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"Entendendo Proust" e "Em Busca do Tempo Perdido"

Capítulo I- Um Romance Circular



  • André Jammes

                A minha relação com Marcel Proust teve como motivo um trabalho realizado para a Editora Gallimard e para a revista “Nouvelle Revue Française”. Em uma carta escrita pessoalmente por Gide, o editor, ele definiu o escopo daquilo que era esperado:

“...desejo apresentar-lhe o portador desta e rogar-lhe que o receba. André Jammes é um jovem crítico, pessoa delicada, inteligente e que, por sua vez, também se apaixonou por seu livro e dele não se separa... Tanto você quanto eu sabemos que sua obra comporta, por assim dizer, certo hermetismo e que o seu estilo não é corriqueiro; a dedicação de um leitor que deseje “ler a si mesmo” como você diz, será, se nada for feito, sempre muito difícil e para poucos. O que nós esperamos de André, e tenho a mais absoluta certeza de que será também seu interesse, é que os pensamentos do personagem Marcel e, na medida do possível de seu criador, tornem-se mais facilmente apropriáveis para mais leitores dos dias de hoje, assim como, realizando uma maior contextualização em seu livros, para os leitores do amanhã. Sabemos que uma vez enlaçado um leitor você encarregar-se-á de torná-lo cativo, aliás, como aconteceu comigo mesmo. O ponto é conquistá-lo para que ele se “inicie” em Proust.”

            A carta foi por mim entregue a Marcel Proust, no número 102, do elegante edifício do Boulevar Haussmann, nos primeiros meses de 1914. O homem sorridente que, de modo franco estendeu-me sua mão, ao ler a carta disse-me: “Meu caro, é um prazer conhecê-lo. Como você deve imaginar, eu tenho pouco tempo disponível, mas prometo que vamos tentar deixar o Sr. Gide feliz”, e pegando-me pelo braço conduziu-me a um belo salão que lhe servia de escritório, mas onde, curiosamente, as janelas permaneciam fechadas. Este meu primeiro contato com Proust e o “pouco tempo que ele teria disponível” se estendeu por muitas noites subtraídas ao meu sono e à sua insônia.

            Infelizmente, logo após o início de nosso trabalho, as beligerâncias do que seria a Guerra Mundial começaram e  fui convocado a servir o exército francês. Em decorrência, meu trabalho junto ao autor interrompeu-se, exceto em intervalos de licenças e folgas, quase sempre preenchidos por novos serões. Finalmente, depois de quatro anos, o pesadelo da carnificina teve um fim.

            Como por encanto, toda a produção editorial e literária, que de certa forma tinha sido represada, experimentou o renascimento dos tempos de paz. Gallimard editou o segundo volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, denominado “À Sombra das Raparigas em Flor”. E com ele, Proust, aos 47 anos de idade, obteve sua primeira premiação ao receber, em dezembro de 1919, o Prêmio Goncourt para “novos talentos”. 

            O reconhecimento internacional pelo autor só fazia avançar, alcançando já a Inglaterra, a América e o centro da Europa. O poeta alemão Rilke, um dos precursores do expressionismo, tornara-se um entusiasta da enorme novidade que envolvia a sua literatura. Talvez tenha sido o que melhor descreveu o sentimento que a obra provocara na vanguarda. Dizia ele que um escritor de gênio assemelha-se a uma encruzilhada e que de todos os lados poderemos confluir até ele, assim como dele partir e que apenas um gênio poderia desdenhar os antigos caminhos, por tantos outros já percorridos em segurança, e abrir com coragem, novas veredas. 

            Infelizmente, entretanto, a saúde de Marcel Proust era frágil e para ele, tudo aquilo que não se relacionasse ao “leitmotiv” da existência, ou seja, escrever seu livro, não tinha muita de importância, nisto incluído suas relações, seu corpo e a própria vida. De tal forma que realizamos nossas últimas entrevistas em outubro de 1922, menos de dois meses antes de sua morte.

            Em um dos últimos encontros, Proust recebeu-me deitado em sua cama, recostado em imensas almofadas, num ambiente fechado em que o ar rescendia a fumigações e cânfora. “Como pode ver, meu caro André, estou morrendo e tenho muito medo de não conseguir terminar a minha obra, eu que não tenho tempo... Mas ontem foi um dia de glória e de enorme felicidade para mim. Escrevi a maravilhosa palavra Final no original do “A Albertine Desaparecida”. É verdade que ainda preciso equilibrar detalhes do “Tempo Redescoberto”, que está praticamente terminado desde 1913, mas imagine só a minha felicidade! E ainda me resta um trabalho de revisão ”...

            Eu sabia o significado tanto da “revisão”, quanto do “equilibrar detalhes” de uma obra em que muito era ampliado e pouco suprimido, pois Proust era um rio Nilo a inundar margens e fertilizá-las para novos e maravilhosos frutos; em suas revisões tipográficas, uma abundância de pensamentos e diálogos era sempre adicionada, mas poucos erros, percebidos. Tínhamos consciência de que seus livros eram predestinados a nunca estarem realmente finalizados...

            Proust faleceu em 19 de novembro de 1922. E a sua morte foi como que a reprodução do que ele mesmo escrevera a respeito do falecimento de um escritor-personagem de seu romance, Bergotte, anexado pouco tempo antes à prova tipográfica de “A Albertine Desaparecida”:

                “Claro que nem os dogmas religiosos, nem mesmo as experiências espíritas nos trazem a prova de que a alma continua. A única coisa que se pode dizer é que nesta vida entramos com o ônus das obrigações assumidas numa vida anterior. Não há prova alguma, em nossas condições de vida neste mundo, de que estejamos obrigados a fazer o bem ou a nos conduzir com delicadeza, nem de que o artista esteja  forçado a  recomeçar vinte vezes uma paisagem capaz de despertar admiração que pouco importará ao seu corpo comido pelos vermes, como sucede com o pedaço de muro que com tanta ciência e refinamento pintou em seu quadro um artista desconhecido, apenas identificado pelo nome de Vermeer... Todos esses deveres, que não têm suas sanções na vida presente, parecem pertencer a um outro mundo, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, um mundo bem diverso deste nosso, de onde saímos para chegar a essa terra, e, talvez nele retornar a reviver sob o império dessas leis desconhecidas a que obedecemos porque o seu ensinamento em nós estava, sem saber quem ali as traçou...Daí ser bem plausível a ideia de que Bergotte não estava morto para sempre.”

            “Enterraram-no, mas durante toda noite fúnebre, nas vitrines iluminadas, os seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas espalmadas e pareciam, para aquele que já não existia, o símbolo da sua ressurreição.”

Um romance de novo tipo

  • Sr. Proust, o livro “A Caminho de Swann” terá sua continuidade em “À Sombra das Raparigas em Flor”.  Sabemos que para o futuro teremos  “A Caminho de Guermantes”. Os tomos sobre as inversões sexuais serão o prelúdio de “O Tempo Redescoberto”.  Dentro de nossas conversas, o senhor prefere que nos guiemos pela discussão individual a respeito de cada tomo ou parecer-lhe-ia mais apropriado, na medida em que a temática se repete e o Tempo, em sua obra, não segue necessariamente uma direção linear, tratarmos seus romances como um todo, sem nos prendermos ao formalismo de cada tomo editado?

            Caro André, o meu romance apenas foi subdividido em unidades devido à insistência dos editores. Todo o texto possui sua unidade no ato puro da recordação, pois não se trata da vida como ela é ou foi vivida, mas de como foi lembrada por mim, ou melhor, pelo personagem Narrador. Portanto, a sua unidade está apenas no ato de recordar e imaginar. Minha preferência teria sido a  impressão de toda a obra em um único ou talvez dois volumes, agrupando o Tempo Perdido e o Tempo Recuperado. Por outro lado, sei perfeitamente que a amplitude de tal trabalho resultaria gigantesca; como você vê tive que dobrar-me à comodidade dos editores e, provavelmente, a dos meus leitores. Então, o mais adequado é que procuremos tratar minha obra como um romance único, pois isso é o que, na sua essência, ela é.

  • Em poucas linhas, como o senhor definiria a principal temática de seu trabalho?

            Eu não diria que existe uma ideia ou uma temática central no meu livro, mas, sim, que ele possui alguns eixos centrais. Um deles é o Tempo, na sua eterna e inexorável passagem, as transformações que opera em nossos corpos, em nossos pensamentos, na vida, nas coisas. O seu arrastar que nos condena às sucessivas mortes de parcelas de nossos “eus”, da mesma forma como destrói os corpos e as coisas. A vida é uma luta do Espírito contra a passagem do Tempo; perderemos, mas logramos capturar parcela deste tempo transcorrido, em uma fração que se incorpora a nós mesmos, que se aloja na memória. Mas como o tempo é inexorável, até mesmo essa fração tende também a se perder, a se deteriorar.

            Outro eixo da obra é a própria Memória. Nós possuímos como que dois compartimentos de memória. Um deles, a voluntária, pertence à inteligência e nos oferece apenas aspectos falsos e estáticos de um passado, tal qual um álbum de fotografias que folheamos; por isso ela é pobre. Já o outro compartimento, a memória involuntária, ela abriga-se fora do alcance de nosso consciente, e somente assim, consegue guardar escondidas as percepções, emoções e impressões vivenciadas no passado. Essas sensações podem ressurgir como que ressuscitadas, quando o acaso nos permite senti-las novamente, no tempo do presente. Esse fenômeno ocorre numa fração pequeníssima de tempo, como se estivéssemos fora do próprio tempo e pudéssemos sentir como as sensações trazidas são diferentes daquelas que a memória voluntária nos forneceria. A impressão, o afeto que nos retorna, permite-nos uma  sensação de escapar às garras do Tempo, de recuperá-lo.

             Acredito que o escritor deva esperar e permitir que a memória involuntária forneça quase toda a matéria-prima para sua obra, mesmo porque, o material trazido do inconsciente, toma forma por iniciativa própria e, portanto, possui o selo de autenticidade. Acontece que estas impressões em seu retorno são efêmeras, fugazes e o escritor deve delas apropriar-se imediatamente e transformá-las numa obra escrita. De tal modo que o restante do processo criativo será o resultado da intuição e da imaginação do escritor. Tenho para mim que um escritor de gênio pode até possuir em baixo grau a imaginação, mas a intuição esta sim, ela será sempre a sua ferramenta mais importante de trabalho.

            E, apenas para concluir, é necessário que evitemos alguns mal-entendidos. Minha obra, que  denomino semi-autobiográfica, não foi realizada para relatar a minha própria vida  ao leitor . O que  quis realizar foi uma obra de valor estético, dando-lhe em termos próprios a forma verbal e a ela  dediquei tudo o que possuía de saúde e o melhor de minha vida.

  • Sr. Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” é, sem  dúvidas, uma obra de vanguarda, o que concorre para que as opiniões dos críticos sobre ela variem muito:  temos desde as mais entusiásticas até aquelas que, não conseguindo nem ao menos enquadrar o tipo de sua composição literária, quer como romance, quer como ensaio, ou, quem sabe, como memórias, duvidam ainda da qualidade e mesmo da harmonia de seu conjunto, por ser tão extenso. E ainda persiste a questão do seu estilo, dado as frases longuíssimas, que vão e voltam, enroscam-se, são entrecortadas por parênteses e extensas adjetivações que causam necessidade de ir e vir na leitura para sua compreensão.

            André, o fato de que uns queiram que meu livro seja enquadrado no gênero de memórias, outros no de romance, não me parece fundamental de modo algum. Mas o que faço questão de frisar é que se trata de uma composição absolutamente rigorosa e perfeita, harmônica em todo o seu enredo. Sou grande admirador da arquitetura das catedrais góticas; pois bem, inspirei minha composição em seus elementos, seus pilares e seus arcos; em suas rosáceas circulares, concêntricas, compostas por rendilhados perfeitos em suas pedras e vitrais que permitem a luz em todos os seus matizes, acentuando o realismo da representação pela combinação de variados tons da mesma cor.

            Com relação ao meu estilo, ele é fruto da dinâmica de minha criação, de memória, da imaginação e de meu instinto; talvez por isso mesmo possua frases e parágrafos tão extensos e, muitas vezes, uma composição invertida. Ora, esse é o meu modo de transmitir os sentimentos e as sensações presentes em minha alma e eu as transcrevo no rítmo em que me acolhem. Por outro lado, reconheço que este estilo também possa ser influenciado pelo meu ritmo respiratório, próprio de um asmático. Mas ele possui um selo de autenticidade, as palavras são simples e surgem espontaneamente sob a pena. E tenho certeza de que o leitor interessado saberá navegar muito bem por ele, e, conto com que, dele venha a se tornar um amigo.

  • Senhor Proust, muitos críticos entendem sua obra sob a estrita característica de uma produção literária psicológica. Conversemos sobre isso?

            O que é importante de se compreender é que minha obra não se situa dentro da psicologia comum; comparativamente ao fato de que existe uma geometria plana, mas também temos a espacial,  porque ela busca a “psicologia do tempo”; talvez até mesmo possa ser tida, isto sim, como um tipo de “romance do inconsciente”. Veja que, novamente a classificação de uma obra de arte é de pouca monta em tudo isso; o que interessa desvelar, trazer à luz, são os nossos sentimentos, nossas paixões, ou seja, as paixões e sentimentos de todos os humanos.

  • Muitos insistem em qualificar a sua obra de “não realista”, como oposição ao realismo de escritores tão importante como Victor Hugo e Tolstoi, por exemplo.

            Não é aceitável, em absoluto, rotularem o meu romance de não realista. Para esses críticos, uma literatura que seja realista deve contentar-se em “descrever as coisas”, fornecendo delas apenas um miserável sumário de linhas e superfícies; ora, justamente esse tipo de literatura é a que mais se afasta da realidade, aquela que mais a empobrece e consterna, pois corta bruscamente toda e qualquer comunicação do nosso eu presente com o passado, do qual as coisas conservam a essência; e também  com o futuro, onde elas nos incitam a saboreá-las de novo. É justamente isso que deve expressar a arte digna desse nome e, se fracassa, pode-se ainda extrair uma lição, a saber, que tal essência é em parte subjetiva ou incomunicável.

            Tudo aquilo que é possível na minha criação, está sempre ligado ao real. Já o mundo das possibilidades não está no meu imaginário, mas é um desdobramento invisível do real. O que não sou é um criador de fantasias à moda do romancista convencional. A matéria de meus livros é real por ser a expressão do espírito. Somos nós que damos forma e valor aos seres e às coisas, segundo nosso estado de espírito, segundo a impressão que se nos impregna da realidade exterior, pois o que chamamos de realidade é certa relação entre as recordações e as sensações que nos rodeiam simultaneamente. E como a arte recompõe exatamente a vida, ela flutuará em torno às verdades que atingimos em nós mesmos, em uma esfera de poesia, na doçura de um mistério que é apenas o vestígio da penumbra que atravessamos.

            Você citou verdadeiros gênios, Hugo e Tolstói; e se o são foi porque tiveram o poder, deixando  de viver para si mesmos, de tornar sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se refletisse, por mais medíocre que aliás pudesse ter sido mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido. Isto é a realidade esteticamente representada, sem estar presa a quaisquer credos estéticos que pudessem trazer o vício de formulações dogmáticas e estreitas.           

  • Aproveitando essa sua referência, muitos intelectuais acreditam que seu romance seja escrito para poucos, na medida em que  busca e trata apenas das questões atinentes à elite; em suma, jamais sua obra seria popular, destinada à grande massa.

            Ora, vejamos então o que seria uma “arte popular”. Tanto quanto a ideia de uma “arte patriótica”, ainda que a popular não seja perigosa  por si mesma, esses conceitos me parecem ridículos. Se se tratasse de tornar a arte acessível ao povo, sacrificando para isso os requintes formais, aqueles tidos como “bons para os ociosos”, tudo bem; mas eu lhe asseguro que frequentei bastante as pessoas da sociedade para saber que são elas os verdadeiros iletrados, e não os operários eletricistas; uma “arte popular” seria antes destinada ao deleite dos frequentadores do Jóquei do que aos operários da Central Geral dos Trabalhadores. Agora quanto às temáticas, os romances ditos populares entediam a gente do povo tanto quanto as crianças se sentem entediadas por esses livros escritos especialmente para elas.

            Já os tolos imaginam que as grandes dimensões dos fenômenos sociais são uma excelente oportunidade de penetrar mais avante na alma humana; quando, ao contrário, deveriam compreender que é descendo em profundidade dentro de uma individualidade, que teriam, talvez, a sorte de conhecer esses fenômenos. É por este motivo que, afinal, deixei de me preocupar com as diferentes teorias literárias e principalmente com aquelas que se ocupam em “fazer o artista descer de sua torre” e cuidar, não dos assuntos que eles denominam frívolos e sentimentais, mas descrever movimentos operários e deixar de tratar de “vadios” insignificantes.

  • Falemos agora um pouco sobre os seus personagens e suas ações. O senhor definiu a sua obra como semi-autobiográfica. E, exceto em “Um Amor de Swann”, todo o seu livro é narrado na primeira pessoa, pelo Narrador- personagem, que por coincidência chama-se Marcel. São dezenas de atores que desfilam aos olhos de Marcel, no decorrer do Tempo. Existe uma chave que as identifique na vida real? Objetivamente, uma pergunta que sempre far-se-á é: Marcel é Proust?

            Uma personagem se forma do conhecimento de muitos seres humanos, da mesma forma que um drama se constrói pela sensação de muitos fatos vividos ou observados. Criei meus personagens a partir de familiares, pessoas que conheci nos salões mundanos, amigos e das fotos que colecionei, enfim, dos conhecimentos adquiridos nos locais em que vivi, como Cabourg, Illiers e Paris. Entretanto, Marcel não é Proust, assim como Swann e Elstir, também não o são, apesar de todos eles  possuirem muito da pessoa que mais pousou para minha tela: eu mesmo. Marcel Proust é uma criação da vida, da natureza. Todos os meus personagens constituem criações estéticas, artísticas, imaginárias, pois.

            Ao falarmos de um trabalho semi- aubiográfico muitas pessoas começam a buscar inutilmente pelas tais chaves que identifiquem na criação as pessoas de carne e osso. Acontece, que, na essência, o processo criativo é o mesmo da grande maioria dos romances, pois quando se escreve não há gestos dos personagens, um tique, uma inflexão, que não seja trazido à inspiração pela memória, não há um só nome de personagem inventado sob o qual  não se possa colocar sessenta nomes de pessoas da vida vida real, das quais uma pousou para as caretas, outra para o monóculo, outra para a cólera, outra para determinado movimento. Neste sentido, podemos até mesmo comparar um livro a um vasto cemitério, no qual, sobre a maior parte dos túmulos, não mais podemos ler os nomes apagados. Resumindo, para cada personagem existem dezenas de chaves e quando existem tantas chaves, na verdade, não existe nenhuma.

  •  Chama a atenção do leitor que tanto as personagens principais quanto as secundárias, apresentam traços fisionômicos absolutamente definidos e inconfundíveis e até a linguagem que usam é a mais apropriada a seu meio cultural; os corpos assim definidos abarcam cadeias de estilos de vida, de pensamentos, afinidades, paixões, ódios, delicadezas, segredos, confissões e contradições. Por isso suas personagens escolhem determinados “nichos” para se juntar e conviver; e esses próprios nichos em que vivem são labirintos para os quais não existem saídas.

            Mas você já se deu conta de que todos estes fatores ocorrem na vida e em toda a parte? A arte apenas consegue ser uma reprodução estética da realidade humana assim como de todos os corpos da natureza. Existem determinadas características físicas que são associadas a comportamentos psíquicos e por sua vez, o estado psicológico das pessoas manifesta-se nos seus corpos. E como a vida que minha obra propicia a seus personagens é sobretudo uma vida interior, o agonismo que elas desenvolvem é, preponderantemente, psicológico.

            Por outro lado, por acaso a sociedade dos homens não se aglutina em nichos onde eles se unem para conviver, matarem o tempo na ociosidade e no falatório interminável das reuniões mundanas? Para fazerem seus negócios, para amarem e odiarem-se;  para se esnobarem e ridicularizarem-se uns aos outros? E estes locais, exceto para aqueles que se libertam, não constituem labirintos de difícil escapatória? O novelo de Ariadne somente é dado para os homens que realmente desejam se libertar, e estes Teseus modernos são aqueles que não pertencem aos grupos sociais, que conseguem viver a verdadeira vida na sua intimidade, possuem vida íntima, e, quem sabe, intuição para a  criação de uma obra de arte.             

  • Senhor Proust, conversemos a respeito da ambientação de seu romance. O primeiro ambiente é a transição de final do século  XIX para o  atual, um momento histórico em que os antigos valores tradicionais da burguesia, herdados das revoluções passadas, foram dissolvidos e uma nova burguesia, de outro estilo, arrivista, parasitária, consumist, que vive não mais diretamente de seu trabalho, mas de rendas, do monopólio e do colonialismo se implantará. Esse período é o mesmo no qual, a aristocracia, que perdera a sua base econômica de sustentação- o feudalismo- para sobreviver “no nome” e em alguns privilégios, lutará por integrar-se à esta nova formatação social.

             Os anos finais do século passado são marcados pela dissolução de antigos valores e por sua substituição por novos, que os homens e a realidade criavam. A família do pequeno Marcel, centralizada nas figuras da mãe e avó, e algumas pessoas de seu entorno representam, de certa forma, o tradicionalismo burguês em vias de extinção. Existe uma certa largueza de espírito associada ao amor desinteressado pela cultura, a crença em determinados valores intelectuais, assim como a valorização e o respeito pelo trabalho. Ao mesmo tempo, essa ética interagia, nas mesmas pessoas, com outra, esta sim, reacionária, paralizante, que os incapacitava de vivenciar a mobilidade social, uma ideia que Marcel denomina de “um tanto hindu de que os burgueses de então formavam a respeito da sociedade, considerando-a composta de castas estanques em que cada qual se via, desde o nascimento, colocado na posição que ocupavam seus pais, e de onde nada os poderia tirar para fazer com que penetrassem numa casta superior, a não serem os acasos de uma carreira excepcional ou de um casamento inesperado.”

            Os parentes do Narrador permanecerão firmes em suas crenças e não serão arrastados pela maré dos tempos. Já as suas relações mais próximas, como Charles Swann, que a princípio é um representante daqueles valores mais tradicionais, desenvolverá uma tentativa inútil de harmonizar os velhos valores da cultura e do trabalho com uma vida mundana nos círculos aristocráticos. Então, o trabalho intelectual a que Swann se propunha, jamais passou de um projeto ilusório, uma forma de ocultar de si mesmo o vazio a que ele voluntariamente se submetera. E essa inutilidade, atestada pela incapacidade dele próprio encontrar um sentido autêntico para a vida, redundará na paixão maníaca que alimentará por uma mulher vulgar, simbolizando a perda do autodomínio, tão importante naquela que fora sua ética tradicional. Enfim, os antigos valores espirituais de Swann se esfarelam quando ele, enfraquecendo as suas crenças intelectuais da juventude, permite que o ceticismo mundano penetre até mesmo em sua medula, sem que ele mesmo o perceba.        

            A nova burguesia parasitária, sendo altamente arrivista, é por força, mais aberta ao novo momento social, que enorme atração produzia junto à intelectualidade da época, atraindo-a aos seus salões. Ela representará a inutilidade radical, o parasitismo social, em que o esnobismo e o individualismo são sobremodo grotescos e desprovidos de escrúpulos. Será essa a nova burguesia que dará o tom na sociedade e que se unirá à aristocracia decadente, claro que, sem o restante de charme, de discernimento, da tradição e cultura que a história permitia a alguns dos aristocratas.

  • Um segundo ambiente em que  seus personagens agem é aquele propiciado pelas novas descobertas do espírito, as inovações tecnológicas e científicas, que impulsionam uma mudança profunda nos comportamentos, incluindo nisso a sexualidade, uma maior liberdade para as mulheres, um distanciamento das religiões, enfim, um arejamento nos costumes. E, sem dúvida, um momento de inovações nas artes, o surgimento  do modernismo triunfante, enfim, um dos períodos de transformações mais rápidas e profundas na história da humanidade.

            Com relação ao momento especial vivido nas duas últimas décadas do século passado e na primeira do século XX, talvez em quase dois mil anos o homem não tenha avançado em suas descobertas, em suas inovações e em seu conhecimento da natureza como nestes não mais de trinta anos. Invenções como as estradas de ferro, as bicicletas, os automóveis e os pequenos aviões trazem a maravilha da velocidade, do deslocamento antes impensável das pessoas e, se a tudo isto juntarmos a eletricidade, o telégrafo e a telefonia, teremos toda uma revolução nas comunicações, que se fazem acompanhar por uma maior liberdade nos comportamentos, que é refletido no personagens do meu romance. Eu diria que após o obscurantismo dos tempos da Restauração, temos o ressurgir do “renascimento” nos costumes e uma maior liberdade para as pessoas assumirem-se a si mesmas.

  • Finalmente, como o terceiro dos grandes cenários, o aguçamento do antissemitismo, dos nacionalismos, do militarismo que conduzem ao belicismo e, por fim, à própria guerra em que praticamente toda a Europa se envolverá.

            Sem dúvida, esse é outro panorama essencial. O antissemitismo da época chegou à França com certo atraso, pois em países da Europa Central ele de há muito era um componente social importante. Aqui, foi agudizado pelo caso fabricado da pseudotraição de um judeu, no caso, o coronel Dreyfus pertencente ao Estado-Maior do Exército, que praticamente cindiu a sociedade; ao mesmo tempo o militarismo, sob o véu benigno do patriotismo envenenou os franceses, preparando o clima para a maior carnificina da história moderna que foi a guerra mundial.

  • Senhor Proust, o tema Natureza invade seu romance, de tal forma e tão profundamente, que ele é todo envolto em paisagens e imagens metafóricas, a maior parte das vezes extraída das flores, das plantas, das paisagens e, mesmo, dos animais; elas são tão abundantes que chegam à essencialidade de “Em Busca do Tempo Perdido.”

             Pensar uma obra de arte significa integrar-se à natureza, estudá-la, analisar as transformações a que o homem submete a si próprio nesse processo analítico. Essa é uma das bases importantes de meu processo artístico. E a primeira apreensão da natureza é a sensação, ou melhor, a impressão que a visão, o tato, o paladar e a audição nos fornecem. Após esta apreensão da sensação, somos levados pela inteligência à imposição de seu domínio diante da percepção sentida, traduzindo-a, recolocando-a sobre nossos próprios padrões. Devemos perseguir o reencontro da natureza, com toda a riqueza infindável que ela nos oferece aos sentidos, e não a materialização triste de seu fantasma, natureza desvirtuada que é a idealizada pelo homem; para tanto, precisamos nos despojar daquelas modulações que os elementos do intelecto provocam para, então, mergulharmos no mundo das impressões primevas, ingênuas, única forma de humanizarmos poeticamente a natureza, deixando-a como realmente ela o é quando captada pelos órgãos do sentido.

  •  “Em Busca do Tempo Perdido” apresenta imagens que são, em sua imensa maioria, metáforas inspiradas na botânica e na zoologia. Mas as imagens que elas criam não têm como objetivo primeiro, essa é a minha opinião, embelezar os pensamentos ou realçá-los pese que sejam realizadas dentro de uma estética primorosa.  Sinto que, por meio de suas metáforas tudo é dito, sob pena, entretanto, de nada ser comunicado.     

            Os caminhos do artista passam de todos os modos pela natureza, pois a arte é o instrumento que nos permite traduzir e imortalizar aquelas impressões, que, ao passarem por nosso coração, buscam comparações, transformando-se em metáforas que unirão as coisas da natureza ao homem. As paisagens, assim como as catléias, as primaveras, os crisântemos, os protozoários, os bezouros, os aspargos, os biscoitos molhados ou não no chá, a impressão de todos eles se complementam nos corações dos homens, na justa medida em que os nossos sentimentos e nosso espírito modificam e interpretam a impressão que eles nos comunicam. E perceba André, voltamos à essência das coisas, que são descobertas ao se aproximarem duas sensações distintas, pois o essencial encontra-se sempre na diferença, nunca na similitude- entre homens, coisas, criaturas- mesmo porque a igualdade é sempre forçada e artificial. A essência é verdadeira quando os elementos diferenciadores são respeitados.

  • Nietzsche disse que o grau e natureza da sexualidade atingem as mais altas camadas do espírito. Para que haja arte, em “O Crepúsculo dos Deuses”, ele coloca como condição fisiológica preliminar a “embriaguês da exitação sexual”. “Em Busca do Tempo Perdido” é repleto de amor e de sexualidade e diversos  personagens são sedentos de excitação, muitas vezes reprimidas, mas sempre presentes.

            A verdade nem sempre pode ser vista de frente, assim como os próprios raios do sol, pois nos cegariam. Fazem-se necessários anteparos, metáforas, e eu lhe dou razão ao que você havia dito antes, de que uma boa parcela das metáforas que utilizo, têm funções específicas, muitas voltadas para o sexo, sem necessariamente constituirem ornamentos textuais. Vários vegetais são transformados em mulheres e vice-versa; o sexo em evidência nas flores humaniza-se; homens são metamorfoseados em flores e nos bezouros que as polinizam; plantas hermafroditas “tornam-se” pessoas que buscam em si mesmas o solitário prazer; o pólen que se despreende e se esvai com o vento, em onanismo. São flores e plantas a sofrerem um processo de humanização metamorfoseando-se em símbolos da inversão sexual. Afinal, as plantas e as flores não têm vontade consciente e expõem, sem nenhum pudor, a sua genitália, da mesma maneira que os animais. Meus personagens são vítimas de seus desejos e impulsos, vivem em um mundo impuro, mas não possuem um falso pudor pelo que fazem, pois tanto em sexo, quanto em tantas outras coisas na vida, não existe o certo e o errado. Apenas a prepotência e a onipotência humana ousam classificá-los como parcelas do bem ou do mal.

            Mas nós não tratamos apenas dos androceus e gineceus. As flores ainda possuem pétalas e sépalas, formas, cores e perfumes que além de atraírem os agentes polinizadores, prestam-se à simbologia humana da paixão, da perda e da mágoa, e, porque não, do exibicionismo e do esnobismo mundanos.

  • Senhor Proust, para finalizarmos esta parte introdutória ao nosso trabalho, proponho que o senhor nos permita visualizar um plano geral de sua obra, incluindo o material já disponível e aquele que ainda será editado no longo caminho até o “Tempo Redescoberto”. Isso facilitará ao leitor a apreciação dos personagens, tema do próximo capítulo.

            O enredo de meu livro tem uma importância mais ou menos secundária na obra, pois o que realmente importa é a análise psicológica do inconsciente, as conexões estabelecidas entre os seres e as coisas, a luta de um escritor contra o Tempo, que tudo arrasta, transforma e destrói. Mas vamos a ele.

            Em “Combray”, um Narrador, ainda  menino, escreve sobre si mesmo. Ele relembra um único momento, quando a mãe, devido a uma visita, recusa-se a subir ao quarto para dar-lhe o beijo de boa noite. Essa cena de grande ansiedade recordada,  terá um basta. Na continuidade da narração, o menino, agora transformado em homem, experimentará o sabor de um biscoito molhado em seu chá, e, assim,  parte de sua memória involuntária, a própria infância recuperada. O próximo ato é o surgimento de uma infância feliz, protegida, luminosa, em que duas fadas zelam pelo seu “lobinho”, a avó e a mãe de Marcel que o incentivam a apreciar livros, antiguidades e objetos curiosos já usados, pois elas somente lhe presenteavam com “o que lhe fosse de utilidade”. Todos esses presentes eram transformados pela fértil imaginação do jovem em sonhos idílicos. Respira-se harmonia, a cordialidade, a bondade, o espírito e a magia, de tal forma que o Narrador sente as primeiras manifestações de sua vocação literária.

            Combray, vilarejo do interior francês é o local em que toda a família de Marcel se reúne nas férias. O convívio ocorre na casa de tia Leonie, uma viúva que vivia reclusa, preocupada exclusivamente com suas doenças do corpo e da alma, assim como com a vida de todos os habitantes da redondeza. É lá que a família recebe constantemente a visita de um vizinho muito distinto, o Sr. Charles Swann. Culto, pode-se mesmo considerá-lo um intelectual, muito bem relacionado, inclusive com a aristocracia, mas que nada faz na vida a não ser dispender a herança recebida e viver em sociedade.     

            Saindo à rua a partir da casa de sua tia, Marcel descortina dois caminhos que, acredita quando menino seriam opostos: um deles conduz à casa de Swann- à burguesia- e outro o ao castelo de Guermantes- à aristocracia. Sempre acessível o caminho de Swann, sempre tão distante o de Guermantes.    

            “Um Amor de Swann” é o retorno de quase uma geração no tempo relembrado. Relatado na terceira pessoa, é a história de uma patologia amorosa, com direito a todo tipo de ciúme, traições, tentativas de posse, que acometem Charles de Swann e Odette de Crecy, uma mulher vulgar que se divertirá em trair absolutamente todos os homens que por ela se apaixonarão. Odette consegue prender em casamento Swann após dar-lhe uma filha, Gilberte, a qual, por sua vez, será o primeiro amor de Marcel.

            Em “À Sombra das Raparigas em Flor”, temos como num prelúdio musical, o sentido dos nomes e dos lugares por eles prenunciados. Marcel, apaixonado por Gilberte, realizará as primeiras descobertas da paixão, do amor, do ciúme, amargando a sua primeira decepção amorosa. Mas é graças a esse namorico que ele se tornará íntimo dos Swanns e, principalmente de Odette, a quem, como antes Swann o fizera, passará a cortejar e presentear com uma enxurrada de bouquês de orquídeas.

            Um engenheiro chamado Legrandin incentiva Marcel a conhecer o litoral normando e este viaja em férias para o balneário de Balbec, em companhia de sua avó. Lá desfrutará dos pores-do-sol, das marés, das magias da natureza e, pela primeira vez, terá contato com um pintor de carne e osso, um impressionista, Elstir. Com ele, em seu estúdio, realiza uma incrível viagem no tempo e descortina todo um universo de simbolismos e impressões, numa espécie de “refundação do universo”.

            Em Balbec, as moças mais liberadas adquirem suas bicicletas, passam a vestir-se como esportistas e saem a passeio pela praia. Com um destes grupos, nosso Marcel travará relações. Encanta-se com todas, e se crê apaixonado primeiramente por Gisele, depois por Andrée e, finalmente por Albertine. Ainda em férias conhece uma amiga de sua avó, a senhora de Villaparisis, pertencente à família aristocrática dos Guermantes. Tornar-se-á amigo de seu sobrinho, o também aristocrata Robert de Saint-Loup, e travará relações com o barão de Charlus, o qual realizará a primeira tentativa de seduzi-lo. 

            Robert de Saint-Loup possui uma amante, Raquel, uma atriz e prostituta, com quem viverá um amor tormentoso, do mesmo calibre daquele vivido por Swann e Odette, e que constitui uma espécie de prelúdio do amor a ser vivido pelo próprio Narrador com Albertine. Entretanto, como toda personalidade social possui múltiplas facetas, Raquel não é apenas uma prostituta, é também uma artista com formação humanista e que contribuirá para “humanizar” o fidalgo esnobe, incutir-lhe o gosto pelas artes, por Nietzsche e Prudhon e afastá-lo, por algum tempo, da inutilidade do mundanismo social.

            “A Caminho de Guermantes” é a iniciação do Narrador no mundanismo parisiense. Marcel torna-se um frequentador assíduo dos teatros parisiences, dos salões aristocráticos e burgueses como antes o fora Swann.  Apaixona-se pela imagem de “gentileza e delicadeza” da duquesa de Guermantes, paixão platônica, inspirada nos sonhos de bondade e superioridade que a aristocracia lhe propiciava.

            Um fato importante na narrativa será o da morte da avó, dado que será decisivo na inflexão dos sentimentos do Narrador e na formação de sua própria personalidade. A partir de então, Marcel dar-se-á conta de que o mundanismo da alta roda é vazio, de que os aristocratas e os burgueses podem ser vaidosos, egoístas, cruéis, tudo sob uma aparência de cordialidade; que o falatório infindável nada acrescenta às pessoas e tão pouco, as aproxima.  O universo da aristocracia, que sempre acreditara mágico, deteriora-se e se esvai como fumaça.

            Após a desilusão com Oriane, a duquesa de Guermantes, um amor puramente platônico, o Narrador estará livre para se apaixonar por Albertine. Isso ocorrerá quando, querendo mostrar-se instruída em artes, ela confidenciará sua amizade pela Srta. Vinteuil e por uma sua amiga. Ao descobrir em Albertine uma possível seguidora de Safo de Lesbos, Marcel apaixonar-se-á definitivamente pela mesma e sob o pretexto de “protegê-la” do vício e torna-la-á sua prisioneira, no retorno a Paris.

            Chegamos, então, ao inferno que será vivenciado em todo o transcorrer de “Sodoma e Gomorra”.  Até o último momento, confesso, tive receio de publicar determinadas passagens devido a possíveis repercursões que encontraria junto a alguns amigos meus; entretanto, continuei fiel ao princípio de que o dever do artista é com a verdade e eu segui em frente. Principiamos com de Charlus e o coleteiro Jupien numa relação sodomita, que é ouvida pelo Narrador atrás de uma parede.  A partir de então, do saber adquirido, diversas relações homossexuais masculinas são descortinadas, ou presumidas por Marcel, pois ele se encontrará sempre atento a elas.

            “A Prisioneira” é uma continuidade de “Sodoma e Gomorra”. Albertine é “aprisionada” em uma “gaiola dourada”, o apartamento de Marcel; a obsessão do Narrador em afastá-la de suas amizades lésbicas, reais ou imaginárias, torna a relação uma luta pela posse, onde imperam o ciúme e a mentira. Tanto a vida da “prisioneira“ quanto a de seu “carcereiro” transforma-se em um tormento. Marcel se dá conta de que com o passar do tempo, como qualquer sentimento, após a posse e o conhecimento adquiridos, o amor deles está morrendo, acelerado justamente pela submissão de Albertine ao papel que lhe fora imposto e aceito passivamente. Mas é ela, a prisioneira, quem decide libertar-se e fugir de sua “gaiola”, esquecendo promessas de casamento, de iates e carros que haviam sido feitas pelo amante e, pobre como era antes da aventura, decide voltar à casa de sua tia e ser livre.

             Atravessamos o mundo das relações homossexuais masculinas, tanto aquelas dos jovens,  quanto a dos mais velhos; passamos por aquelas que encontram o recolhimento com a idade e as outras, que em sua carência afetiva, chegam ao inferno da degradação sado-masoquista e da prostituição. Surgirão os pardieiros, verdadeiros pandemônios, como aquele mantido pelo testa-de-ferro de Charlus, Jupien. Um local destinado ao vício e à degradação, frequentado por duques, príncipes, políticos e padres; neste antro, o Narrador encontrará o barão de Charlus e Robert de Saint-Loup, o qual herdara do tio o vício da inversão sexual. Reduto da prostituição masculina e do sado-masoquismo, neste local também correm as drogas que levam à degeneração e à loucura.

            O tomo “A Abertine Desaparecida” é dedicado primeiramente à tristeza, à angústia e ao ciúme que atormentarão incessantemente o Narrador após a sua separação.  Mas o tempo, lentamente, cumprirá o seu papel anestesiante, até que a dor se transformará, nos dizeres do Narrador, da mesma forma como ocorrera com o pesar pela morte da avó, em “intermitências do coração”. Marcel, de repente, receberá a notícia da morte acidental da amada, retorna seu ciúme intermitente, mas o esquecimento e o estabelecimento do hábito os afastarão da dor. Temos um momento de fugaz alegria, quando o Narrador viaja com sua mãe a Veneza, viagem já tão sonhada a partir dos quadros de Carpaccio, Veroneze e das descrições de Ruskin. Ao deparar-se com a realidade dos lugares, Marcel a encontra diferente do que imaginara e muito inferior às suas idealizações.

            Retornando à França, ele reencontra seu primeiro amor, Gilberte, agora viúva de seu amigo Robert de Saint Loup, morto na guerra de 1914. Gilberte, que tanto buscara o mundanismo aristocrático, vivia depois de tudo, praticamente reclusa em Tansoville, próxima de Combray, entre a casa de Swann e o castelo de Guermantes. Marcel se dá conta de que o seu primeiro caso de amor somente falhara por sua própria incapacidade de compreender os sinais emitidos por Gilberte, que agora se declara ter estado por ele apaixonada.

            Finalmente, chegaremos ao “Tempo Reencontrado”. Após uma longa ausência de quinze ou vinte anos, o Narrador se depara com a corrupção tragicômica que o Tempo operara nas pessoas e, num encontro social no palácio de Guermantes, sente-se como se penetrasse em um “baile de máscaras”, pois metamorfoseados estão todos os seus conhecidos em velhos, como ruínas de um passado, inclusive ele próprio. A princesa de Guermantes havia falecido e o príncipe, arruinado, desposara a viúva Verdurin, agora princesa, simbolizando a absorção da burguesia pela aristocracia.

            O encontro com a senhorita de Saint-Loup, jovem e linda como ele um dia fora, filha de Gilberte e Robert, demonstrava que os caminhos de Swann e Guermantes, ao contrário do que ele pensara na juventude, cruzavam-se, uniam-se. É o arco a se completar, a Catedral erguida e, para alguns, concluída, para outros, como para mim mesmo, ainda não. Pois mesmo que eu tenha colocado um Fim no meu livro, restaria muito por fazer, aprofundar, mas, afinal, existem tantas arquiteturas e obras-primas que permaneceram inacabadas...

            Voltando ao nosso enredo, no caminho e no curso deste último encontro social, o acaso permite ao Narrador que um conjunto de sensações vivenciadas no passado, escondidas no âmago de sua memória involuntária, sejam trazidas desde o inconsciente. É quando ele decide desenvolver uma nova batalha, agora contra o Tempo que lhe resta de vida. Marcel toma a decisão de representar a vida como foi memorizada no seu “Tempo Recuperado”, enquanto lhe for concedido viver.

            E, finalmente, nas cenas finais de o “Tempo Recuperado” encontra-se  o princípio de ‘’Combray”, no que se pode denominar de “Um Romance Circular”. Ao possuir o Tempo Recuperado, o Narrador define-se como o “tradutor” de cada leitor e convida-o a reecontrar o seu próprio tempo perdido, transformando-se, por sua vez, em um agente criativo, em um novo escritor.