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23 maio 2017 por Publicado em: resenha 1 comentário

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira, é antes de tudo uma sátira social e de costumes, muito bem definida pelo próprio autor como fundadora do seu “realismo fantástico”.

O pano de fundo é a sociedade escravocrata de meados dos anos oitocentos. A elite política e econômica que praticamente se confundem, mantém um comportamento absolutamente retrógrado do tipo senhor-escravo, mesmo que parcela da mesma se dê ares de um pseudo liberalismo. Uma vez na Corte ou nas Províncias, seus membros exercem a política baseada no compadrio e na corrupção, ou apenas nada fazem na vida, exceto flanar. Já o trabalho real ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista.

Essa é a centralidade do enredo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Machado de Assis com este trabalho se antecipou a muitos elementos do modernismo e do realismo mágico.

No romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos  da obra de um gênio.

Um morto se dirige aos vivos para criticar a realidade humana! A leitura do romance deve levar em conta esta dupla condição do protagonista: um Brás vivo e um Brás morto. O Brás vivo tem a existência marcada por futilidades sociais, pelo desprezo que manifesta por todos aqueles que não pertençam à elite. Já o Brás morto é o narrador capaz de expor sem nenhum pudor os defeitos próprios e alheios, dado que não pode ser atingido pela ira de seus contemporâneos, e a sepultura lhe deu a sabedoria necessária para perceber o modo de agir de seus semelhantes.

Como sátira, a estridência e os artifícios são numerosos, prendendo a atenção do leitor desde a primeira à última linha. “É obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio… se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

 

O tempo histórico do romance se dá entre a data da morte do narrador, 1869, até a de seu nascimento, 1805. Roberto Schwartz enumera algumas das referências históricas mais evidentes, comentadas de maneira não conformista, ainda que prudentemente cifradas e reservadas a um pequeno grupo de leitores muito atentos:

  1. O protagonista nasce em 1805, nos últimos anos do Brasil colônia. Sua educação, em que aprende a não conhecer normas e obedecer só ao próprio capricho, coincide com o tempo do Rio Velho e do baixo valor do escravo.
  2. O primeiro cativeiro sentimental de Brás é a paixão por Marcela, uma espanhola de vida “alegre”, que coincide com os festejos da Independência, 1822. “Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude.” O paralelo entre “o amanhecer da alma pública” e as primeiras auroras amorosas de Brás tem a clara intenção de chocar o público da época.
  3. Brás ainda gastou trinta dias até chegar ao coração de Marcela pois tinha um concorrente que a presenteava, embora tuberculoso; estamos no primeiro mês de incertezas pós-independência, o que nos leva a outubro de 1822.
  4. “ Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, chegaremos a março de 1824, quando Dom Pedro outorga ao Brasil  sua Constituição, encerrando a aventura liberal da Primeira Constituinte, cujo modelo havia sido a “carta espanhola” .
  5. Interrompidos à força os amores com Marcela, Brás vai à Europa “beber” da cultura do tempo. “São anos de “romantismo prático e liberalismo teórico”, durante os quais o personagem colhe de todas as coisas a fraseologia, a casca e o ornamento”. Muitos julgam ver aí uma alusão ao Primeiro Reinado, ao Imperador e à maneira pela qual o Brasil, recém-saído do confinamento colonial, abraçava as ideias modernas, apenas como ornamento.
  6. O paralelismo dos períodos prossegue; a fase europeia encerra-se com a volta precipitada de Brás ao Brasil após oito anos, com a mãe a morrer; estamos em 1831. Logo morre também o pai e Brás fica órfão, como se dizia do Brasil com a abdicação de Dom Pedro I.
  7. A etapa seguinte de vida desperdiçada, dissoluta e semi- reclusa coincide com os anos da Regência, que igualmente o foram.
  8. Com a Maioridade de Pedro II, em 1840, Brás vem abrilhantar a vida da Corte na qualidade de leão da moda e amante “meio secreto e meio às claras” de uma mulher elegante da época, casada com um forte político.
  9. Em 1885, encontramos Brás como deputado e aspirante a Ministro. Quando profere o famoso discurso sobre as barretinas da Guarda Nacional, a conjuntura política era a da “Conciliação” (1853-1857) entre conservadores e liberais, e a futilidade dos antagonismos parlamentares tomava a feição de um programa político.
  10. O progresso financeiro de Cotrim, o cunhado de Brás, como contrabandista de escravos, ocorre entre 1850 e 1860 (após a proibição do tráfico), até ser beneficiário de suprimentos superfaturados à Marinha, durante a Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870), período de grandes negociatas. Machado assinala esteticamente que o tráfico de negros fora substituído por uma imoralidade mais contemporânea, a corrupção com o conluio entre empresários e políticos.
  11. A data de sua morte, 1869, coincide com a evolução capitalista do país e princípio da decadência do Segundo Reinado. Ele mesmo, antes de ser um defunto, começara a interessar-se por colonização, câmbio, vias férreas, e invenções sensacionalistas, estilo norte-americano, como o “Emplasto Cubas”, para o tratamento do mal do século: hipocondria e melancolia.

“Emplasto Brás Cubas. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.”

John Gledson levanta uma pergunta muito pertinente: e se “Brás” significasse o Brasil, de quem o nome são as primeiras sílabas? E se por acaso, Cubas, que se reporta a um tanoeiro, fazedor de cubas, fosse a origem nada nobre da elite escravocrata que se dá ares aristocratas?

 

A forma do romance é biográfica. Como numa película, passam diante de nossos olhos os momentos da vida de um carioca rico e desocupado: ao nascer, uma infância sem limites; estudo de Direito em Portugal, que mais se assemelha a anos de folia e dissipação; amores e a banalidade do  consumo; veleidades literárias e filosofias de bolso de colete; a atividade política, cujo ato maior é o discurso sobre a altura da barretina no uniforme da guarda nacional; e, ao final, a morte.

Estão absolutamente ausentes o trabalho ou qualquer projeto de vida minimamente consistente e a passagem de uma etapa a outra da vida se dá pelo cansaço e perda de interesse, privilégio de classe que é uma extensão da iniquidade social.

“Entrei na política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito!”

Cabe uma ressalva para o amor. É como se na elite brasileira esta fosse a única manifestação autêntica do espírito. Todos as demais, como filosofia e conhecimento científico, o acento satírico do autor os transforma em afetação, em preenchimento do tempo e banalidade.

A vida de Brás, mesmo que cheia de satisfações, é totalmente ausente de sentido. O que predomina é o sentido geral da mediocridade. O romance se conclui num nada.

“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semi demência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

A essência pessimista quanto ao destino do homem, Machado a expressa ainda no capítulo denominado “Delírio” diz: “Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva … nada menos que a quimera da felicidade.”

Os “nhos” e seus escravos, em três episódios.

O sinhozinho Brás se autodenomina  “menino diabo”:  “Fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco… e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia,  algumas vezes gemendo, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!

“Dessa terra e desse estrume, nasceu esta flor”, expressão emblemática da formação dos filhos de senhores de escravos.

Machado também nos trás a reprodução da violência por parte de quem a sofrera. Muitos anos após, o negro Prudêncio, uma vez alforriado, compra um escravo para si e reproduz o tratamento recebido: “Era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente… Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei… justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — que meu pai libertara alguns anos antes”.

Em outro momento, Brás Cubas se esmera na defesa de seu cunhado Cotrim, o que, mesmo sob o ponto de vista um pouco mais esclarecido do século XIX seria um escândalo; no entanto, o narrador, como a elite brasileira, trata-a como exótica, reconhecendo virtudes e “normalidades” onde somente haveriam más ações e crimes.

“Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado… Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.

“A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos… Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades… Não era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro beneficio que praticava…”

A elite, os pobres e agregados.”

Eugênia

Somente entre os pobres, os personagens de Machado nos revelam integridade moral. O símbolo desta é Eugênia, por quem Brás reporta o único sentimento legítimo, embora passageiro, que sentira em vida.

A moça, filha natural, quase fora erguida à abastança pelos braços de Brás aos dezesseis anos, e terminou pedindo esmolas na porta de um cortiço aos sessenta. “A flor da moita”, como o mau caráter do narrador a denomina, ao justificar o desprezo para com a moça concebida atrás do mato por Dona Euzébia e Vilaça, um cavalheiro abastado.

“Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem”.

Eugênia não se submete aos caprichos de Brás Cubas. Na desesperança de um casamento, corta suas fantasias da paridade social e mostra “conhecer o seu lugar”. Jamais se entrega ao moço e se despoja de quinquilharias em seu último contato. Para ela, os adereços típicos da classe superior não lhe interessavam.

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”

Em outras palavras, o futuro em uma sociedade escravagista depende do capricho de pessoas da classe dominante; a pessoa da classe inferior pode se dar por amor e se transformar excepcionalmente em senhora ou em pedinte. A dignidade natural ou cidadã Eugênia não traz o vinco da subordinação à oligarquia.

Muitos anos após o pequeno namoro, Brás volta a encontrar-se com a “coxa”. “Agora é que não são capazes de adivinhar…, achei a flor da moita, Eugênia, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste. Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista”.

Dona Plácida

“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias… Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.”

Assim Machado de Assis descreve a gênese daqueles que nasceram para trabalhar sem descanso até que a morte os dispensem. Qual o sentido de suas vidas? Servir, nada mais, pois o explorado tem uma finalidade, embora humanamente sustentável, de reproduzir a ordem social que a sua própria desgraça torna possível.

Plácida, o próprio nome o sugere, possui a conduta maleável e curva-se aos caprichos de Brás e de sua amante Virgília, servindo-os como alcoviteira.

“Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos, — os cinco contos achados em Botafogo, — como um pão para a velhice. Dona Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo (pela relação adúltera)”.

“Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude”.

Isto não impede que, ao final, o destino da pobre agregada se cumpra. “Depois do almoço fui à casa de Dona Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia; onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara”.

A relação no interior da elite.

A relação “inter-paris” é principalmente simbolizada pelo trio amoroso Brás Cubas, Lobo Neves e Virgília, esposa do segundo e amante do primeiro.

O liberalismo europeu dava sentido à emancipação da sexualidade como esfera autônoma de vida. Isso é simbolizado pela relação prolongada entre Brás e Vigília. Relação medíocre e nada romanesca. A princípio o amante procura tomar a mulher ao marido, mas logo se acomoda no adultério, esquecendo qualquer exigência de amor exclusivo. “Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma”.

Com o decorrer da longa relação, cresce o número de futricas e denúncias anônimas de traição chegam até Lobo Neves. Mas a vitória sempre estará ao lado do cumprimento de convenções, evitando o escárnio público num mundo de aparências.

“Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu juízo for temerário!) — pareceu-me que ele tinha medo — não medo de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião pública. Supus que esse tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do Lobo Neves. Talvez já não amasse a mulher; e, assim, pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos… Cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias, antecedências, induções, provas… obstou à dispersão da família. Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria a divulgação. Ele não podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; e teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos”.

Expressando a consciência de sua classe social, “teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios…”

A filosofia de algibeira, misto de positivismo e darwinismo social.

A filosofia é trazida a Brás por um antigo conhecido de escola, Quincas Borba, que escorregara até a miséria, mas que tornara a ascender na escala social com a herança de um parente.

“Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta três fases: a estática, anterior a toda a criação; a expansiva, começo das coisas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contará mais uma, a contrativa, absorção do homem e das coisas”.

“Para entender bem o meu sistema, concluiu Quincas Borba, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados como único fim de dar mate ao meu apetite”.

Dizia ainda Quincas Borba para o narrador: “O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer…  E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre, — prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime”.

Chega a um ponto na narrativa em que o “filósofo” enlouquece e Brás confessa: “Cuido que não nasci para situações complexas. Esse puxar e empuxar de coisas opostas desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba, o Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia, e mandá-los de presente a Aristóteles.”

E podemos concluir com o defunto narrador: “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo”.

 

Comentários

  1. Antônia Mara Vieira Loguercio
    qui 25th maio 2017 at 20:56

    Espetacular ensaio, Russo. Machado é mais do que perfeito. É sublime!

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