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31 agosto 2014 por Publicado em: crônica 12 comentários

Dentre os momentos mais marcantes da história da humanidade estão aqueles em que surgem as Religiões. A ideia que brota quase sempre de um único cérebro, transborda atingindo centenas, milhares e milhões. É precisamente esse o caso de um enorme conjunto de seitas religiosas, denominadas genericamente de “Religiões Neopentecostais”, que se desenvolveram nos Estados Unidos da América a partir da última década do século XIX e empolgam, no século XXI, parcelas crescentes da humanidade em quase todos os continentes.

Os neopentecostais abrangem mais de dezenove mil denominações e congregam mais de trezentos milhões de seguidores. Possuem mídia televisiva e forte presença em todos os outros canais próprios de divulgação de massa. Influenciam a vida política das nações, compondo bancadas parlamentares cada vez mais influentes. Inicialmente seus alvos foram o parlamento, posteriormente prefeituras e estados Por vezes seu alvo é o Poder Central da República!

Estima-se que as seitas no geral movimentem mais de trinta bilhões de dólares anuais, boa parte dos quais com isenção de impostos e à margem de controles formais.

Encontraremos nessas crenças religiosas muitos pilares que lhes são comuns, tais quais a “doutrina da prosperidade” e a da “confissão positiva”; empregam conceitos comuns “a pobreza e a doença derivam de maldições, de fracassos, das vidas em pecado ou da falta de fé religiosa” e, em decorrência desses preceitos, um “verdadeiro cristão” deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido financeiramente, possuir saúde física, emocional e espiritual.

Outro pilar comum na maior parte das seitas é a permanente batalha espiritual entre os componentes da “Santíssima Trindade” e o Diabo, trazendo um renascer de conceitos medievais, tais como o confronto direto entre o homem e os demônios, as ditas maldições hereditárias, a posse dos crentes pelas forças “magnéticas” do mal. Não pocas vezes aqueles “pastores” ou “médiuns” operam “curas milagrosas” para doenças psíquicas ou físicas, chegando mesmo ao ponto de negação da materialidade dos males que afligem os homens.

Desenvolveram ainda formas arcaicas de encarar a fé religiosa, tendo por foco a busca de revelações diretamente feitas por Deus ou pelo Espírito Santo a seus “pastores”, “bispos” ou “apóstolos”, em relações de privilégios nas quais o rebanho é conclamado a inserir-se.

A unirem as mais variadas seitas, estão aspectos socialmente reacionários como os preconceitos claros ou encobertos contra a homossexualidade e sobre a possibilidade da mulher decidir sobre seu próprio corpo.

Muitas das seitas, numa busca que é quase sempre totalitária, anseiam pela exclusão do Estado laico, atrelando, por exemplo, a educação a formas do criacionismo bíblico. O contraponto dessas filosofias que negam a realidade e a evolução, que mistifica o conceito do divino, é o seu mais cru materialismo assentado numa estreitíssima aliança do espiritual com o dinheiro e os créditos bancários.

Elas substituem o ensinamento de Cristo “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, por um avatar que não lhes é exclusivo, mas que em nenhuma religião é tão explícito: uma moeda onde o lado “cara” tem a figura de Cristo, e o lado “coroa” a imagem do dinheiro, preferencialmente o dólar.

Na origem dos “Neo-Pentecostais”, as sementes que germinaram

A seta da história aponta para a “Ciência de Cristo”, como a inspiradora de todas as religiões neopentecostais subsequentes. Essa seita, fundada em 1886 por Mary Baker-Eddy, possui ainda hoje, um século após a morte de sua fundadora e “imperadora”, quase mil e novecentas igrejas, estando presente em setenta e seis países. A “bíblia” desse movimento, escrita pela  fundadora denomina-se  “Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras”, um best-seller por décadas. Em 1995, “Mother Mary” foi incluída no Hall da Fama de Hollywood e, em 2002, uma Biblioteca com seu nome e totalmente dedicada aos seus escritos foi franqueada ao público.

A “Grande Basílica” da seita, inaugurada em 1906, com a qual o Templo de Salomão do “Bispo” Edir Macedo tem a pretensão de concorrer, possui  capacidade interna de recepção de vinte mil crentes.

Deve-se assinalar que o jornal publicado pela “Ciência de Cristo”, “O Monitor”, ganhou ao longo de décadas sete prêmios Politzer, assumindo, inclusive, em determinados momentos históricos, posições progressistas e respeitáveis em defesa dos direitos humanos, após mais de cincoenta anos da morte de sua fundadora. De uma maneira geral pode-se dizer que essa crença, tendo sido a grande precursora das seitas neopentecostais, no decorrer dos anos perdeu sua belicosidade inicial e aproximou-se daquelas correntes evangélicas mais tradicionais, tornando-se menos autoritária e excludente.

Mas suas sementes originais de intolerância e ganância gerariam milhares de outras seitas. A “Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras” influenciará de modo direto, na primeira década do século XX, homens como E. W. Kenyor, o inspirador da “Teologia da Prosperidade” e K. Hagin o fundador da primeira “Assembleia de Deus”, que ele inaugura após um propalado batismo pelo “Espírito Santo”, em 1937.

Da mesma maneira, a “Ciência de Cristo” inspirará o tele evangelismo, que desde a década dos anos oitenta frequenta diversos canais da televisão aberta, a bordo do qual embarcam prestigiadores como o já citado “bispo” Edir Macedo. Ele, em nosso país é paradigmático: antigo pesquisador do IBGE na década de 1970, católico desde nascença, teve sua “revelação” em 1976 e fundou, em 1977, a “Igreja Universal do Reino de Deus”.

Mas voltemos a Mary Baker. Ela nasce em uma família pobre, no ano de 1821. A menina, fisicamente frágil, tem dificuldade em acompanhar os estudos escolares e os abandonará prematuramente, antes da conclusão do primeiro grau. Transforma-se em uma adolescente indolente que prima por chamar a atenção de seus familiares sobre si, num ar incontido de presunção e superioridade. A cada vez que é contrariada pelos parentes, desenvolve “ataque dos nervos” os quais adotará por toda a vida, como seu método pessoal de tiranizar as pessoas. De todos os modos, a mocinha chegará à idade adulta sem jamais haver trabalhado, nem mesmo nos afazeres domésticos.

Para alívio de seus pais e irmãos, Mary casa-se aos vinte e dois anos com um jovem chamado Glover; viajam para o oeste e estabelecem seu lar. Mas, por um desses infortúnios da vida, após apenas um ano e meio de casada e estando grávida, morre-lhe o esposo. Ela regressa à casa dos pais e volta a sofrer de “ ataques nervosos”. Nascido seu filho, ela descobre que a maternidade é um “serviço” que tão pouco lhe atrai e  decide desfazer-se da criança.

Novamente repetem-se as cenas da adolescência em que ninguém se atreve a contradizê-la para evitar os conhecidos achaques. Ela seguirá levando uma vida parasitária até os cincoenta anos de idade, tendo sido sustentada primeiro pelo pai, depois pela irmã e finalmente pela caridade alheia. Mas, ainda estamos longe dessa época. Por enquanto, ela descobre poder-se acalmar em um sofá de balanço, e aos trinta anos de idade esta genial atriz de um mundo patológico, representando a paródia de o eterno sofrer, permanecerá deitada quase todos os dias e noites.

Enquanto tudo isso ocorre, na distante Portland chega certo discípulo do alemão Messmer e traz para a América a novidade do hipnotismo, uma alternativa para a “cura” dos males do espírito. Um relojoeiro de nome Quimby interessa-se pelo método e começa uma espécie de pesquisa em que anota todos os efeitos da hipnose sobre os “médiuns” e os enfermos. Na sua simplicidade, Quimby percebe que pode auxiliar pessoas doentes, mesmo dispensando o recurso do hipnotismo, e, também que pode viver de suas “curas”. Então,“Dr. Quimby” desenvolve um método próprio, que ele denomina “Cura pela Mente”, como “Jesus Cristo fizera antes dele dezoito séculos atrás”.

Mary Baker ouve falar dos resultados desses tratamentos e ela decide que quer se curar. Em 1862, consegue arrancar dinheiro dos familiares e viaja até Portland, submetendo-se de corpo e alma a Quimby. Ora ela possuía uma predisposição para o “milagre” do Dr. Quimby; além disso, arranca de si mesma a “vontade de possuir saúde”, afinal, aquela era a sua última cartada para que um “prodígio”, fazendo-a “crescer acima de todos” pudesse ocorrer. Se voltasse no mesmo estado de enferma para a sua cidade seria desprezada e, se curada, ela seria o próprio prodígio!

Ao final de uma semana de tratamento, a inválida encontra-se completamente curada; rejuvenesce e faz brotar em si mesma uma energia que a fará, em breve, subjugar e fazer-se sentir por milhões de pessoas. Faz com que Quimby empreste-lhe todas suas anotações, as tais “Perguntas e Respostas” de suas pesquisas, que ela, à noite, copia. É a primeira vez na vida que ela demonstra uma verdadeira paixão por algo.

Ao retornar à casa da irmã, Mary Baker é, no seu próprio dizer, uma pessoa que “ressuscitou como Lázaro” e faz de Quimby “um continuador de Cristo”. Sobre esses fenômenos profere palestras, promove demonstrações, enfim, pratica um ensaio geral sobre o que fará apenas dez anos após. Parte  de New-Hampshire onde nada e ninguém mais a amparará e viaja com sua pequena maleta para a vizinha cidade de Lynn.

Ainda faltam anos para que ela se transforme na mulher mais bem sucedida do princípio do século XX. Por enquanto, andará de casa em casa como uma parasita. Pessoas simples a acolhem como a uma peregrina, a “profetiza” que fala de curas maravilhosas. Nenhuma de suas estadas durará muito, Mary Baker não possui o mais tênue sentimento de gratidão para quem a ajude ou sustente. Sempre tentará subjugar e usar a todos os que lhe deem guarida. Seu caráter dominador, tirânico, suscita sempre conflitos e desavenças com as pessoas, inevitáveis consequências de uma presunção incontida.

Tem consciência de que seu temperamento instável e irritadiço é incapaz de “curar pela mente”. Para tanto seriam necessários empatia, calma, ouvidos, domínio e a paciência de um Quimby. Logo, ela precisa de um mediador. Para tanto publica anúncios em jornais, buscando aquele que “deseje aprender a curar enfermos”. O seu primeiro discípulo aparecerá em 1870, um jovem operário de nome Kennedy. Ela, mediante um contrato escrito em que cada um ficará com metade dos proventos, irá treina-lo em sua “ciência”. Unem-se, então, o Cristo e o dólar. Mas ainda falta-lhe o poder!

A dupla arrenda uma sobreloja, onde também residirá, ele praticando sua “medicina” (a árvore em frente ganha uma tabuleta: “Dr. Kennedy- Ciência de Cristo”) e ela escrevendo e a tudo controlando. O êxito é tão grande que em três meses alugam também a loja abaixo. O plágio de Quimby é absoluto. Kennedy decora e repete: “Que o homem é divino, que Deus não quer o mal e, portanto, a dor, o mal e a enfermidade não existem. Os males não são senão imaginações, um erro de que a gente deva se livrar”.

Em determinado momento Mary Baker decide que Kennedy já não lhe basta. Quer reunir mais apóstolos que levem ao mundo a não existência das doenças. A mestra de a “Ciência de Cristo” começa a formar seus “médicos” em cursos de seis semanas de duração. O êxito de Kennedy, que chega a faturar doze mil dólares por mês, atrai dezenas de operários e pequenos comerciantes para os cursos. Ela a princípio cobra-lhes cem dólares e, posteriormente, trezentos pelo curso e, por contrato, 10% de todos os ganhos futuros.

Mary Baker sente o fumo do sucesso e desde esse primeiro momento tenta patentear “suas descobertas” e convertê-las em dólares. Na sua crença não existe a matéria, só o espírito, no entanto, as notas bancárias são mais que reais para essa mulher.

Após dois anos de parceria Mary Baker deseja, afinal, livrar-se do pacífico Kennedy. Do dia para a noite ela suprime a prática de se tocar no paciente, na qual Kennedy fora treinado e a qual praticava. Era a primeira de muitas excomunhões que faria: de seus lábios convulsos brotaram todas as monstruosidades imaginárias. Atribui a Kennedy um tal de “influxo diabólico”, que é a própria  necromancia medieval renascida. Com esse processo a sua “Ciência de Cristo” criará mais um pilar de sustentação: “o magnetismo animal malicioso”.

Mary Baker se auto promove em “a enviada de Deus para guiar seu rebanho na Terra”. Todos os domingos ela reunirá seus discípulos para a prédica dominical, acompanhada por música coral e piano. Ela ascende de professora a sacerdotisa, transformando sua terapêutica em sacerdócio.

Nega, desde sempre, todo o seu passado e apaga qualquer referência que um dia fizera a Quimby, “a quem jamais conhecera”. Sendo necessário criar uma “Legenda Áurea” sobre si mesma, toda a infância da sacerdotisa é agora recontada, incluindo entrevistas com anjos e Joana D’Arc. Ela própria define como sendo em 1866 o momento de “sua graça” (após a morte de Quimby, naturalmente), quando o Senhor apareceu-lhe diretamente e inspirou-lhe a “Ciência de Cristo” e as leis divinas da vida.

Mary Baker e sua metafísica entram para o reino do absurdo e nesse movimento lança as pedras fundamentais de todas as futuras seitas neopentecostais dos séculos XX e XXI.

Ela tornará a casar-se e seu terceiro marido será um dos discípulos, agora apóstolos, Gilbert Eddy, em 1887.

Apesar de enriquecida, Mary Baker-Eddy sabe que todas as religiões em seus estágios embrionários não podem se permitir cismas, que possuem a possibilidade de destruir todo seu edifício. Contra todos aqueles que buscam caminhos independentes do seu, ela, além da excomunhão, move-lhes processos na justiça dos homens. Chegará mesmo ao ponto de processar um ex-apóstolo por bruxaria, isso quase no século XX. O juiz encarregado do caso sorri na face daquela mulher magra e grisalha, colérica e que mal se contém de ódio, aquela que se diz “enviada pelo Espírito Santo”. O juiz declara-se incapaz de julgamentos cabalísticos e encerra uma de suas dezenas de processos.

A imprensa começa a indagar sobre as origens de tal sacerdócio e o prestígio de Mary Baker-Eddy ameaça desmoronar na pequena Lynn. Ela toma uma das grandes decisões de sua vida. Buscará nova cidade, grande o bastante para seus projetos. Com todo o dinheiro acumulado irá mudar-se para Boston, carregando consigo apenas seu marido Gilbert, cuja saúde não resistirá. A viúva declarará que a morte do marido ocorrera devido ao “arsênico metafísico”, um veneno mental emitido pelos demônios excomungados por sua fé.

Em Boston, ela adquire uma residência de três andares, na Avenida Colombo, a via mais elegante da cidade. Decora cada ambiente com esmero, quadros e tapetes. Seus alunos serão pessoas “refinadas” e não mais os pobres de Lynn. Sua nova escola é nomeada de: “Universidade Metafísica de Massachusetts”, com uma autorização de funcionamento comprada dos agentes do Estado de Massachusetts.

Todo domingo Mary Baker-Eddy sobe ao púlpito e o público que superlota a sua Universidade-Igreja retém a respiração perante sua ardente oratória. Desde então sua figura somente será vista em momentos especiais, criando ao redor de si uma auréola de mistério e encantamento. Para evitar os tropeços do passado ela erguerá anteparos que a distanciem de quem foi e de quem é: serão secretários, atendentes, advogados.

Ela também conhece muito bem a América de 1890 e sabe que aquele que deseje conquistá-la deverá primeiro ganhar a consciência das massas, com o ensurdecedor ribombar da propaganda. Sabe também, como saberão todos os futuros líderes das seitas neopentecostais que qualquer produto deve buscar atender seus consumidores, identificar suas necessidades e criar novas. Assim, Mary Baker-Eddy usará e abusará da publicidade.

Cria o primeiro serviço de atendimento telefônico-religioso; em seguida, funda o “Jornal da Ciência de Cristo”, que com asas de mercúrio chegará a todos os recantos de Norte-América, trazendo a boa nova das curas de Boston, um novo método de “medicina universal”.

Desde Nova York, Filadélfia e New Jersey chegam enfermos, muitos dos quais se tornarão apóstolos da nova doutrina. E cada novo “doutor” trabalhará para aumentar as assinaturas do jornal. E, desde então, novos alunos sempre acorrerão a Boston.

A engrenagem funciona a todo vapor. Deste modo, entre 1890 e 1900 teremos trinta e três “Academias para doutorado” na “Ciência de Cristo”, distribuídas por quase todo o território americano. A bíblia “Ciência e Saúde” alcança a espantosa cifra de trezentos mil exemplares vendidos.

Todo o dinheiro das doações recolhidas pela Universidade e percentagem das Academias irá para a conta bancária de “Mother Mary”; dezenas de milhões de dólares que serão aplicados na construção de Templos e em esplêndidas mansões de retiro.

A cobiça de Mary Baker-Eddy não encontra limites e por isso a “Ciência de Cristo” será organizada dentro das melhores bases comerciais e contará com profissionais em áreas-chave. Logo surgirão souvenirs, imagens, fotos autografadas da fundadora, mais e mais livros, folhetos, até mesmo utensílios domésticos.

O prestígio de Mary Baker-Eddy aumenta dia a dia. A cada aparição sua um público de dez, quinze mil pessoas aglomera-se para ouvi-la falar. Em Chicago ela organizará sua primeira “Festa do Espírito”, em 1888, consagrando-se de vez. Mary assume-se com “A Profetiza” e decide construir o “Templo da Profetiza de Cristo”. É sua santificação!

Ao abrirem-se as janelas do século XX, a igreja de Mary Baker-Eddy estará entre as quarenta maiores empresas norte-americanas, e uma das dez mais lucrativas. É chegada a hora do profissionalismo. Mary Baker define uma organização absolutamente piramidal de poder e de lucros. Cria um “Board of Directors”, do qual será a Presidente, e todas as centenas de igrejas implantadas terão de manter uma obediência irrestrita à “Santa Madre Igreja”. Instruções específicas garantem percentagens de repartição dos lucros, métodos de contabilização dos resultados e impedem qualquer tipo de heresia doutrinária. Alguém tem dúvida a respeito do mestre que realmente inspirou um tipo como Edir Macedo?

Assim como o juiz de Lynn desnudara-lhe a hipocrisia e a paranoia pecuniária, agora surgiria a voz do jornalista, humorista e intelectual, Mark Twain, desmascarando-a: Como Mary Baker dizia que o livro “Ciência e Saúde” lhe havia sido ditado por Deus, por que ela cobrava direitos autorais sobre algo que só à divindade seria devido?

Mark Twain jamais a abandonaria em suas críticas enquanto ela vivesse. Ele denuncia na imprensa como sendo uma patranha a religião que somente se ocupa em acumular dinheiro para si mesma e para seus próprios membros, sem jamais preocupar-se em praticar a caridade ou em possuir um mínimo de altruísmo. E interroga-se: quando ela se aventuraria pela política?

As respostas de Mary Baker-Eddy a quaisquer questionamentos sempre foram de um total cinismo, quando não de cólera. Por exemplo, diz que “Deus ordenara-lhe a cobrança para cada graça requerida, pois o cordeiro, para obter a graça, teria que sacrificar-se antes, pagando”. Hoje  não ouvimos essa mesma frase reverberar nos templos neopentecostais?

Apenas e tão somente a vida será capaz de desmistificar aquela grande charlatã: ela envelhece, perde seus dentes, os membros se entorpecem, surge a dificuldade de fala e já não escuta o que lhe dizem; os cabelos escasseiam e as rugas se aprofundam. Não é a sua religião que afirmava que a doença e a velhice não existiam?

Mas as proporções de seus negócios haviam se tornado colossais. Quando a fundadora completa oitenta anos, a sua igreja contava com mais de cem mil discípulos praticantes; os seus templos de pedra e mármore se disseminavam pela América; de toda a Europa surgiam mais e mais adesões e a fortuna pessoal da “Mother” era estimada em mais de dez milhões de dólares, aos valores da época.

Aos oitenta e dois anos, Mary Baker-Eddy encara um novo desafio, lançado pelo já fundado Templo de Nova York: erguer uma Basílica muito maior que o templo novaiorquino, para a Congregação das  Igrejas. Essa Basílica, que constitui ainda hoje um dos mais belos edifícios de Boston, foi construída com doações que chegaram a dois milhões de dólares, contendo acomodações para vinte mil crentes. Foi inaugurada em 1906 ao som do hino: “Pastor, indica-me o caminho”. Hino modificado, mas sempre repetido pelas novas seitas nos últimos cem anos.

A multi-milionária Mary Baker-Eddy morre no auge de sua fama, dona de imenso poder não somente sobre sua religião mas, também, sobre grande parcela dos Congressistas americanos, aos oitenta e nove anos de idade, no ano de 1910.

A senda por Mary Baker-Eddy aberta é disputada nos dias de hoje, por quase dezenove mil seitas, algumas de grande sucesso, utilizando as mesmas bases metafísicas que ela introduziu há mais de um século e que podem ser resumidas na união maquiavélica e perniciosa da religiosidade com o dólar, na exploração da crendice popular e na busca pelo poder terreno!

Comentários

  1. Mariangela
    seg 01st set 2014 at 1:18

    Extremamente lúcido …
    Parabéns..
    Abraço

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  2. dirlene marques
    seg 01st set 2014 at 11:04

    Que otima cronica. Sempre procurei olhar os pentecostais pelo lado dos seus seguidores e nao pelos “pastores”que sempre vi de forma muito critica. Assisti um culto aqui no templo da Assembleia de Deus em BH e fiquei estarrecida com a forma de arrecadacao. Agora, com seu texto, fica mais claro de onde vem a moeda: de um lado cristo do outro o dolar.

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  3. Luciano C. Lima
    ter 02nd set 2014 at 13:16

    Caro Carlos Russo
    A sua crónica é fundamental para entendermos o ataque que é perpetrado contra a humanidade através do uso de classe da religião. A religião é uma criação que a humanidade precisa para lidar com o medo e com o desconhecido. Neste aspecto integra a cultura e a civilização. Mas a psicopatia descobriu nela um ponto vulnerável do ser humano e passou a usa-lo para dominar e destruir a nossa espécie. A sua cronica recuperou a história deste ataque num aspecto, aquele que se refere à invenção desta maldição que se chama movimento pentescostal. Para conhecer mais sobre a psicopata Mother Mary consultei o verbete Mary Baker Eddy na Wikipédia e deparei com uma mentira grotesca que mistifica e falsifica a biografia daquela que é a teórica mais importante da igreja-dollar; fiquei tão indignado com a enciclopédia que enviei para eles a sua cronica http://proust.net.br/blog/?p=568 na esperança de que eles façam a correção necessária. A manutenção desta falsidade na wikipédia compromete totalmente a integridade desta enciclopédia que, até agora, tem sido para mim uma referencia fundamental. Vamos ver se eles farão a correção: se não, já é um dado indicativo para alcançarmos o objetivo deste site – eles mostrarão a que vierão e quem são os seus verdadeiros senhores. Grato por mais esta contribuição importante para a revelação do humano e seu descolamento da psicopatia que, como um parasita, penetrou na humanidade e a suga há dez mil anos pela via da ruptura da comunidade em classes, com a desumanidade assumindo a condição de classe dominante através de sucessivas formas de opressão: escravismo, feudalismo, colonialismo, capitalismo e imperialismo.
    A sua cronica é fundamental para compreendermos o atual avanço político dos chamados evangelicos e, principalmente o alçamento da condidatura de Marina Pintada e a queda do avião em santos.

    Responder
  4. Ruy Penalva
    ter 02nd set 2014 at 21:40

    Também sou médico e fui militante nesse tempo. Fiz residência na USP. Sou da Bahia. Belo trabalho de pesquisa das origens do neocharlatanismo monetário.

    Responder
  5. sáb 13th set 2014 at 23:14

    Texto esclarecedor e ao mesmo tempo inspirador. Esclarecedor porque organiza elementos para entender a origem teológica e histórica do neopentecostalismo. E inspirador porque impulsiona o leitor a pesquisar mais informações para entender a relevância e a força que eles tem, inclusive para a consolidação do capitalismo. A argumentação da teologia da prosperidade é algo que até mesmo Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, não poderia prever na dimensão em que ela se faz presente hoje.

    Responder
  6. Marina Silva
    seg 15th set 2014 at 14:05

    Por isso serei presidente do Brasil, e acabarei de uma vez por todas com todos voces, enviados do demonio.

    Responder
  7. dom 21st set 2014 at 18:39

    Sempre questionei o apelo dos ditos evangélicos ao dinheiro. Nunca confiei na pregação deles. Desejo apenas que as pessoas tomem conhecimento das verdadeiras intenções desses mercenários. Tomara que todos sejam desmascarados.

    Responder
  8. Alexandre
    qui 16th out 2014 at 3:02

    muito bom texto, engajante e impossivel de nao ler ate o final. Mas afinal o que todos somos alem de ovelhas em um rebanho na eterna procura por um pastor que nos acolha e garanta um futuro promissor em vida e pos-vida. A critica se da ao povo? aos charlatoes ? ao capitalismo ? ou a democracia que permite a criacao desses cultos ?

    Responder
  9. jesse
    seg 27th out 2014 at 19:36

    Leiam atos dos apostolos cap 4 versiculo 32 creio. leiam tambem santiago 5. O primeiro fala sobre a comunidade de bens entre os primeiros cristaos, ananias e safira e a outra é sobre o fim dos ricos opressores. Saudaçoes

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  10. Regina Maria Abu-Jamra Machado
    ter 11th set 2018 at 10:21

    Elucidativa, esta recapitulaçao das origens e da historia das religioes pentecostais ajuda a compreender varias décadas de pensamento magico. Nao sei se todas as bengalas que inventamos para nos apoiar ao longo da vida sao igualmente perigosas, mas certamente nao correspondem às nossas melhores aspiraçoes.

    Responder
  11. Antonio Pessin
    qui 13th set 2018 at 12:48

    Texto muito elucidativo, a ponto de me sussitar:
    Não será este o mote de todo o populismo?
    A vida é agora, portanto devemos vivê-la intensamente, no entanto, o preço para essa plenitude, passa por elegermos, ao longo dessa existência, salvadores que a tornarão possível. Me parece que esses “messias” são o “mal” necessário, dada sua reprodução acelerada, na medida em que a humanidade caminha.

    Responder
  12. Orlando Sampaio Silva
    qua 19th set 2018 at 20:00

    Caro Carlos Russo Jr.,
    Li, com grande interesse mesmo acadêmico e atenção, seu importante texto sobre o neopentecostalismo.
    No passado, estive envolvido em estudos sobre “igrejas pentecostais” de São Paulo. Fui aluno, na pós-graduação de Cândido Procópio Ferreira de Camargo que, nos primeiros anos 70, realizou um estudo sócio-antropológico sobre o tema. Trabalhei com ele um pouco nesta pesquisa, que se desenvolveu no CEBRAP, em seu começo, onde trabalhávamos. Um dos itens centrais do estudo eram as “curas pelo Espírito Santo”; também, a “fala de línguas”.
    Em Belém, PA, funciona uma seita pentecostal “Assembléia de Deus”, que foi a primeira igreja pentecostal introduzida no Brasil. Veja, ela teria sido trazida para nosso país em 1911, um ano depois da morte de Mary Baker-Eddy! Durante a minha residência em Belém, eu, como um mero morador, acompanhava a existência e o funcionamento desta religião, que se encontrava instalada em um templo muito simples, de tamanho médio, que era frequentado por pessoas das classes média e baixa. Localiza-se em área do centro residencial tradicional da cidade. Soube-se, em Belém, que o pastor desta igreja teria tido um sonho no qual ele teria recebido a missão divina de construir um templo grandioso, que fosse maior do que a “Basílica de Nª Sª de Nazaré”, sendo esta a grande igreja católica que centraliza, na cidade, as comemorações do culto à Maria, sendo esta uma imensa e suntuosa igreja toda revestida de mármore de Carrara, projetada e construída por engenheiros italianos. Ela sedia, lá, a congregação dos padres barnabitas, italianos. Pois bem, o referido pastor procurou concretizar seu sonho construindo um imenso templo com paredes recobertas de mármore preto. Ele não chega a ser do tamanho da “Igreja de Nazaré”, mas é muito grande.
    Registros sobre o pentecostalismo no Brasil.
    Com um abraço de
    Orlando Sampaio Silva

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