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22 abril 2014 por Publicado em: Sem categoria 2 comentários

Aproxima-se o dia Primeiro de Maio. Nos dias de hoje, ele é oficialmente celebrado em mais cento e vinte países, e sua importância nas sociedades somente é comparável aos dias vinte e cinco de dezembro e primeiro de janeiro. Mas não foi sempre assim, como veremos.

Há um século, o Primeiro de Maio de 1914 foi uma das primeiras jornadas de afirmação de classe do proletariado brasileiro, barbaramente reprimida. Coordenada por Domingos Passos, logo a seguir fundou-se a Federação Operária do Rio de Janeiro e, em 1917, ocorreu a primeira Greve Geral Brasileira.

Um dos fatores que mais diferenciam o dia “Primeiro de Maio” das demais datas comemorativas é o fato de ela não haver sido instituída por religião alguma, assim como tão pouco foram poderes governamentais que a instituíram, mas sim, um movimento absolutamente não oficial de homens e mulheres pobres. O evento internacional da classe operária e dos trabalhadores foi instituído em 1890, através de uma convocação da Segunda Internacional, a bem da verdade, de sua ala marxista. Uma resolução aprovada em Paris, em junho de 1889, em comemoração ao centenário da Grande Revolução Francesa, e sua principal bandeira de lutas era pelo limite do dia de trabalho em oito horas.

Um importante detalhe. A convocação foi feita para uma única manifestação internacional, “que deveria realizar-se de acordo com as condições de cada país”. Como, posteriormente, escreveu Edouard Vailland, um dos mais importantes delegados da Internacional Socialdemocrata: “Quem poderia ter previsto o rápido e impressionante crescimento do Primeiro de Maio?”

Naquele momento histórico, uma questão importante dividia os comunistas, os socialdemocratas e os anarquistas. Como o primeiro dia de maio de 1890 coincidia com uma quinta feira, necessariamente haveria de ser declarada uma greve; as atividades laborais parariam única forma de viabilizar as atividades previstas. De todo modo, parar as máquinas e manifestar-se consistia numa atitude aberta de desafio político, num gesto de afirmação de classe social em si e para si.

Uma correspondência entre Engels e Bebel enfatiza a necessidade de se evitarem conflitos, de que houvesse por parte da liderança “certo controle das manifestações programadas, evitando-se provocações desnecessárias”.

Para enorme surpresa dos organizadores, a convocatória do Primeiro de Maio de 1890 teve uma resposta de massas impressionante, conseqüência do avanço da força e da confiança que a classe operária experimentava naquele momento histórico. Na Grã Bretanha, em decorrência da greve vitoriosa das Docas de 1889 e na Alemanha, onde a vitória dos comunistas e dos socialdemocratas derrotara uma lei anti-social de Bismarck, um sentimento de poder transformador dos proletários, desde que se unissem como classe social, fazia-se sentir. Novamente, “o espectro do comunismo” voltava a rondar a Europa.

Como resultado mais de trezentas mil pessoas tomou o Hyde Park em Londres. Em Berlim, o centro mais reacionário da Europa Central, cinquenta mil operários compareceu à convocatória e em Hamburgo, a “cidade vermelha alemã”, mais de cem mil saíram às ruas. O movimento em Copenhagen teve ao redor de 40% de adesão proletária. Em Viena, nos dizeres de Engels e de Adler ocorrera “a mais impressionante das manifestações”, uma massa superior a duzentas mil pessoas realizou sua caminhada, de forma “organizada e consciente”. 

Tendo em vista o sucesso alcançado em 1890, o próximo encontro da Internacional Socialdemocrata, com os votos contrários dos delegados alemães e dos ingleses, endossou a posição política de Engels, de Adler, assim como a dos delegados espanhóis e dos franceses, a favor da repetição da manifestação do dia Primeiro de Maio, em 1891, “especialmente se combinada com a interrupção do trabalho, e não apenas como expressão de opinião”. Disse Adler, em 1893, “Esse é o sentido do feriado de maio, do descanso do trabalho, que nossos inimigos de classe temem. E temem por saberem que isso é revolucionário”.

Foi em fins de 1891, que o Congresso Internacional de Bruxelas instituiu, agora em forma permanente, que todo o dia “Primeiro de Maio deveria ser um dia de reivindicações econômicas e de afirmação da luta de classes”. Acrescentou também uma nova bandeira às econômicas: a luta pela paz, o que fortaleceu sobremaneira o caráter internacionalista do evento.

É importante destacar outra inovação: falava claramente em “comemorar o Primeiro de Maio”, incorporando à data dos proletários, a realização de festividades.

Essa orientação chegou a provocar um início de ruptura política por parte dos anarco- sindicalistas. Para eles, a data deveria ser exclusivamente de lutas, pois encaravam o “Primeiro de Maio” como uma celebração devida aos mártires operários massacrados pela polícia de Chicago, em 1886.

No dia 3 de maio de 1886, que a polícia norte-americana disparou contra um grupo de operários da fábrica McCormick Harvester, que estava em greve há dois dias, matando seis e ferindo mais de cinquenta pessoas. Dezenas de operários foram presos. Dia 4, ao final de uma manifestação de protesto, a polícia novamente atacou: centenas de operários morreram ou baleados, ou pisoteados por animais ou pessoas em fuga. Jamais os números finais do massacre foram divulgados. Não bastasse tão selvagem repressão, os líderes do movimento foram levados a julgamento por conspiração. A sentença condenou à morte na forca os operários Engel, Fischer, Lingg e Spies; outros dois, Fieldem e Schwab, à prisão perpétua; e Neeb, foi condenado a cumprir quinze anos de prisão.

Do ponto de vista dos anarquistas, o “luto” e não a “comemoração” deveria dar o tom.

De qualquer modo, quer assumindo o caráter de luta por objetivos econômicos e sociais, com um aspecto festivo, que foi o predominante na Europa Central; quer tipificando-se como uma manifestação ao estilo “martirológico”, no dizer de Hobsbawm, o que veio a ocorrer em países da América Latina, na Espanha e na Itália, em um dia de todos os anos, homens, mulheres e crianças permaneceram ausentes do trabalho, assumindo-se como classe social.

Normalmente os encontros políticos e as passeatas desenvolviam-se na parte da manhã e a tarde era dedicada à sociabilidade e à diversão entre os iguais. Dessa forma, os “invisíveis” expunham-se publicamente e, por um dia, tomavam para si o espaço oficial dos governantes e da “sociedade”.

Entretanto, em breve, a luta pela democracia viria a ser incorporada às bandeiras de luta já tradicionais, compondo uma espécie de trio de ferro que permaneceu por decênios: o direito ao sufrágio direto e universal, a jornada de oito horas de trabalho e direitos de proteção ao trabalho.

As iconografias dos primeiros dias do proletariado fortaleceram sobremodo a influência de Marx e do marxismo sobre os movimentos operários. Os cartazes alemães de 1890 traziam a imagem de Karl Marx, falecido há já sete anos, de um lado e a da “Estátua da Liberdade” do outro. Nos cartazes austríacos, que convocaram o segundo Primeiro de Maio, o de 1891, Marx aparece segurando o “Das Kapital”, tendo ao fundo um horizonte em que refulgiam bandeirolas com os ideais de 1789: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

A permanência dessa data Internacional foi um dos motivos pelo qual o marxismo exerceria, sobre os movimentos de homens e mulheres, uma enorme influência. A maioria deles jamais havia ouvido falar de Marx, de suas teorias, mas reconheceram que sua convocação à luta tornava-os conscientes deles próprios, tanto como seres humanos, quanto como classe social.

Na maioria dos países onde os movimentos de massa da classe operária já estavam presentes, o “Primeiro de Maio” tornou-se uma rotina antes mesmo do ano de 1914, ou seja, da Primeira Guerra Mundial.

Observação – Uma grande exceção constituiu os Estados Unidos da América, onde a Federação Norte-Americana do Trabalho, que já estava envolvida com os interesses empresariais, decidiu não se arriscar convocando uma greve que coincidiria com os massacres de Chicago. Optaram por um domingo, inicialmente o dia quatro de maio de 1890, e posteriormente, pelo segundo domingo de setembro, como o seu Dia do Trabalho, dele retirando o caráter de interrupção do trabalho, assegurando-lhe, exclusivamente, aspectos festivos e de repouso no lar.

Outro aspecto a se analisar são os diferentes momentos em que a data ganhou a categoria de ato oficial. A oficialização do Primeiro de Maio como dia e feriado nacional ocorreu em primeiro lugar na União Soviética, logo após a Revolução de Outubro e durante os primeiros anos da Revolução eles foram magníficos, futuristas, empolgando toda uma nação e todos os delegados de muitos países que lá compareciam representando a sua classe social.

Por outro lado, as forças anti- socialistas, reconhecendo as profundas raízes que alicerçavam o movimento, tentaram cooptar a festa dos proletários e acanalhá-la, transformando-a em novo instrumento da política de alienação e dominação social. Não por acaso, Hitler foi o primeiro líder ocidental a oficializá-la na Alemanha. Logo após, o governo fascista de Vichy, sob a liderança de Petain, igualmente tornou oficial o Primeiro de Maio, intitulando-o de “Dia da Concórdia e do Trabalho”. O governo fascista de Franco já havia feito o mesmo na Espanha, logo após sufocar em sangue a República. Entretanto, tal fato não ocorreu na Portugal salazarista. Somente em 1974, após a Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), o Dia do Trabalhador foi permitido oficialmente.

Quanto ao Brasil, a chegada dos imigrantes europeus trouxe novas ideias, princípios organizacionais e a perspectiva de direitos trabalhistas já conquistados na Europa. Os operários brasileiros começaram a se organizar, inicialmente, sob a influência dos anarquistas e, posteriormente, dos comunistas. O alvorecer do movimento operários e os Primeiros de Maio  estão ligados à figura de  Domingos Passos. Já em 1914, sob a liderança deste negro operário e carpinteiro, ocorreu a primeira manifestação na cidade do Rio de Janeiro. Foi um dos principais articuladores da Federação Operária do Rio de Janeiro. Em 1917 aconteceu a primeira Greve Geral brasileira, que parou boa parte da indústria e do comércio, sob a incansável liderança de Domingos Passos, o assim chamado Bakunin brasileiro, tanto por seus companheiros e quanto por seus inimigos. Domingos, que tinha dotes artísticos, também participava dos festivais operários, atuando nas peças teatrais, declamando poesias e palestrando sobre temas sociais em todos os Primeiros de Maio. 

Foi preso e torturado diversas vezes, por participar de comícios, greves e piquetes. Mandado para o campo de concentração de Clevelândia, no Oiapoque, sobreviveu e fugiu através da fronteira com a Guiana. Domingos Passos retornou à ativa na Federação Operária de São Paulo em 1927. Participou do 4° Congresso Operário do Rio Grande do Sul, realizado em Porto Alegre. Ao voltar do Rio Grande do Sul, foi preso e encarcerado na “Bastilha do Cambuci”, onde permaneceu por três meses, sujeito à toda sorte de torturas e maus tratos. Retirado do cárcere, foi enviado para morrer nas matas do interior paranaense. Morreu vítima da miséria, da fome e da destruição físico-psíquica a que fora submetido. 

A  classe operária se fortalecia e, em 1924, o dia Primeiro de Maio foi decretado feriado nacional pelo governo reacionário de Artur Bernardes. Mesmo tendo sido declarado feriado, até o início da Era Vargas, o Primeiro de Maio era considerado um dia de protesto, sempre marcado por greves e manifestações.

Já no Governo de Getúlio Vargas, a propaganda trabalhista, conjugada à repressão feroz ao sindicalismo independente, não pelego, habilmente passou a escolher a data para anunciar benefícios aos trabalhadores, transformando-a em “Dia do Trabalhador”. Desta forma, o dia não mais era caracterizado por protestos, e sim, comemorado exclusivamente com desfiles e festas populares, comandado pelas autoridades instaladas em seus palanques.

Foi a partir de 1945, com a derrota do nazi- fascismo e, posteriormente, com o advento da Guerra Fria, países onde os proletários possuíam organizações mais combativas e identificadas com o socialismo, onde o Primeiro de Maio, apesar de mantido oficialmente como feriado nacional, teve as suas manifestações proibidas, com a repressão abatendo-se sobre os trabalhadores que não se submetiam. Já em outros países, onde a consciência de classe era menos desenvolvida, os Primeiros de Maio mantiveram exclusivamente o seu aspecto de festa, de show, ao estilo dos sindicatos americanos agrupados na AFL-CIO.

No Primeiro de Maio de 2014, nossas homenagens para aquele que há um século comandou o primeiro Primeiro de Maio da classe operária brasileira!

Comentários

  1. qui 24th abr 2014 at 19:45

    E hoje, a Farsa Sindical, sob a batuta de um sindicaleiro e deputado da extrema-direita histórica (no Brasil não há direita, só extrema-direita; são todos herdeiros dos escravistas do século XVI), o Primeiro de Maio é transformado em dia de apoio aos banqueiros e à Chevron.

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  2. Alexandre Samis
    qua 07th maio 2014 at 0:15

    Bela homenagem ao sindicalista revolucionário e anarquista Domindos Passos. Excelente costura, de pontos firmes e calros, dos fatos que formaram a longa história de uma data tão pouco conhecida em seus detalhes mais fundamentais. Vale muito a leitura.

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