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Resenhas e Análises Literárias

Albert Camus

A Peste



A maior parte das obras de Camus está consagrada àquele que se sente perante um abismo, colocado frente às esperanças dos seres humanos e à indiferença do universo. O absurdo não se encontra no homem e nem no mundo, mas sim, na coexistência. Pascal, no século XVII, dizia: “Imagine-se um grande número de homens presos e todos condenados à morte, dos quais alguns vão sendo degolados dia após dia na frente dos demais; os que ficam veem sua própria condição na de seus companheiros”. Essa é a imagem da condição humana, nos diria Malraux, sendo a morte “a prova irrefutável do absurdo da vida”.

Para Camus todas as ideias gerais são falsas, o mundo não lhe parecia nem explicado ou explicável. Não era cristão, talvez agnóstico, não era marxista, nada! Era Albert Camus filho do sol, da miséria, da morte. Intelectual, sem dúvida, mas um intelectual que gostava de viver e observar o viver. Participou da Resistência Francesa ao nazismo até a libertação em 1944. Foi editor do jornal O Combate. Em 1951, rompe com Sartre, ataca o socialismo real e a própria perspectiva do comunismo. Em 1957, durante a guerra de libertação argelina, ele que defendia uma saída negociada, recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Morre em um acidente automobilístico em 1959, aos 46 anos de idade.

Ao receber o Nobel, ressaltou que: “Perante tantos horrores um artista não pode conformar-se com uma diversão sem alcance, com a perfeição formal. Ele falará no vazio se não se voltar para as misérias da História”. O artista moderno é um rebelde que pinta a realidade vivida e sofrida. Mas se sua rebelião for extremamente destrutiva, não chegará aos homens, será um “Calígula de café”. Para falar a todos é necessário falar do prazer, do sol, da necessidade, do desejo, da luta contra a morte, mas falar a verdade! O “realismo socialista” não é realista. O academicismo quer seja de direita ou de esquerda esquece o sofrimento dos homens.

A arte não é nada sem a realidade e sem a arte a realidade não valeria à pena. A arte é uma rebelião contra o mundo tal como ele é. Nem negativa total, nem consentimento total. O objetivo da arte não é julgar, mas compreender. “Advogo por um verdadeiro realismo contra uma mitologia talvez ilógica e mortífera e contra um niilismo romântico, burguês ou pretensamente revolucionário”.  Questionado se não teria deixado de ser um homem de esquerda ele responde: “Tradicionalmente a esquerda tem sempre lutado contra o obscurantismo, a injustiça e a opressão”. 

A Peste é a vida em comunidade. Oran, uma cidade imaginária na costa argelina, é acometida por uma impossibilidade: um surto de peste bubônica na segunda metade do século XX.

Antes da praga, a cidade era modorrenta, previsível nos negócios e nos costumes. “Oran é feia... Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas e nem o sussurro de folhas. Em resumo, um lugar neutro. Apenas nos céus se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pelos cestos de flores que trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados.”

“Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa cidade tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Nossos concidadãos trabalham muito apenas para enriquecerem... Os homens e as mulheres se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois... O mais original é a dificuldade que se tem de morrer. O doente fica muito só, dada a importância dos negócios e a qualidade dos prazeres. O que dirá o ato de morrer!... Logo, Oran é uma cidade inteiramente moderna...”

Um primeiro rato morre com hemorragia, depois outros, aos milhares; por fim os ratos moribundos desaparecem da cidade.  Logo a seguir morre o primeiro ser humano. “A imprensa tão indiscreta no caso dos ratos, não mencionava nada (a respeito dos humanos). É que os ratos morrem na rua e os homens em casa. E os jornais só se ocupam das ruas.”

A descrição dos sintomas, das dores, das mortes que se acumulam é realizada minuciosamente e sem “piedade”. A administração pública que insiste em esconder o flagelo até que não seja mais possível fazê-lo e a cidade inteira entra em quarentena, como se sitiada fosse e os isolamentos internos são instituídos. “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós...Os flagelos não estão à altura do homem: disse-se então que o flagelo é irreal, um sonho mau que irá passar.”

“Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções”.

Na Peste o que mais interessa ao autor é mostrar como se comportam as pessoas quando começa a ruir tudo o que elas acreditavam ser sólido: os intercâmbios, as relações familiares, as comunicações, a saúde, num transformar dos habitantes em exilados do mundo. “Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos, as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos”.

Como se comportam os “oranianos”?

Inicialmente, quando os portões das cidades são fechados pelo isolamento do mundo, os laços de amor e amizade estreitam-se. Outra decorrência da peste é o exílio a que todos são confinados. “A partir de então, reintegrávamo-nos, à nossa condição de prisioneiros e estávamos reduzidos ao nosso passado e ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam... Assim experimentavam o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, vivendo com uma memória que não servia para nada... Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro”.

Exílio que, gradualmente, também nivelará as pessoas, encurtando as distâncias sociais. “Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como realmente era, isto é, o problema de todos”.

No princípio, quando as pessoas julgavam a peste uma doença qualquer, a religião tinha muito prestígio, os sermões do Padre Paneloux eram extremamente concorridos e ele convocava todos a se arrependerem, a buscarem o perdão divino. “Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer e toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos, dissolve-se ao crepúsculo, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo”.

Camus presta muita atenção ao amor entre os amantes e ao valor da amizade: “A peste é preciso que se diga, tirara de todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes... Ao mesmo tempo, a peste suprimia juízos de valor”.

Porém, quando “já não havia destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste, os sentimentos eram compartilhados por todos”. E é essa dor que devolve o valor e a força aos sentimentos. “Há sempre alguém mais prisioneiro que eu- essa era a frase que resumia a única esperança possível”.

Quando casas de empesteados foram fechadas ou incendiadas por motivos sanitários, começaram os saques. “Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e aplicar as leis decorrentes”. Na peste e no exílio decorrente, tudo se sacrifica à eficácia de medidas que evitem a disseminação do mal.

A solidariedade humana

O comportamento de determinado grupo de pessoas que se dedicará à luta contra a peste será o da mais estrita solidariedade. “Era uma luta resignada, mas persistente, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões”, a travada pelos homens que providenciavam o isolamento sanitário dos doentes e a quarentena dos familiares, assim como um mínimo de atendimento às vítimas da peste.

A solidariedade humana é simbolizada por pessoas como o Dr. Rieux (que ao final se identifica como o narrador do episódio), que é ateu e que dá tudo de si no combate ao flagelo apenas por “estar bem consigo mesmo”, um “Rieux que julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criação tal como ela era”. Quando um popular lhe diz que ele não tinha coração, Rieux para e reflete que coração ele o tinha, pois lhe servia para suportar as vinte quatro horas por dia, nas quais via morrer homens que haviam sido feitos para viver. “O que eu odeio é a morte, é o mal. E quer queira, quer não, precisamos estar juntos para combatê-la”.

Para o narrador o heroísmo tem sempre um papel secundário perante a necessidade de luta pela felicidade, e “o hábito do desespero é pior que o próprio desespero”. O que restava ao médico ao qual não era dado salvar vidas, pois a peste era mortal? Tão somente “descobrir (o flagelado), ver, descrever, registrar, depois condenar e ordenar o isolamento”.

A solidariedade também é representada pelo padre Paneloux. Ele, inicialmente, acreditava que a peste havia sido enviada por Deus para o castigo dos pecadores da cidade. Ocorre a morte, sob intenso sofrimento do pequeno filho do juiz Othon, é quando se dará o momento de sua  ruptura com o tradicionalismo da aceitação e submissão. Paneloux diz a Rieux: “Isto é revoltante, mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender”. Retruca-lhe Rieux: “Eu vou recusar até a morte esta criação divina) em que as crianças são torturadas”, numa reprodução do diálogo sobre a revolta, entre Aliosha e Ivan Karamazov.

Tarrou, um estrangeiro em Oran, é um artista revoltado que atua lado a lado com Rieux criando brigadas sanitárias; ele deseja trabalhar pelo próximo como “um santo”, um santo sem Deus, sem a fé. “Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as forças contra a morte, sem erguer os olhos para os céus, onde ele se cala”.

Em determinado momento, confessa a Rieux que a epidemia não lhe ensinava nada. “Sei de ciência certa que cada um traz dentro de si a peste, porque ninguém no mundo está isento dela”. “O que é natural é o micróbio. O resto, saúde, integridade, a pureza, é um efeito da vontade, vontade que não deve jamais se deter. O homem direito é o que não infecta ninguém, que tem o mínimo de distrações possíveis. É bem cansativo ser-se empestado, mas é ainda mais cansativo não se querer sê-lo... pois, é necessário, tanto quanto possível, permanecermos fora do flagelo”. “Eu me coloco no lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. Por meio delas posso procurar a paz”.

A Peste é um livro humanista feito por quem se recusa a aceitar a injustiça do Universo. No silêncio eterno dos espaços infinitos ouvem-se somente os gritos das vítimas. Os homens devem permanecer uns ao lado dos outros quer por egoísmo, quer por santidade, mas tomando consciência dos sentimentos essenciais de amor, amizade, solidariedade.  Uma solidariedade que se traça como uma ponte entre moribundos e condenados. A mesma solidariedade que une os homens em perigo e que se desfaz como bruma em tempos de paz.

No dizer do crítico de Camus, Belcourt, no espírito mesmo do autor, juntam-se Rieux e Tarrou, na vontade de ser um santo sem Deus e no desejo de cumprir com seus deveres de cidadão do cotidiano.

Chega um ponto em que a epidemia regride, a cidade começa a se recuperar, o isolamento é levantado e tudo se esquece. Os ratos voltam a surgir vivos e espertos. “Pode-se dizer que, a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste havia terminado”. Entretanto, “todos os cidadãos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada não voltariam e que era mais fácil destruir que reconstruir”.

De qualquer forma, a libertação que se prenunciava tinha um semblante misto de sorriso e de lágrimas. Tarrou será a última vítima a morrer de peste. “Tarrou perdera a partida como ele mesmo dizia, mas o que Rieux ganhara afinal? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, conhecer a ternura e lembrar-se dela também. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória”.

Depois da peste, que metaforicamente teria sido a Segunda Guerra Mundial, os Campos de Concentração, os Campos de Reeducação, os Gulaks, os Estados de Sítio, quantos heróis da luta voltaram para suas fraquezas!  “Rieux queria fazer como todos à sua volta e crer que a peste poderia chegar e voltar a partir, sem que o coração dos homens mudasse com isso”.

A peste dos corpos sobrevive na alma! Mas aqueles que têm consciência podem se autovigiar e evitar causar danos ao próximo e, quem sabe, proporcionar um pouco do bem. Afinal, acreditava Rieux: “há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”.

A Queda



Após "A Peste", obra em que desenvolveu com profundidade o conceito existencial da solidariedade humana, Camus escreveu "A Queda", em que as esperanças sociais parecem se desvanecer. “Não podemos afirmar a inocência de ninguém enquanto não pudermos afirmar com segurança a culpabilidade de todos”. Em outras palavras, encontramos em nossa própria consciência razões suficientes para sabermos que o ser humano possa a vir praticar todos os tipos de crime.

Em um bar de marinheiros em Amsterdã, denominado México-City, conheceremos Clamence. Nesse local, os clientes são servidos por um holandês de “estrutura granítica”, destes que não sentem seu exílio, apenas seguem um caminho na vida, o caminho sem reflexão e que, “por não possuírem segundas intenções, nada os atrapalha”. Também por entenderem pouco sobre o que se diz, assumem a postura de desconfiados com tudo e com todos. O barman holandês é o contraponto de Clamence, assim como do meio social em que este vive, onde aquilo que conta é “quem irá arruinar o outro”.

O livro consiste de um longo monólogo do parisiense Clamence, outrora, um advogado de prestígio, que procura descobrir em que momento principiou a “sua queda”. Com nojo de si mesmo ele abandonara Paris e confessa sua culpa a desconhecidos dizendo que “jamais tivera senão boas intenções”. Após um longo percurso descobrira que a profissão de advogado, assim como a de juiz, incorpora a hipocrisia na qual se julga a quem se defende, como se o próprio advogado e o juiz, não fossem por sua vez, culpados. Além do mais, “quantos crimes são cometidos simplesmente porque seu autor não pode suportar estar em falta”! “Afinal de contas, viver no alto é a única maneira de ser visto e saudado pela maioria das pessoas. Aliás, alguns de meus clientes criminosos tinham, ao matar, obedecido ao mesmo sentimento”.

Quanto à queda, ele descobre ainda que ela ocorreu em todos os momentos vividos e, com isto, retrocede no tempo à medida que retoma o passado. Esse longo processo se encerra em Amsterdã, pois a cidade “é o âmago das coisas, os canais concêntricos se parecem com os círculos do inferno, inferno burguês, povoado de maus sonhos”. Quando se chega do exterior, como Clamence de Paris, os crimes se tornam mais espessos, mais obscuros. “Aqui estamos no último círculo”.

“No fundo, nada contava. Guerra, suicídio, amor, miséria, eu não lhes prestava atenção, claro que quando as circunstâncias me obrigavam a isso, mas de modo cortês e superficial... sim, tudo resvalava sobre mim”. “Em suma, só me preocupei com os grandes problemas nos intervalos de minhas pequenas derrapadas”. Afinal, “assim foi a minha vida. Nunca tive necessidade de aprender a viver... Há pessoas cujo problema é resguardar-se dos homens ou, pelo menos, acomodar-se a eles. Quanto a mim, a acomodação estava perfeita”.

Essa franqueza incita seus interlocutores a confessarem que não valem muito mais que ele. É o que esperava Clamence. Tendo adquirido por suas confissões o direito de julgar os demais, autoriza-se a si mesmo todos os vícios. “Eu tinha, é claro, princípios, como o que a mulher dos amigos era sagrada. Por isso, simplesmente cessava dias antes, a amizade com os maridos”.

Já as mulheres, amava-as “segundo a expressão consagrada, o que é o mesmo que dizer que nunca amei nenhuma”. Buscava apenas objetos de prazer e conquista, sendo um “observador da paixão”. Para Clamence, assim é o ser humano, ele não consegue amar sem amar-se primeiro. “Eles têm a necessidade da tragédia, o que se pode fazer?”

“Sabe por que somos mais generosos, condescendentes e até mais justos para com os mortos? A razão é simples, para com eles já não existem obrigações... Se nos impusessem algo seria a memória e nós temos a memória curta. Não é ao morto que nós amamos em nossos amigos; o morto doloroso, a nossa emoção, é para nós mesmos”. De toda forma, “a morte é sempre solitária, enquanto a servidão é coletiva”.

No passado, os traficantes de escravos deixavam a placa de suas atividades na porta, pois “não se escondia o jogo naqueles tempos... “A escravatura, ah, somos contra! Afinal, vivemos abaixo da dureza de coração de nossa classe dirigente e sob a hipocrisia de nossas elites. “Que se seja obrigado instalá-la em sua casa ou nas fábricas, bom, é a ordem natural das coisas, mas vangloriar-se disso é o cúmulo”. Todo homem inteligente sonha em ser gangster e imperar sobre a sociedade unicamente pela violência, “com isso, envereda-se geralmente pela política e corre-se para o partido mais cruel”.

Que os homens têm suas imperfeições, que muitos vivem na hipocrisia, quem o duvida? Acontece que aos homens não se lhes perdoa a felicidade, nem o sucesso, a não ser sob a condição de que este seja repartido. A única defesa do homem está na maldade e as pessoas apressam-se a julgar para não serem julgadas. Afinal, cada homem é testemunha do crime de todos os outros.

Alguns cristãos têm exigido a pureza em nome da religião, alguns ascetas em nome da filosofia. “Um grande cristão amigo meu reconhecia que o primeiro sentimento que experimentamos ao ver um mendigo se aproximar de nossa casa é o de desagrado”.

Os mártires da humanidade ou são esquecidos ou ridicularizados, ou ainda, usados. “Quanto a serem compreendidos, nunca”. Falando de Cristo, Ele recorda as crianças massacradas na Judeia, crimes comandados por Herodes, e que esses crimes “perpetrados por sua causa”, tê-lo-iam acompanhado até o Calvário. “Ele queria que o amassem, nada mais”. “Por que me abandonaste? Era um grito subversivo, não acha?” Os homens, ao contrário de Cristo, facilmente se consideram profetas, “é isso o que sou um profeta vazio para tempos medíocres”. Cristo não foi esquecido e nem ridicularizado, simplesmente, usado e jamais compreendido.

Sempre será preciso que algo esteja acontecendo, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. “É preciso que algo aconteça mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte..." Talvez por isso mesmo, Clamence declara não ter mais amigos, apenas cúmplices. “Em compensação seu número (o de cúmplices) aumentou, é todo o gênero humano... e aquele que está presente é sempre o primeiro”.

Depois dessa breve resenha, em que se funda, afinal, o rigor analítico de Clamence?

Em nada, dado que ele confessa jamais haver conseguido acreditar que os assuntos humanos seriam coisa séria. Pode-se ver, às vezes mais claramente naquele que mente do que no ser que fala a verdade. A verdade, pois, como a luz, cega. A mentira é “como um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto”. O livro abunda em fórmulas tão paradoxais como essa, brilhantes, mas o que conclui? Não se sabe muito bem. “No jogo de espelhos entre a confissão do autor e a do personagem, o exorcismo e a comédia, a verdade e a mentira, mudam os seus reflexos”, nos diz Brisville. . Admiramos um estilo, um humor; surpreende-nos a amargura de uma ironia que dissolve todas as coisas. “Não é uma queda, diria Thiébaut, é uma rua sem saída”.

A dizer a verdade, as loucuras dos homens justificam o mais negro pessimismo. Mas como? Falta cuidar da vida! E A Queda não é a última palavra de Camus. Ela virá no O Homem Revoltado, como nos ensina Maurois.

O Homem Revoltado



I- Introdução

A revolta constitui uma das dimensões essenciais do homem. O homem revoltado é, antes de tudo, aquele que diz não. Ao dizê-lo, ele se recusa, mas não renuncia, pois negar uma situação é dizer sim desde o primeiro movimento, porque o movimento de revolta apóia-se tanto na recusa categórica de uma intromissão intolerável, quanto na certeza confusa de um direito efetivo. Portanto, a revolta só ocorre quando se crê que se tem razão. Se o desespero, como o absurdo, julga e deseja tudo em geral e nada em particular, o movimento de revolta, ao contrário, invoca tacitamente um valor.

No caso do escravo quando rejeita a ordem humilhante do seu senhor, ele refuta a sua própria condição de escravo. Quando parte para o tudo ou nada, a consciência vem à tona com a revolta e ele se capacita a criar novos valores.

Portanto, partindo de uma aparência negativa, uma vez que nada cria, a revolta é, entretanto, na sua essência positiva, na medida em que revela o que no homem deve ser sempre defendido: a sua liberdade, a possibilidade de ação, ou aquilo que é seu corolário: a vontade ativa e a possibilidade de iniciar algo novo.

Existem algumas características que são marcantes no movimento de revolta. Por exemplo, ela não é egoísta, pois o homem que se revolta o faz  tanto contra a mentira quanto contra a opressão. Quando o revoltado exige para si respeito, fá-lo na medida em que se identifica com uma comunidade. Na revolta pois, um homem se transcende no outro, e, desse ponto de vista, a solidariedade humana é metafísica. Trata-se dessas solidariedades que nascem nas prisões, nas masmorras, nos campos de extermínio e de concentração. Solidariedade que somente aqueles que atravessaram momentos da tensão humana maior, como as experiências vividas nos porões da repressão política das ditaduras, que foram submetidos à tortura que oprime a alma, antes mesmo que logre dilacerar os corpos, são capazes de sentir.

A solidariedade que se fundamenta no movimento de revolta só encontra justificação nesta cumplicidade. O pensamento do revoltado nestas situações limítrofes é de uma tensão perpétua. Em troca ele ganha a consciência do ser coletivo e a aventura é de todos. A revolta ainda retirará o homem de sua solidão, fundamentando como seu primeiro valor: “eu me revolto, logo, existo, e existo em comunidade!”

A revolta não pode ser confundida com o ressentimento, que é uma secreção nefasta da impotência  que se prolonga no individualismo. O ressentimento fragmenta o ser, enquanto que a revolta o integra, conduzindo o homem à transcendência. Ao contrário do ressentimento que é passivo e apenas aguarda o momento da revanche, a revolta é ativa, abundante de energia; enquanto o ressentimento colore-se da inveja, o revoltado não inveja aquilo que não tem, porque defende aquilo que ele é. O ressentimento transforma-se em arrivismo ou amargura, pois a pessoa quer ser algo que não o é. Nietzsche classifica o ressentimento como “o sentimento dos rancorosos”, aquele que aguarda sempre a oportunidade de ferir à socapa, pela retaguarda.

Chegamos, então, a uma outra característica da revolta: ela não é “realista”, sendo o oposto do ressentimento;  o revoltado não busca conquistas, pois ele quer apenas e tão somente se impor, numa  luta que o que está em jogo é a integridade de seu ser.

No século das ideologias pregava-se o amor à humanidade em geral para não ter que se amar a um ser individual, para não dedicar àqueles que sofrem a comunhão do compartir, o “pathio” agostiniano trazido do céu para a terra. Em Dostoievski, Ivan Karamasov passa do movimento de revolta à insurreição metafísica, pois a sua revolta tem o caráter dilacerado por existir nele amor demais sem objeto; ao negar a existência de Deus, Ivan decide-se transferi-lo para o homem em nome de uma generosa cumplicidade, mas não encontra onde colocar a sua compaixão.

Na sociedade moderna, o espírito de revolta prolifera  em grupos nos quais uma igualdade teórica encobre grandes desigualdades de fato. A revolta, então, é o ato do homem informado, cônscio de seus direitos. O revoltado é aquele que se situa na reinvindicação de uma ordem humana, em que todas as respostas sejam simplesmente humanas, racionais ou irracionais, mas humanas, talvez “profundamente humanas”.

A revolta metafísica é o movimento através do qual o homem se insurge contra a sua condição e contra a criação. É metafísica porque contesta os fins do homem e da criação, sua qualidade enquanto homem. O revoltado se insurge contra um mundo fragmentado para dele reclamar unidade, contrapõe o princípio de justiça que nele existe, ao de injustiça que vê no mundo. O revoltado metafísico certamente não é ateu, mas blasfemo; ele blasfema em nome da ordem, contra Deus, pai da morte e do escândalo supremo, o mesmo “skandalo” denunciado por Cristo.

Historicamente o escravo revoltado e o senhor estão no mesmo barco. A realeza temporária de um é tão relativa quanto a submissão do outro. Quando houver o confronto, um destruirá o outro, pelo menos provisoriamente. Da mesma forma, o revoltado metafísico volta-se contra um poder cuja existência simultaneamente afirma no próprio instante em que a contesta. O escravo começa reclamando justiça e termina querendo realeza, pois tambem precisa ter a sua vez de dominar. A rebelião humana acaba em revolta metafísica, pois derrubado o trono de Deus, começa o esforço para fundar o império dos homens.

Isto poderá trazer consequências de superação caso a humanidade trilhe a senda do exercício da vontade como liberdade, caminhe para um novo renascimento. Mas também as consequências poderão ser terríveis, na medida em que o revoltado esqueça as suas origens, canse-se da dura tensão entre o sim e o não, e entregue-se por fim à negação de todas as coisas ou à submissão total. Mas qualquer destas consequencias não se devem à revolta em si, mas à fidelidade ou infidelidade do revoltado às suas origens.

 

II- A revolta metafísica

No “Prometeu Acorrentado” de Ésquilo, o Titã que possuia a capacidade de prever o futuro diz- “Nenhuma desgraça que eu já não aja previsto cairá sobre mim”. Mas ao mesmo tempo : “Ah, vejam que injustiça eu suporto!”, aquele que se declara :“Inimigo de Zeus, por ter amado demais aos homens”. O que Prometeu não diz, mas que a ambiguidade trágica nos revela é que antes do homem, seu entrevero com Zeus era fruto de um acerto de contas particular entre deuses, jamais uma luta universal do bem contra o mal. Os gregos se acreditavam no destino, acreditavam ainda mais na natureza e revoltar-se contra a natureza é revoltar-se contra si mesmo, e a coerência de revoltar-se contra sua essência seria o suicídio. Não é por acaso que em “Prometeu Portador do Fogo”, o Titã de Ésquilo  anunciava o reino do revoltado perdoado por Zeus.

“Édipo Tirano”, de Sófocles, sabe que, mesmo contra a sua vontade, ele não é inocente, pois fora a soberbo; sentira-se acima de todos e mais que ninguém considerava-se decifrador dos enígmas divinos; mas a sua desgraça fazia parte de seu destino, gerada que for a pela  desmedida cometida por seu pai, Laio.  De qualquer forma ela o destruiria. Na sua revolta, Édipo que acreditava ver longe arranca os próprios olhos. “Édipo em Colono” já não é mais um revoltado. Tudo está se harmonizando.

Antígona, numa atitude que é anti-polis, reacionária, revolta-se por não ver cumpridos os ritos sagrados para com o irmão, Polinices abatido por Etéocles no campo de luta; Polinices que queria destruir sua própria cidade, Tebas, e tornar escravos de Argos seus próprios irmãos. Ela prefere fechar-se em sua phylia do que abrir-se ao mundo e ao amor. Mas os gregos sempre expõe a dupla face, o contraditório, a alma ambígua da tragédia.

A ideia da inocência versus culpa, a história reduzida à luta entre o bem e o mal era totalmente estranha aos gregos de cinco séculos antes de Cristo. Seus heróis  cometem mais erros que crimes, e estes, quando ocorrem , são devido à desmedida dos homens, cujos olhos são cobertos pela ate, a cegueira que também lhes é imposta pelos deuses.

Apenas nos últimos instantes do pensamento grego vemos ressurgir a revolta tão presente no século dos poetas trágicos. Chegamos até Epicuro: ”Podemos nos precaver contra todas as espécies de coisas; mas no que concerne à morte, continuamos como os habitantes de uma cidadela arrasada”. Ainda: ”De espera em espera, consumimos toda a nossa vida e morremos no sofrimento”; ”A morte não é nada em relação a nós , porque aquilo que está destruído é incapaz de sentir, e o que não sente é nada para nós”. Toda a volúpia de viver de que nos fala Epicuro é, tão somente, a ausência de sofrimentos, a felicidade tal qual a das pedras. Ele mata a sensibilidade e seu primeiro grito, a esperança! Ele ergue uma cidadela com seus altos muros em volta dos homens. Não nega os deuses mas diz que nada têm a ver com os negócios humanos. Mas sua revolta tem o caráter defensivo: “Eu fechei todas as portas ao destino, não nos deixaremos vencer por ti; e quando soar a hora inevitável da partida, diremos: e com que dignidade vivemos!”

Com Lucrécio inicia-se o abandono do destino, que é, então,  substituído pelo acaso. Para ele, a piedade é poder “tudo olhar por um espírito que nada perturba”. Mas esse espírito não se contém, ele treme perante a injustiça: Ifigênia, filha de Agamemnon, o primeiro crime de religião cantada por Homero, degolada na inocência, por este “traço divino que passa ao largo dos culpados  e tira a vida de inocentes”. “Por que o mal seria castigado, se temos visto exaustivamente o bem não ser recompensado?” O homem de Lucrécio já procede a uma revolução. Ao negar os deuses indignos e criminosos ele assume seu lugar, deixando a cidadela onde Epicuro o aprisionara; desta forma, o assassinato de um homem é uma resposta ao divino e não será por acaso que seu poema termina com a imagem de santuários repletos de cadáveres da peste, fonte de inspiração de “A Peste” de Camus.

Chegamos finalmente ao deus pessoal, aquele a quem, finalmente, a revolta poderá pedir prestação de contas. O primeiro caso é o de Caim; e a revolta dos tempos modernos é muito mais dos filhos de Caim do que a dos protegidos de um Prometeu. O Novo Testamento é uma forma de responder antecipadamente a todos os Cains, colocando um mediador ente Desus e os homens: Cristo. Ele veio resolver dois dos maiores problemas dos revoltados: a morte e o mal. A noite do Golgota, com sua cruz por séculos exaltada, só tem tanta importância pois o deus-homem, abandonando todos os seus privilégios, vivenciou até o final seu martírio, revoltando-se com o “lama sabactani”, “pai afasta de mim este cálice”, pois para que um deus se faça também homem é preciso que ele se desespere.

No mundo Ocidental, graças à Igreja, a raça de Caim triunfou ao longo dos séculos. Os blasfemos, paradoxalmente, fizeram reviver o deus ciumento que Cristo quizera afastar; assim se manteve a figura implacável do deus do ódio, este sim, em perfeito acordo com a criação que preferiu o sacrifício de Abel ao de Caim, que foi a divindade provocadora do primeiro assassinato entre irmãos.

Enquanto o Ocidente foi cristão, os Evangelhos foram intermediários entre os céus e a terra, pois dado o sofrimento a que Cristo se submetera, nenhum outro seria mais injusto e toda dor desnecessária. Acontece que  a injustiça generalizada é tão satisfatória para o homem quanto a justiça total. Desde que o Cristianismo, terminando o seu período triunfal,  é submetido à crítica da razão, todo esforço do pensamento libertador estará voltado para tornar Cristo um inocente ou um tolo, anexando-o ao mundo dos homens, naquilo que ele tem tanto de nobre quanto de desprezível.

A NEGAÇÃO ABSOLUTA

Sade é o marco, que só extrai da revolta o não absoluto; vinte e seis anos de prisão não lhe permitem possuir nenhuma atitude conciliadora. Toda ética da solidão implica exercício do poder e Sade tratado de maneira atroz reagiu de modo igualmente atroz. Ele, que só conheceu a lógica dos sentimentos, tratou de criar o sonho monstruoso de um perseguido. Sua sede extrema de uma vida proibida foi aplacada, de furor em furor, até transformar-se em sonho de destruição universal.

Saint-Fond é seu personagem mais cruel; a inocente Justine, deflorada, mil vezes estuprada, corre em fuga sob a tempestade e é esmagada por um raio. Se a ideia que Sade possui de Deus é de uma divindade criminosa, que esmaga o homem e o nega, por que o homem seria virtuoso? “Virtude e vício, tudo se confunde no caixão”.

Sade se revolta contra a ordem do mundo e contra si mesmo; mas por ser um perseguido, um condenado às grades, estas duas revoltas não são contraditórias. Sade negará o homem e sua moral.  E o fará em nome do mais forte dos instintos: o sexual. O sexo, por uma lado expressão da natureza, por outro, ímpeto cego que exige a posse total dos seres, mesmo ao preço de sua destruição. Se para Sade a própria natureza será o sexo, sua lógica o conduz a um mundo sem lei, onde o único senhor será a energia desmedida do desejo. A liberdade que ele reclama não é a dos princípios, mas aquela dos instintos. Ele não é amigo da raça humana, pois odeia tudo o que se aproxime da filantropia. A igualdade de que nos fala é a abjeta igualdade das vítimas, pois a república de Sade não tem a liberdade como objetivo, mas a libertinagem. A liberdade, enquanto sonho de um prisioneiro, não pode suportar limites; ela é o crime ou não é mais liberdade.

Matar um homem no paroxismo de uma paixão é compreensível. Mandar que outra pessoa o faça , a pretexto de qualquer dever honroso, é incompreensível. Para Sade quem mata deve pagar com a vida. Como vemos, ele é mais moral que muitos dos nossos contemporâneos. O manuscrito “Cento e Vinte dias de Sodoma”, devolve à cela o aristocrata correligionário da revolução francesa, mas um aliado comprometedor.

A república universal foi para Sade um sonho, nunca uma tentação. Em política, a sua verdadeira posição é o cinismo. Em seu livro “Sociedade dos Amigos do Crime” ele se declara a favor do governo e de suas leis, enquanto se dispõe a violá-las. A licença para destruir pressupõe que se possa ser destruído.  Logo será preciso lutar e dominar. A lei deste mundo nada mais é que a lei da força; sua força motriz, a vontade de poder! Surpreendêmo-nos, nós homens do século XXI?

Sade compõe o grupo de seus heróis entre aqueles que o acaso do nascimento nomeou aristocratas, mas neste grupo admite o oprimido quando ele se insurge e coloca-se ao lado dos fidalgos libertinos. É uma espécie de blanquismo moral, em que uma pequena casta de homens e mulheres coloca-se acima de uma casta de escravos.

Como a lei da força jamais tem paciência para esperar o império do mundo, ela precisa delimitar sem delongas o seu território, mesmo que seja necessário cercá-lo de arames farpados e torres de observação. No caso de Sade ele cria castelos  de onde se é impossível escapar e onde a sociedade do crime e do desejo funciona de modo implacável. A emancipação do homem para Sade se realiza na incorporação a uma burocracia do vício, que regulamenta a vida e a morte dos homens e mulheres que entraram para o reino da necessidade:“Vocês já estão mortos para o mundo”. A liberdade ilimitada do desejo significa a supressão da piedade e a supressão do outro. Na república de Sade tudo são máquinas e mecânicos, sua dinâmica ele as copia dos conventos, mas no seu contrário: “tudo o que for uma conduta pura, é culpado.”

O gozo transforma-se em desespero, uma corrida da servidão para a servidão, da prisão para a prisão. De destruição em destruição, só resta o aniquilamento universal. Mas quando todos são aniquilados os carrascos se vêem um diante do outro no castelo solitário. “O assassinato só tira dos que matamos a primeira vida”… “eu abomino a natureza, gostaria de parar os astros, destruir o que lhes serve, salvar o que é nocivo, mas não consigo”. Os senhores irão se destruir; ele mesmo, Sade, aceitará sua aniquilação pessoal. Dos senhores só restará um, o Único, em meio à total destruição.

Mas Sade não matou ninguém, isto só se passou na sua imaginação, mas ele morreu atado numa camisa de força, em meio aos escrementos de um hospício. Sade foi o homem de letras perfeito, que  construiu uma ficção para dar a si mesmo a ilusão de existir. Colocou acima de tudo “o crime moral que se comete por escrito”. Colocou em evidência as consequências extremas de uma lógica revoltada,  pelo menos quando ela se esquece de suas verdadeiras origens. Essas consequências são as totalidades fechadas, o crime universal, a aristocracia do cinismo e a vontade do apocalipse.

O sucesso de Sade se explica em nosso tempo: a reinvindicação da liberdade total e a desumanização friamente executada pela inteligência. A redução do homem a um objeto de experimento, os regulamentos que determinam as relações entre a vontade de poder e o homem objeto, o campo fechado que os teóricos do poder se lembrarão na hora de organizar a era dos escravos. Sade exaltou, com dois séculos de antecedência as sociedades totalitárias em nome da liberdade frenética que a revolta, na verdade, não exige.

 A REVOLTA  DOS DANDIS

Chegamos, dentro do mundo das letras, ao romantismo que do ponto de vista da revolta, só servirá às aventuras da imaginação.

A luta de Satã e da Morte, no “Paraíso Perdido” simboliza este drama, muito mais que o fato de a morte ser a filha corrupta de Satã. Para combater o mal, o revoltado Lúcifer, que se julga inocente, renuncia ao bem e gera novamente o mal. Como se interroga Blake, o que teria feito com que Milton escrevesse constrangedoramente quando falava sobre anjos  e Deus e, por outro lado, fosse repleto de audácia e arrebatamento quando travava dos demônios? Ora, a resposta nos parece de uma clareza mediana: Milton era um verdadeiro poeta, sem que o soubesse, do partido dos demônios. O grito de Satã, contra a prepotência divina é o da inocência ultrajada: “adeus esperança, mas com ela, adeus temor, adeus remorso…ó mal, seja o meu bem!”

Satã insurge-se contra o seu criador porque ele usou a força para subjulgá-lo.”Igualado na razão, ele alçou-se acima de seus iguais pela força”. O revoltado se afastará desse Deus agressor e indigno e reinará sob forças hostis ao Empíreo. Mas o Príncipe do Mal só escolheu este caminho, o próprio mal, porque o bem é uma noção definida e utilizada por Deus para desígnos injustos. Pois desde então, até mesmo a inocência que encontrará em anjos e nos humanos, irritará o rebelde, pois pressupõem a cegueira dos tolos. Já que na raiz da criação está a violência, a violência deliberada será sua resposta.

Para Melville, o Satã de Milton é moralmente muito superior ao seu Deus, assim como aquele que  persevera a despeito da adversidade e da sorte é um ser superior àquele que, na fria segurança de um triunfo certo, exerce a mais horrível vingança sobre seus os inimigos. E a vingança de Deus não admite recuos. Ela é eterna, portanto, de uma infinita maldade.

Ora, como Satã nao consegue sentir o mal e nem os benefícios, nem tão pouco alegria pelos males que causou, ele inaugurará uma nova categoria, a daqueles que tudo negam, e isto definirá o niilismo e o assassinato. No apocalipse tudo se confunde, amor e morte, consciência e culpa. Se olharmos com cuidado o painel frontal da Capela Sistina, veremos os seres humanos no “Juízo Final” despencando e tremendo de ódio, idolatrando no pavor seus crimes, caminhando para o tártaro, onde amaldiçoarão o Criador.

O romantismo empenha-se em ilustrar um movimento de reinvindicação nas imagens convencionais dos fora-da-lei, do bom prisioneiro, do assaltante generoso. Mas em sua origem, o romantismo desafia primeiro a lei moral e divina. A sua imagem mais original não é o revolucionário, e sim, o dândi, o Mário Caravadoci de “Tosca”. Mauraux diz ”não há mais poetas malditos”; mas os outros têm consciência pesada. A revolta cobre-se de luto e vai se fazer admirar nos palcos. Muito mais que o culto aos indivíduos, o romantismo inaugura o culto à personagem. Diz Milton: ”Nada mudará este espírito fixo, esse alto desdém nascido da consciência ofendida.” O objetivo de Satã era tão apenas igualar-se a Deus e manter-se nesse nível.

Caminhamos até Baudelaire, para quem “viver e morrer diante de um espelho”, era o lema de um dândi. O dandi, aquele que cria a sua estética da singulariedade e da negação, mas ele é um opositor que só se mantém pelo desafio. Como personagem teatral precisa de um público e só o terá enquanto se opuser. Os outros são o seu espelho, ele sempre é movido a impressionar. Vivendo em ruptura, sempre às margens das coisas, o dândi obriga os outros a criarem-no, enquanto nega os seus valores. Ele desempenha a sua vida apenas e tão somente por ser incapaz de vivê-la.

Mas Baudelaire era por demais teólogo para ser um verdadeiro revoltado, ele que melhor que niguem teorizou o dandismo. ”Que tudo neste mundo transpira crime, o jornal, as paredes, as faces dos homens”. “Não só ficarei feliz sem ser vítima, mas não odiarei ser carrasco a fim de sentir a revolução dos dois lados”. “O verdadeiro santo é o que açoita e mata o povo para o bem do próprio povo.”

A partir do romantismo a tarefa de um artista não será somente recriar o mundo, nem exaltar a beleza por si só, mas também definir uma atitude. Quando os dândis não se matam uns aos outros, sentem-se muito felizes em fazerem carreira, pousarem para a posteridade. Mas a revolta, pouco a pouco, troca o mundo do parecer pelo do fazer, ao qual irá lançar-se por inteira. Enquanto o revoltado romântico exalta o indivíduo e o mal, não toma o partido dos homens, apenas o seu próprio partido. O dandismo, em qualquer de suas formas, ele é um dandismo em relação a Deus e a danação insistentemente apregoada nada mais é que uma boa peça que se prega ao mesmo Deus.

A RECUSA DA SALVAÇÃO

Com Dostoievski a revolta dará um passo além. Ivan Karamasov toma o partido dos homens, ressaltando a inocência dos mesmos, logo, a condenação à morte que paira sobre todos nós é injusta. Num primeiro momento, Ivan defende a justiça e não o mal, o qual situa acima da divindade! Ele não nega a existência de Deus, mas o refuta em nome de um valor moral. Deus é julgado: se o mal é necessário à criação divina , então a criação é inaceitável. Ele inaugura a empreitada essencial da revolta , que é substituir o reino da graça pelo da justiça. Ivan recusa o mistério e explicitamente o próprio Deus como princípio do amor. “Se o sofrimento das crianças serve para completar a soma de dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde já que a verdade não vale tal preço.”

“Minha indignação persistiria mesmo se eu estivesse errado”, diz referindo-se ao starets-santo homem Zózimo. Ele recusa a salvação, pois para ela seria necessária a fé, mas esta pressupõe a aceitação do mistério e do mal, a resignação à injustiça. Ivan recusa a barganha. A revolta com Dostoievski caminhou, agora ele quer o tudo ou o nada. Ivan não diz que não há uma verdade, mas que ela é inceitável. Porque é injusta. Ivan ainda recusa-se a ser salvo sozinho; solidariza-se com os malditos e por sua causa recusa o céu, pois o sofrimento continuaria, não havendo salvação possível para aquele que possua a verdadeira compaixão.

Ao recusar a imortalidade, resta-lhe a vida, e no que ela possui de mais elementar. E ele viverá, amará, até mesmo sem saber o por quê. Dono de sua vontade, viver também é agir. Com o desaparecimento da imortalidade já não existe recompensa e nem castigo, nem bem e nem mal. “Não há virtude sem imortalidade”. Por outro lado, não havendo vitude, não há mais lei: “tudo é permitido.” O niilismo cria forças, cria músculos. Com os Irmãos Karamasov a lógica da indignação fará a revolta voltar-se contra si mesma, lançando-a numa contradição desesperada. Ivan irá se esforçar por fazer o mal para alcançar a coerência, racionalizando sua revolta, até extrair dela a lei do assassinato, a do próprio pai. E isto ocorrerá ao mesmo tempo em que ele odeia a pena de morte: “todas as indugências para o assassino, nenhuma para o carrasco”. Esta contardição o faz sufocar, torna-o um “trágico” no modernismo, ser virtuoso e ilógico, ou lógico e criminoso. “Vais realizar uma ação virtuosa, mas não acreditas na virtude, eis o que te irrita e atormenta”, lhe diz seu duplo.

Chegaremos, então, ao extremo da revolta metafísica que é a revolução metafísica. “Como a imortalidade e deus não existem, é permitdo ao homem tornar-se um novo Deus. A aceitação do crime é uma constante nos intelectuais dostoievskianos. Falamos que Ivan chegaria ao assassinato,  não por sua ação, mas pela ausência de agir, permitindo que o rejeitado Smediakov assassine um canalha, o pai de ambos. Mas Ivan enlouquecerá por isso. O homem que não compreendia como se podia amar ao próximo também não compreende como se possa matá-lo, ou permitir-se que se o faça.

Na lenda do “Grande Inquisidor”, Dostoievski já antecipara: “Não é a Deus que eu rejeito, mas a criação.” Seu projeto de emancipação continua moral, ele não quer reformar nada na criação, mas sendo ela o que é, deseja emancipar-se dela. Dostoievski, profeta da nova religião havia anunciado e previsto: “Se Aliocha tivesse concluido que não há Deus nem imortalidade, ele se teria tornado imediatamente ateu e socialista. Isto por que o socialismo não é apenas uma questão operária, é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da Torre de Babel, que se constói sem Deus, não para a terra alcançar os céus, mas sim, para rebaixar os céus à terra.”

Aliocha trata Ivan como um verdadeiro simplório. Outros virão, que partindo da negação desesperada irão exigir o império do mundo. Inicialmente os Césares romanos, depois “O Grande Inquisidor”, velho e cançado pois seu conhecimento é amargo. Ele sabe que os homens são preguiçosos , covardes, e que preferem a paz e a morte à liberdade de discernirem entre o bem e o mal. Ele tem piedade, mas uma piedade fria desse prisioneiro calado que a história desmente sem tréguas. Ele o pressiona a falar para legitimar o trabalho dos Césares e dos Inquisidores espanhóis. Mas ele se cala, prefere a morte. A legitimidade do Inquisidor fica para o final dos tempos. “O negócio está apenas no começo, longe de terminar, e a terra terá muito o que sofrer, mas atingiremos nosso objetivo, seremos cézares e, então, pensaremos na felicidade universal”. Não há mais provas, só fé e mistério, que os Inquizidores ridicularizam. Tudo é permitido, os séculos do crime se preparam. De Paulo a Hitler, passando por Mussolini e Stalin, os Papas que escolheram César preparam o caminho dos Césares, que só escolhem a si mesmos.

NIETZSCHE e o NIILISMO

Com Nietzsche o niilismo torna-se consciente. Um “profeta” que só pensou no apocalípse vindouro, não para exaltá-lo porque advinhava a face sórdida e calculista que o apocalipse acabaria assumindo, mas para evitá-lo e transformá-lo em um  renascimento do gênero humano. A revolta de Nietzsche já parte do Deus morto. Ela se dirige a tudo aquilo que vise falsamente substituir a divindade desaparecida e que desonre o mundo. Ele não matou Deus. Já o encontrou morto na alma de seu tempo.

Reconheceu o niilismo e o tratou como um caso clínico. Diagnosticou em si mesmo e nos outros a impotência de acreditar e o desaparecimento do fundamento primitivo de toda fé, ou seja, da crença na vida. À pergunta de poder-se viver toda a vida revoltado, ele respondeu com ”pode-se viver sem acreditar em nada”? E sua resposta é sim. Em vez da dúvida metódica ele aplicou a negação metódica, a destruição de tudo aquilo que ainda escondia o niilismo de si próprio.

Para ele o ateísmo é construtivo e radical. O mundo anda ao acaso, logo Deus é inútil, já que nada quer. Stendhal disse: “a única desculpa de Deus é que ele não existe”. Privado do divino o mundo fica igualmente sem unidade e finalidade e por isso, não pode ser julgado. “As vantagens desse tempo: nada é proibido, tudo é permitido”. A conduta moral socrática e cristã assumem para Nietzsche o sinal de decadência. A verdadeira moral não se separa da lucidez, e ele é severo como ninguém com os caluniadores do mundo, pois a moral tradicional é imoralidade. “É o bem que, por motivos morais, terá que ser justificado”.

Para Nietzsche Cristo não era um revoltado, pois o essencial de sua doutrina resume-se no total consentimento, representado pela não resistência ao mal. Não é preciso matar, mesmo para impedir que se mate, pois é necessário aceitar o mundo como ele é, e assim fazendo, recusar-se em aumentar sua desventura. Não se trata de fé, mas de ações, pois uma disposição interior permitia aos cristãos colocar os atos de acordo com os princípios e levar à beatitude imediata. Mas após este princípio primitivo o cristianismo nada mais foi que uma longa traição de sua própria mensagem. O Novo Testamento é fruto da corrupção e de Paulo aos Concílios, a subserviência à fé fez esquecer as obras. As principais corrupções Nietzsche as localiza no julgamento, nas noções de castigo e recompensa. E destas mensagens corrompidas nasceria a ideia da totalidade humana, pois ao final da história, os homens serão separados em bons e maus. O cristianismo histórico, aquele que  secularizou o sagrado, impede que a vida descubra o seu verdadeiro sentido.

Da mesma forma Nietzsche se insurge contra o socialismo e todas as formas de humanitarismo. Ele mantém a crença nesta finalidade da história que trai a vida e a natureza. A história inteira significará recompensa e castigo e a igualdade das almas junto a Deus, leva à igualdade dos desiguais. O socialismo seria um sub-produto do cristianismo degenerado, por ser uma doutrina moral e ele a combate. O espírito livre destruirá tais valores ao denunciar as ilusões sobre as quais repousam. A inteligência lúcida deve realizar a sua missão: transformar o niilismo passivo em ativo.

Num mundo liberto de Deus e da moral o homem se acha só e sem senhor. ”Ao colocar-me acima da lei sou o maior dos rechaçados.” Quem não consegue colocar-se acima da lei precisa encontrar uma outra lei ou a demência. O homem é responsável por tudo aquilo que vive, por tudo o que, nascido da dor, está fadado a sofrer na vida.

Como espírito livre ele sabia que esta liberdade não é um conforto, mas uma grandeza que se quer e obtém, fruto de uma luta extenuante. Todos os possíveis somados não permitem a liberdade, mas o impossível é a escravidão. O essencial consiste em dizer que se a lei eterna não é a liberdade, a ausência de lei o é ainda menos. O próprio caos também é somente servidão. Só há liberdade em um mundo onde o que é possível e o que não é encontram-se simultaneamente definidos. Se o destino não for orientado por um valor superior, se o acaso é rei, eis a marcha para as trevas, a liberdade dos cegos. Ao contrário de Ivan Karamasov, Nietzsche substituiu o “se nada é verdadeiro, tudo é permitido”, pelo “se nada é verdadeiro, nada é permitido”. “Quando não se encontra grandeza em Deus, ela não é encontrada em nenhum lugar; é preciso negá-la ou criá-la”. Negá-la era a tarefa no mundo em que ele vivia e que ele, prometeicamente, via correr rumo ao suicídio coletivo.

Criar alguma grandeza foi a tarefa sobre-humana pela qual se predispôs a morrer. Desde que ele não reconhece nenhum julgamento, todos os juízos de valor devem ser substituídos por um único sim e a adesão a este mundo deve ser exaltada. A partir do desespero absoluto brotará a alegria infinita; da servidão cega, a liberdade sem piedade. Como ser livre significa a abolição dos fins, a inocência do devir representará o máximo de felicidade. O espírito livre ama o que é necessário. A questão “livre de que?” é sustuituída por “livre para que?”. A liberdade coincide com o heroísmo. Ela é o asceticismo do grande homem, “o arco mais esticado que existe”. Ela nasce de uma vontade determinada de se ser o que se é, em um mundo que seja o que ele é. A revolta na qual o homem reinvindicara o seu próprio ser desaparece na submissão absoluta do indivíduo ao devir.

Como os pré-socráticos, que suprimiam as causas finais para deixar intacta a eternidade de seus princípios imaginados, como Heráclito, em Nietzsche a força sem objetivo eterniza-se. Todo esforço é orientado para demonstrar a presença de leis no devir e no jogo da necessidade: “A criança é inocência e esquecimento, um recomeço, um jogo, o dom sagrado de dizer sim”.

Nenhum julgamento explica o mundo, mas a arte pode nos ensinar a reproduzi-lo, assim como o mundo se reproduz, através dos eternos retornos. Partidário do gosto clássico, da ironia, da impertinência frugal, aristocrata que soube dizer que a “aristoi” consiste em praticar a virtude sem saber porque, que se deve duvidar de um homem que requer razões para ser honesto, Nietzsche foi inimigo mortal do fanatismo, obsecado pela integridade.

“Há na verdade um Deus, que é o mundo. Para participar da divindade basta dizer sim”. Não rezar mais, mas dar a benção e o mundo se cobrirá de homens-deuses. Dizer sim ao mundo, reproduzi-lo, é ao mesmo tempo recriar o mundo e a si próprio, tornar-se o grande artista, o grande criador. A transmutação de valores consiste em substituir o juiz pelo criador: o respeito e a paixão pelo que existe.

Marx e Nietzsche, na história da inteligência, não possuem equivalentes na deturpação de seus pensares. Nietzsche clamava por um César romano com a alma de Cristo. Isto era ao mesmo tempo dizer sim ao escravo e ao senhor. Prevendo Iroshima, afirmou que: ”Quando os fins são grandes a humanidade usa uma outra medida  e não julga o crime como tal, mesmo recorrendo aos meios mais terríveis.”

“É facil falarmos de todos os atos imorais , mas teremos a força de suportá-los? Por ex., eu não suportaria faltar com minha palavra ou matar; eu persistiria , mais ou menos tempo, mas morreria por isso, esse seria o meu destino.” A responsabilidade de Nietzsche está em ter legitimado, pelo pensamento, este direito à desonra, do qual Dostoievski já dizia que se fosse oferecido aos homens eles a ele se lançariam. Ele não se deu conta de que as doutrinas de emancipação socialista por uma lógica inevitável do niilismo, deviam tomar a a cargo aquilo com que ele próprio sonhara: a super-humanidade. E com Marx, com a profecia da sociedade sem classes, ambos substituiriam o além pelo mais tarde. Nietzsche enquanto esperava o super-homem dizia sim a tudo o que existe; Marx diria sim a tudo o que viria a ser. Para Marx a natureza é o que se subjulga para obedecer à história, para Nietzsche a natureza é aquilo a que se obedece para subjulgar a historia.

A POESIA REVOLTADA

São herdeiros os mais próximos do romantismo.  Investem contra os céus, querem a tudo destruir, mas afirmam a busca desesperada por uma ordem. Assim como os surrealistas, os poetas quizeram extrair da razão a desrazão, fazer do irracional um método. Encontrar na demência e na subversão regras de construção. Rimbaud apenas apontou o caminho. Criou uma teoria prática da revolta irracional, quando, por outros caminhos o revoltado racional criava o culto da razão absoluta.

Lautreamont demonstra que o desejo de parecer fica também escamoteado pela vontade da banalidade. Com ele compreende-se a revolta adolescente; nossos terroristas da bomba e da poesia são jóvens que mal saíram da infância. O “Cantos de Maldonor” é patético pois encarna as contradições de um coração de criança em luta contra si mesmo. De igual maneira que o Rimbauld das “Iluminações”, o poeta prefere ficar com o apocalipse  e a destruição a aceitar as regras impossíveis, que fazem o homem ser o que é, num mundo como ele é. Ao recuar para não ter que dizer contra o que se revolta, ele antecipa o eterno álibe do revoltado: o amor pela humanidade.

Isto sempre se repete. Aquele que se apresenta para defender o homem diz: “Apresente-me um homem bom”. Esse movimento perpétuo é o da revolta niilista. Revoltamo-nos contra a injustiça feita a nós mesmos e à humanidade. Maldonor destrona Deus e é o Maldito: “Os olhos não devem testemunhar a feiúra do ser supremo, com seu sorrizo de ódio”. Torturado pelo orgulho, este herói tem todas as ilusões dos dandis metafísicos. Como o revoltado romântico, sem esperança na justiça divina, tomará o caminho do mal.”Fazer sofrer e sofrer”, os Cantos são uma liturgia do mal. A liberdade total, a do crime em particular, implica a destruição das fronteiras humanas. É preciso fazer o reino humano remontar ao nível dos instintos. Esse retorno ao elementar. Em seu poema todas as suas figuras são anfíbias, pois Maldonor recusa a terra e suas limitações, compondo um bestiário a la Ovídeo com suas “Metamorfoses”. A cópula de Maldonor com um tubarão e a sua transformação em polvo para enfrentar o criador, são evasões para além das fronteiras do ser e um atentado contra a natureza. Os “Cantos” são como a confissão de um Stravoguin.

O conformismo é uma tentação niilista que domina grande parte de nossa história intelectual. De toda forma ela REALÇA COMO O REVOLTADO QUE PASSA À AÇÃO, QUANDO SE ESQUECE DAS SUAS ORIGENS DE REVOLTADO, SENDO TENTADO AO MAIOR DOS CONFORMISMOS. A revolta tem seus dandis e serviçais, mas não reconhece neles seus filhos legítimos, são  apenas bastardos.

SURREALISMO E REVOLUÇÃO

Rimbaud- Uma Estada no Inferno- e Iluminações, transformam-no no poeta da revolta, o maior de todos e são a marca de seu gênio. Revolta absoluta, insubmissão total, sabotagem como princípio, humor e culto absurdos, o surrealismo define-se como processo de tudo, a ser sempre recomeçado. A recusa de todas as determinações é nítida, provocadora. “Somos especialistas da revolta”. O surrealismo se forjou primeiro no dadaísmo: “O que é bom, belo, feio, não sei…”Estes niilistas de salão estavam,  evidentemente, ameaçados de agirem como escravos de ortodoxias mais rígidas. Breton resume: “devemos deixar nisso toda a esperança?” O espírito não consegue fixar-se nem na vida nem no além. O surrealismo é um grito do espírito que se volta contra si mesmo, decido a esmagar os obstáculos. Ele é a impaciência, vive num certo estado de raiva ferida. Também numa intransigência orgulhosa, que pressupõe seja uma moral, o seu evangelho da desordem.

Os surrealistas ao mesmo tempo que exaltavam a inocência humana também acreditavam poder exaltar o assassinato e o suicídio. Breton afirmou em 1933: “o ato surrealista mais simples consiste em descer à rua e atirar a esmo na multidão”.  Isto é coerente para quem só se rende ao primado do inconsciente. O essencial é que os obstáculos sejam negados e que o irracional triunfe. Se pensou apenas em destruir, no processo do mundo real, o surrealismo adentrou no processo de criação. Trata-se sempre de um amor sem objeto, que é o das almas torturadas. Breton ainda diz que “para os surrealistas, a violência é a única forma adequada de expressão”. Os surrealistas passaram de Helvetius a Marx, mas Breton abandona o marxismo, pois ao contrário de tudo o que pregava, não queria morrer. Para os surrealistas, a revolução não era um fim que se realiza no dia a dia, na ação, apenas um mito consolador e absoluto. Queriam a revolução e o amor, o que são coisas incompatíveis, pois o revolucionário ama um homem que ainda não existe. Os marxistas legitimam sua revolução pela necessidade de criar uma outra situação histórica; Breton usava a revolução para consumar a tragédia, a serviço do surrealismo. O marxismo exigia a totalidade e como o racional basta para conquistar o mundo, pode exigir a submissão do irracional. O surrealismo tende ao universal, a unidade da vida, fusão do sonho e realidade, dentro de seu ideal: irracionalidade concreta, o acaso objetivo.

O principal inimigo do surrealismo é o racionalismo; o princípio da analogia é sempre preferido, em detrimento dos de identidade e contradição. Se o surrealismo não mudou o mundo, forneceu-lhe mitos estranhos, que em parte justificam Nietzsche quando predizia o retorno dos gregos. Mas a Grécia das sombras, dos mistérios e dos deuses negros. Enquanto Nietzsche bridava o meio-dia, os surrealistas saudavam a meia-noite no culto angustiado da tempestade.

NIILISMO E HISTÓRIA

Cento e cincoenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram retornar o mesmo rosto devastado, mesmo com disfarces, o do protesto humano. Aqueles que recusaram qualquer regra para o mundo que criaram, a não ser o do desejo e da força, correram para o suicídio, para a loucura ou para o apocalipse. Os que ousaram criar suas próprias regras pelas suas forças, escolheram a vã ostentação, a aparência ou a banalidade, ou o assassinato e a destruição. Mas Sade e os româticos, Karamasov ou Nietzsche só entraram no mundo da morte por desejarem a verdadeira vida. Por um efeito inverso, é o apelo desesperado à ordem, à regra, à moral que ressoa nesse universo demente. Suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que rejeitaram o fardo da revolta, em que fugiram da tensão que ela pressupõe, escolhendo o conforto da tirania ou da servidão.

O revoltado não exige a vida, mas as razões da vida. Ele rejeita as consequências que a morte traz, pois se nada perdura tão pouco nada se justifica, aquilo que morre fica privado de sentido. Lutar contra a morte equivale a reinvindicar o sentido da vida, a lutar pela ordem e pela unidade. O protesto contra o mal que está no âmago da revolta metafísica, é significativo. Revoltante não é o sofrimento da criança, mas que ele não seja justificado. Não é a revolta em si mesma que é nobre, mas o que ela exige, mesmo se o que dela se obtém é ainda ignóbil. Toda vez que ela aceita cegamente aquilo que existe ou que ela o nega cegamente, ela desemboca em assassinatos e perde o direito de ser chamada de revolta.

Não são a revolta e sua nobreza que iluminam atualmente o mundo, mas sim, o niilismo. Se o século XIX foi o da revolta, o XX é o da justiça e moral, em que cada um bate no peito. O revoltado só queria, a princípio, conquistar o seu próprio ser e mantê-lo diante de Deus. Mas ele esquece as suas origens e, pela lei do imperialismo individual, ei-lo em marcha para o império do mundo, através de crimes multiplicados ao infinito.

 

III- A revolta histórica

“A liberdade, esse terrível nome, está escrito nas carruagens das tempestades.” Ela está no princípio das revoluções, pois sem ela, a justiça parece inconcebível para os revolucionários. Mas chega um tempo em que a justiça exigirá a supressão da liberdade. O terror, maior ou menor, vem coroar as revoluções. Na verdade, a revolta é apenas a sequencia lógica da revolta metafísica e nós descobriremos, na análise do movimento revolucionário, o mesmo esforço sanguináreo  e desesperado para afirmar o homem diante daquilo que o nega. Ao recusar Deus, ele escolhe a História , por uma lógica aparentemente inevitável. Enquanto a revolta é somente o movimento que leva da experiência individual à ideia, a revolução parte da ideia e a insere na experiência histórica. A revolução tenta modelar o ato segundo uma ideia, de moldar o mundo num arcabouço teórico. Por isso a revolta mata homens e a revolução, homens e princípios.

Proudhon: “Implica contradição o fato de que o governo possa alguma vez ser considerado revolucionário, pela razão muito simples de que é governo.” Um governo só pode ser revolucionário contra outros  governos; para tanto eles precisam ficar permanentemente em guerra. Quanto mais ampla a revolução, maior o comprometimento de guerra que ela implica. Os revolucionários agem como se acreditassem no fim da história ( a sociedade sem classes, e como a história é a “história da luta de classes”, o fim da história). No séc. XX, “Os Demônios” entram em cena pela primeira vez e ilustram um dos segredos da época: a identidade da razão e da vontade de poder.

O ESCRAVO X O SENHOR- A revolta de Espártaco, algumas décadas antes da era cristã, é exemplar. De início é uma revolta de gladiadores, de condenados ao deleite dos senhores a matar e a serem mortos. A revolta começa com 70 homens e termina com um exército de 70 mil insurretos, que esmagam as maiores legiões romanas e ameaçam avançar sobre Roma. Mas a reinvindicação de Espártaco era apenas de “direitos iguais”. O insubmisso rejeita a servidão e afirma-se igual ao senhor. Quer, por sua vez, ser senhor. O exército de submisssos liberta seus iguais e transforma em servidores a seus antigos senhores. Mas PARA FAZER COM QUE UM PRINCÍPIO VENÇA, OUTRO PRINCÍPIO DEVE SER DERRUBADO. A cidade do sol com que sonhava Espártaco só poderia ser erguida sob as ruínas de Roma. Mas destruída Roma o que colocar no lugar? O exército chega às portas da Cidade Eterna e recua. Bate em retirada sem haver combatido. Retornam à sua origem, à Sicília. Começa a sua derrota e o martírio. Antes da última batalha Espártaco manda crucificar um romano para mostrar o que esperava para quem se entregasse. Espártaco tenta alcançar Crasso, quer morrer no combate homem a homem, como um símbolo. Mas o general romano está longe, pois os princípios combatem à distância e Espartaco morrerá às mãos de mercenários, escravos como eles  e que matam a sua própria liberdade, juntamente com o revoltado. Por um único crucificado, Crasso crucificará 6 mil na estrada de Cápua a Roma. Esse é o ágio de sangue dos dominadores. Em 1793, terminam os tempos de revolta e começam , sob um cadafalso, os tempos revolucionários.

OS REGICIDAS

1789 é o ponto de partida dos tempos modernos. Antes os regidas matavam os reis, mas não atingiam o princípio da realeza, apenas queriam novos reis ou nada. Para que 1789 se tornasse possível foi necessário que a Igreja Católica, ao lado dos senhores, assumisse a tarefa de inflingir torturas e assassinatos na Inquisição. A monarquia do antigo regime, por ser de origem divina era arbitrária em seus princípios. Em princípio o povo poderia recorrer ao rei ou ao czar contra os poderosos, em busca de justiça.  Quando o pensamento liberal coloca Deus em questão, a justiça deixa de submeter-se à graça e confunde-se com igualdade. Opor-se ao rei e ao “direito natural”,  forçá-lo a negociar, já é destruir o poder divino( 1789/1792).

 O Contrato Social é em primeiro lugar uma pesquisa sobre a legitimidade do poder; ele dá uma explicação dogmática à nova religião cujo deus é a razão confundida com a própria natureza, e cujo representante na terra, em lugar do rei , é o povo considerado em sua vontade geral. O poder busca sua base, não no arbítrio mas no consentimento geral. Existe a criação de uma mística. “Cada um de nós coloca a sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral”. “Sob a lei da razão, nada se faz sem causa”. A vontade geral é coercitiva e seu poder não tem limites. Mas o castigo que se imporá a quem resistir não é mais que uma forma de forçá-lo a ser livre. A deificação se completa quando Rousseau, separando o soberano de suas próprias origens, chega a distinguir a vontade geral da de todos.  Se o homem é naturalmente bom, se nele a natureza se identifica com a razão, ele irá exprimir a excelência da razão desde apenas que se expresse livre e naturalmente. A vontade geral é em primeiro lugar a expressão da vontade universal, que é categórica: nasceu um novo deus!

O Contrato Social termina com a descrição de uma religião civil e faz de Rousseau um percursor das sociedades contemporâneas, que excluem não só a oposição mas até a neutralidade. “É necessário para não ser vítima de um assassino, que aceitemos morrer, caso nos tornemos assassinos”. Isto irá explicar o silêncio de Saint-Just perante o cadafalso, assim como os acusados entusiastas dos julgamentos stalinistas e dos “escrachados” da Revolução Cultural.

Em 1789, um povo admirável derruba Versailles, o cadafalso, a Bastilha, altares de religião e da injustiça. Mas chegará o momento em que a nova fé, ao se tornar dogmática erigirá seus próprios altares e exigirá adoração incondicional. Ressulgem os cadafalsos e apesar dos altares, da liberdade, das festas da Razão, as missas da nova fé exigirão sangue. Para marcar a chegada de Nosso Senhor Gênero Humano é necessário o assassinato do rei-padre: ele sancionará a nova era.

A EXECUÇÃO DO REI

Saint-Just instituiu na história as ideias de Rousseau.”O espírito com que julgarmos o Rei será o mesmo com que estaleceremos a República”. O adolescente, para provar que o povo em si mesmo é a verdade eterna , é preciso mostrar que a realeza é em si mesmo o crime eterno. A vontade geral é onipotente, mas quem irá representá-la? A Assembléia, uma nova divindade em concílio. Mesmo que todos perdoassem ao rei, a vontade geral não poderia fazê-lo. O próprio povo não poderia apagar o crime de tirania. Já não se trata de Direito, mas de Teologia. Com a morte do rei, mata-se o representante de Deus na terra e ela é dessacralizada.

A RELIGIÃO DA VIRTUDE

Se o povo é livre, ele é infalível. Morto o rei ele irá ser transformado em oráculo que deve ser consultado para saber o que a ordem eterna do mundo exige. Os princípios eternos que marcarão nossa conduta: Verdade, Justiça, Razão. Eis o novo deus, que não é mais que o antigo desencarnado, um balão no céu dos grandes pricípios. Na verdade é um deus bem fraco e por isso Rousseau achava que os ateus deveriam ser condenados à morte. Ora, para adorar por muito tempo um teorema, não basta a fé, é preciso a polícia. Saint-Just: “O coração caminha da natureza para a violência e da violência para a moral. A moral é apenas uma natureza recuperada após séculos de alienação. Se derem aos homens apenas leis segundo a natureza e o seu coração, ele deixará de ser infeliz e corrupto. Nosso objetivo é criar uma ordem de coisas tal que se estabeleça uma tendência geral para o bem. O povo faz a revolução, o legislador, a república. As instituições vão reger as vidas sem contradições por que todos, ao obedecerem as leis não estarão obedecendo senão a si mesmos.” E’A POLÍTICA ROMANA, formal e legalista.

Saint-Just ainda abolia a carne e sonhava com uma nação vegetariana e revolucionária. “O mundo está vazio desde a época dos romanos”. A Revolução Francesa inaugura a época da Moral Formal moderna. O que é a virtude? É viver em conformidade com a natureza e com a lei. Toda desobediência à lei ocorre por uma falta de virtude do cidadão refratário. Toda corrupção política é moral e vice-versa. Saint-Just era honesto no seu desejo de idílio universal; desde o início da revolução ele e Robespierre eram contra a pena de morte, mas impunham que os assassinos se vestissem de preto por toda a vida. Desejava uma justiça que não buscasse culpados, mas fracos!!! Sonhava também com uma república do perdão. “É  uma coisa terrível atormentar o povo”.

Mas a partir do momento em que as leis não fazem reinar a concórdia, em que a unidade a ser criada pelos pricípios é destruída, quem é o responsável? As facções! Todas as facções serão combatidas. “É a virtude ou o Terror”. Torna-se preciso endurecer a liberdade e a Convenção menciona a pena de morte. É a república do perdão conduzindo à guilhotina. Montequieu já dissera que o abuso de poder é maior quando as leis não o preveêm. A lei pura de Saint-Just não havia contado com que a lei, em sua essência, é fadada à transgressão.

O TERROR

Saint-Just é o oposto de Sade: para este “abram as prisões ou provem suas virtudes”, para o convencional: “provem suas virtudes ou entrem nas prisões”. “Os princípios devem ser moderados, as leis, implacáveis; as penas , irreversíveis.” É o estilo guilhotina: “Patriota é todo aquele que apóia a república no geral; quem quer que a combata no detalhe é traidor”. Quem a critica é traidor e quem não apóia ostensivamente a república, um suspeito. O cadafalso depurará a república, eliminando as fraudes que vêm contradizer a vontage geral e a razão. Marat, o amigo do povo, o filantropo, calculou em 273.000 mil  o número de cabeças que deveriam rolar. “Marquem-lhes com ferro em brasa, cortem-lhes os polegares, arranquem-lhes a língua”. Mas não misturemos a figura grandiosa de Saint- Just ao macaco de imitação de Rousseau, chamado Marat.

“Uma tempestade como a nossa não é um processo, mas uma tempestade sobre os maus”. O bem que fulmina, a inocência a fazer o raio, dele o justiceiro. Passará a usar o rigor da revolução para os que “confundem prazer com felicidade”. Em 1794 ele não amava o “poder cruel e mal”, que marchava para a opressão. “Aqueles que fazem as revoluções do mundo, aqueles que fazem o bem,  só podem  dormir no túmulo.” Saint- Just ainda foi clarividente : “A revolução está paralizada, todos os princípios enfraquecidos, só restam os barretes vermelhos usados para a entriga.” Todos os crimes decorriam da tirania e diante da obstinação do crime, a própria  Revolução recorria à tirania e tornava-se criminosa. “Não haveria muito a perder abandonando uma vida na qual se precisaria ser cúmplice ou testemunha do mal”. “Todas as pedras são talhadas para o edifício da liberdade; você pode construir-lhe um templo ou um túmulo”. Eram os próprios princípios do Contrato Social que presidiriam a constução do túmulo que Napoleão irá lacrar.

A lei pode efetivamente reinar desde que seja a lei da Razão universal. Mas ela não o é nunca, e sua justificação se perde se o homem não for realmente bom. Chega o dia em que a ideologia entra em choque com a psicologia. O poder legítimo deixa de existir, a lei evolui até se confundir com o legislador. A lei continua a reinar mas não possui limites fixos. Saint- Just previra:”O crime hábil erigir-se-ia em uma espécie de religião e os bandidos estariam na arca sagrada.” O terrorismo individual ou o de Estado, ambos são justificados pela ausência de justificação, desde o momento em que a revolta é cortada de suas raízes e privada de qualquer moral concreta.

A burguesia reinou sobre o século XIX apoiando-se em princípios abstratos, mas, menos digna que Saint-Just, ela usou esse apoio como álibi, praticando os valores ao contrário. Por sua corrupção essencial e sua desanimadora hipocrisia, ela ajudou a desacreditar de modo definitivo os princípios que proclamava. A razão irá apoiar-se no sucesso e se tornará conquistadora.  A revolução jacobina que tentava instituir a religião da virtude, afim de nela criar a unidade, será sucedida por revoluções cínicas, quer de direita, quer de “esquerda”, fundando a religião dos homens. Tudo o que era de Deus será dado a César.

OS DEICÍDIOS

O pensamento alemão acabou por substuir a razão universal, porém abstrata, por uma razão menos artificial, porém mais ambígua- o universal concreto. A razão se incorpora ao fluxo dos acontecimentos históricos, que ela explica, ao mesmo tempo em que estes lhe dão um corpo. Hegel racionalizou até o irracional. De repente, a verdade, a razão e a justiça encarnaram-se no devir do mundo. De referência, tornavam-se finalidade. Para alcançá-los, a vida e a história. A ação é apenas um cálculo em função dos resultados e não dos princípios, confundindo-se com um movimento perpétuo. Os filósofos da dialética incessante substituiram os harmônicos e estéreis construtores da razão.

O homem não é uma criatura terminada, pode ser construído; Hegel, filósofo napoleônico, leva à descoberta pelo homem do espaço e do futuro. Hegel quiz ser o espírito da reconciliação. Na medida em que o que é real é racional, ele justifica todas as iniciativas do ideólogo em relação ao real. Mas ele busca tudo reconciliar na dialética, e não se pode colocar um extremo sem colocar-se o outro. De Hegel, os revolucionários do sec. XX tiraram o arsenal que destruiu totalmente os princípios vitais da vitude; preservaram a visão de uma história sem transcendência, resumida à contestação perpétua e à luta entre as vontades do poder.

Sob o seu aspecto crítico, o movimento revolucionário de nosso tempo é em primeiro lugar uma denúncia violenta da hipocrisia formal que preside à sociedade burguesa. A denúncia desmistifica os princípios e virtudes burguesas. Nada é puro e este grito ecoa no século. Para Hegel, a ideologia do bem, da verdade, da beleza é a religião daqueles que não têm religião. Portanto, ninguém é virtuoso- ao contrário do que acreditava o jacobinismo- mas o será. Para ele, o mundo de hoje só pode ser um mundo de senhores e escravos; o vencedor sempre terá a razão. A Femenologia do Espírito mostra as etapas dolorosas , mas o desespero e a morte devem ser transfigurado na satisfação e sabedoria absoluta. O animal tem a consciência imediata do mundo exterior, mas não a consciência de si mesmo, o que distingue o homem. A auto-consciência é desejo; mas consumir não é ainda estar consciente. É preciso que o desejo da consciência se dirija a alguma coisa que não seja a natureza inconsciente. Logo o homem não é reconhecido e não se reconhece como homem  enquanto se limitar a subsistir como animal. Toda consciência aspira ser reconhecida e saudada como tal por outras consciências. Logo são os outros que nos engendram. Para ser reconhecido pelos outros, ele deve estar pronto a arriscar a vida e aceitar a oportunidade da morte. As relações humanas são de puro prestígio, tipo “kalos kaghatos”, prenunciando novos gregos.

O fim da história ocorrerá quando todos forem reconhecidos por todos. Mas para Hegel, parte das consciências abrem mão de seu reconhecimento e não ocorrerá o aniquilamento geral, e aquele que renuncia à vida independente, será o escravo. A reconhecida, a do senhor. Mas o escravo não está ligado à sua condição. Ele quer mudá-la. Pode, portanto, educar-se e com seus esforços obter a liberdade real. De agora em diante, o escravo sabe que a totalidade existe; resta-lhe conquistá-la através de uma série de lutas contra a natureza e os senhores.  A história identifica-se com a história do trabalho e da revolta. O marxismo-leninismo tirou desta dialética o conceito do soldado-operário. Quando estes erigirem um Estado, o espírito do mundo estará refletido em si mesmo e todos se reconhecerão como iguais. A cidade humana coincidirá com a de Deus; a história universal, tribunal do mundo, proferirá a sua sentença na qual o mal e o bem estarão justificados. O Estado desempenhará o papel de Destino.

Toda moral se torna provisória e o valor é adiado para o final da história. Os movimentos políticos ou ideológicos inspirados por Hegel reunem-se todos no abandono ostensivo da virtude. O homem e a história só podem ser construídos pelo sacrifício e pelo assassinato. Todo idealismo é vão se o preço não for a o risco da própria vida. Mas Hegel a propugnava do alto da cátedra e os jovens morriam em meios às bombas ou na forca.

Feuerbach dizia que “O mistério de Deus é apenas o mistério do amor do homem por si próprio.” Só existe um inferno e ele é deste mundo e contra ele há que se lutar. O ateísmo e o espírito revolucionário serão as duas faces de um mesmo movimento de libertação. “Quando a miséria tiver acabado, quando as contradições históricas estiverem resolvidas, o verdadeiro deus, o deus humano, será o Estado”.”A verdadeira filosofia é a negação da filosofia.”

O cinismo, a deificação da história e da matéria, o terror individual e o crime de Estado, todas nascerão de uma concepção equivocada do mundo,que remete unicamente à história o cuidado de produzir os valores e a verdade. Se nada pode ser entendido claramente até o fim dos tempos, então toda ação é arbitrária e a força acaba reinando. É com Hegel que toda uma filosofia do conformismo e do oportunismo é gerada, quando a verdadeira revolta nem é colocada em causa; justamente esta filosofia irá embasar o pensamento revolucionário do séc.XX. Hegel, o filósofo da batalha de Iena, acreditara em 1807, que com Napoleão a história havia se estabilizado e que o niilismo fora vencido.

O TERRORISMO INDIVIDUAL

Psarev, teórico do niilismo russo, constata que os maiores fanáticos são os jóvens; isto tambem é válido com relação às nações. No sec. XIX  a Russia era jóvem, extraída para o mundo moderno a fórceps por Pedro , o Grander; ela levou ao extremo dos sacrifícios e destruição a ideologia alemã que fora radical apenas no pensamento. Stendhal sentia que nos alemães, a meditação ao contrário de acalmá-los, exaltava-os. O mesmo sucede com os russos. Neste país um “proletariado de colegiais” liderou um movimento pela emancipação do homem. Toda a história do terrorismo russo pode ser resumida à luta de um punhado de intelectuais contra a tirania, diante de um povo silencioso. A quase totalidade deles pagou sua revolta com o suicídio, a execução, a prisão ou a loucura.

Na década de 20, surgem os dezembristas, os primeiros revolucionários russos, fidalgos investidos das virtudes jacobinistas, que desejavam libertar o povo. Possuiam o sentimento, tal qual Bakunin em 1905, de que o sofrimento era regenerador. Seu chefe, Prestel dizia: “Sabemos que vamos morrer, mas de uma bela morte”, uma espécie de “kalos thanatói” dos heróis gregos. Em 1825 os canhões destroçaram suas tropas. Eles não foram eficazes no que desejavam, mas foram exemplares em suas ações e consequências.

Hegel era a inspiração destes revoltados. Stankevitcht dizia”O mundo é regido pelo espírito da razão, isso me tranquiliza quanto a tudo o resto”. Bielinski é a figura mais interessante da transição entre os dezembristas e os “nadistas”de 1860. Começa hegleliano até compreender que o que queria não era o absoluto da razão, mas a plenitude da existência. Deseja a imortalidade do homem como um todo e não a imortalidade da espécie tornada Espírito. O indivíduo ao não aceitar a história tal como ela ocorre, tirará as conclusões do individualismo revoltado: “Meus heróis são os destruidores do antigo: Lutero, Voltaire, os enciclopedistas, os terroristas, Byron em Caim.” Voltamos a nos encontrar com os temas da revolta metafísica.

É verdade que a tradição francesa do socilaismo individualista continuava viva, pois Saint-Simon, Fourier, Proudhon inspirariam o pensamento de Herzen e, mais tarde, o de Lavrov.

O termo niilismo foi inventado pelo russo Turgueniev, no romance “Pais e Filhos”, centrado no personagem Bazakov: “Nada temos para nos vangloriarmos, a não ser a estéril consciência de compreender, até certo ponto, à esterilidade daquilo que existe. E a isso chamam niilismo”. O único valor reside no egoísmo racional. Pisarev declara guerra à filosofia, à arte, à moral mentirosa, à religião e até mesmo aos costumes e à polidez. Ele constrói a teoria de um terrorismo intelectual que faz pensar nos futuros surrealistas.

Neste estágio a doutrina tinha um ar de religião e fanatismo. O niilismo é um obscurantismo racionalista. Eles não acreditavam em nada , a não ser na razão e no interesse. Mas em vez do ceticismo e do cinismo escolhem o apostolado e tornam-se socialistas. Pisarev que não se negava a matar a própria mãe “se fosse necessário”, é preso, enlouquece, suicida-se quando velho; este miserável e sofredor teve por grandeza iluminar um pouco a história.

Bakunin morreu em 1876, às vésperas da epopéia terrorista; aliás rejeitou os atentados individuais, mas respeitava-os, tanto que acusou Herzen de haver criticado o atentado ao czar Alexandre II, em 1866. Confessa-se, quando jóvem, estar embebido de Hegel, “até a loucura”. Já nos anos 40, rejeita a ideologia alemã e se aproxima do socialismo e do anarquismo francês. A história só é regida por dois princípios, o Estado e a revolução social, a revolução e a contra-revolução, que estão empenhados em luta mortal. O Estado, para Bakunin é o crime. A revolução quer o bem. “O mal é a revolta satânica contra a autoridade divina, revolta na qual vemos ao contrário, o germe profíquo de todas as emancipações humanas.” “A paixão pela destruição é a paixão criadora”. Ele foi o único de seu tempo a criticar o governo dos sábios; contra toda a abstração ele defendeu a causa do homem completo, totalmente identificado com a sua revolta. “Um mundo novo, sem leis e, consquentemente, livre”. Apesar de ser contra o socialismo autoritário, ele vê a Rússia liberada por um “forte poder ditatorial”.

Aquele que rejeita todo o passado, sem dele preservar nada daquilo que poderia servir para revigorar a revolução, está condenado a só encontrar justificativa no futuro, enquanto espera a polícia justificar o provisório. Bakunin escreveu com Nechaiev “O Catecismo do Revolucionário”, na Suíça. Nechaiev dizia ser necessário”unir-se ao mundo selvagem dos bandidos, este verdadeiro e único ambiente revolucionário da Rússia”. Que a religião seria a política e a política, uma religião. Para ele “tudo era permitido”, pois ”o revolucionário é um homem condenado antecipadamente. Ele não deve ter relações românticas, nem coisas ou seres amados. Ele deve despojar-se até de seu nome. Nele tudo deve se concentrar em uma única paixão: a revolução.” Com  Nechaiev, pela primeira vez, a revolução irá separar-se do amor e da amizade. Para ele, toda violência estava voltada para os inimigos, em favor da comunidade dos oprimidos. Mas se a revolução é o único valor, a violência estará voltada contra todos, em favor de uma ideia abstrata.

Encarregado por Bakunin, Nechaiev regressa à Russia e forma a Sociedade do Machado, à qual todos deveriam jurar fidelidade absoluta. Ele mentirá ao se auto-intitular delegado de um Comitê Central inexistente e irá, para atrair seguidores, descrever o mesmo como portador de recursos ilimitados. Definirá os revolucionários como chefes e os outros como “capital que se pode despender”. Ele decide que se pode chantagear ou aterrorizar os céticos e enganar os confiantes. Pois “o aumento do sofrimento e da miséria das massas apressará o futuro da libertação”.  Tentou aplicar os seus próprios princípios ao assassinar o estudante Ivanov, por vacilação revolucionária, em uma emboscada. Dostoievski fez dele um de seus temas de “Os Demônios”. Nechaiev justifica seu assassinato: ”Não se trata de ter o direito ou não de matá-lo, mas nosso dever de eliminar tudo o que possa prejudicar a causa.” Quando a revolução é o único valor, não há mais direitos; na verdade, só deveres. Depois do assassinato deixa a Rússia, mas ele será abandonado por um Bakunin a quem o ato repugna ”ele se convencera que para o corpo, só a violência; para a alma, a mentira, o mesmo sistema dos jesuítas”. Extraditado para a Rússia, Nechaiev é condenado a 25 anos de prisão, organiza os carcereiros em uma sociedade secreta, planeja a morte do czar e após 12 anos de reclusão, é executado.

OS ASSASSINOS ESPECIAIS

1878- É o ano do nascimento do terrorismo russo. Parcela da intectualidade, aqueles que fundaram a “ Vontade do Povo”, havia ido ao campo para pregar aos camponeses. No dia 24 de janeiro, dia seguinte ao julgamento de 93 populistas, Vera Zassulitch mata o general Trepov, governador de Petersburgo. Absolvida pelos jurados ela foge da polícia do czar. Este tiro de revolver desencadeia ações repressivas e atentados que só se esgotarão por exaustão.  Na Europa, o imperador da Alemanha, o rei da Itália, e o da Espanha sofrerão atentados. “Morte por Morte”, proclama Kravchinski. Ainda em 1878, Alexandre II cria a Okhrana, a mais eficaz arma do terrorismo de Estado russo. Em 1881, o próprio Alexandre II é assassinado pela Vontade do Povo. Sofia Perovskaia, Jeliabov e seus amigos são enforcados. Em 1883, atentado contra o imperador da Alemanha cujo assassino foi morto a machadadas. Em 1887, execução dos mártires de Chicago. A década de 90 leva ao assassinato do presidente francês Carnot. Só no ano de 1892 contam-se mais de mil atentados a dinamite na Europa e mais de 500 na América. Em 1898, o assassinato de Elizabeth, imperatriz da Áustria. Em 1901, o de Mac Kinley, presidente dos U.S.A. Em 1903 forma-se a Organização de Combate do Partido Socialista Revolucionário Russo e os assassinatos de Plehve e grão-duque Sérgio encerrarão a idade dos mártires, em 1905.

O niilismo termina assim no terrorismo. No universo da negação total, pelas bombas, revolveres e pela coragem com que caminhavam para o suplício, esses jovens tentavam criar os valores que lhes faltavam. Os homens até aqui morriam em nome do que sabiam ou do que pensavam saber. Mas todos, desafiando seus juízes, entregavam-se à justiça daqueles homens que ainda estavam por vir. O futuro constituirá a única transcendência dos homens após a morte de Deus. Mas este momento também será o último em que o espírito de revolta se encontrará com o de compaixão.

O poeta Kaliaiev é o símbolo deste movimento desesperado. A clandestinidade obriga-o viver na solidão e ele é enfocado aos 26 anos de idade. “No que me diz respeito, a condição indispensável à felicidade é preservar para sempre a consciência de minha perfeita solidariedade com vocês”, escreve a seus companheiros de cárcere. Kaliaiev estará sempre pronto a sacrificar a vida, aliás até o desejava. O primeiro atentado ao grão-duque falhou pois o mesmo Kaliaiev se negara a matar as crianças que o acompanham. Savinkov se opôs a um atentado contra o almirante Dubassov, pelo risco de morte de inocentes, no vagão que deveria ser dinamitado. Preso, poderia ter fugido da prisão, mas negou-se a atirar contra os guardas do presídio.

Um esquecimento tão grande de si mesmos, aliado a uma preocupação tão profunda com a vida dos outros, permite supor que esses assassinos delicados viveram o destino revoltado na sua condição mais extrema. Mesmo reconhecendo o caráter inevitável da violência, admitiam que ela era injustificada. Necessário, mas indesculpável: o assassinato. Logo, o assassinato identificou-se com o suicídio. Estamos ainda diante de um conceito, senão religioso, ainda metafísico da revolta. Depois virão outros homens que, animados pela mesma fé devoradora, irão,  no entanto, considerar esses métodos sentimentais, recusando-se a admitir que qualquer vida equivale a outra. Colocarão acima da vida humana uma ideia abstrata,  mesmo que a chamem de história, à qual, antecipadamente submissos, irão arbitrariamente utilizar  para subjulgar os outros.

Mas, ainda em 1905, é o amor que cada terrorista tem pelo outro que lhes traz felicidade até no deserto da prisão, que se estende à imensa massa de seus irmãos escravizados e silenciosos, a que nos dá a medida de seu infortúnio e de sua esperança. Para servir a esse amor precisam primeiro matar; para firmar o reinado da inocência, precisam aceitar certa culpabilidade. Solidão e fidalguia, desamparo e esperança só serão superados pela livre aceitação da morte. Aquele que mata só é culpado se consente em continuar vivendo ou, se para continuar vivendo, trair seus irmãos. Kaliaiev após condenado disse: ”Considero minha morte como um protesto supremo contra um mundo de lágrimas e sangue”. Através de seus atos esses terroristas, ao mesmo tempo em que afirmam o mundo dos homens, colocam-se acima deste mundo, demonstrando que a verdadeira revolta é criadora de valores. Kaliaiev e seus irmãos triunfam sobre o niilismo e são a imagem mais pura da revolta.

O CHIGALEVISMO

Tkachev, irmão espiritual de Nechaiev, faria a transição do niilismo para o socialismo militar; ele propõe os “segredo rigoros, escolha minuciosa dos membros e formação de revolucionários profissionais”, que deverão depois serem incorporados por Lênin. Tkachev pretendia criar o jacobinismo russo, descartando todo princípio e virtudes; inimigo da arte e da moral, , tem como objetivo realizar a igualdade humana pela tomada do Estado. O socialismo cesariano irá condenar o terrorismo individual na medida em que ele faz reviver valores incompatíveis com o predomínio da razão da história. Mas restituirá o terrorismo de Estado, tendo como única justificativa a construção da humanidade, enfim, dividida.

Em “Os Demônios”, Verkhovenski, o niilista, reclama o direito à desonra. Espírito infeliz e implacável, “ele concebia o homem à sua maneira, e depois nunca mais desistia da ideia”, escolheu a vontade de poder, a única que pode reinar sobre uma história sem a significação que não seja dela mesma. Chigaliev, o filantropo  de Dostoievski, será sua caução; de agora em diante, o amor pela humanidade justificará a escravização do homem. Louco pela igualdade ele conclui: ”Partindo da liberdade ilimitada, chego ao despotismo ilimitado.” ”Um décimo da humanidade terá direito à personalidade e exercerá autoridade ilimitada sobre os outros nove décimos. Estes perderão sua personalidade, tornando-se espécie de rebanho, .. onde deverão trabalhar.”

É o governos dos filósofos, mas filósofos que não creem em nada. O reino chegou, mas ele nega a revolta, pois trata-se do reino dos Cristos violentos. Os novos senhores e os grandes inquisidores reinam hoje sobre uma parte da história, utilizando-se da revolta dos oprimidos.

O TERRORISMO DE ESTADO E O TERROR IRRACIONAL

Todas as revoluções modernas resultaram em um fortalecimento do Estado. 1789: Napoleão; 1848: Napoleão III; 1917: Stalin; revoltas na Itália, 1920: Mussolini; república de Weimar e penúria e humiliação de um povo: Hitler; 1950: Castros; 1964 a 1990: Ditaduras Latinoamericanas. Seria errado dizer que isto não poderia deixar de acontecer, mas pode-se ver por que aconteceram.

 O sonho profético de Marx e as poderosas antecipações de Nietzsche e Hegel acabaram suscitando, depois que a cidade de Deus foi arrasada, um Estado racional ou irracional, mas sempre terrorista. Mussolini e Hitler resolveram deificar o irracional, em vez de divinizarem a razão. Ao fazerem isto, renunciaram ao universal. Nietzsche por um lado e Hegel por outro, preconizaram um Estado em que nada tinha sentido e que a história nada mais era do que o acaso da força.

Em 1914, Mussolini anunciava a “santa revolução da anarquia”, declarando-se inimigo de todos os cristianismos.O deus de Hitler era um deus de comício, mistura de Walhala e Deus cristão. Os homens de ação, quando não têm fé só creem no movimento da ação.

O paradoxo insustentável de Hitler foi querer fundar uma ordem estável baseada em movimento perpétuo de negação. A revolução hitlerista era dinamismo puro. A Alemanha de 1933 aceitou os valores degradados de alguns homens, que lograram impor-los a uma nação. Privada da moral de Goethe, ela escolheu e sofreu a moral da gangue. E a moral da gangue é triunfo e vingança, derrota e ressentimento, inesgotavelmente. Ao exaltarem as forças elementares do indivíduo, exaltavam as forças obscuras do instinto  e do sangue, naquilo que o instinto de dominação produz do pior. Hitler jamais poderia prescindir de inimigos; dandis ferrenhos, só poderiam ser definidos em relação a esses inimigos, só poderiam assumir suas formas no combate alucinado que os iria abter. A verdadeira lógica desse dinamismo era a derrota total ou, de conquista em conquista, de inimigo em inimigo vencido, o estabelecimento do Império do sangue e da ação em todo o mundo. Junger, seu único filósofo, teve a visão de um Império anti-cristão, cujos fiéis e soldados fossem os próprios operários, pois o operário é um ser universal, onde o contrato social é substituído pela voz de comando.

O Estado perpetua seus inimigos e perpetua o terror. A conquista para o interior baseia-se em propaganda ou repressão, e, para o exterior, a guerra. Os intermediários políticos, que em todas as sociedades são a salvaguarda da liberdade, desparecem, dando lugar a um Jeová de botas, que reina sobre multidões silenciosas ou que gritam palavras de ordem. Não se interpõe entre o chefe e o povo um organismo de intermediação, mas justamente o aparelho, o Partido Nazista, que é opressor.

O facismo e o nazismo são o desprezo, a morte da liberdade, o domínio da violência e a escravização do espírito. Junger tirava de si próprio “que é melhor ser um assassino que um burguês”. Hitler sabia que não fazia diferença ser um ou outro, desde que se acreditasse só no sucesso. “Quando a raça corre o risco de ser oprimida a questão da legalidade tem um papel secundário. Se a raça tem que ser sempre ameaçada para existir, nunca há legalidade.” Hitler, no passado, Bush ainda ontem, dizia antes da guerra que aos vencedores não se pergunta se tinham ou não falado a verdade. Goering diz de seu banco dos réus em Nuremberg que “o vencedor será sempre o juiz e o vencido, o réu”.

A lei militar pune com a morte a desobediência, e sua honra é  a servidão. Quando todos são militares, o crime é não matar se a ordem assim o exigir. A ordem jamais exige que se pratique o bem. A doutrina somente busca a eficácia. Se o homem for membro do Partido não passa de um elemento a serviço do chefe ; se for inimigo é produto de consumo. A propaganda e a tortura são os meios diretos de desintegração; para os “convertidos” ainda a degradação sistemática , o amálgama com o criminoso cínico, a cumplicidade forçada. O poder de matar e de aviltar salva a alma servil do nada. A liberdade alemã é então cantada ao som da orquestra de prisioneiros nos campos de morte.

Os crimes hitleristas não tinham equivalência na história porque até então, meados do século XX, nenhuma doutrina de destruição total jamais tInha sido capaz de apoderar-se das alavancas de comando de uma nação civilizada. Mas muitas outras nações civilizadas apreenderiam com os carrascos alemães e reproduziriam de forma parcial a destruição em massa em guerras de dominação neo-coloniais como as do Vietnã, da África e do  Oriente Médio. Imporiam ditaduras militares nos países da América Latina que, por algum tempo, adotariam os deuses da tortura e do aniquilamento de opositores revoltados e, mesmo, de simples resistentes à degradação sistemática da doutrina da eficácia.

O TERRORISMO DE ESTADO E O ESTADO RACIONAL

Marx a partir da acumulação primitiva do capital da Inglaterra, realizou uma impressionante análise do capitalismo primitivo. Quanto ao socialismo, só podia tirar lições contraditórias a partir da experiência francesa e falar dele no futuro, de forma abstrata. Por isso misturou o método crítico mais válido com o messianismo utópico de suas previsões. A doutrina do “Manifesto Comunista” não é mais rigorosamente exata vinte anos após, quando surge “O Capital”, que , aliás, ficou incompleto, dada a nova realidade da Rússia que Marx sempre desprezara até então. Desde sua morte, poucos marxistas mantiveram-se fiéis a seu método analítico mas apoderaram-se da profecia e de seus aspectos apocalípticos, para realizarem uma revolução marxista nas exatas circunstâncias em que ele previra que ela não poderia se produzir.  

O marxismo e o cristianismo, em contraposição às concepções do mundo antigo, possuem similariedades  impressionantes.  Diz Jaspers:”É um pensamento cristão considerar a história dos homens como estritamente singular”. Uma história com princípio e um fim, quando o homem ganhará a salvação ou o castigo. Os gregos concebiam o mundo como cíclico. O cristianismo introduziu no mundo antigo duas noções jamais associadas até então: as da história e do castigo. Pela idéia da mediação, quando se flexibliza, o cristianismo é grego. Pela historicidade é judaico e voltará a ser encontrado na ideologia alemã. Tanto os cristãos como os marxistas acham que a natureza deve ser dominada, enquanto para os gregos, obedecida. O amor pelo cosmos é desconhecido dos primeiros cristãos que ansiavam pelo fim dos tempos. Com a inquisição a Igreja volta a separar-se do mundo e da beleza, devolvendo à história a sua primazia sobre a natureza. Ainda Jaspers: “É a atitude cristã que pouco a pouco esvazia o mundo de sua substância…já que esta residia em um conjunto de símbolos.” O belo equilíbrio entre o humano e a natureza foi esfacelado em benefício da história pelo cristianismo.

A partir do momento em que a divindade de Cristo é negada, em que graças à ideologia alemã ele já não mais simboliza o homem-deus, desaparece a noção de mediação e um mundo judaico é ressucitado. O deus implacável dos exércitos é ressucitado, toda beleza é insultada  como fonte de prazeres ociosos, a própria natureza é escravizada. Deste ponto de vista Marx é o Jeremias do deus histórico e o Santo Agostinho da revolução.

Joseph de Maistre, reacionário, refuta o jacobinismo e o calvinismo, em nome de uma filosofia cristã da história. Imagina uma Jerusalém ao mesmo tempo terrestre e celestial “onde todos os habitantes, permeados pelo mesmo espírito, permear-se-ão mutuamente e uns refletirão a felicidade dos outros”. “Aniquilado o mal, não haverá mais paixão e nem interesse pessoal”. Na cidade do conhecimento absoluto, Hegel reconciliava também as contradições. Marx anunciava à sociedade humana do ” fim da querela entre essência e existência, entre liberdade e necessidade”. Maistre no seu reacionarismo enuncia ”herege é que tem ideias pessoais”, dando a formatação do mais novo dos conformismos.

Marx realizou o elogio mais eloquente do capitalismo e só é anticapitalista na medida em que crê que ele prescreveu seu tempo na Terra.”A crítica da religião termina na doutrina de que o homem é para o homem o ser supremo”. Para Marx as leis da história refletem a realidade material, para Maister, a divina. A eternidade os separa no princípio, mas a historicidade acaba reunindo-os numa conclusão realista. Maistre odiava a grécia”’Existe uma fábula, uma loucura, ou um vício que não tenha um nome grego ou uma máscara grega?” Marx via a Grécia como “a infância da humanidade”.

O messianismo político de Marx é de origem burguesa: o progresso, o futuro da ciência, o culto à tecnica e à produção são mitos burgueses que se transformam em dogmas. O Futuro da Ciência de Renan é editado no mesmo ano do Manifesto. Havia uma esperança quase mística na própria sociedade burguesa, a grande beneficiária do progresso tecnológico. O cartesianismo instituiu a ideia de uma ciência sempre crescente. Sorel dizia que a filosofia do progresso era aquela que convinha a uma sociedade ávida em desfrutar a propiedade material devida aos progressos tecnicos. O Progresso, um cheque para o futuro, pode servir para justificar o conservadorismo. Chegou-se até a falar em progresso das artes!!!!

Ao escravo, aquele cujo presente é miserável, e que não tem nenhum consolo no céu, assegura-se que o futuro a ele pertencerá, “a Terra será o paraíso de toda humanidade”. Não nos esqueçamos de que o futuro é a única espécie de propriedade que os senhores de todas as cores concedem de bom grado aos escravos.

Auguste Comte, com a lei dos três estágios, aproxima-se do socialismo científico: substituir em tudo o absoluto pelo relativo. Ele via no culto do jacobinismo uma antecipação do culto da Razão; afastava Deus em nome da religião e tentou substituir o catolicismo de Roma pelo de Paris, sendo ele mesmo o próprio Papa. Marx não leu Comte, mas foi um de seus profetas. Se Marx compreendeu que uma religião sem transcendência chamava-se política,  Comte não o ignorava e via no realismo político a negação dos direitos individuais e o estabelecimento do despotismo. A visão de Comte é utópica, pois convencido do poder luminoso da ciência, esqueceu-se de prever uma polícia para dele tomar conta.

Marx em vez de ser um precursor, é herdeiro. A essência de sua teoria do valor ele trouxe de Ricardo; sua doutrina que ele considerava realista, realmente o era há 150 anos atrás, no tempo da religião da ciência, do evolucionismo darwinista, da máquina a vapor e da indústria textil. Hoje, tempos da relatividade, da informática, da comunicação imediata via satélite, da energia atômica, da degradação do meio ambiente que pode tornar inviável a vida sobre o planeta, transformaram em verdades velhas aquelas que  um dia já foram científicas. Após  quase dois séculos o que resta delas? o método? qual? o da dialética, que aproxima o inaproximável?

A PROFECIA REVOLUCIONÁRIA

Já que toda realidade humana encontra sua origem nas relações de produção, o devir histórico é revolucionário porque a economia o é. Em cada nível de produção, a economia suscita os antagonismos que destroem, em benefício de um nível superior de produção, a sociedade correspondente. O capitalismo é o último estágio de produção, porque produz as condições em que todo antagonismo será resolvido e em que não haverá mais economia política. Neste dia, nossa história tornar-se-á pré-história.

A dialética é considerada sob o nível do espírito. O próprio Marx, entretanto,  jamais falou em materialismo dialético; seus herdeiros produziram esta monstruosidade lógica. Mas ele diz que a realidade é dialética e que é econômica. Toda coisa é ela própria e o seu contrário; esta contradição, ao “resolver-se” a obriga a tornar-se em outra coisa. O capitalismo, por ser burguês revela-se revolucionário, abrindo caminho para o comunismo. Marx nega o Espírito de Hegel e firma o materialismo histórico. Mas a história destingue-se da natureza pelos meios da vontade, da ciência e da paixão. Marx não é um materialista puro, pois não existe nem o materialismo puro nem absoluto.”Para mim, o movimento do pensamento não é mais que um reflexo do movimento real, transportado e transposto para o cérebro do homem.” Para ele o homem é só história, e, particularmente, história dos meios de produção. Eo determinismo? Ele também puro é outro absurdo.

Mas situar a origem do homem na determinação econômica é limitar o homem a suas relações sociais. Então o “homem é autor e ator de sua própria história”. Ao precipitar a razão na história  ela, que era reguladora, passa a ser conquistadora. O Capital retoma a dialética do domínio e da servidão, substituindo a consciência de si pela autonomia econômica, o reino final do Espirito absoluto hegleliano pelo comunismo. “O ateísmo é o humanismo intermediado pela supressão da religião; o comunismo é o humanismo intermediado pela supressão da propriedade privada.” A alienação religiosa tem mesma origem que a alienação econômica. Só se acaba com a religião realizando a liberdade absoluta do homem quanto a suas determinações materiais.

O capitalismo tende a concentrar-se apenas nas mãos de alguns senhores, que pelas contradições do sistema, já não conseguem assegurar nem a subsistência de seus escravos. Finamente chegará o dia em que um exército de oprimidos se encontrará frente a um punhado de senhores indignos.”A derrota da burguesia e a vitória do proletariado são inevitáveis”. Parece que no auge do desenvolvimento das forças produtivas basta um empurrão para que o proletariado se veja de posse dos meios de produção. O resultado necessário do capitalismo privado é uma espécie de capitalismo de Estado que, em seguida, basta ser colocado a serviço da coletividade para que capital e trabalho, agora produzam um meio de abundância e justiça. “Por si mesmas as bases da revolução burguesas são revolucionárias”. “Os proletários devem e podem aceitar a revolução burguesa como pré condição da revolução proletária.”

Marx foi o profeta da produção, que jamais deixou de defender Ricardo. O progresso que deixará de ser torturante após o apocalipse industrial, quando chegar o dia da reconciliação. O proletariado aí usará a sua riqueza para o bem universal, pois ele não mais é o particular (o capital) , mas o universal. “Só os proletários totalmente excluídos dessa afirmação de sua personalidade são capazes de realizar sua completa auto-afirmação. Por suas dores humanas ele será o Cristo a resgatar o pecado coletivo da alienação.” A ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária”. “O juiz é a história , o executor da sentença, o proletariado”.

Disse Lenin, em 1905:”É um pensamento reacionário buscar a salvação da classe operária em algo que não o desenvolvimento maciço do capitalismo.” Marx observou que a sociedade era “historicamente obrigada a passar pela ditadura do proletariado”. Mas ele tambem condenou o Estado dizendo que sua existência e servidão são inseparáveis. Protestou, entretanto, contra a observação de Bakunin de que qualquer  noção de ditadura provisória seria contrária ao caráter humano. Marx achava a dialética superior à psicologia: “a abolição do Estado só faz sentido para os comunistas, como resultado da supressão das classes”, quando  o “governo das pessoas dará lugar à administração das coisas”. Mas com o desaparecimento da classe burguesa, o proletário estabelece o reino do homem universal no apogeu da produção, pela própria lógica do processo produtivo. “O comunismo como apropriação real da essência humana pelo homem para o homem…por ser um naturalismo acabado, coincide com o humanismo: ele é o fim da querela entre o homem e a natureza, e entre o homem e o homem… entre a essência e a existência, entre a liberdade e a necessidade, entre o indivíduo e a espécie.” ”Ele (o comunismo) resolve o mistério da história e sabe o que faz.”

A  exigência ética é a base do sonho marxista e sua verdadeira grandeza. Ela colocou o trabalho, sua degradação injusta e sua dignidade profunda no centro da reflexão. Rebelou-se contra a redução do trabalho a uma mercadoria e do trabalhador a um objeto. Lembrou aos privilegiados que seus privilégios não eram divinos, nem a propriedade direito eterno. Denunciou uma classe cujo crime não é tanto ter tido o poder, quanto tê-lo utilizado para os fins de uma sociedade medíocre e sem verdadeira nobreza. Ao exigir para os trabalhadores a verdadeira riqueza, que não é a do dinheiro, mas a do lazer ou da criação, ele reinvindicou a qualidade do homem. “Um fim que tem necessidade de meios injustos não é um fim justo”.

Com Marx se reproduz a tragédia de Nietzsche. A ambição, a profecia, são generosas , universais;  Marx acreditou que os fins históricos se revelariam morais e racionais. Nisto reside sua utopia, mas a utopia teve como destino servir ao cinismo, o que ele jamais desejou. A reinvindicação de justiça leva à injustiça se não estiver baseada numa justificação ética de justiça. Sem isso, o crime um dia torna-se dever. Quem decidirá quanto à oportunidade senão o oportunista?

O MALOGRO DA PROFESSIA

1. A revolução que começa pela Rússia é sufocada na Alemanha, na Itália e a Greve Geral da França fracassa, tudo isto em 1917. A revolução russa caminhará só.

2. Capital e proletariado foram infiéis à previsão de Marx. O capital aprendeu os segredos do planejamento e as crises rarearam, a partir do Estado-Maloch; as sociedades anônimas abriram o capital das empresas, criando, ao invés de concentrar certa disseminação de pequenos acionistas; as pequenas empresas faliaram, mas as grandes fizeram proliferar milhares de pequenas manufaturas periféricas.

3. A questão camponesa que jamais tratada por Marx, acaba redundando em uma luta entre cidade e campo no socialismo real.

4. A questão das nacionalidades falou muito mais alto que qualquer solidariedade do proletariado de diversos países. Ele se tornou tão importante quanto a luta de classes.

5. O proletariado não se alinhou, pois as condições miseráveis dos operários ingleses, longe de generalizar-se e agravar-se sofreu enorme melhoria em seus padrões.

6. O proletariado dempregado da Alemanha(35%) ao invés de alinhar-se à revolução foi a massa de manobra de Hitler. Ou seja, a extrema miséria é fonte de servidão, não de revolução.

7. A classe operária não aumentou indefinidamente; o que  cresceu enormemente foi a classe média, criando até uma categoria privilegiada, a dos tecnocratas, e outra, a dos serviços.

8. O desenvolvimento tecnológico complicou o ideal do engenheiro-proletário, do operário-camponês. Um único homem não pode compreender a totalidade de seus princípios e aplicações.

9. Marx dizia que divisão de trabalho e propriedade privada são as mesmas coisas. A vontade marxista de abolir a degradante oposição entre trabalho intelectual e manual se demonstrou totalmente inviável.

10. A propriedade coletiva é tudo, menos justiça.

A classe burguesa aviltou-se por uma febre de produção e de poderio material . A própria organização dessa febre não poderia criar elites. Só o sindicalismo revolucionário, com Pellutier e Sorel tomou esse rumo e quis criar, pela educação profissional e pela cultura, os quadros pelos quais um mundo sem honra clamava e ainda clama. Os socialistas autoritários achavam que a história caminhava muito lenta  e que era necessário entregar a missão a um punhado de doutrinadores. Mas para que isto frutifique é necessário correr um risco e confiar na liberdade e na espontaniedade dos operários. Pela conjugação destes dois fatores, durante 150 anos, com excessão da Comuna de Paris, o proletariado não teve outra missão histórica do que ser traído. Os proletários lutaram e morreram para dar o poder a militares ou a intelectuais, futuros militares, que por sua vez, os escravizaram.

As  sociedades dos domadores de máquinas, pela concorrência e dominação, podem dividir-se em blocos inimigos, mas que no plano econômico estão sujeitas à mesmas leis: acumulação de capital, produção racionalizada e incessantemente aumentada. O imperativo da produtividade os domina e os colocam num mesmo mundo, onde a primeira é um fim em si mesma. Se para Marx, o capitalismo é opressor em função da acumulação, o novo sistema percebe que a acumulação está ligada à tecnologia, e toda coletividade em luta precisa acumular em vez de distribuir rendas. Burguesa ou socialista, ela adia para mais tarde a justiça, em benefício apenas do poder. A vontade de poder, a luta niilista pela dominação fizeram mais que banir a utopia marxista. Ela reduziu-se a um meio cinicamente manipulado para os fins mais banais e sanguinários.  O desenvolvimento ininterrupto da produção não destruiu o sistema capitalista em benefício da revolução. Destruiu igualmente a sociedade burguesa e  a sociedade revolucionária em benefício de um ídolo que tem o focinho do poder.

O socialismo nunca foi científico, mas um método ambíguo que se mostrava ao mesmo tempo determinista e profético, dialético e dogmático. Ele, como método, tem no máximo, preconceitos científicos. A razão histórica jamais foi uma razão, pois ela conduz o mundo ao mesmo tempo em que pretende julgá-lo. Ela é uma razão irracional e romântica que lembra a sistematização do obsecado ou a afirmação mística do verbo divino.

O desaparecimento final da economia política , tema favorito de Marx e de Engels, significa o fim de todo o sofrimento. A economia coincide com o sofrimento e desgraça da história , que com ela desaparecem. Estamos no Éden. A cidade definitiva.

Os termos antagônicos de uma situação histórica podem negar-se um ao outro, depois se superarem numa síntese. Mas não há razão alguma para crer que esta síntese seja superior às primeiras. Ora, a dialética nem é, nem pode ser revolucionária; ela é somente niilista, puro movimento intelectual que visa negar tudo o que não for ele mesmo. O fim da história não é um valor de exemplo e aperfeiçoamento. É um princípio arbitrário e terrorista.  Marx anunciara que todas as revoluções haviam, antes da sua, falhado. O frenesi histórico chama-se poder.  A vontade de poder veio ocupar o lugar da vontade de justiça, fingindo inicialmente identificar-se com ela , relegando-a depois para algum lugar no fim da história quando tudo já houver sido conquistado.

O REINO DOS FINS

Marx não imaginava apoteose tão apavorante, nem Lenin. Marx, bom estrategista e filósofo medíocre, colocou primeiramente a questão da tomada do poder. Lenin nada tem a ver com os jacobinos que acreditavam nos princípios e na virtude- e que morreram por isto. Lenin acreditava na revolução e na eficácia. Ambos, com Hegel, juntam-se contra a moral formal. Lenin lutou todo o tempo contra as formas sentimentais de moral revolucionária. Ele nega a espontaniedade das massas, pois a doutrina socialista supõe uma base científica que só os intelectuais podem aportar. Quando diz que é preciso apagar qualquer distinção entre o intelectual e o operário, é preciso traduzir: pode-se não ser proletário e conhecer melhor que os mesmos os seus interesses. A revolução antes de ser econômica ou sentimental, ou mesmo política, é militar.

Heine já chamava os socialistas de novos puritanos. Lenin prega o asceticismo do revolucionário profissional. A partir do momento da tomada do poder, de Lenin a Stalin, a luta irá resumir-se entre a luta entre a democracia operária e a ditadura militar e burocrática; ou melhor, entre a justiça e a eficácia. Do reino da massa, da noção de revolução proletária, passa-se primeiro à ideia da revolução feita e dirigida por agentes profissionais. A crítica impiedosa do Estado concilia-se com a necessária , mas provisória, ditadura do proletariado exercida na pessoa de seus líderes. Por fim anuncia-se que não se pode prever o término deste Estado provisório e que além do mais ninguém  prometera um término. Depois disso, a autonomia dos soviets tem que ser combatida, Makhno é traído e os marinheiros do cruzador Kronstadt são esmagados.

É certo que Lenin acreditava que um dia o Estado iniciaria a sua deterioração, mas nisso ele foi superado. Sob a pressão dos diversos imperialismos adversos, Lenin quer o imperio da justiça, mas seu objetivo será o Império do mundo. Por uma justiça longínqua, aceita-se a injustiça, a mentira e o crime pela promessa do milagre. A mistificação pseudo-revolucionária tem sua fórmula: é preciso matar toda a liberdade para conquistar o Império, e ele um dia, será o da Liberdade. O caminho da unidade passa pela Totalidade.

TOTALIDADE E JULGAMENTO

Renunciar a todo o valor é o mesmo que renunciar à revolta para aceitar o Império e a escravidão. Explica-se o milagre dialético, a transformação da quantidade em qualidade: toma-se a decisão de chamar a servidão total de liberdade. Não há nenhuma transformação objetiva, mas apenas mudança subjetiva de denominação. Corre-se para a permanência no Partido, como antes se corria para o altar. Por isso, a época que se costuma dizer a mais revoltada, só oferece uma escolha: conformismos, e a verdadeira paixão do século XX é a servidão. O Império é ao mesmo tempo guerra, obscurantismo e tirania, afirmando que será fraternidade, verdade e liberdade no futuro. A partir de determinado momento, muda-se a história do passado, Lenin passou a ser censurado, Marx deixa de ser publicado ( seus últimos tomos desaparecem em Moscou). Novo obscurantismo religioso. Fabrica-se uma verdade que nada mais é que ilusão. Uma revolução condenada, a fim de perdurar, a negar sua vocação universal ou a renunciar a si mesma para ser universal, vive sob falsos princípios.

Se não há natureza humana, a maleabilidade do homem, é infinita.  O realismo político neste nível não é mais que um romantismo desenfreado, um romantismo da eficácia. O marxismo russo rejeita o irracional mas serve-se dele. O irracional pode servir ao Império, mas ele também tem como recusá-lo. Afinal, ele foge do cálculo e só o cálculo deve comandar.

Pode-se subjulgar um homem vivo, reduzindo-o à condição histórica da coisa. Mas se morre recusando, então, ele reafirma uma natureza humana que rejeita a ordem das coisas. É por isso que, nos julgamentos do stalinismo, o acusado só é produzido e morto diante do mundo se consentir em dizer que sua morte será justa e de acordo com o Império das coisas. É preciso morrer desonrado ou não existir mais, nem na vida, nem na morte. Neste caso, não se morre, apenas se desaparece. Mas o condenado não é castigado, ele é recolocado na totalidade, transformado em engrenagem de produção; o sistema de concentração dos campos de reeducação russo efetivou dialeticamente a passagem do governo das pessoas à administração das coisas, mas confundindo as pessoas e as coisas. Aquele que ama a mulher ou o amigo quer amá-lo no presente e a revolução só quer amar um homem que ainda não surgiu. No Império das coisas, os homens se unem pela delação, a cidade que se queria fraternal torna-se um formigueiro de homens sós.

O diálogo, relação entre pessoas, foi substituído pela propaganda ou pela polêmica, que são dois tipos de monólogos. No capitalismo, o homem que se diz neutro , é considerado objetivamente, favorável ao regime. No Império, o neutro é considerado hostil.

REVOLTA E REVOLUÇÃO

Escolher a história, e apenas ela, é escolher o niilismo contra os ensinamentos da própria revolta. Aqueles que a ela se lançam pregando o irracional, bradando que ela não tem nenhum sentido, encontram a servidão e o terror dos campos de concentraçao. O facismo quer instaurar o advento do super-homem e descobre que se Deus existe , ele é o senhor da morte.

Já a lógica da história, a partir que ela é aceita totalmente, leva o homem a mutilar-se em crime objetivo. Este visa libertar todos os homens escravizando-os temporariamente. Obedecendo ao niilismo, a revolução voltou-se objetivamente contra suas origens revoltadas, mas não há pensamento absolutamente niilista a não ser no suicídio, assim como não há materialismo absoluto. Aqueles que recusam o sofrimento de existir e de morrer querem dominar. O terror é a homenagem que solitários rancorosos acabam rendendo à fraternidade dos homens.

Maistre já falava do “sermão terrível que a revolução pregava para os reis”. Ela o prega atualmente às elites desonradas desta época. Em toda a palavra, em todo ato, jaz um valor que precisamos buscar e revelar. Não se pode prever o futuro e pode ser que o RENASCIMENTO seja impossível. Mas é preciso apostar nele!

Nossos existencialistas dizem que HÁ PROGRESSO AO PASSAR DA REVOLTA À REVOLUÇÃO E QUE O REVOLTADO NADA MAIS É QUE UM REVOLUCIONÁRIO. Mas a contradição é mais restrita. O REVOLUCIONÁRIO OU É REVOLTADO OU NÃO É MAIS REVOLUCIONÁRIO, mas sim policial ou burocrata que se volta contra a revolta. Mas se ele é revoltado, termina por se insurgir contra a revolução, de tal forma que todo revolucionário termina como opressor ou herege. No universo puramente histórico que escolheram, eles desembocam num mesmo dilema: polícia ou loucura.

A história necessária, não suficiente, não passa de uma causa ocasional. Ela não é ausência de valor, nem o próprio valor, nem mesmo o material de valor. A revolta no homem é a recusa de ser tratado como coisa e de ser reduzido à simples história. ELA É A AFIRMAÇÃO DA NATUREZA COMUM A TODOS OS HOMENS, QUE ESCAPA AO MUNDO DO PODER. O homem em sua revolta coloca um limite à história e aí nasce a promessa de um valor. Ela é ao mesmo tempo sim e não; a revolta recusa uma parte da existência em nome de outra parte que ela exalta. E reinvindicação da revolta é a UNIDADE. Da revolução, a TOTALIDADE. Uma é criadora, a outra, niilista. A primeira é fadada a criar a fim de existir cada vez mais; a segunda é forçada a produzir para negar cada vez melhor. A revolução para ser criadora não se pode privar de uma regra, moral ou metafísica, que equilibre o delírio histórico. Sem dúvida seu desprezo é justificado pela moral formal e mistificadora da sociedade burguesa. Mas sua loucura foi extender este desprezo a toda reinvindicação moral.

EU ME REVOLTO, LOGO EXISTIMOS.

 

IV- Revolta e arte

“Nenhum artista tolera o real”, Nietzsche. Mas tão pouco pode prescindir dele. A criação é exigência de unidade e recusa do mundo. Todos os reformadores revolucionários mostraram-se hostis perante a arte: Platão é moderado, só questiona a mentira da liguagem e exila de sua república os poetas. De resto colocou a beleza acima do mundo. A Reforma elege a moral e exila a beleza. Rousseau denuncia na arte uma corrupção que o homem teria acrescentado à natureza. Saint-Just investe contra os espetáculos e na festa que faz pela Razão, quer que ela seja personificada por alguém mais virtuoso que belo. A Revolução Francesa não criou artistas: um jornalista- Desmoulins- e um escritor clandestino, Sade. A ”Arte para o Progresso”, desde Saint-Simon, percorre todo o século e Victor Hugo a retoma sem convencer.

Quanto aos niilistas russos, Pisarev proclama a decadência dos valores estéticos em favor dos pragmáticos. “Eu preferia ser um sapateiro russo a um Rafael russo”. O niilista Nekrassov, grande poeta, diz que prefere um pedaço de queijo a todo Pushkin. A Rússia revolucionária deu as costas às esculturas de Vênus a de Apolo trazidas por Pedro, o Grande. Às vezes a miséria desvia o rosto das dolorosas imagens da felicidade. Mao Tsé Tung e a Revolução Cultural proibiram Balzac, Mozart, Beethoven por conspurcarem o espírito proletário; elegeram comos “pharmakóns”, destinados em praça pública a serem execrados antes de sua expulsão para os campos de “reeducação” ou o fuzilamento, atores, poetas e espíritos livres.

A arte não é de todos os tempos, dirá Marx, representando o interesse das classes dominantes. Para ele só há uma arte revolucionária: aquela colocada a serviço da revolução. Criando a beleza fora da história, a arte contraria o único esforço racional: a transformação da história em beleza absoluta. Rafael só criou uma beleza passageira, que será incompreensível para o homem novo. Marx ainda se pergunta como a beleza grega ainda possa ser bela para nós. E encontra uma saída: essa beleza expressa  a infância ingênua do mundo, e nós, os revolucionários, por alguma espécie de inconsciente coletivo, sentimos saudades da infância.

Os artistas de esquerda dos anos cincoenta a setenta, possuiam a consciência pesada. Mas a última coisa que um artista pode sentir de sua obra é o arrependimento. Ela reflete a luta no plano estético entre a revolta e a revolução. Em toda revolta se descobre a exigência metafísica da unidade, a impossibilidade de apoderar-se dela  e a fabricação de um universo de substituição. A revolta, de tal ponto de vista, é fabricante de universos, e isto DEFINE A ARTE. A bem dizer, a exigência da revolta é, em parte, uma exigência estética.Criam-se em mundos fechados, onde o homem pode afinal reinar e conhecer. Eis o movimento de todas as artes, quando o artista refaz o mundo por sua conta e as sinfonias da natureza não conhecem pauta. “Cada vez acredito mais que Deus não pode ser julgado neste mundo. É um estudo mal acabado dele”- van Gogh. E todo artista tenta refazer este estudo, dando o estilo que lhe falta.

A escultura, em sua grandeza, procura o gesto, o semblante, o olhar vazio que irá resumir todos os gestos e olhares do mundo. Seu propósito não é imitar, mas estilizar, e capturar em uma expressão significativa o êxtase passageiro dos corpos ou o redemoinho infinito das altitudes.

O princípio da pintura acha-se também numa escolha. “O próprio gênio, refletindo sobre sua arte, não é mais que o dom de generalizar e escolher”, diz Delacroix. O pintor isola seu tema e é esta a primeira atitude para unificá-lo. Ele isola no tempo e no espaço aquilo que normalmente muda com a luz, perde-se numa perspectiva infinita ou desaparece sob o impacto de outros valores. O primeiro ato do paisagista é emoldurar a sua tela, quando ele tanto escolhe como elimina. Do mesmo modo o pintor temático, que isola tanto do tempo quanto do espaço a ação que se perderia. Então o pintor procede à fixação. Os grandes pintores são aqueles que dão a impressão de que esta fixação acaba de ser realizada; os personagens pelo milagre da arte continuam vivos, deixando de ser mortais. Rembrandt, continua a meditar entre a luz e a sombra , mesmo alguns séculos após a sua morte.

A arte realiza, sem esforço aparente, a reconciliação sonhada por Hegel, do singular com o universal. Mas a revolta do artista contra o real, e ela torna-se suspeita para a revolução totalitária, contém a mesma revolta espontânea do oprimido. O homem pode permitir-se a denúncia da injustiça total do mundo e reivindicar uma justiça total que ele será o único a criar. Mas ele não pode afirmar a feiura total do mundo. Para criar a beleza ele deve ao mesmo tempo recusar o real e axaltar alguns de seus aspectos. A arte contesta o real, mas não se esquiva dele. O romance se propõe precisamente a entrar no devir para provê-lo do estilo que lhe falta.

ROMANCE E REVOLTA

Assim como a literatura de consentimento coincide com os séculos antigos e clássicos, a literatura de dissidência começa nos tempos modernos. Os primeiros, como Astraia, são novelas e não romances. Já o romance não parou de enriquecer-se até os nossos dias, paralelamente ao movimento crítico e revolucionário, pois ele nasce ao mesmo tempo que o espírito de revolta  e traduz, no plano estético, a mesma ambição.Thibaudet dizia a respeito da Comédia Humana de Balzac: “é a imitação de deus pai”.

Do que se procura fugir através do romance? Da realidade que pesa? Mas o extremo sofrimento tira o gosto pela leitura. Mas por que tio Adolphe, de Proust, nos parece um personagem tão familiar e o conde Mosca sthendaliano melhor que nossos moralistas profissionais? O homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele. A atividade romanesca pressupõe certa espécie de recusa do real, mas esta recusa não é simples fuga. Segundo Hegel, “a bela alma que se retirando, cria para si própria em sua ilusão, um mundo factício onde só a moral reina”. Entender a própria vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia: seria uma imagem que reconciliaria o homem consigo mesmo.

Mas também existe a inveja que tantos homens sentem em relação à vida de outros. Olhando-as de for a, eles emprestam-se a essas existências uma coerência e uma unidade que elas estão longe de ter. Os invejosos só vêm o contorno dessas vidas, sem tomar conhecimento dos detalhes que as corroem. De uma maneira elementar, nós as romanceamos.

Mas uma manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade. Que o desejo de posse não é mais que uma outra forma do desejo de durar; ele constitui o delírio impotente do amor, pois nenhum ser jamais fica em nosso poder. Mas o desejo de posse é a tal ponto insaciável que pode sobreviver ao próprio amor. Teria um autor levado este desejo de posse tão longe quanto Proust? Amar, então, é esterizilar a pessoa amada. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou esterilidade ou morte. Esta é uma revolta verdadeira.

Mas os seres escapam sempre e nós lhes escapamos também; eles não têm contorno bem delineado. A vida, deste ponto de vista, é sem estilo. Ela não é senão um movimento em busca de sua forma, sem jamais lograr encontrá-la. O homem, assim dilacerado, persegue em vão esta forma que lhe daria os limites e ele com ele se reconcialiaria! Não existe aquele que não se esgote buscando formas ou atitudes que dariam a sua existência a unidade que lhe falta.

Não basta viver, é preciso um destino e sem esperar pela morte. O homem tem ideia de um mundo melhor que este, um mundo não diferente, mas unificado. Que é o romance senão este universo em que a ação encontra sua forma, em que as palavras finais são pronunciadas, os seres entregues aos seres, em que toda a vida passa a ter a cara do destino? Ainda quando a história só exprima nostalgia, desespero e o inacabado, ela não deixa de criar a forma e a salvação. Dar o nome ao próprio desespero é superá-lo. Mas trata-se sempre do mesmo mundo; o sofrimento, a mentira, o amor, os ódios são os mesmos, os heróis têm nossa linguagem, nossos defeitos e forças. A diferença é que eles perseguem até o fim o seu destino: Kirilov e Stravoguin, Julien Sorel ou o príncesa de Clèves ( Madame Lafayet não entrou para um convento e ninguém morreu de amor por ela, esta é a diferença, mas tão pouco alguém duvida que a escritora tenha vivido momentos dilacerantes de amor? ). Eles terminam aquilo que nós, mortais, nunca consumamos.

“Só as mulheres de grande caráter me podem fazer feliz”, obriga Casimir de Stendhal, a confessar o seu amor. O romance fabrica o destino sob medida; assim faz concorrência à criação e provisoriamente vence a morte.

O ROMANCE AMERICANO (trata-se do romance dos anos 30 a 40 e não do admirável florescimento do romance americano do sec. XIX)- Ele pretende encontrar a sua unidade reduzindo o homem quer ao elementar, quer às suas reações e a seu comportamento. Este romance recusa a análise, a busca de uma motivação psicológica fundamental que explicaria e resumiria a conduta de uma personagem; por isso a sua unidade é sempre um vislumbre de unidade. No fundo consistem em agir como se os homens fossem definidos inteiramente por automatismos cotidianos.

Por isso mesmo os homens se parecem mesmo em suas particulariedades físicas. Esta técnica é chamada de realismo por um equívoco, sendo o próprio realismo na arte algo  incompreensível, pois o mundo romanesco não busca a reprodução pura e simples da realidade, mas sim a sua estilização mais arbitrária. O romance americano nasce de uma mutilação, e de uma mutilação voluntária, efetuada sobre o real. Parece que para estes romancistas é a vida interior que priva as ações humanas da unidade e arrebata os seres, uns aos outros. Mas a revolta, a base desta arte, só pode encontrar satisfação fabricando a unidade a partir dessa realidade interior sem negá-la. Quando a negamos passamos a nos referirmos ao homem imaginário. O romance depurado da vida interior, ao colocar em tela o homem supostamente médio, acaba colocando o patológico. O inocente é o assunto ideal deste tipo de empreendimento; mas o que ele consegue é ser símbolo de um mundo desesperado, em que os autômatos infelizes vivem na coerência mais mecânica, na forma de um protesto patético, mas estéril.

MARCEL PROUST- Seu esforço foi criar, a partir da realidade observada com obstinação, um mundo fechado, insubstituível, que só pertencesse a ele e marcasse a sua vitória sobre a transitoriedade das coisas e sobre a morte. Se o mundo do romance americano é o dos homens sem memória, o mundo de Proust não é em si mesmo mais que uma memória. Trata-se da mais difícil das memórias, pois rechaça a dispersão do mundo como ele é, e que tira do cheiro de um perfume novo o segredo de um novo e de um antigo universo. Proust escolhe o mundo interior no que ele tem de mais íntimo, no lugar daquele do qual se esquece, o seja o mundo mecânico, cego. Mas a partir dessa recusa do real, ele não faz derivar a negação do real. Ele não comete o erro simétrico ao do romance americano, pois mesmo o mundo mecânico está nele inserido.

A melancolia de Proust deriva do tempo onde ele perde o direito de amar as pessoas a quem ele amara, que por sua vez, também haviam perdido o direito de serem amadas. Mas o gosto pela luz e pelos rostos o prendiam ao mundo e ele se dará ao trabalho de recriá-lo. A análise poderosa do Tempo Perdido é apenas um poderoso meio para o Tempo Reencontrado, onde Proust dará uma significação ao próprio dilaceramento. Ele extraiu da transitoriedade das formas, pelos caminhos da lembrança e inteligência, os símbolos vibrantes da unidade humana. E isto em um mundo unificado, fechado, sem arrependimentos. Ele dá à eternidade o semblante do Homem. Sua arte consiste em preferir a criatura ao criador, aliá-se à beleza do mundo ou dos seres humanos contra as forças da morte e do esquecimento. É desta forma que sua revolta é criadora.

 REVOLTA E ESTILO -Obras formais são fruto da recusa total da realidade pelo artista, e é onde encontraremos o niilismo puro. Quando, pelo contrário, a aceitação é absoluta teremos o dito realismo, quando o artista por motivos alheios à arte, resolve exaltar determinada realidade.  Nos dois casos, o ato de criação nega-se a si próprio, pois ele se renega a cada vez, pela aceitação absoluta ou pela negação absoluta. Mas a arte formal e a arte realista são noções absurdas, pois nenhuma arte pode recusar de modo absoluto o real ou incorporá-lo simplesmente.

Até o formalismo possui um limite. A pintura abstrata exige cor e luz do real. o verdadeiro formalismo é o silêncio. Assim como o realismo não pode prescindir de um mínimo de interpretação e arbítrio. A melhor das fotos possui o seu limite, pois ela nasce de uma escolha e dá um limite ao que não tem limite. O artista realista e o formalista buscam sua unidade onde ela não existe, no real em estado bruto ou na criação imaginária que acredita expulsar toda e qualquer realidade.

Ao contrário, a realidade da arte surge no fim de uma transformação que o artista impõe ao real. Esta “correção” que o artista realiza com sua linguagem, e por meio de uma redistribuição de elementos tirados do real, chama-se estilo e dá ao universo criado sua unidade e seus limites. Disse Delacroix: “a perspectiva inflexível da realidade falseia a visão dos objetos pela força da precisão, é preciso que o artista a corrija”.

O romance água-com-açucar ou o de terror, assim como o edificante e o de auto-ajuda, afastam-se da arte por afastarem-se do real. A verdadeira criação romanesca utiliza o real e só ele, com seu calor  e seu sangue, suas paixões e seus gritos. Simplesmente ela acrescenta algo que o transfigura. Já o realismo seria a enumeração infinita, com o que nos revela sua verdadeira intenção: não a unidade, mas a totalidade. Compreende-se que seja a estética oficial de uma revolução da totalidade. mas memso assim, este realismo é reducionista, pois intervém artisticamente no que não interessa à doutrina. O chamado realismo socialista acumula a vantagem do romance edificante e da literatura de propaganda. Delacroix: “para que o realismo não seja uma palavra sem sentido seria necessário que todos os homens tivessem a mesma mente, as mesmas maneiras de conceber as coisas.”

Já se o acontecimento escraviza o criador ou se o criador pretende negar o acontecimento como um todo, a criação rebaixa-se às formas degradadas da arte niilista. Isto ocorre tanto na arte quanto na civilização. Ela supõe uma tensão ininterrupta entre a forma e a matéria, o devir e a mente, a história e os valores. Se o equilíbrio se rompe, há a ditadura ou a anarquia, propaganda ou delírio formal. Em ambos os casos, a criação, que coincide com uma liberdade do raciocínio é impossível. Quer recorra ao chicote do realismo mais crú ou mais ingênuo, a arte moderna, em quase sua totalidade, é uma arte de tiranos e de escravos, não de criadores.

A obra cujo conteúdo extrapola a forma ou aquela em que a forma afoga o conteúdo, só trata de uma unidade enganada e enganadora, pois toda unidade que não é de estilo é mutilação. A estilização supõe ao mesmo tempo o real e a mente que dá ao real sua forma. Através dela o esforço criador refaz o mundo, e sempre com uma ligeira distorção, sua marca de arte e de protesto. A criação, a fecundidade da revolta estão nesta distorção que representa o estilo e o tom de uma obra.

 

V- Revolução e renascimento

O mundo inteiro dá as costas aos crimes, pois as vítimas entediam, o que é o máximo de sua desgraça. Nos tempos antigos, o sangue dos assassinatos provocava ao menos um horror sagrado, santificando o valor da vida. Chegamos ao extremo do niilismo: o assassinato cego e furioso torna-se um oásis, e o criminoso imbecil parece revigorante diante de nossos carrascos inteligentes.

Todo revoltado, só pelo movimento que o soergue diante do opressor, defende portanto, a causa da vida, comprometendo-se a lutar contra a servidão, a mentira e o terror e afirmando, com a rapidez de um raio, que estes três flagelos fazem reinar o silêncio entre os homens, obscurecendo-os uns aos outros e impedindo que se reencontrem no único valor que pode salvá-los do niilismo: a longa cumplicidade cujo limite é precisamente o poder de revolta de dos homens em conflito com seu destino. A revolta não é, de forma alguma, uma reinvindicação de liberdade total; pelo contrário, ela ataca permanentemente a libertadade total, contesta o poder ilimitado que permite ao superior violar a fronteira proibida. Longe de reinvindicar uma independência geral, o revoltado quer que se reconheça que a liberdade possui limites em qualquer lugar em que se encontre o ser humano, já que o limite é o seu poder de revolta.

Ele não humilha ninguém; a liberdade que quer é a mesma que reivindica para o outro, a que recusa, proibe-a para todos. Sua lógica profunda não é a da destruição, mas a da construção. A lógica do revoltado é querer servir à justiça a fim de não aumentar a injusta condição humana, esforçar-se no sentido de uma linguagem clara para não aumentar a mentira universal e apostar, diante do sofrimento humano, na felicidade. A consequência da revolta, pelo contrário, é recusar a legitimização do assassinato, já que, em princípio, é contra a morte. A existência que o sustém desmorona se a revolta não se sustenta.

A história das revoluções mostra que quase sempre elas entram em conflito entre a justiça e a liberdade como se elas fossem inconciliáveis. A liberdade absoluta é o direito do do mais forte dominar. Ela mantém os conflitos que beneficiam a injustiça. A justiça absoluta passa pela supressão de toda liberdade. A história em seu movimento puro, não fornece por si mesma nenhum valor. Um pensamento puramente histórico, é niilista: ele aceita todo o mal da história, opondo-se nissso, à revolta. De nada adianta afirmar a racionalidade absoluta da história; ela só se completará ao fim da história, na cidade de Deus na terra.

O cinismo como atitude política só é lógico em função do pensamento absolutista , ou por um niilismo absoluto ou por racionalismo absoluto. Todo empreendimento histórico só pode ser uma aventura mais ou menos razoável e fundada. É risco, não justificando excessos ou posições absolutistas. Se a revolta pudesse criar uma filosofia seria a dos limites, da ignorância calculada e do riso. Aquele que não pode saber tudo não pode matar tudo. O revoltado não nega a história que o cerca, nela tenta firmar-se, mas ele se vê como o artista diante do real, ele a rejeita sem dela escapar.

Em sociedade, não há justiça e nem direitos naturais e civis que a fundamentem. Não há direito sem expressão do direito. Para conquistar a existência, é preciso partir do pouco de existência que descobrimos em nós, e não negá-la desde o início. Fazer com que o direito emudeça até que a justiça seja estabelecida é emudecê-lo para sempre. É confiar a justiça aos poderosos. Mesmo quando a justiça não é realizada, a liberdade preserva o poder de protesto e salva a comunicação.

O mesmo raciocínio aplica-se à violência. A não-violência absoluta funda negativamente a servidão e suas violências; a violência sistemática destrói positivamente a comunidade viva e a existência que dela recebemos. Para serem profíquas devem encontra os seus limites. Para o revoltado deve preservar seu carater provisório de rompimento, sempre ligada, se não puder ser evitada, a uma responsabilidade pessoal, a um risco imediato. O fim justifica os meios? É possível, mas quem justificará o FIM? A revolta responde: os meios. A revolução, após 200 anos de experiências, perdeu seu prestígio de festa e muito produziu sobre o que se refletir.

Sabemos hoje que a revolução, sem outros limites, que não a eficácia histórica significa escravidão ilimitada. Para escapar a esse destino, o espírito revolucionário, se quizer continuar vivo, deve voltar a retemperar-se na revolta , inspirando-se no único pensamento fiel a essas fontes, o pensamento dos limites. As ideologias que orientaram o século XX nasceram nos tempos das grandezas científicas absolutas, hoje todas as certezas científicas são relativizadas.

Nem o real é inteiramente racional, nem o racional é totalmente real. Heráclito inventor do devir, fixava um marco para esse processo contínuo. Esse limite era a Nemisis, deusa da medida, fatal para aqueles que cometem a desmedida, incorrendo na Hybris; a revolta deve também inspirar-se nessas divindades.

Em arte, a revolução só se completa e perpetua na verdadeira criação, não na crítica ou no comentário.  A revolução, por sua vez, só pode firmar-se numa civilização, não no terror, nem na tirania.  A criação e a revolução hoje são possíveis?  A resposta é única e diz respeito ao renascimento de uma civilização.

A revolução contemporânea acredita inaugurar um novo mundo quando não é mais que o resultado contraditório do mundo antigo. A sociedade capitalista e a socialista são apenas uma, na medida em que escravizam ao mesmo meio- produção industrial- e à mesma promessa. Uma faz promessas em nome de princípios formais que ela é incapaz de gerar e que são negados pelos meios que ela emprega, a outra justifica sua professia unicamente em nome da realidade e acaba mutilando a realidade.  A sociedade de produção, do “progresso” é apenas produtiva, não criadora. O mundo de hoje é, em sua realidade uno, mas sua unidade é a do niilismo. A civilização só será possível se, ao renunciar ao niilismo dos princípios formais e ao niilismo sem princípios, o mundo reencontrar o caminho da síntese criadora.

A arte e a sociedade devem, para tanto, reecontrar a origem da revolta, na qual recusa e consentimento, singulariedade e universal, indivíduo e história se equilibram na tenção mais crítica. A revolta não é um elemento da civilização, mas ela precede toda a civilização. Diz Nietzsche: “EM VEZ DO JUIZ E DO REPRESSOR, O CRIADOR”. Toda criação nega em si mesma o mundo do senhor e dos escravos. Mas o fato de que a criação seja necessária, não quer dizer que ela seja possível. O objeto da arte estende-se da psicologia à condição humana.

Se a criação é impossível em meio a guerras e revoluções, não teremos criadores. O mito da produção indefinida traz em si a guerra, assim como a núvem, a tempestade. As oportunidades de malogro no século das destruições só podem ser compensadas pelo fator numérico, em que pelo menos um artista autêntico sobreviva, dentre centenas.

Se afinal, o mundo se curvasse à lei dos conquistadores, isso não provaria que a quantidade é soberana, e sim, que este mundo é um inferno. Mas o inferno só tem um tempo, a vida um dia recomeça. Talvez a história tenha um fim; nossa tarefa, no entanto, não é terminá-la, mas criá-la à imagem daquilo que sabemos verdadeiro. A arte nos ensina que o homem não se resume somente à história, que ele encontra também razão de ser na natureza. O grande Pã não morreu. Sua revolta mais instintiva, ao mesmo tempo em que afirma o valor e a dignidade comum a todos, reinvindica obstinadamente, para com isto satisfazer sua fome de unidade, uma parte intacta do real cujo nome é beleza. Os revoltados que querem ignorar a natureza e a beleza estão condenados a banir da história que desejam construir  a dignidade do trabalho e da existência.

Ao manter a beleza, preparamos o dia do renascimento em que a civilização colocará no centro de sua reflexão, longe dos princípios formais e valores degradados da história, essa virtude viva que fundamenta a dignidade comum do mundo e do homem, e que agora devemos definir diante de um mundo que a insulta.

Se a revolta quer uma revolução, ela a quer a favor da vida, de baixo para cima. Longe de ser romântica, ela toma o caminho do verdadeiro realismo. A Comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a absolutista, a liberdade refletida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas são as antinomias que traduzem o longo confronto entre a medida e a desmedida que anima a história do Ocidente desde o mundo antigo. A medida não é o contrário da revolta. A revolta é a medida, é ela quem a exige, quem a defende e recria através da vida e dos seus distúrbios; a medida nascida na revolta só pode ser vivida pela revolta, pois a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, no lugar da solidão. Todos carregamos nossas masmorras, nossos crimes e nossas devastações em nosso espírito. A tarefa não é soltá-los pelo mundo, mas combatê-los dentro de nós próprios e nos outros. A revolta, a secular vontade de não ceder de que falava Barrès, ainda hoje está na base desse combate. Mãe das formas, fonte da vida verdadeira, ela nos sustenta no movimento selvagem e disforme da história. Nenhuma sabedoria atualmente pode pretender dar mais. A revolta confronta incansavelmente o mal, do qual só lhe resta tirar um novo ímpeto. O homem pode dominar em si tudo aquilo que deve ser dominado. Em seu maior esforço, o homem só pode propor-se uma dimunição aritmética do sofrimento do mundo. Mas a injustiça e o sofrimento permanecerão e não deixarão de ser um escândalo. O por quê de Karamasov continuará a ecoar, a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.

Há vinte séculos, a soma total do mal não diminuiu no mundo. Nenhuma parúsia, quer divina ou revolucionária, se realizou. Aqueles que não encontram descanso nem em Deus, nem na história estão condenados a viver para aqueles que como eles não conseguem viver: os humilhados. Vale o grito de Ivan Karamasov: “se não forem salvos todos, de que serve a salvação de um só?”. A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente. A revolta é o próprio movimento da vida; por isso ela é amor e fecundidade ou ela não é nada. A revolução sem honra , que coloca o homem abstrato no lugar do de carne e osso, coloca o ressentimento no lugar do amor. A revolta quando contamina-se pelo ressentimento, deixando suas origens generosas, ela nega a vida e corre para a destruição, fazendo sublevar-se a turba de pequenos escravos que se oferecem aos mercados da servidão e do enriquecimento. Para além do niilismo, entretanto, em meio aos escombros, preparemos um renascimento. Poucos ainda sabem disso. Mas devemos aprendera viver e a morrer, para sermos homens, nos recusando o papel de deus.

Os assassinos delicados



1878- Rússia

Parcela da intelectualidade, aqueles que fundaram “A Vontade do Povo”, havia ido das cidades ao campo para pregar aos camponeses; muitos foram presos pela polícia czarista. No dia 24 de janeiro, o dia seguinte ao julgamento de noventa e três militantes presos, Vera Zassulitch mata o general Trepov, governador de Petersburgo. Não havia provas contra ela e absolvida pelos jurados, ela foge da polícia do czar. No entanto, esse tiro de revolver desencadeia uma série de ações repressivas e de atentados que só se esgotarão por exaustão. No mesmo ano, Kravchinski, dirigente da “A Vontade do Povo” enunciava em um panfleto: “morte por morte”. 1878, o ano do nascimento do terrorismo russo!

Na Europa, o imperador da Alemanha, o rei da Itália, e o rei da Espanha serão vítimas de atentados. Ainda em 1878, Alexandre II cria a Okhrana, a mais eficaz arma de terrorismo que o Estado russo jamais conhecera. A partir daí, os assassinatos políticos na Rússia e no Ocidente irão se multiplicar, marcando a fogo as duas últimas décadas do século XIX e a primeira do XX.

Em 1879, novo atentado contra o rei de Espanha e atentado frustrado contra o czar russo. Em 1881, o mesmo Alexandre II é, finalmente, assassinado pela “A Vontade do Povo”. Sofia Perovskaia, Jeliabov e seus amigos são capturados, torturados e aqueles que não morreram na tortura serão enforcados.

Em 1883, atentado mata o imperador da Alemanha e o assassino é morto a machadadas no ato, pelos seus guarda-costas.

Em 1887, nos Estados Unidos, ocorre a execução dos mártires operários de Chicago. Como resposta, em Valência na Espanha, um congresso anarquista emite um aviso: “Se a sociedade não ceder é preciso que o mal e o vício pereçam, e nós todos deveríamos perecer com eles”.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

A década de 90 levará ao assassinato do presidente francês Carnot. Só no ano de 1892 contam-se mais de mil atentados a dinamite na Europa e mais de quinhentos na América. Em 1898, Elizabeth, imperatriz da Áustria é assassinada.

Em 1901, o assassinato do presidente dos Estados Unidos das Américas, Mac Kinley. Em 1903 forma-se a Organização de Combate do Partido Socialista Revolucionário Russo, reunindo os quadros mais extraordinários do terrorismo russo. Os assassinatos de Plehve por Sasonov e o do grão-duque Sérgio por Kaliaiev, marcarão o ponto culminante desses trinta anos de apostolado sanguinário.

O niilismo, extremamente ligado ao movimento de uma religiosidade desiludida, termina assim no terrorismo. No universo da negação total, pelas bombas, pelos revolveres e também pela coragem com que caminhavam para o suplício, esses jovens tentavam criar os valores que lhes faltavam. Os homens até aqui morriam em nome do que sabiam ou do que pensavam saber. A partir daí criou-se o hábito mais difícil de sacrificar-se por uma coisa da qual pouco se sabia, a não ser que era preciso morrer para que ela existisse.

Mas o que mais impressiona quando se leem as declarações dos condenados dessa época é ver que todos, sem exceção, entregavam-se, desafiando seus juízes, à justiça daqueles homens que ainda estavam por vir. Esses homens do futuro, na ausência de valores supremos, continuavam a ser o seu último recurso. O futuro constituirá a única transcendência dos homens após a morte de Deus.

Sem dúvida, esses terroristas querem primeiro destruir, abalar o absolutismo cambaleante sob o impacto das bombas. Mas ao menos com suas mortes, eles visam recriar uma comunidade de justiça e amor, retomando uma posição que há muito a Igreja traiu. Era o espírito da revolta encontrando-se com o da compaixão.

“Pode-se falar de ação terrorista sem dela participar? Exclama o estudante Kaliaiev. Seus camaradas de “A Vontade do Povo” são homens exigentes, não cederam nenhum centímetro nem de suas histórias e nem de seus dramas. Se viveram no terror, se nele “tiveram fé” (Prokotilov), nunca deixaram de se sentir dilacerados. A história nos dá poucos exemplos de fanáticos que tenham sofrido de escrúpulos inclusive em meio aos conflitos.

O poeta Kaliaiev é o símbolo deste movimento desesperado. Enquanto a maior parte de seus companheiros era ateu, ele ainda dizia acreditar em Deus. Mas ele repudia a religião, “o ópio do povo”. A clandestinidade obriga-o viver na solidão e ele é enfocado aos 26 anos de idade. A clandestinidade obrigara-o a viver na solidão. Ele não conhece, a não ser de forma abstrata, a poderosa alegria de todo homem em ação em contato com a multidão, com o povo.

Kaliaiev estará sempre pronto a sacrificar a vida, aliás, até o desejava. “E mais, ele desejava ardentemente esse sacrifício”, diz Savinkov. O primeiro atentado ao grão-duque falhou, pois o mesmo Kaliaiev se negara a matar as crianças que o acompanham. Em sua execução recusou o “socorro religioso”. “Minha consciência está em paz consigo mesma”. Ao padre que lhe estendeu a cruz a ser beijada, disse: “Eu já lhe disse que acabei com a vida e que me preparei para a morte".

Savinkov se opôs a um atentado contra o almirante Dubassov, pelo risco de morte de inocentes no vagão que deveria ser dinamitado. Preso, poderia ter fugido da prisão, mas negou-se a atirar contra os guardas do presídio. Alguns dias após, morreu na forca, não sem antes deixar para escrito para seus companheiros presos: “Nossa fidalguia estava permeada por um sentimento tal que a palavra “irmão” não traduz ainda com suficiente clareza, a essência dessas relações recíprocas.” E mais: “No que me diz respeito, a condição indispensável à felicidade é preservar para sempre a consciência da minha perfeita solidariedade para com vocês”.

Para Dora Brilliant, “a ação terrorista embelezava-se pelo sacrifício da própria vida que lhe fazia o terrorista”. “Mas o terror pesava sobre ela como uma cruz” ressalta Savinkov. “Tanto Dora quanto Rachel Lourieé tinham fé na ação terrorista, mas o sangue as transtornava.”

Um esquecimento tão grande de si mesmos, aliado a uma preocupação tão profunda com a vida dos outros, permite supor que esses assassinos delicados viveram o destino revoltado na sua condição mais extrema. Mesmo reconhecendo o caráter inevitável da violência, admitiam que ela fosse injustificada. Necessário, mas indesculpável: o assassinato. Logo, o assassinato identificou-se com o suicídioNão colocam nenhuma ideia acima da vida humana, embora matem pela ideia. Estamos ainda diante de um conceito, senão religioso, ainda metafísico da revolta.

Depois virão outros homens que, animados pela mesma fé devoradora, irão, no entanto, considerar esses métodos sentimentais, recusando-se a admitir que qualquer vida equivale à outra. Colocarão acima da vida humana uma ideia abstrata, mesmo que a chamem de História, à qual, antecipadamente submissos, irão arbitrariamente utilizar  para subjugar outros homens.

Mas, ainda em 1905, é o amor que cada terrorista tem pelo outro que lhes traz felicidade até no deserto da prisão, que se estende à imensa massa de seus irmãos escravizados e silenciosos, a que nos dá a medida de seu infortúnio e de sua esperança. Para servirem a esse amor, precisam primeiro matar; para firmar o reinado da inocência, precisam aceitar certa culpabilidade. Solidão e fidalguia, desamparo e esperança só serão superados pela livre aceitação da morte.

Jeliabov, que organizou o atentado contra o czar Alexandre II em 1881, foi detido dois dias antes do atentado. Pediu por carta ao governo para ser executado “pois só a covardia do governo poderia erguer um cadafalso e não dois”. Mas foram erguidos cinco cadafalsos, um deles para a mulher que ele amava. Jeliabov morreu sorrindo e recusou a venda nos olhos, enquanto Rissakov, o autor do atentado que fraquejara na tortura, teve que ser arrastado meio louco de terror até o cadafalso. Sofia Perovskaia beijou ao pé da forca o homem a quem amava e aos outros dois amigos. A Rissakov, virou-lhe as costas.

Aquele que mata só é culpado se consente em continuar vivendo ou, se para continuar vivendo, decidir trair seus irmãos. Morrer, ao contrário, anula a culpabilidade e o próprio crime. O tenente Schmidt escreverá antes de seu fuzilamento: “Minha morte irá consumar tudo e, coroada pelo suplício da tortura, minha morte será irrepreensível e perfeita”.

Um dia, o próprio general governador da Fortaleza de Pedro e Paulo chamou a seu gabinete o anarquista preso Nechaiev. Pediu-lhe que denunciasse os colegas. Um só golpe que Nechaiev lhe aplica no queixo basta para matá-lo. Interrogado a ferros em brasa, defendeu-se: “Jamais fui tão humilhado em minha vida”.

Kaliaiev após ser lida a sua sentença de condenação à morte, declarou ao tribunal: ”Considero minha morte como um protesto supremo contra um mundo de lágrimas e sangue”. Ele duvidou até o fim, mas essa dúvida não o impediu de agir. Devota-se à História até a morte, e no momento da própria morte coloca-se acima da história.

Através de seus atos esses terroristas, ao mesmo tempo em que afirmam o mundo dos homens, colocam-se acima deste mundo, demonstrando que a verdadeira revolta é criadora de valores. Kaliaiev e seus irmãos triunfam sobre o niilismo e são a imagem mais pura da revolta.

 

1878- Rússia

Parcela da intelectualidade, aqueles que fundaram “A Vontade do Povo”, havia ido das cidades ao campo para pregar aos camponeses; muitos foram presos pela polícia czarista. No dia 24 de janeiro, o dia seguinte ao julgamento de noventa e três militantes presos, Vera Zassulitch mata o general Trepov, governador de Petersburgo. Não havia provas contra ela e absolvida pelos jurados, ela foge da polícia do czar. No entanto, esse tiro de revolver desencadeia uma série de ações repressivas e de atentados que só se esgotarão por exaustão. No mesmo ano, Kravchinski, dirigente da “A Vontade do Povo” enunciava em um panfleto: “morte por morte”. 1878, o ano do nascimento do terrorismo russo!

Na Europa, o imperador da Alemanha, o rei da Itália, e o rei da Espanha serão vítimas de atentados. Ainda em 1878, Alexandre II cria a Okhrana, a mais eficaz arma de terrorismo que o Estado russo jamais conhecera. A partir daí, os assassinatos políticos na Rússia e no Ocidente irão se multiplicar, marcando a fogo as duas últimas décadas do século XIX e a primeira do XX.

Em 1879, novo atentado contra o rei de Espanha e atentado frustrado contra o czar russo. Em 1881, o mesmo Alexandre II é, finalmente, assassinado pela “A Vontade do Povo”. Sofia Perovskaia, Jeliabov e seus amigos são capturados, torturados e aqueles que não morreram na tortura serão enforcados.

Em 1883, atentado mata o imperador da Alemanha e o assassino é morto a machadadas no ato, pelos seus guarda-costas.

Em 1887, nos Estados Unidos, ocorre a execução dos mártires operários de Chicago. Como resposta, em Valência na Espanha, um congresso anarquista emite um aviso: “Se a sociedade não ceder é preciso que o mal e o vício pereçam, e nós todos deveríamos perecer com eles”.http://proust.net.br/blog/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

A década de 90 levará ao assassinato do presidente francês Carnot. Só no ano de 1892 contam-se mais de mil atentados a dinamite na Europa e mais de quinhentos na América. Em 1898, Elizabeth, imperatriz da Áustria é assassinada.

Em 1901, o assassinato do presidente dos Estados Unidos das Américas, Mac Kinley. Em 1903 forma-se a Organização de Combate do Partido Socialista Revolucionário Russo, reunindo os quadros mais extraordinários do terrorismo russo. Os assassinatos de Plehve por Sasonov e o do grão-duque Sérgio por Kaliaiev, marcarão o ponto culminante desses trinta anos de apostolado sanguinário.

O niilismo, extremamente ligado ao movimento de uma religiosidade desiludida, termina assim no terrorismo. No universo da negação total, pelas bombas, pelos revolveres e também pela coragem com que caminhavam para o suplício, esses jovens tentavam criar os valores que lhes faltavam. Os homens até aqui morriam em nome do que sabiam ou do que pensavam saber. A partir daí criou-se o hábito mais difícil de sacrificar-se por uma coisa da qual pouco se sabia, a não ser que era preciso morrer para que ela existisse.

Mas o que mais impressiona quando se leem as declarações dos condenados dessa época é ver que todos, sem exceção, entregavam-se, desafiando seus juízes, à justiça daqueles homens que ainda estavam por vir. Esses homens do futuro, na ausência de valores supremos, continuavam a ser o seu último recurso. O futuro constituirá a única transcendência dos homens após a morte de Deus.

Sem dúvida, esses terroristas querem primeiro destruir, abalar o absolutismo cambaleante sob o impacto das bombas. Mas ao menos com suas mortes, eles visam recriar uma comunidade de justiça e amor, retomando uma posição que há muito a Igreja traiu. Era o espírito da revolta encontrando-se com o da compaixão.

“Pode-se falar de ação terrorista sem dela participar? Exclama o estudante Kaliaiev. Seus camaradas de “A Vontade do Povo” são homens exigentes, não cederam nenhum centímetro nem de suas histórias e nem de seus dramas. Se viveram no terror, se nele “tiveram fé” (Prokotilov), nunca deixaram de se sentir dilacerados. A história nos dá poucos exemplos de fanáticos que tenham sofrido de escrúpulos inclusive em meio aos conflitos.

O poeta Kaliaiev é o símbolo deste movimento desesperado. Enquanto a maior parte de seus companheiros era ateu, ele ainda dizia acreditar em Deus. Mas ele repudia a religião, “o ópio do povo”. A clandestinidade obriga-o viver na solidão e ele é enfocado aos 26 anos de idade. A clandestinidade obrigara-o a viver na solidão. Ele não conhece, a não ser de forma abstrata, a poderosa alegria de todo homem em ação em contato com a multidão, com o povo.

Kaliaiev estará sempre pronto a sacrificar a vida, aliás, até o desejava. “E mais, ele desejava ardentemente esse sacrifício”, diz Savinkov. O primeiro atentado ao grão-duque falhou, pois o mesmo Kaliaiev se negara a matar as crianças que o acompanham. Em sua execução recusou o “socorro religioso”. “Minha consciência está em paz consigo mesma”. Ao padre que lhe estendeu a cruz a ser beijada, disse: “Eu já lhe disse que acabei com a vida e que me preparei para a morte".

Savinkov se opôs a um atentado contra o almirante Dubassov, pelo risco de morte de inocentes no vagão que deveria ser dinamitado. Preso, poderia ter fugido da prisão, mas negou-se a atirar contra os guardas do presídio. Alguns dias após, morreu na forca, não sem antes deixar para escrito para seus companheiros presos: “Nossa fidalguia estava permeada por um sentimento tal que a palavra “irmão” não traduz ainda com suficiente clareza, a essência dessas relações recíprocas.” E mais: “No que me diz respeito, a condição indispensável à felicidade é preservar para sempre a consciência da minha perfeita solidariedade para com vocês”.

Para Dora Brilliant, “a ação terrorista embelezava-se pelo sacrifício da própria vida que lhe fazia o terrorista”. “Mas o terror pesava sobre ela como uma cruz” ressalta Savinkov. “Tanto Dora quanto Rachel Lourieé tinham fé na ação terrorista, mas o sangue as transtornava.”

Um esquecimento tão grande de si mesmos, aliado a uma preocupação tão profunda com a vida dos outros, permite supor que esses assassinos delicados viveram o destino revoltado na sua condição mais extrema. Mesmo reconhecendo o caráter inevitável da violência, admitiam que ela fosse injustificada. Necessário, mas indesculpável: o assassinato. Logo, o assassinato identificou-se com o suicídioNão colocam nenhuma ideia acima da vida humana, embora matem pela ideia. Estamos ainda diante de um conceito, senão religioso, ainda metafísico da revolta.

Depois virão outros homens que, animados pela mesma fé devoradora, irão, no entanto, considerar esses métodos sentimentais, recusando-se a admitir que qualquer vida equivale à outra. Colocarão acima da vida humana uma ideia abstrata, mesmo que a chamem de História, à qual, antecipadamente submissos, irão arbitrariamente utilizar  para subjugar outros homens.

Mas, ainda em 1905, é o amor que cada terrorista tem pelo outro que lhes traz felicidade até no deserto da prisão, que se estende à imensa massa de seus irmãos escravizados e silenciosos, a que nos dá a medida de seu infortúnio e de sua esperança. Para servirem a esse amor, precisam primeiro matar; para firmar o reinado da inocência, precisam aceitar certa culpabilidade. Solidão e fidalguia, desamparo e esperança só serão superados pela livre aceitação da morte.

Jeliabov, que organizou o atentado contra o czar Alexandre II em 1881, foi detido dois dias antes do atentado. Pediu por carta ao governo para ser executado “pois só a covardia do governo poderia erguer um cadafalso e não dois”. Mas foram erguidos cinco cadafalsos, um deles para a mulher que ele amava. Jeliabov morreu sorrindo e recusou a venda nos olhos, enquanto Rissakov, o autor do atentado que fraquejara na tortura, teve que ser arrastado meio louco de terror até o cadafalso. Sofia Perovskaia beijou ao pé da forca o homem a quem amava e aos outros dois amigos. A Rissakov, virou-lhe as costas.

Aquele que mata só é culpado se consente em continuar vivendo ou, se para continuar vivendo, decidir trair seus irmãos. Morrer, ao contrário, anula a culpabilidade e o próprio crime. O tenente Schmidt escreverá antes de seu fuzilamento: “Minha morte irá consumar tudo e, coroada pelo suplício da tortura, minha morte será irrepreensível e perfeita”.

Um dia, o próprio general governador da Fortaleza de Pedro e Paulo chamou a seu gabinete o anarquista preso Nechaiev. Pediu-lhe que denunciasse os colegas. Um só golpe que Nechaiev lhe aplica no queixo basta para matá-lo. Interrogado a ferros em brasa, defendeu-se: “Jamais fui tão humilhado em minha vida”.

Kaliaiev após ser lida a sua sentença de condenação à morte, declarou ao tribunal: ”Considero minha morte como um protesto supremo contra um mundo de lágrimas e sangue”. Ele duvidou até o fim, mas essa dúvida não o impediu de agir. Devota-se à História até a morte, e no momento da própria morte coloca-se acima da história.

Através de seus atos esses terroristas, ao mesmo tempo em que afirmam o mundo dos homens, colocam-se acima deste mundo, demonstrando que a verdadeira revolta é criadora de valores. Kaliaiev e seus irmãos triunfam sobre o niilismo e são a imagem mais pura da revolta.