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12 outubro 2012 por Publicado em: Sem categoria Sem comentários ainda

“Entre- Grades”

Nos próximos episódios, retroagiremos alguns anos, de tal forma que focalizaremos nosso biografado no período de 1970 a 1974, adequadamente denominado “Entre-Grades”.

A tortura: torturados e torturadores (primeira parte)

“A tortura dilacera o corpo do supliciado, quando não o destrói; é verdade que muitas vezes, sobrevivendo, o organismo consegue, entre perdas e danos, restabelecer-se no decorrer do tempo;  já as marcas, que como tatuagem, a tortura imprime na alma do torturado, essas jamais se apagam, são para sempre, para toda uma vida. E não se apagam porque a tortura buscou reduzir o torturado ao quase nada, fez com que ele rompesse com suas crenças e valores, corrompendo nele muito do  que possuía de humano, num processo de dilaceração de sua personalidade”.

Dessa maneira, Alexandrino começou a se referir à dura e radical experiência, que de certa forma, reproduz a de centenas, milhares, talvez milhões de outros seres humanos que passaram por esse maldito processo.

Decidi que deveria tratar tal assunto de um modo um pouco diferente dos episódios anteriormente narrados; ao lado do relato vivencial do nosso torturado, eu busco que ele me forneça algumas respostas, como a que para mim a todas antecede: afinal, quem é o torturador?

“O torturador, via de regra, é um ser humano comum, de tão comum que ele mesmo se sente  supérfluo, pois nada encontra em si que o diferencie da massa humana, nada tem de singular, é tão somente alguém profundamente frustrado, que se sente como um ninguém, na medida em que ser “ninguém é pior que ser mau”, já dizia um autor. Ele quase sempre é um empregado das forças repressivas do Estado, que como todo  e qualquer policial ou militar, foi treinado e submeteu-se a somente cumprir ordens, sendo incapaz de questioná-las. Mas isso não basta, de modo algum, para que ele se transforme em torturador, um assassino frio de pessoas indefesas e esmagadas fisicamente. Esse é um caminho que o verdugo  trilha por sua  livre e espontânea vontade.”

Alexandrino relatou-me o sucedido com uma companheira, a quem muito presa, em determinada sessão de tortura a que fora submetida na Polícia do Exército. A moça, dependurada no torpe e degradante pau-de-arara (aparentemente uma invenção antiga, herança do colonizador português), era submetida a choques elétricos que lhe percorriam o corpo nu, assim como à torturante aplicação de palmatórias nos pés expostos. Os verdugos eram dois, um sargento e um tenente; em determinado momento, o sargento chamou um soldado, que estava apenas de guarda, e ordenou-lhe que rodasse a manivela do choque elétrico, dizendo-lhe: essa manivela também é a chave para a promoção na carreira.

A contra-gosto o soldado o fez uma vez, mas o grito da moça atordoou-o e ele parou; disse sentir-se mal com aquilo e o sargento ameaçou quebrar-lhe a mão se vacilasse em um novo girar; no entanto,  manteve-se firme, refletiu, não cumpriu a ordem recebida e  não tornou a virar a manivela. Soube dizer não à tortura!

Caso aquele jovem houvesse aceito tomar parte no jogo crapuloso, transformando-se, com a rotina de maltratar pessoas indefesas, em um torturador, ele estaria agindo todo o tempo sob ordens  superiores sem nada questionar, e não por qualquer tipo de ideologia. Afinal, como pode possuir uma ideologia se ele nem mesmo possuiria o hábito de pensar? Ele, com o tempo, transformar-se-ia em um tipo de animal imprevisível, parecido mais a um cão hidrófobo, pois quem tortura despe-se do humano sentir. Transforma-se em uma excrecência humana, tumores infectos na memória do torturado ou de quem com eles conviveu. Quanto mais o mal torna-se banal, ele deixa de gerar, naquele que o cometeu, quaisquer remorsos ou tormentos. Vemos ainda hoje criminosos como Videlas, Ustras, os canhestros sucessores de Fleury defenderem seus atos, ostentarem orgulho pelas torpezas de que foram comandantes e agentes participantes.

Mas nem só de policiais civis e militares e elementos das Forças Armadas compunham-se os aparelhos de tortura e extermínio. Também civis deles  participavam. Havia alguns moços, outros universitários e ainda recém-formados, que se auto-denominavam comandos anti-comunistas, versão facista de coloração verde-amarela. E também alguns empresários, que doavam dinheiro “por fora” para os principais verdugos. Alguns desses, aliás, compraziam-se em assistir a sessões de tortura, principalmente de mulheres, mas essa já será uma outra história.

Apenas para complementar a resposta, disse-me Alexandrino, “ao contrário dos torturadores dos porões, os grandes criminosos, os mandantes, os mantenedores, esses sim são movidos  por ideologias. E essas nada mais são que o conjunto de suas ideias deturpadas, que para eles formatam uma ideia de sociedade essencialmente autoritária, excludente, composta por senhores e escravos, num mundo acanalhado, semelhante a eles próprios”.

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