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21 junho 2016 por Publicado em: resenha 1 comentário

“A Lei”, antepenúltimo conto escrito por Thomas Mann é geralmente considerado uma “alegoria do poder” e, mais particularmente, “uma alegoria da libertação face ao Terror, o Egito podendo ser comparado à Alemanha nazista e seu faraó a Hitler”.

Mann mostra-nos o libertador do povo hebreu a partir de uma visão mundana, porém altamente espiritualizada, da qual resulta a figura de um líder civilizador, revolucionário dos costumes e das crenças de seu povo e, ao mesmo tempo, um déspota místico-ideológico.

O nascimento de Moisés reduz-se ao apetite sexual que seu pai, escravo hebreu, despertara na filha do Faraó Ramsés. O pai, assassinado imediatamente após a satisfação da Princesa, como era de costume, deixou-lhe um filho.

A gravidez foi acobertada e na ocasião do nascimento da criança, todos os cuidados tomados:  o bebê foi encontrado num pequeno cesto e recolhido pelas serventes da Princesa. Esta lhe deu como mãe adotiva uma israelita e ele ganhou irmãos. Chamaram-no, então, Moisés, que significa “filho”. Mas filho de quem?

Quando jovem, foi tirado de seus pais de adoção e colocado no mesmo internato dos filhos da realeza. Assim, Moisés aprendeu astronomia, geografia, a escrita e as leis. Como todos, ele também sabia sobre sua origem: o Faraó Ramsés, o construtor, era seu verdadeiro avô e isso lhe dava ganas de assassinar aqueles que se divertiam com seu nascimento. Talvez, graças ao precisamente a este, Moisés cresceu “amando apaixonadamente a ordem, o inviolável, a regra e a proibição”.

Deste modo, muito cedo começou a matar com fervor. Um soldado egípcio, que espancava um hebreu foi por ele atacado e morto. Sentiu dentro de si “que o ato de matar era verdadeiramente delicioso, ao mesmo tempo em que haver matado era medonho ao extremo e, por isso, não se deve matar”.

Como herança da mãe egípcia, uma sensualidade ardente: “ansiava ao mesmo tempo pelo espiritual, pelo que é puro, sagrado e invisível”. Quando os hebreus descobriram seu crime, Moisés fugiu para o deserto, onde encontra um povo de pastores, os madianitas, que amava um deus que não se pode ver, mas que a todos via. Este deus vivia no topo de um monte no deserto do Sinai, sentado numa uma arca, realizando oráculos e jogando com os dados da sorte. Os madianistas o denominavam Javé.

Para Moisés, Javé, o invisível, aquele que não tinha imagens, tornou-se o Altíssimo, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, os antepassados de seu povo desenraizado e espalhado pelas terras egípcias.

Passaram-se os anos. Sentindo-se seguro, Moisés fez a longa viagem a lombo de jumento de volta às terras do Nilo, trazendo esposa e filhos. Entre os hebreus começou a pregar, agitando seus fortes braços, anunciando o encontro com o Deus de seus antepassados, “aquele que era a eternidade”, e que estava pronto a realizar uma aliança com as pessoas do seu sangue, desde que lhe jurassem exclusividade absoluta de culto.

A respeito das implicações envolvidas na invisibilidade deste deus, em sua espiritualidade intrínseca, e na pureza nas coisas sagradas, nada falava para não assustar as pessoas. Também nada dizia sobre a   tarefa que lhe fora consignada por seu deus interior: levar as tribos de Israel para a “Terra prometida”, libertando aquela gente da escravidão egípcia.

Reencontrou seus irmãos adotivos e fez seguidores. Josué, um jovem e decido hebreu, tornou-se seu mais forte aliado, para quem Javé era o deus dos exércitos, o deus armado que os tiraria da escravidão. Josué foi o braço militar de Moisés junto daqueles treze mil hebreus escravizados, uma força muito pequena para conquistar a “Terra Prometida”. Moisés entendia que a saída do Egito não se daria por um levante popular, mas fruto de um bom acordo. Graças a sua origem dupla, ele era o único homem que poderia pleitear perante o Faraó a saída de seu povo.

Aarão, seu irmão adotivo, conhecia certos artifícios de magia e devido à dificuldade de fala de Moisés, este passou a acompanhá-lo nos pleitos. Inicialmente tentaram enganar o Faraó com truques que já eram conhecidos pelos magos da corte. Um pedido para que os hebreus pudessem realizar sacrifícios no deserto, o que lhes abriria as portas para a fuga, foi interpretado pelo Faraó como uma saída para o ócio e ele além de não O permitir, mandou que a carga de trabalho dos escravos fosse aumentada. A princípio o povo revoltou-se contra Moisés, mas com o passar do tempo, o aumento da exploração foi um fator positivo que estimulou a revolta e a vontade de fugir do Egito.

Fala-se muito das dez pragas que Javé jogou sobre o Egito. São histórias que podem ter causas naturais. Sabe-se que, em determinadas condições, as águas do Nilo, como de outros rios, tomam por influência de algas, a cor avermelhada, os peixes morrem, e o precioso líquido torna-se impróprio para beber. Também é fato conhecido que em determinadas situações, os sapos e rãs se multiplicam além da conta e que a infestação por piolhos sempre foi uma praga, até a invenção dos inseticidas. Muitas vezes, naqueles dias, os leões famintos atacavam o rebanho, e, quando desdentados e velhos, até mesmo os homens. Quantas vezes na história da humanidade, os ataques de sarna se alastraram na sujeira e na falta de higiene dos corpos? Quantas vezes a incontrolável varíola ulcerou a pele das pessoas? E os gafanhotos, não foram e ainda o são uma praga para a agricultura? Quanto ao famoso eclipse que se deu naqueles dias, ele não pode ser considerado nenhum milagre, aliás, já naquela época faziam-se previsões sobre eles.

A cada evento natural, Moisés apresentava-se ante o Faraó e dizia que a desgraça da vez era uma praga de Javé, pela ausência do apregoado sacrifício proibido no deserto. Até que o rei se cansou e, ao invés de permitir que os hebreus fizessem sacrifícios no deserto, resolveu expulsá-los do Egito. Mas para isso também contribuiu ações realizadas por Josué e seu grupo de jovens guerreiros.

A última praga -a morte de primogênitos egípcios- que se tem como responsável o “Anjo da Morte de Javé”, foi, na realidade, obra dos guerreiros de Josué. Nas casas não marcadas com o sangue de animais, a sucessão das heranças fora interrompida naquela noite nebulosa em que muitos primogênitos foram assassinados, num ato de típico terrorismo. Os sucessores das heranças, por seu lado, não queriam, obviamente, nenhum tipo de vingança.

Como não raramente acontece nesses eventos, o caos estabeleceu-se entre os habitantes da terra. Foi quando ocorreu a expulsão do Egito. Na partida, o povo de Israel tanto matou tanto quanto roubou: foram vasos de ouro, bacias, trigo armazenado, gado, um pouco de tudo o que podiam carregar. Para Moisés, entretanto, aquela seria a última vez que um saque seria tolerado, mas como veremos tal não ocorreu.

O que levou o Faraó, então, a ordenar que uma tropa de combate fosse ao encalço e reprimisse o povo fugitivo? Ora, o saque realizado em suas terras!

Moisés, entretanto, conhecia os caminhos entre os lagos Azedo e o Salgado no delta do Nilo. Sabia que a maré recuava em determinadas horas e avançava em outras.  A turba desorganizada atravessou o estreito antes da chegada das tropas perseguidoras, que pouco conheciam da região e que, com a mudança dos ventos e da maré dividiram-se, sendo obrigadas a recuarem com muitas perdas.

Em decorrência, o povo de Israel viu-se liberto e Josué se encarregou de espalhar o boato de que, com uma vara, Moisés afastara as águas do mar, outro milagre de Javé! O povo cantava e dançava a morte dos egípcios. Moisés iniciou sua nova doutrina: “Não te alegres com a desgraça de teu inimigo”!

Não tardou que o enorme desafio de dar água e comida àquela gente se fizesse presente. O povo oscilava entre as “glórias dadas àquele que nos tirou do Egito” e a maldição àquele “que os trouxera ao deserto tirando-os da terra e da comodidade de seus lares”. Os gritos “o que vamos beber?” e “o que vamos comer?” atormentavam Moisés, “que sempre se sentiu atormentado por todos os homens da terra”.

Josué ouvira falar de uma fonte no deserto, chamada Mara; no entanto, a água era insalubre e o povo foi salvo por um engenho de Moisés: um sistema de filtros que a tornou potável. Saciada a sede, a fome ainda persistia. Os guerreiros de Josué notaram que, em determinados lugares do solo árido crescia um líquen comestível, do qual se poderia fazer um bolinho alimentar, o maná. Essas descobertas foram lenitivos ao sofrimento da massa.

Josué buscava um grande oásis, o Cádis, lugar encantador, com muita água, frutas, gado, que seria bom o suficiente para que as tribos se robustecessem até seguir o caminho para a “Terra Prometida”. Guiados pelas estrelas, lá se foram eles.

É claro que esse lugar já tinha dono, os amalecitas, e se Javé quisesse aquele local para seu povo teria que travar luta com Amalec, o deus daquele povo. Moisés vacilou em entrar em guerra pela posse de um local já ocupado, mas Josué contou-lhe a história de que Cádis há muito tempo, fora habitado por hebreus. Logo, as famílias que lá se encontravam, já o haviam roubado e quem rouba ladrão…

De algum modo, Moisés deixou-se convencer. A luta pela posse da terra e seus bens foi sangrenta. Mas Israel, que significa “Deus faz a guerra”, venceu-a guiado pelos braços levantados de Moisés a implorar o auxílio de seu deus. As crianças abandonadas pelos amalecitas multiplicaram o número dos próprios filhos de Israel, assim como as mulheres de Amalec tornaram-se mulheres e criadas também de Israel.

Agora Moisés tinha todos os motivos do mundo para considerar-se um homem feliz.

No horizonte de Cádis erguia-se o monte Horeb, coberto até sua metade por vegetação, cujo cume uma pequena nuvem impedia a visualização. Moisés transportou do monte Sinai para lá seu deus, Javé, aquele que não tinha imagens e que queria ser único. Ao lado de sua tenda construiu uma de reunião, onde guardava os objetos sagrados “a la madianita”: uma arca com alças e dentro dela o cajado com cabeça de serpente que seu irmão Aarão um dia usara nas conversas com o Faraó, assim como os dados do sim e do não, do certo e do errado.

Moisés implantou um primeiro Tribunal, pois era necessário impor uma lei civilizatória.  A justiça tinha a ver com a invisibilidade e a espiritualidade de seu Deus, assim como a injustiça que seu povo teria que aprender a reconhecer. Ele deveria, além de aplicar a lei, ensiná-la a seu povo, a qual lhe fora ensinada no Egito, derivada do código de Hamurabi.

Uma visita dos familiares madianitas de Séfora, sua esposa, o ajudou. Eles propuseram que se nomeassem juízes, ao que ele, inicialmente resistiu e depois se rendeu, pois sempre soubera que os juízes são “comedores de presentes”. Ensinaram-lhe também o truque da apelação, em segunda e terceira instâncias, de tal modo que guardasse para julgar por si mesmo apenas as questões de maior importância.

Logo se deu conta de que era necessário quase tudo ensinar àquele povo bárbaro, incluindo normas de higiene básicas. Moisés obrigou que cada um tivesse sua pazinha e que fizessem suas necessidades diárias, fora das tendas, e que, deveriam conbri-las com areia para não atrair insetos. “Serás limpo e te banharás muitas vezes em água corrente; terás saúde, pois sem ela não existe pureza e nem santidade”.

Quando os homens tivessem lepra, sarna, e outras doenças transmissíveis, eram colocados em isolamento com suas impurezas para que não se alastrasse a contaminação.

Interferiu também nos hábitos alimentares da população: eles poderiam comer umas coisas e não outras. Por exemplo, os animais impuros, as aves carniceiras e os rastejantes não deveriam ser tocados.

Também os costumes deveriam sofrer transformação: o matrimônio sagrado não poderia ser rompido; o incesto entre irmãos e entre pais e filhos foi proibido; uma mulher menstruada estaria impura e não deveria ser importunada.

“Ouvi dizer que fazes de tua filha uma prostituta e te aproprias do dinheiro dela; se o fizeres, mandarei te apedrejar”. O sexo com animais e o homossexualismo seriam punidos também com a morte.

Proibiu-se a reprodução de imagens de homens, de animais e de Deus e a tatuagem nos corpos. Mesmo correndo o risco de que o povo se confundisse, disse-lhes: “Eu sou o senhor, vosso Deus.”

Não era fácil para aquele povo solto submeter-se às ordens, aos valores e à disciplina de Javé. De todos os modos “os anjos da morte” de Josué estavam sempre a postos para executarem uma sentença necessária ou para expulsar um transgressor. “Javé e eu não queremos nem cruéis e nem covardes, permanecei no meio termo, sede decentes”.

Mais e mais restrições civilizatórias foram sendo implantadas: não cobiçar a mulher, nem o bem do próximo; não roubar, nem matar; não dar falso testemunho; respeitar os mais velhos; consagrar o dia de sábado a Deus; não ser infiel no casamento. E nesse ponto, o amor de Moisés, casado com Séfora, pela Moura, a concubina de fartos seios, causava-lhe muitos transtornos e envergonhava os filhos, que pertenciam à tropa militar de Josué.

Como se pode ver, não era nada fácil a missão que Javé, impunha a Moisés e a seu povo, que, mesmo à custa de exemplos disciplinadores, ameaçava rebelar-se.

Foi quando a terra tremeu… Uma lava quente e grossa começou a escorrer por uma das encostas do monte Horeb e de seu cume evoluíam fogo e fumaça. Moisés teve a certeza de que seu deus o chamava, enquanto o povo acreditava na ira de Javé. Mesmo com todos os riscos, Moisés, munido de uma talha e de um martelo, fez-se acompanhar por todo seu povo até o pé do morro. Moisés, então, escalou sozinho quase até o topo da montanha e lá permaneceu quarenta dias e quarenta noites. Embora o corpo militar lhe providenciasse, sem que ninguém o percebesse, serviço de água e comida, não foi nada fácil sobreviver à temperatura e ao cheiro de enxofre.

Mas Moisés tinha que trabalhar. Precisava dar aos homens uma prova concreta da existência do Espírito; queria que suas leis básicas, as mais importantes permanecessem escritas e fossem “A Lei” para todo o sempre.

No entanto, ele não era um homem de escritas. Confundia-se com os idiomas que conhecia, com os sons e seus símbolos. Buscou, então, expressar-se por escrito do modo que todos entendessem as tábuas de pedra, talhadas no morro. Escreveu em duas tábuas o que se denominou de “Os Mandamentos”, cinco em cada uma. Quando terminou, cortou rasgou a pele do antebraço e fez com que o sangue desse cor às letras. Ao final desceu o monte Horeb com a ajuda de Josué e juntou-se ao povo.

O que viu o encheu de ira. O povo divertia-se ao som de timbales, fornicava pelos cantos e bebia; além do mais, adorava uma imitação tosca de bezerro feita com o ouro roubado no Egito, dançando e rindo a mais não poder. Já não esperava que ele vivesse, talvez mesmo o quisesse morto para exercer a liberdade conquistada, mas eis que, de repente, Moisés surge na companhia do comandante da repressão armada.

Ergue, então, com todo ódio as suas tábuas da lei e as arrebenta contra o bezerro de ouro, destruindo-o. “O povo queria fazer sua festa frente a um deus mais cordial”, segreda Aarão ao irmão.

Moisés juntou aqueles que lhe seguiam fiéis e se estes já não eram poucos, foram aumentando sob pressão. “Deus é paciente e misericordioso, perdoa delitos e transgressões, mas a ninguém deixa impune”. “Aqui será feita uma purificação sangrenta, pois as leis foram escritas com sangue. Os falsos guias serão aniquilados, serão entregues ao Anjo da Morte”. E deixando para Josué as execuções, retornou ao Monte Horeb para trabalhar pelo seu povo, implorar o perdão a Javé.

E ali, próximo ao topo permaneceu mais quarenta dias e noites, burilando novas Tábuas da Lei. Javé consentiu na renovação e Moisés pediu-lhe que perdoasse os pecados de seu povo ou ele também seria um derrotado, pois o povo de sua eleição tornar-se-ia pagão, voltaria à adoração de Belial. Esse argumento foi forte o suficiente para convencer seu Deus a manter a tão abalada aliança.

Ao descer novamente do monte, trazia em cada braço uma Tábua da Lei. Proclamou: “Maldita seja a pessoa que disser: essas pedras não são verdadeiras. Maldito aquele que vos ensinar: levantem-se e sejam livres novamente!” “Esse é o vosso Deus, façam tudo em sua honra; esmagarei com meu pé o pecador. E quem pronunciar seu nome terá que cuspir para os quatro cantos e lavar a sua boca, dizendo, Deus me livre! Para que a terra volte a ser novamente a terra, um vale de lágrimas e não um prado de tolices. Dizei amém a isso!”

E todo o povo disse Amém.

Comentários

  1. Maria Helena Kühner
    sáb 25th jun 2016 at 17:08

    Muito bom. O próprio título apontando a contradição “libertador e déspota”, leva a repensar a relação lei/poder – liberdade, importante em um tempo que viu não só as ‘tiranias’ do século passado como atuais formas de manipulação e massificação, obrigando a atentar para a relação entre uma liberdade individual, ligada a uma livre aceitação / internalização de ‘normas’ válidas e uma lei civilizatória que vise a organizar uma sociedade em que os seres humanos sejam realmente ‘sócios’ ou aliados.

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