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22 dezembro 2012 por Publicado em: resenha Sem comentários ainda
A história de um Moisés profano

(Resenha da novela A Lei de Thomas Mann)

A história de Moisés do ponto de vista profano busca a origem do divino dentro do próprio homem em contraponto ao Deus bíblico. Mann mostra-nos o libertador do povo hebreu a partir de uma visão mundana, porém altamente espiritualizada, da qual resulta a figura de um líder civilizador, revolucionário dos costumes e das crenças de seu povo e, ao mesmo tempo, um déspota ideológico.
O nascimento de Moisés fora fruto do apetite sexual que seu pai, escravo hebreu, despertou na filha do Faraó Ramsés. O pai, abatido imediatamente após a satisfação da princesa, como era de costume, deixou-lhe um filho. A gravidez foi acobertada e na ocasião do nascimento da criança, todos os cuidados foram tomados:  o bebê foi encontrado num pequeno cesto e recolhido pelas serventes da princesa. Esta lhe deu como mãe adotiva a isrelita Jocabed e a partir daí ele ganhou seus irmãos. Chamaram-no, então, Moisés, que significa “filho”. Mas filho de quem?
Talvez, graças a esse nascimento irregular, Moisés “amava apaixonadamente a ordem, o inviolável, a regra e a proibição”.
Quando jovem, foi tirado de seus pais de adoção e colocado no mesmo internato dos filhos da realeza. Assim, Moisés aprendeu astronomia, geografia, a escrita e as leis. No internato, ele não conseguia identificar-se com seus colegas porque batia forte em suas veias o sangue do pai derramado.  Como todos, ele também sabia de sua origem: o Faraó Ramsés, o construtor, era seu verdadeiro avô e isso lhe dava ganas de assassinar aqueles que se divertiam com seu nascimento irregular.
Deste modo, muito cedo começou a matar com fervor. Um soldado egípcio, que espancava um hebreu  foi por ele atacado e morto. Ele mesmo encarregou-se de desaparecer com o cadáver. Sabia “que o ato de matar era verdadeiramente delicioso, mas que haver matado era medonho ao extremo e, por isso, não se deve matar”.
Por outro lado, tinha herdado da mãe egípcia uma sensualidade ardente, como contraponto, “ansiava pelo espiritual, pelo que é puro, sagrado e invisível”. Quando foge do Egito para o deserto, pois os hebreus haviam descoberto seu crime, encontra um povo de pastores, os madianitas, que amava um deus que não se pode ver, mas que a todos via. Ele vivia no topo de um monte no deserto do Sinai, sentado em uma arca, de onde realizava seus oráculos e jogava com os dados da sorte. Chamavam-no Javé. Se os madianitas não lhe davam lá muita importância, tal não ocorreu com Moisés. Para ele, Javé, o invisível, aquele que não possuia imagens, era o Altíssimo, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, de seus antepassados, hoje desenraizados e espalhados pelas terras egípcias.
Passado o tempo, tomando posse de sua esposa e de seus filhos, fez a longa viagem a lombo de jumento de volta às terras do Nilo. Lá, entre os hebreus, começou a pregar, agitando seus fortes braços, anunciando o encontro com o Deus de seus antepassados, que a ele se revelara no monte do deserto, como “aquele que era a eternidade” e que estava pronto a realizar uma aliança com as pessoas do seu sangue, desde que lhe jurassem exclusividade absoluta de culto.
A respeito das implicações envolvidas na invisibilidade deste Deus, em sua espiritualidade intrínseca, e a pureza nas coisas sagradas, nada falava para não assustar as pessoas. Também nada falava sobre a   tarefa que lhe fora revelada por seu deus interno: levar as tribos de Israel para a “Terra prometida”, libertando aquela gente da escravidão egípcia.
Reencontrou Miriam e Aarão, seus irmãos adotivos e seguidores. Fez de Josué, um jovem e decido hebreu, seu mais forte aliado, para quem Javé era o deus dos exércitos, o deus armado que os tiraria da escravidão. Josué foi o braço militar de Moisés junto daqueles treze mil hebreus escravizados, dos quais,  talvez três mil poderiam pegar em armas, o que seria uma força muito pequena para conquistar a “Terra Prometida”. Se saíssem do Egito, teriam que conquistar alguma terra onde pudessem se multiplicar e florescer as forças. Tanto Josué precisava de tempo para tornar-se comandante quanto Moisés para pregar a fé em seu Deus Invisível.
Moisés entendia que a saída do Egito não se daria por um levante popular, mas devido a um bom acordo. Graças a sua origem dupla, era o único homem que poderia pleitear perante o Faraó a saída de seu povo. Aarão conhecia certos artifícios de magia e devido à dificuldade de fala de Moisés, o irmão de criação passou a acompanhá-lo nos pleitos.
Iniciamente, tentaram enganar o Faraó com truques que já eram conhecidos pelos magos da corte. Depois, um pedido para que os hebreus pudessem realizar sacrifícios no deserto, o que lhes abriria as portas para a fuga. Esse pedido foi interpretado pelo Faraó como uma saída para o ócio e ele além de não permitir, mandou que a carga de trabalho dos escravos fosse aumentada.
A princípio o povo revoltou-se contra Moisés, mas com o passar do tempo, o aumento da exploração foi um fator positivo que estimulou a revolta e a vontade de fugir do Egito.
Fala-se muito das dez pragas que Javé jogou sobre o Egito. São histórias que podem ter causas naturais. Sabe-se que, em determinadas condições, as águas do Nilo, como de outros rios, tomam por influência de algas a cor avermelhada e os peixes morrem; as águas tornam-se impróprias para beber.
Sabe-se também que, às vezes, os sapos e rãs se multiplicam além da conta, assim como a infestação de piolhos sempre foi uma praga, até a invenção dos inseticidas. Muitas vezes, naqueles dias, os leões famintos atacavam o rebanho, e, quando desdentados e velhos, até mesmo os homens, tal qual outra praga. Quantas vezes na história da humanidade, os ataques de sarna se alastraram na sujeira e na falta de higiene dos corpos? Quantas vezes a incontrolável varíola ulcerou a pele das pessoas? E os gafanhotos, não foram e ainda o são uma praga para a agricultura?
Quanto ao famoso eclipse que se deu naqueles dias, ele não pode ser considerado nenhum milagre, aliás, já naquela época faziam-se previsões.
A cada evento natural, Moisés apresentava-se perante o rei e dizia que era  praga de Javé, pela ausência do apregoado sacrifício no deserto. Até que o rei se cansou e, ao invés de permitir que os hebreus fizessem sacrifícios no deserto, resolveu expulsá-los do Egito. Mas para isso também contribuiu Josué e o seu grupo de jovens guerreiros.
A última praga -a morte de primogênitos egípcios-  que se tem como responsável o “Anjo da Morte de Javé”, foi, na realidade, obra dos guerreiros de Josué. Nas casas não marcadas com o sangue de animais, a sucessão das heranças foi interrompida naquela noite nebulosa em que muitos primogênitos foram assassinados, num ato de típico terrorismo. Os sucessores das heranças, por seu lado, não quiseram vingança. Mas como acontece nesses eventos, o caos estabeleceu-se entre os habitantes da terra.
Foi quando ocorreu a expulsão do Egito. O povo de Israel tanto matou quanto roubou: foram vasos de ouro, bacias, trigo armazenado, gado, um pouco de tudo o que podiam carregar. Para Moisés, entretanto, aquela seria a última vez que um saque seria autorizado, mas como veremos, não o foi.
O que levou o Faraó, então, a ordenar que uma tropa de combate fosse ao encalço e reprimisse o povo fugitivo? Ora, o saque realizado em suas terras.
Moisés conhecia os caminhos entre o lago Azedo e o Salgado no delta do Nilo. Sabia que a maré recuava em determinadas horas e avançava em outras.  A turba desorganizada atravessou o estreito antes da chegada das tropas perseguidoras, que pouco conheciam a região e que, com a mudança dos ventos e da maré dividiram-se, sendo obrigadas a recuarem com muitas perdas. O povo de Israel estava liberto e Josué se encarregou de espalhar o boato de que, com uma vara, Moisés afastara as águas do mar, outro milagre de Javé! O povo cantava e dançava a morte dos egípcios. Moisés inicia sua nova doutrina: “Não te alegres com a desgraça de teu inimigo”.
Começava o enorme desafio de dar água e comida àquela gente. O povo oscilava entre as “glórias àquele que nos tirou do Egito” e a maldição àquele “que os trouxera ao deserto tirando-os de sua terra, da comodidade de seus lares”. Os gritos “o que vamos beber?” e “o que vamos comer?” atormentavam Moisés, “que sempre se sentiu atormentado por todos os homens da terra”.
Josué ouvira falar de uma fonte no deserto, chamada Mara, e para lá conduziu o povo; no entanto, a água do poço era insalubre e o povo desiludiu-se. Entretanto, Moisés, com o seu engenho, inventou um sistema de filtros que a tornou potável. Saciada a sede, a fome persistia. Os guerreiros de Josué notaram que, em determinados lugares do solo árido crescia um líquen comestível, do qual se poderia fazer um bolinho alimentar, o maná. Mas essas descobertas eram somente um lenitivo ao sofrimento da massa.
Josué buscava um grande oásis, o Cádis, lugar encantador, com muita água, frutas, gado, que seria  bom o suficiente para que as tribos se robustecessem até seguir o caminho da “Terra Prometida”. Guiados pelas estrelas, lá se foram eles. É claro que esse lugar já tinha dono, os amalecitas, e se Javé quisesse aquele local para seu povo teria que travar luta com Amalec, o deus daquele povo. Moisés vacilou em entrar em guerra pela posse de um local já ocupado, mas Josué contou-lhe a história de que Cádis há muito tempo, fora habitado por hebreus. Logo, as famílias que lá se encontravam, já o haviam roubado e quem rouba ladrão…
De algum modo, Moisés deixou-se convencer. A luta pela posse da terra e seus bens foi sangrenta. Mas Israel, que significa “Deus faz a guerra”, venceu-a guiado pelos braços levantados de Moisés a implorar pelo auxílio de seu Deus. As crianças abandonadas pelos amalecitas multiplicaram o número dos próprios filhos de Israel, assim como as mulheres de Amalec tornaram-se mulheres e criadas também de Israel. Moisés tinha todos os motivos do mundo para considerar-se um homem feliz.
No horizonte de Cádis erguia-se o monte Horeb, coberto até sua metade por vegetação e, no cume, uma pequena nuvem impedia a sua visualização. Moisés transportou do monte Sinai para lá seu Deus, Javé, aquele que não tinha imagens e que queria ser único. Ao lado de sua tenda construiu uma de reunião, onde guardava os objetos sagrados “a la madianita”: uma arca com alças e dentro dela o cajado com cabeça de serpente que Aarão um dia usara nas conversas com o Faraó, assim como os dados do sim e do não, do certo e do errado.
Moisés implantou um primeiro Tribunal, pois era necessário impor uma lei civilizatória.  A justiça tinha a ver com a Invisibilidade e a espiritualidade de seu Deus, assim como a injustiça que o populacho teria também que aprender a reconhecer. Moisés deveria, além de aplicar a lei, ensiná-la a seu povo, a qual lhe fora ensinada no Egito, a partir do código de Hamurabi.
Trabalhava dia e noite. Até que uma visita dos familiares madianitas de Séfora, sua esposa, o aliviou. Propuseram que nomeasse juízes, ao que ele, primeiramente resistiu, pois sempre soubera que os juízes são “comedores de presentes”. Ensinaram-lhe o truque da apelação, dos juízes de segunda e terceira instância, de tal modo que guardasse para julgar por si mesmo apenas as questões de importância.
Além disso, era necessário tudo ensinar àquele povo bárbaro, até normas de higiene básicas. Moisés obrigou-os a que cada um tivesse sua pazinha e que fossem fora de suas tendas, em determinado local, fazer as suas necessidades diárias, após o que, deveriam estas serem cobertas com areia para não atrair insetos. “Serás limpo e te banharás muitas vezes em água corrente; terás saúde, pois sem ela não existe pureza e nem santidade”. Quando os homens tiveram lepra, sarna, e outras doenças transmissíveis, foram colocados em isolamento com suas impurezas para que não se alastrasse a contaminação.
Interferiu também nos hábitos alimentares da população: os homens poderiam comer umas coisas e não outras. Por exemplo, os animais impuros, as aves carniceiras e os rastejantes não deveriam ser tocados.
Também os costumes deveriam sofrer transformação: o matrimônio sagrado não poderia ser rompido; o incesto entre irmãos e entre pais e filhos foi proibido; uma mulher menstruada estaria impura e não deveria ser importunada. “Ouvi dizer que fazes de tua filha uma prostituta e te aproprias do dinheiro dela; se o fizeres, mandarei apredrejar-te”. O sexo com animais e o homossexualismo seriam punidos com a morte; proibiu-se a reprodução de imagens de homens, de animais e de Deus e a tatuagem nos corpos.
Mesmo correndo o risco de que o povo se confundisse, disse-lhes: “Eu sou o senhor, vosso Deus.” Não era fácil para aquele povo solto submeter-se às ordens, aos valores e à disciplina de Javé. De todos os modos “os anjos da morte” de Josué estavam sempre a postos para executarem uma sentença necessária ou para expulsar um transgressor. “Javé e eu não queremos nem cruéis e nem covardes, mas permanecei no meio termo, sede decentes”.
Mais e mais restrições civilizatórias: não cobiçar a mulher, nem o bem do próximo; não roubar, nem matar; não dar falso testemunho; respeitar os mais velhos; consagrar o dia de sábado a Deus; não ser infiel no casamento. E nesse ponto, o amor de Moisés pela Moura, sua concubina de grandes seios, causava-lhe muitos transtornos e envergonhava seus filhos, que pertenciam à tropa militar de Josué.
Não era nada fácil a missão que Javé, o Deus do íntimo de Moisés, impunha a ele mesmo e ao povo, que, mesmo à custa de exemplos disciplinadores, ameaçava rebelar-se.
Foi quando a terra tremeu… Uma lava quente e grossa começou a escorrer por uma das encostas do monte Horeb e de seu cume evoluiam ainda fogo e fumaça. Moisés teve a certeza de que seu deus o chamava, enquanto o povo acreditava na ira de Javé. Mesmo com todos os riscos, Moisés, munido de uma talha e de um martelo, fez-se acompanhar por todo seu povo que acampou ao pé do morro. Moisés subiu sozinho quase até o topo da montanha e lá pemaneceu quarenta dias e quarenta noites. O corpo militar providenciou-lhe, sem que ninguém percebesse, serviço de água e comida, mas mesmo assim não foi fácil sobreviver à temperatura e ao cheiro de enxofre.
Mas Moisés tinha que trabalhar. Precisava dar aos homens uma prova concreta da existência do Espírito; queria que suas leis básicas, as mais importantes permanecessem escritas e fossem A Lei para todo o sempre. Mas ele não era um homem de escritas. Confundia-se com os idiomas que conhecia, com os sons e seus símbolos. Buscou se expressar por escrito do modo que todos entendessem as tábuas de pedra, talhadas no morro. Escreveu em duas tábuas o que se denominou de os Mandamentos, cinco em cada uma. Quando terminou, cortou seu antebraço e fez com que seu sangue desse cor às letras. Ao final desceu o monte Horeb com a ajuda de Josué e juntou-se ao povo.
O que viu o encheu de ira. O povo divertia-se ao som tocado por tímbalos, fornicava pelos cantos e bebia; além do mais, adorava uma imitação tosca de bezerro feita com o ouro roubado no Egito, dançava e ria a mais não poder. Já não esperava que ele vivesse, talvez mesmo o quisesse morto para exercer a liberdade, mas eis que, de repente, surge Moisés na companhia do comandante da repressão armada. Ergue, então, com todo ódio as suas tábuas da lei e as arrebenta contra o bezerro de ouro, destruindo-o também. “O povo queria fazer sua festa frente a um deus mais cordial”, segreda Aarão, seu irmão.
Moisés juntou aqueles que lhe seguiam fiéis e se estes já não eram poucos, foram aumentando sob pressão. “Deus é paciente e misericordioso, perdoa delitos e transgressões, mas a ninguém deixa impune”. “Aqui será feita uma purificação sangrenta, pois as leis foram escritas com sangue. Os falsos guias serão aniquilados, pertencerão ao Anjo da Morte”. E deixando para Josué as execuções, retornou ao Monte Horeb para trabalhar pelo seu povo, implorar o perdão a Javé.
E ali, próximo ao topo permaneceu mais quarenta dias e noites, burilando novas Tábuas da Lei. Javé consentiu a renovação das Tábuas e Moisés pediu-lhe que perdoasse os pecados de seu povo ou ele também seria um derrotado, pois o povo de sua eleição tornar-se-ia pagão, voltaria à adoração de Belial. Esse argumento foi forte o suficiente para convencer seu Deus a manter a tão abalada aliança.
Ao descer do monte, trazia em cada braço uma Táboa da Lei. Moisés proclamou: “Maldita seja a pessoa que disser: essas pedras não são verdadeiras. Maldito aquele que vos ensinar: levantem-se e sejam livres novamente!” “Esse é o vosso Deus, façam tudo em sua honra; esmagarei com meu pé o pecador. E quem pronunciar seu nome terá que cuspir para os quatro cantos e lavar a sua boca, dizendo, Deus me livre! Para que a terra volte a ser novamente a terra, um vale de lágrimas e não um prado de tolices. Dizei amém a isso!”
E todo o povo disse Amém.

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