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07 agosto 2017 por Publicado em: ensaio Sem comentários ainda

Morte em Veneza” foi escrito em 1911 e publicado em 1912. Nele, Mann apresenta numa escrita complexa e profunda, um texto do qual transbordam conceitos filosóficos, e que cada parágrafo pode ter várias interpretações. Ao mesmo tempo, Mann é um autor prolixo, que esgrime como só ele a ironia do romantismo. Isto, sem dúvida contribui para certa dificuldade na tradução e na leitura. E o leitor atento deve levar em consideração que toda a grandeza da obra é impossível de ser apreendida em uma leitura única e que a mesma requer certa preparação.

Em contraponto ao texto complexo, o enredo é enxuto: um escritor renomado, numa crise de criatividade por volta dos cincoenta anos, partindo de Munich viaja até Veneza, onde se apaixona platonicamente por um jovem púbere, extremamente belo.  O escritor, mesmo sabedor do surto de cólera que infecta a cidade, deixa-se ficar atraído pela beleza e sem sequer ter trocado uma só palavra com o objeto de seu amor, morre.

Trata-se de uma Novela, no estrito sentido da concepção alemã do conceito do novo, daquilo que é inusitado. E nada mais inusitado que Veneza, uma cidade tida como a capital do carnaval europeu, das bodas elegantes, que justamente nela ocorra uma morte, anunciada já no título. A estrutura da novela é de um drama, composto em cinco atos, com direito a desenvolvimento, peripécia e desenlace trágico.

Se em “Buddenbrooks”, Mann estava altamente influenciado pela filosofia schopenhaouriana, “Morte em Veneza” é uma novela que trabalha o conceito nietzschiano do apolíneo em oposição ao dionisíaco.

Von Aschenbach, que em alemão significa barril de cinzas, tem muito dos cuidados e dos critérios artísticos de seu autor. “Aschenbah não amava o prazer. Quando e onde fosse preciso festejar, cuidar do repouso, passar um dia de folguedos, desejava logo… com inquietação e contrariedade voltar para a árdua labuta, para o serviço sagrado e sóbrio da vida cotidiana.”

Durante um passeio em Munique, o autor já consagrado, cuja obra é conhecida pela disciplina e perfeição formal, para diante de um cemitério onde avista um personagem: um viajante, cuja face descrita lembra uma caveira, tipo estranho que o deixa meio abalado. Sem sentir inspiração artística, decide romper com a rotina e partir em viagem.

No pórtico do cemitério e no estanho viajante, temos a primeira manifestação do “leitmotif” de toda a obra. O “motivo condutor”, Mann o transporta da música wagneriana, da qual era um fã inconteste. E o “leitmotif” de “Morte em Veneza” será justamente os mensageiros da morte.

Veneza é bela por um lado (apolínea), e podre por baixo e o siroco que cheira mal (dionisíacos), pressentimentos e mensageiros da morte. O velho passageiro do navio, que enturmado com jovens, ridiculariza-se para parecer jovem; o gondoleiro que se nega a levá-lo onde deseja, conduzindo um esquife- gôndola, toda negra, tal qual o barqueiro do Hades, Caronte, diz ao escritor que ameaça não pagar pela viagem: “pagarás”; músicos loiros, com dentes cariados e o suco de romã tomado enquanto admira Tadzio; os morangos vermelhos, contaminados, dos quais se serve. Tudo são os mensageiros da morte, fio condutor do romance.

O dilema de Aschenbach de certa forma é o mesmo para todo artista numa sociedade que o vê como um pária. Vida e Eros, Morte e Tânatus. Mann traceja os artistas como figuras adoentadas, sempre morenas, com olhos castanhos, em interface com a morte e a vida. Os loiros de olhos azuis são personagens imaturas, mas felizes: eles adoram revistas em quadrinhos!

Gustav, o escritor apolíneo, tem a seguir uma visão de pântanos, prenúncio de ventos quentes, “um deus que vem de longe”, bafejos orientais, mensagens que são dionisíacas. A partir de então, na alma de Auschenbach, lutarão Apolo- a razão, a verdade, a ordem, os sonhos, e Dionísio- a desmedida, a loucura, o prazer e a orgia.

No diálogo platônico entre Sócrates e Fédon, a beleza é buscada para ser contemplada em seu estado mais puro. “Pois a beleza, meu Fédon, é a única forma do espiritual que podemos receber sensualmente, suportar sensualmente”. Mann trás para seu romance, juntamente com cenas mitológicas, esse diálogo filosófico. Desse modo, a homossexualidade evidenciada em “Morte em Veneza” é uma questão secundária na análise da obra. O amor de Aschenbach por Tadzio é antes de tudo um tributo à beleza e desenvolve-se no âmbito da idealização. O jovem é uma personificação do belo, reflexo temporal da beleza eterna, de um ideal sempre perseguido, de tal modo que se torna irresistível em sua encarnação.

O escritor, Gustav, busca capturar a imagem do belo Tadzio para eternizá-la através da arte, num sonho apolíneo de beleza. Sonho este que, ironicamente, irá lançá-lo às profundezas da dissolução dionisíaca. “Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir, e Aschenbach sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos. (…) Tadzio sorriu; (…) E recostando-se, com os braços caídos, transbordando de emoção, tremendo repetidamente, segredou a formulação tradicional do desejo – impossível, absurda, abjeta, idiota, mas sagrada, e mesmo neste caso honrada: ‘Amo-te’!”

O princípio da viagem é Pula; somente depois decide prosseguir até Veneza. Em seu hotel veneziano no Lido, encontra o adolescente de uma família polonesa: o jovem Tadzio. O tempo quente e úmido afeta a saúde de Aschenbach, ele ainda tenta partir, deixar Veneza que transcende a morte, mas não consegue. Embora observe Tadzio obsessivamente, jamais ousa falar com ele, no máximo trocam um ou outro olhar furtivo e fugaz. Mesmo assim, como possuído pela loucura dionisíaca, ele perseguirá Tadzio por todos os cantos de Veneza.

Os sinais de uma epidemia de cólera, oculta pelas autoridades para não prejudicar o turismo, são mais que evidentes. Um agente de viagens britânico a confessa. Mesmo assim, Aschenbach permanece, sacrificando sua dignidade e bem-estar pela experiência imediata da beleza corporificada. Com o tempo, a penetração do “deus máscara” no subconsciente do escritor, a paixão vai assumindo uma feição mais sensual, erótica, como fica claro na tentativa de Aschenbach de parecer mais jovem pelo tratamento cosmético e no seu sonho perturbador quase ao final do romance.

É quando o escritor apolíneo incorpora o deus mascarado, do mesmo modo como o velho passageiro do navio o fizera no princípio da narrativa. “Com as batidas dos timbales seu coração retumbava, seu cérebro girava, acometido de raiva, de desvario, de atordoante voluptuosidade, e sua alma desejou unir-se à dança de roda do deus. O enorme símbolo obsceno, de madeira, foi descoberto e elevado.” Um sonho dionisíaco, orgiástico.

Aschenbach descobre, ao final, que a família polonesa planeja partir. Desce até a praia, onde está Tadzio com um menino mais velho, Jasiu. Os dois garotos lutam, e Tadzio é facilmente vencido, pois a beleza sucumbe aos inferiores. Com raiva, o jovem polonês deixa seu companheiro e se dirige à parte do mar próxima de Aschenbach. Após estar por um momento contemplando o mar, dá meia volta para olhar seu admirador. Para Aschenbach, é como se o menino estivesse acenando para ele. Mas Tadzio aponta o caminho para o mar, para a morte e o renascer e tal qual o deus Hermes, o jovem dispõe-se a ser o condutor de sua alma.

“Mas parecia-lhe que o pálido e adorável psicagogo lhe sorria lá longe, lhe acenava; que, soltando a mão do quadril, apontava para longe e, tomando a dianteira, lançava-se flutuando na imensidão plena de promessas. E, como tantas outras vezes, levantou-se para segui-lo”.

Aschenback tenta se levantar e retribuir, mas tomba em sua cadeira. Seu corpo é descoberto minutos depois. “E ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte.”

“Morrer: isto significa realmente perder de vista o tempo, viajar para além dele, trocá-lo pela eternidade e pelo presente e, em consequência, pela vida. Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro” (“A Montanha Mágica”).

Obs.: Em 1971, uma genial produção de Luchino Visconte, tendo como protagonista Dick Boguarte levou às telas “Morte em Veneza”. O leitmotif musical foram a terceira e a quinta sinfonia de Mahler (cujo filho morrera de cólera em Veneza). Levar uma novela filosófica ao cinema foi um dos maiores desafios do mestre italiano.

 

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