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Mês:

novembro, 2012

“Entre- Grades”

Episódio 12 – “Reflexões de uma noite insone”

A greve de fome foi deflagrada por uma parcela ponderável dos presos políticos, tanto homens como  mulheres. Se as autoridades penitenciárias e militares receberam  aquela medida extrema como uma espécie de “ultimatum”, de afronta,  é porque o autoritarismo não admitia e não admite que o contestem, não pode conceber que o homem pode recusar-se a abrir mão de sua liberdade até mesmo sob as mais coercitiva das condições.

E assim o entenderam aqueles revoltados, que, no extremo, estavam dispostos a oferecer a própria vida em holocausto, para contrapor-se ao arbítrio que visava tratá-los “como terroristas”, incluindo-os no mesmo regime penitenciário que os presos comuns e dividindo-os pelos diferentes presídios, e, em decorrência, reduzindo a capacidade de resistência do conjunto.

Além do mais, quando as autoridades militares separavam os “recuperáveis” dos “irrecuperáveis”, esses temiam que, quem sabe, num futuro, o arbítrio buscasse “a solução final” a la Hitler. Deste modo, a greve de fome era um movimento de resistência e de ataque, que ocupou um importante papel nas denúncias contra a ditadura, trazendo a questão dos presos políticos, da tortura, dos assassinatos à pauta de diversas organizações humanitárias, da Igreja  e da imprensa internacional .

Uma das primeiras decisões tomadas pelas autoridades foi isolar do restante dos companheiros parcelas dos grevistas. Um grupo foi enviado para uma penitenciária estadual nos confins do Estado, outro para o DOPS e DOI-CODI, outro ainda para a Casa de Detenção e, finalmente, o grupo do qual fazia parte Alexandrino, para a Penitenciária do complexo do Carandiru. Lá, cada preso passou a ser mantido em isolamento físico absoluto, e o Estado fez tudo o que podia na tentativa de desmoralizar e de despersonalizar cada uma daquelas pessoas. Tudo era válido desde que a espinha dorsal da “revolta” fosse quebrada; que os presos, quer por ameaças, pressões e mesmo sob novas  torturas, quebrassem o compromisso coletivo de somente voltarem a se alimentar quando todos os companheiros, espalhados pelos diversos presídios fossem reunificados, e disso tivessem garantias.

As celas em que foram trancafiados eram individuais, aos presos nem mesmo banhos de sol eram concedidos, extinguiram-se as visitas de familiares e até mesmo de advogados, todo e qualquer livro, jornal  ou revista eram proibidos, os únicos sons audíveis eram transmitidos por péssimos auto-falantes e restritos à voz do Brasil e a partidas de futebol. Após as 22:00 hs reinava o mais absoluto silêncio, imposto pelo regime penitenciário.

Por algum motivo do qual Pedro não se recorda, fora dada permissão para que eles possuíssem lápis e folhas de papel na cela, e, graças a isso teremos o registro de parcela das reflexões que Alexandrino registrou e, de algum modo, chegaram até nossos dias. No episódio de hoje reportaremos alguns dos fragmentos escritos nas primeiras das muitas noites insones de Pedro Alexandrino.

“ Parece-me que o famoso deus grego, o Hypnos, foi exilado do nosso mundo; para nós, os dias e noites transformaram-se em tão longos…Para não ser visto pelos guardas que nos espionam através da fresta da porta de ferro, escrevo à noite, sentado no parapeito da ampla janela gradeada que dá para o pátio comum a todas as celas, à fraca luz que se esgueira fugitiva para dentro. No silêncio da noite, posso até mesmo sentir que as pessoas aqui confinadas  não mais navegam suavemente nos barcos escuros do sono, entremeados dos sonhos coloridos, esvoaçantes. Aqui a humanidade presa se consome na absoluta mediocridade do nada fazer; o destino, que penetra invisível por entre as frestas de cada cubículo, afugenta o sono, afugenta o esquecimento de cada leito. Ah, que sorte a nossa, pois se aqui estamos o foi por uma questão de inconformismo, de revolta, de busca por uma sociedade melhor, melhor para os próprios desgraçados que conosco convivem, para seus filhos e netos. Nós sabemos o porquê de estarmos aqui.  A decisão de nos mantermos em greve de fome é por nós assumida com todas as suas consequências”.

“Possuímos uma arma que, nos tempos de extrema dificuldade, aproxima os homens e é indestrutível: a solidariedade! Aqueles que são solidários sentem-se amparados, filhos de uma comunidade que os sustenta, nas decisões coletivas livremente assumidas! E que riqueza poder sentir-se assim liberto e sustentado! Estender nossa percepção para a aflição daqueles que possuem ainda menos que nós, os presos comuns, que não têm consciência social, aquela que gera a nossa fraternidade de iguais.”

“Estou só, falo comigo e com essas tiras de papel, mas não estou solitário. Ninguém fica a sós consigo mesmo quando consegue espreitar para fora de si. Nessa noite, estou desperto mas vigilante nessa casa de sofrimentos, onde os ferrolhos das portas e das grades não podem me impedir de sentir meus companheiros tão próximos e tão distantes. Nesse instante sinto o pulsar daqueles que, talvez também insones, estejam nas suas janelas vizinhas à minha; mas, maravilha das maravilhas, meu coração também bate em uníssono com o daqueles distantes, irmãos de luta e de fé que estão a centenas de quilômetros, em outros presídios, mas que mantêm ardente o mesmo ideal”.

“Com o silêncio absoluto deixo-me penetrar por um eco fundamental que preenche todo o universo, eco que reverbera em mim o pulsar de quantos que já morreram nas trincheiras da luta pela liberdade; ouço ao meu lado o ressoar das armas de quantos ainda batalham na luta. Tudo transforma-se em sensações, pouco raciocínio. E nesse meu sentir navegam milhares de sentimentos, ao ritmo alucinante do cavalgar ágil das Valquírias, sensações e pensares que se revestem de irmandade, de fraternidade, e são como fios invisíveis, etéreos, mais fortes que o aço, pois que compostos  de amor e cuidados, numa teia de sentimentos que percorre alguns metros, milhas e chega até os ínferos para entrelaçar a todos nós no essencial. Quanto amor eu sinto preencher essa noite insone, que perdeu sua tristeza e, prenhe de alegria transformou-se em beleza insólita…”

“ Um dia haverá uma nova ordem nesse nosso mundo, em nosso país tão injusto quanto belo, tão brutal quanto amigo, decadente mas com enorme força de sua juventude. Essa febre sem sono, essa falta de paz e tranquilidade, a esperança que agarra-se às últimas fímbrias de nossa resistência, não precisarão esperar para sempre. Embora os ditadores e seus acólitos tentem destruir toda a perspectiva de um mundo novo, destroçando os corpos e as almas dos homens que poderiam transformá-lo, tudo isso será insignificante perante a força da vida, que, no seu renascer, torna-se sempre ainda mais exuberante e bela. O que agora sentimos como medo, pois mesmo desafiando-os o fazemos com o medo entranhado na alma, será tranformação em direção ao sublime, ao amor e respeito ao próximo, base da fraternidade. Um dia, sem lamento e quase com saudades, pensaremos eu e meus companheiros nessas noites insones, gigantes, incomensuráveis, pois só quem sofreu a dor da doença mais cruenta pode reconhecer a doçura da felicidade da convalescença; somente aqueles, hoje insones, reconheceremos o imenso gozo do sono reconquistado.”

“Alguns dentre nós talvez não suportem a pressão do próprio organismo por alimento; outros, a pressão dos torturadores para que voltem a comer; ainda haverá aqueles que herdarão danos físicos irrecuperáveis e, finalmente, se não conseguirmos nossos objetivos, alguns talvez morrerão. Mas se, dentre todos, uns poucos lograrem sobreviver e num dia distante, ganharem as portas da liberdade, esses serão muito mais felizes e gratos à vida e a cada um daqueles com quem comungou nessa batalha. A memória dos nossos mortos, sacrificados nas lajes dos templos da luta, queridos e amados, torná-los-á pessoas ainda melhores, honestas, justas, sérias, construtoras de um novo amanhecer libertário, socialista e humanitário. Uma das melhores maneiras de apreciar o valor da vida, do sentir, do amar e de banhar-se no belo”.

Esses foram os trechos que chegaram até nós dos pensamentos daquele insone, um jovem idealista, talvez imaturo, um pouco romântico, mas,sem dúvida, um revoltado em seu tempo. Quem o poderá julgar?

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“Entre- Grades”

“Greve de fome e uma visita inesperada”

A noite do julgamento de Pedro Alexandrino foi longa, muito longa. Ele sabia que os gritos de “Pátria ou Morte”, eram uma espécie de dissonância, um grito de desafio que partira apenas de algumas gargantas dentre os presos que cantaram a “Internacional”. Acontece que, embora a repressão não o soubesse, parcela daquele grupo de condenados que deixava a Auditoria de Guerra  decidira entrar em greve de fome na madrugada seguinte e deles partira o desafio mais frontal.

O comboio chegou por volta das vinte e três horas  ao Presídio Tiradentes e cada sentenciado foi conduzido à sua cela.

Alexandrino faz questão que, como seu biógrafo, eu assinale que existe já excelente publicação a respeito dos motivos, do desenvolvimento e dos desdobramentos da greve de fome. A greve teve dois períodos de duração, sendo o primeiro de 6 dias, levado a cabo por 57 presos políticos e um segundo, por um grupo mais reduzido de 32 presos, que teve a duração de 33 dias, com um interregno de aproximadamente vinte dias. Esses presos realizaram uma greve de fome com objetivos políticos com duração de 39 dias, a de maior duração já realizada no Brasil.

Ateremo-nos extritamente às sensações, aos pensamentos e a estranhos fatos que se passaram com nosso biografado durante esse período de namoro com a morte, ou como Alexandrino prefere a ele se referir, como o de um “reatamento com a vida”.

Mas voltemos aquele fim de noite do dia 11. As celas do presídio eram coletivas e Alexandrino compartilhava a sua com pelo menos vinte companheiros, dos quais somente seis decidiram participar da greve de fome e, que, portanto, permaneciam despertos à hora da chegada do grupo que fora julgado naquela mesma noite. Aqueles que chegavam  queriam ter sua última “refeição” antes da batalha por vir. Alexandrino, por seu lado, contentou-se com um naco bastante grande de bacon, que seria sua exclusiva fonte de energia por um bom tempo. E deixou-se ficar lentamente comendo enquanto seus camaradas recolhiam-se para seus catres e o silêncio instalou-se na penumbra.

Foi quando aconteceu-lhe um fato inexplicável pela primeira vez. Um golpe de frio cortante, como se ele estivesse sentado em um ambiente aquecido e, de repente, alguém abrisse uma janela que deixasse entrar uma temperatura gélida do exterior. Mas o frio não vinha de suas costas que davam para as janelas gradeadas, senão que o atacava de frente. Alexandrino tira os olhos de seu naco de bacon e examina de alto a baixo a cela onde se instalara uma quietude absoluta. Vê que uma pessoa semelhante a um de seus companheiros de presídio, que não vivia em sua cela e que nem participaria da greve de fome, instalara-se ao pé de seu beliche.

– “Não me convida a comer de seu toicinho? Parece que está passando frio, por que não pega uma coberta?”, diz ele dirigindo-se a Alexandrino, que tremia dos pés à cabeça.

-“Antes de mais nada, queria saber como você saiu da sua cela e de que forma entrou aqui?”

-“Você não me parece muito contente em receber uma visita inesperada como a minha, não é? Mas eu vim aqui conversar sobre o nosso negócio que está em pleno andamento.” Alexandrino sentia que a cada vez que aquela criatura falava, um sopro gélido partia de sua boca, cortante, que o deixava desprotegido apesar do cobertor com que tentava se cobrir. E o visitante inusitado prosseguiu: “ Sei que você teve um dia atabalhoado, afinal, ser julgado e condenado a muitos anos de cana, não é menu que se coma todos os dias. E agora essa greve de fome que vocês inventaram…”

– “Devo estar febril, doente, por isso sinto tanto frio. Tive um dia pesado e estou entrando em uma greve em que posso até mesmo morrer. Você é fruto de minha imaginação, não existe e, quer saber de uma coisa? Vou me deitar e basta! Tome o resto do toicinho e bom proveito”.

– “Ora, oferecendo-me o pedaço do pobre porco você me reverencia, reconhece-me como um ser que não faz parte da sua imaginação. Você não está doente coisa alguma! Deixe de ser preconceituoso e aceite o testemunho dos seus sentidos. Você me vê, escuta, sente frio, pode até me tocar se quiser, mas não tente cheirar algum tipo de enxofre pois isso é coisa antiga, ultrapassada. Talvez eu até mesmo seja parte de você, mas eu existo, como pode comprovar. Quanto ao toicinho, agradeço-lhe, mas não me alimento de porco”.

– “Escute-me, vá embora para eu descansar um pouco, ou vou ter que lhe expulsar?”

-“Então você está reconhecendo a minha existência independente de você? Estamos realmente avançando! Mas vamos ao que motivou a minha visita. O que você espera com a greve de fome? ”

– “Ah, peguei-o! Você só veio aqui para tentar convencer-me a não participar da greve de fome, é isso? Perdeu seu tempo, a decisão está tomada. Trata-se de evitar que nos separem, que nos dividam, que retornem os companheiros que foram mandados para a Penitenciária do Estado, mas você sabe disso perfeitamente ou não estaria aqui.”

– “Eu não sei de nada disso. Dos quase duzentos presos políticos, quantos entrarão em greve? Você sabe, uns cincoenta, se tanto. E quantos a levarão até o final? Talvez metade? Isso não significa a divisão, da divisão, da divisão? E o que os milicos farão? Enviarão vocês por lotes e a cada divisão um lote, e a cada lote, um local. Facilitarão a separação entre os “recuperáveis”e os ïrrecuperáveis”. E antes que me xingue, estou usando a terminologia de seus inimigos, veja bem.

-“Eu já ouvi isso em tantos bilhetes e em tantas discussões… Você só está repetindo o que os outros disseram. Se nós não reagirmos, não conseguiremos barrar o avanço do facismo”.

– “Ah, então estamos melhorando…chegamos ao avanço do facismo. E o que mais? Não haveria um certo grau de dor de consciência nisso tudo? Tantos mortos nas organizações, tantos presos, quanta gente foi humilhada, torturada, que falou mais do que deveria…”

– “Você realmente é um ser repugnante, já não lhe suporto mais, mas não posso negar que possua alguma razão. Nós, os que partimos para a greve, ainda nos consideramos combatentes. Fomos presos, trucidados, humilhados mas não desanimamos da luta contra a ditadura”.

“Os outros a abandonaram, então?”

-“Quem é você para julgar? Você cada vez mais me parece um ser nojento, abjeto, provavelmente a pior parte de mim mesmo. Mas saiba que ninguém é obrigado a ter a mesma opinião de ninguém, a seguir o mesmo caminho político. Esse caminho nós, que entraremos em greve,  achamos que seja o da dignidade, de exigir os nossos direitos como presos políticos e de evitar que os militares nos aniquilem.”

-“Interessante modo de evitar a morte, ir ao encontro dela, não é mesmo? Pois eu vou dizer o que leva vocês até a greve de fome: as organizações de vocês, principalmente aquelas da luta armada, estão sendo destruídas. A greve é para que vocês não se sintam duplamente derrotados: estarem presos e não poderem lutar de fato e o aniquilamento de seus camaradas que acontece lá fora. Vocês desejam criar um fato político, é isto, não é? Conteste-me, agora!”

Nesse momento, Alexandrino já não suporta a presença do intruso e atira-lhe na face o pedaço de toicinho. Ao mesmo tempo, ouve que batem na cela anunciando o serviço do café da manhã. Ele levanta-se e comunica ao carcereiro o início da greve de fome. Quando nosso biografado retorna, já não encontra o seu visitante e vê que o pedaço de bacon, que começa a derreter, escorre a gordura por seus dedos. Continua em sua mão.

Agora é ajudar os companheiros a colocar toda a comida da cela para o corredor com o pedido para que seja encaminhada a instituições de caridade.

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Entre- Grades”

“Um julgamento de exceção ao som da Internacional Comunista”

A Ditadura Militar brasileira, desde seu princípio até os primeiros anos de 1970, aliava a truculência das prisões ilegais, sequestros, torturas, assassinatos nos porões, “autos de resistência seguidos de morte”   (tão comuns ainda nos dias democráticos de hoje), com procedimentos formais burlescos, mantendo a aparência de alguma jurisdicidade, dentro da denominada “Lei de Segurança Nacional”.

A memória da experiência vivida por Pedro Alexandrino será o fio condutor desse episódio dedicado à farsa com que a Ditadura revestia seus procedimentos “legais”, desde a elaboração dos inquéritos policial-militares, passando pelo papel mais que restrito dos advogados defensores, até os “Tribunais de Guerra”, que eram os condutores dos interrogatórios judiciais, dos julgamentos e sentenciamentos.

 A fase de inquérito- Alexandrino, assim como a maioria dos presos políticos, cumpriu a fase de instrução processual no DOPS, em total isolamento do meio exterior, sem permissão para receber visitas de familiares e sem poder constituir advogado. Levado ao terceiro andar do edifício, a apenas poucos metros do piso intermediário onde se localizava a sala de torturas, na presença do delegado Edsel Magnoti e de um escrivão de polícia, tivera “tomado” o seu depoimento, naquilo que se denominava “Cartório”. Vale a pena, pelo seu aspecto kafkiano, uma breve descrição do mesmo.

O delegado qualificava o preso com as perguntas de praxe. Após isso, tendo à sua frente os relatórios do Doi-Codi e os interrogatórios realizados no próprio DOPS,  reportava ao escrivão as circunstâncias das atividades políticas do “terrorista”, as organizações a que um dia se afiliara, seguidas pelas ações políticas em que ele se incriminara ou fora incriminado durante a fase do “pau”. Na sequência, iniciava a leitura de uma enorme listagem de outros réus que a Alexandrino se haviam referido durante os suplícios, citando-os quer como testemunhas, quer como co-partícipes. Posteriormente, enumerava como provas, os materiais constantes dos auto de apreensão encontrados na residência e com o mesmo.

Após mais ou menos uma hora, umas seis a oito páginas datilografadas pelo escrivão, Alexandrino, enfastiado, nada mais dissera e nem lhe fora perguntado, a não ser sua qualificação pessoal; ouviu, então, uma pergunta: “Algo mais a declarar?”. Alexandrino referiu-se a uma das ações armadas de que era acusado, dizendo não haver dela participado, e que, portanto, não poderia assinar o inquérito. Disse-lhe o bacharel: “Mas, meu filho, quer que eu o entregue novamente para o Milton Dias arrancar isso no pau-de-arara? Sei que ainda vai vir mais coisa que você não abriu. Porra! Você está fodido mesmo, aqui já vai uns quinze anos de prisão. Assine essa merda de uma vez e olha que estou sendo camarada, o Sávio ( que nesse momento passava pela sala) está louco para te dar uma “ralada””. “É pra descer o terrorista, doutor?”, peguntou o investigador de passagem.

Alexandrino resolveu, então, assinar os autos. O delegado Magnoti chamou  uma atendente e a moça que acabara de lhe servir um café: “Vocês assinam como testemunhas do depoimento!”

Uma semana depois do “cartório”, Alexandrino foi levado num camburão para o Presídio Tiradentes.

A constituição de um advogado- A constituição de um advogado já era possível. Admiráveis e corajosos, no entanto, pouco podiam fazer por seus clientes. Alexandrino lembra-se com emoção da coragem de um Virgílio e de um Idibal, da beleza e atenção de Rosa e da dedicação e competência de Eny, da seriedade e de um certo “legalismo” de Dias, de Simas, da jovialidade e permanente disposição de um Belisário, todos bravos combatentes pelo cumprimento “das leis de proteção aos animais”, de acordo com o saudoso Sobral Pinto. O pouco que lograram em relação aos direitos dos presos políticos e contra a farsa processual, fizeram-nos quase “in extremis”.

Alexandrino, no entanto, não teve a sorte de possuir algum deles como seu advogado. Sua família contratara um outro, sem consultá-lo. Em sua primeira entrevista ele insistira em que a melhor defesa perante um “tribunal de exceção” era o réu declarar arrependimento de suas ações. Acontece que nosso biografado não se sentia arrependido de coisa alguma; o que negava eram todas as “confissões” obtidas sob tortura, tanto as suas quanto a de seus companheiros. A relação defensor- réu, já em seu primeiro contato, estava condenada a não resistir ao interrogatório judicial.

O interrogatório judicial- Aproximadamente após um ano de prisão, Alexandrino foi conduzido com  outros doze indiciados para o primeiro interrogatório judicial. O aparato policial era totalmente fora de propósito e destinava a incutir-lhes novamente o medo. Todos os presos, algemados, foram esprimidos dentro de um veículo blindado de transporte de tropas, o “tatuzão”. Outros carros realizavam a escolta que, desde o presídio até a Auditoria de Guerra, produziam um ruído ensurdecedor de sirenes e buzinas. Na chegada, em meio a um corredor polonês formado pela tropa de choque, desciam para o porão do prédio e aguardavam a vez de serem interrogados.

Quando Alexandrino foi chamado a subir, deparou-se com um grande auditório, em cujo “palco” fora colocada uma mesa sobre um tablado. Nela tinham assento o juiz auditor, afamado facista e co-autor de acobertamento de assassinatos, Nelson Guimarães, e mais quatro oficiais das forças armadas, sendo que o de mais alta patente assumia a Presidência do Tribunal. 

No palco montado, estava também uma figura grotesca. Rosto redondo e raspado, cabelo emplastado de  glostora, sorriso cínico, olhos malvados por trás dos óculos redondos. Ao levantar-se para a leitura da peça acusatória, sua barriga redonda e um pouco proeminente fazia um contra-ponto huxleyliano perfeito com sua bunda, arredondada e igualmente balançante. Alexandrino aderiu imediatamente ao cognome dado por outros companheiros ao promotor militar Durval de Araújo, o “Bundinha”.

Após a leitura, antes mesmo do interrogatório, a figura patética do advogado de defesa de Alexandrino, declarou-se perante a Corte impossibilitado de prosseguir na defesa, ao que nem o Tribunal e nem o réu se opuseram. Ser-lhe-ia nomeado, a posteriori, um advogado “ex-officio”.

Mesmo na ausência de advogado, Alexandrino foi interrogado a respeito de suas convicções, afiliações políticas e as ações de que participara. Nosso biografado, como tantos companheiros, jamais renegou suas crenças socialistas, sua defesa da luta contra a ditadura e denunciou as torturas sofridas por eles e todos os co-réus.

Finalmente, o Promotor convocou suas testemunhas de acusação. Os pretensos policiais ou alcaguetes disseram que todos os fatos relatados na peça acusatória tinham sido confessados espontaneamente pelo réu e pelos co-réus durante o inquérito policial. Alexandrino jamais vira na vida aquelas figuras de comédia bufa, caso não se tratasse de uma tragédia. A seguir, o juiz auditor perguntou a Alexandrino se teria algo mais a declarar. “Sim, senhores, eu tenho. O que digo é que as posições entre nós estão invertidas, pois os senhores como militares golpitas é que deveriam estar sentados no banco dos réus, onde eu agora estou!”. A sessão de interrogatório finalizou-se com uma pancada na mesa e um grito dado pelo Presidente do Tribunal: “Comunista e sem vergonha!”

O julgamento- Alexandrino esperou inutilmente a visita do “advogado da auditoria”. Somente iria conhecê-lo quando do próprio julgamento, e ele não imaginava a surpresa que o destino lhe guardava.

Passaram-se mais de dois anos desde a sua prisão, quando a data do julgamento foi anunciada. Nesse  dia, pela manhã, a mesma parafernália de guerra foi montada para o transporte de aproximadamente vinte presos, todos arrolados no mesmo processo, desde o Tiradentes até a Auditoria de Guerra.  Ao descer do “tatuzão”, Alexandrino notou que o trânsito da avenida Brigadeiro Luís Antônio fora desviado e havia, ademais do choque da PM, a Polícia do Exército no patrulhamento ostensivo.

Dessa vez, ao invés de descerem para os porões, todos os presos tiveram as algemas retiradas e foram levados diretamente ao plenário, onde era permitido aos familiares acompanharem o julgamento. A maioria dos familiares presentes eram pessoas humildes, muitas das quais haviam viajado durante toda a noite, conduzidas pela  esperança de levarem seus filhos de volta para seus lares.

Até mesmo havia alguns repórteres, testemunhas necessárias da ópera bufa que iria se desenvolver.

Em determinado momento, um meirinho conduziu Pedro Alexandrino a uma pequena sala onde o aguardava o seu advogado “de ofício”. Era um senhor muito magro, de baixa estatura, bigodes num rosto que denotava retidão e firmeza. “Por favor, senhor Pedro Alexandrino, fique à vontade. Eu sou o doutor Hélio Bicudo, seu advogado de ofício, conheço os autos, seu interrogatório judicial e irei defendê-lo da melhor forma que puder”.

Sim, senhores, era o mesmo membro do Ministério Público, aquele herói brasileiro de tantas batalhas contra o Esquadrão da Morte comandado pelo facínora Fleury, que, por algum tempo, cumpria na Auditoria Militar, a função de advogado de ofício, como punição imposta pelo Estado. Pedro muito pouco ouvira falar a seu respeito, pouco sabendo sobre sua atuação destemida.

Iniciou-se o julgamento. O Promotor Durval “Bundinha” estava em grande estilo e o início de seu discurso foi contra o comunismo internacional, seus agentes internos e aqueles ditos “inocentes úteis”. Dizia: “Cabe ao Estado separar o joio do trigo, punindo exemplarmente os irrecuperáveis, aqueles que desejam destruir a família, a religião e a liberdade”. Falou sobre aqueles maus brasileiros que criticavam o regime e chegavam a difamar a imagem da “Revolução de 31 de Março”, que distribuiam no exterior denúncias mentirosas sobre uso da tortura em interrogatórios. Em determinado ponto, ao se referir aos que criticavam a exiguidade das provas apresentadas, externou a sua profissão de fé: “A confissão é a mãe de todas as provas”, um Torquemada tupiniquim.

Em seguida dedicou-se por volta de dez a quinze minutos sobre o processo de cada réu e terminou por pedir a absolvição de umas dez pessoas, a maioria já em liberdade e a condenação de quase todas as que se encontravam encarceradas. No caso de Pedro Alexandrino, a Promotoria pedira uma pena de 18 anos de reclusão.

A seguir, manifestaram-se os advogados de cada réu. O de Alexandrino, Dr. Hélio Bicudo, foi brilhante na sua defesa: afirmou que o réu mantinha suas crenças políticas, mas negava peremptoriamente todas as confissões obtidas sob tortura; também denunciava a ausência do contraditório em toda a fase inquisitorial e judicial, assim como a ausência de acareações e de provas nos autos de quaisquer ações armadas que lhe eram imputadas. Pedia a sua absolvição de todos os crimes, exceto o de pertencer à ALN.

O Tribunal do Júri, ao final das defesas apresentadas, entrou em recesso deliberativo e os familiares puderam confraternizar-se com os prisioneiros. Os pais e irmãs de Alexandrino estavam exultantes. Para eles, os juízes seguiriam a lei, enfim, o advogado de defesa fora brilhante e Pedro se fosse condenado apenas pela associação política poderia receber entre dois a três anos de reclusão, e talvez mesmo, já ser libertado. Não era fácil conter os ânimos de pessoas tão queridas e ainda prepará-las para o pior, para aquilo que sem dúvida aconteceria.

Por volta das 22:00 horas, os jurados retornaram ao auditório para a leitura das sentenças. Nesse momento a tropa de choque formou um cordão de isolamento entre prisioneiros, familiares e  repórteres. O juiz Nelson Machado principiou lendo as sentenças absolvitórias, de conformidade com o pedido do promotor, e, na sequência, as penas menores para as maiores. Uma sentença condenatória a dezesseis anos de reclusão foi proferida para Pedro Alexandrino.

Um silêncio de morte instalara-se na sala, que há poucos minutos era tão ruidosa. Alguns choros sufocados eram os únicos sons dissonantes. O arbítrio sentia-se triunfante e vencedor, os julgadores mal escondiam um esgar de escárneo pelo sofrimento que impingiam a tantos. Mas, inesperadamente, as primeiras estrofes de uma antiga canção libertária foi-se fazendo ouvir. Verdi, sem dúvida, orgulhar-se-ia de seu “Coro dos Escravos Hebreus” em sua comovida versão internacionalista, cantada pelos condenados. “De pé, ó vítimas da fome, de pé ó escravos sem pão, cantemos todos unidos, viva a Internacional!…”

Como num passe mágico, a atmosfera se transformou. Aqueles familiares vendo o ânimo de seus filhos, irmãos ou pais a desafiarem os ditadores entoando o Hino da Liberdade dos povos oprimidos, a “Internacional Comunista”, sentiam-se de certa forma vingados, também libertos tanto quanto os condenados que mantinham suas cabeças erguidas e sua fé no futuro.

Todos o juízes imediatamente abandonaram o recinto, mas não dão a ordem para reprimirem o canto. Afinal, a farsa poderia terminar ainda pior que o planejado. Ao final do hino, a tropa de choque empurra vigorosamente os presos para a porta de saída e nesse instante, quando todos pensam que passara o “gran finale” mais de dez gargantas ecoam o seu grito de guerra: “Pátria ou Morte, Venceremos!”

Já no “tatuzão”, o oficial do choque olha para Alexandrino e lhe diz: “Vocês são uns terroristas filhos de uma puta, mas que têm coragem, isso têm”.

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“Entre- Grades”

“Quando a alma dilacerada não mais encontra um motivo para viver”

Alexandrino conhecera aquele militante ainda em liberdade, dentro da organização revolucionária a que ambos pertenciam. De estatura baixa mas de compleição atlética, tinha um sotaque nordestino que denotava facilmente sua origem cearense. Um bigode vistoso que encimava o lábio fino, o que lhe conferia um quê de seriedade e disciplina, e ele as levava extremamente a sério.

Alprim tinha uma origem humilde, veio para São Paulo só, quando ainda adolescente, aos quatorze anos de idade. Trabalhou duro como operário, na luta pela subsistência. Mais tarde, casou-se, teve dois filhos e passou a viver numa modesta mas dígna residência na zona sul de São Paulo. Muito cedo filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, tendo-o deixado juntamente com os companheiros da Dissidência Comunista de São Paulo, que logo a seguir transformou-se na Aliança Libertadora Nacional, buscando na luta armada uma alternativa revolucionária. Na intimidade sempre soltou o riso largo, a ternura e o orgulho de pertencer ao “proletariado”.

Em tantos compromissos realizados juntos, Alexandrino, tornando-se também um porta voz de outros companheiros, recorda-se de jamais ter ocorrido um atraso em ponto de encontro com aquele militante, falha alguma em sua militância, qualquer tipo de tarefa que lhe fora proposta e que ele não cumprira. Apesar de não fazer parte do GTA, grupo tático voltado às ações armadas, participara de uma ou duas ações, dentre elas a expropriação de dinamite da Rochester, segundo ele, “para fortalecer seu espírito revolucionário”.

Em um de seus encontros com Alprim, um detalhe chamou a atenção de Pedro Alexandrino. Mister X, pois esse era o seu “nome de guerra” na organização, possuía unhas nos dedos das mãos pouco aparadas, apesar de tratadas. A unha do dedo mindinho, em seu tamanho, chamava atenção. Pensou Alexandrino com seus botões: “Deve ser tocador de viola”. Muito tempo depois, já na prisão, ele soube que Mister X era um exímio músico, daquela estirpe dos poucos privilegiados pela natureza, como o nosso Patápio Silva. Músico da melhor qualidade, quase um auto-didata, tocava ao violão clássico Radamés, Mignone, Flausino, Garoto. Também gostava e dedilhava com perfeição música popular brasileira.

Mister X foi preso em fins de 1969 ou nos primeiros dias de 1970, devido às informações de outro companheiro que não suportara a tortura. Quando preso, dado seu porte atlético, desconheceu os torturadores, chegou mesmo a desafiá-los a que o fizessem falar. Foi, então, barbaramente torturado dias após dias, noites após noites na famigerada Operação Bandeirantes. Os policiais, ao final, conseguiram quebrar sua resistência. Ele forneceu-lhes o endereço de um operário que participava do seu grupo e era seu velho conhecido de lutas nas fábricas.

Esse operário não se encontrava em casa quando o aparato policial chegou trazendo  Alprim. Relatou a Alexandrino, tempos depois: “Estava a minha mãe em casa, e os policiais para amendrontarem-na  trouxeram Alprim arrastado, pois não conseguia se manter em pé. Semi nu, seu corpo era uma chaga só, todo arrebentado, e coberto de sangue. Jogaram-no aos pés de minha mãe dizendo que assim eu iria ficar quando me pegassem. Ameaçaram-na e foram embora levando-o de volta, enquanto prosseguiam com o espancamento”.

Alprim, quando em liberdade, havia sido encarregado de abrigar um companheiro, jornalista, vindo do Rio de Janeiro, já identificado pela repressão. Ele era muito procurado. Alprin, oito dias após sua prisão não mais resistiu e terminou por indicar aos torturadores a localização do abrigo. Quando a polícia chegou ao local, o jornalista acabou baleado e preso ao tentar fugir, saltando um muro da residência.

É importante também consignar-se que Alprim possuía muitas referências de todos os movimentos e organizações de que participou. Se ele tivesse fornecido mais informações para a repressão, seguramente o prejuízo teria sido muito maior tanto para os operários organizados como para a esquerda armada.

Após passar pela OBAN, foi transferido para o DOPS e as equipes dos delegados  Fleury, Milton Dias e Cuoco retomaram as torturas. Ser operário, por si só, estimulava ainda mais o ódio dos algozes.

Um mês depois foi transferido para o presídio Tiradentes. Lá, aparentemente refeito, conviveu na mesma cela que Alexandrino. Adaptou-se à rotina da cadeia: estudava português e matemática, debatia política, lia e trabalhava com os companheiros de cela em artesanato, auxiliando a manutenção da própria família.

Foi libertado ao final de dois anos e meio, sendo amparado pela família que jamais o abandonou. Trabalhava com produtos químicos que manipulava e vendia para o sustento do lar. 

Mas Alprim já não era mais a mesma pessoa; seu sorriso aberto desaparecera, seu violão estava mudo. Perseguiam-lhe os pesadelos, em que sempre estavam presentes as figuras de seu martírio: os companheiros que ele abrira sob tortura. Quando acordado, sobrevinham delírios, sentia-se perseguido, desconfiava de todos os que o cercavam, acreditava que algozes que haviam ferido de morte sua alma nobre, ainda o buscavam . Alprim não voltou a encontrava paz.

Um dia, com os mesmos fios que teceram a corda com que Frei Tito Alencar se enforcou, Alprim preparou uma poção de veneno e suicidou-se. Com sua destruição e morte a ditadura vencera mais uma vez, pois ferira de morte a auto-estima e dilacerara uma alma, o ódio suplantara a solidariedade humana. Alprim foi enterrado num cemitério simples, cemitério  reservado aos pobres, num caixão básico, desses fornecidos pelo Serviço Público Municipal; ademais dos familiares, um ou outro de seus ex-companheiros de militância estiveram presentes.  Sem discursos, sem homenagens, sem memoriais.

Alexandrino dedica-lhe uma poesia de Oscar Wilde,  escrito nos subterrâneos de uma prisão da Inglaterra vitoriana : “Lágrimas na pétala de uma rosa”, que eu tenho a honra de transcrever:

“A sociedade, tal como a constituímos, não terá mais lugar para mim, nem me oferecerá nenhum. Mas a Natureza, cujas chuvas tão doces caem tanto sobre os justos quanto sobre os injustos, terá nas rochas algum esconderijo onde possa me ocultar, e me oferecerá vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem que me perturbem. Ela fará resplandecer as estrelas na escuridão para que eu não tropece nas trevas; fará soprar o vento sobre o rastro de meus passos, para que ninguém me persiga na morte; lavar-me-á com suas abundantes águas, e curar-me-á com suas ervas amargas.” (De Profundis).

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“Entre- Grades”
 A tortura: torturados e torturadores (terceira parte)

“O comportamento sob tortura”

Como biógrafo de Pedro Alexandrino devo confessar a grande dificuldade que tivemos para conversar sobre o presente episódio. Isso porque a compreensão de como os revolucionários, seus simpatizantes ou pessoas que se opunham à ditadura comportaram-se, quando submetidos à tortura é complexa, multifatorial  e admite diferentes interpretações, necessitando ser analisada com ponderação, mesmo após todo o bálsamo trazido pelo tempo transcorrido.

Alexandrino insiste em dizer que  os casos de agentes da repressão que se infiltravam com o objetivo de delatar e conduzir os militantes revolucionários à tortura e à morte foram pontuais.  Houve Malavasis, possivelmente Cabos Anselmos ( teria sido ele, desde o princípio, um infiltrado? ou fora, posteriormente, transformado em um “cachorro” e emplacado no canil do facínora Fleury?) mas, com exceção desse último, o desbaratamento das organizações e a prisão ou morte da grande maioria da militância de esquerda não proveio de agentes ou de “infiltrações da CIA”, reais ou fantasiosas.

Outras foram as causas, dentre elas, uma das  mais fortes, a falta de prepraração real para o enfrentamento da esquerda com o peso da organização armada do Estado.  A maior parte dos militantes possuia uma formação essencialmente política, na acepção mais estrita do próprio termo“polis”: cidade, cidadão, relações pessoais, relações estudantis ou profissionais, conhecimentos mútuos, amizades, liberalismo pessoal. Seu contraponto, a formação militar, era restrita a uma minoria de combatentes. Entenda-se por formação militar não apenas o treinamento no uso de armas e de combate, mas também o senso da disciplina, do saber obedecer e ser obedecido, do culto rígido a regras de segurança, da percepção do que seja “inteligência militar”.

Ao liberalismo aliou-se a fraqueza humana dos combatentes, e mesmo a tenra idade de boa parcela dos mesmos, que, uma vez presos com vida, quando esmagados pela máquina do Estado voltada para a tortura, forneciam informações que levavam a novas prisões e quedas nas organizações. É necessário que se consigne que nem todos os presos políticos eram submetidos à mesma intensidade de tortura, aos mesmos métodos. O período de tempo, a frequência com que o revolucionário era torturado, muitas vezes, tornava-se o fator decisivo de sua desestruturação, de sua perda de crença no ideal que pautara a sua ação, mesmo que essa perda tenha sido passageira. Muitos elementos interferiam nesse processo: qual a quantidade e de que qualidade eram as informações que a repressão possuía quando de sua prisão; o material que havia sido apreendido com o próprio; a sua resistência ou não à prisão; o fato de outras pessoas, envolvidas no mesmo processo estarem ao mesmo tempo sob interrogatório, com as decorrentes contradições nas “histórias contadas” e que demandavam mais e mais suplícios.

Já a resistência à tortura é sempre algo imprevisível e  extremamente individual. De todas as formas, uns resistiam mais e outros menos a ela.  Alexandrino diz que existiam, sem dúvida, naturezas mais fortes, determinadas, capazes de suportar um tempo maior de martírio. O fator que na época dizia-se ser o divisor de águas, “a firmeza ideológica”, inseria-se muito nessas personalidades de per si mais fortes, talvez mais preparadas para o ferro duro do pau-de-arara, sem que em sua alma se apagasse a luz condutora da “crença numa vitória final”.

Nosso biografato também nos revelou com toda franqueza: “Os companheiros com grande envolvimento em ações armadas ou com extensa atividade e liderança política conhecidas pelos repressores, quando pegos com vida, e barbaramente torturados por tempo prolongado, e que não forneceram qualquer tipo relevante de  informação ao inimigo, constituem heroicos e luminares exemplos, dignos de um Mário  Alves. Somente a morte mais ou menos rápida, sob a tortura mais insana, protegeu, como uma “bênção”, grandes corações e mentes”.

Por outro lado, a transformação de um torturado em um colaborador da repressão ocorria em um processo crescente de fragilização perante a dor, de desestruturação total de uma personalidade, em que o massacre físico e psicológico conseguia destruir o homem livre, transfigurando-o num escravo.

A “mudança de lado” de alguém que traiu a causa que um dia abraçara, assim como  os companheiros com quem lutara, para ser considerada como tal, precisa ter ocorrido de forma voluntária e consciente. Lá pelos idos de 1970, quando as organizações da esquerda armada já haviam sofrido enormes baixas, alguns militantes presos sob o medo da morte ou da dor, ou de ambas, sofreram essa degradação total, traíram a tudo e a todos, e passaram a cooperar com os órgãos repressivos, sendo pelos próprios agentes denomidados de “seus cachorros”. O “coronel Ney”, do Doi-Codi, chegava a gabar-se da capacidade de “faro” de seu “canil”. Esses bastardos  ganhavam a liberdade para voltarem a estabelecer contatos com as organizações  às quais haviam pertencido.

E sempre que um “cachorro” mordia algum revolucionário esse estava inevitavelmente condenado à morte, normalmente sob tortura. É por esse motivo que poucos desses “transformers” tornaram-se conhecidos; passados já quarenta anos, em sua maioria, suas identidades ainda permanecem na obscuridade. A  prisão e morte de Câmara Ferreira deve-se ao “faro de um cachorro traidor”, que fora preso no Estado do Pará.  Ao “mudar de lado” a repressão passou à imprensa nota reportando sua “fuga” da prisão, em pura simulação e o “cão” veio para São Paulo, rodou, rodou, até identificar Câmara numa  rua e, então, agendou com ele um novo encontro, quando daria a “mordida da morte”. O “liberalismo ” e a dificuldade em crer que aquele companheiro que estivera em Cuba, sempre elogiado pela dedicação à causa, pudesse ter-se transformado em traidor, impediu o comandante de precaver-se, ainda que alertado sobre a possível armadilha por outros companheiros, e foi ao encontro da própria morte.

Mas essa já é uma outra história.

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