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22 maio 2014 por Publicado em: ensaio 8 comentários

Ao contrário do que se possa pensar, para a maioria dos burgueses parisienses, a ocupação nazista que durou quatro anos (1940 /1944) não foi tão má quanto poderia parecer, afirma Gerassi, o biógrafo mais importante de Sartre.

O metrô funcionava bem, os teatros faziam sucesso, os bares e os restaurantes viviam cheios. É bem verdade que o café não era mais o mesmo, que a bebida tinha uma qualidade discutível, que a suástica drapejava sobre as Tulherias, sobre a Câmara dos Deputados e sobre o Palácio de Luxemburgo. Também é verdade que a tropa alemã descia diariamente os Champs-Élysées, sempre ao meio-dia e meia, marchando a passo de ganso; que a Torre Eiffel amanhecera, num dia de verão de 1940, adornada com um V gigantesco, acompanhado por um cartaz que dizia: “Deutschland siegt auf Allen Fronten”, ou “A Alemanha vence em todas as frentes”.

Ainda assim, os burgueses comiam muito bem, graças tanto às ligações mantidas ente a cidade e o campo, quanto ao mercado negro, tolerado e mancomunado com a autoridade de ocupação.

Em Paris, a “Festa Continuou”, diz Riding, em referência ao círculo intelectual e artístico daquela cidade então considerada, até pelos ocupantes nazistas, a capital cultural do mundo. A rigor, não houve nada no mundo do entretenimento e das artes de Paris que tenha sofrido durante a ocupação; a festa simplesmente seguira adiante. Os cinemas, por exemplo, viviam cheios, pese o banimento das películas norte-americanas e do jazz, porque, de acordo com um jornal colaboracionista, tinham um sabor “negro-judeu”.

E os comportamentos individuais? Num país onde os intelectuais e artistas eram reverenciados como “entes superiores”, e no qual a população era educada para reverenciar suas teorias e atitudes, o mundo cultural teve maiores responsabilidades pelo colaboracionismo com o nazismo, graças a essa influência.

Alguns cantores como Maurice Chevalier e Édith Piaf  realizaram tournées musicais nos campos de prisioneiros de guerra franceses, com cachês pagos pelos nazistas, fornecendo propaganda do “bom tratamento” dado a eles pelos carcereiros. Escritores como Céline colaboraram ativamente na França e na Itália fascista. As atrizes Danielle Darrieux e Viviane Romance esqueciam as barbáries praticadas pelos nazistas enquanto, enquanto realizavam turismo através da pátria do nacional- socialismo hitlerista.

Coco Chanel vivia em sua suíte no Ritz com um alto oficial alemão. Le Corbusier, canonizado em vida como modernista por arquitetos do mundo inteiro no pós-guerra, inclusive no Brasil, grudou nas autoridades de ocupação em busca de verbas para seus projetos; afirmou, tentando agradar ao governo de ocupação, que “a sede dos judeus por dinheiro havia corrompido o país”.

O esperto André Gide disse: “Prefiro não escrever nada hoje, que possa me deixar arrependido amanhã”, o autor que ganharia o Nobel em 1947. Outros artistas adotaram atitudes semelhantes, calaram-se e procuraram pouco aparecer. Picasso optou por permanecer em Paris durante a ocupação, vendendo discretamente seus quadros, e recusou-se, por covardia, a assinar uma petição pela liberdade de um amigo, o poeta Max Jacob, preso pela Gestapo – documento que até mesmo colaboracionistas assinaram. Jacob morreu no infame campo de concentração de Drancy.

O editor Bernard Grasset, o primeiro a editar Proust em 1913, chegou quase a implorar a Joseph Goebbels o direito de publicar na França a “obra magistral” do sumo sacerdote da propaganda nazista.

Sacha Guitry, ator e cineasta de renome no pós-guerra, tornou-se íntimo do embaixador do III Reich, Otto Abetz; Tino Rossi, um dos melhores tenores de sua época, interpretou na Ópera de Paris para a alta oficialidade das tropas de ocupação.

Os escritores Drieu de La Rochelle e Robert Brasillack viajaram a Nuremberg para aplaudirem Goebbels. Os artistas plásticos Derain, Vlaminck e Maillot cruzaram o Reno para receberem medalhas por seus trabalhos, outorgadas pelos invasores da França.

A censura era feroz. Em 1941, nada menos que duas mil obras e mais de oitocentos e cincoenta escritores haviam sido banidos e todos os editores, com exceção de Emile-Paul, o aprovaram. O Presidente da Associação dos Editores Franceses, René Philippon disse “que essas disposições (listas de proibições), não criam grande problema para a atividade editorial, pelo contrário, possibilitam o desenvolvimento do pensamento autenticamente francês… e estimulam a união dos povos.”

Gallimard, o editor de Sartre, nomeou Drieu de La Rochele editor da prestigiada revista Nouvelle Revue Française, a qual editou traduções de escritores nazistas. É verdade que se livrou de editar Les Décombres, um lixo literário de exaltação aos “heróis do nazismo”, escrito por Lucien Rabanet, que terminou publicada por Denoel.

 

É bem verdade que muitos intelectuais e artistas recusaram-se a trabalhar na França ocupada. Foi o caso do indignado Jean Renoir, diretor de obras-primas como “A Regra do Jogo”, que preferiu se refugiar nos Estados Unidos a filmar na França, no que foi seguido pelos seus colegas René Clair, Max Ophalus e Duvivier, assim como pelos atores Michele Morgan, Aumont e Dalio.

Uns poucos, bem poucos, como o ator Jean Gabin e o escritor Albert Camus, incorporaram-se aos maquis, e colaboraram na resistência armada. Do mesmo modo que Jean Guehenno e Jean Bruller passaram a escrever na clandestinidade fundando as clandestinas Editions de Minuit. Disse o filósofo Politzer, amigo de Sartre, em 1941: “Hoje, na França, literatura legal significa literatura de traição.”

No entanto, a grande maioria dos artistas e dos intelectuais, como o fez quase toda a burguesia francesa, simplesmente continuou sua vida normal, tentando ganhar o pão de cada dia, como se os alemães não existissem, e assim o fizeram escritores como Simenon, Paulhan e Aragon.

A divisão clássica sobre a conduta dos franceses durante os anos da ocupação, entre heroísmo e covardia, que permanece em vigor até hoje em romances e filmes, a começar pelo inevitável “Casablanca” é pura ficção. De um lado estariam os cidadãos decentes e patriotas, que optaram pela Resistência e vão combater o invasor na clandestinidade; no outro ficariam os colaboradores ou traidores, que continuam levando sua vida de sempre, convivendo em paz com o ocupante e ajudando-o a governar. Riding, entretanto, assim como Gerassi, recusam-se a aceitar essa divisão. Seus livros revisitam a vida real da gente real na Paris ocupada – e aí entramos numa zona de sombra onde é inútil procurar respostas em preto e branco.

Depois da guerra, Sartre tentaria explicar: “Durante quatro anos, nosso futuro nos foi roubado”. “Todos os nossos atos eram provisórios, seu significado limitado ao dia em que eram cometidos”. É verdade que havia uma Resistência, mas ela “afetava muito pouco a História, tinha mais um valor simbólico; é por isso que tantos resistentes entravam em desespero: sempre os símbolos! Uma rebelião simbólica numa cidade simbólica- só que as torturas eram reais”. E ainda: “O que era terrível não era sofrer e morrer, mas sofrer e morrer em vão… durante esse período, pouca gente se comportou na França com coragem e precisamos compreender que a Resistência ativa estava limitada a uma minoria que se oferecia deliberadamente e sem esperanças ao martírio, o que basta para resgatar nossas fraquezas.”

NUNCA BASTOU!

Fontes:

1. Gerassi, John. Talking with Sartre: Conversatios and debates.
2. Gerassi John. Sartre a consciência odiada de seu tempo.
3. Riding, Alain. Em Paris a Festa Continuou. Companhia das Letras, 2012.
4. Sartre, J.P. O que é um colaborador?

 

Comentários

  1. Luciano Castro Lima
    qui 22nd maio 2014 at 11:23

    Tenho recebido o seu material e lido o seu blog sempre com interesse e cuidado. Pela via da literatura, em particular, e da arte, em geral, você faz uma excelente e profundamente atual recuperação dos fundamentos humanos ao longo da evolução da nossa espécie a partir da criação da escrita. E sempre combatendo a hipocrisia e a farsa da versão dos “vencedores” nesta longa guerra de dez mil anos que os desumanos e os psicopatas tem logrado manter contra à nossa espécie. Vejo a minha indignação plenamente contemplada e refletida, por exemplo, nesta sua análise sobre a ocupação nazi da França. Graças a ela compreendi, um pouco mais, não só o que ocorreu naquele perído, como também a empulhação que permanece até hoje contaminando a arte e as nossas mentes com uma mentira que transfere para os canalhas e covardes a responsabilidade da continuação da humanidade, ocultando dos nossos sentidos os verdadeiros seres humanos que o fizeram e continuam fazendo. Iniciativas como a sua fazem-nos crer que eles, os bandidos, os psicopatas, as nove familias que dominam o planeta, não conseguirão nos roubar o real, não conseguirão, por fim, alienar-nos da nossa história e, portanto, da nossa humanidade.

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  2. Iara Xavier Pereira
    sex 23rd maio 2014 at 12:45

    Seu artigo reforça a necessidade da nossa luta pela memória, verdade e justiça no Brasil de hoje.
    Tanto crimes a esclarecer e quem calou, se omitiu ou colaborou.
    Buscamos a Verdade e Justiça!

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  3. dom 25th maio 2014 at 17:05

    Segundo Sartre durante quatro anos o povo francês teve o futuro roubado. Pior passamos nós que tivemos 21 anos roubados de nossas vidas…
    gostei demais de ler seu texto. Ele me levou a pesquisar sobre essas pessoas que traíram a França e os povos aliados.
    Obrigada, Carlos Russo,
    Abraços
    Risomar

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    • Policarpo  –  ter 27th maio 2014 at 17:19

      “Pior passamos nós” … nós não. Eu não tive nada roubado e nem roubei ninguém.

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      • Luciano Lima  –  dom 01st jun 2014 at 12:55

        Policarpo sem quaresma

        O seu caso não foi mencionado no debate. E você entrou nele pela porta de trás. E sempre que alguém faz isto, é porque se sente culpado de alguma coisa; o peixe quando pula fora dágua, é porque se sentiu atraído por alguma coisa. Quem diz que não foi roubado ou não roubou, sem ninguém ter perguntado nada a ele, é porque das duas, uma: ou roubou ou foi roubado. E pelo jeito enviazado que você entrou na conversa tenho certeza que a sua porta de entrada foi a da direita

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  4. Lizete Teles de Menezes
    qua 28th maio 2014 at 0:17

    Mais uma vez, Carlos Russo, você nos esclarece sobre a pusilanimidade de certos artistas e intelectuais que nos encantaram, por absoluta falta de conhecimento sobre suas biografias. Eu até entendo o medo, mas, naquelas circunstâncias, colaborar com o nazismo foi pura falta de caráter. Será que eles não sabiam o que faziam? Duvido. Aqui mesmo no Brasil, temos os que hoje renegam seus passados, tipo Gabeira e companhia, temos gente que nos aconselha a esquecer o que escreveram (FHC), que renegam seus antigos companheiros (Serra), viraram capacho da mídia sem o menor pudor etc. etc. Na hora certa, quando biógrafos independentes contarem suas vidas, eles vão sentir o gosto e o odor da lata de lixo da história. Não chegam nem perto em importância de Sartre, Picasso, le Corbisier que, ademais de suas realizações, por seus atos covardes entram na mesma categoria dos mequetrefes brasileiros e, a sua maneira, também participam do lixão. Obrigada por nos elucidar. Lá se vão mais algumas ilusões…

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  5. qua 28th maio 2014 at 0:24

    Aqui, durante os 21 anos muitos artistas e intelectuais também usaram a farsa de: “temos que continuar vivendo…”, “afinal de contas a vida continua…”

    Elis Regina cantou nas Olimpíadas do Exército, Clara Nunes também cantou para os generais, Elizeth Cardoso recebeu uma comenda direto das mãos do general-ditador Médici e declarou emocionada: “Eu nunca tinha recebido uma comenda antes…” e logo depois caiu no choro.

    Adalgisa Nery casou com um censor e a Escola de Samba do Carnaval carioca Beija-Flor em 1975 teve como enredo: “1964 / 1974; O Grande Decênio”.

    Roberto Carlos teve como guarda-costas o famigerado Fleury, Teixeirinha cantou explicitamente a música chamada “O Presidente Médici”, sem falar do Simonal, recentemente recuperado pelo filho (o que é até humanamente compreensível) e pela mídia oficial.

    E ainda tem um poeta famoso que coloca a culpa dos crimes da ditadura na esquerda armada.

    Enquanto isso, nós na clandestinidade. Ninguém me contou, assisti tudo isso de dentro dos aparelhos e fuscas da ALN!

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  6. José Damião de Lima Trindade
    qua 28th maio 2014 at 19:11

    Caro Carlos Russo Jr
    Embora eu já detivesse algumas das informações que você divulgou nesse artigo, confesso que eu o li como se estivesse recebendo um soco no estômago. Tenho observado que intelectuais de esquerda que não são, ao mesmo tempo, militantes práticos comprometidos com a luta pela libertação da Humanidade, costumam se acovardar, guardar silêncio ou colaborar abertamente com o inimigo, sempre com boas “explicações”. Seu artigo só confirma essa minha impressão.
    Por isso, estou com a Iara Xavier Pereira: precisamos exigir Memória, Verdade e JUSTIÇA, malgrado a vacilação ideológica dos “nossos” governantes.

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