhum deles desperdiçaria qualquer oportunidade de adentrar no pouco permeável mundo da aristocracia. O primeiro passo dado pela sra. Verdurin consistiu em atrair um Guermantes, no caso, o sr. de Charlus para seu Salão. Ele permite que seu relacionamento seja usado para atrair um grupo de aristocratas a uma recepção na sua residência. Organiza-se o encontro, sob a coordenação do barão. Mas ele ainda se acreditava um todo poderoso, pois não percebera que o mando já havia mudado de mãos, que se transformara de principal ator num coadjuvante social e este encontro estava determinado a ser, para Charlus, uma verdadeira tragédia.

            Dado que Charlus rompia, sem que se soubesse o porquê, com suas amizades, ele não permitiu que essas fossem convidadas à reunião dos Verdurin. Acontece que esses “párias” eram pessoas muitas vezes cotadíssimas. Portanto, aquele evento organizado para os Verdurin estarem com a fina flor da sociedade já nascera azedo, pois o barão proscrevera da festa algumas senhoras da aristocracia com as quais a Sra. Verdurin já entrara em contato, e que eram naquele momento, ainda mais que o barão, indispensáveis para que se formasse em sua casa um novo núcleo aristocrático. Mas o que definitivamente o perdeu naquela noite de festa foi a má educação, tão comum naquele meio. Vindas por serem amigas dele, assim como movidas pela curiosidade em penetrar em um novo Salão, cada duquesa ao chegar, dirigia-se diretamente ao barão como se ele fosse o dono da casa e dizia a dois passos dos  Verdurin: “Mostre-me a Verdurin, mas você acha mesmo indispensável que me apresente?” E o Sr. de Charlus, enquanto os seus convidados abriam caminho para felicitá-lo e agradecer-lhe, não pensou em pedir-lhes que dissessem algumas palavras gentis à dona da casa.

            Logo, a festa em si foi um fracasso para os seus objetivos e a Sra. Verdurin teria que ainda esperar um pouco mais até possuir o seu salão aristocrático.

Mas a sua vingança sobre Charlus não se faria esperar. Morel, que graças a Charlus, alcançara inusitada fama, e devido tanto ao seu mau caráter quanto a um sentido aguçado para melhores oportunidades, predispôs-se, a pedido dos Verdurin, a dramatizar uma cena de rompimento com o barão, seu protetor, acusando-o de tentar corrompê-lo sexualmente. E isto aconteceu ao final da mesma noitada, quando somente o pequeno grupo da “seita” estava presente. Acontece que o rompimento de Morel com Charlus arrazou-o de tal forma que precipitou a decadência social que já se prenunciava. E este amor despedaçado o precipitará nos “infernos de Sodoma”, como mais para frente veremos.

            Mas voltemos à sra. Verdurin. Quando de seu retorno à sociedade, Marcel soube com muita surpresa que Marie Gilbert, a lindíssima princesa de Guermantes, havia morrido e que seu marido, o príncipe Gilbert, velho e falido graças à guerra, casara-se com a viúva Verdurin, que, assim, transformara-se em uma nova e “enorme” princesa de Guermantes, justamente ela, que nada em comum possuía com aquela que, em vida, tanto seduzira a Marcel.

            Como a sucessão ao nome é triste, aliás, como todas as sucessões, como todas as usurpações da propriedade! De tal modo que sempre, sem cessar, surgiriam à maneira de vagas, novas princesas de Guermantes, que por sua vez seriam substituídas a cada geração por uma mulher diferente, a quem, depois de morta se despojaria da identidade e de todos os seus bens; e quem hoje os desfrutava era uma pessoa muito inferior à Marie Gilbert, morta.

  • Sugiro que dediquemos algumas linhas a um personagem que, se por um lado não chega a ser central na narrativa , é altamente emblemático daquelas pessoas em que o sentido de dignidade jamais conseguiu, pese toda a formação cultural, implantar-se na personalidade. Vamos a Legrandin.

Legrandin

  • Legrandin é um excelente exemplar do burguês mais tradicional, que exerce uma profissão de alto mérito- é engenheiro- mas apesar disso, mal dissimula a vontade de penetrar no mundanismo da aristocracia, mesmo que fosse utilizando, como cobertura, o ardil de suas palavras antiaristocráticas. Pois, finalmente, quando consegue ser recebido pela alta sociedade, suas antigas opiniões mudarão radicalmente, como da noite para o dia.

            O Narrador trava conhecimento com Legrandin ainda em sua adolescência, em Combray e, naquela época, entusiasma-se por sua distinção e brilhantismo, o que era compartilhado por todos os seus familiares. O senhor Legrandin era um destes homens que, além de uma carreira científica na qual, aliás, conseguiu êxito brilhante, possuia uma cultura bem diferente, literária, artística, que profissionalmente não a utiliza, mas que faz valer durante  uma conversação. Mais letrado que muitos escritores, ele julgava que a vida que levava não era a que lhe convinha, o que lhe traz uma despreocupação recheada por certo desprezo e amargura.  

            Vale lembrar que ele foi a primeira pessoa a encantar o Narrador com as maravilhas de Balbec e depois de o haver convencido a viajar, negou-se por puro pedantismo, a enviar alguma recomendação à irmã, casada com um fidalgo da Normandia, para não comprometer-se apresentando “uma pessoa inferior”.

            Apenas a avó de Marcel, ao contrário dos outros familiares, jamais se fiara inteiramente no seu caráter. Censurava-lhe o falar bem demais, um pouco como um livro, de não empregar uma linguagem natural, assim como se espantava também com suas tiradas contra a aristocracia, a vida mundana e o esnobismo.

  • A família do Narrador, ele próprio, Swann e Legrandin simbolizam, em diferentes graus, valores da antiga burguesia. Swann e Legrandin realizam a transição entre os valores antigos e os modernos, mas de maneira diversa. De certa forma, Swann ainda manterá um pé no passado. Já Legrandin, assim que consegue estar junto aos aristocratas, despe-se radicalmente da vestimenta com que exibia os seus “antigos” valores.

            Esse mesmo Legrandin, o “intelectual humanista”, será aquele que se arrojará aos pés da primeira aristocrata que lhe dê chance de fazê-lo, pois toda sua postura antiaristocrata era apenas uma máscara, sob a qual se escondia outra, a verdadeira face, feita de despeito e inveja. Isto transparece para o Narrador ao encontrá-lo casualmente no salão da sra. de Villaparisis, tia dos duques de Guermantes; encontra um subserviente Legrandin, o  que leva Marcel a pensar que o idealismo, mesmo subjetivo, não impede que filósofos continuem sendo gulosos ou que se apresentem tenazmente à tristemente famosa Academia de Ciências Morais. E conclui que o Legrandin que conhecera em Combray, não precisaria lembrar tão amiúde que pertencia a outro mundo, quando todos os seus movimentos compulsivos de cólera ou de amabilidade eram governados unicamente pelo desejo de obter uma boa posição social neste.

            No futuro, inclusive, Legrandin forjará para si mesmo um título falso, o de conde de Mèséglise, que a aristocracia houve por bem não contestar. O seu nome transformar-se-á em “Le Grandin de Mèseglisé”.

  • A imagem que o Narrador fazia do engenheiro era de um homem alto, de bonito porte, bigodes finos e louros, olhos azuis. Quando, entretanto, após algum tempo, volta a encontrá-lo, nota que jamais supusera que as ancas de Lengrandin fossem tão carnudas, o que depertou no mesmo a possibilidade de uma pessoa inteiramente diferente do que conhecera. Talvez os olhos azuis espelhassem unicamente a frieza daquela pessoa, e as ancas um indício de que Legrandin fosse sexualmente um invertido...

            A inversão sexual de Legrandin também o diferencia de Swann. Ainda mais tarde, Marcel contemplará a transformação operada pelo Tempo naquele esnobe livresco e arrivista. A supressão do tom róseo das faces, os lábios adelgaçados e descoloridos conferiam-lhe, naquele então, uma aparência acinzentada e a precisão escultural da pedra, cinzelando as feições compridas e tristonhas à maneira de certos deuses egípcios. Deuses? Antes fantasmas. Marcel assombrou-se de vê-lo tão pálido, abatido, só proferindo raras palavras, insignificantes como as dos mortos que as evocam.

Elstir

  • Praticamente tudo o que Marcel sabia sobre o artista Elstir lhe fora revelado por Swann. Em um restaurante em Balbec ele trava relações com o artista, um homem de elevada estatura, robusto, traços regulares, barba grisalha, olhar pensativo e fixo, que convida o Narrador a visitá-lo, pois residia em seu próprio estúdio, nos arredores da cidadezinha. Elstir, desde que rompera com o mundanismo dos Verdurin para dedicar-se à arte, vivia no isolamento com sua mulher, num comportamento que a sociedade alcunhava de má educação, ou de loucura, ou de egoísmo e orgulho. Elstir não seria outro “auter-ego” do “Narrador”, senhor Proust?

            Novamente as chaves, mas você possui enorme parcela de razão. Nunca esqueça que toda a história é composta pela memória do Narrador. Diversos artistas, pintores e, por que não, Marcel formatou o personagem social “Elstir”. Ele que com relação à sua solidão, a princípio a associara ao prazer de criar e uma forma de dar um mais alto valor a si mesmo perante aqueles que o tinham desconhecido ou magoado; mas a prática da solidão lhe dera o amor pela mesma. 

            O deslumbramento do Narrador ocorre ao penetrar na simplicidade do ateliê do artista. Marcel possui a mesma sensação de estar em um laboratório onde, uma nova espécie de mundo era gerado a cada pincelada. Do caos, em que se situam todas as coisas que vemos, Elstir havia tirado seus elementos, pintando-os sobre diversos retângulos de tela que se achavam colocados em todos os sentidos: aqui uma vaga colérica batendo contra a areia a sua espuma lilás, acolá um jovem de linho branco, apoiado no convés de um barco. O casaco do jovem e a vaga espumante tinham adquirido uma dignidade nova pelo fato de que continuavam a existir embora já não fossem aquilo em que aparentemente consistiam, visto que a vaga não poderia molhar, nem o casaco vestir ninguém. Podia-se distinguir que o encanto de cada marinha consistia em uma espécie de metamorfose das coisas representadas, análoga à que, em poesia se chama metáfora e que se Deus pai havia criado as coisas nomeando-as, era tirando-lhes o nome ou dando-lhes outro, que Elstir as recriava.

            O esforço que fazia Elstir por despojar-se, em presença da realidade de todas as noções de inteligência era tanto mais admirável porque este homem - que antes de pintar tornara-se ignorante e somente esquecia-se de tudo por probidade, pois o que se sabe veio até nós de fora, não é da gente - possuia uma inteligência especialmente cultivada.

             Ele sabia que um artista não tem a necessidade de expressar seu pensamento em sua obra para que ela lhe reflita a qualidade; pode-se até dizer que o louvor mais alto de Deus está na negação do ateu, que acha a criação perfeita o bastante para prescindir de um criador.          

Os Guermantes

  • A família Guermantes simboliza a vertente mais importante da antiga aristocracia. Tal qual uma velha árvore, ela estende a portentosa fronde por todos os tempos do passado e do presente; iniciando-se com Geneviève de Brabant e Gilberto, o Mau, dentre tantos antepassados que conquistaram e governaram a costa normanda na Idade Média, e chegando ao presente com ramos em que se abrigam marqueses, duques, príncipes, barões, dos mais diversos nomes. Destacaremos apenas as personagens de maior importância no enredo: os duques de Guermantes (o casal de primos Basin e Oriane); o marquês de Saint-Loup, seu sobrinho; os príncipes de Guermantes (Marie e Gilbert), primos dos duques; o barão de Charlus, irmão de Basin de Guermantes, e, finalmente, a velha marquesa de Villeparisis, tia de todos eles.
  • Os duques de Guermantes

            Os duques de Guermantes possuiam o Salão mais refinado e exclusivista de toda aristocracia. Poucos eram os privilegiados mundanos que tinham acento em uma das poltronas da sala de jantar do casal. Amigos íntimos de Swann, graças a seus dotes intelectuais e a sua postura mundana, esta amizade será aos poucos substituída por mais um burguês culto, o Narrador, que, como Charles Swann, tudo fizera para vivenciar esse ambiente mundano.

            Lembremo-nos de que a segunda paixão de Marcel fora a duquesa Oriane de Guermantes e todos os seus traços são cuidadosamente elaborados a formatar, neste período, um perfil de nobreza, refinamento e inteligência, numa mulher de deslumbrante beleza, com seus cabelos loiros e abundantes, toalete delicada e de extremo bom gosto, os olhos azuis e penetrantes, seu nariz altivo, que, posteriormente, ganhará o formato “ em bico de falcão”. Seus olhos penetrantes, que não eram exclusivos de Oriane, mas característicos de todos os Guermantes, pareciam ser o toque que preservavam uma raça tão particular no mundo. Talvez conservassem uma “glória divinamente ornitológica”, quem sabe surgida nos tempos mitológicos da união de uma deusa com um pássaro. Em Paris, quando passa a residir com seus pais numa ala do Palácio dos Guermantes, Marcel se postava apaixonado pelos caminhos em que a duquesa saia a passear e para ele o que desfilava era todo um poema de elegância, o mais requintado adereço, a mais curiosa flor do bom tempo.

             Acontece que o seu amor não se ligava àquelas partes mutantes de carne e de tecido que podiam se modificar e renovar quase que inteiramente. O que ele amava em Oriane era a pessoa invisível que punha em movimento tudo aquilo, cuja aproximação o perturbava, mas cuja vida desejaria captar e dela até mesmo expulsar todos os seus amigos. Será no salão da sra. de Villeparis que o Narrador começara a frequentar, onde ocorrerá a tão ansiada aproximação com Oriane; e ao conhecê-la ele se dá conta de que já não se encontra mais por ela apaixonado. Inclusive, o convite recebido para jantar no palácio dos duques de Guermantes pareceu-lhe como o emprender uma viagem há tanto tempo fora desejada, que se assemelhava mais a um sonho que à realidade, mas sem a beleza onírica que lhe emprestara.

  • A partir da participação neste primeiro encontro social com os Guermantes, que em seu livro ocupa pelo menos cem páginas impressas, todo um castelo de cartas construído ao longo dos anos começa a desfazer-se. Marcel admitido no meio tanto ansiado começa a dar-se conta do formalismo vazio do mesmo, da comédia da polidez, da ilusão da bondade, da desonestidade intrínseca e disfarçada em bons modos. O Narrador compreende que a grandeza de alma não era nada mais que uma forma de disfarce do esnobismo, e que a simplicidade escondia um orgulho supremo; finalmente percebe que a tão decantada inteligência aristocrática superior era somente sofrível. Enfim, todos os “altos atributos” da sociedade eram máscaras, tais quais as utilizadas em teatro, no teatro da própria vida.

            O primeiro jantar com os Guermantes é descrito pelo Narrador como se fosse um teatro de marionetes habilmente montado, em que, a um sinal do duque, toda uma engrenagem engenhosa, opulenta, uma verdadeira relojoeria mecânica e humana se punha em ação. As máscaras sociais da aristocracia começam a ser exibidas em seu próprio meio e Marcel se sente, por um lado, privilegiado, pois ali se encontrava como um “adorno” social, e, por outro, deslocado em um meio ao qual tanto sonhara alcançar, mas que, gradualmente,  principia por decepcioná-lo.

            Ele se confrontará com uma Oriane cuja dureza mescla-se à amabilidade formal, resultando em uma pessoa, na essência, tão sem princípios morais quanto seu marido Basin. Então, assomam ao espírito do Narrador ”os olhos à flor do rosto” que Oriane possuia, denotando uma inteligência limitada, o enrubecimento das faces, como reflexos de certa vulgaridade e o inigualável brilho dos olhos azuis, agora, representando uma frieza de caráter.  Mas, como toda personagem do enredo, Oriane de Guermantes possuia também outras facetas. O gênero de espírito da duquesa se nada tinha em comum com uma elevada inteligência, era pelo menos espírito, espírito hábil em utilizar diferentes formas de sintaxe. Traduzindo melhor, expressava-se no bom francês, com o sotaque do interior que a aristocracia prezava em manter e que tão bem soava aos ouvidos do Narrador.

            A verdade é que Oriane tinha passado a juventude num ambiente um pouco diverso que o da maior parte de seus parentes, também aristocrático, porém menos brilhante e, sobretudo, fora menos fútil  e mais rico culturalmente que o daquele em que hoje vivia. Nela ainda poder-se-ia notar a graça francesa pura, que praticamente não se encontra mais nem na fala e tão pouco na literatura. O vocabulário que sempre encantou o Narrador, assim como um modo de expressão na velha liguagem, na verdadeira pronúncia das palavras, Marcel somente encontrava nas conversas com Oriane ou com sua empregada vinda do campo, Françoise. Mas a duquesa, diferentemente daquela que possuia a pureza da simplicidade, colocava certa afetação ao mostrá-lo.

            Oriane, não colocava “a inteligência acima de tudo”, mas, sim, o “espírito” como sua forma superior, pois segundo ela, “forma mais rara, mais requintada da inteligência, que chega a ser uma variedade real de talento”. O espírito nada mais é, entretanto, que a inteligência domesticada, polida, inteligência e cultura de ostentação, despida de toda originalidade e profundidade. A cultura para ser exibida nos salões.

            Suas relações com os homens, como que estragadas pela nulidade da vida mundana, eram instáveis demais para que, nela, a repulsa não se sucedesse bem rápido ao entusiasmo, e para que o encanto que achara em um homem generoso não mudasse rapidamente se ele a frequentasse bastante. E as variações de julgamento da duquesa em relação ao sexo oposto não poupavam ninguém, exceto o próprio marido. Somente que esse, ao contrário de outros homens que a haviam amado, não a tinha amado jamais. Nele ela sentira sempre um caráter de ferro, indiferente aos caprichos que ela pudesse ter, desdenhoso de sua beleza, violento, de uma vontade que jamais se dobrava. Se também sob o aspecto sexual ele poderia ser considerado um mau marido devido a suas amantes, ele era seu comparsa a toda a prova no fundamental, no funcionamento de seu Salão.

  • Conversemos, então, sobre este homem que era um homem comovente por sua amabilidade e revoltante por sua dureza, escravo das menores obrigações e indiferente aos mais sagrados pactos, Basin de Guermantes.

            Para ele, os escrúpulos de consciência, o domínio das afeições e da moralidade, eram simples questões de formalidade. Extraordinariamente rico, num mundo em que as pessoas o são cada vez menos, assimilara à sua pessoa a noção dessa grande fortuna e, portanto, a vaidade do grande-senhor era nele duplicada pela do homem endinheirado.

            Heterossexual, encarnava uma excessão na família, feita de homens voltados ao homossexualismo, ou que mantendo a preferência por homens, buscam prazer e se casam com mulheres. Este fato produzira um ser bruto e arrogante, talvez por falta daquilo que lhe daria alguma delicadeza, algum senso mais apurado do belo. Tão logo deixava uma mulher retornava a Oriane, sua esposa, sua companhia duradoura, que ele sabia que toda a sociedade considerava a mais bela, a mais virtuosa, a mais inteligente e a mais instruída da aristocracia. E, invariavelmente, as aventuras sexuais de Basin terminavam no colo de Oriane, dado que a duquesa não opusera resistência absoluta a que as amantes que ele fazia penetrassem em sua casa; sabia que em mais de uma encontraria uma aliada, graças a qual obteria mil coisas que desejara e que o sr. de Guermantes se recusaria implacavelmente a dar-lhe, se não estivesse apaixonado por outra.          

            Por ser detentor de enorme virilidade compreendia-se que os seus sucessos com as mulheres não eram devidos exclusivamente ao seu nome, à sua fortuna, pois ele ainda mostrava grande beleza, com um perfil que tinha a pureza e a nitidez de contorno de um deus grego. Mas um deus de extremado conservadorismo e carente da cultura, exceto a necessária a um mundano, absolutamente incapaz de ver a beleza de quadros que não fossem os tradicionais, pois toda inovação agride um espírito reacionário.

  • Se por um lado, a devassidão de Basin de Guermantes era evidente, Marcel, por muito tempo, acreditou na pureza de Oriane, como um contraponto à libertinagem do marido. Mas a realidade se encarregaria de mais uma vez decepcioná-lo.

            Sim, e novamente pela língua de seu cunhado, sr. de Charlus, um amante e conhecedor de todos os mexericos e aventuras. Ele afirmava que a vida sexual de Oriane era composta por um número incalculável de aventuras, só que, ao contrário do marido, eram todas elas habilmente dissimuladas.

            Novamente levemos em conta o passar do tempo que a tudo corrói. Anos após, quando Marcel retorna da clínica de tratamento, descobre que todo o brilho do salão dos duques de Guermantes tinha se esvaído. Marcel encontra uma Oriane mais velha, porém ainda atraente, mas a quem as novas gerações devotavam pouco valor. Para sua sorte ela sentira, ao final da vida, o despertar de novas curiosidades, quando a sociedade nada mais tinha a lhe oferecer. Ela havia se tornado amiga de atores e de atrizes, como que realizando uma inversão de papéis com a Sra. Verdurin. De tal modo que, desconhecida dos jovens, seus contatos com políticos e artísticos faziam que lhe dessem ainda algum valor social. De certa forma, ela própria tornara-se a imagem da tia, reencarnando a senhora de Villeparisis.

            Já o velho duque era assaltado por ondas de dor, revoltando-se com a ameaçadora morte; seu rosto, corroído como um bloco de pedra, ainda conservava o estilo, o garbo que Marcel sempre lhe admirara; estava, no entanto, carcomido como uma dessas belas cabeças antigas por demais arruinadas. Tornara-se amante de Odette e, praticamente, já não mais procurava Oriane. Odette, que se aproveitava do seu dinheiro, o que não a impedia de estar sempre voltada para admiradores mais jovens, escarnecendo do ancião quando podia. Pois ao mesmo tempo em que ela o enganava, também dele cuidava, sem charme, nem grandeza. Odette era medíocre nesse papel, aliás, como em todos os demais. Não que a vida lhe houvesse negado alguns excelentes, mas ela não soubera representá-los.

            Porém Basin estava muito velho, e, quando quis passar pela porta e descer a escada para sair, a velhice, que, afinal, é o estado mais miserável dos homens, forçava-o a parar no meio do caminho. Sua figura impotente, ameaçada, dava-lhe à revelia, o aspecto de implorar suave e timidamente aos outros que o ajudassem a chegar ao final da escada de mármore. Uma velhice que o tornara não mais augusto, apenas suplicante.

  • Robert de Saint-Loup e suas relações amorosas
  • Robert de Saint-Loup, filho da influente viscondessa de Marsantes, pertence à fina flor da aristocracia, foi o maior amigo de Marcel; ele o descreve como alto, de uma magreza atlética, fino de pescoço, cabeça orgulhosamente lançada para trás, olhar penetrante da cor-do-mar, pele dourada e um cabelo tão loiro como se houvesse absorvido todo o ouro do sol. Surpreso ficou o Narrador ao saber que o jovem aristocrata, vestido como quem faz a moda, com ares de extremo esnobismo, era muito lido destoando nisso de seus parentes, com exceção do barão de Charlus.  

            Aquele jovem marquês de Saint-Loup, quando entra em relações com Marcel, com seu aspecto de aristocrata e esportista desdenhoso, não sentia curiosidade nem estima senão pelas coisas da inteligência, especialmente, pelas manifestações modernistas da literatura e da arte; de resto, estava imbuído do que sua tia chamava de declamações socialistas. A verdade é que, possuído de grande desprezo pela casta, passava horas inteiras estudando Nietzsche ou Proudhon. No entanto, se julgava todas as coisas pelo peso da inteligência que contêm, ele não possuia grande capacidade imaginativa, não percebia encantos propiciados pela imaginação que encerram tantas coisas que ele julgava frívolas. Saint-Loup era de uma sinceridade e desinteresse absolutos; possuía grande pureza moral, que não podia satisfazer-se inteiramente com um sentimento egoísta como o amor; não se via na impossibilidade de encontrar um alimento espiritual fora de si, e isto era o que o tornava tão capaz da amizade.

                Ele exercia a carreira militar e a respeito da soldadesca dizia: “Veja que, se falo da mediocridade de meus camaradas, de serem criaturas totalmente ignorantes, que só sabem falar em corridas, quando não do tratamento dos animais, não digo, entretanto, que todo militar seja desprovido de intelectualidade”.

  • Na época da grande amizade de Marcel por Saint-Loup, o marquês estava apaixonado por Raquel, uma moça morena de olhos escuros, que já fora oferecida a Marcel em um prostíbulo.  É interessante o momento em que se deu esse conhecimento, pois era a primeira vez que o Narrador frequentava um rendez-vous que ele, em sua imaginação, esperava encontrar uma reprodução fantástica das lindas odaliscas de Moreau, com suas pérolas, flores, serpentes a tornearem pernas nuas; defrontar-se-á com pobres moças despidas ou semidespidas a oferecerem-se por ninharia. A alcoviteira, vendo-lhe certo desinteresse, oferece-lhe, então, a cereja da casa, alguém que deveria ser “tremenda”: uma judia! Essa judia morena, com ar inteligente, magra, face alongada, apelidada pelo Narrador de “Raquel quando do senhor”, viria a ser a amante de Robert. 

            Raquel era uma atriz iniciante, que se mantinha com o dinheiro que obtinha da prostituição; isso até deparar-se com o “deus acaso” que a jogara ao encontro de Robert. O “deus” se manifestara durante uma apresentação teatral, quando a atriz encarnava uma de suas “personnas”; nesse momento, as faces de Raquel erguiam-se como um crescente lunar, com um nariz tão fino, tão puro, que Robert desejou tornar-se objeto da atenção de Raquel e possuí-la junto a si.

            Em troca dos míseros francos que Raquel obtinha no bordel, Robert lhe fornecia quantias mil vezes maiores, sob forma de presentes e mesadas. O amante, então, foi por ela introduzido na vida artística e isso o levou a achar tediosa a companhia das mulheres da sociedade e a considerar um aborrecimento o compromisso de ter de ir a alguma recepção mundana. E a amante de Robert, como os primeiros monges da Idade Média da Cristandade, ensinara a ele sentimentos maiores, como, por exemplo, a piedade para com os animais e o respeito pela natureza. Portanto, a relação com Raquel preservara Saint- Loup do esnobismo e o havia “curado” da frivolidade. Também lhe ensinara a colocar nobreza e refinamento em suas amizades, ao passo que, se ele fosse um simples homem de salão, seriam suas atitudes ditadas pela vaidade e pelo interesse, não isentas da rudeza dos Guermantes.

            No entanto, quando Rachel se sente amada desesperadamente por Robert, ela passa a dominá-lo através do ciúme. Marcel sentia que para Saint–Loup a inquietação, o tormento e o amor haviam se amplificado, até que essas sensações se transformassem em sofrimentos infinitos, tendo como prêmio a própria existência. Compreendia que muitas mulheres por quem os homens vivem, sofrem, matam-se, podem ser em si mesmas, ou para os outros, o que Rachel era para Marcel, nada. Mas um ciumento amoroso muitas vezes prefere como Édipo, arrancar de suas próprias órbitas os olhos para não enxergar a realidade que a todos se escancara. 

            Não era a “Raquel quando do senhor” que parecia insignificante. Era a potência da imaginação humana, a ilusão sobre a qual pousavam as dores do amor que o Narrador julgava grandes. Robert que já percebera a certa distância, a Raquel putinha e a Raquel verdadeira, supondo que a putinha fosse mais real que a outra. Mas Robert talvez só tenha tido a ideia daquele inferno em que vivia, quando se viu premido pela necessidade de arrumar um matrimônio rico, em que a venda de seu nome lhe permitisse poder continuar dando cem mil francos por ano a Raquel.

            Pelo lado de Raquel, a vida que vivia com Robert era, em boa parte, sua verdadeira vida, pois podia desfrutar das fabulosas somas de dinheiro que dele recebia; no entanto, ela  lutava, fazia de tudo para destruí-la. E terminará por destruí-la, com o dinheiro dado pelo amante devidamente guardado, voltando-se para os seus amigos artistas e atores. Fora justamente Raquel que dera ao fidalgo o suporte para o humanismo que ele esgrimia. No entanto, ao final de seu amor por ela, o verdadeiro Robert volta a se apresentar à sociedade, e posto que o amor de Robert às letras e pelas questões sociais nada possuia de profundo, não emanava de sua verdadeira natureza e era nada mais do que um derivado de seu amor por Raquel, o Robert mundano, o Guermantes retoma o seu lugar.

            A partir de então, também a admiração do Narrador por Saint-Loup, pouco a pouco, se esvai,  e  Robert perde para Marcel o seu halo de virtuosidade. Ao mesmo tempo, uma nova faceta de Saint-Loup lentamente se apresentará; o Narrador se dará conta de que a doença ancestral dos Guermantes, a inversão sexual, também atingira Robert. 

  • Foi no retorno de uma viagem a Veneza, em companhia de sua mãe, que o Narrador tomou conhecimento de que Gilberte de Forcheville se casaria com Robert de Saint-Loup, numa união altamente vantajosa para ambos. Ela tornar-se-ia uma Guermantes e ele, parceiro de uma enorme fortuna.

            Apesar de o casamento haver sido rendilhado pela mãe de Robert, e sendo um casamento por interesses, Gilberte ama por algum tempo o esposo. Acontece que esses consórcios, que podem parecer infamantes para alguns, são geralmente os mais estimáveis de todos, porque implicam o sacrifício de uma posição mais ou menos lisonjeira a uma aventura puramente íntima (e não se pode considerar infamante um casamento por dinheiro, pois não há exemplo de um casal em que um dos dois não se haja vendido). E Gilberte engravida, e desta relação, nascerá a senhorita de Saint-Loup, símbolo da união que interligaria os Caminhos de Swann e de Guermantes.

            Mas o idílio, se houve, durou pouco. Gilberte se julgava infeliz, enganada por Robert, mas não da maneira como todo mundo pensava, e que talvez ela própria pensasse. O amor-próprio, o desejo de iludir os outros, de iludir-se, o conhecimento imperfeito das traições é o território comum de todas as criaturas enganadas. Robert, por seu lado, como verdadeiro sobrinho de Charlus, mostrava-se na companhia de mulheres para que Gilberte e a sociedade as tomassem por suas amantes. Na verdade, todas as mulheres com que Robert se exibia constituiam apenas uma cortina-de-fumaça. Sua amante chamava-se Morel, o violinista, que trocara o senhor de Charlus pelo sobrinho, mais jovem e mais bonito e que nas cartas a Robert endereçadas fazia chamar-se “Babette”.

            O Narrador conclui que Robert somente enquanto amou as mulheres é que foi verdadeiramente capaz de sentir amizades; depois disso, aos homens que não lhe interessavam diretamente passou a demonstrar indiferença; tornara-se muito seco o que também ajudava a disfarçar o fato de que não gostava de mulheres.

  • Marcel voltará a encontrar Robert antes de sua morte heroica na guerra. A vida não o tornara corpulento, operando nele uma mudança inversa, dando-lhe o aspecto desenvolto de um oficial de cavalaria.

            Robert herdara de sua consanguiniedade a coragem guerreira. E esse Guermantes, ao morrer no campo de batalha, morrera mais ele mesmo, como ficou simbolicamente claro em seu enterro, na igreja de Saint- Hilário, em Combray, toda forrada de preto, onde se destacava em vermelho, sob a coroa fechada, sem iniciais de pré-nomes e títulos, o G de Guermantes que, pela morte, ele voltara a ser.

Os príncipes de Guermantes- Bavière

  • Os príncipes de Guermantes, originários de um ramo gremânico da família, são tão ricos e socialmente importantes quanto os duques de Guermantes. Destacaria três momentos em que eles assumem grande importância no enredo. O primeiro deles na cena de teatro em que pela primeira vez Marcel descreve a princesa e a compara com Oriane de Guermantes; a segunda, quando o Narrador é convidado de maneira inesperada para uma reunião social no palácio dos príncipes; e, finalmente, um terceiro episódio que ocorrerá quando, após muitos anos de ausência, Marcel comparecerá a um baile no palácio, não mais dirigido pela doce e linda princesa que conhecera, mas pela dura senhora Verdurin.

             Principiemos pelo teatro. Marcel descreve a princesa Marie como ligeira e bela tal qual Diana, arrastando atrás de si, em direção ao seu camarote uma capa incomparável. E desde lá dirigia, como uma grande deusa, toda a sua corte de suseranos. Seu pescoço e colo eram repletos de conchinhas do mar e pérolas, suas plumas e corolas que desciam pelos seus cabelos, somente poderiam encontrar rival na beleza de sua convidada, a prima Oriane de Guermantes, que comparecia ao teatro com uma toalete deslumbrante, porém mais sóbria, fazendo que sobre ela, ao contrário da prima, doçura e encanto se irradiassem.

            No segundo evento por você mencionado, o Narrador recebe um convite para uma recepção oferecida pelos príncipes. Fica surpreso e debate-se na tortura de saber se fora mesmo convidado ou se o convite fosse obra de troça de algum inimigo. Por fim, decide arriscar-se e comparece à festa. É durante esse evento que Marcel consegue traçar algumas diferenças entre o príncipe Gilbert e seu primo, o duque Basin. Talvez, devido ao seu homossexualismo incoberto, o príncipe possuia uma sensibilidade muito superior à do primo, assim como uma posição política mais ponderada, menos militarista, a que se alinhavam antigos preceitos éticos de honra e palavra.

            Finalmente, no terceiro momento, nós temos primeiramente o Narrador a sós na biblioteca do palácio, aguardando o final de um Concerto que ocorria no Salão de recepções, onde uma recordação involuntária, que se soma a outras que acabavam de ocorrer, conduzem-no a um estado de repleta felicidade, que terminam por lhe impor “recuperar o tempo perdido” e mergulhar no trabalho de criação artística, abandonando todo o mundanismo dispersivo. Quando as portas do Salão dos príncipes de Guermantes se abrem, Marcel penetra no local do baile, naquilo que ele descreve como “o baile de máscaras”, onde terá enorme dificuldade de descobrir, por trás das máscaras produzidas pelo Tempo em cada personagem, quem seriam os seus conhecidos no passado. Tudo simbolizava um novo tempo, onde novos figurantes já se preparavam para substituir os antigos atores.

  • O Barão de Charlus e Morel
  • Personagem multifacetário, complexo, irmão do duque de Guermantes, o barão Palamédes de Charlus, título por ele mesmo escolhido dentre tantos os pertencentes à família Guermantes, surge com toda sua imponência morena junto ao jovem Marcel, apresentado por sua tia, marquesa de Villaparisis, durante uma estação de águas em Balbec.

            Marcel inicialmente impressiona-se com aquele indivíduo corpulento que a tudo e a todos julgava. Sente que o seu olhar o atravessa com a rapidez do relâmpago, dissimulado como um olhar neutro que finge nada ter visto, o olhar que se limita a expressar a satisfação de sentir-se envolto nas pestanas que entreabre com redondez beatífica; o mesmo olhar devoto e derretido de certos hipócritas ou se quisermos, o olhar estúpido de certos tolos. Marcel nota que o seu olhar nunca estava fixo no interlocutor e passeava ininterruptamente em todas as direções, como o de um animal assustado ou de um charlatão de praça.

  • Charlus se interessa vivamente pelo Narrador. Oferece-lhe um livro de Bergotte, cuja encadernação possuia um ramo de miosótis a enfeitá-la. Marcel não se dá conta do significado implícito do belo enfeite, ao que Charlus lhe diz: “Bem vejo que não é mais entendido em flores do que em estilos, nem sequer reconheceu na encadernação do livro de Bergotte o lintel de miosótis da igreja de Balbec. Haveria maneira mais límpida de dizer: não me esqueça?” Miosótis na língua bretã, chama-se “forget-me-not”. Era uma clara tentativa de recrutamento do Narrador para a irmandade de Sodoma, não?

            Sem dúvida, e delicada. Mas Marcel via naquele rosto reflexos de algum engenho bélico interior, de uma máquina alarmante até para aquele que o carregava dentro de si sem a dominar, em estado de equilíbrio instável e sempre prestes a explodir. Despertava na mente de quem o observasse, ideias de um incógnito, de um homem poderoso que estivesse em perigo e que se disfarçasse, ou pelo menos de um indivíduo perigoso, porém trágico.

            Além de altivo, Charlus era muito melindroso e dado a mexericos. Dir-se-ia um Apolo envelhecido, que, porém, possuia uma escuma olivácea, hepática, sempre a ponto de escorrer da boca ruim. Por mais que algumas belas palavras colorissem todos os seus ódios, sentia-se que aquele homem era capaz de assassinar e de provar, à força de lógica e de hábeis palavras, que tivera razão em fazê-lo, ainda que em seu discurso houvesse ora orgulho ofendido, ora um amor decepcionado, ou rancor, sadismo, ou somente impertinência.

  • Esses aspectos que o senhor citou de Charlus, parecem-me que agora devem ser confrontados com outros “eus” de que aquela complexa personagem social era composta. O profundo conhecimento de arte, o seu refinamento intelectual, além do profundo conhecimento da heráldica. E a tudo isso ainda se combinava um perfeito mundanismo.

                Sem dúvida, ao contrário de seu irmão, o sr. de Charlus possuia uma fina inteligência e profunda formação, além de talentos artísticos. Quando jovem, entregara-se à arte, tanto à pintura quanto à música; chegara até mesmo a compor uma interessante sonatina. Ele ainda possuia outros recursos, não só da eloquência, mas também da audácia; quando tomado de uma raiva que vinha de longa data contra alguém, fazia-o embuchar de desprezo, com as palavras mais cruéis, perante os circundantes escandalizados e que nunca tinham pensado que se pudesse ir tão longe. Acalorava-se, agitava-se em verdadeiras crises nervosas, que faziam tremer toda gente, porque sendo sensitivo, nervoso, histérico, era um verdadeiro impulsivo, mas, dentro de tudo isto, um “pseudo  bravo”. No julgamento de Marcel, o que o tornava simpático aos seus olhos, um “pseudo mau”: as pessoas que odiava, odiava-as porque se considerava menosprezado por elas; se elas se tivessem mostrado simpáticas com ele, em vez de inflamarem sua cólera, tê-las-ia abraçado.

            No Faubourg Saint-Germain, nunca se falava de seus costumes homossexuais, que eram ignorados pela maioria, objeto de dúvida de outros, que acreditavam antes em amizades exaltadas, mas platônicas. Enfim, os únicos informados dissimulavam cuidadosamente, davam de ombros quando algum cruel arriscava uma insinuação. Esses costumes, conhecidos apenas por alguns íntimos, eram, pelo contrário, diariamente criticados longe do meio em que ele vivia, o que levava a uma determinada redução de seu poder junto à sociedade que frequentava.

  • Senhor Proust, a vida de Charlus sofre uma reviravolta no famoso trem que percorria as cercanias de Balbec. Quando esperava pelo transporte, Charlus conheceu o violinista Charlie Morel, filho de um servidor da casa do tio de Marcel, Alphonse. A paixão que nutriu pelo moço moreno, metido em uniforme dos músicos militares, cabelos encaracolados, foi à primeira vista; na reunião seguinte do clã dos Verdurin o barão o levou à tiracolo, e a sua inversão sexual começou a torna-se clara para todos.

            Desde então, passou a sobressair a mulher que um erro da natureza colocara no corpo do sr. de Charlus. Esse engano, por certo que o barão havia duramente penado para dissimulá-lo, assumindo uma aparência masculina e até mesmo uma atitude absolutamente antipática a qualquer tipo de afeminamento. Pouco a pouco, entretanto, sua estrutura psíquica de mulher ia fazendo com que pensasse as coisas sociais no feminino e, sem se dar conta, pois não é à força de mentir para si mesmo, que a gente deixa de transparecer o que lhe ocorre na intimidade.

            Morel, por seu lado, a quem Charlus nada negava, era um ser absolutamente desprovido de qualquer ética, moral, ou o que quer fosse parecido com isto. Apenas buscava aproveitar-se do dinheiro farto e das relações sociais que o barão lhe propiciava, enquanto que o amor de Charlus por ele, esse sim, era verdadeiro. Infelizmente para o barão, a sua falta de bom senso, talvez a castidade que quiças mantivesse em relação a Morel, fizeram-no cumular o violinista de estranhas gentilezas que este não podia compreender e a que a sua natureza, doida a seu modo, mas ingrata e mesquinha, não podia corresponder senão com uma secura ou uma violência cada vez maior, e que mergulhavam o sr. de Charlus- outrora tão altivo e agora cheio de timidez- em acessos de verdadeiros desespero.

            Morel julgava haver-se tornado um de Charlus, ou melhor, mil vezes mais importante, pois tinha compreendido apenas de orelha e ao pé da letra os orgulhosos ensinamentos do barão com referência à aristocracia.

            Quando ocorreu o rompimento entre de Charlus e os Verdurin, estes o acusaram de que estava fora de moda; na verdade eles eram acima de tudo ingratos, pois o sr. de Charlus era de algum modo o poeta de seu clã, aquele que soubera tirar da mundanidade uma espécie de poesia, na qual cabiam a história, a beleza, o pitoresco, o aspecto cômico e a elegância frívola. Somente o consideravam “demodé” porque nunca haviam compreendido seu raro valor intelectual e porque aqueles que adotam como critério de mérito alheio o que esteja na moda, não penetram nem superficialmente nos homens de mérito de uma geração.

            Diga-se de passagem, que durante a guerra, dentre toda a aristocracia, somente o sr. de Charlus transformou o seu palacete em um hospital militar, cedendo, portanto, menos aos impulsos de sua imaginação, que ao de seu coração generoso.

  • Talvez como resultado do rompimento com Morel, ou por sua aparência e idade não comportar mais a atração de jovens, o sr. de Charlus se liberta dos entraves sociais assumindo então, claramente, a sua homossexualidade.

            A revolução interna de um espírito, ignorante a princípio da anomalia que trazia em si; apavorado depois ao reconhecê-la; enfim familiarizado com ela a ponto de não perceber que não se pode sem perigo confessar a outros o que acabou por confessar sem pudor a si mesmo, muito mais que fatores externos ou decorrentes da idade ou da aparência, haviam sido eficazes para libertar o sr. de Charlus dos últimos entraves sociais. Os diversos expedientes a que tivera de recorrer para satisfazer seu vício e proteger-lhe o segredo, entretanto, haviam produzido o resultado de trazer à superfície da fisionomia precisamente o que o barão procurara esconder antes de assumir-se: uma vida crapulosa, atestada pela degradação moral que,  aliás, não era só nas faces, ou melhor, nas bochechas flácidas daquele rosto pintado, no peito mamudo, nas nádegas proeminentes daquele corpo entregue ao “laisser aller” e invadido pela gordura, onde sobrenadava agora , esparramado como óleo, o vício antes tão intimamente resguardado por ele no mais recôndito de seu ser. Transbordava já nas próprias palavras.

Quase que instintivamente de Charlus procurava novas performances, e, enfastiado dos desconhecidos que encontrava, passara ao polo oposto, justamente àquele que julgava que detestaria. As portas do Inferno abrir-se-ão para Charlus na forma do prostíbulo masculino do qual Jupien fazia-se cargo. Um inferno do tipo que, se não possui cérberos na entrada, tem seus brutamontes produzidos pela guerra e pelo vício, à saída.  

  • Sr. Proust, creio que é hora de completarmos o perfil psicológico do sr. de Charlus. O senhor já nos disse que ele, sendo doente dos nervos, encenava uma estranha virilidade, mas que no fundo era um “falso bravo”.

            Dentre os seus múltiplos “eus”, também existiva aquele ser muito compassivo, que se sentia mal ante a ideia de um vencido e, então, defendia sempre o mais fraco. Durante a guerra, e apesar do ramo bávaro de sua família, suas recordações da Alemanha eram bem remotas, mas ele não podia suportar a presença dos franceses belicistas, que com a luta praticamente vencida pela França e seus aliados, queriam o aniquilamento da Alemanha. De todo modo, os belicistas eram pessoas consideradas por ele como pertencentes a mais baixa estirpe francesa.

            Além do mais, especialmente a par das taras sexuais dos demais, conhecia as de alguns daqueles que, julgando que suas próprias taras fossem secretas, compraziam-se em denunciá-las nos soberanos dos “impérios de rapina”. Ardia, então por encontrar-se cara a cara com eles, esfregar-lhes no nariz o próprio vício que eles mesmos possuiam e deixar desonrados e arquejantes os que assim insultavam os vencidos.

            De tal modo, que a cada instante, havia sempre dois de Charlus, sem contar os outros.  O intelectual passava o tempo a se queixar de que estava ficando afásico; mas sempre que isto acontecia, acorria o outro, o subconsciente, o qual tanto desejava ser invejado, quanto o primeiro lastimado.

Após quinze ou vinte anos afastado da sociedade, Marcel, a caminho do palácio do Príncipe de Guermantes, repara em um homem de olhos fixos, o talhe curvo, antes colocado que sentado ao fundo de um carro, que realizava para se aprumar esforços parecidos aos de uma criança a quem tivessem recomendado juízo. Seu chapéu de palha deixava que se observasse uma floresta indômita de cabelos inteiramente brancos; uma barba branca, feito a que a neve faz nas estátuas, escorria-lhe do queixo, lembrando uma imagem do Rei Lear, abandonado pelas filhas à loucura e à morte, mas este Lear estava mais para o cômigo que para o trágico.

            Assim o Tempo havia operado. Aquele era o sr. de Charlus, convalescente de um ataque de apoplexia. Talvez ainda houvesse nos movimentos do barão essa desorganização consecutiva às perturbações da memória e do cérebro, e seus gestos lhe excedessem a intenção. Marcel, entretanto, vê nesse comportamento uma espécie de doçura quase física, de desapego às realidades da vida tão impressionantes naqueles que a morte já fez entrar em sua sombra. Era uma criança, sem o orgulho delas, aquele ser em que o poderoso, o altivo, o orgulhoso e o definitivo barão de Charlus havia se transformado.

            Saiba meu caro André, que num dia não muito longínquo, o viajante que nos confins da Borgonha parar na aldeiazinha de Charlus para visitar sua igreja, se não for muito estudioso ou estiver muito apressado para examinar as pedras tumulares, há de ignorar que aquele nome Charlus foi o de um homem que se igualou aos maiores de seu tempo.

  • O personagem Morel, de todo o imenso elenco que passa pelas peripécias de sua obra relembrada é, dentro de meu ponto de vista, um dos mais imorais e arrivistas pequenos burgueses, que buscava a qualquer custo a ascensão social. Esse jovem que, por qualquer dinheiro, teria feito o que quer que fosse, e sem remorsos, servia-se tanto da prostituição masculina, quanto da feminina, dada sua bissexualidade. O único conceito social que lhe importava preservar era o que possuia entre seus colegas de música, pois dentro de toda a maldade de que era capaz, possuía uma faceta virtuosa, a musical.

            Morel é claramente um neurótico. Muitas vezes bastava uma estranha contrariedade para levá-lo até a superexcitação nervosa, e  teria cometido qualquer devaneio, se nisso achasse implicado o seu interesse, assim como mergulhado na aflição, e até mesmo no luto, famílias inteiras. Dizia-se filho da “velhacaria universal”. É verdade que esse jovem punha o dinheiro acima de tudo e, para não falar em bondade, acima dos mais naturais sentimentos de simples humanidade.

            Na realidade, sua natureza era verdadeiramente um papel em que fizeram tantas dobras em todos os sentidos em que é impossível destrinchar qualquera coisa. Parecia ter princípios elevados e, numa caligrafia magnífica, passava horas a escrever ao irmão, corrigindo-o porquê esse havia agido mal. No entanto, era capaz de roubar até seus protetores. Ainda não citamos a história do jovem evangelista que era o chofer do sr. de Charlus e era posto por ele às ordens de Morel; o religioso efetuava a multiplicação dos quilômetros rodados para o cliente e, em compensação, logo que se tratava de prestar contas à companhia dona do carro, dividia por seis o que ganhara. Morel o instruira a isto e ficava com a maior parte do roubo.

  • Morel foi sucessivamente amante de Charlus e de seu sobrinho,  assim como de todo aquele que pudesse pagar-lhe cinquenta francos. Lea, por sua vez, a atriz praticante do lesbianismo, chama-o carinhosamente de “sua desalmada”, graças ao seu deleite também com mulheres, ou ao seu comportamento sexual feminino. Uma definição dada por Béraud em “As mulheres Públicas e a Polícia que as Controla” define um rufião como “um jovem de bela aparência, forte, resistente, que sabe bordejar, falando muito bem, dançando o cancã com elegância, amável para com as mulheres devotadas ao culto de Vênus, apoiando-as nos perigos iminentes, sabendo como fazê-las respeitar e forçando-as a se conduzirem com descência”.

            A maneira como Morel se comportava como um rufião - tanto quanto Marcel pôde sabê-lo - era que ele amava assaz as mulheres e os homens para dar prazer a cada sexo com o auxílio do que havia experimentado com o outro. Sem dúvida encarnava um papel de rufião entre Lea e suas amigas. Era expansivo, amigável, pois tinha qualidades de caráter encantadoras. Nem por isso Marcel deixou de concluir que a sua natureza deveria ser muito vil, que não recuava quando julgava ser preciso, nem diante de nenhuma baixeza e que ignorava a palavra gratidão. Nisso, não por ser rufião, mas por se assemelhar ao comum dos homens.

            Charlus tentou fazer dele o marido da sobrinha de Jupien, que era uma costureira que se apaixonara pelo violinista. Esse ato seria, antes de tudo, uma forma capaz de amarrá-lo em sua relação com o próprio barão. Como longe de sua arte era de uma incompreensível preguiça, a necessidade de ser mantido por alguém se impunha, e ele preferia sê-lo pela sobrinha de Jupien do que diretamente pelo próprio Charlus. Morel torna-se, então, noivo da moça, mas num rompante de neurastenia decide romper o noivado; com efeito, Morel apressara quanto pudera, não tanto o quanto desejara a sedução da sobrinha de Jupien, mas ao adiantar-se um pouco demais em suas tentativas de violentá-la, e,  sobretudo,  quando lhe falara em ter relações com outras moças que ela lhe arranjaria, encontrou resistências que o exasperaram; por isso, ou, quem sabe, porque já a houvesse possuído, seu desejo passou. Tudo isso foram episódios que ocorreram antes do rompimento de Morel com o sr. de Charlus, maquinado pelos Verdurin.

A covardia de Morel levou-o a fugir da convocação para lutar no front da guerra, mas uma vez preso pela deserção, não lhe restou alternativa a não se bater-se, e da guerra, por algum motivo, logrou voltar condecorado. Pois ao final da mesma, Marcel depara-se com a outra personalidade social do moreno Morel. Este se casara dois anos após abandonar o barão, e na falta de honra ou de interesse, sua mulher lhe inculcara certo respeito humano, que, entretanto, não modificara a tendência à fanfarronada e à ostentação de apregoar que todo dinheiro do mundo lhe era indiferente quando oferecido sob certas condicões. Vivia por e pelo dinheiro.

             O personagem Morel simbolizará, por sua vez, também outra fonte social de antissemitismo, o da pequena burguesia em ascensão e sem princípios. Devedor que era da família judia Block, ao não querer saldar sua dívida e para evitar ser chamado de caloteiro, torna-se um eminente e ativo antissemita. Assim, com o tempo, Morel passou a ser considerado no círculo da alta burguesia um homem da mais perfeita moralidade, defensor dos princípios, um patriota, que um dia tinha sido ofendido por um pervertido, um tal de Charlus.

  • A marquesa de Villeparisis
  • A marquesa de Villeparisis é uma personalidade à parte. Culta, altamente refinada, introduz na leitura do romance uma forma ligeira de crítica literária; além de pintora de certos dotes, também trabalha por registrar a  memória social sem, contudo, abdicar do convívio em sociedade. A marquesa era uma aristocrata que nascera em uma casa gloriosa, mas que já não desfrutava de uma grande posição. Em Paris, seu salão apenas era frequentado pelos seus parentes mais próximos, como os duques de Guermantes, e por duas ou três amigas mais íntimas.

          Marcel e os mundanos muito especulavam para conhecer a verdadeira causa da “decadência social” da marquesa. Falava-se da ligação entre ela e o amante, Sr. Norpois, o embaixador, relacionamento de mais de quinze anos, mas em uma sociedade em que as mulheres exibiam amantes muito menos respeitáveis, essa não poderia ser a causa. Outros comentavam que a “má língua” lhe teria angariado inimigos no passado. Ainda outros diziam que ela tivera durante a mocidade tantos amantes quantos levara à falência.

          Mas a sua velhice apaziguada, recolhida, bondosa e cheia de piedade, entretanto, não pressupunha grandes aventuras ou escândalos amorosos na juventude. De qualquer modo, o Narrador encontrará na marquesa uma inteligência e uma sensibilidade que fugiam totalmente aos padrões da classe social a que ela pertencia. Literata pedante, quem sabe, talvez a sra. de Villeparisis o tivesse sido em sua juventude. Ébria do saber não soubera conter, contra pessoas da sociedade menos inteligentes e instruídas que ela, os ditos mordazes que os atingidos jamais esquecem. E, conclui o nosso Narrador, houvesse ou não, na vida da sra. de Villeparisis qualquer escândalo ou outra causa qualquer que concorrera  para apagar o brilho de seu nome, foi na realidade essa inteligência, uma inteligência quase de escritor, certamente, a causa de sua decadência mundana.

Marcel e sua avó surpreendem-se ao saberem que a sra. de Villeparisis era uma defensora da República e sua posição quanto ao anti-clericalismo de diversos republicanos resumia-se a que acharia mal que a proibissem de ir à uma missa a que um dia desejasse ir. Ela era defensora da liberdade religiosa, do desligamento do Estado e da religião e mesmo de que se tivesse a liberdade de não se ter qualquer religião. Também tinha conceitos sociais muito avançados como: “Um homem que não trabalha não vale nada” e “A nobreza hoje em dia não vale quase nada”. A marquesa forma, como numa peça teatral, um contraponto ao reacionarismo de muitos de seus parentes como os Guermantes e os Courvoisiers, consciência que, vinda de seu bom coração, fora cultivada pelo intelecto, não apenas através de suas leituras, mas também por haver convivido com escritores como Chateaubriand, Balzac e Victor Hugo, que frequentavam seus pais. Mas veja que, apesar de expressar seguidamente ideias avançadas, a sra. de Villeparisis jamais chegava até o socialismo, que, aliás, constituia o seu pesadelo.

          De todos os modos, no salão de Villeparisis, Marcel terá conhecerá a iniciação nos salões aristocráticos parisienses.  Lá ele a encontrará com seu avental a pintar suas aquarelas de flores, sempre assessorada por um arquivista e um historiador.

  • O senhor diz que a sra. de Villeparisis encarna em si algumas características que a aproximam de Saint-Simon, o memorialista dos meios aristocráticos e de Sainte-Beuve, enquanto crítica literária informal.

          A marquesa possui lá suas tintas de Saint- Simon e muitas pinceladas de Sainte-Beuve. Em meu trabalho ainda inconcluso e não publicado “Contre Sainte-Beuve”, em primeiro lugar eu deixo claro que eu o respeito como intelectual, mas o critico pela demasiada confiança na “inteligência” dos escritores, pois a essência de uma obra de arte, de uma poesia, é alguma coisa de secreto, oculto dentro do mais fundo poço da consciência do escritor. Também critico a confusão que ele faz entre um escritor, sua vida, seus vícios e seus defeitos, assim como sua comunicação em sociedade com a sua obra. Ou seja, Sainte-Beuve e a sra. de Villeparisis não compreenderam que o “eu” de um escritor encontra-se sempre dissimulado dentro de uma obra de arte. Que um crítico deva examinar aquilo que  existe dentro de uma obra de arte e não o que acontece em seu entorno.

          Devido a esses desvios de critério, tanto Sante-Beuve, quanto a marquesa consideravam Baudellaire e Nerval poetas menores e desconheciam a importância e genialidade de um Stendhal, de um Hugo e de Balzac.  Acreditavam que escritores menores levariam vantagens sobre aqueles de real gênio, pelo “comportamento superior” que possuiriam quando em Academia, em sociedade ou num Salão.

As raparigas em flor

  • O Narrador encontrava-se em frente ao Grande Hotel de Balbec, quando da extremidade do dique move-se uma estranha mancha, que ao se aproximar demonstra ser composta por cinco ou seis mocinhas diferentes no aspecto e nas maneiras de todas as demais pessoas com quem ele se relacionava; chegavam como um bando de gaivotas que nem se importavam com os banhistas e, quando necessário, divertiam-se até mesmo saltando sobre pessoas. Atrás da mais alta que vinha à frente do bando, uma delas empurrava sua bicicleta, outras duas empunhavam tacos de golfe e todas trajavam indumentária especial para os esportes.

            Desde o momento em que as avista, o Narrador dispõe-se a fazer qualquer sacrifício para se tornar amigo de pelo menos uma delas, o que lhe franquearia aquela sociedade rejuvenescedora em que reinavam a saúde, a inconsciência, a volúpia, a crueldade, a antiintectualidade e a alegria. Como Mefistofles, quando decide mostrar um mundo especial da vida vivida fora dos livros e intelectualismos a Fausto, aquele grupo constituía a objetivação irreal e “diabólica” do temperamento oposto ao de Marcel, daquela vitalidade cruel e quase bárbara que faltava à sua fraqueza e que ele desejava por todos os modos vivenciar. Nem entre as atrizes, as camponesas, ou as moças do pensionato religioso, ele vira nada de tão belo, impregnado de tal essência desconhecida, tão inestimavelmente precioso, tão verossimelmente inacessível. Enfim, Marcel ansiava por estabelecer contato com aquelas bacantes, lambuzar-se e perder-se em seu tirso dionísico.

            E, antes mesmo que Elstir lhe apresente Albertine e ela o restante de suas companheiras, Marcel já se apaixona, não por uma, mas por todas as “raparigas em flor”; e, contudo, um possível encontro com o grupo passou a ser o elemento delicioso a perfurmar os seus dias, a única façanha para a qual desafiaria todos os obstáculos, provocando-lhe esperanças e acessos de raiva quando não as via andar pela praia.

Se num primeiro momento, Marcel chegara a crer que seriam cocotes ou amantes de ciclistas, após a apresentação por Elstir elas ganharam nomes e sobrenomes, e tanto Albertine, quanto Andrée, Gisèle e Rosamunde transformaram-se em moças de uma pequena burguesia muito rica, exceção feita à órfã Albertine. E ele raciocina: “Os velhos burgueses avarentos de quem tinham saído aquelas Dianas e aquelas ninfas me pareciam os maiores artífices de estátuas do mundo”. De qualquer modo, elas continuavam sendo suas deusas, mas agora possível de serem tocadas.

A primeira flor que Marcel tenta colher possui a pele de um gerânio: é a pequena e loira Gisèle, mas ela deixa o grupo, viajando para Paris. Marcel tenta acompanhá-la, mas um desvio do trem faz com que eles se desencontrem. Volta-se ele, então, para as outras raparigas, ou seja, Albertine, Andrée e Rosemunde, sem que soubesse dizer qual delas lhe tornava mais preciosos aqueles lugares e brincadeiras e qual lhe provocava mais desejos de amar.  Mas, afinal, quem se decide por amá-lo é Albertine.

  • Albertine
  • Albertine será o terceiro caso de amor da vida do Narrador, aliás, o único em que ele chegará às consequências de uma relação sexual completa. Quando a conhece, ela talvez, “justamente porque era morena”, desperta mais a sua curiosidade. Seus olhos escuros, as maçãs salientes do rosto, o nariz curvo e levantado, não lhe “faziam o gosto”, como a plagiar Swann. No entanto, apesar de um encanto maior produzido em Marcel por Andreé, será com Albertine que ele, enfim, se envolverá sentimentalmente. 

            Marcel sempre imaginou que todas as mulheres que amara nunca lhe haviam correspondido com o mesmo sentimento. Já esse amor juvenil que ele sentia era verdadeiro, visto que subordinava todas as coisas à função de vê-las, de conservar todas as “raparigas em flor” unicamente para si. Quando ele as via, quando as ouvia, não lhes achava nada que se assemelhasse ao seu amor, isto é, a potência capaz de dirigir todos os seus atos e causar todos os seus sofrimentos.

            Talvez por isso mesmo, para ele ligar-se à Albertine era como uma tomada de contato com o desconhecido, senão com o impossível, mas um exercício tão incômodo como domar um cavalo, tão complicado como criar abelhas ou cultivar rosas. Abertine, por seu turno era muito inteligente e, nas coisas bobas que ela dizia, a tolice não era sua, mas do seu ambiente e de sua idade. “Acontecia que sua tez variava entre o róseo violáceo e o ciclame, e aquele riso evocava também as carnações róseas, as paredes perfumadas, contra as quais parecia que acabara de esfregar-se e que, acre, sensual e revelador como um perfume de gerânio, ela transportava consigo partículas irritantes e secretas”.

            Para Marcel a relação com a moça afinal não passaria de um namoro de verão. Após as férias, de volta a Paris, ele é surpreendido com uma visita intempestiva de Albertine. Descobre, então, novidades que o atraem; ele sentia, na mocinha bonita que acabava de sentar-se junto à sua cama algo diverso, e nas linhas que no olhar e nas feições do rosto uma mudança de aspecto, como se tivessem sido destruídas as resistências que ela chegara a lhe oferecer em Balbec. Marcel ainda não amava Albertine de forma alguma: filha da bruma, ela podia apenas contentar o desejo de imaginação que este novo momento lhe propiciava. Mas então, em Paris, ela se entrega, concendo-lhe de modo tão doce o que havia negado no passado.

            No entanto, as relações entre Marcel e Albertine apenas se tornarão fortes, quando de uma segunda estada do Narrador em Balbec, após o falecimento de sua avó. A relação afetiva é prazerosa, exatamente por não trazer nenhum tipo de compromissos futuros e Albertine surpreende-o sempre, no seu constante evoluir cultural. Diante de uma bela igreja, ela torna-se pensativa e após observá-la, diz: “Não me agrada, é restaurada”. Albertine sabia reconhecer imediatamente uma restauração, ela que aprendera com Elstir a apreciar a inimitável beleza das velhas pedras.

            Mas o ciúme estava à espreita, observando o Narrador, até dele se acercar e jamais abandoná-lo. Numa das paradas do trenzinho que de Balbec conduzia o clã ao palácio em que se hospedavam os Verdurins, Marcel leva o doutor Cottard até um pequeno cassino onde, por falta de rapazes, moças dançavam com moças. Andrée e Albertine se enlaçavam o que é traduzido pelo doutor como uma excitação recíproca entre as moças. O esporão do ciúme e da curiosidade dá sua primeira estocada no Narrador.

            Mas este é apenas o prelúdio. Estando Marcel e Albertine a conversar no mesmo trenzinho, a moça, sem nenhum propósito específico que não fosse mostrar certo envolvimento com as artes, conta a Marcel ser amiga da Srta. Venteuil e que, órfã, praticamente, fora educada por sua amiga. Ora, ainda garoto, num remoto entardecer em Montjouvain, Marcel, oculto por trás das folhagens, adquirira a chave do saber  ao presenciar a relação sexual entre duas mulheres que eram justamente as amigas, agora declaradas, de Albertine. O que aos seus olhos tornava Albertine, praticamente, uma gomorriana. Marcel confessa: “Era uma terra terrível a que eu acabava de aterrar, uma fase nova de sofrimentos insuspeitados que se abria”.

 O fato de Albertine ligar-se ao safismo torna-a indispensável a Marcel. Sentindo-se apaixonado  decide por torná-la sua “prisioneira”, deixando Balbec e partindo imediatamente para Paris, após comunicar à mãe seu desejo de casar-se com Albertine. Desde o princípio, ocorre ao Narrador, na sua relação com Albertine a comparação com o amor de Swann por Odette. E isso o atormentava como o atormentava o ciúme, a necessidade de controlar cada movimento e, depois, cada pensamento de sua “prisioneira.”

            Mas havia um abismo entre Albertine, moça que apesar de órfã e pobre, pertencia a uma rica família burguesa, e Odette, cocote que fora vendida pela mãe na infância. A palavra de uma não podia ser comparada com a da outra. Aliás, Albertine não tinha, em mentir, o mesmo interesse que Odette para com Swann. Sem dúvida, conscientemente, Marcel declara que seria “ uma loucura julgar Albertine por Odette ou Raquel”. Mas não era ela e sim ele; eram os sentimentos dele que lhe inspiravam o próprio ciúme e o faziam substimar-se em demasia. E desse juízo errôneo, nasceram decerto muitas desgraças que iriam se abater sobre todos.

            A Albertine “prisioneira”, na medida em que a convivência com Marcel avança, adquire ora um olhar azul, ora negro, e, sobretudo um tom azul-negro. Ela será, ao mesmo tempo, inteligente com suas sobrancelhas em arco, e tola, com o nariz arrebitado, malvada quando vista de perfil e bondosa quando de frente. Desde que passaram a viver juntos, ele fazia todos os dias mil reflexões a seu respeito, mantinha com o que ele chamava Albertine, todo um diálogo interior, em que lhe inspirava perguntas e respostas, pensamentos e ações e, na série indefinida de Albertines imaginadas, que se sucediam em seu espírito de hora em hora, a Albertine de verdade só figurava à frente como a criadora de um papel, uma máscara, quase se reduzia a uma silhueta; tudo o que se lhe sobrepunha era uma invenção do Narrador, pois em amor acontece que as contribuições originárias de nós mesmos suplantam- ainda que apenas quantitavamente- aquelas que nos vêm da criatura amada.

            Em outras palavras, Marcel confessa que conhecia várias Albertines ao invés de uma só e parecia-lhe ver muitas outras deitadas ao seu lado. Neste processo de descobertas, “raças, atavismos, vícios repousavam-lhe nas faces. Cada vez que mexia a cabeça, criava uma nova mulher frequentemente não imaginada por mim. Parecia-me que eu possuia não uma, mas inumeráveis Albertines”. Gradualmente, cada vez menos restando a ser descoberto, Albertine acabava por parecer-lhe cada vez menos bonita.

            No entanto, esta multiplicidade de Albetines, também ocorria com o próprio Narrador. “Eu não era somente um único homem, mas o desfilar, hora a hora, de um exército de compósitos em que havia, conforme o instante, sujeitos apaixonados, indiferentes, ciumentos - ciumentos dos quais nenhum o era da mesma mulher”.

            Como cada um de nós não é apenas um, mas contém numerosas pessoas em si mesmo e nem todas com o mesmo valor moral, se existira a Albertine viciosa, isso não impedia que tivesse havido outras Albertines: a que gostava de conversar sobre Saint-Simon, por exemplo. Então, quando Marcel descobriu isso, não esteve mais sozinho; sentia desaparecer o muro que os separava; a volta da Albertine generosa trouxera-lhe os antídotos para os males que a Albertine sensual lhe causava. Mas a calma que esta Albertine lhe propiciava era mais alívio do sofrimento do que alegria propriamente dita. O Narrador diz literalmente: “Nossas relações eram de uma simplicidade que as tornava repousantes. O vazio mesmo de sua vida, dava a Albertine uma espécie de solicitude e de obediência nas únicas coisas que eu reclamava dela. Assim, nesta Albertine enclausurada em minha casa, subsistiam a agitação, a balbúrdia social, a vaidade inquieta, e os desejos errantes da vida de banhos de mar.”

            Embora ela lhe proporcionasse muitos prazeres, a dor provocada pelo ciúme tornava-o gradualmente insensível. Com o passar do tempo, ele deixara de achar até mesmo Albertine bonita, e ele adquire a sensação de não amá-la mais.       No entanto, nada é retilíneo. Todo este sentir tormentoso era interrompido quando o Narrador a via dormir em sua cama, pois fechando os olhos, perdendo a consciência, Albertine se despojava de seus diferentes caracteres de humanidade que o havia, desde sempre, decepcionado. Não estava animada senão da vida inconsciente dos vegetais, das árvores, vida diversa da dele, mas que Marcel sentia lhe pertencer mais.

Marcel talvez tenha tido uma felicidade e uma desgraça que Swann não havia conhecido, pois justamente, o tempo todo em que ele amara Odette e fora tão ciumento, mal conseguia vê-la, e só dificilmente podia ir à sua casa. Depois quando a tivera para si, há muito deixara de amá-la. Marcel, pelo contrário, enquanto sentia tanto ciúme por Albertine, mais feliz que Swann, tivera-na em sua casa, à sua disposição como “prisioneira”. Na verdade, havia realizado aquilo que Swann sonhara tantas vezes e que só se realizou quando Odette se lhe tornara indiferente, ou seja, encerra-la em uma “gaiola dourada”, no caso, através do casamento.

            Quando Marcel sentiu que já esgotara tudo o que Albertine poderia revelar por si e de si mesma, vê chegado o momento em que, se as coisas acontecessem naturalmente, uma mulher não serviria senão como transição para outra mulher, pois nada mais de sua natureza restaria a ser descoberta. Percebe que deveriam terminar a relação. No entanto, a iniciativa não parte dele, pois quem realmente cria a coragem da ruptura é a “fugitiva”, Albertine, ao deixá-lo silenciosamente, sem brigas, apenas com a tristeza da noite anterior a amargurar o abandonado.

            Para Marcel, que acreditava não mais amá-la, o ciúme traz de volta o sentimento da paixão. Então, estando Albertine fugitiva, em Marcel é despertada uma louca busca por suas amantes reais ou imaginárias; para fazê-la  retornar à “sua gaiola dourada” dispõem-se a casar. Robert é encarregado de trazê-la de volta, mesmo à custa de subornar sua tia, oferencendo dinheiro para campanha eleitoral do marido. Em vão, Albertine não aceita o retorno dado que decidira viver a  vida em liberdade, e ao amigo enviado é dado ouvir o canto de Albertine, prenúncio de que ela, como os pássaros livres, sentia-se agora feliz.

             Aos poucos Marcel vai conseguindo superar o sentimento de perda e a imagem da amante começa a esfumaçar-se. Na sequência ocorre uma fatalidade: a “fugitiva” morre ao cair de um cavalo. Quando ele recebe a notícia da morte prematura, descobre o quão errado estivera Swann, no auge de seu sofrimento, ao acreditar que a morte de Odette o libertaria. Que a morte não faz mais que riscar o que deixa de existir, deixando o restante intacto. Como sabemos bem pouco o que nos vai pelo coração. O sofrimento que passa a atormentá-lo é um seu desconhecido. É o sofrer por saber que ela não voltaria mais, um sentimento que era como a sombra de seu amor por ela.

            Sonhava em ter um novo e grande amor, queria procurar alguma pessoa que vivesse junto a ele, pensando este ser um sinal de que já não a amava, quando, ao contrário, era o indício de que a amava sempre, dado que esta necessidade de viver novo amor era parte da saudade que sentia de Albertine. Todas as moças pelas quais se interessava pareciam-se com a ausente e a imagem que ele trazia dentro dele fazia com que a encontrasse por todos os lados. Assim, a saudade de Albertine fazia de sua procura por uma amante que fosse alguma “irmã” de Albertine, e, mesmo seu vício, tornava-se como que uma causa de amor. É assim que, em um sonho, damos outro rosto e outro nome a uma pessoa, mas a respeito de sua identidade profunda, a verdadeira, jamais nós nos enganamos.

            E Marcel caminha pela vida como um desses seres anfíbios, que ao mesmo tempo estão mergulhados no passado e na realidade em que vivem. E dentro do túnel negro das lembranças, ele bruscamente é surpreendido pelo explendor de um raio de sol, de onde surgia Albertine como uma recordação indiferente e cheia de encanto; outras vezes, entretanto, era prisioneiro de uma tristeza cruel ao lembrar-se de quem fora sua “prisioneira”, sofrendo nos intervalos em que nos ocorrem as “intermitências do coração”.

  • Andrée
  • Senhor Proust, dentre as moças de Balbec, Andrée é uma personagem das mais interessantes; ela, a melhor amiga de Albertine. Andrée, saltando impiedosamente sobre o velho banqueiro estendido na praia, fora a primeira figura que Marcel distinguira no grupo das “raparigas em flor”.

            Aliás, num primeiro momento, Marcel, crê amar Andrée. No entanto, o dionisismo apregoado por Andrée, pelo qual o Narrador se apaixonaria, era falso, dado ser ela era frágil, intelectual, e naquele ano andava adoentada e praticava esportes mais por recomendação médica. Por estes motivos, Marcel acabará por descartar essa paixão; era para ele era impossível amar alguém que até mesmo ao espelho se lhe pareceria, com seus olhos extraordinariamente claros, possuidora de um espírito intelectualizado e  demasiadamente nervosa e enfermiça. Shoppenhauer dizia, com razão, que as pessoas buscam amar as que lhes sejam opostas e complementares.

            As pessoas buscam o seu contrário devido ao seu espírito e ao seu coração, pois a junção de elementos contrários é a lei da vida, assim como o próprio princípio da fecundação que é, em si mesmo, a causa de muitas desgraças. Habitualmente, detestamos aquilo que nos é semelhante, pois os nossos defeitos, vistos de fora, exasperam-nos. Se no princípio da relação com Marcel, Albertine parecia vazia, Andrée estava cheia de qualquer coisa que Marcel já conhecia demasiado bem, ou seja, cheia dele mesmo.

  • Num primeiro ato, Andrée assume funções de um anjo protetor que procura fazer com que a relação amorosa de Marcel e Albertine se mantenha. Após a fuga de Albertine, quando as cortinas do palco são reabertas, Andrée apresenta novas facetas com as quais o Narrador jamais sonhara,  fruto provável de sua personalidade neurastênica. Ela decide lhe contar, ou inventar, diversas aventuras sexuais de Albertine, inclusive aventuras sáficas das quais ela mesma, Andrée, participara. Poderiam ou não ser verdade, mas o efeito é que contribuiam para excitar e fazer sofrer o Narrador.

            Marcel jamais saberia se as histórias que Andrée lhe contava, agora que a amiga havia partido, eram ou não fruto do ciúme ou de seu estado nervoso. Por um lado, Marcel muitas vezes ouvira Andrée dizer que as pessoas, cuja boa aparência e, sobretudo, a consciência que possuíam dessa boa aparência, exasperavam- na. E Albertine tinha consciência de sua boa aparência.

            Um vício muito forte em Marcel era o seu voyeurismo sexual. Adolescente, assistira escondido às carícias entre a Srta. Ventueil e sua amiga; talvez por excitação sexual ou como uma parte de seu apreendizado sexual, pergunta a Andrée se ela lhe satisfaria uma grande curiosidade: que o deixasse vê-la - mesmo que se limitasse apenas às carícias que não a constrangessem – praticar as carícias com as amigas de Albertine, que tinham o seu mesmo gosto lésbico. Este é o momento em que Marcel interrompe a narrativa e que se avista no espelho. A semelhança entre ele e Andrée tornara-se assustadora. Se não fosse pela barba, a identidade teria sido completa.

            Mas a passagem da morte encarregara-se de tornar tudo, de certa forma,  mais fácil e, como sempre, absolutamente inútil. Marcel fazia essas reflexões na hipótese de que Andrée fosse verdadeira em suas histórias - o que era possível- e que ela se sentisse impelida à sinceridade precisamente por ter agora relações sexuais com o ele. Nesse caso, era favorecida pelo fato de que a realidade das criaturas sobrevive para nós apenas por breve tempo após a sua morte, e depois de alguns anos, são como deuses de religiões abolidas que a gente ofende sem medo, porque deixa de crer em sua existência.

            De qualquer modo, a aventura de Marcel com Andrée é apenas um caso passageiro, um tipo de consolo e acerto de contas, por um lado com a curiosidade mórbida de Marcel após a morte de Albertine, por outro, com as intermitências de seu penar.

  • Tempos após, Andrée casa-se com um de esportista que conhecera em Balbec, e passa a frequentar a alta sociedade, inclusive, o salão da senhora Verdurin- Guermantes; ela torna-se defensora da proposta estética do marido com relação à modernidade trazida pelos balés russos. Entre o “affaire” com Marcel e a entrada nos Salões da alta sociedade, o Narrador revela-nos mais outra faceta da complexa personalidade de Andrée, em sua irrefreável maldade, quando o já  entã,o ex-marido, troca-a  por Raquel.

            Ao critério de Marcel, Andrée não era fundamentalmente má e, se a sua natureza não aparente, um tanto profunda, não demonstrava a gentileza que a princípio se imaginava em face de suas atenções delicadas, mas sim, orgulho e inveja, sua terceira natureza, mais profunda ainda, a verdadeira, porém não inteiramente realizada, inclinava-se para a bondade e o amor ao próximo. Apenas como todas as criaturas que estando num certo estado desejam outro melhor, mas, não o conhecendo não compreendem que a primeira condição para atingi-lo é a de romper com o primeiro; estas pessoas são tais e quais os neurastênicos ou os morfinômanos, que desejariam ser curados desde que não os privassem de suas manias ou da morfina.

            De tal forma que Andrée estava pronta a amar a todas as criaturas, sob a condição, porém, de conseguir ela mesma não imaginá-las triunfantes, e, para isso, constituía fato “sine qua non” havê-las previamente humilhado. Não compreendia ser preciso amar até os orgulhosos e vencer o orgulho deles por meio do amor e não por um orgulho ainda mais poderoso. Mas ela era como esses enfermos que desejam a cura por meio dos próprios meios que mantêm a doença, à qual amam e a que logo deixariam de amar se a eles renunciassem.

Senhorita de Saint-Loup

  • Já dedicamos algumas linhas a respeito da filha de Gilberte de Swann e Robert de Saint-Loup, cujo nascimento simbolizou a junção da aristocracia com a burguesia, a prova de que os Caminhos de Swann e Guermantes não eram irreconciliáveis, mas que por um se chegaria ao outro. É interessantíssima a descrição que o Narrador faz de seu encontro com a senhorita de Saint-Loup, o que ocorre quando do retorno da clínica onde passara tantos anos.

            Macel diz que “O tempo incolor e intangível se havia, para que eu pudesse, por assim dizer, vê-lo e tocá-lo, materializado nela, moldara-a como a uma obra prima, ao passo que, paralelamente em mim, infelizmente, limitara-se a cumprir a sua obra.” Descreve-a com seus olhos profundos, penetrantes e o nariz encantador que se curvava ligeiramente em forma de bico de pássaro, não como o de Swann, mas como o de Robert. Esvaecera-se a alma daqueles Guermantes, mas os atraentes olhos agudos de pássaro a alçar voo foram se colocar sobre os ombros da senhorita de Saint-Loup, fazendo longamente devanear os que lhe haviam conhecido o pai.

  • Além da emblemática da confluência entre as elites, ela também o é do processo de perda de posição social, que assim como o de ascensão, jamais se interrompe na sociedade. Este processo não perdoa aqueles que não se mantenham fiéis aos ditames das regras do esnobismo, do dinheiro e do prestígio social acima de tudo o mais.

    Marcel disse que: “Essa filha, cujo nome e fortuna podiam fazer a mãe esperar que desposasse um príncipe real, casou-se mais tarde com um obscuro literato, pois ela não tinha nenhum esnobismo, e fez cair o nível da família a um ponto ainda inferior do que havia partido. Foi, então, muito difícil fazer as novas gerações acreditarem que os pais desse obscuro casal tinham desfrutado de grande posição social”.

As altas classes não titubeiam em trazer do túmulo os mortos de que necessitam para se reproduzirem socialmente e manterem o seu esnobismo excludente. Dessa forma, os nomes de Swann e de Odette de Crecy ressuscitaram milagrosamente para permitir que as pessoas compreendessem que estavam “enganadas” e que a senhorita de Saint- Loup fizera o melhor casamento possível, com um obscuro literato. Afinal, o casamento dela fora inspirado em teorias como as que tinham podido levar, no século XVIII, grandes fidalgos, discípulos de Rousseau, ou pré-revolucionários, a viver a vida da natureza e a abandonar seus privilégios.

  • Para resumir, Sr. Proust, um casamento por amor e por um ideal foi o realizado pela  senhorita de Saint-Loup, o que realmente, de um ponto de vista absolutamente inverso ao do mundanismo, podemos considerar como o melhor enlace possível. Ao final de seu romance, e isto é libertador, pois perante todo um mundo que se desmorona na iniquidade e nos interesses mesquinhos, ela, a senhorita de Saint- Loup, quer pelo amor, quer por não se ligar aos privilégios e ao esnobismo, salva-se da mediocridade e alcança a sua libertação.

            Afinal, meu amigo, como dizia Victor Hugo, é preciso que a relva cresça e que as crianças de hoje morram, para que tudo siga, não é verdade?

Os alicerces de uma Catedral

  • O senhor se propôs a contar uma história em que cada personagem apresenta as diversas faces que possui. Construiu o seu livro vencendo cada obstáculo, criando-o como a um universo, sem deixar de lado essses mistérios que só têm explicações em outros universos, e cujo pressentimento é o que mais comove na arte e na vida.

     O Tempo conspira contrariamente à arte e eu, Marcel Proust, não deverei ter todo o tempo que precisaria para terminar algumas sacristias e absides deixadas incompletas nesta igreja que construi. Escrevi “Fim” no meu trabalho, mas nós dois sabemos que não se trata de nenhum final. Apenas que logrei fechar os arcos principais de minha construção, estabelecendo as principais conexões e interrelações sobre os quais os alicerces foram consolidados.

            Resumindo esta construção, a senhorita de Saint-Loup, como a maioria dos seres, aliás, representa na vida o mesmo papel que nas encruzilhadas convergem as estradas vindas a partir dos mais diversos pontos. E acima de tudo, terminavam nela os dois “grandes lados”, ou caminhos, onde Marcel tanto havia passeado e, neles, engendrado tantas fantasias. Do lado paterno, Robert, pelo caminho de Guermantes; por Gilberte, sua mãe, o caminho de Mesèglise, que era o caminho da casa de Swann.

            Um desses caminhos, por meio de Gilberte, e dos Champs-Élisées, levara o Narrador até Swann, às noites de Combray, para o lado de Mesèglise; o outro, por meio de Robert, seu pai, levara-o às tardes de Balbec, em que  o Narrador o revia junto ao mar ensolarado. Já se estabeleciam transversais entre essas duas estradas. Esta Balbec real, onde Marcel conhecera Robert, que quisera visitar devido ao que Swann lhe falara a respeito de suas igrejas; por outro lado, através de Robert de Saint-Loup, sobrinho da duquesa de Guermantes, Marcel percorrera o Caminho de Guermantes.

             Mas a senhorita de Saint-Loup levava o Narrador a vários outros pontos da vida, à dama cor-de- rosa, que era Odette, sua avó e que Marcel vira um dia em casa de seu tio-avô. Nova transversal aqui, pois o criado de quarto do seu tio-avô era pai do jovem Morel, que não só o Sr. Charlus, mas o próprio pai da senhorita de Saint-Loup haviam amado. E não fora justamente o avô da senhorita de Saint-Loup, Swann, o primeiro a falar a Marcel da música de Vinteuil, assim como Gilberte a primeira a falar de Albertine? Falando da música de Vinteuil, Marcel desenvolvera o seu amor por Albertine graças à grande amizade que ela tinha pela filha do autor, e fora o princípio daquela vida de paixão, posse, reclusão e fuga que a conduzira à morte e que ao Narrador lhe causara tanta mágoa. De resto, fora o pai da senhorita de Saint-Loup que tentou fazer com que Albetine regressasse, e fora com a ajuda dele que se desenvolvera a vida mundana do Narrador, seja em Paris no salão dos Guermantes, seja no extremo oposto, no salão dos Verdurin, e deste modo, fez-se por alinhar, ao lado dos Caminhos de Combray, os Champs-Élisées e o belo terraço de Raspelière, alugado pelos Verdurin. E os Verdurin ligavam-se a Odette pelo passado desta e a Robert através de Morel; e, neles todos, que imenso papel desempenharia a música de Vinteuil!

            Enfim, Swann, casado com Odette, ao deixar de amá-la, tivera por amante a irmã de Legrandin, o qual havia conhecido o sr. de Charlus, cuja pupila se casara com o filho da irmã de Legrandin. Certo, trata-se exclusivamente de nossos corações, teve razão o poeta em falar dos “fios misteriosos” que a vida rompe. Mas é ainda mais verdadeiro que ela os tece sem parar entre as criaturas, entre os acontecimentos que entrecruzam tais fios, que os redobram a fim de reforçar a trama, de modo que entre o menor ponto do nosso passado e todos os demais, uma opulenta rede de lembranças nos dá uma variada escolha de comunicações. E, para melhor fundir todos os tempos passados, a Sra. Verdurin, exatamente como Gilberte, havia desposado um Guermantes. E ao fim e a cabo tudo ao nosso redor eram quadros daquele Elstir, que, afinal, apresentara Marcel a Albertine.