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20 agosto 2013 por Publicado em: ensaio 1 comentário

“A Voz do Brasil” foi criada no governo de Getúlio Vargas, entrando no ar, diariamente, desde 22 de julho de 1935. No entanto, outro foi o seu nome de batismo: “Hora do Brasil”.

O programa radiofônico mais antigo da América do Sul teve por primeiro apresentador ninguém menos que o inesquecível Luiz Jatobá; sua entrada no ar era precedida pelos acordes vibrantes e inconfundíveis da protofonia da ópera “O Guarani”, de Antônio Carlos Gomes. Durante o Estado Novo, em 1938, o noticiário passou a ter veiculação obrigatória nas emissoras de rádio do país, sempre no horário das dezenove horas.

A ditadura de 1964, para marcar presença, modificou- lhe o nome e o conteúdo. Em 1971, por decreto de G. Médici, a “Hora do Brasil” transformou-se em “A Voz do Brasil”, nome que é mantido até os dias de hoje, pese sua programação haver sido modificada no regime democrático.

Mas nosso ensaio não focará o programa radiofônico, e sim, os homens que, emprestando sonoridade  à “A Voz do Brasil” , transmitiram vida e perenidade a ele, ganhando lugar nos corações e mentes de gerações e gerações de brasileiros: falaremos sobre o maestro e compositor Carlos Gomes e sobre o primeiro e magistral locutor, Luiz Jatobá.

O caipira Antônio Carlos Gomes, que assinava nhô Tonico em suas dedicatórias, nasceu em Campinas, no ano de 1836, na casa humilde de um mestre de bandas. Destacou-se pelo estilo romântico e dramático de suas composições, um “verismo com toques wagnerianos” como nos diria Mário de Andrade. Tornou-se, aos trinta e cinco anos, o primeiro compositor brasileiro a reger uma de suas obras no Teatro Scala de Milão, a imortal “Il Guarany”. Foi, sem sombra de dúvidas, o mais importante compositor operístico brasileiro.

A vida desse homem simples, verdadeiro gênio musical, foi desde o princípio marcado pela dor. Ainda criança perdeu a mãe tragicamente assassinada. Seu pai, músico, levava uma vida de dificuldades. É na banda do pai, que Carlos Gomes vai fazer, em conjunto com seus irmãos, as primeiras apresentações em bailes e em concertos. O pão do dia-a-dia ganhava com o dinheiro obtido costurando calças numa alfaiataria.

Ao completar 23 anos, decidiu viajar ao Rio de Janeiro e matricular-se no Conservatório de Música. Ainda costurava para manter-se; foi com a conivência de diretores da Instituição que passou a frequentá-la irregularmente, sem pagar mensalidades. Mas o Conservatório seria amplamente recompensado por essa ação benemérita.

Em setembro de 1861, o Teatro Lírico Fluminense abriu-se para a primeira ópera do jovem campineiro. “A Noite do Castelo” obteve uma receptividade estrondosa e Carlos Gomes foi levado para casa em triunfo por uma entusiástica multidão que o aclamava sem cessar.

Dois anos após apresentou um novo trabalho, a ópera “Joana de Flandres”, que teve no camarote a aplaudi-lo ninguém menos que D. Pedro II. O Imperador que já o agraciara com a Imperial Ordem da Rosa, viu no moço um futuro mais promissor para a ópera em nosso país.

Ainda aluno do Conservatório, Carlos Gomes foi convidado a terminar seus estudos na Europa, às expensas do Governo Imperial. O sentimento de gratidão de nhô Tonico para com o Imperador seria por toda a vida. Foi por influência da Imperatriz, Dona Teresa Cristina, napolitana e amante da música de Verdi, que seu destino foi a Itália e não a Alemanha onde pontificava Wagner, e que teria sido a opção do Imperador.

Em 1866, Carlos Gomes recebia, em Milão, o diploma de mestre e compositor. O acaso muitas vezes nos prepara grandes surpresas. Carlos Gomes desejava ardentemente um tema brasileiro que pudesse trabalhar na linguagem de Verdi. Certa tarde, em 1867, passeando pelo “duomo” de Milão ouviu de um vendedor: “Il Guarany! Il Guarany! Storia interessante dei selvaggi del Brasile!” Era a primeira tradução para o italiano do romance de José de Alencar; o maestro adquiriu-o imediatamente  e buscou por um libretista que o transformasse em uma peça teatral. E, assim, surgiu a ópera  “Il Guarany”, com estreia consagradora no teatro Scala, em março de 1870. O grande Verdi, na noite memorável, teria dito a respeito de Carlos Gomes: “Questo giovane comincia dove finisco io!” (“Este jovem começa de onde eu termino!”).

Na noite de 2 de dezembro de 1870, aniversário do Imperador D. Pedro II, em grande gala, “O Guarani” foi levado à cena no Teatro Lírico Provisório, no Rio de Janeiro. O maestro viveu horas de intensa consagração e emoção. Novas apresentações se sucederam e em uma delas o maestro ficou conhecendo o médico André Rebouças, que o apresentaria a José do Patrocínio e a outros abolicionistas. Seriam amigos por toda a vida. No ano seguinte, ele retornaria à Itália.

Na Itália, em 1873, Carlos Gomes comporia e regeria “Fosca”, que é considerada pela crítica a sua obra-prima.  Posteriormente surgiriam “Salvador Rosa” e “Maria Tudor”.

Casara-se com uma italiana e com ela tivera cinco filhos. A fortuna, entretanto, sorrindo-lhe profissionalmente, destruía-o pelas dores de perdas consecutivas. Um a um de seus filhos foram morrendo em tenra idade, acompanhados em seguida pela mãe. Na velhice restar-lhe-ia o filho Carletto, que a tuberculose também levaria na juventude; uma única filha, Ítala, a ele sobreviveria.

Já ao final dos anos 70, Carlos Gomes, mais que a glória, perseguia a sobrevivência. Abalado por seguidos e profundos desgostos, doente, desiludido, procurava uma situação que lhe permitisse viver em sua pátria e ser-lhe útil. Ainda comporia a grande ópera “Lo Schiavo”, O Escravo, levada à cena pela primeira vez, em 27 de setembro de 1889, no Rio de Janeiro, com grande sucesso. A ópera foi dedicada à Princesa Isabel, que assinara a Abolição da Escravatura, no ano anterior.  Um detalhe: a encenação teatral baseava-se no século XVI, quando o índio era o escravo dos portugueses. A inclusão do Hino à Liberdade foi a apoteose imortal dessa maravilhosa peça dramática.

Carlos Gomes contava permanecer no Brasil e não mais retornar à Itália. Mas a vida deu-lhe outro destino. Estava à espera de sua nomeação para o cargo de diretor do Conservatório de Música, quando foi proclamada a República, e seu grande amigo e protetor, D. Pedro II, exilado. Ninguém, em respeito ou por temor dos militares, aceitou, em nenhuma das províncias, empregá-lo. Os insignificantes da época diziam que ele abandonara a Pátria, que desprezava até mesmo o idioma português em suas composições.

Manuel Guimarães, também campineiro, foi o grande amigo e confidente das dores, dos desenganos e desgostos que atormentaram os últimos anos de vida do maior músico dramático do Brasil. As cartas que chegaram até nós dessa relação nos desvendam a inocência e ingenuidade do músico: “Haverá alguém que possa odiar esse caboclo de Campinas, esse caipora?” Quando ele falava em público não possuía poses ou atitudes estudadas; falava e escrevia com o coração à flor dos lábios.

Em 1889, após as exibições no Rio, ele transporta sua companhia operística para São Paulo e de lá retorna endividado. As elites paulistas preferiam adular os novos donos do poder e o “positivismo nacionalista” de um Floriano Peixoto. De todas as calúnias de que foi vítima o grande compositor, a que mais lhe doeu foi a que se levantou sobre sua pretensa falta de patriotismo. “ Tenho sofrido ultimamente muitos desgostos…De minha parte nada espero do futuro, porque sou muito caipira, não fui feito para adulador”. “ Eu nunca me naturalizei italiano e por isso fui derrotado em Pesaro, quando me apresentei como candidato brasileiro ao cargo no Conservatório, agora dizem que não prezo meu País”.

Em 1890 vende os direitos de onze peças musicais, inclusive, “O Guarany” e “O Escravo”, para pagamento de dívidas. Em 1891 ainda retornaria para uma turnê no Brasil. Mas o empresário que o contratara chegou ao ponto de não lhe dar a passagem de retorno. Sem dinheiro e sem emprego, voltaria ainda uma vez à Itália, “pois lá ainda tinha algum crédito com amigos”. O filho Carletto, tuberculoso, necessitava de tratamento médico e ele pede por carta ao compadre Manoel que lhe penhorasse as joias que sua esposa falecida deixara.

O câncer de língua e garganta nessa época já o fazia sofrer dolorosamente. Todavia, as desilusões, as decepções, a ingratidão de seus compatriotas e as dores físicas não lhe haviam quebrado a resistência. O combatente ainda não tombara. Estrearia duas óperas no Scala de Milão, a “Condor”, com grande êxito, uma peça mais próxima do recitativo moderno e “Colombo”, em 1892, um poema sinfônico que passou incompreendido pelo grande público.

Em 2 de fevereiro de 1895, escreve: “ É triste, cômico, gastar até o último vintém  para no fim ficar prisioneiro de uma feroz inimiga: a Miséria!” Está de viagem marcada para Belém do Pará: “ No Rio não me querem nem para porteiro de conservatório! Em São Paulo, em Campinas idem. No Pará, porém, me querem de braços abertos…Não me querem no Sul, morrerei no Norte… Que me importa, é tudo terra brasileira, amém!” Finalmente, após tanto sofrimento, em 1896, chegou-lhe um convite de trabalho. Lauro Sodré, então governador do Pará, pediu-lhe para organizar e dirigir o Conservatório daquele Estado.

Embarca, no vapor Óbidos, para o Brasil. De passagem por Funchal, tem o prazer de abraçar seu velho amigo, o médico e abolicionista André Rebouças, ali exilado. Escreve: “ Há muitos meses perdi o paladar, meu alimento normal é pão amolecido no leite, nada mais…acrescenta a isso a minha insuportável agitação moral. Só me bastava um emprego, o qual acabo de conseguir no Pará.”

Em 14 de maio, foi recebido pelo povo paraense com enternecedoras manifestações de carinho. Diante de seu estado de saúde, pouco antes de morrer, o governo de São Paulo autorizou uma pensão mensal de dois contos de réis, enquanto ele vivesse. Mas o emprego e o dinheiro tão arduamente perseguidos chegaram-lhe tarde; o pão tantas vezes pedido já não lhe acharia a boca que o ingerisse. Uma única vez ele saiu do hotel e foi até o Conservatório de Música, que nunca chegou a dirigir. Cercado por amigos, com o governador Lauro Sodré à cabeceira, Carlos Gomes morreu no dia 16 de setembro de 1896.

Dois dias depois do falecimento, o corpo do maestro foi transferido para o Conservatório de Música. O cortejo varou a noite de Belém. O carro funerário foi conduzido pelo próprio povo, numa insólita romaria anunciada pelos acordes de O Guarani e iluminado pelas velas e archotes levados pela população ou dispostos nas varandas das casas.

 

Luiz Jatobá trabalhou no rádio brasileiro por 45 anos, numa época em que os conteúdos veiculados por esse meio de comunicação eram os mais consumidos pelo público. Influenciou gerações de locutores, não apenas de rádio, mas de cinema, televisão e vídeo, que o veneraram como o dono do mais famoso timbre vocal masculino brasileiro. Além disso, a voz grave desse locutor, que era médico ortopedista nas horas vagas, esteve associada, às notícias do front da Segunda Guerra Mundial, aos trailers hollywoodianos exibidos por anos a fio nos cinemas brasileiros, assim como a lances decisivos do futebol carioca, apresentados no Cinejornal Canal 100, ao som introdutório do “que bonito é…”.

Luiz Jatobá também atuou na televisão e comandou a primeira edição do Jornal Hoje, ao lado de Léo Batista, o precursor do “Jornal Nacional” da TV Globo.

Na década de setenta, durante a ditadura militar, Luiz Jatobá, já aos sessenta anos, sofreu perseguição política e decidiu emigrar para os EUA, onde retomou, para viver, a gravação de “trailers de cinema”, até falecer, triste e solitário, em 1982.

A alma e a voz de “A Voz do Brasil” pertencem a um passado cada vez mais distante, mas que jamais poderá ser olvidado. Com seus esforços, suor e lágrimas, construíram o mundo que herdamos.

 

 

 

Comentários

  1. qua 21st ago 2013 at 21:00

    Belíssimo texto sobre o grande Carlos Gomes. Merece um filme.

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