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maio, 2017

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira, é antes de tudo uma sátira social e de costumes, muito bem definida pelo próprio autor como fundadora do seu “realismo fantástico”.

O pano de fundo é a sociedade escravocrata de meados dos anos oitocentos. A elite política e econômica que praticamente se confundem, mantém um comportamento absolutamente retrógrado do tipo senhor-escravo, mesmo que parcela da mesma se dê ares de um pseudo liberalismo. Uma vez na Corte ou nas Províncias, seus membros exercem a política baseada no compadrio e na corrupção, ou apenas nada fazem na vida, exceto flanar. Já o trabalho real ou é escravo, ou é exercido por agregados, em situações de submissão clientelista.

Essa é a centralidade do enredo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Machado de Assis com este trabalho se antecipou a muitos elementos do modernismo e do realismo mágico.

No romance não existe uma única frase que não tenha uma segunda intenção ou um propósito espirituoso e se nos colocarmos a certa distância do texto, fica simples entrever as grandes linhas da estrutura social de classes e são essas que dão a terceira dimensão ou integridade ao romance, segredos  da obra de um gênio.

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Em: resenha | Tags:

“Memorial de Aires” foi publicada em 1908, poucos meses antes do falecimento de Machado de Assis. O então viúvo era um homem solitário, bastante doente e desiludido com a vida, revivendo lembranças de um passado feliz compartido em trinta e cinco anos com a esposa, Dona Carolina.

Machado aborda em seus últimos trabalhos essencialmente temas existenciais como o amor, a paixão, a solidão, a velhice e a morte, assim como impressões e reflexões sobre o tédio, a ausência de sentido e horizonte da própria vida.

Obra semiautobiográfica, não por acaso D. Carmo, esposa do banqueiro Aguiar e o “Memorial de Aires”, assim como o narrador, o conselheiro Marcondes de Aires, possuem as mesmas iniciais de sua defunta esposa e dele mesmo.

Ao visualizar a viúva Noronha, Fidélia, o narrador, viúvo e aos 62 anos, tal qual Machado, sente-se tocar pela beleza da mulher. Sua irmã Rita, que o acompanha, lhe insinua uma paixão outonal, ao que ele responde a la Shellei: “I can give not what men call love.”Só lhe cabia, naquela altura da vida, uma paixão estética.

E, a seguir, nos traz uma deliciosa reflexão a respeito do nome dado às pessoas na pia batismal: “Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que às crianças só se punham nomes de santos ou santas. Mas Fidélia…? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado à filha do barão, como a forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven? Pode ser; mas eu não sei se ele teria dessas inspirações e reminiscências artísticas. Verdade é que o nome da família que serve ao título nobiliário, Santa-Pia, também não acho na lista dos canonizados, e a única pessoa que conheço, assim chamada, é a de Dante: Ricorditi di me, che son la Pia”.

E conclui o raciocínio de um modo absolutamente futurista: “Parece que já não queremos Anas nem Marias, Catarinas nem Joanas, e vamos entrando em outra onomástica, para variar o aspecto às pessoas. Tudo serão modas neste mundo, exceto as estrelas e eu”.

Fidélia, mesmo sem chorar, mantém um luto fechado pela morte do marido, que ao conhecer Tristão, se abrirá para um novo amor. Diz Aires: “Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens — ou mais pacientes, ou mais capazes de sofrer a dor e a adversidade…”

A inserção histórica do último romance machadiano.

O período de tempo reportado na obra foram os anos de 1888 e 1889. A presença aparentemente tênue da Abolição no Memorial de Aires tem dado margem à suposição que Machado de Assis, em seu último trabalho, não trata de questões histórico-sociais, mas apenas de aspectos da vida íntima e particular. Isto é absolutamente incorreto.

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Em: ensaio | Tags:

8 maio 2017, por

Cogito, 4.

O Sofrer
Sofrer, descer às profundezas da alma, sorver lentamente, gole após gole o fel amargo do ser consciente. Os judeus-cristãos acreditam que através do sofrimento o homem se torna melhor, aproxima-se da divindade, purifica-se. Blasfemos, que logro nos impingem desde a mais tenra idade. Sofrer jamais tornou alguém melhor, tão e simplesmente mais profundo, da profundidade do poço escuro da alma inquieta.

O Julgar
O rio Lete de nossa existência é sempre turbulento, complexo e confuso. O que nos permite entrar na barca onde nossa alma se sufoca e participar de nosso próprio julgamento? Pois julgamos todo o tempo, a tudo e a todos, pois ao julgar nos absolvemos. Somente acusando calamos a consciência acusadora. Assim nos satisfazemos.

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Ele é um homem dos mares, um poeta das águas, e por assim ser, retém a estranha e misteriosa magia das criaturas marítimas, aquela das sereias, dos polvos e das lulas gigantescas que, ao mesmo tempo que nos atraem, causam certa repulsa: elas não nos são apreensíveis.
Sou como todos os poetas das águas; costumamos perder a capacidade de encontrarmos a nós mesmos; além disso, poucos possuímos a habilidade de nos misturarmos aos outros humanos. Isso nos leva a dar as costas à vida e a mergulhar no abstrato, nos nossos próprios elementos. Por isso mesmo entendo Melville em suas entranhas.
Talvez poucos poetas antes dele tenham detestado tão instintivamente a vida humana, ou melhor, a sociedade como a vivemos. Restava-lhe sempre a necessidade de lutar contra o mundo inteiro real, e, assim o fazendo, lutar também contra uma parcela do mais íntimo de seu ser.
Mas esse é apenas o verso da moeda chamada Melville, pois ao mesmo tempo, ninguém esteve mais apaixonadamente repleto do sentido de vastidão e do mistério da vida não humana que ele.

No mar, assim como eu, ele busca sua fuga! Fugir, deixar a vida para trás, cruzar um horizonte que o levasse a uma outra vida, ao seu elementar. Quando Herman entra no oceano à bordo de um barco, encontra o seu ambiente natural, sua verdadeira casa. Na bagagem, muitas memórias, recordações daquele que atravessou o “Rubicon” da própria vida: ele não aceita mais a humanidade e ao não aceitá-la, deixa de sentir-se parte dela. Que lhe importa que a vida se fragmente, que até os acasalamentos e as procriações cessem? Que o tritão se afaste da fêmea, que o homem abandone sua fêmea e seus filhos e que as mulheres-sereias só se lambuzem com as águas? Com os lares desfeitos, corroídos, restam-lhe tão somente os elementos do imenso e interminável mar.
Basta de terra para seres como Melville, Herman e eu próprio! Venham todos os elementos até nós, mas que eles nada tenham a ver com as complicações criadas pela humanidade. A nós, os párias do imenso, do velhíssimo oceano Atlântico ou do Pacífico, que se abre com todas as suas “porias” para os Argonautas dos séculos XIX e XX

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7 maio 2017, por

Cogito, 3.

A RESPEITO DO TEMPO DA RESISTÊNCIA AO FASCISMO
Tempo aquele de sombras e crenças fortes, ideias definitivas e doação integral. Um tempo sem paz, recheado de violências inauditas, aliás nisso diferindo muito pouco de toda a história dessa velha humanidade. Mas, que, comparativamente aos dias de hoje, eram mais intensos e apaixonados, repletos de idealismos, de utopias que exigiam de muitos dos que se inconformavam o arrebatamento total; onde a pureza, a ingenuidade, a descoberta, seguiam às vezes pela mesma senda em que caminhavam a imprevidência, a quebra dos limites, a desmedida. Era o Espírito do Tempo.
O Espírito do Tempo pode até mesmo ter o seu perfume aspirado nas linhas traçadas pelas mãos habilidosas de um narrador, não o seu sabor, pois ele é reservado exclusivamente para aqueles que o vivenciaram. E assim também ocorrerá num futuro, quando memórias do presente receberem sua própria pátina de antiguidade e vierem a ser contadas.
Isto também porque o mundo não é criado de uma vez por todas para cada um de nós; ele vai, no decorrer da vida, acrescentando coisas, novos seres de que nem suspeitávamos. Quando quase nada subsiste de um passado antigo, depois da morte de nossos amigos, depois da destruição das coisas, aqueles seres permanecem sozinhos, incrustados em nossa memória inconsciente, muito frágeis porém mais vivazes, imateriais, mas persistentes, mais fiéis que as outras sensações percebidas.
Assim se formata o Espírito de um Tempo que foi de resistência!

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7 maio 2017, por

Cogito, 2.

AMOR E DEPRESSÃO
O amor nos abandona de tempos em tempos ou, o que dá no mesmo, nós é quem abandonamos o amor. E quando nos sentimos despidos de amor o sentimento que nos resta é o da insignificância.
Um autor disse que a depressão é a imperfeição do amor, ou seja, a depressão seria o desespero perante as perdas, o mecanismo mesmo desse desespero.
Quando a depressão nos assola, ela cria uma barreira através da qual desaparece a nossa capacidade de dar e receber afeto. Surge a solidão e com ela os vínculos com outros se rompe e afeta a capacidade da pessoa apaziguar-se consigo mesma.
Já o oposto da depressão é a capacidade de amar. Dizia Dostoievski “O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive.” Podemos amar a nós mesmos, amar a outros, amar ao próprio trabalho, amar a Deus, de tal forma que qualquer um desses vínculos nos fornece pontes vitais para evitarmos a depressão.

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Outrora se bem me lembro, minha vida era um festim onde todos os corações se abriam, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, sentei a Beleza em meus joelhos… E a achei amarga, E a injuriei.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, foi a vós que meu tesouro foi confiado!
Consegui fazer dissipar-se em meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda a alegria, para estrangulá-la, dei o salto surdo da besta feroz.
Convoquei os carrascos para, perecendo, morder a coronha de seus fuzis. Convoquei os flagelos para me sufocar com a areia, com o sangue. A infelicidade foi meu deus. Deitei-me na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o HEDIONDO RISO DO IDIOTA.

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Em Proust o prazer, a dor, o sofrimento, a libertação e a loucura conectam-se ao amor e à paixão, aos prazeres do sexo, à necessidade da posse, às dores da perda.
Entramos na esfera de influência do “deus máscara” dos povos antigos: Dionísio para uns, para Baco para outros. Aquele que é, diferentemente de todos os outros deuses de todos os tempos e crenças, a quem as orações e sacrifícios jamais contentam; o deus que em sua relação com os homens não admite o “dar e receber”, a moeda de troca inexiste. Tampouco exige piedade ou gestos caridosos. Dionísio exige do homem o total arrebatamento, o deus apenas se satisfaz quando logra apossar-se de todo o ser humano. E nesta posse, delícias das delícias nos esperam: dela emanaram o êxtase e a ultrapassagem de todas as medidas; o deus capaz de conduzir-nos, os mortais, desde o mais profundo horror ao mais alto patamar da realização da alma humana.
O “deus-máscara”, como um avatar, metamorfoseia-se em humano e age como tal, utilizando a cada aparição uma de suas ”personnas” disponíveis; aquele deus que na verdade se assume como um homem divinizado, ou se quisermos, como um deus humanizado. Dionísio arrasta, àqueles que consentem na sua incorporação, à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como à loucura e à destruição. É quando nós nos assumirmo enquanto instinto, o que significa como natureza viva.
Mas esta supremacia dos instintos pode nos conduzir à loucura. As drogas em Proust constituem um passaporte para a alienação. Como um contraponto que torne possível a vida social.
Enquanto muitos cultivam tão somente seus “dionísios”, a sua libertação do espírito e dos instintos, mesmo dos mais recônditos, dos mais violentos e libertinos, que possibilitam a incontida de volúpia e crueldade, outros, tal qual os gregos, erguem no mesmo patamar de importância, a figura monumental e sóbria de Apolo.
Em Nietszche, “o sonho se opondo à embriaguês”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol, gerador da beleza, em um mundo que é onírico mas que pode ser o real, pois é formatado pelo essencial.
Foi o deus délfico, Apolo, quem “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente, Dionísio, as armas destruidoras, mediante uma reconciliação do consciente e do inconsciente, concluída no seu devido tempo”.
Pois enquanto o carro que conduz Dionísio está coberto de flores e grinaldas, conduzido pela pantera e pelo tigre, propiciando ao homem a liberdade, permitindo-lhe que “viva” e liberte seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”, surge com o seu caminhar alado, lado a lado, um outro carro, aquele do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao ritmo ditado por uma citera, o próprio portador da harmonia, da beleza onírica, da verdade, do poder do “logos”, com sua coroa de louros premonitória doada pelo amor por Dafne, natureza incorporada. E é fruto desta união, do conflito e da harmonização entre Dionísio e Apolo, entre o consciente e o inconsciente, da natureza e da consciência humana, que nasceu o melhor da arte grega, quiçá o melhor da arte de todos os tempos.
E o século XX, tão insensato quanto dionísico, e assim, utópico ao mesmo tempo que “niilista”, mas também libertário e opressivo, positivista, descobre toda a grandiosidade do irracional; brutal quando das trevas mas libertário quando surge o sol; este novo século, que já ao surgir herdou a velhice de toda humanidade, mas que no alvorecer produziu um de seus mais belos frutos literários: “Em Busca do Tempo Perdido”.

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7 maio 2017, por

Eu poetizo, 3.

PARAÍSOS PERDIDOS
Voltar a pensar,
Acreditar,
Sentir a esperança florir.
Acorda amorfa,
Ainda indefinida,
Sem nexo,
Esperança sem sentido
Uma forma de crer na vida,
Talvez no homem
O que significa voltar a crer em mim mesmo.
Uma forma de acreditar no vazio.
Pensar em passados distantes,
Tais quais paraísos perdidos,
Que de paraíso nada possuíam,
Perdidos no éter,
No nada.

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Um dos assuntos que Proust se dedica a explorar com profundidade são as diferentes facetas que o “eu” apresenta, a dissociação dos estados da alma, a independência dos elementos que compõem a vida interior, e, em decorrência disso, a multiplicidade da personalidade.
Para o autor, o homem é o ser que se dissipa e dissocia. Nada permanece estável e uniforme nem mesmo naquilo em que se toca. Tudo se move e decompõe incessantemente, resultando a precariedade da realidade: “O relativo para mim é o absoluto e quaisquer valores permanentes ou supremos perderam seus sentidos, quer se trate de valores sociais quer psicológicos.”
O que se chama experiência não passa da revelação a nossos próprios olhos, um traço de nosso caráter que reaparece naturalmente, e o faz com tanto mais força quanto o havíamos revelado a nós mesmos uma vez, de tal modo que mesmo um movimento espontâneo se encontra reforçado por todas as sugestões da lembrança.
“Marcel pondera que talvez nele, e em muitas outras pessoas, o segundo homem em que se tornara, o seu duplo, fosse simplesmente uma faceta do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si próprio, daquele Marcel ajuizado.” A dúvida é em qual deles Marcel desejaria se transformar? Ou não seria o caso de transformação e como a deusa das duas faces dos romanos, cada uma delas virada para o lado oposto à outra, ele apresentaria socialmente a que mais lhe agradasse a cada momento. Essa capacidade de multipliciadade transforma o homem em um ser sempre múltiplo, complexo e dificilmente acessível.
É importante assinalar que, diferentemente de Pirandello, tanto a multiplicidade quanto a dissociabilidade do eu mantém como paradigma a permanência de um elo, que Proust caracteriza como a matéria essencial de todo o ser. Ela permanece sendo a mesma e única até a morte, dando consistência àquelas diferentes facetas da personalidade. “Em muitos seres há diversas facetas que não se assemelham; conhece-se uma, depois a outra, mas no dia seguinte a ordem se inverteu, mas é e será sempre o mesmo ser, em sua essência.”
“Podemos nos entregar, à nossa escolha, a uma ou outra de duas forças: uma se ergue de nós mesmos, emana de nossas impressões profundas; a outra nos vem de fora. Acredito que trabalhamos a todo instante para dar uma forma à nossa vida, mas copiando, malgrado nosso, como um desenho, os traços da pessoa que somos e não daquela que nos agradaria ser.” Isso de certa forma desenvolve em nosso íntimo uma certeza de nossa incapacidade de nos transformarmos, como se perseguíssemos uma sombra sem jamais conseguir tocá-la.
O Tempo transforma nosso “eu”. O narrador utiliza como exemplo um livro que já lemos, uma música que ouvimos no passado, que se associaram tão fielmente ao que éramos então, que só podem ser sentidos e repensados pela pessoa que éramos naquele tempo. “Mas não nos afligimos de nos havernos tornado outro devido à passagem do tempo, mais do que nos afligiríamos, em certa época, por termos sido, alternativamente, indivíduos contraditórios. O malvado, o sensível, o delicado, o patife, o desinteressado, o ambicioso, como alternativamente o somos também todos os dias.”
“Alguns desejam apaixonadamente que haja uma outra vida, onde seriam iguais ao que idealizariam para si nesse mundo. Mas não é necessário esperar pela outra vida; nesta daqui mesmo, ao fim de alguns anos, tornamo-nos infiéis ao que fomos, ao que desejaríamos imortalmente permanecer. Ainda sem supor que a morte nos modifique mais do que essas mudanças que se dão no curso da vida, se nessa outra vida encontrássemos o eu que já fomos, desviar-nos-íamos de nós mesmos, como dessas pessoas com quem já não nos damos há tanto tempo. Sonha-se muito com o paraíso, ou antes, com inúmeros paraísos sucessivos, mas são todos, ainda antes que se morra, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria, por sua vez, perdido.”
As sucessivas “personnas” que terminamos sendo, entretanto, interagem e dependem da nossa vontade.“Vejo a vontade como uma serva perseverante e imutável de nossas personalidades sucessivas; ela oculta-se na sombra, mesmo que desdenhada, mas incansavelmente fiel, trabalhando sem cessar e sem preocupar-se com as variações de nosso eu, para que não lhe falte nada do que necessite. Tudo quanto tem de mutáveis a sensibilidade e a inteligência, tem-no ela firme; mas como é calada e não expõe seus motivos, quase parece que não existe, e as partes restantes do nosso eu obedecem às decisões da vontade sem dar por isso, ao passo que, por outro lado, percebem muito bem suas próprias incertezas.”
Mesmo a imagem que possuímos das pessoas está em nós mesmos e não naquela que se encontra em frente da gente. “Nossos leitores devem saber que descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real que subexiste sob o universo aparente, causa-nos tanta surpresa como visitar uma casa de boa aparência e encontrá-la cheia de tesouros, cadáveres e ferramentas; e não é menor a surpresa quando, em vez da imagem que havíamos formado de nós mesmos, graças ao que dizem da gente, certificamo-nos pelo que essas pessoas dizem quando estamos ausentes da imagem inteiramente diversa que guardam de nós e da nossa vida.”

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