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02 outubro 2012 por Publicado em: Sem categoria Sem comentários ainda
“Sobrevivendo nas Sombras”

Na difícil senda do contrabando

Avançamos novamente no tempo e retornamos ao mês de junho de 1976, dias após a morte de Juan José Torres.

Pedro Alexandrino trabalhava durante o dia em uma Cooperativa e à noite, após o reconhecimento de seus créditos, seguia um curso na Universidade Nacional de Buenos Aires. Evitar de todos os modos, tanto na Universidade quanto no trabalho, emitir opiniões políticas, jamais participar das reuniões estudantis ou sindicais, numa Argentina efervescente de medos, heroísmo e participação política era muito difícil, no entanto, mais que nunca necessário para seguir sobrevivendo nas sombras.

Uma determinada pessoa muitas vezes nos atrai sem que nem mesmo saibamos por quê. Ainda hoje, Alexandrino se questiona quanto à existência de algum tipo de  química, de magnetismo ou seja lá o que for, que permite uma pessoa de esquerda identificar uma outra semelhante dentre tantas a nos rodear. Pois foi justamente esse tipo de magnetismo, ou chamem-no como quiserem, que lhe salvou a vida.

Norma não era exatamente uma mulher bonita, mas tinha um olhar claro e doce, o que a tornava simpática no ambiente de trabalho, isto pese à sua função de auditora, o que por  vezes costuma exarcebar o orgulho e a prepotência de muitos. Não era o caso de Norma que trabalhava na mesma empresa que Alexandrino, cuja atividade era voltada ao atendimento de clientes inadimplentes. Coincidentemente, também ela estudava à noite na mesma Faculdade que o nosso biografado. Entretanto, até aquele dia, o contato entre eles havia sido  muito pequeno e absolutamente restrito ao ambiente de trabalho. Pois bem, ele ainda se recorda da manhã fria em ela se aproximou e, disfarçadamente, com um sorriso que a determinação do olhar contradizia, disse-lhe que, na noite anterior, buscavam por um “brasileño” na Faculdade. “Cuidate compañero”, nada mais falou e afastou-se com o mesmo sorrir com que se aproximara.

Se a repressão procurava precisamente por ele na Faculdade, Alexandrino nunca pagou para ver, mas pelo que ele se recorda, não havia mais nenhum brasileiro estudando lá nos idos de julho de 1976. Simultaneamente, com esse alerta, soava o da necessidade de deixar imediatamente o emprego, dado que as alternativas de permanência na Argentina estavam absolutamente esgotadas e cada dia adicional por lá vivido, simbolizava uma espécie de roleta russa a girar e aguardar o disparo. Alexandrino e sua companheira deveriam empreender uma retirada e esta tinha que ser urgente.

Acontece que sem passaportes, com as embaixadas sob vigilância militar, documentação argentina falsificada e pouquíssimo dinheiro disponível, a alternativa menos ruim seria a volta ao Brasil, onde pelo menos estariam em seu ambiente e as famílias poderiam ajudá-los na clandestinidade ou mesmo, numa vida semi-clandestina. Mas como voltar sem correr o risco de nova prisão? Diversos companheiros haviam tentado o retorno a partir da Argentina e quase todos haviam sido atraídos para emboscadas, torturados e assassinados.

Portanto, nossos amigos decidiram que qualquer retorno à Pátria não deveria, em hipótese alguma, basear-se em conhecidos ou esquemas vinculados à esquerda militante, mesmo porque qualquer um desses possuía grande chances de haver sido detectado pela repressão. Tal qual fora descortinado com Torres ( vide episódio n.2) há menos de um mês, a alternativa que parecia ser mais segura para entrar no Brasil passava pelo caminho do contrabando. Entretanto, havia mais um complicador: nossos amigos tinham um filho de um ano de idade. Ele suportaria aquele tipo de êxodo? Precisavam de qualquer modo protegê-lo, inclusive se fossem presos, mas como?

A ala mais radical da geração de 68 sempre questionara a família burguesa e, mesmo, chegara a negar-lhe importância num processo de emancipação social. No entanto, quando nossos jovens subversivos já não podiam contar com seus companheiros por estarem mortos, presos ou tão perseguidos quanto eles, a dialética da negação da negação se lhes impunha como realidade e não apenas como raciocínio metafísico, e, para finalizar essa digressão filosófica, a síntese apontava para o socorro familiar. Pois foi a sombra protetora da familia que tanto protegeu nossos jovens, aqueles arautos de um tempo libertário! Foi a elas que nossos amigos também apelaram e delas receberam uma prova inequívoca de solidariedade não contemplativa, de amor que age.

A sogra de Alexandrino, ainda moça e com a força de seus cincoenta anos, predispôs-se a seguir a trilha perigosa do contrabando. Para todos os efeitos, seria uma avó que viajava sozinha com um bebê, portador de documentação argentina e autorização paterna reconhecida em cartório. Quando Alexandrino hoje olha para o passado, percebe a precariedade das condições daquele retorno que mais beirava o desatino do que um plano. Mas, enfim, nos primeiros dias de julho os quatro peregrinos iniciaram a sua “fuga para o Egito”, tentado eludir o “martírio dos inocentes”. Eles muito arriscaram e foram felizes no seu intento.

A primeira etapa foi realizada numa longa viagem de ônibus, pois os aeroportos eram extremamente vigiados e grande a chance de “queda”. De Buenos Aires seguiram até Iguazu, pequena cidade fronteiriça do departamento de Missiones com o Brasil.

Devemos aqui salientar que o policiamento entre os Estados, onde imperavam  ditaduras militares, não era dos mais apurados. Afinal, quem buscaria abrigo num Brasil da tortura e dos crimes, quando a canalha de Fleurys e Perdigões haviam sido os exportadores do extermínio dos opositores, mestres dos  militares assassinos argentinos, uruguaios e chilenos?

Enfim, nenhuma documentação foi pedida na chegada do grupo a Iguazu. A busca pelos “barqueiros” nas bandas do rio não demandou grande esforço. Por uma pequena quantia em dólares, aqueles pobres contrabandistas de cigarro e uísque (pois o narcotráfico ainda não se estabelecera naquelas paragens), que utilizavam seus barcos  movidos a remos e músculos para cruzar o rio Paraná, conduziam para o lado brasileiro quem o quisesse, sem perguntas. E assim foi feito no mesmo dia da chegada. Alexandrino, Beatriz, com suas malas e a avó com o pequeno José Pedro, numa noite sem luar, fizeram a travessia do rio caudaloso.

Do lado brasileiro aguardava-os uma surpresa. O barco aportava em uma ribanceira e a subida íngreme requeria músculos, equilíbrio e até mesmo sorte. A iluminação era a de duas únicas lanternas, nada mais. Para os moços do contrabando, filhos fortalecidos pela natureza dura dos campos, carregar nos ombros seus sacos pesando vinte, trinta quilos, não parecia requerer nenhum esforço especial. Já Alexandrino recorda-se ainda hoje dos quarenta e dois degraus, pois eram quarenta e dois pedaços de madeira escorregadia, fincados na terra íngreme, que precisava vencer com o pequeno filho nos braços. Qualquer escorregão poderia significar uma desgraça, pois para trás ficava o negro leito das águas profundas. E, importante, esquecíamos de dizer que o nosso biografado possuía acrofobia, o medo pelas alturas e tal qual Orfeu deveria sair do inferno sem olhar para trás.

Enfim, lograram atravessar a fronteira natural e chegaram a terras brasileiras. Ao lado do “cais” havia uma kombi que, por módica quantia, agora em cruzeiros, e também sem perguntas, conduzia seus passageiros até a cidade de Foz do Iguaçú. E, de lá, a caminho de São Paulo prosseguiram nossos peregrinos para uma “nova” vida em sua própria terra. Sentiam ainda muito medo, mas o alívio de escaparem à morte certa nos centros de extermínio argentinos já os alentava. Ao chegarem à rodoviária de São Paulo, pegaram um ônibus para um “refúgio familiar” provisório no apartamento de uma tia em São Vicente.

Alexandrino recorda-se da baixada santista, onde aquele fim de julho mais se assemelhava à primavera, com o sol a brilhar no céu claro. Ao andar pela praia, observava a sua sombra que caminhava sempre adiante dele mesmo, uma sombra companheira que jamais o abandonaria em toda a sua vida, pois ela sendo sombra é também filha da luz e do caos e somente quem viveu no claro e no escuro, na revolta e na reconciliação, no combate e na paz, pode sentir ter vivido  intensamente o tempo que lhe foi concedido para viver!

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