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20 agosto 2018 por Publicado em: ensaio Sem comentários ainda

Tanto Freud quanto Nietzsche afirmaram ser o último romance escrito por Fiodor Dostoiévski a maior obra literária jamais escrita na história da humanidade.

Stefan Zweig, ao terminar de escrever seu livro “Os Construtores do Mundo”, foi convidado a realizar um resumo comentado da última e principal obra do grande escritor russo: “Os Irmãos Karamazovi”. Infelizmente, uma série de circunstâncias como o advento da Segunda Guerra Mundial e seu falecimento prematuro impediu que executasse tal projeto. O título provisório para o trabalho seria o mesmo que o próprio Dostoiévski designara para o local onde se passa a tragédia dos Karamazovi: “Skotoprigonievski”.

Dostoiévski tinha por hábito justapor palavras em russo. Skotoprigonievski tem o significado de “um depósito de animais”. O grande depósito de animais que simboliza um universo, microcosmo de nosso mundo de humanidades, no dizer de Ivan Karamazov, repleto de “focinhos humanos”.

Karamazov é originário etimologicamente de kara (castigo) e mazat ( sujar). Desde o título ele nos dirige para “aquela pessoa cujo erro o leva à própria punição”, ou se o quisermos dentro do trágico, aquele que ultrapassa suas medidas e caminha para a própria condenação, uma etapa necessária à redenção ou à perdição.

A cidadezinha de Skotoprigonievski, onde a trama se desenvolve, é um “depósito de animais”, onde todos nós poderemos de um modo ou outro encontrar nossa “isbá”, o nosso lar. Uma aldeia que arde pelas paixões, ódios, desmedidas, mas que também é capaz de gerar um Alieksei , um homem que procura a verdade e a fraternidade.

Hoje como no passado, os habitantes de nossas imensas Skotoprigonievski, o que tanto desejam? Serem felizes, possuírem riqueza, poder e, quem sabe, acima de tudo, consumir e poderem se exibir socialmente. Pois os personagens de “Irmãos Karamazovi” nunca aspiram a nada disso diretamente, mesmo porque eles não se estabelecem em lugar algum, nem mesmo diante da própria felicidade. Necessitam seguir um caminho, têm uma espécie de alma interior que  tortura a si mesma num eterno seguir em frente. Desprezam a fortuna ainda mais do que a desejam, talvez porque nada almejem de particular neste mundo; mas se nada querem de particular, no geral aspiram a tudo, à plenitude dos sentimentos, à vida inteira.

Os  Karamazovi, para Zweig, têm músculos de aço, sede de vida brutal, “essas bestas ferozes de sensualidade, de alegria do viver”, indecentes e fanáticas, que sorvem as últimas gotas do cálice antes de o quebrarem. São do tipo que querem o tudo e o nada, desejam o bem e o mal e tais quais os heróis das tragédias gregas excedem seus limites, mesmo porque estão permanentemente a testá-los.

Essa inquietude e ansiedade são do mesmo modo suplícios e o sofrimento dilacera a todos; quando se embebedam, não buscam o prazer ou o sono, mas na embriaguez tentam o esquecimento da loucura;  jogam um dia inteiro para matar o tempo e entregam-se à dissolução, não por prazer, mas para perderem o controle nos excessos que cometerão.

Não por acaso o romance, por ser religioso, é dividido em quatro partes, totalizando doze capítulos, e um epílogo. Dostoiévski expressa da maneira mais acabada sua religiosidade cristã e ortodoxa. O número de capítulos simboliza a atuação de Deus sobre o espírito, na dualidade das coisas e do homem. O doze simboliza Jesus, sendo ainda o número dos apóstolos de Cristo, o número de estações de sua Via Crucis, das tribos de Israel, assim como a base dos cento e quarenta e quatro mil salmos bíblicos.

O patriarca da família é Fiódor Karamazov, um velho devasso, palhaço e mesquinho, que fez fortuna devido aos dotes de suas duas mulheres mortas precocemente. Teve três filhos aos quais abandonou. Com a primeira, Dmitri, criado primeiramente pelo seu criado e depois por Miússov, parente de sua falecida mãe. Com a segunda mulher, mais dois: Ivan e Aliêksei, que terminaram sendo criados por outro parente.

Enquanto Ivan que cresce na cidade grande e se torna um intelectual atormentado por sua inteligência, Aliêksei se transforma numa pessoa mística e pura, entrando para um mosteiro em Skotoprigonievski.

Será Ivan quem transportará para a obra polifônica muito mais do autor que qualquer outro personagem; seu alimento não é o pão, a carne e ou vinho, mas as reflexões; ele não age impulsionado nem pelo amor, nem pelo ódio, na medida em que somente luta por ideias, mesmo ao custo de o alucinarem.

Dmitri ou Mitia, o primogênito, torna-se homem na devassidão; incorporado ao Exército, do mesmo é expulso. Seu nome deriva de Demeter, fruto da mãe Terra e como tal possuidor de força brutal e ingênua, agindo sempre infantilmente e em desespero, possuindo até mesmo a capacidade de amar simultaneamente duas mulheres, cada qual a seu modo.

A partir da disputa financeira pela herança materna, entre o pai e Mitia, nasce o conflito por uma mulher, Gruchénka, que levará ambos a brigas e até ameaças de morte. Gruchénka é uma das personagens dramáticas que são mulheres “decaídas”. Se ela devota aos homens que por si se apaixonam apenas o ódio travestido de boas maneiras, possui também um coração de ouro para aqueles a quem chega a amar, o que ocorrerá quando apaixona por Dmitri.

Além dos três filhos legítimos, Fiódor também agrega como servo o filho fruto do estupro de uma mulher amalucada, estupro que cometera na mocidade. Trata-se de Smerdiakov, um ser trágico, que simboliza a dissuasão, a hipocrisia, a inveja incontida dentro de uma vida sem sentido. Smerdiakov é niilista, feio, bastardo e “eunuco” e será o instrumento da morte paterna, do parricídio que, entretanto, ambos os irmãos, Ivan e Mítia, no subconsciente gostariam de haver cometido.

Encontramos desenvolvida nesse romance, com toda profundidade, a problemática essencial da existência ou não de Deus, questão que tanto angustiou a vida do autor. A existência de um Deus que esteja lado a lado com as questões como o bem e o mal, assim como a consequente responsabilidade humana no livre-arbítrio, na liberdade de salvar-se e de libertar-se.

Por isso mesmo Dostoiévski impulsiona todo o drama para um momento superior, religioso, em que personagens procuram a fraternidade universal no mistério da reconciliação geral e no reconhecimento fraterno. Ao final do romance uma propensão para o alto, para a redenção. Os “criminosos e pecadores” de certa forma são penetrados pela divindade, buscando no sofrer e no arrependimento se elevarem espiritualmente.

Se Cristo pedia “deixai vir a mim as criancinhas”, o mesmo o faz Aliocha, sempre rodeado por elas, buscando que cultivem as memórias de seus momentos felizes na pureza da infância, essenciais à felicidade do futuro adulto. As crianças que constituem o símbolo da pureza, da capacidade de redenção do homem e, no dizer de Ivan, “o maior dos crimes consiste em agredi-las, degradá-las”.

  • A Revolta em “Os Irmãos Karamazovi”

A Revolta é o décimo quinto capítulo do romance de Dostoiévski, aquele que antecede e prepara o leitor para o “O Grande Inquisidor”. Trata-se um longo colóquio entre dois irmãos Ivan, o livre pensador e Aliocha, o seminarista.

A revolta de Ivan vai ao encontro de um mundo que se desfaz em injustiças e violência. Primeiramente ele avança contra o preceito cristão do “amais-vos uns aos outros”. “Jamais pude compreender como se possa amar o próximo. Não se pode amar o próximo, a não ser que ele esteja distante; para que se possa amar alguém é preciso que ele esteja oculto, pois desde que ele se mostra, o laço se desfaz… O amor de Cristo pelos homens é uma espécie de milagre impossível na terra, pois nós não somos deuses… Pode-se, isso sim, amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias, aliás, eu nunca as acho feias. Já os adultos, esses comeram o fruto proibido, discerniram o bem do mal, tornaram-se semelhantes aos deuses. Mas as criancinhas não, são inocentes”.

Prossegue Ivan dizendo que comparar a crueldade humana com a dos animais silvestres seria uma enorme injustiça para com esses, pois as feras jamais atingiriam os refinamentos do homem na maldade. “Se o diabo não existe e foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança.”

Ivan Karamazov, ou melhor, Dostoiévski, relata a Aliocha cinco casos reais publicadas em jornais, na forma de cinco pequenas “histórias” ilustrativas da maldade a que pode chegar o homem:

Episódio 1. A história trata de um adolescente que se converteu ao cristianismo antes de morrer. Havia sido “dado”, aos seis anos de idade, por seus pais a uns pastores que o “educaram” para o trabalho, ou seja, para ser um escravo. Richard crescera como um pequeno selvagem faminto, sem roupas, a pastorear desde os sete anos de idade. A fome o obrigara a comer até mesmo a lavagem que era dada aos porcos, embora quando era pego surravam-no sem piedade. Ao tornar-se jovem, ele passou a roubar e chegou mesmo ao assassinato. Na prisão cercou-o uma multidão de almas caridosas, pastores calvinistas e senhoras da sociedade. Ensinaram-no a ler e a escrever, assim como todo o Evangelho. Catequizaram-no e, em decorrência da fé adquirida, ele confessou seu crime ao Tribunal dizendo-se um monstro, mas que Deus o esclarecera de toda a sua maldade. Toda Genebra filantrópica e pia emocionou-se com o caso.

Julgado culpado, no dia da execução, Richard chorava e repetia que aquele era o dia mais lindo de sua vida, pois iria arrependido até Deus. Toda a sociedade genebrina segue a carreta que o conduz ao cadafalso. “Morre irmão, morre no Senhor”, gritavam. E, coberto de beijos, Richard sobe ao cadafalso e a sua cabeça rola com a graça divina.

Episódio 2. “Entre nós, torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato”.  O poeta Nekrassov relata como um mujique bate com seu chicote nos olhos de um cavalo que não consegue atravessar um lamaçal. “É um bom russo. Quem já não viu isso? Ele bate encarniçadamente, sem saber muito bem o que faz e os golpes chovem numa espécie de embriaguez. A besta sem defesa se debate desesperadamente enquanto seu dono açoita seus olhos doces, de onde rolam lágrimas… Mas por que as pessoas se chocariam com o caso? Não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Afinal, os tártaros nos legaram o chicote para quê?  Para isso.”

Episódio 3.  As pessoas também podem ser espancadas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o pai está feliz porque a vara tem espinhos. Há seres que se excitam a cada golpe e chegam, progressivamente, ao sadismo. Bate-se na criança um minuto, depois cinco, após dez…, sempre mais e mais forte. O caso torna-se escandaloso e chega ao Tribunal. Toma-se um advogado, mas “há muito tempo o povo russo chama ao advogado de uma consciência de aluguel”. Trata-se apenas de um caso em família, o rábula argumenta. E o júri absolve o marido e a mulher e o povo o aplaude.

Episódio 4. Existe um pendor especial, em muitos, para o prazer de açoitar crianças. Pois cada homem oculta em si um demônio: acesso de cólera, sadismo, paixões ignóbeis, doenças contraídas na devassidão. No caso, os pais eram instruídos, mas praticavam sevícias numa pobre menina. Açoitavam-na e seu corpo vivia repleto de equimoses. Refinaram, então, sua crueldade: nas noites de inverno encerravam a menina na privada para que ela não perdesse tempo urinando na cama. Esfregavam os excrementos na pequena face e a mãe obrigava-a a comê-los. E essa mãe dormia tranquila, insensível aos gritos da pobre criança. E o pequeno ser, sem saber ao certo o que acontece, bate em seu pequeno peito, chamando o bom Deus em socorro! “Ora, toda a ciência do mundo não vale as lágrimas de uma criança”, conclui Ivan.

Episódio 5. No começo do século XIX, um general rico proprietário vivia em uma fazenda com mais de duas mil almas de servos. Tratava a todos com desdém e tinha uma centena de capatazes e matilhas  de cães amestrados. Um dia, um pequeno servo de oito anos acertou uma pedra em um de seus cães favoritos. O general ordenou arrancar a criança dos braços da mãe e jogou-a numa masmorra. No dia seguinte, ele, em uniforme de gala, montado para ir à caça e cercado por seus parasitas, reúne todas as almas “que lhe pertenciam”, para “dar um exemplo”.

Trazem a mãe e o menino. “O general ordena que, na manhã fria, tire-se toda a roupa do garoto que tremia de medo, sem dizer palavra”. “Façam-no correr, ordena”. Nisso ele açula a matilha e os cães que estraçalham a criança diante de sua mãe.

Ao terminar de contar esses casos, Ivan conclui: “Aliocha, limitei-me às crianças. Nada disse sobre as lágrimas humanas de que a terra está encharcada. Não compreendo esse estado de coisas. Os homens são os únicos culpados… Não merecem, pois, compaixão.”

Ivan prossegue: “Os carrascos e torturadores sofrerão no inferno, tu me o dizes, Aliocha. Mas de que serve o castigo se as crianças já tiveram seus infernos? Aliás, de que vale essa harmonia que comporta um inferno?” E prossegue Ivan: “Querer o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. Mas se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo que ela não vale tal preço. E se o direito de perdoar não existe que vem a ser a harmonia? Pelo amor pela humanidade é que eu não quero essa harmonia. Prefiro conservar a minha indignação persistente mesmo se não tiver razão. Aliás, deram excessivo valor a essa harmonia, cujo preço nos é demasiado caro. Entrego meu bilhete na entrada. Como homem de bem tenho o dever de entregá-lo o mais rápido possível. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente, devolvo-lhe o meu bilhete”.

Aliocha, o seminarista, não encontra argumento para refutar o raciocínio de Ivan. Resta-lhe repetir o que quase sempre se fez: retruca que “tudo isso não é nada mais que revolta, uma revolta contra Deus”!

Ivan contra argumenta: “Pode-se viver revoltado? Ora, eu quero viver. Imaginas que os destinos da humanidade estejam em tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, seria necessário torturar um ser, um ser apenas, tu o consentirias?” Eu, jamais.

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