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11 agosto 2014 por Publicado em: ensaio 2 comentários

Em nosso ensaio anterior falamos da lucidez consciente de Tolstói, de seus romances épicos que surgiram quando o século XIX fechava as suas cortinas. Hoje nos deteremos em seu contemporâneo na Rússia czarista, aquele que ocupou para a posteridade uma importância universal, cujo conjunto da obra é tão atual quanto o possam ser os tormentos da alma humana e os escaninhos de nosso subconsciente.

Enquanto Tolstói simbolizava o corpo, o saudável, a natureza, o apolíneo, o epopeico, Dostoievski encarnava a alma, a doença, a pobreza infamante e, porque não, o dionisíaco que leva à curiosidade do conhecimento do coração humano, cujas veleidades mais ocultas e mais criminosas ele punha a nu. Daí o impacto moral, o horror religioso do seu estudo da alma.

Se por um lado Tostói insistia “nada tenho a ocultar dos homens”, o homem das dvorniks de São Petersburgo comentava: “eu carregava dentro de mim o amor sigiloso, tinha horror a que me pudessem ver, encontrar, reconhecer”.

Dizia Merejkovski: “ao lermos Dostoievski deparamo-nos com nossos próprios pensamentos ocultos que não confessaríamos nem a um amigo e nem a nós mesmos”, porque eles contêm uma arrepiante revelação: a revelação das profundezas da consciência, os mistérios do subconsciente.

Nietzsche jamais ocultou o quanto bebeu em Dostoievski chamando-o de “meu mestre, com seu profundo e criminoso rosto de santo”, cujos medos consistiam em “um receio profundo e místico, que obriga ao silêncio; começa diante da grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo atormentado e possesso, no qual o santo e o criminoso são um só…”. Freud, por seu lado, carregava consigo todas as obras da maturidade do escritor e a cada página colava suas observações. A seu amigo Zweig ele confessou jamais passar sem ler Dostoievski pelo menos um dia por semana.

Se o estilo do grande escritor é essencialmente romântico pela glorificação dos sentimentos e dos instintos, pela desvalorização das ciências e da razão, Steiner debita ao criador de “O Idiota” e do “Grande Inquisidor” a qualificação de ser o mais sombrio de todos os metafísicos trágicos.

Dostoievski escrevia seus livros como peças teatrais onde retinha a estrutura essencial do diálogo, e a partir daí expandia as direções de cena. Resultavam dramas colossais, cênicos  em quase toda a estrutura, com todas as ações compactadas em poucos dias. Em “Os Irmãos Karamazov”, até o julgamento de Dimitri, tudo se passa em apenas cinco dias; já a primeira parte, a mais volumosa, de “O Idiota”, transcorre em 24 horas; “Crime e Castigo” tem a duração de apenas uma semana.

Dostoievski conduz seus leitores até conflitos intensos de alma que podem até mesmo serem cruéis. As relações apaixonadas dentro das obras agem de  forma hipnotizadora, enfraquecendo a nossa própria vontade, pois “com uma volúpia consciente, diabólica, ele retarda o momento em que seremos conquistados, levando-nos ao paroxismo da angústia interior”, sublinha Zweig.

Personagens dostoievskianas-

Ao iniciamos a leitura de um livro de Dostoievski, deparamo-nos com um escritor que em meia dúzia de frases descreve todo o ambiente em que seus quadros se passarão. Vestuários, mobiliário e praticamente todo o espaço dedicado por outros criadores à natureza, é aqui ocupado pela humanidade e dado que não encontraremos mais que sucintas descrições ambientais, tudo estará repleto de seres humanos. O ambiente, desse modo, apenas fornece uma restrita base material para que os personagens se locomovam.

Herança de Balzac, Dostoievski possuía uma forte inclinação fisiognomista, buscando nas características e nas expressões faciais e corporais, a identificação de aspectos do caráter e do estado de alma de seus personagens; mas este componente descritivo, tais quais os ambientais, ocorre de forma rápida, sendo realizado com extremada maestria.

Se buscarmos identificar o principal motivo disso tudo, veremos que cada personagem tem um envolvimento tipicamente trágico, expressando-se quase que exclusivamente através da “paixão”. É no desenvolvimento desta “paixão” que surgem as controvérsias que, incessantemente, emulam  o indivíduo que anseia interpretar a si mesmo e, ao mesmo tempo, a todos os outros personagens, ao mundo e, até mesmo, a Deus.

Tal e qual no teatro trágico grego, nos momentos em que essas “personas” ultrapassam suas medidas, transformam-se em seres “possuídos” e que, no descrever de Zweig, “quando extravasam os seus sentimentos, já incandescentes, é quando desnudam toda a verdade de sua alma”.

Ora, por isso mesmo as personagens de Dostoievski dificilmente não podem ser por nós percebidas como pessoas de carne e osso, seres que pratiquem os atos diuturnos de todos nós, posto que elas sejam compostas quase que exclusivamente por espírito. Até mesmo quando comem, bebem e dormem, tudo isto é dissertado tendo como referência o seu significado na ação espiritual do drama, no desenvolvimento de suas “paixões”.

E como nos é transmitida essa “paixão”? Essa transmissão, como nos ensina Bakhtin, ocorre quando o autor ultrapassa a ideia do diálogo e chega ao que ele denomina multivocalismo, isto é, a polifonia, pois “após Shakespeare talvez Dostoievski seja o maior e mais polifônico de todos os dramaturgos”. Toda a paixão nos é transmitida através da palavra, portanto é preciso ouvir e fazer falar suas personagens para que elas nos transmitam suas próprias existências.

Por muito tempo julgou-se que o grande autor não escrevia adequadamente, ou o fazia de modo apressado, pressionado por suas permanentes dívidas e pelo sustento de seus familiares diretos e agregados, coisas que o afogaram por quase toda a vida. Nada mais ingênuo. Bakhtin nos descortina que, por meio da inexistência de subjetividade, os personagens não têm uma clara identidade unitária e, nesse sentido, a visão de mundo do escritor torna-se um espaço controverso, contraditório e sem unidade, despedaçado, ocupado por seus “doentes sagrados”. As paradas, as repetições, o gaguejar, são indispensáveis, porque “debaixo dessa palavra que falhou existe uma vibração, uma comoção secreta, e nós saberemos não somente o que uma personagem discursa, mas também o que ela dissimula”.

Um drama trágico com “doentes sagrados”-

Zweig observou  que “a  alma em Dostoievski é um puro caos; encontramos em sua obra bêbados que o são por desejo de pureza, criminosos por desejo de arrependimento, homens que violam virgens por respeito à inocência, blasfemos por necessidade religiosa”. Assinala ainda que não haver unidade nesse psiquismo humano, sendo que subsiste uma psicologia analítica que dissocia e desfibrila; como comparação literária nos diz que se em Homero, “Ulisses é manhoso, Aquiles, corajoso, Ajaz irascível e Nestor é prudente”, enquanto que em Dostoievski, todos as personagens são ambíguas e suas condutas, imprevisíveis. As prostitutas são santas, assassinos arrependem-se e, condenados pelo fórum íntimo mais que pelas leis ou justiça, alcançam a altura de espíritos libertos.

De toda maneira, de conflito em conflito, as personagens chegam a estados de desdobramento de suas personalidades e temos o surgimento de um “duplo”. Michikin e Rogogin são a cara e a coroa de “O Idiota”.

Se a tragédia grega buscava a “katarse” dos seus heróis e do público que a presenciava, nas obras do grande escritor seu correspondente é a “confissão”, que leva, por meio da humilhação, à purificação da alma. Logo, o mundo trágico de Dostoievski é um mundo de dor, onde todos sofrem, quer na doença, quer na miséria, quer nas injustiças sofridas, em decorrência de suas paixões.

A sensualidade amorosa, por ser paixão, nunca é um sentimento doce, terno e harmonioso; pelo contrário, muitas vezes ela é uma tentação monstruosa que, ao invés de conduzir à felicidade, conduz à loucura e à ruína da personalidade. Sofre-se por tudo isso, muitas vezes ao mesmo tempo, e serão as dores e os sofrimentos que resgatarão do mal e do pecado os personagens, libertando-os.

Religiosidade num escritor eslavófilo-

A fé de Dostoievski em Cristo é o referencial em que aportarão todos os seus anseios de máxima humanidade. O que queremos ressaltar é que, diferentemente de Cristo, a crença em Deus é muito mais problemática no autor. Seus personagens confessam que “Deus torturou-me a vida inteira” (Ivan Karamazov), simbolizando um conflito persistente entre sua razão a negar e a sua sensibilidade afirmar a necessidade de um porto seguro onde se abrigaria a pureza, o amor e a paz. Zweig diz que “como Sísifo, Dostoievski empurra eternamente o rochedo para as alturas do conhecimento de onde despenca sempre.”

Essa dúvida atroz empurra o grande escritor para o abrigo de um Cristo que se torna russo, e é da Rússia que ele crê que surgirá a salvação de toda a humanidade. Nesse sentido ler Dostoievski significa penetrar no universo de um grande nacionalista, onde o próprio destino da humanidade passa pelo destino do povo russo. Por isso, nele, jamais haverá uma só emoção da alma humana que não encontre seu lugar decisivo na alma do povo russo. “Apresentar a emoção humana mergulhada em sua aura, flutuando livre e solta dentro do elemento nacional, talvez seja a quintessência da liberdade na arte do grande escritor”, disse W. Benjamin.

Dostoievski deseja mostrar exclusivamente, seja conscientemente ou inconscientemente, a ação espiritual de suas “personas”. Seu paradigma é a imagem de Cristo, mas esta sem dúvida é diferente daquela que nós ocidentais dele possuímos, pois a que ele incorpora é profundamente ortodoxa e, como não poderia deixar de ser, eslavófilo; um Cristo que é destituído de sua liturgia e encarado única e exclusivamente como homem, como o homem em sua perfeição. É nesse sentido que Ele simboliza a Verdade, oferecendo a nós, mortais, a verdadeira Liberdade, uma Liberdade final, que jamais ocorrerá na Terra.

Logo, a Liberdade, assim como o bem e o mal sempre presentes em Dostoievski, apresenta-se exclusivamente sob o aspecto metafísico, nunca do ponto de vista político.

Outro aspecto a se considerar dentro do conceito de liberdade, é que ela carrega limites  necessários, e em seus termos cabe ao homem posicionar-se, dado que a liberdade sem limites, como um valor absoluto, é destruidora e abre as portas ao niilismo, ao orgulho e ao individualismo absoluto, que a tudo nega e a tudo corrompe. E entre o bem e o mal, na afirmação de sua liberdade, todos os sentimentos humanos são complexos, instáveis; eles confundem-se, atropelam-se e se combatem com extremo vigor.

 

Somente o povo russo possuiria a capacidade de compreender aos outros povos e por isso seria até mesmo necessário “que todos os homens se tornem russos”, ele chegou a dizer. Esse messianismo, na verdade, constitui uma nova ambiguidade. Na verdade, na visão de mundo de Dostoievski há mais que uma luta anti-racionalista; ele condena os germes de uma revolução social que já fermentava em terra russa. Presume que qualquer revolução que se fizesse contra a autocracia redundaria em uma nova autocracia, quando apenas ocorreria uma mudança de senhores e o povo permaneceria reduzido à servidão, em sua situação de rebanho. Prevê que o princípio religioso seria sacrificado e, em nome de uma futura felicidade social, crimes seriam praticados.

Dostoievski chega a desprezar as influências ocidentais, racionalistas, democratas e socializantes em pró de um novo eslavismo e a prefere a ordem à luta pela liberdade política; ao mesmo tempo, ele jamais se aliou aos poderosos, em nenhum momento frequentou os aristocratas, sempre se revoltou contra aqueles que atacassem as crianças, aos “Humilhados e Ofendidos” da Terra. Viveu uma vida humilde, sofrida, entremeada de crises epilépticas, perseguido por dívidas, por suas incongruências e dúvidas.

Enquanto Tolstói em toda a sua vida buscou soluções sociais para os problemas humanos, ele próprio intitulando-se “ um anarquista cristão”, Fiodor Dostoievski era um conservador. Um conservador liberal e profundamente humanista, que propugnou pela dignidade do ser humano, pelo amor ao próximo, pela fraternidade universal, expressando como ninguém o sentimento de com-paixão pelos fracos e oprimidos e pela redenção dos degradados sociais. Ao mesmo tempo, satirizou e ridicularizou como ninguém as vaidades, a corrupção social e a mediocridade das altas rodas.

Segundo André Guide, Dostoievski “tem sempre qualquer coisa para desagradar a todos os partidos” e na linguagem ainda do século XX, “a todas as correntes ideológicas”.

Comentários

  1. Thais
    dom 17th ago 2014 at 14:14

    Ótimo texto, interessante, esclarecedor. Adorei!

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  2. dom 13th ago 2017 at 18:04

    Muito interessante o paralelismo entre dos dois grandes escritores . Não posso deixar de pensar que eles se completam como a luz e a sombra da grande alma rusa. Quem a sombra? Quem a luz? A experiencia de cada alma decidirá.

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