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12 janeiro 2017 por Publicado em: ensaio 3 comentários

A gestão de Artur Bernardes à frente do Governo Federal foi marcada por uma permanente instabilidade política, crise econômica, revoltas dos trabalhadores e de parcela das forças  armadas. Governou o país sob “estado de sítio” em detrimento dos direitos e das liberdades individuais. Criou o Departamento de Ordem Política e Social em 1924, cujo objetivo era censurar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. Como  DEOPS, este órgão repressor se manterá ativo até a redemocratização do Brasil, em 1983.

No entanto, é graças aos seus arquivos que podemos não somente reconstruir a intolerância e a repressão que foi a tônica do século passado, mas também a resistência de intelectuais, de trabalhadores e de estudantes às injustiças sociais e à repressão política. Parcela de seu acervo são milhares de exemplares de jornais apreendidos.

Nosso ensaio falará especificamente de dois Jornais Alternativos, com linha editorial anarquista, que sobreviveram durante meio século, entre os anos 1901 e 1951, graças ao denodo de homens que enfrentaram a pobreza, a cadeia e a tortura e que não podem ser esquecidos.

A LANTERNA

Surgiu em janeiro de 1901 como um porta-voz das ligas anarquistas e anticlericais do Estado de São Paulo. Dirigido pelo abnegado Benjamin Mota, teve uma tiragem inicial de 10.000 exemplares, um projeto gráfico primoroso impresso em quatro páginas! Seu primeiro editorial imageslançava a questão: “Somos apenas um punhado de homens? Que importa, amanhã seremos legiões, quando todos os que sabem o quanto o clericalismo é prejudicial ao Brasil, quanto o jesuitismo é nefasto, quanto o beatismo empobrece os povos, decidirem engrossar nossas fileiras.”

Em 1904, falece Benjamin, A Lanterna estava em seu A-ordem-burguesanúmero 63. Em 1909 , o jovem intelectual Edgar Leuenroth assume a liderança e o jornal volta a ser editado e a circular, alcançando o semanário, em 1916, o impressionante número de 293 edições.

A Lanterna retrata de forma humorística e ilustrada a atuação da Igreja Católica sempre atrelada aos poderes públicos, “um atraso em nossa vida política, anestesiando as mentes de nossos trabalhadores.” Defendia que a Igreja tinha que ser mantida ao largo do ensino. “Padre na sua Igreja, Professor, na escola”!

A Lanterna, em princípios de 1912, denunciou os crimes sexuais cometidos pelo padre Faustino Consoni, acusado de assassinar uma criança recém chegada ao Orfanato São Cristóvão, após tê-la violentado sexualmente. O “caso Idalina” como ficou conhecido à época acabou desencadeando manifestações populares organizadas pelos anarquistas contra a Igreja Católica. Durante as manifestações Leuenroth foi preso, e posteriormente liberto graças às ações do escritor e advogado Evaristo de Morais, um dos grandes nomes da defesa da causa operária nos tribunais da época. O padre Faustino Consoni jamais foi ao menos interrogado pela polícia e, no futuro, exerceria a função de reitor da Igreja e Colégio de Santo Antônio.

Em 13 de outubro de 1912, A Lanterna publicou um número especial dedicado ao fuzilamento do modernista espanhol Francisco Ferrer, ocorrido três anos antes. Novo êxito de tiragem, com segunda e terceira edição de 10.000 jornais. Neste mesmo número, o artista plástico e intelectual, Oiticica, assume-se como anarquista.

Lima Barreto era colaborador do jornal; sendo um entusiasta da Revolução Soviética de 1917, sob o pseudônimo de Dr. Bogoloff, declara a suas esperanças por um mundo melhor.

Em fins de 1917 A Lanterna é substituída por um novo jornal, A PLEBE, sob a batuta do mesmo Edgar Leuenroth, que assumira a secretaria do “Comitê de Defesa Proletária”.

De todo modo, A Lanterna retornaria por mais dois anos a ser editada, no período de 1933 a 1935, num total de 43 exemplares, sob a batuta do incansável Leuenroth. Nesse período o jornal criou tipos que se tornaram populares e imortais como: “Frei Bisbilhoteiro”, “Papa Óstia” e “Lambe Altar”.

A edição de julho de 1933 tinha por título: “Quando os povos civilizados limpam suas casas atiram o lixo para o Brasil”. A charge era uma barcaça cheia de padres, santos, anjinhos barrocos que eufóricos diziam: “O Brasil! Eis nosso paraíso”! “Aqui tudo vale!”

No bojo da repressão que antecede o Estado Novo, o DEOPS fichou como responsáveis pelo jornal os subversivos: Edgar Leuenroth, o livre pensador Garronski e a “professora liberal” Luíza Camargo Branco.

A PLEBEa plebe 2

Fundada pelos mesmos responsáveis por A Lanterna, A Plebe foi o jornal anarquista e anticlerical que sobreviveu de 1917 a 1951, tendo se juntado ao Conselho Editorial Rodolpho Felippe e Pedro Mota. Entre seus principais colaboradores ilustres estavam Astrogildo Pereira, José Oiticica  e Lima Barreto.

A PLEBE foi, por muito tempo, considerado o jornal libertário paulista mais importante.

Lançado no contexto da Primeira Guerra Mundial e da desestabilização dos salários e da vida dos trabalhadores posicionava-se em seu primeiro número como “um órgão dedicado à luta dos trabalhadores contra a opressão e a miséria no Brasil”. Seu papel era a defesa dos princípios anarquistas e a organização dos trabalhadores e sindicatos.

Edgard Leuenroth como liderança das greves de 1917 e “cabecilha” do jornal , foi novamente preso sob a acusação de comandar o saque ao Moinho Santista. A polícia invadiu A Plebe, e o jornal foi empastelado. Com a prisão de Leuenroth, o anarquista Florentino de Carvalho manteve a publicação quase que solitariamente fazendo uso de vários pseudônimos.

Entretanto, o auge de circulação do jornal foi alcançado em 1919, quando passou a ter periodicidade diária. Era vendido nas bancas de jornais e revistas e, ao assumir assinaturas semestrais e anuais, trouxe uma enorme inovação jornalística!

Proibido pelo “estado de sítio” de 1924, torna a circular em 1927. Na retomada jornalística estampa a denúncia do degredo dos operários presos em 1924 em Clevelândia, dos maus tratos recebidos e dos cinco assassinatos perpetrados no cárcere.

Em 1927,  Leuenroth, representando A Plebe, foi novamente preso ao discursar para uma multidão de operários em homenagem a Sacco e Vanzetti no Largo da Concórdia.

Em 1932, a promulgação da “Lei Celerada” levou a novo fechamento do jornal. Liberado em 1934, posiciona-se claramente contra Getúlio Vargas e a Igreja Católica, representantes do nazi-fascismo no Brasil, “incubadores da reação, da guerra e da tirania”.

A Plebe ainda organiza encontros e conferências; a cada exemplar proibido pela polícia, surgia um clandestino que era distribuído por operários e sindicatos não pelegos. Em janeiro de 1935, organiza no Parque do Jabaquara um “piquenique cívico”, ao qual acorreram mais de mil famílias com suas crianças.

O jornal foi novamente proibido em 1935, com o “estado de sítio” promulgado pelo Governo Vargas após a Insurreição da ANL, e somente voltaria às ruas em 1947, com Egard Leuenroth à cabeça, associado a Liberto Lemes e Lucca Gabriel.

Nesse período volta a inovar em matéria jornalística. Publica resenhas e análises de livros que auxiliassem no processo de conscientização política e formação cultural dos trabalhadores e abre a entrega dos mesmos por reembolso no Correio.

Suas ilustrações, sempre realizadas por artesãos operários constituem um enorme acervo disponível para pesquisas e publicações.

A “estética deve acompanhar a notícia” dizia o imortal Edgar Leuenroth.

Nota 1: Notável por sua boa disposição e jovialidade, sempre organizado, diligente e combativo, Leurenroth faleceu em 1968, aos 87 anos, após se descobrir portador de câncer hepático. Durante toda a sua vida Leuenroth foi ativo em sua militância anarquista.

Nota 2: Leia também : Uma homenagem ao líder operário Domingos Passos. http://proust.net.br/blog/?p=427

Comentários

  1. Maria Claudia B. Ribeiro
    sex 13th jan 2017 at 0:02

    Adorei ler seu texto! Pesquisei por longos anos no Arquivo Edgard Leuenroth que leva seu nome numa bela e merecida homenagem. O movimento operario brasileiro esta ali todo documentado. E o arquivo de Edgard Leuenroth foi adquirido da familia numa parceria com a Fapesp no ano de 1974. Parte dele ja foi digitalizada e pode ser consultada pela internet. A historia da constituição do Arquivo Leuenroth em plena ditadura também é digna de nota. Uma bela e corajosa historia. Escrevo para parabeniza-lo e deixar meu abraço, Maria

    Responder
  2. Antônia Mara Vieira Loguercio
    sex 13th jan 2017 at 1:35

    Russo, tem uma comunista importante na história da luta das mulheres e dos trabalhadores brasileiros, chamada Eliza Branco. Será parente dessa Luíza, anarquista ou pelo menos d direção da Plebe?

    Parabéns pela Pesquisa e pelo texto.

    Responder
  3. sáb 14th jan 2017 at 15:22

    Muito bom seu artigo, Carlos.
    Coerente com o que conheço você defendendo desde os anos 70 e trazendo informes que precisam ser conhecidos e divulgados.
    Estou repassando a muitos. Um abraço

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