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21 janeiro 2013 por Publicado em: Sem categoria 6 comentários
 Uma Resenha

Uma obra de vanguarda, modernista, questionadora, genial. O simbolismo que aponta para um “futuro socialista” que, após doze anos de revolução, se apresenta ao poeta como triste e insoço, homogêneo e monocórdico. O “Poeta da Revolução”, o mesmo que poetara “Vladimir Ilitch Lenin” em 1926, faz uma crítica acerba ao tratamento dado à arte pós Lenin e Lunatcharski. Depois de “O Percevejo”, produziu pouca coisa, mas extraio de seu último poema, escrito em 1930, o lado ao qual ele desde sempre se alinhou, ainda que, ao final, criticamente: “Todo inimigo da classe operária  é desde muito meu inimigo jurado. / Tivemos sob a bandeira vermelha, anos de sacrifício, dias de fome/ Mas cada tomo de Marx, nós os abríamos como se fossem janelas, e, mesmo sem saber ler, saberíamos onde ficar, de que lado lutar.” 

O Percevejo era, ao mesmo tempo, uma praga que tanto incomodava, como a garantia de humanidade da revolução, em franca e trágica transição para o burocratismo stalinista. “Cuidado, cidadão”, clama um bombeiro, “incêndios são causados por sonhos mal-sonhados, por isso nunca leve para ler na cama Nadson e Jarov”, o último dos quais, rompendo com Maiakovski,  se transformará nos anos trinta num dos esteios do oficialismo na arte.

 

Na antevisão do poeta, o socialismo futuro que se plantava seria “despreendido” do álcool, do fumo, da liberdade, do gosto de se viver livremente, enfim. Amorfo na sua garantia do pão, da estupidez e da vulgaridade para a massa, e, por tudo isso, profundamente desumanizado. Prissipkin, que morrera congelado em 1929, é descoberto sob o gelo e submetido, num tempo da Federação Socialista da Terra, em 1979, a um processo científico de descongelamento. Esse personagem, dissidente do passado remoto, ressurreito, seria transformado em uma peça de museu, ou melhor, de zoológico. Quando toma contato com o mundo que o recria, seu único desejo é retornar à rua Lunatcharski, n. 17. Voltar à “residência” do primeiro Comissário para a Educação e Cultura e ao ano da revolução.
“Para que viver?”, “para o socialismo do futuro?” É um grito de socorro do poeta Maiakovski lançado ao vento, um pathos impossível de encontrar uma luz, a não ser no próprio suicídio, o que ocorreria pouco tempo após a montagem da peça “O Percevejo”. Um professor, num futuro socialista, tentará, em 1979, decifrar palavras do passado: “suicídio, o que é suicídio?”, olha no dicionário e o que encontra como sinônimos? “…servilismo…solidão…suicídio, ah, aqui está!”.
A primeira montagem teatral foi simplesmente genial e assustadora para a burocracia e para a União dos Escritores. Nela contribuíram os vanguardistas Shostakovitch, ( grande músico e maestro, autor da “Sinfonia 1905” que foi apresentada em praça pública durante o cerco nazista a Leningrado como o hino de resistência soviética) e Rodtchenko, o grande artista plático, como cenógrafo.
A peça constitui uma crítica acerba da burocracia que sufoca, que privilegia aqueles que, com um cartão de sindicato, colocam-se acima do próprio povo, do proletariado que “representam”. Criticando a “Nova Política Econômica” de Stalin, Maiakoviski vai ao fulcro do deslumbramento dessa parcela do “proletário ascendente e privilegiado” pelo consumismo. O vendedor de bonecas no mercado, onde as pessoas chegam como seres humanos e partem transformadas em “transportadoras de mercadorias”, anuncia: “bailarinas mecânicas, diretamente da ópera de Moscou…bonecas que dançam sob a direção de nosso Camarada Comissário”. Outro vendedor apregoa “ 105 histórias engraçadas de Tólstoi… por apenas 15 copeques”, liquidação do que aquele Titã da literatura jamais escrevera, comédias! Tudo deturpa-se na ânsia pelo consumo.
“Eu sou um homem de perspectivas históricas! Desprezo os costumes pequeno-burgueses como fitas, lacinhos, eu quero mesmo é uma cristaleira!”, diz o personagem central, preocupado com o próprio patrimônio e com certo estilo e poder de consumo. Esse é Prissipkin, ex- proletário, ex- membro do Partido, “que perdera a carteira do Partido ( ou o seu significado), mas que ganhara na loteria e nas ações do Estado”. Mantinha,  por não ser tolo, a sua carteira sindical. Prissipkin que se casando com Elzevira, a cabelereira pequeno burguesa, terá o “poder”de transformá-la em camarada, realizando o sonho de um Baian: a “união do proletariado com a pequena burguesia”. Palavras da mãe da moça: “Minha filha, você  ainda não tem o cartão, então é melhor, como eu, também  ficar quieta, calar a boca”, desnudando os privilégios formais que já corroíam a sociedade.
A seguir, Maiakovski  desnuda a corrupção e a falta de transparência. Um serralheiro diz a Prissipkin: “Segue meu conselho: ponha cortinas nas janelas. Aí você poderá abrir as cortinas e olhar a rua ou então, fechá-las e abocanhar as propinas”. O mesmo serralheiro que declama: “Eu trabalhei, há algum tempo, na construção de uma ponte para o socialismo. Mas eu me cansei e não terminei e, debaixo da ponte, repousei. Na ponte cresceu grama que os carneirinhos comeram. Agora eu só quero descansar à beira do caminho”.
Quando Prissipkin, acidentalmente congelado juntamente com o percevejo que carrega na pele, está para ser ressuscitado, em 1979,  surge a questão suscitada pela Secretaria Central Epidemiológica: “Como evitar o contágio com a bactéria da bajulação e da vaidade transmitida pelo percevejo, doença característica do ano de 1929?” “ O mistério do lambe-botas poderia ressuscitar?”. Esta preocupação ocorre, todavia,  apenas num primeiro momento, pois logo a seguir a sociedade do futuro glorificará o percevejo transmissor do pucha-saquismo e erguerá para ele um pedestal no zoológico,  buscando alguém a quem ele possa picar infindavelmente, para sua preservação.
Mas, dialeticamente, o mesmo percevejo trará para aquela sociedade mórbida, uma outra bactéria do passado heroico, uma novidade chamada paixão, há muito extinta.
Nessa sociedade futurista, Prissipkin é considerado uma espécie extinta, viciosa, que fumava, que bebia cerveja, que ria e tocava guitarra; consideravam-no mesmo como uma nova espécime biológica, o “Filistaeus vulgaris”, que, conforme o Comissário Diretor, transformava “Tolstoi em Marx” e se diferenciava dos pássaros pelo tamanho de seus “excrementos”.
Quanto ao ressuscitado, da jaula onde o colocam para visitação pública, grita inutilmente: “Eu não pedi para ninguém me ressucitar! Congelem-me novamente!”. “Por quê estou sozinho na jaula? Camaradas, venham comigo”!
A resposta do Diretor é ”apliquem-lhe uma mordaça, para que não fale, não nos contamine”.
Fecham-se as cortinas ao som dos acordes de Shostakovitch.

Comentários

  1. Carlos Alberto
    qua 25th dez 2013 at 2:24

    Muito bom! Pela resenha, pude captar bastante das idéias ventiladas por Maiakovsky!
    Não conhecia, achei ótimo! Dele, conhecia somente alguns poemas, como o clássico do “Sou todo coração”!
    Muito crítico e criativo!
    Infelizmente, parece que as pessoas tão críticas assim acabam sendo ceifadas pelos falsos revolucionários, se suicidando, ou tendo algum outro fim trágico!
    Uma pena para a humanidade!

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  2. Ruben Marks
    ter 21st jan 2014 at 16:14

    Obrigado Carlos Russo pela resenha, que ajuda a despertar o interesse pela peça. Mas antes de a comprar para encenação seria possível fazer-me o favor de indicar se é um monólogo ou qual o elenco? Antecipadamente grato, cumprimentos, Ruben Marks

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    • Carlos Russo Jr  –  qua 22nd jan 2014 at 14:07

      Prezado Ruben, a peça foi encenada há muitos anos atrás no Brasil por Odwvaldo Vianna. Ela não é desenvolvida como monólogo e eu creio que com isso perder-se-ia bastante. No entanto, creio que um diálogo com um personagem central e outro que se travestisse em diferentes personas seria lago de muito interessante e altamente criativo. Abraços e boa sorte.
      A propósito, eu preparei uma adaptação para teatro de “O idiota” de Dostoievski, você poderá lê-la em meu site.

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  3. valeria
    sáb 05th abr 2014 at 20:02

    Obrigada.

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  4. miriam bettina paulina bergel oelsner
    qua 30th abr 2014 at 21:41

    Prezado Carlos,
    Há alguns anos dedica-me praticamente só aos estudos sobre “Como foi possível?” ter acontecido a Shoá. Traduzi um livro sobre o tema, será que você conhece? LTI A linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer. Meu marido foi seu contemporâneo, somos a geração 1968. Parabéns pela iniciativa!

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  5. Cássia Abadia da Silva
    qua 11th fev 2015 at 4:18

    A Obra escrita entre 1928 e 1929, foi levada aos palcos soviéticos no último, considerada uma obra-prima da produção teatral de vanguarda, passados mais de 50 anos temos a nossa versão brasileira por meio do saudoso diretor Luís Antonio Martinez Corrêa que traduziu a peça juntamente com um significativo grupo que contava com os irmãos Miguel e Guel Arraes, Déde Gadelha Veloso dentre outros, as encenações tomaram os palcos do Teatro Dulcina, Rio de Janeiro em 1981 e do Teatro Sesc Pompéia de São Paulo em 1983, sem contar a temporada na França. Recebeu vários prêmios desde a direção, passando pelos cenários de Hélio Eichbauer até a canções de Caetano Veloso. Quem quiser conhecer melhor esse lindo texto tem uma publicação da editora 34 de 2009, trata-se da tradução de Luís Antonio, para os amantes do teatro de Maiakóvski a mesma editora também publicou “Mistério-Bufo”, texto escrito em 1918 para a comemoração de um ano da Revolução Russa.

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