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18 julho 2018 por Publicado em: ensaio 2 comentários

O quarto moscovita, onde residia o escritor Mikhail Bulgákov com sua esposa, ficava no corredor de um prédio senhorial coletivizado após a Revolução. Um dia, a administradora ansiosa do imóvel quase arrombou a porta pela manhã, anunciando que alguém no Kremlin estava ao telefone. Ainda sonolento, Bulgákov atendeu: “Agora o camarada Stalin vai lhe falar.” Deveria ser uma brincadeira e ele bateu o telefone, que, no entanto, voltou a soar insistente. Do outro lado, a voz branda e adocicada do “Pai dos Povos” disse ao escritor: “Como vai, camarada Mikhail Afanasievich? Li sua carta, talvez tenha razão em algumas coisas, mas o camarada deve estar com nojo de nós. Está pedindo para deixar o país…” Bulgakov sentiu o golpe e respirou fundo antes de responder: “Eu tenho pensado muito ultimamente, mas pode um escritor russo viver longe da pátria? Não, não pode.” Stalin retrucou-lhe de imediato: “Tem razão. Se quer ficar conosco diga-me se ainda deseja trabalhar no Teatro de Arte”. Perante a afirmativa, o líder prosseguiu: “Envie um requerimento para o teatro, agora eles o aceitarão. E precisamos nos encontrar para conversar.” Bulgákov animou-se: “Quando?” Respondeu-lhe Stalin: “Vamos ver, camarada, vamos ver.” No entanto, por mais que tentasse jamais Bulgákov voltaria a falar com Stalin.

A geração dos grandes artistas e intelectuais dos anos 1890 produziu o maior literato e dramaturgo simbolista russo: Mikhail Bulgákov! No entanto, ele era dono de um simbolismo todo especial, aquele definido por Franz Roh, em 1925, como “realismo mágico” e quase meio século após, adotado pelos principais escritores latino-americanos como Cortazar , Vargas Llosa, Garcia Marques, Bioy Casares e Borges.

Sua obra-prima foi o romance “O mestre e Margarida”, que permaneceu escondido por sua esposa até mesmo dos amigos mais próximos, vindo à luz no princípio dos anos 1960 e publicado trinta anos após sua morte, permitindo que a literatura soviética ganhasse novas e desafiadoras cores e, pode-se mesmo dizer que com sua publicação, o simbolismo se revolucionou.

Bulgákov, nascido na Ucrânia, era médico quando eclodiu Segunda Guerra Mundial e alistou-se como voluntário na Cruz Vermelha, atuando no front de 1916 a 1917. Quando explodiu a guerra civil após a Revolução Socialista, serviu como médico no Exército Branco. No entanto, ao contrário de seus irmãos, um ano após o início dos combates, abandonou a contrarrevolução e decidiu integrar-se e permanecer na Rússia Soviética.

Cansara-se para sempre de conviver com a morte e a violência, definia-se por tratá-las apenas metafisicamente, pela linguagem. Torna-se jornalista e, em 1921, muda-se para Moscou onde inicia o trabalho de escritor e teatrólogo. Publica vários trabalhos durante a década de 1920, até que por volta de 1926 começa a sofrer acusações de comportamento literário antissoviético. Era fruto da magia de seus escritos, um simbolismo modernista de quem não simpatizava com o “realismo socialista” e muito menos com a burocracia instalada no poder, logo, suas críticas ao sistema soviético advindas de metáforas, provocou reações.

A primeira execração pública veio através do Izvetia, quando Larissa Reisner acusou Bulgákov de traição à Pátria, devido a suas concepções místicas, num artigo intitulado “Contra o banditismo literário”. A seguir foi Lunatcharski que no Rabotchaia Moskva conclamou: “Derrotemos o bulgakovismo! Desarmemos o inimigo de classe no teatro, no cinema e na literatura.”

Imediatamente o romance “A diabólida” foi retirado de circulação; o “Os ovos fatais” não encontrou editor que o publicasse e “A guarda branca” ( que nada tinha a ver com a guerra civil), que era publicada em fascículos pela revista Rossiia, levou ao fechamento da mesma.

Bulgakóv, mesmo proibido de editar, em segredo preparou um novo livro destinado a ser uma sátira mordaz e agressiva ao mecanicista conceito de o «homem novo soviético”. O “Coração de cão” foi escrito em 1925, escondido dentro de um forno por décadas e apenas pode ser publicado na União Soviética em 1987, com a perestroika. Um cientista especializado em rejuvenescimento faz uma experiência em um cão vadio, depois de ganhar sua confiança. O professor realiza vários transplantes e manipulações genéticas e produz um homúnculo chamado Polygraf Polygrafovitch Sharikov: o mais arrogante, perfeito e acabado idiota com que qualquer burocrata poderia ter sonhado. Como Polygraf se auto intitula amante do proletariado, o professor vê-se perseguido por comitês e comissões estatais proletárias deslumbrados com o cão que se transformara em “um homem novo”, numa experiência de laboratório que pensavam centuplicar e reproduzir ao infinito.

Esses fatos obrigaram Bulgákov trabalhar na escrita e montagem de peças teatrais. Submetendo-se a cortes, encenou “Os dias de Turbini”. Stalin, que já censurara seus livros, apaixonou-se pela peça, chegando a assisti-la doze vezes. Não obstante, em 1929, outro jornal soviético estampou: “Os teatros se libertam das peças de Bulgákov”.

A partir desse momento, sua carreira foi destruída e todos os seus trabalhos censurados e proibidos. Sem nem mesmo registro sindical, Bulgákov e a mulher chegaram a passar fome. Em desespero ele apelou a Gorki, para que ao menos conseguisse uma autorização para que eles viajassem para o exterior e se reunisse aos irmãos em Paris. “Tudo me foi proibido, estou na miséria, acossado, em completa solidão”.

Em 1930 escreveu, aconselhado pelo amigo o teatrólogo Zamiatin, uma longa carta à burocracia soviética e a Stalin. Em um de seus trechos confessa que “a luta contra a censura, seja esta qual for e qualquer que seja a autoridade, é meu dever de escritor, como o são meus apelos à liberdade de imprensa. Sou um adepto fervoroso dessa liberdade e suponho que um escritor que pensasse em demonstrar que ela não lhe seria importante, este seria como um peixe que declarasse não necessitar de água.”

Stalin leu e, provavelmente, conversou com Gorki. Em seguida realizou aquela ligação telefônica que pegou de surpresa o escritor. Em consequência da mesma, no dia seguinte o teatrólogo foi recebido de braços aberto no teatro e nomeado diretor-assistente. No entanto, apesar de seu trabalho, os projetos que realizou não alcançaram um sucesso maior, sendo constantemente submetidos a cortes e censuras, outras vezes a apupos de jovens konsolmols.

Por interferência de Gorki, ainda atuou algum tempo no Teatro Bolshoi como roteirista, mas demitiu-se depois de seus roteiros não terem sido produzidos. Até mesmo suas adaptações de peças clássicas com as de Shakespeare foram recusadas.

Na pobreza, em 1936, durante o clima terrível dos Processos de Moscou, Bulgákov tentou uma jogada de mestre. Se por um lado ele segredou à esposa “é minha esperança de sobreviver”, por outro, nutria esperanças de que Stalin um dia ainda se desembaraçaria dos demônios burocráticos que o impediam de ser homem justo. Ele acreditava no Grande Líder. A peça teatral denominou-se “Batum”, um porto no Mar Negro onde, em 1902, Stalin comandara uma greve terrivelmente reprimida pelo czarismo. Stalin seria o grande herói. Com a atriz Helena Chilovskaia, sua terceira esposa, parte com toda a direção do teatro para a preparação da montagem, naquilo que se pretendia ser uma homenagem ao sexagésimo aniversário de Comandante. Em meio do caminho, entretanto, uma ordem originada de Moscou fez com que todos voltassem.

Convocado, Bulgákov soube que o Partido considerava inaceitável que Stalin fosse exposto no teatro como um “herói romântico”, dizendo palavras inventadas e situações inventadas pelo teatrólogo. Foi ao desespero. Escreveu para um amigo: “Nos últimos sete anos conclui dezesseis obras de diferentes gêneros, e todas se perderam. Em minha casa há trevas e uma absoluta falta de perspectivas.”

Logo a seguir, o fundador do realismo mágico russo desenvolveu uma doença neurológica grave e degenerativa, que o deixaria praticamente cego e sem movimentos voluntários até conduzi-lo à morte, em 1940. Nesse período, pese todos os sofrimentos e dificuldades, trabalhou com o auxílio da esposa todos os dias e noites na obra-prima iniciada em 1928, “O mestre e Margarida”, cujo primeiro manuscrito fora por ele mesmo queimado em 1930, por medo da NKVD.

A primeira impressão do livro sem cortes ocorreu em 1974. Foi um incrível sucesso! O antigo apartamento do escritor em Moscou, e no qual se passa parte da trama, virou local de culto por parte da juventude soviética. No final da década de 2000, foi transformado no Museu Bulgákov.

“O mestre e a Margarida”.

O romance trata do combate metafísico entre o bem e o mal, da inocência versus a culpa, do consciente e do inconsciente, da ilusão e da verdade, da liberdade de espírito num mundo autoritário. E mesmo da irresponsabilidade daqueles que, embora possuam autoridade, tentam fugir ou negar a realidade dos fatos.

A epígrafe é tirada do “Fausto” de Goethe, que influencia todo o desenvolvimento do roteiro: principia com a pergunta de Fausto a Mefistófeles: “…mas, quem é você, afinal?” Mefistófeles: “Sou a parte da força que quer sempre o mal, mas sempre faz o bem”.

O realismo mágico de Bulgákov nos conduz a diversas possibilidades interpretativas: comédia de humor negro, profunda alegoria místico-religiosa, uma sátira profunda da Rússia soviética. Talvez ele o seja um pouco de cada uma delas. Do que sem dúvida trata é da clara superficialidade das pessoas em geral, principalmente da burocracia e da intelectualidade que escreve apenas para o que “as massas devem ler”.

A Moscou de 1929 é visitada pelo diabo, com o nome de Woland. Mas como o diabo nunca chega só, acompanha-o um séquito de fieis seguidores, como Koroviev, também chamado de Fagote (tal qual o instrumento musical), um enorme gato negro Bieguemot , o anão Azazello, o auxiliar Abadon e uma mulher em forma de bruxa, Hella.

Woland, é um visitante estrangeiro, mas um estrangeiro que tudo sabe a respeito dos russos e da Rússia; ele não é um opositor de Deus; chega do nada à Moscou de 1929 e pune meio a esmo, coincidentemente acertando na mesquinharia e na covardia humana, que ele mesmo cita como as piores das fraquezas.

Alguns insistem em verem em Woland uma metáfora de Stalin, mas a própria viúva do escritor sempre insistiu que o mesmo mantinha uma atitude de fidelidade em relação ao líder socialista. Teria sido, quiçá, um livro para que fosse lido após sua morte por um leitor especial? O próprio Stalin?

Os agentes do demônio Wolland andam por Moscou surpreendendo a população com seus atos, desesperando a burocracia do regime, que tenta explicá-los racionalmente, cientificamente. A polícia tenta prendê-los, mas fracassa repetidamente.

Como muitos dos afetados pelo diabo pedem para serem mantidos em celas blindadas, outros em clínicas psiquiátricas, a polícia conclui, racionalmente, que foram vítimas de um bando de hipnotizadores, capazes de agir à distância. Seria esta uma reprodução das confissões absurdas dos Processos de Moscou?

A mais famosa citação do livro é “os manuscritos não queimam”.  Constitui uma clara referência à censura e tem cunho autobiográfico, pois os primeiros manuscritos de “O mestre e a Margarida”, mesmo queimados, reviveram em nova versão. Também pode ser lido como a consciência que não pode ser anulada por ação de burocratas e censores; de alguma forma a liberdade de criação criará espaço e sobreviverá.

O Mestre escrevera um livro que não fora aceito pela crítica. Ele se interna em uma clínica para loucos. Margarita, sua paixão, aceita uma oferta dos assistentes de Wolland que a transformam em bruxa, e ela voa invisível por Moscou sobre uma vassoura. Sua primeira ação foi destruir o apartamento de um dos críticos de arte que aniquilara a carreira do Mestre, e voa para o sul.

Mas Margarita volta a Moscou e aceita uma proposta de Koroviev: de ser a anfitriã de Woland em um baile, o “baile dos cem reis”, uma espécie de “Noite de Walpúrgis”, de Fausto.Como todos os que seguem de forma irrestrita as ordens de Wolland, ela será recompensada recuperando para a vida o seu amor, o Mestre.

O romance também estabelece uma interessante correlação entre Jerusalém, a parúsia cristã, e Moscou, a parúsia socialista. São dois capítulos especiais onde, com tintas de um Tolstói, Bulgákov estabelece um realismo puro: no primeiro Wolland narra a entrevista e a condenação de Jesus por Pilatos, por ele presenciada e, ao final, o Mestre escritor liberta Pilatos de seu pesadelo condenatório de um Jesus, que é “humano, profundamente humano”, através da ficção.  No romance, o apóstolo Mateus se encontra com Wolland e lhe diz que Jesus leu o romance do Mestre, e pede que o demônio lhe dê paz.

Então o Mestre abandona o hospício para alienados e vai viver com Margarida em um refúgio. A paz lhes é garantida, mas esta paz não significa salvação de quem possui consciência de seus próprios limites.

Comentários

  1. qua 18th jul 2018 at 18:58

    Um abraço, amigo Carlos. Como sempre, ginial o seu ensaio a respeito de Mikail Bulgákov. Os seus ensaios trazem luz nas vidas e nas obras de escritores fora dos holofotes que iluminam a mediocridade dos dias de hoje, principalmente neste Brasil em que vivemos.
    Sobreviver sob a censura e a chibata da opressão é mil vezes preferível a morte. Fanatismo e dogmas não fazem parte de uma mente liberta.

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  2. Dirlene Marques
    qui 19th jul 2018 at 12:12

    Concordo que como sempre, genial. E, traz a tona muitos autores desconhecidos para nos

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