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14 novembro 2017 por Publicado em: ensaio Sem comentários ainda

O homem, na busca por aceitar a realidade da vida e da morte, logra vislumbrar a própria imagem bem ao fundo do insondável poço da sua existência, um apaziguamento consigo próprio.

Isso só ocorre porque ele conseguiu descortinar as paixões profundas que tanto a vida quanto a morte suscitam, considerando primeiro o mito da morte em toda a sua humanidade, para só depois sensibilizar-se com a morte nua, desumanizada, uma simples realidade biológica. Este homem conscientizou-se de que tanto a morte quanto a vida não possuem essência alguma; enquanto uma é tudo, é o presente e o significativo, a outra simplesmente é o nada, embora um nada que encerre uma tremenda realidade.

No dizer de E. Morin “a morte é a mais vazia das ideias vazias, com seu conteúdo impensável, inexplorável, e a ideia da mesma é traumática por excelência”. Já La Rochefoucauld, ao refletir sobre a dificuldade de o ser humano encarar a morte, escreveu: “nem o sol nem a morte podem ser vistos de frente”.

Historicamente, não existiu grupo algum, por mais antigo que abandonasse seus próprios mortos, ou o fizesse sem os ritos preliminares. As guerras que também se lastreiam pelo ódio ao diferente travestido de inimigo, fazem do abandono dos corpos insepultos outra forma de vingança. Por isso Creonte condenou Antígona à morte, quando contrariando as ordens do príncipe, ela enterrou com as próprias mãos os restos do irmão inimigo de Tebas, abatido às portas da cidade.

As pedras funerárias são testemunhos presentes de que os amigos e parentes sempre lá as colocaram para proteger o morto contra os animais e assegurar-lhe alguma maneira de sobrevivência. O antropólogo Fraser insiste em um importante aspecto da universalidade da crença na imortalidade “como um prolongamento da vida por um período de tempo indefinido, não necessariamente eterno. A crença na imortalidade faria desta uma metáfora da vida”.

Dialeticamente, a consciência da morte causa um trauma, que necessita da imortalidade como contraponto. Segundo Freud, “no fundo ninguém acredita em sua própria morte, ou o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria individualidade”.

Ainda é Freud quem nos ensina que no inconsciente humano se misturam a cegueira animal da morte e o desejo de imortalidade, que a consciência humana da morte não supõe apenas a consciência daquilo que era inconsciente no animal, e sim, uma ruptura na relação indivíduo – espécie, um aprofundamento da individualidade em relação à espécie, uma decadência da espécie em relação à individualidade.

Mesmo se lograrmos a aceitação da realidade inexorável da própria morte, a dor pela morte de alguém que nos seja sentimentalmente próximo não se atenua. Sendo o morto próximo, ele tem reconhecida sua individualidade como um ser único e insubstituível. O fato de sua morte  produz uma emoção-choque, terror, a dor do sentimento de ruptura, o trauma da perda. A consciência de um vazio, de um nada se abre onde antes havia plenitude individual.

Pois o traumatismo da morte é, então, um fato não menos fundamental que a consciência do fato da morte. Quanto mais o homem descobre a perda da individualidade por traz de um cadáver de um ser que lhe foi querido, mais ele é afetado pela morte, mais descobre que ela é a perda irreparável daquela individualidade. Goethe afirmou que “a morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade. Esta aparece como uma forma de castigo, um erro, uma irrealidade.”

A “quarentena do luto” é muito antiga e, segundo Morin, correspondia no passado ao tempo da decomposição, “quando o contágio pela morte estaria superado”. Para abreviar esse tempo do horror sentido pelos vivos, surgiram ideias para se apressar a decomposição e encurtar o ritual da dor. Muitas alternativas, não necessariamente excludentes, foram utilizadas no decorrer do tempo: canibalismo, embalsamamento, cremação, assim como o afastamento do defunto do convívio próximo aos vivos colocando-o em locais distantes, como covas, grutas e, finalmente, nas “casas de repouso”, os nossos cemitérios.

Shopenhauer nos ensinou que “o animal vive sem conhecer a morte; só tendo consciência de si como um ser sem fim”. Logo, a morte e a perda de individualidade afeta o animal quando a ordem da espécie foi alterada pela domesticação: ela o liberta da tirania vital e o individualiza e ao enterrarmos um animal, nós o humanizamos.

Entretanto, tanto o avanço das doenças graves quanto a velhice, que enveredam pela destruição do indivíduo, fazem com que o medo da morte e a consciência da mesma se mais tênue, quando se enfraquece no ser humano “o músculo da afirmação de si mesmo” (Levi Strauss).

O suicídio, um ato de afirmação da individualidade, ocorre também quando o horror da morte se enfraquece e o indivíduo sente esta afirmação mais verídica que o próprio horror. Para Dostoievsky assim como para Proust, o suicídio como negação do limite da espécie é o teste absoluto da liberdade humana. Logo, a sociedade é vencida, negada, incapaz de expulsar a morte. Este é o maior feito do suicida. A vitória extrema acompanhada do desastre irremediável. É a individualidade livre de todos os laços.

O indivíduo contemporâneo é um ser isolado. Suas conexões são essencialmente virtuais. A sociedade real deixa de   parte de sua vida. Nada mais o prende a uma vida que ele mesmo sabe fadada à destruição. Assim, na deificação de si mesmo, o extremo egoísmo, nasce da angústia extrema da morte, e caminha-se para a tentação do suicídio. Se “toda neurose é uma tentativa regressiva de reconciliação com o meio” (Freud), o suicídio como ruptura suprema, é a reconciliação desesperada com o mundo.

Já o assassinato, quer se perpetue por fúria, latrocínio, loucura, por decisão fria ou de Estado é a satisfação de um desejo de matar que nada foi capaz de deter. Esta é sua face negativa; a positiva é a volúpia, o desprezo, o sadismo, o ódio, que traduzem uma libertação anárquica, mas verdadeira das pulsões da individualidade em detrimento dos interesses da espécie. Em última análise, quando “in extremis”, a afirmação absoluta da própria individualidade provoca a destruição das outras.

Spencer dizia que “a possessão do indivíduo pelo Estado é o caráter do Estado social adaptado à guerra”. O título de herói foi banalizado nas guerras dos séculos XIX e XX, dado que se aplicava a todo indivíduo morto em combate. O único conforto dado ao que iria morrer nos campos de combate era o posterior assassinato, a vingança, purgar a morte na morte do inimigo. Esta atitude que podemos definir como mágica, sacrificial, é determinada por uma “regressão geral da consciência que determinava as guerras”. Anatole France incursionou em tempos de Primeira Guerra Mundial, na mesma temática que Spencer. Mas para ele, “os exércitos são muito mais odiosos pela imbecilidade que os acompanha do que pelos assassinatos que provocam”. Os homens obcecados pela morte buscam o perigo; eles querem esquecer a morte com a morte.

Na antiga Atenas, enquanto a cidade vivia em função do cidadão, o indivíduo podia abdicar conscientemente de sua primazia em benefício da “polis”, pois esta representava todas as individualidades cívicas e nutria cada individualidade. A cidade que se apodera do cidadão lhe dá a glória eterna, o que significa exaltação individual e imortalidade social, e a busca da glória era a busca da felicidade. Fenômenos semelhantes ocorreram em outros momentos da História da humanidade, mas sem dúvida, um dos mais marcantes, aconteceu na luta contra o nazismo alemão, durante a chamada “Guerra Pátria”, travada pela antiga URSS. Com razão dizia Shopenhauer: “no espírito do que morre pela Pátria, seu próprio eu aparece em seus compatriotas, nos quais continua a viver, e nas vidas futuras pelas quais está agindo.”

Milhares de seres humanos já correram o risco da morte por valores. Não apenas os valores cívicos provedores do heroísmo oficial; desde os séculos XIX e XX, valores revolucionários foram incutidos nos cidadãos. Na luta revolucionária, tanto quanto na guerra, o espectro da morte só ronda ao longe. O revolucionário buscará no instinto um formidável protetor contra a morte, permitindo que a espécie a fareje e não o indivíduo. E a espécie conhece a morte melhor que o indivíduo consciente. Muitas vezes correu-se o risco de morte para não se renegar as próprias ideias e a dignidade. O grito pode ser o do eu coletivo, ou o berro isolado de tantos revolucionários agonizantes. Na consciência do guerreiro-mártir, esta morte que se afasta, voltará, um dia, sob a forma da liberdade coletiva.

A tortura da morte é sempre uma espécie de síntese horrível do desejo de negar e de humilhar o outro, em que o torturador encontra o gozo conjugado do assassinato e da escravidão. A tortura e o assassinato permeiam toda a História da humanidade.

Nos dias de hoje, corpos dos moradores da periferia, mortos ou vivos, não são nada mais que “coisas”, sem registro de prisão, sem nome próprio. No Rio de Janeiro em suas favelas, em São Paulo nas suas periferias, dentre as centenas de milhares de presos distribuídos em jaulas pelo país, a morte se banaliza e, portanto, na consciência coletiva ela se apaga. “A morte ela é sempre uma ideia civil” (Morin). Um policial militar não mata, não provoca assassinatos, no seu consciente ele só faz destruir o inimigo mesmo que seja o morador de sua própria comunidade. O inimigo que afronta  sua prepotência ou contra o qual é enviado pela rede de comando, ele deve aniquilar.

Como fruto brutal do avanço da tecnologia surgiu a “morte tecnológica”, a morte acionada por controle remoto. Mesmo que o assassino sentado à frente de um computador se divirta ao apertar um botão de videogame, ou que ele esteja realmente convencido de que as armas tipo “drones” sejam “inteligentes” e que somente matarão os “inimigos da civilização”, ele permanece sendo um assassino covarde, que nem ao menos corre o risco do combate. Um assassino socialmente incógnito, assim como não identificáveis serão os resultados de seus botões apertados.

A guerra tecnológica constitui um passo gigantesco na banalização absoluta do mal de que nos falava Arendt, ainda que inimaginável até pelos brutais genocidas nazistas nos campos de concentração.

O desenvolvimento histórico da sociedade está ligado de maneira mais estreita ao da individualidade. O progresso que a história humana exige é o desenvolvimento mútuo e recíproco da sociedade e do individuo. Segundo W.Benjamin: “não existe um só testemunho de cultura que também não o seja o da barbárie”.

 

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