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13 setembro 2016 por Publicado em: ensaio 5 comentários

Quem me conhece socialmente não pode imaginar o rio de desencanto e perversão que correm juntos por minhas veias, um sangue feito fel, perdido seu agridoce dos anos juvenis, líquido que nada mais faz que transportar o desalento de uma vida que se arrasta, se arrasta…

Sou afável, conversador, e os que me encontram pelas ruas do mundo até julgam descobrir em mim alguém de certo humor, na têmpera do viver. E talvez eu seja assim porque alguém como eu tem que buscar atrair alguma simpatia ou, quem sabe, o olhar comparsa de outro ser que se me assemelhe nos vícios, na canalhice e, principalmente, no desalento. Afinal, todo decadente precisa de certo amparo, e somente o logra encontrar quando na companhia de pessoas ingênuas ou de seres que se lhe pareçam, para os quais a torpeza e o desalento sejam o pão e a carne de todo dia.

Confesso também ser na essência muito perspicaz, pois descobri que, afinal, não se pode ser canalha sem argúcia. Garanto-lhes, enfim, que somente quem se fixar no meu modo de olhar oblíquo com atenção e excepcional habilidade, poderá encontrar alguma pista de minha real personalidade.

Mas não se vá pensar que eu tenha sido assim durante toda a minha vida. Não, isto não é verdade! Creiam-me, já tive até mesmo dias de glória, de prazer, de muita companhia. Como todos fui jovem, considerado promissor pelos que me queriam, amado por poucas, competente mesmo em minhas labutas e assim foi passando a vida… Até o dia em que eu simplesmente preferi nada fazer!

Do dito, não se vá alguém imaginar que em algum momento do meu passado, eu tenha compartilhado da felicidade idiotizada dos simplórios, dos ingênuos, dos desatentos e, porque não, dos idiotas. Não, definitivamente não! Apenas que, na juventude, deles também necessitava para respirar. Afinal, engolir o purgante da idiotice, da credulidade e da vulgaridade era sempre uma maneira de conviver com aqueles por quem nutria o mais amargo desprezo. E em seu meio meu egocentrismo se espalhava e a minha vaidade podia se nutrir da seiva que brota da estupidez dos parvos e onde a minha soberbia tornava-se intocável.

Entretanto, como já disse, teve um momento em que toda a minha vida ativa de homem prático cansou-se de si mesma; por destituída de sentido, chegou ao fim e eu preferi nada fazer.

Foi por essa época que, num de meus passeios ao acaso, encontrei-me com alguém que, apesar de há muito tempo não ver, sempre se me assemelhou no meu sentir. Meu amigo americano, o Melville.

Melville era já um escritor de  fama e bolso curto. Creio mesmo que não era lá muito atento nem para a fama, tampouco para a grana. Ele aconselhou-me a que me ocupasse em escrever, pois, no seu dizer, “a vida se arrastaria menos devagar, e, talvez, aí sim, com certa dose de parcimônia, você possa filtrar um pouco de seu desalento, destilar em gotas o fel que lhe consome…” Mas qual, eu disse ao meu amigo, “eu prefiro não fazer…e  escrever para quem, para que? Mesmo se fosse possível, onde encontrar um editor tão estúpido que concordasse em editar o que eu teria para por no papel? Não, Melville, eu prefiro, realmente, não fazer”.

Foi quando meu amigo falou de um tal de Bartleby, um escrevente como tantos que povoavam nossos cartórios, alguém que, de repente, como eu, “preferia nada fazer”. Melville conhecera-o naquela época em que os correios não possuíam a concorrência arrasadora dos “e-mails”. Um parêntesis: meu interlocutor mostrou-se extremamente curiosoo para saber como isto funcioria, mas esta já é outra história que um dia ainda contarei.

Voltemos à experiência do senhor Bartleby, o copista. Ele trabalhara num departamento do correio, aquele das cartas devolvidas. Disse-me Melville: “Cartas mortas, isto não soa como homens mortos? Imagine um homem que por natureza tem a tendência a uma insidiosa desesperança. Alguma atividade pode ser mais apropriada  para aguçar essa desesperança do que manipular cartas mortas e separá-las para o fogo? Com mensagens de vida, essas cartas caminhavam para a morte”. E aduziu: “É meu amigo, Bartleby era um escrevente já sem alma, ela toda se consumira nos milhares de cartas com mensagens vivas que se destruíram no fogo. Por isso ele dizia que a tudo “preferia nada fazer…”

Eu entendi perfeitamente a mensagem que, com Bartleby, meu amigo me passara. Chegando a minha casa, pus-me a escrever, eu “que preferia nada fazer…”, pus no papel este simples ensaio.

Obs.: “Bartleby O Escrevente”, é um conto de autoria de Herman Melville (1819-1891).

Comentários

  1. Antônia Mara Vieira Loguercio
    sex 23rd set 2016 at 19:18

    Continue “nada fazendo” assim, Carlos Russo! Seus leitores agradecem . Um texto bem construído e explodindo de emoção como esse provoca na gente um sentimento muito gratificante: uma vontade imensa de “nada fazer” a não ser curtir o belo, o lado bom da vida, a arte!

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  2. dom 25th set 2016 at 10:49

    Caro Russo, eu poderia assinar ao menos o seu primeiro parágrafo, faltando-me perspicácia apesar da constante atenção e sobrando afinidade com o terceiro parágrafo. Poderia ter estado com você no seu encontro com o grande Melville. Penso no que escrevo, coisas que ficam guardadas em gavetas, CDs, memórias de computador, espalhadas pelo tempo e pela vida. Um livro esquartejado, com os pedaços estendidos e empilhados em mesas de diagramadores de uma editora, outros que talvez nunca alguém saberá que existem, exceto meus filhos quando fizerem o inventário de minhas coisas depois da minha morte . Ouço muito dizerem: a vida é curta, mas em 68 anos já fiz tanto e tanto deixei de fazer. O fazer nada de hoje é quase uma injunção, pois antes é preciso atender às demandas, práticas e afetivas de filhos, netos, amigos. Penso filosoficamente na minha escrita, cartas mortas, devolvidas porque ninguém as leu, como as que o escrevente Bartleby prepara para o fogo.

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  3. Malu Alves Ferreira
    dom 25th set 2016 at 12:44

    Texto proustiano.
    Prefiro não para mim é como aquela,frase no Automda compadecida,de Suassuna ” so sei que foi assim”.

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  4. Dea Conti
    ter 27th set 2016 at 1:59

    Carlos, ócio produtivo! Que delícia de ensaio. Veio em ótima hora, amigo.

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  5. celeste marcondes
    ter 27th set 2016 at 17:56

    escrever ou não …quem podia identificar o telefone ali ao lado das duas letras que identificariam o nome próprio …que identificariam a semi liberdade ..aquela de ali em casa brincaria com a filhinha….e o jovem magerrimo, acaboado na promessa do negar …

    os anos que se passaram foram nada perto dos que deveriam se passar …
    difícil ler, e buscar dentro de mim algo além da espera…

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